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A Construção do eu na Modernidade Pedro Luis Ribeiro de Santi estas disciplinas converteram-se em oportunidades indispensáveis de aproximar o alunado do vastíssimo campo de fenômenos culturais no 1 qual se formaram as subjetividades modernas e contemporâneas. Foi neste campo e em resposta às diversas demandas provenientes destas subjetividades que as Psicologias foram sendo criadas e INTRODUÇÃO desenvolvidas. Quando se tenta, contudo, oferecer uma disciplina com este alcance e esta ambição, depara-se com uma dificuldade operacional: E ste livro nasceu de uma pesquisa iniciada em agosto de como organizar didaticamente um material tão diverso quanto é, de 1995 que tinha a finalidade de produzir material didático para o curso fato, necessário -textos de filosofia, textos de religião, textos de "Teorias e Sistemas que ministro no primeiro ano do literatura (ficção e poesia), composições musicais e reproduções de curso de Psicologia desde 1992. Boa parte deste curso é dedicado obras de arte-, de modo a oferecer aos alunos uma viagem rica, ao estudo das condições que levaram ao surgimento da Psicologia, interessante mas viável e relativamente segura pelos terrenos da no final do século XIX. cultura ocidental moderna? O trabalho de Pedro Luiz Ribeiro de Santi Desde então, tenho tentado ampliar este trabalho, organizando é um coadjuvante valiosíssimo para o professor que enverede por textos, combinando trechos de obras de comentadores e adicionando este caminho e se coloque estas questões. Aqui encontram-se exemplos bem escolhidos dos complexos novos textos originais de cada época. Combinando a preocupação com a abertura de vias de comunicação com os alunos e um interesse culturais que, do século XVI em diante, foram condicionando as formas de viver e experimentar o mundo dos homens ocidentais. pessoal, com freqüência uso outros recursos que não apenas textos teóricos, como literatura geral, filmes, referências à 'história dos Estes exemplos, bem ordenados e bem interpretados nas suas linhas mais decisivas mediante comentários breves mas elucidativos do costumes' e, muito especialmente, a audição de música de época. Essa reunião entre uma linguagem teórica e mais abstrata com outras Autor, retratam os quadros sucessivos em que nos fomos tornando o mais imediatas e prazerosas não apenas mostrou-se produtivo, que hoje somos. atendendo um pouco uma das necessidades mais comuns do estudante Trata-se, portanto, de uma contribuição generosa para o ensino da Psicologia e que, estou certo, terá uma boa acolhida pelos universitário de hoje, o aumento de sua cultura geral. Ela também professores e alunos que com ela tiverem contato. deixa evidente para o aluno a relação entre os problemas filosóficos das várias épocas, que se refletem em toda a expressão humana dos hábitos à arquitetura, da música à visão de si mesmo. julho. 1998 Luís Claudio Figueiredo Tenho procurado digerir esta experiência de mais de quatro Livre Docente de Psicologia Geral anos através da produção de um texto didático. Para isso, há que se Universidade de São Paulo pagar o preço de uma simplificação inevitável, quando se compilam fontes fragmentadas e, sobretudo, quando se tenta tornar um texto sobre a história do pensamento humano acessível à linguagem de alunos de graduação. A esperança maior deste livro é a de convidar, de um lado, os alunos de Psicologia a pensar nas relações dessa área de pensamento com o restante do conhecimento e em suas condições de surgimento. De outro, convidar 0 público leitor geral a 8 9A Construção do eu na Modernidade Pedro Luis Ribeiro de Santi compreender e refletir um pouco sobre a história dos problemas totalizadora ou sequer de nos aproximarmos disso. Trata-se filosóficos que resultaram no perfil do século XX. Nesse sentido, a simplesmente de perseguir um fio nesta rede, na esperança de que Psicologia é apenas uma faceta de um contexto mais geral com o ele convide os leitores a explorar outras vias. Como será possível qual todos têm contato. Afastamo-nos de uma posição perceber, cada época tem um número de correntes de pensamento "substancialista", que levasse a crer que 0 mundo psíquico seja uma paralelas e um número de formas de expressão desses pontos de coisa eterna e imutável, a qual a ciência finalmente teria vindo vista. A seleção dos autores e temas obedeceu à orientação de alguns desvelar. Assim, colocamos no livro a questão da construção do mundo comentadores clássicos, de um lado, e a motivos menos nobres, de psicológico, assim como a Psicologia como uma instância de produção outro, como o ponto de vista do conhecimento prévio do autor. Muitas de conhecimento científico. Ao menos, creio que este livro permite discussões essenciais são apenas mencionadas, como a questão da introduzir os alunos à idéia de que a compreensão da questão Modernidade, algumas passagens da própria história; muitas questões psicológica é muito anterior à sua formulação em uma linguagem paralelas às vezes sequer são mencionadas. Peço desculpas ao