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Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais Ciências, Ciências Naturais e Educação Ambiental Produção: Gerência de Desenho Educacional - NEAD Desenvolvimento do material: Andressa Ribeiro de Queiroz 1ª Edição Copyright © 2022, Unigranrio Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, da Unigranrio. Núcleo de Educação a Distância www.unigranrio.com.br Rua Prof. José de Souza Herdy, 1.160 25 de Agosto – Duque de Caxias - RJ Reitor Arody Cordeiro Herdy Pró-Reitoria de Programas de Pós-Graduação Nara Pires Pró-Reitoria de Programas de Graduação Lívia Maria Figueiredo Lacerda Pró-Reitoria Administrativa e Comunitária Carlos de Oliveira Varella Núcleo de Educação a Distância (NEAD) Lúcia Inês Kronemberger Andrade Sumário Ciências, Ciências Naturais e Educação Ambiental Para início de conversa... ................................................................................ 4 Objetivos ......................................................................................................... 4 1. Conceituando Ciências ............................................................................. 5 2. Conceituando Ciências Naturais ........................................................... 7 3. A Importância da Interdisciplinaridade e da Educação Ambiental ............................................................................. 10 4. Educação Ambiental e a Sociedade do Futuro ................................... 16 Referências ......................................................................................................... 18 Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 3 Para início de conversa... Entender as ciências naturais requer o entendimento dos métodos científicos, historicamente concebidos e detalhados por importantes filósofos e pensadores como Aristóteles, Sócrates, Platão, Bacon entre outros. A consolidação dos métodos indutivo, dedutivo e hipotético- dedutivo foram determinantes na estruturação do que entendemos de ciência na atualidade. Dentro desse arcabouço científico, encontramos importantes definições de paradigmas, leis, teorias e doutrinas e os tipos de conhecimentos empírico, religioso, filosófico e científico, a saber, ciência como aquisição sistemática do conhecimento contempla todas as áreas, mas em nossa disciplina focamos nas ciências naturais que contempla as disciplinas ligadas ao entendimento de características, comportamentos, leis e regras dos seres vivos e da natureza. Nesse contexto, estudar as formas de tratar desses assuntos na educação básica é de suma importância para a construção do ser social, ou seja do cidadão em sociedade. Estudar as ciências naturais ainda se torna mais relevante diante do contexto de mudanças ecológicas e climáticas que vem transformando o cotidiano das sociedades, assim a educação ambiental se torna um alicerce ao professor que irá tratar dos assuntos relacionados ao meio ambiente no contexto escolar. Ficou curioso sobre a temática deste capítulo? Agora, vamos detalhar cada um desses temas! Objetivos ▪ Analisar conceitos das ciências, ciências naturais e educação ambiental e suas relações. ▪ Reconhecer os desafios para a educação ambiental na sociedade atual. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 4 Procura explicações sistemáticas para os fatos provenientes de observações e de experimentos. Necessita que a interpretação dos fatos seja confirmada, aceita por outros cientistas. É um processo social.Ciência 1. Conceituando Ciências Vamos falar sobre a importância da ciência para as sociedades e como ela é um elemento essencial no planejamento de uma estratégia educacional interdisciplinar e inovadora. Para tanto, é preciso entender o significado de ciência, já que as propostas de educação científica podem se tornar mais significativas à medida que aproximamos o ensino e a aprendizagem do fazer científico cotidiano. Pode-se dizer que, antes do século XVII, a construção de ciência era feita de forma espaçada e construída, partindo de uma observação. A partir dos ideais Sócrates e Platão, Francis Bacon e outros filósofos, como Locke, Berkekey, Hume e Stuart Mill, com base na observação mais detalhada dos fenômenos, da realização de experimentos e da estruturação dos materiais em uma ordem cronológica, consolidou-se uma concepção científica baseada nas primeiras formas de estruturação da ciência. À sua maneira, a ciência foi denominada empírica e partia de um entendimento com base na indução. “Nessa perspectiva, o conhecimento encontra-se fora de nós, é exterior e deve ser buscado sem influência de ideias preconcebidas. Nessa concepção, o papel do cientista seria extrair da natureza os conhecimentos que ali já estão previamente definidos. A ciência empírica, no entanto, recebeu várias críticas por não permitir que o cientista tivesse ideias prévias sobre o que se estuda, portanto, não poderia criar, inovar. Outro detalhe era que não considerava o cientista como parte de um contexto social, cultural e histórico. Figura 1: Conceituando ciências. Fonte: Dreamstime. 5Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais Após as críticas, uma concepção da Antiguidade volta ao contexto científico: método dedutivo. Tal método é influenciado pelas contribuições do filósofo grego Aristóteles, criador do sistema de pensamento conhecido como lógica aristotélica, que utiliza o silogismo para chegar às conclusões. Outra importante concepção, amplamente conhecida e criada por Karl Popper foi o Método Hipotético-Dedutivo, considerado lógico, por excelência, ao preconizar o levantamento de conclusões plausíveis com base em hipóteses que podem ser refutáveis e na experimentação. Esse método consiste em um teste de hipóteses composto de observação, experimentação, consistência e lógica interna, por esse motivo é, bastante utilizado nas ciências naturais. O termo “ciência”, conhecido atualmente como Ciência Clássica ou Moderna, “a partir da segunda metade do século XIX, notadamente com a sistematização do método experimental por Claude-Bernard, (1865)” (JAPIASSU, 2006, p. 44-45). Trata-se de uma era na qual a produção do conhecimento deve ser, por força do “método científico”, caracteristicamente positivista e experimental. Vejamos: ▪ O método indutivo: Forma de raciocínio que parte da observação. Somente a partir de uma análise, é possível desenvolver uma teoria, na qual são apresentadas premissas com o intuito de chegar a conclusões que podem ou não ser verdadeiras. ▪ O método dedutivo: Estrutura de pensamento lógico que permite testar a validade de informações já existentes (SENA, 2020). ▪ O método hipotético: Dedutivo, trata-se de uma modalidade de método científico que se inicia com um problema ou uma lacuna no conhecimento científico, passando pela formulação de hipóteses e por um processo de inferência dedutiva, o qual testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela referida hipótese (PRODANOV; FREITAS, 2013). Figura 3: Os métodos de estudo da ciência. Fonte: Dreamstime. Figura 2: Aprendendo sobre ciências. Fonte: Dreamstime. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 6 Você deve estar se perguntando: Estamos falando de métodos científicos, mas, para que eles existem? Esses métodos diferentes existem para que um pesquisador encontre as respostas para os problemas existentes no cotidiano. Já imaginou como era antes de existir a energia elétrica? Muitos pensadores passaram anos testando várias possibilidades para poder desenvolver as primeiras lamparinas, depois as lâmpadas, mas não pararam por aí, até hoje, vários pesquisadores continuam testando, prototipando, elaborando, inovando e descartando ideias para poder evoluir nesse aspecto. Essaideia é ampliada para todas as áreas do conhecimento e é com base na pesquisa que a humanidade se desenvolve. E não vamos parar por aqui não é? Você também pode ser um pesquisador e estimular seus futuros alunos a serem seres pensantes e pesquisadores. Veja alguns exemplos da evolução das ciências segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997, p. 23): ‘‘ Na história das Ciências, são notáveis as transformações na compreensão dos diferentes fenômenos da natureza, especialmente a partir do século XVI, quando começam a surgir os paradigmas da Ciência moderna. Esse processo tem início na Astronomia, por meio dos trabalhos de Copérnico, Kepler e Galileu (séculos XVI e XVII), que, de posse de dados mais precisos obtidos pelo aperfeiçoamento das técnicas, reinterpretam as observações celestes e propõem o modelo heliocêntrico, que desloca definitivamente a Terra do centro do Universo. A Mecânica foi formulada por Newton (século XVII) a partir das informações acumuladas pelos trabalhos de outros pensadores, notadamente de Galileu e Kepler. Reinterpreta-as com o auxílio de um modelo matemático que esquematizou, estabelecendo um paradigma rigoroso e hegemônico até o século passado. Na Química, a teoria da combustão pelo oxigênio, formulada por Lavoisier (século XVIII), teve importante papel na solução dos debates da época e é considerada, segundo muitos filósofos e historiadores, a pedra angular da Revolução Química. ’’ 2. Conceituando Ciências Naturais Já falamos sobre a ciência, que é um conceito mais amplo, englobando todas as áreas do conhecimento que foram estudadas, descritas e publicadas e hoje, são entendidas como conceitos relevantes para a sociedade. Agora, vamos focar nosso estudo em entender as ciências naturais. Contemplam as ciências naturais todas as matérias científicas que estudam leis, regras, características gerais e, fundamentais da natureza, como o comportamento das espécies animais e vegetais, assim, as áreas do conhecimento, incluindo, a biologia, geologia, medicina, física e química são contempladas nesse contexto. Tais áreas utilizam, Figura 4: A invenção da lâmpada elétrica. Fonte: Dreamstime. