Historia e Politica  - Walmir Barbosa
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Historia e Politica - Walmir Barbosa


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2) CONCEITUANDO POLÍTICA 
 
O termo Política deriva do adjetivo grego Pólis (politikós), que significa tudo o que 
se refere à cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil e público. Na sua origem o 
termo Política assume uma significação mais comum de arte ou ciência do governo, com 
intenções descritivas e/ou normativas. 
No âmbito deste significado, o termo Política é, também, utilizado para designar 
obras dedicadas ao estudo da esfera de atividade humana que se refere às coisas do Estado. 
Em certa medida é uma influência da obra Política de Aristóteles, o primeiro grande marco 
na abordagem da natureza, funções e divisão do Estado. 
Com Marx o termo Política incorpora o sentido de conflito ou luta de classes. Com 
isto ocorre um deslocamento ontológico da abordagem da Política da esfera pública para a 
sociedade diferenciada socialmente. A esfera pública passa a ser concebida como realidade 
determinada pelo conflito ou luta de classes. 
Com Michel Foucault o termo Política ultrapassa o que se refere ao Estado e as 
classes sociais. Incorpora à política as relações sociais no plano das micro estruturas sociais, 
reproduzidas no cotidiano e que se materializam em uma rede infinita de poder. Estas 
relações perpassariam as relações de gênero, de grupo etário, etc, e se expressariam na rede 
de poder. 
 
2.1 Política e Poder 
 
Política pode ser definida como o campo de práxis e o conjunto de meios que 
permite aos homens alcançarem os objetivos desejados. Para alcançar estes objetivos a 
Política lança mão do poder, isto é, de uma relação entre sujeitos, dos quais um (ou alguns) 
impõe ao outro (ou outros) a própria vontade e determina o seu comportamento. 
Forma-se o poder político, ou seja, uma forma específica de poder, que se distingue 
do poder que o homem exerce sobre a natureza e de outras formas de poder que o homem 
exerce sobre outros homens (poder paterno, poder despótico, etc). O poder político na 
tradição clássica ocorre apenas nas formas corretas de Governo. Nas formas viciadas o 
poder político é exercido em benefício dos governantes, o que significa um poder não 
político. 
 
 
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Podemos distinguir três grandes classes de poder. O poder econômico, que se baseia 
na posse de certos bens para induzir aqueles que não os possuem a manter um certo 
comportamento, sobretudo na realização de um certo tipo de trabalho. De tal forma que 
aqueles que possuem abundância de bens são capazes de determinar o comportamento de 
quem se encontra em condições de penúria, por meio de promessa, concessão de vantagens, 
e assim por diante. O poder ideológico, que se baseia na influência que as idéias formuladas 
de um certo modo, por um grupo investido de certa autoridade, expressas em certas 
circunstâncias e difundidas mediante certos processos, exercem sobre as condutas da 
sociedade. Este poder pode assumir uma forma laica ou religiosa. O poder político, que se 
baseia na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física. É o poder coator 
no sentido mais estrito da palavra. 
Essas três formas de poder fundamentam e mantêm uma sociedade de desiguais, isto 
é, dividida em ricos e pobres com base na primeira classe de poder; em sábios e ignorantes 
com base na segunda classe de poder; e em fortes e fracos com base na terceira classe de 
poder. As três grandes classes de poder estão profundamente condicionados pelas relações 
de produção dominantes em cada sociedade, isto é, pela forma como os homens, distribuídos 
por meio de classes sociais e em conflito, organizados a partir de um tipo especifico de 
propriedade e de trabalho, produzem e distribuem os excedentes. Portanto, o conflito, no 
âmbito das relações de produção, percorre as três grandes classes de poder e vice-versa. Daí 
a necessidade de apreendermos as três grandes classes de poder em perspectiva ampla, isto 
é, de maneira a incorporar as formas de contra-poder. 
O poder político, como possui como meio específico de exercício a força, é o poder 
supremo ao qual todos os demais estão de algum modo subordinados. Exatamente por isso é 
o poder a que recorrem todos os grupos sociais dominantes (a classe dominante), em última 
instância, para manter o domínio interno, para se defender dos ataques externos e para 
impedir a desagregação do seu próprio grupo e sua eliminação. Por conseguinte, é a 
construção do contra-poder a que recorrem todos os grupos sociais dominados (classe social, 
grupo ético, etc) consciente da sua condição, tendo em vista resistir ou construir uma nova 
ordem social e, por conseqüência, um novo poder. 
A possibilidade do uso da força é o que distingue o poder político das outras formas 
de poder, mas isso não significa que ele se resolva no seu uso. Mesmo quando poder político 
e Estado se identificam plenamente, como na perspectiva liberal, a possibilidade do uso da 
força não é suficiente para a preservação do poder político dos grupos dominantes. Por isso 
a necessidade da legalidade e da legitimidade para o seu uso, sem o que os grupos 
 
 
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dominantes não poderiam construir a idéia do uso da força como um imperativo da 
manutenção da ordem e da coesão social. Segundo Bobbio, 
 
(...) o que caracteriza o poder político é a exclusividade do uso da força 
em relação à totalidade dos grupos que atuam num determinado 
contexto social. Exclusividade esta que é o resultado de um processo de 
monopolização da posse e uso dos meios com que se pode exercer a 
coação física. Este processo de monopolização acompanha o processo 
de incriminação e punição de todos os atos de violência que não sejam 
executados por pessoas autorizadas pelos detentores e beneficiários de 
tal monopólio (Bobbio, 1992, p. 956). 
 
O Estado, na perspectiva liberal, é concebido como uma empresa institucional de 
caráter político. Um aparelho político-administrativo que leva avante, em certa medida e 
com êxito, a pretensão do monopólio da coerção física como ato legítimo, com vistas ao 
cumprimento das leis em um determinado território. 
Enquanto a perspectiva liberal oculta o fato de que o monopólio da coerção física é 
relativa a um determinado grupo social, o marxismo parte justamente deste ponto no tocante 
a sua concepção de Estado. O Estado, na perspectiva marxista, é concebido como um 
instrumento da classe poderosa economicamente para que a mesma possa tornar-se a classe 
dominante politicamente, de forma a adquirir os meios fundamentais para dominar e 
explorar a classe oprimida. 
O poder político sob uma hegemonia social busca alcançar a exclusividade, isto é, 
não permitir, no âmbito de seu domínio, a formação de grupos armados independentes ou de 
infiltrações ou agressões oriundas do exterior, bem como de debelar ou dispersar os que 
porventura vierem a se formar; a universalidade, isto é, a capacidade que têm os detentores 
do poder político de tomar decisões legítimas e eficazes para toda a coletividade, no que diz 
respeito à distribuição e destinação dos recursos materiais e culturais; a inclusividade, isto 
é, a possibilidade de intervir, de modo imperativo, em todas as esferas possíveis da atividade 
dos membros do grupo e de encaminhar tal atividade ao fim desejado ou de desviá-la de um 
fim não desejado, por meio de instrumentos de ordenamento jurídico (Bobbio, 1992, p. 957). 
O poder político possui possibilidades e limites. As possibilidades e limites podem 
decorrer da própria formação política. Um Estado teocrático, por exemplo, estende o seu 
poder sobre a esfera religiosa, enquanto que o Estado laico declina diante dela. As 
 
 
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possibilidades e limites podem ser definidos institucionalmente no âmbito do próprio poder 
político.