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AULA 2 TECNOLOGIAS, SISTEMAS E MATERIAIS ECOEFICIENTES Profª Marcia Luiza de Carvalho Klingelfus 2 INTRODUÇÃO Para chegar ao desenho coerente na arquitetura, necessitamos, além da visão sistêmica e ecológica, de um trabalho transdisciplinar unindo conhecimentos para um resultado bem resolvido. Trabalhar diversas áreas buscando essa edificação integral, sob uma nova perspectiva, implica um grau maior de envolvimento, conscientização e cultura para todos os envolvidos. Estamos em processo de mudança de estrutura mental, consequência de uma Era da Comunicação que exige também uma metalinguagem para abranger com exatidão a quantidade de inputs que recebemos. Essa mudança vem sendo fortalecida com a atual situação de home office e isolamento social, ao mesmo tempo em que reavaliamos nossas parcerias comerciais e econômicas. Temos que organizar de forma rápida e clara esse conteúdo e colocá-lo para funcionar em um período muito curto, com máximo aproveitamento. Temos nas mãos ferramentas e capacidades de análise dos acontecimentos para transformar o que quisermos. Podemos estabelecer pontes e redes, bem como sistemas complexos, retroalimentando, superando e produzindo sistemas inteligentes e saudáveis. Nesta aula, veremos como a Arquitetura Bioclimática (AB) participa desse processo, seus principais aspectos relacionados às decisões de projeto/construção, seus princípios de desenho e estratégias. A AB é nossa abordagem primeira no processo de projeto e, com base em seu conceito, serão definidas diretrizes, portanto, é um passo fundamental nessa visão que estamos apresentando. TEMA 1 – ARQUITETURA BIOCLIMÁTICA O termo bioclimatismo faz referência ao estudo dos seres vivos com relação ao clima. Na prática, desenvolve-se sobretudo no estudo para humanos, delimitando as suas respostas psicofísicas referentes ao microclima que nos rodeia, aplicado diretamente na arquitetura. A arquitetura bioclimática se fundamenta na adaptação da arquitetura ao meio ambiente, mais especificamente aos aspectos climáticos do entorno onde se está construindo, levando-se em consideração todas as suas características para sacar o maior benefício possível, atendendo às necessidades humanas às quais se destina o espaço construído, com baixo impacto na natureza em que se insere. 3 Uma correta atuação bioclimática terá em conta seu entorno de tal forma a estudar suas características naturais, como o terreno, a vegetação, a trajetória solar e consequente radiação incidente, os ventos, as temperaturas, a umidade, o estado de conforto, as envolventes e a cultura local para verificar roupas, atividades e costumes etc. Além disso, criará as correções necessárias para que o espaço ou edifício obtenha maior qualidade de conforto e ambiental, atuando prioritariamente com estratégias passivas ante as ativas, e com isso conseguir uma menor dependência de mecanismos ou equipamentos que consomem combustíveis e outras formas de energia não limpas. Quanto mais profundo o estudo inicial do local, mais adaptado e eficiente será o espaço ou edifício, e para isto estudaremos os materiais utilizados, as vedações, as aberturas, as sombras, as cargas térmicas e todos os elementos e sistemas necessários, tendo em vista o processo completo de vida útil do edifício, e só então formular as propostas apropriadas. Nesse contexto, a arquitetura devolve ao edifício o papel de proteção e de terceira pele do indivíduo, fazendo referência a Hundertwasser (Restany, 2003) em sua teoria das cinco peles, sendo a primeira a epiderme, a segunda a vestimenta, a terceira o edifício que o abriga, a quarta é o meio ambiente e a quinta pele, o planeta. Ao mesmo tempo provedor das necessidades para que o indivíduo possa desenvolver qualquer atividade, permite um intercâmbio entre ambientes externo e interno. Em nossa arquitetura tradicional, vemos exemplos de como a construção sempre contemplou a ação do clima para aproveitar os elementos positivos e proteger-se dos negativos; a implantação mais adequada no terreno; a orientação solar e a colocação dos cômodos nos lugares apropriados; o aproveitamento das sombras no calor ou a proximidade com a