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 7 essencialmente, a experimentação e a método hipotético-dedutivo para gerar novo conhecimento. Vamos fazer uma breve retrospectiva? No Brasil, o ensino de ciências era ministrado nas duas últimas séries do antigo curso ginasial em razão da versão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1961. Mas, a partir da Lei 5.692/1971, essa disciplina passou a ser obrigatória nas nove séries ginasiais, hoje denominadas Ensino Fundamental. O ensino de ciências passou por uma evolução histórica, que apontou para a influência de diferentes transformações. Você vai perceber essa mudança ao comparar a “ciência” que aprendeu na sua época de escola com a ciência que irá ensinar no futuro. A formação dos professores, os recursos didáticos, e as metodologias investigativas são alguns dos processos que estão em constante modificação, exigindo, para tanto, a contínua aprendizagem dos professores. Figura 5: As metodologias investigativas. Fonte: Dreamstime. E hoje, qual a tendência do ensino de ciências? Especialmente, a partir dos anos 1980, o tripé “Ciência, Tecnologia, Sociedade” passou a ser mais interconectado ao ensino de Ciências. Outro aspecto relevante foi a construção do conhecimento científico ser delegada para o aluno, ou seja, “a aprendizagem provém do envolvimento ativo do aluno com a construção do conhecimento e as idéias prévias dos alunos têm papel fundamental no processo de aprendizagem, que só é possível embasada naquilo que ele já sabe.” (PCNs, 1997 n.p) Mas, afinal, por que ensinar ciências naturais? Segundo os PCNs (1997, p. 22), ensinar ciências é para ‘‘ Mostrar a Ciência como um conhecimento que colabora para a compreensão do mundo e suas transformações, para reconhecer o homem como parte do universo e como indivíduo, é a meta que se propõe para o ensino da área na escola fundamental. A apropriação de seus conceitos e procedimentos pode contribuir para o questionamento do que se vê e ouve, para a ampliação das explicações acerca dos fenômenos da natureza, para a compreensão e valoração dos modos de intervir na natureza e de utilizar seus recursos, para a compreensão dos recursos tecnológicos que realizam essas mediações, para a reflexão sobre questões éticas implícitas nas relações entre Ciência, Sociedade e Tecnologia. ’’ Dentre as temáticas que precisam ser desenvolvidas no ensino de Ciências Naturais, estão: 1. As diferentes explicações sobre o mundo. 2. Os fenômenos da natureza. 3. As transformações produzidas pelo homem. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 8 A aula de ciências naturais deve ser um espaço de expressão das explicações espontâneas dos alunos e daquelas oriundas de vários sistemas explicativos. O professor, deve contrapor e avaliar as diferentes explicações dos alunos sobre determinados fenômenos descritos em sala no sentido de favorecer o desenvolvimento de postura reflexiva, crítica, questionadora e investigativa, de não aceitação a priori de ideias e informações. Os PCNs (1997, p. 31) detalham que o ensino de ciências naturais deverá se organizar de forma que, ao final do Ensino Fundamental, os alunos tenham as seguintes capacidades: • Compreender a natureza como um todo dinâmico, sendo o ser humano parte integrante e agente de transformações do mundo em que vive. • Identificar relações entre conhecimento científico, produção de tecnologia e condições de vida, no mundo de hoje e em sua evolução histórica. • Formular questões, diagnosticar e propor soluções para problemas reais a partir de elementos das Ciências Naturais, colocando em prática conceitos, procedimentos e atitudes desenvolvidos no aprendizado escolar. • Saber utilizar conceitos científicos básicos, associados à energia, matéria, transformação, espaço, tempo, sistema, equilíbrio e vida. • Saber combinar leituras, observações, experimentações, registros etc., para coleta, organização, comunicação e discussão de fatos e informações. • Valorizar o trabalho