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1 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 2 O ENVELHECIMENTO ............................................................................... 4 3 SAÚDE E DOENÇA MENTAL .................................................................... 6 4 DEMÊNCIA ................................................................................................. 7 5 CRITÉRIOS PARA DIAGNÓSTICOS ......................................................... 9 6 INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO .......................................................... 11 7 TIPOS DE DEMÊNCIAS ........................................................................... 13 8 DOENÇA DE ALZHEIMER ....................................................................... 15 9 FISIOTOLOGIA ......................................................................................... 17 10 EVOLUÇÃO CLÍNICA ............................................................................ 19 11 ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO ..................................................... 21 12 INTERVENÇÕES FARMACOLÓGICAS ................................................ 21 13 INTERVENÇÕES NÃO FARMOLÓGICAS ............................................ 22 14 QUAL A LIGAÇÃO ENTRE DEMÊNCIA E DOENÇA DE ALZHEIMER . 24 15 QUAL A CAUSA DA DOENÇA DE ALZHEIMER?................................. 25 16 QUAIS OS FATORES DE RISCO PARA A DOENÇA DE ALZHEIMER? 26 17 COMO REDUZIR O RISCO DE DESENVOLVER DOENÇA DE ALZHEIMER OU OUTRO TIPO DE DEMÊNCIA? .................................................... 27 18 COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO DE DOENÇA DE ALZHEIMER? ... 29 19 QUAL É A IMPORTÂNCIADE UM DIAGNÓSTICO PRECOCE? .......... 30 20 COMO É QUE A DOENÇA DE ALZHEIMER PROGRIDE? .................. 33 21 TRATAMENTO e medicação PARA A DOENÇA DE ALZHEIMER? ..... 35 21.1 Incapacidade cognitiva .................................................................... 36 22 COMO SE SUSPEITA DE DEMÊNCIA? ............................................... 38 2 23 QUAIS SÃO OS CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA DEPRESSÃO, DELIRIUM E DOENÇA MENTAL? ............................................................................ 40 23.1 Quedas............................................................................................ 45 24 DEFINIÇÃO ........................................................................................... 45 25 EPIDEMOLOGIA ................................................................................... 46 26 FATORES RELACIONADOS A QUEDAS ............................................. 48 27 BIBLIOGRÁFIA ...................................................................................... 55 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 O ENVELHECIMENTO Fonte::drvictorsorrentino.com.br No estudo do envelhecimento populacional, é preciso levar em conta a questão de gênero. A população idosa brasileira é, em sua maioria, feminina. As mulheres, por terem o benefício de uma expectativa de vida maior, assumem o papel de cuidadoras e, nas grandes cidades, tendem a viver sozinhas depois da viuvez. Camarano, Kanso e Mello (2004, apud Felix, 2018) alertam para o risco de desvantagem que pode trazer esta situação dependendo da condição laboral experimentada durante a vida. A proposta de envelhecimento ativo surgiu pela Organização Mundial da Saúde1 com o objetivo de melhorar a qualidade de vida, oportunizando saúde física e psicológica a esta população através de três pilares basilares: saúde, segurança e participação. O envelhecimento ativo também preconiza que as pessoas idosas participem na sociedade de acordo com as suas necessidades, desejos e capacidades (SOUZA, et al. 2018). O envelhecimento ainda é caracterizado pelo progressivo abrandamento da atividade do sistema nervoso e de toda a ação humana dele dependente, no processo de envelhecimento, podemos considerar com algum sentido a existência de várias idades, a idade biológica, que se refere ao funcionamento dos sistemas vitais do organismo humano e é especialmente importante para a consideração dos problemas 5 de saúde, pois a capacidade de auto regulação do funcionamento dos diferentes sistemas diminui com o tempo (SOUZA, et al. 2018). A idade psicológica, que tem como base as capacidades de natureza psicológica que as pessoas utilizam para se adaptarem às mudanças de carácter ambiental, o que inclui sentimentos, memória, emoções, inteligência e motivações que sustentam a autoestima e o controle pessoal, a idade sócio cultural, que diz respeito ao conjunto de papéis sociais que os indivíduos adotam relativamente a outros membros da sociedade e à cultura a que pertencem, idade essa que é julgada com base nos comportamentos, hábitos e estilos de relacionamento, etc. (BIRREN, 2001; apud FARIA et al., 2014). Assim, devemos considerar que o processo de envelhecimento se reveste de vários componentes, sendo os principais, o biológico, o social e o psicológico. Estes componentes incorporam características próprias: a biológica reflete uma vulnerabilidade crescente e de onde resulta uma maior probabilidade de morte; a social é relativa aos papéis sociais apropriados às expectativas da sociedade para este nível etário; a psicológica é definida pela capacidade de auto regulação do indivíduo face ao processo de senescência. Segundo Faria, 2014 neste âmbito podemos ainda abordar diferentes padrões de envelhecimento, que sumariamente abordamos: o primário, o secundário e o terciário. Envelhecimento primário refere-se às mudanças intrínsecas ao processo de envelhecimento que são de todo irreversíveis e que corresponde ao conceito e à imagem que fazemos do envelhecimento. Envelhecimento secundário refere-se às mudanças causadas pela doença que estão correlacionadas com a idade, mas que podem ser reversíveis ou prevenidas. Envelhecimento terciário “refere-se às mudanças que ocorrem de forma precipitada na velhice, o que sugere um envelhecimento rápido que precede imediatamente a morte. O envelhecimento constitui um dos maiores desafios de saúde pública, exigindo do poder político e da sociedade que as necessidades resultantes de uma população cada vez mais envelhecida sejam contempladas de forma satisfatória. 6 3 SAÚDE E DOENÇA MENTAL Fonte::alessandrafaria.com Saúde mental pode definir-se como o equilíbrio emocional entre o património interno e as exigências ou vivências externas, é o reconhecimento dos seus limites e a procura de ajuda quando necessário, saúde mental é estar bem consigo e com os outros, é saber lidar com as emoções agradáveis ou desagradáveis: alegria/tristeza; coragem/medo; amor/ódio; serenidade/raiva; ciúmes; culpa; frustrações, é acima de tudo, aceitar as exigências da vida, a saúde mental é construída ao longo de todoo ciclo vital do indivíduo (CARVALHO, 2010). A doença mental é classificada como um desvio psicológico ou comportamental das formas normais de comportamento, que afeta negativamente a vida do indivíduo. Doença mental os transtornos mentais envolvem não apenas o setor saúde, mas necessariamente vários setores da sociedade como a educação, emprego, justiça e assistência social, entre outros é importante que exista um engajamento e um esforço conjunto entre o Estado, associações de portadores de transtornos mentais, familiares e sociedade civil organizada, 8 no sentido de desenvolver diretrizes específicas e serviços de saúde nesta área (FUNK; SARACENO, 2004 apud SANTOS, 2008). Segundo Sequeira, é uma “situação patológica, em que o indivíduo apresenta distúrbios na sua organização mental. Todas as afecções que afetam o corpo podem 7 provocar doença mental, desde que tais afecções provoquem um desequilíbrio em termos de organização mental”. “A doença mental causa muitas vezes, além de problemas emocionais, problemas cognitivos”. A nossa capacidade de prestar atenção, recordar, trabalhar a informação recebida do nosso interior e do meio exterior, deve-se à cognição. Esta permite-nos comunicar com os outros, planejar as nossas intervenções, executá-las, avaliar os resultados, etc. Ao longo da vida, toda a atividade desenvolvida, por mais simples que seja, depende da articulação das várias capacidades que a pessoa possui. Quando essas capacidades se apresentam alteradas, tal fato vai comprometer acentuadamente, a interação com o meio que nos rodeia. As doenças mentais estão maioritariamente associadas a alterações estruturais e funcionais do cérebro, repercutindo-se frequentemente em alguns processos cognitivos, como a memória (NUNES 2008; apud VAZ, 2009). 4 DEMÊNCIA Fonte: luizsperry.uol.com.br A demência não deve ser considerada uma doença, mas sim uma síndrome: “uma síndrome decorrente de uma doença cerebral, usualmente de natureza crónica ou progressiva, na qual há perturbação de múltiplas funções corticais superiores, incluindo memória, pensamento, orientação, compreensão, 8 cálculo, capacidade de aprendizagem, linguagem e julgamento” (Organização Mundial de Saúde, 1993, p. 45). A demência é a perda da capacidade de tomar decisões razoáveis caracterizada por declínio cognitivo ou modificações comportamentais (neuropsiquiátricas) em relação a um nível prévio de desempenho que causa perda da independência para as atividades de vida diária. A doença de Alzheimer e a demência vascular são as principais formas de demência no idoso, correspondendo a cerca de 80% a 90% das causas. A identificação do declínio cognitivo visa intervir precocemente em causas secundárias e reversíveis, bem como planejar o cuidado dos pacientes com demência. Estes distúrbios são suficientes para interferir no quotidiano da pessoa (trabalho, atividades diárias). A pessoa fala uma coisa, passa dois minutos, repete a mesma coisa. Faz uma pergunta, e em seguida repete, depois repete outra vez. E muitas vezes os familiares ficam irritados “Já te respondi! ” Esses fenômenos, quando você percebe que a memória da pessoa vai indo para o espaço. Esses quadros evoluem, lentamente no decorrer de muito tempo. “À semelhança da depressão, epilepsia e de tantas outras doenças, conhecidas pelo seu nome no singular, não existe uma demência, mas sim diversas doenças que causam demência e síndromes demenciais”. O indivíduo passa a ter um interesse sexual inadequado, impróprio e de difícil reconhecimento por parte dos familiares, por exemplo o indivíduo que teve sempre um histórico de decência, de adequação de relacionamentos passa a ter interesse sexual por pessoas da família, isso é um comportamento que não tem haver com a imoralidade, mas que pode estar incluso dentro do conjunto de sintomas próprio da