água em climas secos; a utilização da energia animal como fonte de calor. Em cada tipo de clima do planeta existem exemplos abundantes da boa arquitetura bioclimática – e muito intuitiva, inclusive. Mas, diante da alta demanda construtiva e das condições de uso do solo dos centros urbanos, nos afastamos das soluções mais simples e intuitivas e tratamos de desenvolver conhecimentos e tecnologias que nos facilitem tratar com diversos contextos e novas necessidades, para ganho de conforto e otimização construtiva, sem considerar variações regionais, de microclimas, culturais ou até funcionais, entre as diferentes estações do ano ou mesmo diferenças de 4 temperatura noite – dia, ou mais detalhadamente ainda, as horas solares de um dia. Para conseguir um estado constante de conforto em nossos espaços construídos, trabalhamos o desenho arquitetônico para que, em diferentes situações, possamos responder qualitativamente e quantitativamente a essas variações, funcionando como um regulador térmico – entre espaço externo/interno – de qualidade ambiental e das condições psicofísicas necessárias para o corpo humano. O controle de energia e a eficiência energética é um dos objetivos da arquitetura bioclimática, melhorando consideravelmente seu desempenho após um bom desenho. Sabemos que grande parte dos efeitos negativos gerados pela construção têm relação com gastos e contaminações provenientes do consumo energético elevado nos edifícios. Por isso, a arquitetura bioclimática se identifica com edifícios de baixo consumo energético. A redução dessa dependência energética se estabelece em diferentes níveis: conservação e captação de energia gratuita e o uso consciente desta energia acumulada. A economia energética produzida por estratégias bioclimáticas em um edifício pode ser de até 80%, se utilizadas integralmente, com relação a um edifício contemporâneo convencional, podendo ser aplicadas também a edifícios existentes como correções – nesse caso, com valores menores – e até 50% aplicando só critérios de desenho como forma e tipologia. Da mesma forma, a redução de emissões de CO2 é representativa. Os custos podem implicar um valor mais alto ao início, dependendo do sistema utilizado, mas não necessariamente se mantendo alto, sendo amortizado em alguns anos pela economia no uso. Saiba mais No artigo “Análisis de la viabilidad económica de la edificación energeticamente eficiente”, Salmeron (2013) apresenta comparativos com relação à economia energética, à redução de CO2 e à viabilidade econômica, aplicados às estratégias bioclimáticas em edifícios novos e existentes de uso habitacional e comercial. Para lê-lo, acesse o link a seguir: SALMERON, J. L. M. Viabilidad económica de la edificación energeticamente eficiente. Ovacen, S.d. Disponível em: . Acesso em: 25 fev. 2021. 5 TEMA 2 – CONDIÇÕES DE CONFORTO Temos três aspectos a considerar quando estudamos o conforto ambiental: as variáveis meio ambientais, as necessidades humanas e as características do espaço construído. É importante lembrar que essas variáveis se inter-relacionam e desenvolvem entre si sistemas dinâmicos. A relação das condições de tempo atmosférico com a arquitetura se estabelece em três aspectos também correlacionados: • A ação direta do clima sobre o edifício e os efeitos relacionados à conservação, à preservação, à estabilidade e à higiene das construções; • A neutralização dos impactos ambientais no espaço protegido das edificações, cujas propriedades morfológicas e físicas funcionam como um agente climático que criaclimas internos com condições diversas daquelas do exterior; • O fator de conforto que atua tanto na identidade do meio ambiente quanto nos sentimentos e atitudes das pessoas com relação aos elementos do clima. Na medida em que os edifícios transformam o clima, aportam ao espaço características térmicas muito significativas para as pessoas e para o meio. As formas e os efeitos do meio atuam sobre o homem e vice-versa, podendo ser observadas em qualquer momento, nos diferentes lugares do mundo com seu clima especifico, com o comportamento das pessoas e as características dos edifícios. Em uma mesma zona, os diferentes climas definem caráter, atividade e biodiversidade. O equilíbrio dependerá de uma correta quantificação das condições de conforto local. 