em grupo, sendo capaz de ação crítica e cooperativa para a construção coletiva do conhecimento. • Compreender a saúde como bem individual e comum que deve ser promovido pela ação coletiva. • Compreender a tecnologia como meio para suprir necessidades humanas, distinguindo usos corretos e necessários daqueles prejudiciais ao equilíbrio da natureza e ao homem. Agora, um detalhe importante, percebeu que nos objetivos supracitados não são contempladas as especificidades regionais? Como os PCNs são um compilado de documentos nacionais, as características regionais não foram incluídas, assim, cabe ao professor, em seu planejamento pedagógico adaptá-los às características de sua região. Ciências naturais não envolve só falar das características da natureza, mas também de falar da degradação ambiental e posicionamento político e social de cada cidadão, assim, conforme Krasilchick e Marandino (2004), os cidadãos devem estar preparados para se posicionar politicamente e participar ativamente munidos de conhecimentos aprendidos na escola ou em outros espaços culturais e coerentes com os valores pessoais e sua cultura. Partindo-se dessa reflexão, vamos abordar a interdisciplinaridade e a educação ambiental como processos fundamentais da construção de cidadãos ativos socialmente. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 9 3. A Importância da Interdisciplinaridade e da Educação Ambiental Neste tópico, falaremos sobre um conceito que, cada vez mais, está sendo adotado no ambiente escolar: a interdisciplinaridade. Ela contempla a integração entre duas ou mais disciplinas ou áreas do conhecimento para um fim comum. Segundo Philliphi Júnior et al., (2017, n.p), a interdisciplinaridade “ajuda a restabelecer uma visão mais amplae integradora do conhecimento e dos objetos do conhecimento”. Figura 6: A importância da interdisciplinaridade e da educação ambiental. Fonte: Dreamstime. Nicolescu (1999, p. 53) afirma que, no estágio atual do conhecimento, a interdisciplinaridade apresenta-se ao lado da disciplinaridade, da pluri e da transdisciplinaridade, como uma das “4 flechas de um único e mesmo arco, o arco do conhecimento”. Carvalho (1998, n.p) define interdisciplinaridade como: (...) uma maneira de organizar e produzir conhecimento, buscando integrar as diferentes dimensões dos fenômenos estudados. Com isso, pretende-se superar uma visão especializada e fragmentada do conhecimento em direção à compreensão da complexidade e da interdependência dos fenômenos da natureza e da vida. Por isso é que podemos também nos referir à interdisciplinaridade como postura, como nova atitude diante do ato de conhecer. Mas aí vem a questão: Qual é o papel do professor de Ciências em relação ao trabalho com temas interdisciplinares? Trabalhos escolares interdisciplinares, além de buscarem resolver problemas cotidianos dos simples aos mais complexos, são oportunidades de estabelecer relações entre as disciplinas, tanto na complexidade como nas conexões entre fenômenos. Existem múltiplas formas de tornar o dia a dia escolar mais interessante e motivador com o uso de projetos interdisciplinares. Em especial, nas séries iniciais, o professor, atuando de forma polivalente, pode interconectar disciplinas, como matemática e artes, geografia e ciências, geografia e história. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 10 Figura 7: Ação do professor usando a interdisciplinaridade no estudo de ciências. Fonte: Dreamstime. As primeiras discussões sobre interdisciplinaridade surgiram no Brasil, no final da década de 1960, decorrentes da necessidade de se trabalhar as questões emergentes surgidas na sociedade da época, como industrialização, questões ambientais, inovações científicas entre outros. Em um ambiente de intensificação da produção e difusão dos conhecimentos científicos, bem como de mudanças nos processos educacionais em geral. A interdisciplinaridade permeia um ambiente que induz a um pensamento sistêmico e holístico da manifestação dos fenômenos, sejam eles da ordem das Ciências ou da educação em geral. Em um contexto de divisão da ciência em múltiplas especialidades, Japiassu (1976) afirmava que essa situação provoca um “estado patológico” do conhecimento, caracterizado pela hermeticidade e excessiva especialização e a “ilusão” de que o que estuda na ciência é vista de forma desconectada, segmentada. A ideia da interdisciplinaridade é justamente o contrário, é conectar, é fazer sentido, é gerar pontes de conhecimento. Para não confundir, entenda três conceitos muitos próximos à interdisciplinaridade: a multidisciplinaridade, transdisciplinaridade e a pluridisciplinaridade. A