leitor científica. Ao público leigo geral, compreender que, antes da visão mais bem informado e reafirmo o caráter meramente didático deste de si mesmo que se têm hoje na cultura ocidental, já houve inúmeras projeto. maneiras diferentes de ver a si mesmo e de compreender a posição A tese básica que orienta este percurso é a de Luis Cláudio do homem no universo. Figueiredo, em "Psicologia. Uma Ele propõe a idéia de que houve duas pré-condições para o surgimento de um projeto de Psicologia como ciência. A primeira seria o surgimento de uma noção clara de subjetividade privada (ou seja, uma afirmação da idéia Desde que o homem pensa, ele pensa sobre si mesmo, sobre de que as pessoas são indivíduos livres e, enquanto tais, indivisíveis, o que é alma, desejo, liberdade, etc. Mas foi apenas no final do século separados, independentes uns dos outros e donos de seus destinos. XIX que surgiram os projetos de se realizar uma ciência da mente, A segunda seria a de que essa concepção de sujeito teria entrado em nos moldes que conhecemos hoje. Para uma primeira aproximação crise, gerando assim um sujeito em crise de identidade e a procura com o campo da Psicologia, é essencial que se procure pensar no de um profissional que lhe pudesse restituir a estabilidade. De motivo pelo qual nasceu a demanda por um profissional, dentro dos momento, essa tese pode parecer obscura, mas gradativamente ela moldes da ciência, para dar conta das crises de identidade ou do irá sendo explicitada. controle dos comportamentos. De uma forma genérica, podemos dizer que a noção de Como se sabe, a Psicologia é composta de uma grande subjetividade privada data do início da Modernidade, ou seja, do quantidade de teorias diferentes, que mal conseguem se comunicar Renascimento. Será justamente na passagem da Idade Média para o entre si. Este estado não parece ser passageiro, mas próprio da Renascimento que iniciaremos esse percurso. A afirmação do sujeito Psicologia e de outras ciências humanas. Ao compreendermos o chegará a seu ponto máximo no século XVII e, a partir de então, sentido do surgimento da Psicologia, talvez também possamos iniciará uma longa crise até o final do século XIX. entender o motivo dessa dispersão. No final do século XIX, surgirão os primeiros projetos de Essa história é imensa. Ela remonta à filosofia grega e acompanha toda a reflexão filosófica posterior e, mais recentemente, O livro "Psicologia. Uma Introdução. Figueiredo, L.C. 1991. EDUC, São alcança as teorias psiquiátricas até o início de nosso século. Por isso, Paulo" foi reeditado como "Psicologia. Uma (nova) introdução. Figueiredo, L.C. & pedro. 1998. São Paulo, EDUC". Após a primeira versão publicada, tomamos algumas teses sobre o assunto para organizar nosso Figueiredo já desenvolveu teses mais complexas sobre o tema, como em A percurso. Está longe de nossa pretensão realizarmos uma obra invenção do Psicológico. 10 11A Construção do eu na Modernidade Pedro Luis Ribeiro de Santi Psicologia, já com algumas características definitivas da diversidade que marca esta ciência. Wundt cria condições para a criação de uma 2 Psicologia experimental, enquanto Freud cria a Psicanálise. A esta tese, que mostra os modos de afirmação do eu desde o século XVI, acrescento uma observação minha: a de que, desde início do A PASSAGEM Renascimento, alguns autores já se dedicam a mostrar as fraquezas e insuficiências do eu. Isto indicaria a possibilidade de que a DA IDADE MÉDIA Modernidade incluísse procedimentos de auto-crítica e dissolução do eu, além dos clássicos procedimentos de AO RENASCIMENTO auto-afirmação. Nesta parte, trata-se de expor que nossa concepção atual do que seja "eu" não era possível na Idade N o Renascimento, como já é clássico dizer-se, nasce o humanismo moderno. De acordo com a tese de Luis Cláudio Figueiredo, seria neste período que passaria a se afirmar uma concepção de subjetividade privada -aí incluída a idéia de liberdade do homem e de sua posição como centro do mundo. Voltemos alguns passos: o que significa dizer que a noção de 'subjetividade privada' passa a existir? Por que tal concepção não seria possível anteriormente, no mundo medieval? Pode provocar alguma estranheza a idéia de que a noção de privacidade não existisse em um num determinado momento. Nossa intimidade, nossa existência enquanto sujeitos isolados -ou, até mais, solitários- parece-nos clara, certa. "Ter um tempo para si", sem estar trabalhando ou estudando (produzindo, de um modo geral), possui um grande valor em nossas Certamente, essa é uma das 2 A privacidade tomará diversos aspectos: em primeiro lugar temos nosso pensamentos, que muitas vezes mantemos em segredo; se temos uma casa ou um quarto para nós, pode-se ouvir uma música, arrumar gavetas, estar com uma roupa confortável (muitas vezes velha e acabada, mas neste caso não há problema, pois não há ninguém olhando); se dividimos nosso quarto com outras pessoas, sempre podemos tomar um longo banho, fazer a barba ou as unhas, ou outras coisas mais. 12 13

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