2.1 Quantificação das necessidades locais O entorno vivo trabalha constantemente com estímulos provenientes do meio ambiente, como a luz, o som, o clima, o espaço etc., que podem ser benéficos ou prejudiciais. A adaptação a essas condições se produzirá para alcançar o equilíbrio biológico sem gastar mais energia para isso. Ao conseguir essa situação, podemos dizer que temos uma zona de conforto, ou seja, conseguimos desenvolver as atividades necessárias, sem com isso gastar mais energia do que a necessária (definição de conforto ambiental – condições ótimas 6 para o desenvolvimento das atividades). Em outras palavras, com as melhores condições biopsicofísicas possíveis. Especificamente, o conforto térmico, segundo a American Society of Heating, Refrigeration and Air Conditioning Engineers (ASHRAE), é “o estado da mente que expressa satisfação do homem com o ambiente térmico que o circunda” (ASHRAE 55, 2017). A bioclimatologia aplica os estudos do clima (climatologia) às relações com os seres vivos. Com o conhecimento dos conceitos básicos de clima e conforto, percebe-se a importância da bioclimatologia aplicada à arquitetura, pois, levando- se em conta a edificação, é possível beneficiar-se ou evitar as condições climáticas, de forma a propiciar um ambiente interno confortável para os usuários. A adaptação do homem às condições climáticas acontece de forma biológica e de acordo com as características das diferentes raças existentes, da cultura local, pelo vestuário desenvolvido e pelo espaço construído que refletirá as características anteriores. Os componentes variáveis do clima e que afetam diretamente as condições de conforto são os seguintes: • Propriedades físicas da atmosfera e seu movimento: temperatura do ar, umidade, vento; • Radiações: radiação solar. O organismo desenvolve mecanismos termorreguladores para adaptar-se às variações do entorno e essas trocas acontecem por meio dos processos de radiação, condução, convecção, evaporação e respiração. Serão considerados ainda os parâmetros humanos como a taxa metabólica (MET) e o nível de isolamento das roupas (CLO). Outros aspectos que influenciam nas condições de conforto podem ser o período de ocupação, sexo, idade, raça, hábitos alimentares, características físicas etc. Assim, a arquitetura e o urbanismo serão os meios antrópicos que modificarão o entorno natural para aproximar as pessoas das condições ótimas de habitabilidade, atuando como um filtro ou uma área de absorção para o bem- estar do indivíduo. A interpretação desses dados pode ser realizada com base em diagramas, cartas e gráficos como o Diagrama de Conforto de Ashrae-KSU (ASHRAE 55, 2017) ou baseada na construção de climogramas de bem-estar, dentre os quais 7 os mais conhecidos são os realizados pelos irmãos Olgyay, que foram pioneiros relacionando a climatologia, a biologia e a arquitetura (Olgyay, 1998). 2.2 Psicrometria Psicrometria é a “ciência que se ocupa da determinação das propriedades termodinâmicas do ar úmido, assim como da utilização e do controle destas propriedades na análise das condições e processos que contêm o ar úmido” (González; Frutos, 1997). 2.2.1 Diagramas, cartas e gráficos psicrométricos Constituem as representações gráficas das propriedades termodinâmicas do ar úmido para estudo do condicionamento do ar. Nelas, mantém-se constante a pressão do ar e, com base nos dois outros parâmetros que caracterizam um ambiente, se pode definir e estudar o resto de variáveis do ar. Relembrando os parâmetros fundamentais do ar úmido: • Temperatura seca ou de bulbo seco (Ts); • Temperatura úmida ou de bulbo úmido (Th); • Temperatura de orvalho (Tr); • Pressão de vapor (Pv); • Pressão de vapor de saturação (Pvsat); • Umidade específica (HE); • Umidade relativa (HR); • Entalpia ou densidade energética (i); • Volume específico de uma mistura de ar úmido (Ve). Devemos reconhecê-los no nosso estudo bioclimático para definir as estratégias que vamos adotar em determinado projeto. A relação entre esses parâmetros estão representados nos diagramas psicrométricos. Olgyay (1998) desenvolve em 