multidisciplinaridade designa um trabalho em que as disciplinas se apresentam de forma justaposta, sem necessariamente envolver-se de modo coordenado em um trabalho de equipe entre as várias disciplinas. Estas se desenvolvem de forma isolada sem que haja qualquer tipo de articulação entre si. Já o termo pluridisciplinaridade trata de um nível de pouca ou quase nenhuma colaboração disciplinar. Ele se caracteriza pela justaposição de diversas disciplinas. Nesse caso, as disciplinas que fornecem informações atuam como colaboradoras uma da outra, sem que haja inter-relação mútua, estabelecendo uma dependência ou subordinação. A transdisciplinaridade é considerada por Japiassu (1976, p. 74) como o último grau da interdisciplinaridade, identificado pela “coordenação de todas as disciplinas interdisciplinares do sistema de ensino inovado, sobre a base de uma axiomática geral”. Figura 8: Os três conceitos muitos próximos à interdisciplinaridade. Fonte: Dreamstime. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 11 E só para relembrar: Quanto à interdisciplinaridade, Japiassu (1976, p. 73) a concebe como “axiomática comum a um grupo de disciplinas conexas e definidas no nível hierárquico imediatamente superior, o que introduz a noção de finalidade”. Sobre os conteúdos relacionados às ciências naturais, os PCNs (1997, p. 35) recomendam conteúdos que aprimorem o processo pessoal de cada aluno na constituição do conhecimento científico e de outras capacidades necessárias à cidadania. Assim, os conteúdos devem: ▪ Favorecer a construção, pelos estudantes, de uma visão de mundo como um todo formado por elementos interrelacionados, entre os quais o ser humano, agente de transformação. Devem promover as relações entre diferentes fenômenos naturais e objetos da tecnologia, entre si e reciprocamente, possibilitando a percepção de um mundo em transformação e sua explicação científica permanentemente reelaborada. ▪ Ser relevantes do ponto de vista social, cultural e científico, permitindo ao estudante compreender, em seu cotidiano, as relações entre o ser humano e a natureza mediadas pela tecnologia, superando interpretações ingênuas sobre a realidade à sua volta. Os temas transversais apontam conteúdos particularmente apropriados para isso. ▪ Constituir-se em fatos, conceitos, procedimentos, atitudes e valores a serem promovidos de forma compatível com as possibilidades e necessidades de aprendizagem do estudante, de maneira que ele possa operar com tais conteúdos e avançar efetivamente nos seus conhecimentos. Dois pontos a serem considerados em relação aos PCNs: Os temas transversais e os eixos temáticos. Quanto aos temas transversais, os conteúdos de meio ambiente, saúde, pluralidade cultural, é́tica, orientação sexual, trabalho e consumo devem ser incluídos no projeto pedagógico com as condições a seguir: ▪ Os temas não constituem novas disciplinas, por isso, devem pressupor um tratamento integrado nas diferentes áreas. ▪ A escola deve refletir e atuar conscientemente em relação à proposta de transversalidade, trazendo a necessidade de tratar sobre valores e atitudes em todas as áreas, garantindo que a perspectiva político-social se expresse no direcionamento do trabalho pedagógico. ▪ Esses temas devem se inclinar para uma ideia de transformação da prática pedagógica, pois rompem o paradigma de que o professor deve atuar somente de acordo com as atividades pedagogicamente formalizadas e ampliam a responsabilidade com a formação dos alunos. Em relação aos eixos temáticos, os PCNs (1997, p. 36) sugerem para primeiro e segundo ciclos os temas: “Vida e Ambiente” e “Ser Humano e Saúde”. O eixo “Tecnologia e Sociedade”, introduzido ainda nos primeiros ciclos, reúne conteúdos que poderiam ser estudados compondo os outros eixos, mas por sua atualidade e urgência social merece especial Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 12 destaque. “Terra e Universo” está presente a partir do terceiro ciclo, por motivos circunstanciais, ainda que se entenda que esse eixo poderia estar presente nos dois primeiros. Os PCNS (1997, p. 36) ainda destacam a seguinte questão: ‘‘ Os temas em Ciências Naturais podem ser muito variados. Alguns são consagrados, como a água e os seres vivos, erosão do solo, poluição do ar, máquinas e alimentação. Outros são episódicos ou regionais; uma notícia de jornal ou de TV, um acontecimento na comunidade ou uma análise da realidade local podem igualmente sugerir pautas de trabalho. ’’ Os temas escolhidos para os eixos temáticos estão diretamente ligados às problemáticas ambientais, à relação homem e meio ambiente. No mundo atual, essa