demência. (RIBEIRO, 2013) 9 5 CRITÉRIOS PARA DIAGNÓSTICOS Fonte: http:psiqweb.net “O diagnóstico clínico da DA se baseia na observação de quadro clínico Compatível e na exclusão de outras causas de demência por meio de exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural. O diagnóstico definitivo Só é possível por exame anatomopatológico” (CARAMELLI; BARBOSA,2002: apud ADACHI, 2013). A característica primária da demência é o progresso de défices cognitivos variados, como a diminuição da memória e de pelo menos uma perturbação cognitiva, como afasia, apraxia, agnosia ou perturbação na capacidade de execução. Os défices cognitivos devem ser razoavelmente graves para causarem diminuição do funcionamento ocupacional ou social. “A demência pode estar etiologicamente relacionada com um estado físico geral, com os efeitos persistentes da utilização de substâncias (incluindo exposição a tóxicos) ou com uma combinação de fatores” À perda ou diminuição cognitiva de forma parcial ou total, permanente ou esporádica, em pessoas que, até então, tiveram um desenvolvimento intelectual normal, chama- se demência. (SHENK, 2018) Esta síndrome apresenta várias características: Prejuízo da memória, que pode ser desde um simples esquecimento até um severo esquecimento, não se recordando da própria identidade, desorientação espacial e temporal; 10 Problemas de comportamento, como insónia, agitação, choro fácil, comportamentos inadequados, desinibição social, alterações da personalidade, Perda de habilidades adquiridas ao longo da vida, como vestir, cuidar da casa, cozinhar, dirigir, organizar os compromissos, problemas com a linguagem, etc. Esta deterioração mental vai provocar o prejuízo nas capacidades da pessoa no desempenho das suas atividades de vida diária, nas atividades profissionais, atividades familiares, atividades sociais. Existem várias causas que podem levar à demência, sendo algumas potencialmente reversíveis: disfunções metabólicas, endócrinas, hidroeletrolíticas, quadros infecciosos, défices nutricionais e distúrbios psíquicos como a depressão. Os sintomas iniciais da demência variam, mas a perda de memória a curto prazo é a característica principal e única que alerta o médico assistente e o familiar ou pessoa significativa. Todavia, nem todos os problemas cognitivos, nos idosos, são devidos à demência, pelo que o estudo cuidadoso da pessoa idosa, com a colaboração da família ou da pessoa significativa, é crucial para a identificação do problema e para a formulação de um diagnóstico clínico correto. As pessoas com esta síndrome apresentam diminuída a capacidade de aprendizagem de coisas novas e esquecem as coisas que previamente aprenderam. Na fase inicial da síndrome a pessoa pode perder valores, tais como as chaves de casa, a carteira, esquecer-se de desligar o fogão, ou perder-se em zonas que não lhe sejam familiares. Numa fase mais avançada o esquecimento pode atingir a sua profissão ou as suas habilitações escolares, datas de aniversário, nomes de familiares, e por vezes até o seu próprio nome. “A deterioração da função da linguagem (afasia) pode manifestar-se pela dificuldade em nomear pessoas e objetos”. O discurso da pessoa torna-se vago ou vazio, usando excessivamente palavras indefinidas como “coisa”, “aquilo”. A compreensão da linguagem escrita e falada, bem como a repetição da linguagem, podem estar igualmente comprometidas. Em fases avançadas a pessoa pode 11 permanecer muda ou apresentar um padrão deteriorado de discurso caracterizado por ecolalia (isto é, eco do que é ouvido) ou palilalia (distúrbio da fala que consiste na repetição involuntária de uma ou mais palavras, geralmente acabadas de proferir). A apraxia (diminuição da capacidade para executar atividades motoras) embora a função sensorial e a compreensão da tarefa requerida estarem intactas surge muitas vezes em pessoas com demência, o que irá provocar a diminuição dacapacidade de realizar tarefas conhecidas, como escovar o cabelo, acenar ou dizer adeus, cozinhar, vestir-se, etc. A agnosia (deterioração da capacidade para reconhecer ou identificar objetos) é também encontrada em pessoas com demência, apesar de manterem intacta a função sensorial. As perturbações da capacidade de execução manifestam- se comumente na demência. “A capacidade de execução envolve a capacidade de pensamento abstrato e de planear, iniciar, sequenciar, monitorizar e parar um comportamento complexo” A pessoa tem dificuldade em lidar com novas tarefas e evita situações que requeiram processamento de informação nova e complexa. 6 INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO Fonte: http://alzheimerportugal.org Para iniciar uma avaliação em um paciente com comprometimento cognitivo e com uma possível síndrome demencial, a anamnese clínica e o exame neurológico são de extrema importância. Não raramente, nesses casos, o transtorno cognitivo, o 12 qual pode se apresentar como distúrbios de linguagem, memória, ou mesmo como anosognosia (incapacidade de reconhecer a própria limitação) o impede de relatar com precisão suas dificuldades, e por isso o relato de um acompanhante, de preferência alguém de estreito convívio com o paciente em questão, é de suma importância. (PARMERA; NITRINI, 2015) As metas chave da evolução clínica primária devem se estabelecer se uma síndrome demencial está presente ou não, caracterizar os domínios cognitivos acometidos, a gravidade desse acometimento assim como seu prejuízo funcional, e por fim determinar sua etiologia para definir o tratamento adequado. Por vezes mais de uma avaliação ou consulta é necessária para abarcar todos esses aspectos, e várias entrevistas com diferentes familiares são necessárias para caracterizar adequadamente a patologia em investigação. Segundo Parmera e Nitrini o processo de anamnese necessita abordar inicialmente o paciente e após isso entrevistar o informante, sempre que possível na ausência daquele, sobretudo quando se encontrar em fases leves ou moderadas da doença, podendo haver certa crítica conservada em relação à própria condição, e assim tal exposição poderia gerar estresses e conflitos desagradáveis. Além disso, algumas alterações comportamentais como hipertextualidade ou desinibição podem acarretar constrangimento e inibir o informante de relatar adequadamente o panorama do quadro investigado. Durante a entrevista é interessante já observar algumas possíveis alterações de linguagem, como a fluência ao falar, se ocorrem pausas ou dificuldade de nomeação, assim como aspectos da memória como dificuldade de lembrar onde guardou objetos, repetir as mesmas histórias várias vezes para pessoas de seu convívio ou mesmo expressar desculpas por não se lembrar de determinados fatos “por não serem importantes”, algo observado em pacientes com doença de Alzheimer (DA). De acordo com Nunes (2008), o Mini Mental State Examination (MMSE) é um dos instrumentos de avaliação mais utilizados nos estudos epidemiológicos de 13 rastreios populacionais de demência, devido à sua fácil aplicação, ampla difusão na literatura e elevada sensibilidade na avaliação breve do estado mental. Constitui um instrumento de avaliação cognitiva de referência nos idosos com demência, uma vez que possibilita o despiste de défice cognitivo de acordo com o grau de escolaridade. De forma a caracterizar e perceber em que fase se encontra o estádio da demência e quais as alterações presentes, existem alguns instrumentos para avaliar o estádio da demência, sendo as mais utilizadas, segundo Barreto (2005): A Escala Global de Deterioração (Global Deterioration Scale), que avalia a existência de demência ou não em 7 estádios; A Avaliação Clínica da Demência (Clinical Dementia Rating), que permite avaliar a demência em cinco estádios – normal, suspeito, ligeiro, moderado e grave. 7 TIPOS DE DEMÊNCIAS Fonte: www.blogcdn.com Encontram-se vários tipos de demência e estas são classificadas quanto à sua causa. As formas mais comuns de demência são: demência vascular, demência frontotemporal, demência dos corpos de Lewy, e a doença de Alzheimer (DA). A demência de Alzheimer representa aproximadamente 50% a 75% dos casos de demência e a demência vascular cerca de 15 a 25% (Nunes 2008, apud CARVALHO et al., 2014). 14 “As demências vasculares constituem um conjunto heterogéneo de perturbações de etiologia vascular e que originam uma síndrome demencial” (Sequeira 2007, apud CARVALHO et al., 2014). Esta forma de demência caracteriza-se essencialmente por uma alteração do funcionamento cognitivo, em consequência de lesões cerebrovasculares de natureza isquêmica ou, mais raramente, de natureza hemorrágica. A demência frontotemporal define-se como uma síndrome neuropsicológica marcada por disfunções dos lobos frontais e temporais, os sintomas ela não atinge a memória especificamente, ela atinge em longo prazo, nos estágios inicial ela não comete a memória, ela comete a personalidade, o comportamento. A demência frontotemporal não tem cura é comum em pessoas de 45 á 65 anos. Os primeiros sintomas são perceptíveis quando o paciente não consegue conviver em sociedades como de costume, ficam hipersexualizadas, falam palavrões, perdem o tato em relacionamentos pessoais, ficam desinibidas. A demência dos corpos de Lewy caracteriza-se como sendo um declínio cognitivo flutuante, acompanhado por alucinações visuais e sintomas extrapiramidais; o quadro demencial apresenta-se como de rápido início e declínio progressivo. (KHOURY, 2017). A demência de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que destrói as células nervosas do córtex cerebral, levando à atrofia progressiva do cérebro. Caracteriza-se por um carácter progressivo e irreversível, de aparecimento insidioso, conduzindo a uma inexorável degeneração cerebral com afetação de todas as áreas cognitivas e da personalidade. As frequências relativas das causas das demências diferem dependendo da idade (Tabela 1). <65 A >65 A Doença de Alzheimer 34% 55 % Demência vascular 18% 20% 15 Tabela 1 - Frequência dos tipos de demência segundo a idade 8 DOENÇA DE ALZHEIMER Fonte: institutoalzheimerbrasil.org.br É uma doença lenta e fatal do cérebro, que afeta uma a cada 10 pessoas com mais de 65 anos. Ninguém está imune. A doença avança gradualmente, enquanto dois fragmentos de proteínas anormais chamados placas e redes acumulam – se no cérebro e matam células cerebrais, elas começam no hipocampo, a parte do cérebro onde as memórias são inicialmente formadas. Ao longo de muitos anos, as placas e redes destroem lentamente o hipocampo e, formar novas memórias se torna cada vez mais difícil. (SHENK, 2018). “A doença de Alzheimer é uma doença degenerativa, lenta, progressiva e que age de maneira silenciosa. É caracterizada