1963 a carta bioclimática, proporcionando critérios de desenho para alcançar uma zona de conforto em climas temperados e que pode ser utilizada para outros climas com as devidas adaptações. Em 1967, Givoni desenvolve, baseado nesses estudos, o diagrama bioclimático, considerando as características do ambiente construído, para se obterem as estratégias necessárias para cada condição de temperatura do ar e umidade 8 relativa. Com base nesses primeiros estudos, desenvolvem-se as estratégias que são aplicadas nos edifícios para diferentes usos, tipologias e localização; utilizando dados de anos climáticos de referência e parâmetros de conforto humano e suas variações para estabelecer cenários climáticos de conforto. TEMA 3 – ESTRATÉGIAS BIOCLIMÁTICAS As estratégias bioclimáticas são um conjunto de possibilidades de desenho que variam conforme nossos objetivos, estabelecidos em função das exigências estudadas. Basicamente, trabalharemos com elas as cargas térmicas e diferenças de temperaturas, a umidade etc., a fim de colocar os recursos locais à nossa disposição. Vale lembrar que estratégias de desenho, além dos sistemas que utilizamos, são também todos os elementos que compõem nossa edificação e o entorno que fornece matéria e recursos a ela, e que podem ser desde a forma projetada até o tipo de vegetação utilizada. 3.1 Utilizando o diagrama psicrométrico No diagrama são delimitadas áreas onde se identificam diferentes estratégias, analisando o cruzamento dos parâmetros climáticos locais. Será então necessária a aplicação dessas estratégias, considerando ainda o período do ano, situações mais críticas e outras características locais específicas. Essas estratégias básicas estão representadas esquematicamente no desenho a seguir. 9 Figura 1 – Estratégias bioclimáticas Fonte: Lamberts et al., 2014. A área de pontos indicados no diagrama representa os dados climáticos de referência de determinada localidade, colocados sobre a carta bioclimática com a finalidade de visualizar a distribuição ao longo do ano e, assim, estabelecer as estratégias de acordo com cada variável climática, segundo o projeto a ser desenvolvido. Lamberts, Goulart e Firmino (1998) desenvolvem cartas bioclimáticas e estratégias bioclimáticas para 14 cidades brasileiras. As estratégias representadas no gráfico são as que veremos a seguir. 3.1.1 Zona de conforto A zona 1 é definida por uma área de conforto com umidade entre 20 e 80% e temperatura entre 18 e 29 °C. 3.1.2 Ventilação Se a temperatura interior passar de 29 °C ou a umidade relativa passar de 80%, ou seja, altas temperaturas ou umidades, a estratégia será a ventilação. Portanto promover, melhorar e garantir um ambiente ventilado é essencial para melhorar a sensação térmica. Exemplos: devemos evitar barreiras que impeçam 10 o movimento de ar, projetar áreas de ventilaçãona cobertura e em paredes, garantir uma boa ventilação cruzada, construir captadores de vento etc. 3.1.3 Resfriamento evaporativo O resfriamento evaporativo é indicado quando a temperatura de bulbo úmido máxima não exceder 24 °C e a temperatura de bulbo seco máxima não ultrapassar 44 °C. Exemplos: fontes, vegetação, espelhos d’água etc. 3.1.4 Massa térmica para resfriamento Esse procedimento é indicado quando a temperatura e umidade relativa se apresentem nos limites do gráfico para áreas 4, 10 e 11. Deve-se usar a massa térmica para evitar os picos de temperatura, proporcionando um clima interior mais equilibrado, uma vez que a envoltória de grande inércia térmica será um captador e um transmissor de temperaturas à medida para o clima local, diminuindo a amplitude de temperatura interna com relação à externa. Exemplos: fechamentos com massa térmica, uso de materiais com alta inércia térmica, aproveitamento do terreno etc. 3.1.5 Ar condicionado Indicado para climas mais severos, ultrapassando o limite para outras estratégias. Temperatura de bulbo seco maior que 44 °C e a temperatura de bulbo úmido superior aos 24 °C. Podem ser usados em conjunto com os outros sistemas. 3.1.6 Umidificação Indicado quando a umidade relativa do ar for muito baixa e a temperatura inferior a 27 °C (ar seco). Exemplos: recipientes com água, e estanqueidade das aberturas. 