Prévia do material em texto
Criopreservação de embriões e oócitos A criopreservação é a redução ou mesmo a parada de todos os fenômenos biológicos (movimentos moleculares, reações químicas e atividades enzimáticas) pelo frio, com objetivo de conservar o material genético. A criopreservação à temperatura de -196ºC (em botijão de nitrogênio líquido) é um desafio muito grande, pois o maior constituinte das células é a água, que congela, podendo lesionar as outras estruturas celulares. A criopreservação de oócitos é muito mais recente que a de embriões, e ainda mais desafiadora. Esse procedimento é feito com mais eficiência nas mulheres quando comparado às fêmeas domésticas porque estas possuem mais lipídios nos oócitos (é considerado ruim para a criopreservação). As vantagens da criopreservação são as seguintes: - Otimização das biotecnologias reprodutivas: possibilidade de preservar o material genético quando não há receptora disponível. - Conservação de material genético (aplicação para animais em extinção e também de produção). - Troca internacional de material genético. - Prevenção de perdas de animais vivos durante o transporte. - Adequação à época de parições. - Sanidade. PRINCÍPIO DA CRIOPRESERVAÇÃO Lei da termodinâmica: o protocolo empregado na criopreservação de uma célula deve ser suficientemente lento para prevenir a cristalização da água intracelular e suficientemente rápido para prevenir a explosão das células a elevadas concentrações de eletrólitos antes da congelação. DANOS CAUSADOS PELA CRIOPRESERVAÇÃO Em um embrião de 100 células, cerca de 50 células morrem no processo de criopreservação. Por isso, quanto mais avançado o embrião (maior a quantidade de células), maior a chance de gerar uma prenhez porque terá maior quantidade de células viáveis. Esse é um dos motivos por que a criopreservação de oócitos é mais complicada, já que possui uma única célula, além de ser uma célula muito maior, logo, tem muito mais água. Ademais, as células do cumulus também formam uma barreira contra a entrada do crioprotetor; porém, se desnudar, a viabilidade após o descongelamento também é maior (maior chance de ocorrer poliespermia na FIV). Os danos causados pela criopreservação são os seguintes: lesões nas membranas (citoplasmática do oócito e da zona pelúcida do embrião), desnaturação proteica durante a criopreservação e desnaturação do citoesqueleto. PROTEÇÃO CONTRA DANOS A proteção contra danos é fornecida por crioprotetores, os quais garantem a proteção celular por meio da redução da formação de cristais de gelo e do ponto crioscópico da água (diminui a temperatura de congelamento*1) e aumento da estabilidade da membrana celular. *1 A melhor temperatura para congelamento é -6°C; se congelar antes, forma cristais de gelos maiores, que danificam mais as membranas. Existem os seguintes tipos de crioprotetores: - Intracelulares (penetrantes): substituem parte da água intracelular, permitindo a desidratação parcial da célula e, dessa forma, reduzindo a formação de cristais de gelo. Também reduzem o tamanho desses cristais, a temperatura de solidificação da água intracelular e alteram a forma dos cristais. Altas concentrações desses compostos são tóxicas para as células. São eles: etilenoglicol (menos tóxico), DMSO, glicerol, propanodiol, butanodiol e metanol. Extracelulares (não penetrantes): promovem a desidratação celular controlada durante a congelação e impedem a formação de grandes cristais de gelo no interior da célula. Possuem papel importante na manutenção de uma maior pressão osmótica no meio extracelular, o que previne um grande afluxo de água nas células durante o aquecimento (importante para a reidratação do embrião). São eles: lactose, glicose, sacarose, PVP, manitol, trealose e BSA. OBS: A maioria dos protocolos utiliza um crioprotetor intra e um extracelular. - Moléculas protetoras do citoesqueleto: promovem o relaxamento do citoesqueleto através da despolimerização da actina e da tubulina. A principal é a citocalasina B. - Proteínas anticongelantes: são oriundas de peixes da região da Antártida, que vivem em águas de temperaturas negativas, mas não congelam. Podem ser aplicadas em protocolos de criopreservação. MÉTODOS DE CRIOPRESERVAÇÃO 1. CONGELAMENTO LENTO Foi o primeiro sistema desenvolvido para criopreservar embriões. Pode-se fazer a criopreservação pelo método convencional ou pelo método "one step”. Permite o equilíbrio progressivo entre o crioprotetor e o compartimento aquoso do embrião: as taxas de resfriamento permitem a troca de água intracelular por crioprotetor sem grandes efeitos osmóticos ou mudanças na forma celular que sejam prejudiciais a sua funcionalidade. Em relação à vitrificação, a vantagem do congelamento lento é a não indução de estresse osmótico devido às baixas concentrações de crioprotetores (1 a 2 M, sendo a maioria 1,5 M). Porém, como há formação de cristais de gelo, pode haver danos físicos às células. Além disso, também é uma técnica muito mais demorada (2-3 h), o que afeta a produtividade; induz maior sofrimento ao embrião (fica retraído); e é necessário utilizar uma máquina para fazer a curva de congelamento. Uma grande vantagem do congelamento lento é que, como a dose de crioprotetor utilizada é bem baixa, o veterinário a campo consegue descongelar a palheta, montar o aplicador e transferir o embrião como se fosse uma inseminação convencional, o que é conhecido como "embrião DT” (direct transfer). As etapas do congelamento lento são as