pela degeneração ou morte dos neurônios (células do cérebro), havendo perturbação de várias funções Cognitivas, entre as quais a memória, a atenção, o aprendizado, a orientação e a linguagem. É comum em indivíduos com idade acima de 65 anos, mas também pode acometer pessoas mais jovens. Os sintomas mais comuns da Demência frontão-temporal 12% ------- Demência corpos de Lewy 7% 20% Outras 29% 5 % 16 doença de Alzheimer são: perda gradual da memória, declínio no desempenho para tarefas cotidianas, dificuldade no raciocínio, diminuição do senso crítico, desorientação temporal e espacial, mudança de comportamento ou da personalidade, dificuldade no aprendizado e dificuldades na área da linguagem. ” (PORTAL DA SAÚDE SUS, 2013; apud ADACHI, 2013) Simples recordações de algumas horas ou dias atrás, que talvez consideremos como certas, não existem mais. Depois disso, mais placas e redes se espalham para outras regiões do cérebro, matando célulase comprometendo a função por onde passam. Essa propagação é o que causam os diferentes estágios de Alzheimer, do hipocampo a doença se espalha para a região do cérebro onde a linguagem é processada. Quando isso acontece, fica cada vez mais difícil encontrar a palavra certa. Em seguida, a doença se arrasta para a parte frontal do cérebro, onde se produzem os pensamentos lógicos, muito gradualmente, a pessoa começa a perder a habilidade de resolver problemas, entender conceitos e fazer planos, em seguida as placas e redes invadem a parte do cérebro onde as emoções são reguladas, quando isso acontece, o paciente perde gradualmente o controle do humor e sentimentos. A doença de Alzheimer foi diagnosticada pela primeira vez pelo neurologista alemão Alois Alzheimer em 1907,quando publicou o caso de um paciente que tinha perdido suas faculdades mentais gradualmente em quatro anos, como também foi evidenciado pela autópsia post mortem anomalias no cérebro (placas emaranhadas neurofibrilares dentro de amiloide e os neurônios).O fato de não ser evidenciado um diagnóstico até 1907 não significa que a doença de Alzheimer não existia, já que na maioria dos casos, era confundida com outras demências. (Correa 1996; apud RIBEIRO ,2016) Ainda segundo o mesmo autor, depois, a doença se move para onde o cérebro faz sentido daquilo que vê, ouve e sente o cheiro, neste estágio, o Alzheimer causa estragos nos sentidos da pessoa e pode dar início a alucinações, com o tempo, as placas e redes apagam as memorias mais antigas e preciosas da pessoa que estão armazenadas aqui, atrás do cérebro. Perto do fim, a doença compromete o equilíbrio e a coordenação da pessoa, e no último estágio, destrói a parte do cérebro que regula a respiração e o coração. O avanço desde um ligeiro esquecimento até a morte é lento e contínuo e acontece em 17 média de 8 á 10 anos. E implacável, e por ora, incurável. Uma vez que existe uma maior incidência da demência de Alzheimer nos grupos mais idosos, pretende-se abordá-la mais detalhadamente. A demência do tipo Alzheimer, amplamente conhecida por doença de Alzheimer, é atualmente o tipo de demência mais frequente no conjunto global das demências, podendo representar entre 60% a 70% dos casos de demência. Fatores de risco Todos os seres humanos podem vir a desenvolver a doença, mas sendo um problema multifatorial o seu aparecimento pode estar dependente de alguns fatores, nomeadamente: A idade, na medida em que com o avançar da idade nota-se um aumento da probabilidade e prevalência da doença; com o envelhecimento progressivo da população, a tendência é para um aumento do número de pessoas com doença de Alzheimer; O sexo, já que existe uma maior prevalência no sexo feminino; no entanto, esta conclusão pode advir do facto de, por norma, as mulheres viverem mais tempo que os homens; Fatores genéticos, ambientais e de nível educacional, apesar da causa ainda ser desconhecida, estão certamente implicados no desenvolvimento da doença; segundo Pereira e Filho (2001), a maioria dos casos é esporádica, mas cerca de 10% das pessoas com doença de Alzheimer apresentam história familiar. 9 FISIOTOLOGIA A doença de Alzheimer caracteriza-se, histopatologicamente, pela maciça perda sináptica e pela morte neuronal observada nas regiões cerebrais responsáveis pelas funções cognitivas, incluindo o córtex cerebral, o hipocampo, o córtex entorrinal e o estriado ventral. As características histopatológicas presentes no parênquima cerebral de pacientes portadores da doença de Alzheimer incluem depósitos fibrilares 18 amiloides localizados nas paredes dos vasos sanguíneos, associados a uma variedade de diferentes tipos de placas senis, acúmulo de filamentos anormais da proteína tau e consequente formação de novelos neurofibrilares (NFT), perda neuronal e sináptica, ativação da glia e inflamação8. Baseadas nesses marcadores neuropatológicos, duas hipóteses principais foram propostas, a fim de explicar a etiologia da doença. De acordo com a hipótese da cascata amiloidal, a neurodegeneração na doença de Alzheimer inicia-se com a clivagem proteolítica da proteína precursora amiloide (APP) e resulta na produção, agregação e deposição da substância βamiloide (Aβ) e placas senis9. (BENETTE; COSTA, 2007) De acordo com a hipótese colinérgica, a disfunção do sistema colinérgico é suficiente para produzir uma deficiência de memória em modelos animais, a qual é semelhante à doença de Alzheimer. Cérebros de pacientes portadores da doença de Alzheimer mostraram degeneração dos neurônios colinérgicos11, ocorrendo também uma redução dos marcadores colinérgicos, sendo que a colina acetiltransferase e a acetilcolinesterase tiveram sua atividade reduzida no córtex cerebral de pacientes portadores da doença de Alzheimer. Segundo Benette, o fator genético é considerado como preponderante na etiopatogenia da doença de Alzheimer. Além do componente genético, foram apontados como agentes etiológicos a toxicidade a agentes infecciosos, ao alumínio, a substâncias reativas de oxigênio (ROS) e a aminoácidos neurotóxicos, e a ocorrência de danos em microtúbulos e proteínas associadas. É importante também salientar que esses agentes podem ainda atuar por dano direto no material genético, levando a uma mutação somática nos tecidos. Cerca de 1/3 dos casos de doença de Alzheimer apresenta familiaridade e se comporta de acordo com um padrão de herança monogênica autossômica dominante. Esses casos, em geral, são de acometimento precoce, e famílias extensas têm sido periodicamente estudadas. Os pacientes afetados pela doença de Alzheimer têm 50% de chance de ter filhos também afetados pela patologia. 19 10 EVOLUÇÃO CLÍNICA Na fase inicial verificam-se défices de memória que são normalmente os primeiros sinais, nomeadamente, a nível da memória a curto prazo. O indivíduo é capaz de relatar detalhadamente acontecimentos passados, mas revela dificuldades na sua contextualização temporal e espacial e desorientação, no sentido em que perde a noção de tempo. Perde-se na rua, em sítios pouco familiares ou que foram alvo de modificações recentes, e perde a noção do mês e ano em que se encontra. Posteriormente, esta desorientação afeta também lugares habituais como a própria habitação. A linguagem vai sofrendo alterações, na medida em que numa primeira fase surge afasia nominal, o discurso torna-se impreciso e o pensamento cada vez mais concreto. A capacidade de resolução vai-se deteriorando, surgindo dificuldades na realização de cálculos, confunde o dinheiro e apresenta dificuldades em tomar decisões. Subtilmente, vão surgindo alterações da personalidade, nomeadamente egocentrismo, desinibição e apatia. Perde a postura habitual, faz comentários inadequados e utiliza palavras inapropriadas. A vida social torna-se caótica, esquecendo as obrigações sociais, como por exemplo pagamentos de serviços prestados. O autocuidado está igualmente comprometido, já que existe uma despreocupação pelo arranjo pessoal e higiene pessoal, esquecendo-se mesmo de mudar de roupa e lavar-se. As perturbações do humor revelam-se através da ansiedade e insegurança, tornando-se geralmente pessimista, com possível depressão consequente. A apatia é progressiva, revelando desinteresse por atividades que eram habitualmente do seu agrado. Esta é uma fase em que os familiares adotam uma tolerância excessiva face aos défices cognitivos do doente. Nas fases mais avançadas da doença as alterações cognitivas vão-se acentuando e acabam por levar à perda da autonomia. O doente apresenta apraxia (mostrando dificuldades, por exemplo, em abrir uma porta ou vestir-se, acabando por não ser capaz de o fazer), e agnosia (dificuldade em interpretar informações sensoriais, conduzindo à incapacidade em reconhecer rostos, objetos,lugares, de 20 identificar sons e cheiros). Com estas limitações o indivíduo não consegue identificar as pessoas que o rodeiam, sentindo-se cada vez mais ausente e ficando tudo cada vez mais estranho e confuso. A afasia aumenta e a linguagem torna-se restrita a poucas palavras, perdendo progressivamente a capacidade de comunicar verbalmente. As alucinações e as distorções perceptivas são frequentes nas fases avançadas. O doente é incapaz de reconhecer a sua imagem refletida num espelho, vê objetos e pessoas estranhas dentro da sua própria habitação, acredita que está a ser observado pela televisão e não reconhece a casa onde reside, chegando a acusar os familiares de sequestro. Relativamente aos fenómenos delirantes, surgem em cerca de um terço dos doentes, sustentados por ideias como estar a ser roubado, que o cônjuge lhe é infiel e que as pessoas com quem vive planeiam algo grave contra si. Com a evolução da doença, a agitação agrava-se e o indivíduo torna-se hostil, com atitudes de agressividade, gritos e até violência, que se agrava no final do dia. A deambulação é de igual modo uma das formas da agitação. O indivíduo desloca-se continuamente pela casa sem objetivo ou motivo aparente. O ritmo de sono-vigília também está alterado. O indivíduo passa longos períodos acordado durante a noite, adormecendo apenas por curtos períodos. Há uma progressiva perda de autonomia, necessitando de uma terceira pessoa para a satisfação das suas necessidades. (BENETTE; COSTA, 2007) Na fase terminal do processo demencial a inércia instala-se. O doente entra em mutismo e raramente reconhece os familiares. Deixa de ter reflexos de marcha, perdendo a postura ereta e permanece grande parte do tempo no leito. Há limitações a nível dos vários domínios do autocuidado, nomeadamente a nível da alimentação, da eliminação urinária e intestinal, e problemas de saúde tais como obstipação, infeções respiratórias ou urinárias, e úlceras de pressão surgem ou agravam-se. 21 Fonte::hypescience.com 11 ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO O tratamento das demências deve ser personalizado e adaptado a cada caso, no qual se incluem estratégias farmacológicas e não farmacológicas. Deve-se ter sempre presente que não existem demências, mas sim doentes com demência. Para cada doente é fundamental elaborar um plano de cuidados específico, reformulado de acordo com a evolução da situação. A farmacoterapia deve ser complementada por estimulação cognitiva global, psicoterapia, musicoterapia, cuidados de enfermagem, etc. 12 INTERVENÇÕES FARMACOLÓGICAS Este tipo de intervenção deve ter em atenção a etiologia da demência e o conjunto de perturbações associadas. Ainda não existe um tratamento que possibilite a remissão da demência, mas já é possível obter, em certos casos, a diminuição da velocidade de progressão e a estabilização das perturbações cognitivas e psicocomportamentais. O tratamento farmacológico para a demência incide, essencialmente, ao nível dos inibidores das colinesterases (tacrina; donepezilo; rivastigmina; galantamina) e ao nível dos antagonistas dos receptores glutamatergicos (memantina). 