3.1.7 Massa térmica e aquecimento solar Indicado para temperaturas entre 14 °C e 20 °C. Pode-se usar também aquecimento solar passivo com isolamento térmico. 11 3.1.8 Aquecimento solar passivo Indicado para temperaturas entre 10,5 °C e 14 °C. Indicado também o isolamento térmico mais rigoroso. Exemplo: orientação correta, aberturas controladas, painéis refletores, coletores de calor etc. 3.1.9 Aquecimento artificial Indicado para locais muito frios com temperaturas inferiores a 10,5 °C. 3.1.10 Estratégias combinadas Normalmente as estratégias são utilizadas combinadas, analisando caso a caso a situação. Outras estratégias podem ser aplicadas, dependendo da necessidade e criatividade do desenho. Podemos chamar a combinação de elementos e estratégias de sistemas bioclimáticos, por exemplo, a captação da radiação solar para seguidamente transportar esse calor para ser distribuído no ambiente ou a superfície que queiramos. Outro exemplo pode ser o efeito estufa com vegetação para regular a qualidade higrotérmica do ar. 3.2 Estratégias passivas e ativas As estratégias bioclimáticas podem ser passivas e ativas. O desenho passivo integra no projeto (materiais, sistemas, elementos, etc.) as estratégias de uso e controle climático; já o desenho ativo utiliza mecanismos (instalações, equipamentos, inteligência artificial, etc.) para alcançar o conforto desejado. Como metodologia básica, o desenho deve priorizar as ações passivas ante as ativas, conseguindo assim minimizar as dependências externas ou economizar em aparelhos e consumos. Podemos citar exemplos de cada uma: 3.2.1 Desenho passivo (integradas no desenho) • Orientação solar; • Ventilação; • Controle da umidade; • Inércia térmica; • Controle do movimento solar e das sombras; 12 • Efeito estufa; • Uso da vegetação e do terreno. 3.2.2 Desenho ativo (instalações) • Sistemas de captação solar para produção de água quente e eletricidade; • Ventilação mecânica; • Geotermia; • Iluminação de baixo consumo; • Instalações eficientes nos aparelhos; • Lareiras e aquecedores; • Proteções mecânicas/elétricas. Com o domínio dessas considerações, o desenho será ilimitado, pois é possível trabalhar com todas essas variáveis projetando diferentes dispositivos, sistemas e soluções, lembrando-se ainda das possibilidades que a biomímesis propõe. Exemplos: • O desenho das proteções solares, beirais, pérgolas, coberturas etc.; • As paredes, vidros e câmaras duplas como portas, muro trombe ou estufas; • Sistemas de aproveitamento térmico do solo tanto para aquecimento como para refrigeração; • Sistemas de captação de ventos para ventilação, ou de proteção; • Sistemas utilizando a inercia térmica dos materiais de construção; • Sistemas de isolamento térmico com materiais de pouca transmissão de calor; • Incorporação de elementos vegetais tanto no interior quanto no exterior; • Sistemas de captação da radiação solar, acumuladores térmicos; • Sistemas para geração de energia, água quente, aquecimento etc.; • Fachadas inteligentes; • Coberturas produtivas; • Etc. 13 3.3 Metodologia de desenho bioclimático Em síntese, o processo metodológico de desenho bioclimático poderia ser: • A localização e o entorno, com a descrição detalhada da situação do edifício com relação ao sol, ao vento, à composição do terreno, às massas de água, às espécies e disposição da vegetação e à densidade do traçado urbano: trama, largura das ruas e altura de edifícios; • O clima e o microclima, com o estudo dos dados da região de temperaturas, umidades, vento, insolação, graus dia e pluviometria; • O programa de necessidades com os perfis de uso, por horas de ocupação dos locais, horas e potências de uso dos sistemas de iluminação, horas e potência de uso dos eletrodomésticos, sistemas, máquinas etc. A avaliação das necessidades e consumos com cálculo de cargas para aquecimento e refrigeração, cálculos de consumos de energia e evolução de temperaturas; • O pré-desenho, avaliando toda a informação, potencializando e otimizando os recursos naturais, calculando as aberturas e proteções, a onda térmica, os materiais, a ventilação natural e forçada, sistemas de aquecimento ou esfriamento. Considerando o ciclo