seguintes: - Lavar os embriões em PBS com 0,4% de BSA. - Equilíbrio com 1,5 M de etilenoglicol em PBS com 0,4 de BSA por, pelo menos, 10 minutos: os embriões devem ficar um mínimo de 10 minutos no crioprotetor para que este exerça sua função, mas não podem ficar mais que 20 minutos, senão desidratam demais. Logo, tem-se 10 minutos para realizar todas as etapas seguintes após o tempo mínimo de ação do crioprotetor. - Envase em palheta durante equilíbrio: puxar o meio de manutenção (pode ser o Holding), uma bolha de ar, o embrião com o crioprotetor, uma bolha de ar, o meio de manutenção e, por fim, uma bolha de ar. O primeiro meio limpa o caminho no trato reprodutor feminino para o embrião passar e o segundo empurra o embrião para ter certeza de que saiu da palheta. - Levar palhetas ao congelador de embriões já estabilizado entre -5 e -7ºC. - Deixar por 5 minutos nessa faixa de temperatura. - Realizar o seeding (indução da cristalização, formação de gelo). - Confirmar a formação do gelo nas palhetas. - Deixar mais 10 minutos na faixa de temperatura entre -5 e -7ºC. - Iniciar a curva de congelação (-0,3ºC a -0,6ºC/min). - Após atingir -35ºC, mergulhar as palhetas em nitrogênio líquido. A reidratação do embrião para realização da TE direta deve ser feita através da descongelação por 5 segundos no ar e 30 segundos em banho-maria a 20-25°C. A palheta deve ser montada diretamente no inovulador e inserida no trato reprodutivo da fêmea, não sendo recomendado levar mais do que 20 minutos entre a descongelação e a inovação. Não existe avaliação prévia do embrião. 2. VITRIFICAÇÃO Utiliza-se uma grande concentração de crioprotetor (6-7,5 M) associada a uma curva de refrigeração muito rápida (imersão direta em nitrogênio liquido); esse binômio faz com que as células criopreservem sem passar pelo congelamento (não há formação de gelo), logo, as células passam da fase líquida citoplasmática direto para a fase sólida amorfa (estado vítreo). Quanto mais rápida for a velocidade e menor o volume da palheta, melhor. A principal vantagem da vitrificação é a não cristalização, que protege as células contra danos mecânicos. Por outro lado, as altas concentrações de crioprotetores promovem estresse osmótico muito intenso, o que altera a viabilidade do embrião e do oócito. Também é uma técnica muito operador dependente e é necessário remover os crioprotetores antes de transferir o embrião para o trato reprodutivo da fêmea (questionável). OBS: O embriãoFIV têm taxas melhores de viabilidade na vitrificação que na congelação lenta. Já o embrião de TE tem melhores taxas na congelação lenta que na vitrificação. Existem vários materiais de vitrificação, como OPS, grade e microscopia eletrônica de transmissão, cryollop, criotop (melhor eficiência), micropietas de vidro (GMP), superfície sólida de vitrificação (SSV), microgotas e hemi-palhetas (hemi straw). No caso da vitrificação por OPS, utiliza-se uma palheta de 0,25 mL esticada (reduz o diâmetro interno, facilitando a vitrificação). VITRIFICAÇÃO X CONGELAMENTO LENTO Os inconvenientes da vitrificação são os seguintes: estresse osmótico e toxicidade química do crioprotetor. Já as vantagens são a velocidade da técnica, não obrigação da utilização de um congelador programável e inibição da formação de cristais de gelo. VITRIFICAÇÃO CONGELAMENTO LENTO Simples e rápida (menos de 10 minutos) Mais de 3h Barata e não exige a utilização de máquina de congelamento Caro e exige a utilização de máquina de congelamento Volume menor (1-2 microlitros) Volume maior (100-250 microlitros) Não há formação de cristais Há formação de cristais Menos danos mecânicos Mais danos mecânicos Maior dano químico Menor dano químico Sistema aberto ou fechado Apenas sistema fechado Altas concentrações de crioprotetores Baixas concentrações de crioprotetores FATORES QUE INFLUENCIAM AS TAXAS DE SOBREVIVÊNCIA DE EMBRIÕES - Qualidade do embrião: embrião de melhor qualidade apresenta maior crio tolerância. - Estágio de desenvolvimento embrionário: quanto maior o número de células, melhor. Porém, o ideal é que o embrião chegue somente até a fase de blastocisto expandido, pois o eclodido já não tem mais zona pelúcida (exigida para a comercialização). - Espécie e raça: embriões de taurino, embora tenham maior teor de lipídios, congelam melhor que os embriões de zebuíno. Já os embriões de suíno, que têm muito lipídio, apresentam baixa criotolerância. - Origem do embrião: TE (congela melhor) ou PIVE. - Presença da zona pelúcida: é uma barreira contra a entrada de crioprotetores (por isso, embriões eclodidos apresentam maior tolerância, mas não podem ser comercializados). - Momento da primeira clivagem após a inseminação/FIV. CRIOPRESERVAÇÃO DE OÓCITOS De maneira geral, os oócitos submetidos ao congelamento lento não sobrevivem, sendo a vitrificação a melhor alternativa. Os efeitos da criopreservação são os seguintes: número reduzido de células do cumulus, rompimento da zona pelúcida e sinais de degeneração. Aparentemente, os oócitos de gatas têm maior criotolerância, apesar de terem bastante lipídio. É possível vitrificar oócitos imaturos ou maturados, com células do cumulus ou desnudados. CONSIDERAÇÕES FINAIS - Progressos a partir dos anos 70. - As técnicas de congelação lento e vitrificação saem ambas utilizadas para criopreservação de embrião, mas somente a vitrificação é utilizada para oócitos. - A eficiência das duas técnicas pode variar de acordo com a origem do embrião (TE ou PIVE) e a espécie em questão.