22 Na decisão sobre terapêutica deve-se ponderar sobre as repercussões dos sintomas psiquiátricos e comportamentais e o risco dos efeitos adversos dos medicamentos, tendo sempre como principal objetivo o bem-estar do doente. O tratamento de alguns sintomas é fundamental e pode fazer a diferença entre a manutenção do doente no domicílio ou a sua institucionalização. 13 INTERVENÇÕES NÃO FARMOLÓGICAS Fonte:vidanutritiva.net A Atenção Psicossocial é vista aqui como parte do que se costuma chamar de “Clínica Ampliada”, na qual o tratamento medicamentoso, a atenção psicológica, o estímulo à participação da família são essenciais e inter-relacionados desse modo, um conjunto de cuidados integrados e articulados é imprescindível como forma de apoio na gestão do bem estar e da qualidade de vida do paciente (TENÓRIO, 2001 APUD SANTOS 2008 ). A necessidade de melhorar a qualidade de vida dos doentes com demência e das suas famílias tem contribuído para uma maior sensibilização sobre a importância dos programas de reabilitação. Independentemente das técnicas que se utilizem, as intervenções não farmacológicas assentam em grande parte na reabilitação, entendendo esta como a participação ativa da pessoa com incapacidade no sentido de reduzir o impacto da doença e as dificuldades no quotidiano. 23 As técnicas com possibilidades de serem utilizadas englobam modalidades de intervenção psicoterapêutica cujos principais objetivos são: promover ou manter a autonomia; melhorar a função cognitiva ou evitar o seu agravamento brusco; melhorar o estado de saúde geral; estimular as capacidades cognitivas, a identidade pessoal e a autoestima e minimizar o stress. As principais modalidades de intervenção são: Estimulação cognitiva: dirige-se essencialmente à esfera mnésica como forma de treinar a memória, atenção, o processamento da informação, etc.; Terapia de orientação para a realidade: é um conjunto de técnicas simples nas quais se proporciona informação básica (orientação temporal); Terapia por reminiscência: pretende-se que a doente reviva acontecimentos agradáveis como forma de estimulação da memória; Musicoterapia: é uma técnica que permite o relaxamento, diminui a ansiedade e facilita o contato com os outros. Existe também outro tipo de estratégias que pretendem contribuir para a promoção de um envelhecimento ativo e saudável e para a criação de respostas adequadas às necessidades da população idosa, tais como: Cuidados de enfermagem: visam maximizar as potencialidades do idoso, minimizando a sua dependência; Apoio psicológico: intervém a nível psicológico integrado num plano estruturado e individualizado de suporte à díade idoso/família; Apoio social: visa essencialmente modificar o meio do idoso, de modo a tornar mais favorável o seu quotidiano; Convívio social: assenta no objetivo de permitir aos idosos que permaneçam integrados e motivados na vida laboral e social; Intervenção familiar: através de programas que, numa abordagem psicoeducativa, envolvem aspetos relacionados com o conhecimento da própria doença; Psicoeducação: é uma técnica que visa melhorar a compreensão e atitude pelos doentes e sua família, face à demência; é encarada como parte do tratamento e está enquadrada no projeto terapêutico. 24 Todo este conjunto de intervenções tem aqui um papel fundamental, como também na estimulação e preservação das capacidades da pessoa com doença de Alzheimer. Pretende orientá-la e à família/cuidadores para melhorar a respectiva qualidade de vida, com melhores e maiores cuidados, preservando ou retardando a deterioração progressiva e o estresse dos prestadores de cuidados. Uma correta avaliação inicial de forma a detectar as necessidades, com adequada formulação de diagnósticos, leva a poder intervir de forma eficaz, obtendo resultados que tragam ganhos em saúde para a pessoa cuidada e para o cuidador. De salientar que qualquer técnica a implementar deverá ter por base uma avaliação neuropsicológica exaustiva, de modo a identificar os défices e as funções que podem ser estimuladas, o tipo de demência e o estádio em que se encontra. 14 QUAL A LIGAÇÃO ENTRE DEMÊNCIA E DOENÇA DE ALZHEIMER Se anteriormente referimos que a demência inclui alterações cognitivas provocadas por alterações a nível cerebral, mais concretamente a nível neuronal, é aqui que a ligação se estabelece. A doença de Alzheimer é a principal causa de demência, responsável por cerca de 60 a 80% dos casos. Trata-se de uma doença neurodegenerativa, uma vez que leva à morte progressiva dos neurónios, irreversível e de evolução lenta; como tal, existem alterações cerebrais específicas associadasà doença. Verifica-se uma acumulação anormal da proteína beta-amiloide, que leva à formação de várias placas entre os neurónios, e no interior dos mesmos é possível observar a formação de tranças fibrilares, causada pela agregação anormal da proteína tau. A conjugação destas alterações leva a danos ao nível das ligações entre os neurónios (sinapses), que acabam por provocar a morte dos mesmos. Se compararmos um cérebro “saudável” com um cérebro de uma pessoa com doença de Alzheimer, este segundo terá um tamanho consideravelmente menor devido à morte neuronal que é característica da doença. Estas alterações cerebrais ocorrem de forma gradual e têm início vários anos antes dos primeiros sinais de alerta 25 se manifestarem. À medida que se vão acumulando e desenvolvendo, estas alterações neuronais são responsáveis pelo agravamento e deterioração quer das funções cognitivas da pessoa, quer da sua capacidade de desempenho e autonomia diária (Diamond, 2011). Para além da doença de Alzheimer, existem ainda outras causas que estão na origem da demência e que constituem outros tipos de demência. A cada um deles estão associados sintomas diferentes e distintos, bem como alterações cerebrais distintas. 15 QUAL A CAUSA DA DOENÇA DE ALZHEIMER? Fonte:vitalmente.com Atualmente, e de acordo com os resultados obtidos em vários estudos e trabalhos científicos, podemos afirmar que os investigadores detêm um maior conhecimento acerca das alterações químicas que afetam e danificam as células cerebrais nos casos de Doença de Alzheimer. No entanto, a causa para estes fenômenos ainda não foi descoberta. Apesar de tudo, é consensual na comunidade científica a ideia de que, tendo em conta a complexidade da doença, esta tenha uma origem multifatorial, resultando da combinação de vários fatores de risco. 26 16 QUAIS OS FATORES DE RISCO PARA A DOENÇA DE ALZHEIMER? Em primeiro lugar, importa ressalvar que quando falamos de fatores de risco, estamos a referir-nos a características da própria pessoa, a características do seu estilo de vida e do ambiente/contexto onde se insere, e que poderão contribuir para uma maior probabilidade de vir a ter doença de Alzheimer ou outro tipo de demência (Diamond, 2011). Em seguida, vamos enumerar os principais fatores de risco que são atualmente indicados e confirmados por vários estudos científicos divididos em dois grandes grupos: fatores de risco não-modificáveis e fatores de risco modificáveis. Relativamente aos fatores de risco não-modificáveis, temos os seguintes: Idade: é o principal fator de risco para a doença de Alzheimer, uma vez que a prevalência aumenta significativamente à medida que as pessoas ultrapassam os 65 anos de idade; História familiar: pessoas que tenham um parente com doença de Alzheimer (irmão ou irmã) têm maior probabilidade de desenvolver a doença, comparativamente com pessoas que não tenham. Este risco aumenta caso o grau de parentesco seja de 1º grau (pai ou mãe), ou caso exista mais do que um familiar com diagnóstico; Alterações genéticas: através de vários estudos, foram descobertos alguns genes que aumentam a probabilidade de diagnóstico de doença de Alzheimer. O mais estudado e comprovado até hoje é o gene APOE- e4. Ao nascermos, todos herdamos uma cópia do gene APOE de cada um dos nossos pais; no entanto, aqueles que herdam uma cópia da 4ª variante do gene (o APOE-e4) têm uma maior probabilidade de desenvolver doença de Alzheimer. Caso herdem duas cópias, têm um risco ainda mais elevado. No entanto, importa ressalvar que, em ambos os casos, trata-se de uma questão de maior probabilidade e não de certeza/confirmação de diagnóstico. 27 Quando falamos em fatores de risco modificáveis, referimo-nos aos seguintes: consumo excessivo de álcool; obesidade; fumar; hipertensão; colesterol elevado; diabetes (tipo 2); depressão; isolamento e traumas cerebrais. 17 COMO REDUZIR O RISCO DE DESENVOLVER DOENÇA DE ALZHEIMER OU OUTRO TIPO DE DEMÊNCIA? Uma vez que a causa e a cura para a doença de Alzheimer ainda permanecem desconhecidas, a adopção de um estilo de vida saudável e a redução de comportamentos/hábitos como os anteriormente mencionados, assumem uma elevada pertinência e significado na tentativa de reduzir o risco de desenvolver doença de Alzheimer ou outro tipo de demência. Como tal, e de acordo com a Alzheimer Austrália, que desenvolve o programa Hour Brain Matters, aqui ficam cinco “sugestões” de comportamentos/estilos de vida que reduzem o risco de termos doença de Alzheimer ou outro tipo de demência, assentes no pressuposto de que certas medidas preventivas podem de facto ser benéficas para a saúde do nosso cérebro. Cuide do seu coração. Muitas pessoas desconhecem o facto de existir uma forte relação entre a saúde do nosso coração e a saúde do nosso cérebro, isto é, aquilo que é benéfico para o coração é também benéfico para o cérebro. Como tal, é importante adotar alguns comportamentos ou modificar alguns estilos de vida, como por exemplo: controlar/verificar a pressão sanguínea de forma regular; evitar fumar; controlar o peso e realizar exames de rotina com alguma frequência. Pratique exercício físico. São vários os estudos que comprovam a importância do exercício físico para um melhor funcionamento cerebral e o seu impacto na redução do risco de desenvolver algum tipo de demência. Para além de estimular a corrente sanguínea até ao cérebro, o exercício físico está também associado a um maior volume cerebral, bem como estimula o crescimento e as ligações entre as células cerebrais (neurónios). 