das águas e da chuva. Aproveitando o terreno e todos os elementos disponíveis naturalmente; • A seleção dos materiais segundo seu comportamento térmico; • A avaliação das necessidades e consumos com cálculo de cargas para aquecimento e refrigeração, cálculos de consumos de energia e evolução de temperaturas. A seleção da energia adequada e o cálculo do sistema complementar; • A avaliação do impacto ambiental; • Simulação dos consumos energéticos, monitorização da obra e satisfação do usuário. TEMA 4 – DESEMPENHO TÉRMICO No desenho devemos tomar decisões de projeto para controlar o conforto em nosso edifício, garantir perfeitas condições de uso e obter autossuficiência, mantendo seu ambiente interior dentro dos parâmetros de conforto (ver zona de conforto): 20° a 27 °C e entre 20% a 80% de umidade relativa. Sempre que não ultrapassar os 43 °C de temperatura seca, os 25 °C de temperatura úmida ou 14 cheguemos aos 2 °C no exterior, a partir destes níveis, devemos intervir de maneira externa à própria arquitetura. É importante levar em consideração o comportamento do material utilizado ao longo das diferentes fases do dia e do ano, estudo da trajetória solar e como incide no edifício, para, em função da atividade realizada, definir dimensionamento, forma e orientação de aberturas ou das proteções solares. Os diferentes ângulos de incidência solar e as diferentes incidências nas fachadas durante as estações, receberão também influência das temperaturas da manhã ou do final da tarde. A radiação da tarde soma com a radiação recebida ao longo do dia, no caso da manhã. Ao contrário, as temperaturas mais baixas da noite ainda influenciam os materiais. Para isso, além dos diagramas, existem diferentes metodologias de cálculo em programas específicos de controle climático. Modelos e simulações contribuem para uma aproximação da realidade, levando em conta ainda a atividade desenvolvida no edifício, número de pessoas, equipamentos, materiais, aberturas, etc. A norma brasileira relacionada ao desempenho das edificações define alguns métodos de cálculo, simulação e avaliação. Saiba mais Quanto a programas de simulação de energia nosedifícios, podemos citar alguns como o EnergyPlus, o eQuest, o Green Building Studio da Autodesk ou o OpenStudio. É possível encontrar mais informações nas páginas de internet de cada um deles ou ainda no artigo “Ferramentas para calcular desempenho térmico e de energia”, acessando o link a seguir: FERRAMENTAS para calcular desempenho térmico e de energia. ARQ + Smart Construction, 13 jul. 2020. Disponível em: . Acesso em: 25 fev. 2021. 4.1 Norma brasileira Apesar de vários estudos na área, no Brasil já na década de 90 existia a falta de uma normalização quanto às exigências mínimas de conforto e desempenho térmico nos edifícios. Em 2005, é publicada então a ABNT 15 NBR15220 sobre desempenho térmico de edificações, contendo as seguintes 5 partes: • Parte 1: Definições, símbolos e unidades. Essa parte da NBR 15220 estabelece as definições e os correspondentes símbolos e unidades de termos relacionados com o desempenho térmico de edificações; • Parte 2: Métodos de cálculo da transmitância térmica, da capacidade térmica, do atraso térmico e do fator solar de elementos e componentes de edificações. • Parte 3: Zoneamento bioclimático brasileiro e diretrizes construtivas para habitações unifamiliares de interesse social. Essa parte da NBR 15220 apresenta recomendações quanto ao desempenho térmico de habitações unifamiliares de interesse social aplicáveis na fase de projeto. Ao mesmo tempo em que estabelece um Zoneamento Bioclimático Brasileiro, são feitas recomendações de diretrizes construtivas e detalhamento de estratégias de condicionamento térmico passivo, com base em parâmetros e condições de contorno fixados; • Parte 4: Medição da resistência térmica e da condutividade térmica pelo princípio da placa quente protegida; • Parte 5: Medição da resistência térmica e da condutividade térmica pelo método fluximétrico. Em suas primeiras duas partes, estabelece conceitos e métodos sobre o tema, de forma que um leigo possa entender critérios básicos de conforto térmico. Em seguida, estabelece parâmetros e condições mínimos de contorno para qualidade térmica nas habitações, indicando o comportamento de alguns sistemas construtivos como as paredes, coberturas e aberturas, com base em uma classificação em oito zonas climáticas sobre o território brasileiro, como mostra a Figura 2. 