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D1 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 ORGANIZAÇÃO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO NO BRASILEIXO 2 Escola Nacional de Administração Pública Presidenta Betânia Lemos Diretora de Educação Executiva (DEX) Iara Cristina da Silva Alves Coordenadora-Geral de Formação Inicial de Carreiras (FOCAR) Carolina Pereira Tokarski Coordenadora de Desenvolvimento Inicial de Servidores Federais (DESENVOLVE) Fabiany Glaura Alencar e Barbosa Curadoras do Curso Gabriela Lotta Lígia Camargo Curadora Pedagógica Janaina Angelina Teixeira Assessoria Técnica Especializada à Coordenação e Execução do Programa Flávia Magalhães Freire Curso elaborado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Brasília 2025 Sumário Unidade 1 – Apresentação da Disciplina ..............................................................5 Unidade 2 – Estado, Democracia e Administração Pública ............................7 2.1 O Estado e sua Evolução Política ............................................................................................................8 2.2 A Democracia Contemporânea ..............................................................................................................11 2.3 Desenvolvimento Histórico da Administração Pública ...........................................................18 Unidade 3 – Democracia e a Constituição de 1988 no Brasil ....................26 3.1 A Democracia Representativa no Brasil ..........................................................................................27 3.2 O Controle Horizontal entre os Poderes .........................................................................................31 3.3 Órgãos de Controle Externo e Interno e seu Papel na Democracia .............................33 3.4 A Democracia Participativa no Brasil .................................................................................................37 Unidade 4 – Estado de Bem-Estar e Provisão de Serviços após 1988 ...44 4.1 O Estado de Bem-Estar Social no Brasil após 1988 ...............................................................44 4.2 O Papel do Estado na Provisão de Serviços após 1988 ......................................................52 Glossário .....................................................................................................................59 Referências ...............................................................................................................60 Material Complementar .........................................................................................63 5Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Unidade 1 – Apresentação da Disciplina Aqui se inicia a disciplina Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988, que tem por pano de fundo a evolução sobre as formas e ideias sobre o Estado, a democracia e a administração pública. A Constituição de 1988 reforçou a democracia como forma de governo, o que veio acompanhado da implantação do Estado de bem-estar social com seus efeitos na organização da administração pública e na forma de provisão de serviços. Objetivo de aprendizagem Nosso objetivo é mostrar a importância de compreender a organização do Estado, a democracia e a administração pública, pois as ideias que as inspiram seguem servindo de base para a atuação de servidores públicos no Brasil. Guia de Estudos A disciplina está organizada nas seguintes unidades: • Unidade 1 – Apresentação da Disciplina • Unidade 2 – Estado, Democracia e Administração Pública • Unidade 3 – Democracia e a Constituição de 1988 no Brasil • Unidade 4 – Estado de Bem-Estar e a Provisão de Serviços após 1988 Cada unidade propõe atividades que combinam leituras, atividades de estudos e vídeos a serem realizados individualmente. No Guia do Participante, você pode consultar todas as atividades previstas e a sistemática de avaliação proposta. Guia do Participante CLIQUE AQUI Clique no botão ao lado e acesse o Guia do Participante. Para assistir à videoaula “Apresentação e Boas-vindas”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. https://cdn.evg.gov.br/cursos/pdi/ns/pdf/PDI_Guia_do_Participante_Enap_Programa_Desenvolvimento_Inicial_V4.pdf 6 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial O docente responsável por desenhar essas atividades é Eduardo José Grin. Eduardo José Grin Fonte: Arquivo pessoal (2025). Eduardo José Grin é cientista político e professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo nos cursos de graduação e pós- graduação acadêmica e profissional em Administração Pública. É pesquisador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo, pesquisador e membro do conselho gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia QualiGov, pesquisador visitante da Universidade de Berkeley em 2023 e professor da Universidad del Valle (Colômbia) e da Escuela Iberoamericana de Políticas Públicas. Suas áreas de interesse são o federalismo e relações intergovernamentais em perspectiva comparada, estudos sobre o poder local, capacidades estatais e