28 Apesar de ainda não ser consensual e clara a quantidade de exercício necessária, ou a periodicidade necessária para reduzir o risco, sugere-se a prática diária de exercício (moderado a intenso) com a duração de 30 minutos. Ficam em seguida algumas sugestões: praticar caminhadas regularmente (contribui para o aumento do tamanho do hipocampo, área cerebral responsável pela memória); dançar; nadar; andar de bicicleta; treino de resistência. Desafie o seu cérebro. Investigadores descobriram que quando desafiamos o nosso cérebro com novas tarefas e atividades, estamos a estimular e promover a criação de novas ligações neuronais e a fortalecer as existentes. Desta forma, estamos a possibilitar que o nosso cérebro tenha uma maior “reserva” que lhe permita melhor lidar e manter-se funcional, caso se venha a verificar algum dano ou morte neuronal. Ficam em seguida algumas sugestões: envolver-se em hobbies de acordo com os seus interesses; aprender algo novo ex: tocar um instrumento musical); ler e pesquisar ou aprofundar temas de acordo com os seus interesses. Mantenha uma dieta saudável. Apesar de não existirem evidências estatísticas significativas que nos indiquem se existem alimentos específicos que reduzam o risco de desenvolvermos demência, há, no entanto, estudos que sugerem que uma dieta saudável e equilibrada poderá contribuir para manter o cérebro saudável e em bom funcionamento. No entanto, deixamos de seguida algumas recomendações quanto à dieta alimentar, retiradas de uma guideline australiana uma vez que se acredita terem um forte impacto na redução do risco de doenças cardiovasculares e também de demência (Farrow, 2010): evitar o consumo de gorduras saturadas; comer duas peças de fruta por dia; comer cinco porções de legumes por dia; consumir alimentos ricos em ómega 3 (ex: peixes e nozes) e não beber mais do que dois copos de vinho por dia. Mantenha-se socialmente ativo. Vários estudos demonstraram o efeito positivo das interações sociais, sobretudo no que diz respeito à diminuição do risco de desenvolver algum tipo de défice cognitivo 29 ou demência. Acredita-se ainda que a conjugação de atividades sociais com o exercício físico e/ou mentalpoderá diminuir ainda mais este risco. Como tal, é fundamental que as pessoas se mantenham envolvidas em atividades na comunidade, que estas sejam do seu interesse e na qual participem pessoas significativas, cuja companhia seja do seu agrado. Deixamos de seguida alguns exemplos: conversar com familiares e amigos (melhor ainda, conversar enquanto fazem uma caminhada); ir ao teatro ou assistir a um concerto; manter contato com os vizinhos; integrar um grupo de voluntariado. Para além destes cinco tópicos, a Alzheimer Austrália alerta ainda para a importância de evitarmos traumatismos cranianos, sobretudo situações graves que envolvam a perda de consciência, uma vez que existe um maior risco de demência associado. (SAMPAIO, 2006) Como tal, é fundamental que se proteja adequadamente a cabeça aquando da prática de certo tipo de atividades (ex: andar de bicicleta ou andar de motorizada), e se procure minimizar o risco de queda, sobretudo nas pessoas mais idosas. Por último, é ainda referida a importância de controlar e prevenir (novos) episódios e estados depressivos, uma vez que existem cada vez mais estudos que apontam para uma relação de risco entre a depressão e a demência. 18 COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO DE DOENÇA DE ALZHEIMER? De acordo com Bouse (1994) citado por Ribeiro (2016) para realizar uma avaliação semiológica mais detalhada nos pacientes com doença de Alzheimer, são recomendados também testes neuropsicológicos que permitam confirmar o diagnóstico de demência e quantificar o grau da mesma, assim como aprofundar o conhecimento do perfil neuropsicológico da deterioração mental da DA, avaliar seu curso evolutivo e as possíveis respostas terapêuticas. Não existe um teste único que permita realizar o diagnóstico de doença de Alzheimer. Este processo é feito por exclusão, isto é, através de diferentes abordagens terapêuticas os médicos especialistas (neurologista ou psiquiatra) 30 avaliam o estado de saúde da pessoa e procuram identificar outras condições ou patologias que possam levar ao mesmo tipo de sintomas. Após excluir todas as hipóteses (algumas delas reversíveis), o médico poderá assim determinar se se trata de um caso de doença de Alzheimer ou de outro tipo de demência (Mendes et al. 2005). Este é um processo complexo, uma vez que envolve várias etapas e envolve obrigatoriamente os seguintes exames / dados: História clínica e familiar da pessoa: obtida através da própria pessoa e adjuvada com informação do cuidador principal; é também fundamental que sejam mencionados os sinais de alerta manifestados, o início dos mesmos e as alterações observadas nas atividades de vida diária; Análises laboratoriais ao sangue e urina: de modo a excluir outro tipo de patologias ou estados de saúde decorrentes de alterações ao nível da função hepática, função renal, tiroideia, vitamina B12, ácido fólico, etc; Avaliação neuropsicológica: através de vários testes de pergunta - resposta, que irão avaliar e quantificar o desempenho da pessoa ao nível das várias funções cognitivas (memória, linguagem, cálculo, orientação, etc.) - exames de imagem: é geralmente realizada uma TAC crânio- encefálica, bem como uma ressonância magnética, no sentido de detectar possíveis alterações cerebrais já existentes. 19 QUAL É A IMPORTÂNCIADE UM DIAGNÓSTICO PRECOCE? Por vezes, e na grande maioria dos casos de Doença de Alzheimer, os primeiros sinais ou sintomas da doença são ignorados ou desvalorizados pela própria pessoa e pelos seus familiares, uma vez que existe alguma dificuldade em distinguir o que são alterações próprias do envelhecimento e o que poderão ser sinais de alerta. Apresentamos de seguida um quadro que compara sinais de alerta típicos da doença de Alzheimer ou de outra demência, com sinais relativos a alterações próprias do envelhecimento. 31 No entanto, à medida que a doença vai evoluindo, vão surgindo sintomas mais notórios, que começam a afetar o desempenho da pessoa em certas atividades do dia-a-dia, sobretudo naquelas que exigem uma maior capacidade de raciocínio e de análise/interpretação e consequente resposta (ex: gerir as compras da casa, gerir a medicação, etc.). Nalguns casos, é a própria pessoa que identifica nela mesma estas alterações, enquanto noutros casos são os familiares mais próximos (cônjuge e/ou filhos) que se vão apercebendo e observando as alterações na memória, no comportamento e na capacidade de desempenho. O conhecimento destes sinais de alerta é fundamental para que se consiga alcançar um diagnóstico cada vez mais precoce, que permite e promove a oportunidade de a pessoa se “ajustar”, adaptar e reagir ao diagnóstico, bem como participar ativamente no planeamento do seu futuro (Leifer, 2003). 1 - Perda de memória que afeta a rotina diária. Esquecimento de informações recentes (défices na memória a curto - prazo). Repetir várias vezes a mesma questão, ou repetir temas de conversa após um curto período de tempo. 2 - Dificuldade em planear ou resolver problemas. Perder a capacidade de desenvolver e seguir um plano de trabalho. Ter dificuldade em seguir uma receita familiar. Ter dificuldade em lidar com números e gerir as contas mensais. 3 - Dificuldade em executar tarefas familiares. Ter dificuldades em executar tarefas diárias habituais (ex: cozinhar, vestir-se). Ter dificuldades em conduzir até um local conhecido. 4 -Perda da noção de tempo e/ou lugar. Perder a noção de datas, estações do ano e da passagem do tempo. Ter dificuldades em entender alguma coisa que não esteja a acontecer naquele preciso momento. Esquecer-se onde está no momento, ou como chegou até lá. 5 - Dificuldade em perceber imagens visuais e relações especiais. 32 Ter dificuldades na leitura. Ter dificuldades em calcular distâncias e determinar uma cor ou o contraste. 6 - Problemas de linguagem. Ter dificuldades em acompanhar ou inserir-se numa conversa. Parar a meio de uma conversa e não saber como continuar ou repetir várias vezes a mesma coisa. Ter dificuldades em encontrar palavras adequadas para se expressar ou dar nomes errados às coisas. 7 - Trocar o lugar das coisas. Colocar objetos em lugares desadequados (ex: os óculos no frigorífico). Perder objetos e não ser capaz de voltar atrás no tempo para se lembrar de quando ou onde os usou. Acusar os outros de lhe roubar as suas coisas. 8 - Discernimento fraco ou diminuído. Não ser capaz de perceber/identificar situações de burla, e ceder a pedidos de dinheiro. Vestir-se desadequadamente consoante a estação ou ocasião. Não ir logo ao médico quando tem uma infeção, pois não reconhece a infeção como algo problemático. 9 - Afastamento do trabalho e da vida social. Começar a abandonar os hobbies, atividades sociais, projetos de trabalho ou desportos favoritos. Evitar situações de interação social, com receio que as outras pessoas se apercebam das suas dificuldades. Maior isolamento e tendência para querer ficar em casa. 10 - Alterações de humor e personalidade Tornar-se confuso (a), desconfiado (a), deprimido (a), com medo ou ansioso (a). Irritar-se com facilidade em casa, no trabalho, com os amigos ou em locais onde se sinta fora da sua “zona de conforto”. Súbitas alterações de humor – da serenidade ao choro ou à angústia – sem que haja qualquer razão para tal facto. 