16 Figura 2 – Zoneamento Bioclimático e parâmetros e condições de conforto Fonte: ABNT, 2005. Apesar de alguns autores apontarem melhorias necessárias a essa norma, ela representa um marco definitivo na qualidade ambiental de edificações, especialmente as de interesse social, chamando atenção para as estratégias de condicionamento térmico, que anteriormente eram ignoradas por um grande número de construtores e profissionais da área. Bogo (2016) aponta, em seu artigo sobre as limitações da norma, a falta, por exemplo, da estratégia de controle solar direto, fundamental para os climas mais quentes e para as condições de verão. Nota-se também a falta de maiores critérios para cidades com climas mais específicos, como Paranaguá. Mas entende-se que o esforço foi para delimitar ações mínimas de atuação, devendo-se, a partir daqui, complementar o estudo e desenvolver cartas e estratégias específicas para cada local. TEMA 5 – DESENHO URBANO BIOCLIMÁTICO A cidade é um sistema complexo, vivo, constituído de ambiente natural e ambiente construído, com uma rede enorme de interações entre eles. Tem uma elevada responsabilidade sobre os problemas meio ambientais e produz um enorme impacto no ecossistema global, situação que não pode ser solucionada com planificações baseadas em modelos econômicos, produção e ocupação sem considerar bases e sistemas capazes de manter a si mesmos. 17 Uma máquina com intensa atividade é uma grande consumidora de matéria e energia e emissora de resíduos. Necessita de recursos externos e não é capaz de produzi-los e entra em colapso constantemente. Como exemplo estão a dependência da entrada de suprimentos – altamente dependente do transporte de carga, os apagões ou cortes de energia elétrica –, a alta demanda e momentos de pico, a falta de água – rios secos em função da mudança climática. Além da necessidade de importar quase todos os seus recursos, seu modus vivendi explora outros territórios e devolve ao meio uma série de emissões e resíduos mal elaborados que causam efeitos colaterais em todos os níveis principalmente o social e o ambiental. A esse desequilíbrio segue uma importante pegada ecológica que só aumenta (veremos o conceito mais adiante). São ciclos abertos de difícil equilíbrio, que o ciclo natural não está conseguindo repor. Nossas soluções têm sido inventar artificialmente recursos que possam satisfazer toda essa demanda e ocupar desordenadamente áreas ambientais, o que se converte em mais um ciclo destrutivo. A cidade, como outro espaço construído, pode ser planejada de forma que seu desenvolvimento seja sustentável, ou seja, de maneira integral, desde sua origem até o seu desmonte, passando por sua organização, desenvolvimento, gestão etc. Podemos rediscutir a cidade mais compacta em que as distâncias nos possibilitem redes mais lógicas, menos desgastantes e mais eficientes, mas que sobretudo nos possibilitem a autorregulação em função dos recursos disponíveis e das novas informações recebidas, além de menor densidade e espaços com qualidade de vida, feitos à medida humana, socialmente responsáveis e economicamente equilibrados. A cidade cria condições ambientais específicas tanto no nível climático quanto físico, luminoso, sonoro, em qualidade do ar, psicológico etc. Essas condições se relacionam diretamente com os níveis de conforto desejados e necessários para o ser humano. Podem ser positivas ou de grande impacto, atingindo escalas maiores com consequências severas, como exemplo: • O aumento de calor pela queima de combustíveis e uso da eletricidade; • Diminuição da dissipação do calor devido a condutividade dos materiais construtivos, que é muitas vezes superior ao comparado de um território natural, aumentando também o albedo do solo e a radiação difusa; • Alteração das correntes naturais e permeabilidade do solo; • Diminuição da evapotranspiração do solo e plantas, devido aos sistemas 18 de drenagem enterrados; • Empobrecimento