descentralização de políticas públicas. A disciplina é autoformativa, ou seja, você estuda com flexibilidade, no seu tempo, e realiza as atividades de acordo com sua disponibilidade, mas é importante observar as datas de finalização de cada disciplina e ler o Guia do Participante. Ótimo estudo! Eduardo José Grin 7Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Unidade 2 – Estado, Democracia e Administração Pública Apresentação da Unidade Estudar o Estado, a democracia e a administração pública é essencial para compreender como as nações evoluíram quanto à sua organização política e administrativa. A conexão das três características é uma invenção relativamente recente na história humana e data do final da segunda metade do século XIX. A construção do Estado democrático de direito como regime político que garante ações públicas e governamentais para atender às necessidades da coletividade é um modelo com pouco mais de cem anos de história. Compreender como funcionam as instituições políticas e administrativas nas democracias contemporâneas é chave, pois, em muitos países, como o Brasil, a vigência da democracia influencia a forma como a sociedade e o Estado se organizam. Esta unidade tem por objetivo estudar o que é o Estado, a democracia e a administração pública e como sua conexão caracteriza o modelo político, a organização do aparato estatal e das burocracias públicas. Assim, você poderá compreender um pouco mais sobre o surgimento e as características do desenho político e institucional do Estado que responde pela produção de políticas públicas que afetam a vida dos cidadãos e cidadãs. Nesta unidade, vamos: • caracterizar o Estado e sua evolução política; • descrever as características, modelos e sistemas de governo democráticos; • apresentar o desenvolvimento histórico da administração pública. 8 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 2.1 O Estado e sua Evolução Política Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Para responder a essa pergunta, vamos começar falando da origem, da evolução e das características do Estado, destacando sua relação com a evolução das sociedades. O Estado é um ordenamento político que substituiu as comunidades primitivas baseadas em laços de parentesco para dar lugar a sistemas mais amplos de dominação e exercício do poder instituído. Para Miller (2022), Aristóteles afirmou que os seres humanos são animais políticos que conectam o social e o político por meio da pólis. A definição moderna de Estado nasceu no século XVI com Maquiavel, que afirma se tratar da máxima organização de poder e comando de um grupo de indivíduos sobre um território e seus habitantes.Constituição de 1988 criou o Sistema Único de Saúde (SUS), cujos serviços passaram a ser fornecidos a partir das necessidades das pessoas e com base nos princípios da justiça, acesso universal, integral, igualitário e equidade social. Foi criada uma política inovadora de inclusão social de larga repercussão, pois acabou com a segmentação de públicos que poderiam ter acesso aos serviços de saúde. Trata-se de um sistema público de saúde formado por uma rede responsável pela prevenção, promoção, cura e reabilitação da população brasileira (Carnut; Ferraz, 2021). Os resultados são bastante expressivos se forem considerados dois resultados de alto impacto social. Veja, no infográfico a seguir, como a criação do SUS impactou os números referentes às taxas de mortalidade infantil e à expectativa de vida dos brasileiros. 47Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Impactos Positivos da Criação do SUS. Fonte: o autor. Elaboração: CEPED/UFSC (2025). 48 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial DICA Na assistência social, fortaleceram-se as políticas de proteção social por meio da expansão de redes universais de serviços, a ampliação de benefícios monetários e a promoção da equidade (Bichir, 2020). A Constituição e a Lei Orgânica da Assistência consagraram a assistência social como um direito universal e o Estado como um provedor das ofertas de serviços e regulador da política pública. Em 2005, com a constituição do Sistema Único da Assistência Social, a política pública deixou de focar apenas na gestão da pobreza para abarcar cidadãos e grupos sociais em situação de vulnerabilidade e riscos e violação de direitos (pessoas em situação de rua, trabalho infantil e exploração sexual). A segurança de renda passou a ser garantida por dois programas. O Benefício de Prestação Continuada (PBC), que é uma garantia de um salário-mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso com sessenta cinco anos ou mais que comprovem não ter meios de prover a própria manutenção e tampouco tê-la provida por sua família, de natureza não contributiva. O Programa Bolsa Família, que atende famílias em situações de extrema pobreza e famílias com crianças em situações de pobreza instituiu garantia de renda para além das situações de não trabalho (Bichir, 2020). O programa busca garantir a essas famílias o direito à alimentação e o acesso à educação e à saúde. Em 2023, 21,3 milhões de famílias foram atendidas pelo Bolsa Família. A