33 20 COMO É QUE A DOENÇA DE ALZHEIMER PROGRIDE? Como já referido anteriormente, a doença de Alzheimer é progressiva e degenerativa, pelo que vai piorando e agravando ao longo do tempo. São habitualmente sugeridas três fases que descrevem a evolução da doença e a forma como as capacidades da pessoa se vão alterando ao longo do tempo (Alzheimer fase inicial / ligeira; fase intermédia / moderada; fase final / avançada / grave. Importa salientarque cada pessoa tem o seu padrão de evolução e que a velocidade com que as suas capacidades se deterioram também difere de caso para caso. No entanto, existem alguns padrões que são comuns a todos os casos e que permitem a sugestão da existência destas três fases, que pretendem ser um guia geral acerca do que esperar com a evolução da doença (Sereniki; Vital, 2008) O quadro seguinte indica algumas características e comportamentos mais frequentes em cada uma das diferentes fases. FASE INICIAL / LIGEIRA - Maior apatia - Perder interesse em hobbies - Maior lentidão na compreensão de ideias complexas - Demorar mais tempo a completar tarefas habituais/rotineiras - Esquecer-se de acontecimentos / informações recentes - Dificuldade em lidar com dinheiro - Perda de espontaneidade - Alterações na personalidade e no humor (estar mais irritado (a), ansioso ou preocupado quando falha alguma tarefa) FASE INTERMÉDIA / MODERADA - Esquecimentos cada vez mais frequentes - Tornar-se muito repetitivo (a) - Memória a longo-prazo está geralmente preservada, mas por vezes confundem ou esquecem alguns detalhes de acontecimentos passados 34 - Perder-se com facilidade - Maior confusão relativamente ao tempo e ao espaço - Ter muita dificuldade em realizar operações de cálculo simples - Esquecer-se do nome de familiares ou amigos, ou confundir membros da família entre si - Dificuldades ao nível da linguagem, da escrita e da leitura - Inquietação, agitação, ansiedade e deambulação – Sobretudo ao final da tarde ou à noite - Comportamentos socialmente inapropriados - Alucinações, delírios, paranoia e irritabilidade - Incapacidade de realizar tarefas que envolvem etapas e sequências (ex: vestir-se, pôr a mesa, cozinhar) - Dificuldade em reconhecer familiares e amigos FASE AVANÇADA / GRAVE - Não reconhecer familiares ou amigos - Não ser capaz de comunicar oralmente - Perda da capacidade de compreender o discurso dos outros - Dependência total ao nível da higiene, alimentação, vestir, etc. - Perda da capacidade de andar – na cama todo o dia - Incontinência total (urinária e fecal) - Dificuldade em engolir e mastigar alimentos - Perda de peso - Risco elevado de úlceras de pressão: 35 21 TRATAMENTO E MEDICAÇÃO PARA A DOENÇA DE ALZHEIMER? Fonte:www.tacerto.com De acordo com Lozano (1977) citado por Ribeiro (2016) aproximadamente em 80% dos casos é a família quem se responsabiliza pelo enfermo. Em muitas vezes isso é feito em condições dramáticas e sem nenhum tipo de ajuda, subvenção (subsídio ou auxílio pecuniário, informação, apoio ou consideração. Apesar do grande avanço em termos de fisiopatologia e de marcadores das demências ocorridos na última década, o tratamento ainda é pouco eficaz sobre a melhora dos sinais e sintomas e sobre o curso clínico, principalmente na DA. Não há, ainda no caso de demências de etiologia neurodegenerativa, tratamento capaz de evitar a progressão da doença. Tanto os tratamentos não medicamentosos quanto os medicamentos podem apenas reduzir a velocidade das perdas, diminuindo o uso de antipsicóticos que podem ser nocivos e aumentar a mortalidade em pacientes com demência. (GUERRA, 2017) O tratamento inicial é realizado com inibidores da enzima acetilcolinesterase, objetivando aumentar a disponibilidade de acetilcolina na fenda sináptica. O déficit colinérgico é o principal marcador fisiopatológico da DA e da doença de Lewy, por exemplo. Essa classe de drogas pode ter algum efeito eficaz entre pacientes com demência até o momento. Portanto, os inibidores da acetilcolinesterase somente são indicados a casos de DA, doença de Lewy e demência vascular. 36 Para além desta intervenção farmacológica, existe ainda a intervenção não- farmacológica. De acordo com o projecto European Collaboration on Dementia (Eurocode), conduzido pela Alzheimer Europe e financiado pela Comissão Europeia, o tratamento da doença de Alzheimer deve conciliar estes dois tipos de tratamentos. Quando falamos em tratamento não farmacológico, estamos a referir-nos a um conjunto de intervenções não químicas que procuram, entre outros aspectos. Maximizar o funcionamento cognitivo da pessoa (retardar a evolução do doença e consequente perda de capacidades); Ajudar no processo de adaptação à doença; Diminuir a sobrecarga dos cuidados prestados pelo cuidador. 21.1 Incapacidade cognitiva A cognição é o conjunto de funções cerebrais formadas pela memória (capacidade de armazenamento de informações), função executiva (capacidade de planejamento, antecipação, sequenciamento e monitoramento de tarefas complexas), linguagem (capacidade de compreensão e expressão da linguagem oral e escrita), praxia (capacidade de executar um ato motor), gnosia (capacidade de reconhecimento de estímulos visuais, auditivos e táteis) e função visuoespacial (capacidade de localização no espaço e percepção das relações dos objetos entre si). O funcionamento integrado destas funções nos permite interagir com as pessoas e com o mundo, com o objetivo de resolvermos as dificuldades do cotidiano, é responsável pela nossa capacidade de decidir, que, juntamente com o humor (motivação), é fundamental para a manutenção da autonomia. A individualidade é resultante do 37 acúmulo de conhecimentos da nossa história e da cultura que herdamos. A perda da cognição ou incapacidade cognitiva é, portanto, o “desmoronamento” ou o “apagamento” da identidade que nos define como ser pensante. O envelhecimento fisiológico não afeta a cognição de forma significativa. Ocorre uma atrofia do sistema nervoso central, o que pode ser percebido em toda tomografia computadorizada de crânio. O lobo frontal parece ser a região mais acometida, de forma irregular. As únicas consequências são maiores lentificações no processamento cognitivo, redução da atenção (déficit atentivo), maior dificuldade no resgate das informações aprendidas (memória de trabalho), redução da memória prospectiva (“lembrar-se de lembrar”) e memória contextual (dificuldades com detalhes). Estas alterações não trazem nenhum prejuízo significativo na execução das tarefas do cotidiano. As alterações dos órgãos dos sentidos (visão, audição, entre outros) dificultam o acesso às informações e ao aprendizado. Desta forma, o envelhecimento normal é aquele apresentado por Dona Conceição, que mantém sua capacidade de resolver os problemas do dia-a-dia, embora de forma mais lenta. Por outro lado, Dona Ofélia apresenta “lapsos de memória” preocupantes, pois estão trazendo importantes repercussões no seu funcionamento habitual. Ela não é mais capaz de resolver os problemas da casa, como fazer compras, controlar as finanças, sair sozinha e cozinhar. Portanto, não podemos atribuir estas mudanças ao envelhecimento normal. 38 22 COMO SE SUSPEITA DE DEMÊNCIA? Demência significa a perda do funcionamento harmonioso das funções cognitivas e comportamentais, comprometendo a autonomia e a independência do indivíduo. A prevalência de demência é estimada em cerca de 5% da população idosa em geral e aumenta com a idade, dobrando a cada cinco anos, aproximadamente, após os 65 anos de idade. Em Catanduva, no Brasil, a prevalência de demência foi de 7,1% entre os habitantes com 65 anos ou mais; 1,6%, entre os de 65 a 69 anos; 3,2%, entre os de 70 a 74 anos; 7,9%, entre os de 75 a 79 anos; 15,1%, entre os de 80 a 84 anos e 38,9%, entre os maiores de 85 anos. Segundo o DSM IV-TR, Manual de Classificação de Doenças Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (2002), o diagnóstico de demência deve ser dado na presença de múltiplos déficits cognitivos, que incluem o comprometimento da memória e outra função cognitiva (linguagem, função executiva, gnosia e praxia). A repercussão deve ser grave o suficiente para comprometer o funcionamentosocial e ocupacional (atividades de vida diária) e representar um declínio em relação a um nível anteriormente avaliado. O diagnóstico não pode ser dado exclusivamente Figura 1 – Esquema do esquecimento Fonte: Moraes (2008). 39 durante o curso de um delirium (confusão mental aguda), nem ser explicado por doença psiquiátrica, como depressão maior e esquizofrenia. As queixas relacionadas à memória seguem, normalmente, uma hierarquia cronológica. Inicialmente, o déficit é secundário ao comprometimento da memória e é descrito como esquecimento para fatos recentes, perda de objetos, acidentes domésticos, desorientação temporal e espacial, e repetição de fatos, respeitando o gradiente temporal (memória episódica recente, intermediária e remota). Com a evolução da doença, há maior comprometimento da memória, com empobrecimento do conhecimento do mundo, nomeação inadequada, discurso pobre e dificuldade de compreensão de conceitos. Em fases mais avançadas da doença, o paciente apresenta, inclusive, dificuldades de repetir instruções simples (memória de curto prazo). Afasia – alterações da linguagem representadas pela presença de: Anomia (dificuldade de nomeação de objetos ou de achar a palavra apropriada); Circunlóquios explicativos (invenção de histórias para justificar a dificuldade cognitiva, rodeio de palavras); Parafasias (substituição de palavras); Logorréia (fala incessante), discurso pobre, termos vagos (coisa, troço), neologismos, erros gramaticais e frases inacabadas. Disfunção executiva – percebida pela presença de: Desatenção, distração; Dificuldade na realização de atividades que exigem sequenciamento, planejamento e mudança de estratégias (fazer a barba, fazer compras, sair de casa); Perseveração motoras ou verbais (rituais); Dificuldade na resolução de problemas do cotidiano ou de tomar decisões; Inadequação no julgamento de situações ou problemas do cotidiano. 40 O comprometimento do lobo frontal também está associado à desregulação do comportamento social e controle das emoções, com desinibição, inquietação motora, perambulação, jocosidade inadequada, hipersexualidade, hiperfagia, agressividade, comportamento antissocial, labilidade emocional, apatia sem o colorido negativista do deprimido e sem ideação suicida, perda de iniciativa ou motivação, desinteresse por atividades ou passatempos e irritabilidade. Apraxia – é a incapacidade de executar atividades motoras, apesar do funcionamento motor intacto. Caracteriza-se pela dificuldade para vestir-se, amarrar os sapatos, pentear o cabelo, andar, cozinhar, acender o cigarro, usar a chave, entre outros. Agnosia – é a incapacidade de reconhecer ou identificar objetos, apesar do funcionamento sensorial intacto. O paciente ou familiar menciona dificuldade de decodificação ou reconhecimento do estímulo, na ausência de comprometimento dos órgãos do sentido. Nas fases avançadas ocorre agnosia de objetos, cores e faces (prosopagnosia). 