relação anda bastante preocupante. Diariamente, vemos notícias referentes à poluição da água, do solo e do ar, além da devastação de biomas terrestre e aquáticos e eventos climáticos extremos. Como podemos discuti-los no ambiente escolar? Uma das formas instituídas em Lei no Brasil foi via educação ambiental, que consiste, segundo a Política Nacionalde Educação Ambiental (Lei 9795/1999), no Art. 1o: “Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. O Art. 2o define que “a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal”. Segundo Trivolato e Silvia (2017, p. 17), “a Educação Ambiental tem sido apontada pelas pesquisas recentes como componente de uma cidadania abrangente e associada a uma nova forma de relação entre sociedade e o ambiente”. O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e de Responsabilidade Global, escrito durante a Rio 92, define a Educação Ambiental como: [...] um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação afirma valores e ações que contribuem para a transformação humana e social e para a preservação ecológica. Ela estimula a formação de sociedades socialmente justas e ecologicamente equilibradas, que conservam entre si relações de interdependência e diversidade. (PORTAL DO MEC, 1992, p. 1) Nesse sentido, a educação ambiental se tornou um importante mecanismo de articulação de temas no ensino de ciências naturais, e desde que foi instituída, vem se consolidando como “uma prática educativa integrada, que pode ocorrer em diversos contextos, podendo oferecer uma contribuição muito grande ao processo educativo em geral e à formação de cidadãos mais conscientes do seu papel na sociedade, em relação aos outros e ao meio ambiente”. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 13 Figura 9: Educação ambiental. Fonte: Dreamstime. O termo “meio ambiente” apresenta diversas concepções entre os cientistas, entendidas como representações sociais. Reigota (1995) as classificou em: naturalistas, globalizantes e antropocêntricas. ▪ A representação naturalista mostra evidências apenas de elementos naturais, englobando aspectos físico-químicos, o ar, a água, o solo e os seres vivos (fauna e flora). ▪ A representação globalizante mostra a evidência de interações entre os aspectos sociais e naturais. ▪ A representação antropocêntrica evidencia a utilidade dos recursos naturais para a sobrevivência dos seres humanos. É importante o entendimento dessas representações, já que o conceito de educação ambiental está ligado ao meio ambiente e à sociedade. No contexto escolar, a educação ambiental implica em uma experiência escolar inovadora que articula conceitos, métodos, estratégias e objetivos de diversos assuntos interconectados pensados sob as dimensões ecológicas, históricas, culturais, sociais, políticas e econômicas da realidade e trabalhados em prol da construção de uma sociedade baseada em princípios éticos e de solidariedade. Diversos estudos propõem a classificação da educação ambiental, no Brasil, em três categorias , que consideram a sua diversidade de concepções: conservadora, pragmática e crítica. ▪ Conservadora: É pautada em concepções que remontam a práticas ambientalistas que partiam de um ideário romântico, inspirador do movimento preservacionista do final do século XIX. Sua característica principal é a ênfase na proteção ao mundo natural, sem relação com as questões sociais. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 14 ▪ Pragmática: Apresenta o foco na ação, na busca de soluções para os problemas ambientais e na proposição de normas a serem seguidas. Essa categoria de educação ambiental pode ter raízes em uma forma de ambientalismo mais pragmático e em concepções de educação tecnicistas. Busca mecanismos que compatibilizem desenvolvimento econômico e manejo sustentável de recursos naturais (desenvolvimento sustentável). ▪ Crítica: Privilegia a dimensão política (esfera das decisões comuns) da questão ambiental e questiona o modelo econômico vigente. Apresenta a necessidade do fortalecimento da sociedade civil na busca coletiva de transformações sociais. Há um concenso atual entre os pesquisadores de buscar discutir conservação considerando os processos sociais sob um olhar mais crítico sobre o atual quadro de esgotamento e extinção de diversos seres vivos no planeta. Também é preciso entender as mudanças de comportamentos da sociedade, ao longo do tempo, incluindo a compreensão de como cada indivíduo vive seu contexto e suas possibilidades concretas de fazer escolhas. Precisamos entender que nós, como futuros professores devemos atuar na formação de cidadãos que precisam ser