da biodiversidade; • Alteração da paisagem natural a nível geomorfológico e vegetal. Para reequilibrar estas e outras alterações, temos que planejar a estrutura urbana para aproveitar os recursos energéticos naturais, permitindo que os biotopos locais mantenham seu metabolismo em equilíbrio. A cidade cria seu próprio microclima. A grande massa de materiais pesados, secos, com cores escuras nos pavimentos das ruas, avenidas e estradas, criam o efeito da inércia térmica. Por outro lado, as grandes superfícies de vidro, ou superlisas e as cores claras de edifícios provocam uma grande reflexão da radiação incidente. A falta de permeabilidade ou de espaços com água, como maior massa vegetal dão lugar a áreas secas prejudicando a saúde. Também a emissão de partículas em suspensão pelo uso de combustíveis de indústrias ou da grande massa de veículos cada vez maior cria uma capa contaminante que retém o calor próximo à superfície. Temos então uma grande borbulha de calor que se instala nas cidades, as chamadas ilhas de calor. O fluxo dos ventos é modificado drasticamente pelas massas edificadas, e as sombras projetadas e indesejadas provocam desconfortos e insalubridade. Aqui, pedimos que você observe seu entorno e amplie essa lista com a realidade que vivencia a cada dia. As estratégias de bioclimatismo urbano podem avaliar esses impactos e propor soluções para aproveitaro clima em seu benefício, como os sistemas naturais fazem. Tratar de cerrar ciclos e devolver material limpo ao meio: • De modo que água no ambiente das cidades tenha seu ciclo regenerativo; • Grandes superfícies vegetais como contenção e reguladoras da umidade ambiental absorvendo ou cedendo água conforme a necessidade da estação; • Melhorar a permeabilidade do solo como intercambiado de umidade e substrato para a vida vegetal; • Controlar os fluxos de ar e vento para refrescar no verão e dissipar a umidade indesejada, evitando os ventos e correntes fortes e ordenando as massas edificadas e o desenho da malha viária; • Desenho de espaços vegetais como barreiras de vento ou direcionadores destes; 19 • Estudo de altura dos edifícios, largura de ruas e áreas abertas para permitir a correta insolação; • Observação da trajetória solar para o melhor aproveitamento em todo o período anual. 5.1 Os edifícios na cidade Em geral, o intercâmbio de temperatura e umidade entre ambiente e construção acontece nas superfícies de contato. A pele dos edifícios em nossas cidades muito construídas interfere em grande parte no comportamento bioclimático urbano, e as características que apresentam são determinantes. Uma cidade de ruas estreitas, edifícios altos e superfícies sólidas se comporta diferente de uma cidade com predominância de residências baixas e grandes áreas verdes. Quando planejarmos nossos edifícios, devemos considerar alguns pontos: • A relação de compacidade do edifício como relação de volume e superfície de fechamentos; • A relação de porosidade do edifício com as áreas de janelas, portas e aberturas que permitem penetrar o ar no interior da edificação; • A relação de altura e largura com o terreno onde se localiza e com os edifícios do entorno; • Como será sua relação com o terreno onde se assentará. Considerando o aproveitamento e a ocupação do solo; • A relação e contato com os edifícios vizinhos; • A taxa de permeabilidade; • A presença de superfícies com água; • A porcentagem de espaços vazios; • A densidade de ocupação. Com relação às fachadas, ainda devemos observar as qualidades de seus materiais: • Densidade e massa para verificar a inércia térmica; • Transparência e cor; • Grau de reflexão ou absorção; • Textura e rugosidade; • Elementos e mecanismos de proteção ou exposição solar. 20 REFERÊNCIAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR15220 – Desempenho Térmico de Edificações Residenciais. Rio de Janeiro: ABNT, 2005. ASHRAE – American Society of Heating, Refrigerating, And Air Conditioning Engineers. Ansi/Ashrae Standard 55: Thermal environmental conditions for human occupancy. Atlanta: Ashrae, 2017. _____. Ashrae Handbook – Refrigeration. Atlanta: Ashrae, 1994. BOGO, A. 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