23 QUAIS SÃO OS CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA DEPRESSÃO, DELIRIUM E DOENÇA MENTAL? As desordens depressivas representam um grupo de entidades clínicas ou síndromes independentes caracterizadas pela baixa do humor e variabilidade na gravidade. Deve ser diferenciada de tristeza, ou seja, existe a depressão-sintoma e a depressão-doença. A tristeza é um sentimento presente em vários momentos da vida. Por exemplo: na reação ao luto, a tristeza está presente, mas é insuficiente para inviabilizar completamente os projetos de vida da pessoa, que preserva o interesse em algumas atividades. Shader (2005) citado por Furlanetto, (2006) observa que, na sua experiência clínica, a desmoralização per se geralmente não responde aos antidepressivos, embora agentes dopaminérgicos possam ocasionalmente ser úteis. Os clínicos, uma vez que reconheçam a presença de desmoralização, devem trabalhar com o paciente para promover o sentimento de capacidade, domínio (mastery) e o retorno da esperança. Encorajamento, suporte e educação são essenciais. Esforços para 41 restabelecer o sentimento de capacidade devem ser empregados e ser consistentes com o nível de compreensão e as atitudes do paciente. O paciente supera a perda progressivamente, num período variável de 4 a 12 meses. O envelhecimento está associado a diversas perdas, desde familiares queridos, cônjuges, filhos, perda do prestígio social e do nível socioeconômico e, finalmente, da própria independência física. Entretanto, estas perdas são superáveis e podem permitir uma vida psíquica normal. A depressão maior é, atualmente, a principal causa de incapacidade no mundo moderno e constitui-se em verdadeira “epidemia silenciosa”, cuja importância na morbimortalidade geral se aproxima aos observados nas doenças crônico-degenerativas. No idoso, a depressão maior está associada a vários sintomas somáticos, que dificultam o diagnóstico. A prevalência de depressão maior varia de 10%, nos idosos residentes na comunidade, até 30%, nos idosos institucionalizados. Os critérios diagnósticos de depressão maior, segundo o DSM-IV, incluem a presença de cinco ou mais sintomas durante o período de duas semanas (todos os dias ou quase todos os dias) e que representaram uma alteração do seu funcionamento anterior. Pelo menos um dos sintomas é humor deprimido ou perda do interesse ou prazer (anedonia): Interesse ou prazer acentuadamente diminuídos: o idoso deixa de sentir prazer com atividades que anteriormente eram agradáveis, tendendo ao isolamento social e familiar; Humor deprimido indicado por relato subjetivo (sensação de tristeza, autodesvalorização e sentimento de culpa) ou observação feita por outros: o idoso menciona sensação de vida vazia, demonstra fácil irritabilidade (“rabugento”) ou considera-se um peso para a família, afirmando ser a morte a única solução. Tendência à emotividade excessiva, com crises de choro frequentes; Perda ou ganho significativo de peso sem estar em dieta, ou diminuição ou aumento do apetite: a inapetência é o sintoma mais comum e importante causa de emagrecimento no idoso. Pode predominar e mascarar sintomas como baixa do humor e anedonia, dificultando o diagnóstico de depressão (depressão mascarada). Figura 2 – TIME das demências reversíveis 42 Insônia ou hipersonia: habitualmente a insônia é terminal (matinal, despertar cedo e piora matinal da sintomatologia depressiva) ou sono entrecortado e dificuldade para dormir novamente. Portanto, a queixa de insônia, tão comum no consultório, deve sugerir prontamente o diagnóstico de depressão; Agitação ou retardo psicomotor; Fadiga ou perda de energia: por vezes simulando doenças consumptivas, insuficiência cardíaca congestiva, hipotireoidismo, parkinsonismo (bradicinesia), polimialgia reumática, entre outros; sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada; Capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se: lentificação do pensamento com déficit atencional significativo, por vezes simulando síndrome demencial (“pseudodemência”); Pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida recorrente. As principais causas de demência irreversível não-Alzheimer incluem: Demência vascular: representa a segunda causa de demência no idoso, responsável por 15% a 20% de todas as demências. No Brasil, em Catanduva, esteve presente em 18% dos idosos com demência. Resulta da presença de doença cerebrovascular isquêmica ou hemorrágica, assim como da injúria cerebral resultante do hipofluxo cerebral. A associação entre doença cerebrovascular e demência remonta da Antiguidade. O termo “esclerose” foi muito utilizado para descrever a importância das doenças cerebrovasculares como principal causa de demência associada ao envelhecimento. A descrição da doença de Alzheimer como principal causa de demência resultouna “alzheimerização” das demências e, muitas vezes, os termos “doença de Alzheimer” e “demência senil” são considerados sinônimos. Os critérios para o diagnóstico de demência vascular, segundo o DSM-iv, são: Desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos manifestados tanto por (1) quanto por (2): Comprometimento da memória: amnésia Uma das seguintes perturbações cognitivas: 43 Afasia: perturbação da linguagem; Apraxia: capacidade prejudicada de executar atividades motoras, apesar do funcionamento motor intacto; Agnosia: incapacidade de reconhecer ou identificar objetos, apesar do funcionamento sensorial intacto; Disfunção executiva: perturbação do funcionamento executivo (i.e., planejamento, organização, sequenciamento, abstração). Os déficits cognitivos nos critérios (1) e (2) causam comprometimento significativo do funcionamento social ou ocupacional e representam um declínio significativo em relação a um nível anteriormente superior de funcionamento. Sinais e sintomas neurológicos focais (por exemplo: exagero dos reflexos tendinosos profundos, resposta extensora plantar, paralisia pseudobulbar, anormalidades da marcha, fraqueza em uma das extremidades) ou evidências laboratoriais indicativas de uma doença cerebrovascular (por exemplo: múltiplos infartos envolvendo o córtex e a substância branca) considerados etiologicamente relacionados à perturbação. Os déficits não ocorrem exclusivamente durante o curso de um delirium. Demência por corpos de Lewy: a Demência por Corpos de Lewy (DCL) representa a segunda causa de demência degenerativa, responsável por 15% a 25% dos casos. O diagnóstico correto é fundamental para o manejo farmacológico. A sintomatologia cognitiva, comportamental, motora, autonômica e os distúrbios do sono respondem bem ao uso de anticolinesterásicos e apresentam grande hipersensibilidade ao antipsicóticos, podendo induzir a complicações potencialmente fatais. As manifestações centrais da doença são: presença de parkinsonismo precoce e espontâneo, flutuação cognitiva e alucinações visuais recorrentes e complexas. Além disso, é frequente a presença de alterações do sono REM (sonhos vívidos e pesadelos). A sintomatologia apresentada por Dona Ofélia teve início insidioso e caracterizado pela presença de esquecimento progressivo. Não houve evolução em degraus e não foi percebido déficit motor ou alteração da marcha. Além disso, o único 44 fator de risco para doença cerebrovascular é a idade. Como já vimos, a Tomografia Computadorizada (TC) de crânio foi normal para a idade. Desta forma, o diagnóstico de demência vascular torna-se pouco provável. O diagnóstico de Corpos de Lewy pode também ser descartado pela ausência de parkinsonismo e alucinações visuais precoces. Os únicos sintomas psicóticos apresentados pela paciente são as ideias delirantes de roubo e perseguição. Não houve relato de alucinações visuais. A única flutuação observada é a piora da agitação psicomotora no final do dia, ao entardecer, quando a paciente insiste que não está em sua casa e pede insistentemente para ser levada para sua verdadeira casa. Não há desinibição, comportamento anti-s ocial, hipersexualidade ou qualquer outro sintoma que sugira o diagnóstico de demência frontão-temporal. Figura 3 – Principais causas de demências irreversíveis Fonte: Moraes (2008). 45 23.1 Quedas Fonte:saudebrasilnet.com.br 24 DEFINIÇÃO As quedas trazem aos idosos serias consequências físicas, psicológicas e sociais, sendo que geralmente o que mais gera mais preocupação para as pessoas são os danos físicos. Estes realmente são muito perigosos, pois podem levar as pessoas a morte, porém, a maioria das quedas não leva a este tipo de ocorrência e sim trazem outras consequências que muitas vezes são, negligenciadas. Para os idosos e sua família a dependência pós queda,os danos sociais e psicológicos são problemas muito difíceis de serem superados (Maia et al 2019 ;Borges 2016 ). A queda é um evento frequente no idoso. Uma lesão por queda pode ser custosa para o idoso, em termos de morbidade, funcionalidade e independência, e em termos de custos de saúde (privada ou pública) e institucionalizações. Antigamente, acreditava-se que a queda era um evento inevitável no idoso, então não era objeto de estudos. Isso mudou muito nos últimos 20 anos (GUERRA, 2017). A etiologia da queda pode ser identificável. Os componentes ambientais e fisiológicos alterados são os mais fáceis de serem identificados. Uma queda é resultado de uma miríade de interações entre ambiente, morbidades, sistema sensorial prejudicado, bem como sistemas vestibular, proprioceptivo e motor. 46 Segundo Guerra, no estudo dos mecanismos e da interação dos sistemas ligados à manutenção da postura e do equilíbrio, conclui-se que 2 fatores devem acontecer: perturbação do equilíbrio e falha do sistema de controle postural na compensação, itens que podem ser mais detalhados e estudados em seus pormenores, porém nossa ênfase será na identificação de fatores de risco e na tentativa de prevenção de quedas. 