sensibilizados para defender uma forma de pensar a natureza compreendendo como cada sociedade e comunidade interagem e de que forma podem encontrar soluções para minimizar impactos no meio ambiente. Vamos trabalhar de forma interdisciplinar com educação ambiental? Quando o professor for trabalhar com educação ambiental, precisa ter em mente que deve reconhecer e valorizar as contribuições das diferentes áreas para a questão ambiental, ou seja, cada disciplina pode contribuir com conteúdos e linguagens, vejamos: Se o professor for trabalhar conceitos conectados à ecologia, como biodiversidade e fotossíntese, ele pode envolver a área de Geografia ao possibilitar a compreensão do espaço e a utilização de diferentes linguagens para representá-lo. Também pode integrar a temática com as áreas de Português e Artes, na medida que pode trabalhar as diversas formas de expressão, reconhecer as representações do grupo sobre um determinado local, pintar e desenhar ambientes e trabalhar com a percepção paisagística de determinado ambiente. Ainda pode integrar à linguagem matemática, já que esta possibilita a compreensão de vários aspectos do meio, assim como o meio também auxilia na sua compreensão. Por fim, ainda pode incluir a área de História ao abordar uma ideia de reconstrução do que foi vivido naquele espaço. Podemos pensar que deve dar muito trabalho desenvolver projetos interdisciplinares, mas pense como Pontuschka (1996), ele destaca que há dificuldades em se trabalhar pelo caminho da interdisciplinaridade, Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 15 mas que é possível quando existem perseverança e compromisso por parte dos professores. 4. Educação Ambiental e a Sociedade do Futuro A humanidade continua a crescer, expandir e se desenvolver, no entanto, a relação entre o homem e a natureza está cada vez mais insustentável. Discutir essa temática ambiental é imprescindível para se pensar na sociedade do futuro, a mesma sociedade em que nossos alunos serão os atores sociais. É pensando nas futuras gerações que os debates envolvendo o homem e a natureza devem ser permanentes no ambiente escolar. Mas não só nele, perceba que a educação ambiental pode ser realizada em diferentes contextos: escola, empresa, parques, organizações governamentais e não governamentais, associações de bairro, condomínios, entre outros. Tratar de assuntos atuais, é decisivo para o futuro do planeta e eles devem ser discutidos em qualquer contexto, mas precisam ser planejados pensando nos objetivos a se alcançar, se utilizando de diversas metodologias adaptadas a cada público e situação, e às temáticas utilizadas devem ter conteúdos e formas de avaliação da aprendizagem que contemplem sua especificidade. Agora, veja os objetivos da educação ambiental definidos na Carta de Belgrado, em 1975, e válidos até hoje: Tomada de consciência Ajudar as pessoas e os grupos sociais a adquirir maior sensibilidade e consciência do meio ambiente em geral e dos problemas. Conhecimentos Ajudar as pessoas e os grupos sociais a adquirir uma compreensão básica do meio ambiente em sua totalidade, dos problemas associados e da presençae função da humanidade neles, o que necessita de uma responsabilidade crítica. Atitudes Ajudar as pessoas e os grupos sociais a adquirir valores sociais e um profundo interesse pelo meio ambiente, que os impulsione a participar ativamente na sua proteção e melhoria. Aptidões Ajudar as pessoas e os grupos sociais a adquirir as aptidões necessárias para resolver os problemas ambientais. Capacidade de avaliação Ajudar as pessoas e os grupos sociais a avaliar as medidas e os programas de educação ambiental em função dos fatores ecológicos, políticos, sociais, estéticos e educativos. Educação Ambiental definida na Carta de Belgrad Figura 10: Educação Ambiental definidos na Carta de Belgrado. Fonte: Dreamstime. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 16 Visitas guiadas são bem relevantes, pois propiciam situações de observação, comparação e experimentação, favorecendo o estabelecimento de relações significativas entre o conhecimento, atividades produtivas e a vida cotidiana de uma comunidade e envolvem múltiplas disciplinas possibilitando um intercâmbio de professores de várias áreas. Podemos citar, entre outras, visitas programadas a usinas de reciclagem, indústrias, parques públicos, instituições de pesquisa e reservas ambientais. Uma boa ferramenta de trabalho em educação ambiental é a elaboração de projetos teórico-práticos ou de projetos de ação que tornem o processo pedagógico mais dinâmico e democrático, no qual alunos e professores constroem juntos o