assistência social vem se consolidando como um direito universal, apesar de as influências históricas da lógica assistencialista ainda não terem desaparecido. De acordo com Vaistman, Andrade e Farias (2009, p. 739), Não se trata apenas de acesso ao consumo via transferência de renda, mas da criação de bases institucionais e organizacionais para a incorporação dos segmentos sociais mais pobres e vulneráveis a um sistema de proteção, em que benefício assistencial não significa assistencialismo, mas direito. Para entender a organização do SUS, é importante diferenciar o SUS como um sistema nacional de saúde e não um sistema do Governo Federal, o que tem implicações práticas para sua gestão. Cada esfera de governo tem autonomia para gerir o SUS em seu território e o Governo Federal não pode impor diretrizes. Por isso, ao estudar o SUS, considere essa característica peculiar de seu desenho institucional. 49Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Saiba mais A proteção social básica é ofertada pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), que são a porta de entrada do SUAS. É um equipamento público localizado, em geral, em áreas de maior vulnerabilidade social, cujos serviços visam fortalecer a convivência com a família e com a comunidade. A proteção social especial é ofertada pelos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que são equipamentos públicos voltados a atender pessoas que vivenciam situações de violações de direitos ou de violências. A previdência social, considerando o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) que cobre essencialmente os empregados regidos com vínculos formais de trabalho, é a única modalidade de proteção social que depende de contribuição obrigatória dos segurados e se organiza por meio do regime de repartição: aposentadorias e benefícios são financiados pela população em idade economicamente ativa. Conforme a Constituição, deve atender: a) cobertura de eventos de incapacidade temporária; b) proteção à maternidade, especialmente à gestante; c) proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário; d) salário- família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda e; e) pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes. A Constituição definiu o salário-mínimo como piso para os benefícios da Seguridade Social, de modo que reajustes naquele elevam os proventos das aposentadorias, o que teve impacto na queda da desigualdade de renda (Arretche, 2018). O seguro-desemprego passou a ser um direito do trabalhador e foi incorporado aos mecanismos de proteção social. Empregadores rurais passaram ter direito aos benefícios de aposentadoria por invalidez e velhice, pensão, auxílio-funeral, serviços de saúde no ano de 1975. Estabeleceu- se a inclusão dos trabalhadores rurais no Regime Geral da Previdência Social (RGPS) com o direito a: benefícios previdenciários no valor de um salário-mínimo; aposentadoria por idade aos 65 anos para os homens e 62 para as mulheres, desde que tenham contribuído, respectivamente, pelo menos por 20 e 15 anos, respectivamente, aposentadoria por invalidez, pensão por morte, salário-maternidade e auxílio-doença. 50 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Saiba mais Observe que, além do Regime Geral de Previdência Social, o Brasil tem também dois outros regimes de previdência. Um deles é o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), que cobre o funcionalismo público efetivo no estado, no Distrito Federal, no município ou na União. A filiação dos trabalhadores nesse caso também é obrigatória. Já o Regime de Previdência Complementar é de caráter privado e ofertado por entidades complementares de previdência. Sua finalidade é adicionar uma renda aos trabalhadores, além do plano previdenciário oficial, quando de sua aposentadoria. Na educação, a Constituição garantiu o acesso ao ensino fundamental obrigatório e gratuito, inclusive para todos os que a ele não tiverem acesso na idade própria. Em 2013, o ensino obrigatório de 4 a 17 anos foi oficializado no país. Ficou definida a oferta obrigatória, pelo Estado, do ensino fundamental e da educação infantil, em creches e pré-escolas para crianças de zero a seis anos. O acesso ao ensino médio universalizado para jovens de 15 a 17 anos ficou assegurado. Reconheceu-se a insuficiência do ensino fundamental e a urgência de um grau de escolaridade mais apropriado às necessidades sociais contemporâneas (Corbucci et al., 2018). Foram assentadas as bases para o que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996, definiu como a educação básica como a mínima necessária a qualquer cidadão, ao abranger as três etapas: infantil, fundamental e média. A LDB foi um avanço por ter normatizado o sistema escolar nacional. A Constituição explicitou que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito do cidadão, o que implica a possibilidade de responsabilizar a autoridade competente quando do não oferecimento ou sua oferta irregular pelo Poder Público. No artigo 206, a Carta determina que o ensino deve basear-se nos princípios de igualdade de condições para acesso