25 EPIDEMOLOGIA Para Kuchemann (2012) citado por Borges (2013) atualmente a faixa etária 80 anos e mais é composta por 2.935.585 pessoas (IBGE. 2011), o que representa 14% da população idosa. A queda é um evento súbito e por isso, como indicador epidemiológico, é estimada em taxa de incidência (número de casos novos por ano). Quadro abaixo – Percentual de incidência de quedas dos idosos por faixa de idade. Estudos prospectivos (estudos que analisam uma comunidade por um determinado período de tempo) Dados Norte – Americanos apontam para 16.000 óbitos secundários a quedas no ano. Cerca de 1/3 dos idosos acima de 65 anos cai anualmente, e, acima dos 80 anos, o risco chega à 50%. Acredita - se que o custo anual do tratamento das fraturas de quadril chegue a US$ 10 bilhões, e cerca de 90% das fraturas de quadril são causadas por quedas (GUERRA, 2017).1 Um estudo transversal em 7 estados brasileiros mostrou prevalência de queda em torno de 35% para homens idosos e de 40% para mulheres idosas, e um estudo 47 americano com cerca de 150.000 idosos mostrou 5,3% de internações decorrentes de lesões por quedas, evento mais comum emmulheres. É animador saber que os idosos mais saudáveis caem menos. A Caderneta da Pessoa Idosa é um instrumento que ajuda a identificar os idosos que caem com mais frequência, principalmente, nos últimos 12 meses. Esses dados são interessantes, pois refletem um pouco da realidade brasileira. Em idosos asilados, 50% estão sujeitos a quedas e a prevalência média nas instituições é de cerca 43%. Essas estatísticas nos confirmam a impressão de que quanto pior a capacidade funcional, maior o risco de quedas. Os idosos asilados apresentam maior limitação de movimento e marcha e, por isso, maior chance de cair. Como consequência da queda pode haver a hospitalização que é mais frequente na faixa etária mais elevada. Nessas instituições, a prevalência de quedas é maior (cerca de 43%) o 1ambiente em que mais acontece é o quarto, e fatores como depressão, número de medicações e etnia caucasiana estão relacionados com maior probabilidade. Mais da metade das quedas ocorre dentro de casa, porém a taxa aumenta em instituições ou hospitais. O risco de lesão também é maior fora do domicílio. As quedas podem provocar sintomas de ansiedade e depressão. A perda de confiança na capacidade de deambular com segurança pode resultar em piora do declínio funcional, depressão, sentimento de inutilidade e isolamento social. Após a queda, o idoso pode restringir sua atividade por precaução, dor ou incapacidade funcional. A fratura de fêmur é o exemplo mais importante desse declínio funcional que é encontrado também em outras fraturas, gerando um grande impacto negativo na independência. A reabilitação pós-queda pode ser demorada e pode haver acamamento prolongado, levando a complicações maiores ainda, como tromboembolismo venoso, úlceras por pressão e incontinência urinária. O idoso mais restrito pode demandar um tempo maior do seu cuidador, acarretando problemas de relacionamento. Os “caidores” apresentam maior institucionalização. 48 26 FATORES RELACIONADOS A QUEDAS Fonte:media.rtp.pt As fraturas são resultados de 5% a 10% das quedas, sendo que 1 % á 2% são fraturas de colo de fêmur, e esta tem um custo pessoal, familiar e socioeconômico altíssimo. Quando investigadas 90 % delas são resultados de uma queda e, quando invariavelmente as pessoas são hospitalizadas e a maioria sofre intervenção cirúrgica. Dos outros tipos de fratura, mais da metade ocorre nos membros inferiores ou superiores, mas fraturas também importantes são as de costelas, pelve, face e crânio. Felizmente fratura de coluna vertebral. Em um ano 40% desses idosos ou morrem ou vão para casa de repouso. (Paschoal, Lima 2006; apud Borges, 2016). Vários estudos apontam para um aumento do risco de quedas com o aumento da idade e relacionado também a mulheres. A maioria dos fatores é interdependente e a combinação destes é mais importante do que cada um analisado separadamente. Por exemplo: idade e função cognitiva, confusão mental e dependência, doença neurológica e distúrbio de marcha. Há relação também com algum grau de comprometimento nas atividades de vida diária, (AVD) presença de várias doenças clínicas e viver só ou passar a maior parte do tempo sozinho. Sintomas psicológicos, como depressão e ansiedade, também são fatores de risco. (SAMPAIO, 2006). 49 De acordo com o mesmo autor, há uma confluência de fatores que aumentam o risco de quedas. Mesmo que a pessoa ainda não tenha caído, você pode identificar se ela está correndo um risco maior de cair. Esta informação é a missão principal do estudo deste tema: identificar e prevenir. A maioria das quedas ocorre durante o dia e somente 20% à noite. É mais comum dentro de casa nos cômodos mais utilizados (quarto e banheiro). Assim, podemos inferir que não só há um perfil de idoso mais propenso a quedas, como há um cenário mais comum no qual ocorre o evento. Podemos classificar os fatores contribuintes para as quedas como: Intrínsecos – são aqueles relacionados ao indivíduo, levando à instabilidade postural. São responsáveis por cerca de 70% dos incidentes de queda. Extrínsecos – são aqueles relacionados ao ambiente que cerca o indivíduo. São responsáveis por 30% dos incidentes de queda. Fatores intrínsecos Alterações ligadas ao envelhecimento Uma das mais importantes mudanças da idade é a diminuição da velocidade de integração central dos mecanismos envolvidos no reflexo postural. Ou seja, a resposta neurológica e, consequentemente, motora aos estímulos está lentificada. As alterações descritas a seguir compõem o quadro das alterações ligadas à idade que predispõem o indivíduo idoso a quedas: diminuição da visão e da audição, distúrbios vestibulares, distúrbios da propriocepção, aumento do tempo de reação, hipotensão postural, degeneração articular, diminuição da massa muscular, sedentarismo, deformidades dos pés, perda da massa muscular (diminuição do tamanho e da quantidade de fibras musculares), aumento de colágeno muscular (fibrose muscular) e perda das fibras nervosas de condução rápida. Estas alterações conferem uma marcha característica da pessoa idosa ou marcha senil, caracterizada por: Base alargada Diminuição do balanço dos braços Postura encurvada Flexão de quadril e joelhos 50 Dificuldade para retornar Passos curtos Lentidão Doenças específicas Há uma forte relação entre distúrbio de equilíbrio e marcha e quedas. Por isso, doenças neurológicas – como hematoma subdural, demência, doença de Parkinson, acidente vascular encefálico (AVE), delirium, neuropatia periférica, epilepsia, traumatismo craniencefálico (TCE), tumores do sistema nervoso central (SNC) e labirintopatia – podem afetar o equilíbrio e a marcha e serem fatores de predisposição a quedas. Algumas doenças clínicas também podem ocasionar quedas, dentre elas: doença coronariana (DAC), insuficiência cardíaca (IC), síncope de origem cardiogênica, hipertensão arterial (HAS), arritmia, insuficiência vértebrobasilar, hipotensão ortostática, desidratação, insuficiência renal (por deficiência de vitamina D), síndrome vaso-vagal, sangramento oculto, hipo e hiperglicemia, hipo e hipertireoidismo, distúrbios hidroeletrolíticos, infecções, depressão, anemia, hipotermia, alcoolismo, incontinência urinária, doença pulmonar e embolia pulmonar. Não podemos esquecer que maus-tratos, principalmente em pacientes demenciados, podem estar arrolados neste processo. Qualquer doença aguda pode diminuir transitoriamente a perfusão cerebral e aumentar a possibilidade de perda de consciência e quedas. Você pode perceber que devemos investigar as doenças clínicas na abordagem do paciente que apresente quedas. Medicamentos As medicações possuem importante papel na origem das quedas, não só por seus efeitos intrínsecos, mas por alteração da farmacocinética e farmacodinâmica causada pela idade. Esta se dá por alteração da gordura corporal (aumento de 35%), diminuição do metabolismo renal e hepático. Vários estudos associam uso de medicamentos a quedas. As classes incluem drogas: Psicoativas, Cardiovasculares e vasodilatadores, Uso de mais de quatro medicações (poli farmácia). 51 Os benzodiazepínicos e neurolépticos são mais constantemente implicados no risco de quedas e os antidepressivos também. O uso de álcool aumenta o risco de quedas, mas não há associação com as lesões. Resumindo, as drogas psicoativas têm um efeito de lentificação da resposta, sonolência, hipotensão postural e outros efeitos anticolinérgicos, como visão turva. Já os anti-hipertensivos podem aumentar a chance de queda por hipotensão postural. É de vital importância que você entenda os efeitos colaterais que ocorrem com as medicações para correlacionar com o risco de quedas e verificar qual medicação usada pelo paciente pode ser mais nociva. Algumas considerações em relação ao perfil do cuidador: Indivíduos entre 75 e 84 anos que necessitam de ajuda para AVD têm possibilidade de quedas 14 vezes maior do que os independentes. Não conseguir levantar-se sem assistência em menos de cinco minutos após a queda, aumenta o risco de hospitalização ou, até mesmo, de óbito. Aqueles que conseguem se levantar estão em melhores condições físicas. Fatores extrínsecos Riscos ambientais Tipos de movimentação executada pelo indivíduo. Mais de 70% das quedas acontecem em casa, principalmente no quarto, na cozinha, no banheiro e na sala de jantar. Alguns trabalhos demonstram que 10% das quedas ocorrem em escadas, especialmente ao descer, sendo o primeiro e o último degraus, os mais perigosos. O simples fato de abrir uma porta já é fator de risco para queda, pois houve uma mudança de ambiente e, como há uma dificuldade de visão de profundidade, pode acarretar uma queda. O idoso também pode se colocar em risco de cair ao subir em bancos e usar calçados inadequados. A seguir, apresentamos uma lista dos principais obstáculos a uma deambulação segura em casa. Riscos nas áreas comuns da casa Iluminação inadequada Tapetes soltos ou com dobras Degraus altos ou estreitos 52 Ausência de corrimão Obstáculo no caminho Piso irregular Fios soltos no chão Acúmulo de mobília Riscos nos aposentos Camas e cadeiras com altura inadequada Telefones pouco acessíveis Prateleiras excessivamente altas ou baixas Riscos no banheiro Piso escorregadio Falta de barras de apoio Vaso sanitário baixo. Em 1998, um estudo avaliou se os fatores de risco ambiental doméstico aumentam as chances de lesões provocadas por quedas entre idosos da comunidade. Nesta avaliação, foram considerados: presença de tapetes, acúmulo de móveis ou objetos, fios no chão, interruptores mal posicionados, gavetas ou prateleiras muito baixas (< 70cm) ou muito altas (acima do nível dos olhos), ausência de barra de apoio nos banheiros, altura do vaso sanitário e uso de piso antiderrapante no boxe. Foram realizadas entrevistas com idosos com história de quedas usando questionário para registrar o ambiente doméstico, o histórico, o estado mental, as circunstâncias da queda e o uso de medicamentos. Por meio deste estudo foram encontradas as seguintes conclusões: Local mais frequente de quedas: quarto. Relação da queda com algum fator de risco ambiental: 20,9%. Possível utilidade de intervenção de estrutura física: barra de apoio e piso antiderrapante no banheiro. 53 Fonte:portalamigodoidoso.com.br Por fim, vimos que os riscos ambientais existem, mas há uma baixa correlação com a queda. O importante é preparar o idoso para os riscos do meio ambiente. 54 Fonte:www.filhao.com.br 55 27 BIBLIOGRÁFIA ADACHI, Leda Harumi Da Costa. Conhecendo os cuidadores do programa de apoio aos cuidadores da demência do hospital conceição e a sua participação no grupo de apoio. Demencias e Síndromes Geriátricas, Porto Alegre, p. 1-27, 6 ago. 2013. BENETTE, Tereza Sanchez; COSTA, Leila Pessoa Da. 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