conhecimento. Pensem em projetos que interconecte conteúdos socioambientais com um viés histórico, cultural, ecológico, político e econômico, não esquecendo de refletir sobre as políticas públicas e legislação ambiental regional e nacional, que são elementos essenciais para a construção da cidadania. Nos conteúdos relacionados ao tema, o ser humano deve ser apresentado não como uma presença intrusa e destruidora, mas sim como um agente que pertence à teia de relações da vida social, natural e cultural e interage com a natureza (CARVALHO, 2004). Diante de tantas formas de abordagem, você deve ter pensando em como irá fazer a avaliação da aprendizagem dos alunos? Antes de mais nada, é preciso saber o que se quer avaliar, a quem e por quê serão avaliados. Em um contexto de projeto pedagógico envolvendo a educação ambiental, a avaliação precisa ser contextualizada como três características básicas, que rompem com a tradicional noção de estar associada a medidas de controle: 1. Fonte de informação que permite compreender a prática pedagógica e, portanto, reforçar e melhorar as atividades educativas. 2. Momento de aprendizagem. 3. Avaliação dos alcances do processo em seu conjunto. Sendo assim, não podemos esquecer de incluir na avaliação formas de verificar as mudanças de comportamento, a conscientização ambiental, a participação ativa, a competência adquirida, a capacidade de atuação ativa e de autoavaliação. Por fim, a autoavaliação deve ser entendida como um instrumento importante para estimular a reflexão e o diálogo entre professores e alunos e para que se possam perceber as mudanças de comportamento e valores para além das situações escolares (TRIVELATO; SILVA, 2016). Assim, encerramos certos de que a ciência avançou bastante ao longo da evolução histórica da humanidade e os métodos desenvolvidos por importantes pensadores, filósofos e estudiosos revelaram um avanço da humanidade em entender o meio ambiente e dispor, por meio da observação da experimentação e das práticas, os inúmeros avanços. Abordamos, também, a temática das ciências naturais como importante área do conhecimento que releva e desvenda os seres vivos, a interconexão Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 17 destes com os demais recursos naturais e entre o meio e o homem. Vimos que as temáticas abordadas em ciências naturais são extremamente significativas e relevantes para a humanidade. Poder entendê-las e transmiti-las para os alunos, no contexto escolar, desenvolve o senso de pertencimento e responsabilidade para com a conservação e preservação do meio em que vivemos. Por fim, destacamos uma importante prática de ensino: a educação ambiental, que revela em seu âmbito inter, multi e transdisciplinar uma fonte viva e rica de conhecimento e como o seu uso deve ser ampliado, já que a temática ambiental é urgente e necessária de ser discutida em sala de aula. Referências ABRACNET. Práticas interdisciplinares nas séries iniciais do Ensino Fundamental: um estudo de teses e dissertações. Disponível em: http:// abrapecnet.org.br/atas_enpec/viiienpec/resumos/R0507-1.pdf. Acesso em: 13 jul. 2021. BLOG JALEKO. Lei, hipótese e teoria. Disponível em: https://blog.jaleko. com.br/lei-hipotese-e-teoria-voce-sabe-a-diferenca/. Acesso em: 13 jul. 2021. BLOG METTZER. Tipos de conhecimentos: você conhece quais são? Disponível em: https://blog.mettzer.com/tipos-de-conhecimento/. Acesso em: 19 jul. 2021. BRASIL. Lei n. 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial da União, 28 abr. 1999. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília : MEC/SEF, 1997. CARVALHO, I. C. M. Em direção ao mundo da vida: interdisciplinaridade e educação ambiental. Cadernos de Educação Ambiental 2. Brasília: IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, 1998. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 18 EDUCA MAIS BRASIL. Método dedutivo. Disponível em: https://www. educamaisbrasil.com.br/enem/filosofia/metodo-dedutivo. Acesso em: 14 jul. 2021 EDUCA MAIS BRASIL. Método indutivo. Disponível em: https://www. educamaisbrasil.com.br/enem/filosofia/metodo-indutivo. Acesso em: 13 jul. 2021. REIGOTA, M. O que é Educação Ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994. TRIVELATO, S. F.; SILVA, R. L. F. Ensino de Ciências. São Paulo: Cengage Learning, 2016. Conteúdos e Metodologias no Ensino de Ciências Naturais 19 Ciências, Ciências naturais e Educação Ambiental Para início de conversa... Objetivos 1. Conceituando Ciências 2. Conceituando Ciências Naturais 3. A importância da interdisciplinaridade e da educação ambiental 4. Educação ambiental e a sociedade do futuro Referências