e permanência na escola e garantia de padrão de qualidade. A obrigatoriedade da educação básica é de nove anos, considerando o início do ensino fundamental aosseis anos de idade. A Constituição assegurou o atendimento educacional especializado às pessoas com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino, o que representou um avanço quanto à inclusão de brasileiras/os até então excluídos do acesso à escola e a oferta de ensino noturno regular adequada às condições do educando. Passou a ser dever do Estado garantir o atendimento ao educando, no ensino fundamental, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde, o que passou a ser essencial para viabilizar para muitos que não dispõem de condições para 51Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial estudar. Por fim, a oferta de ensino noturno regular adequado às condições do educando ampliou o direito à educação para milhares de brasileiras/os (Corbucci et al., 2018). Alguns indicadores mostram os avanços da educação brasileira após a década de 1980: Redução substancial da população analfabeta com 15 ou mais anos Em 21 anos, de 1996 a 2017, a queda foi de 14,7% para 6,9%, mas com grandes disparidades regionais, pois nesse último ano o Nordeste ainda apresentava 14% de analfabetos. Ampliação da média nacional de anos de escolaridade De 1980 a 2022, a média mais que dobrou: de 4 anos para 8,3 anos. Nos anos iniciais do ensino fundamental, em 1997, 55,5% das/os alunas/os de 12 anos tinham concluído. Em 2007, houve um salto para 93,3% de concluintes. Com relação à conclusão dos anos finais do ensino fundamental, houve um avanço de 40,8 em 20 anos (31,3% em 1997 para 72,1% em 2017) (IPEA, 2021). A evolução do Índice de Desenvolvimento Humano em 32 anos também permite verificar os avanços obtidos na melhora da qualidade de vida da população brasileira. O IDH no Brasil (1991-2023). Fonte: Abel; Almeida (2024), adaptado por CEPED/UFSC (2025). 52 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 4.2 O Papel do Estado na Provisão de Serviços após 1988 A Constituição de 1988 inaugurou uma nova era nas políticas públicas. Houve esforços de construir um Estado de bem-estar social antes desse período, principalmente com Vargas e no regime militar. Contudo, dadas as limitações das experiências anteriores, caracterizadas por clientelismo, corporativismo e segmentação de públicos, a administração pública não estava organizada para assumir a prestação de serviços e a provisão de direitos sociais em bases universais. Essa realidade demandou construir novas capacidades administrativas e um novo formato de relações intergovernamentais que ampliou as responsabilidades descentralizadas, sobretudo para os municípios (veja mais sobre esse tema na disciplina “Separação dos Poderes e Pacto Federativo no Brasil”). O papel do Estado na provisão de serviços tem dois eixos complementares: sem a descentralização não seria possível implementar o Estado de bem-estar social, e sem a construção de uma burocracia estatal na esfera central não haveria como formular políticas e coordenar esse processo. A criação dos sistemas nacionais de políticas públicas na área da saúde e da assistência, bem como a ampliação das responsabilidades descentralizadas, sobretudo para os municípios também como provedor de serviços educacionais, fez desse processo a grande transformação administrativa que garantiu a implementação do Estado de bem- estar social. Nesse sentido, três aspectos são essenciais para gerar capacidades estatais na esfera federal: 1) A qualificação e a expansão da burocracia pública Com relação ao primeiro tema, foram implementados mecanismos para profissionalizar a burocracia pública, o que foi um processo inédito do Estado brasileiro. O principal avanço foi a redução do clientelismo e do patrimonialismo na administração das políticas, tornando-as mais públicas e com maior potencial de universalização e democratização. Vale frisar que a Constituição de 1988 foi a primeira na história do país a introduzir um capítulo específico sobre a administração pública que reforçou a profissionalização meritocrática do serviço civil. Essas mudanças foram observadas principalmente no processo de recrutamento por meio de concursos públicos (art. 37, II e III). Também foram melhoradas as condições institucionais da burocracia estatal, por exemplo, com a previsão de planos de carreira, o que se alinha com as bases da administração burocrática. Para Cavalcante e Carvalho (2017), são cinco os critérios para avaliar a profissionalização da burocracia pública federal: 53Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial • A evolução no quadro de pessoal e de ingresso (quantitativo de servidores e criação de novas carreiras em função de demandas que o Estado passou a assumir na provisão de serviços). • A política salarial, que gerou melhorias significativas na média salarial do servidor público federal. • A avaliação de desempenho que, embora com iniciativas implantadas, segue sendo um desafio da profissionalização. • A valorização da burocracia federal e de servidores efetivos em cargos de direção. • A formação e capacitação de servidores, que tem crescido bastante com apoio das escolas de governo. 2) A necessidade de gerar fontes de financiamento para as políticas de bem-estar social. O financiamento do Estado de bem-estar social no Brasil está inserido no desenho da Seguridade Social (art. 194 da Constituição). Este é um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. O financiamento da Seguridade Social é um dever da sociedade mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos estados, do Distrito Federal, dos municípios e de contribuições sociais. No âmbito federal, o orçamento da Seguridade Social é composto pelas receitas da União, receitas das contribuições sociais e outras fontes. Constituem contribuições sociais pagas pelas empresas sobre faturamento e lucro, empregadores domésticos e salário de contribuição dos trabalhadores. A Constituição definiu que municípios e estados alocassem 25% de suas receitas na educação, mas foi com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério, implantado em 1998, e o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), implantado em 2006, que as restrições no financiamento da educação foram reduzidas. A lógica dos fundos é alocar os recursos conforme os números de matrículas, o que incentiva esse processo, além de ser uma medida redistributiva em favor dos estados mais pobres. Esta é a conclusão de Arretche (2018), destacando especialmente seus efeitos sobre a oferta de ensino no nível municipal, que é responsável pelo ensino fundamental. 54 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Saiba mais Clique aqui e assista ao vídeo “Política Educacional: FUNDEF x FUNDEB” para aprender mais sobre ambos os fundos. Também cresceu a vinculação de recursos federais e manteve-se a contribuição social do salário-educação. 3) A formulação e a implementação de políticas públicas que materializam a provisão de serviços públicos e estatais. A formulação e a implementação de políticas públicas foram possíveis com a expansão e o surgimento de novas carreiras na burocracia federal e com fontes estáveis de financiamento estatal. No Sistema Único de Saúde (SUS), a provisão de serviços públicos foi ampliada com a criação de programas e políticas de atenção à saúde, que visam à prevenção de doenças, solução e direcionamento dos casos mais graves para níveis de atendimento superiores em complexidade. As Unidades Básicas de Saúde (UBS), porta de entrada do SUS, oferecem vários serviços: acolhimento com classificação de risco, consultas de enfermagem,médicas e de saúde bucal, distribuição de medicamentos, vacinas, curativos, visitas domiciliares por meio do Programa Saúde da Família e Programa Agentes Comunitários de Saúde. A rede de serviços do SUS é ampla e engloba a atenção primária, média e alta complexidades, os serviços de urgência e emergência, a atenção hospitalar, as ações e serviços das vigilâncias epidemiológica, sanitária e ambiental e assistência farmacêutica. No Sistema Único de Assistência Social (SUAS), são oferecidos vários serviços para garantir que o cidadão não fique desamparado e que sua capacidade de acessar direitos sociais fique comprometida. Estão divididos entre a Proteção Social Básica, voltada à prevenção de riscos sociais e pessoais, e a Proteção Social Especial, destinada a pessoas em situação de risco ou violação de direitos. Entre os serviços fornecidos podem ser destacados o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família, que apoia famílias e previne a ruptura de laços; o Serviço de Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos para famílias e pessoas que estão em situação de risco social ou tiveram direitos violados; o Centro de Referência Especializado de Assistência Social, que oferece o serviço de proteção social a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de liberdade assistida; os serviços de acolhimento, que oferecem acolhimento e proteção a pessoas/famílias afastadas de seu núcleo familiar e/ou comunitários e se encontram em situação de abandono, ameaça ou violação de direitos. https://www.youtube.com/watch?v=139kLRpToAI 55Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial DICA Observe que, em algumas políticas sociais, como saúde e assistência social, a descentralização de atribuições para estados e municípios veio acompanhada de sistemas nacionais de políticas – SUS e SUAS – que são centrais para cofinanciar as ações e para oferecer apoio técnico para qualificar a gestão estadual e municipal. Ambos os tipos de suporte são essenciais para a implantação descentralizada, pois sem eles os governos locais menores e mais carentes teriam menos condições de assumir essas responsabilidades, o que prejudicaria o acesso das populações aos direitos universais consagrados na Constituição. Na educação, além da oferta dos serviços diretos de ensino, o Governo Federal oferece outros serviços essenciais para garantir a presença das/os alunas/os nas escolas, principalmente por meio dos seguintes programas: Programa Nacional de Alimentação Escolar Transfere recursos financeiros para os estados e municípios para compra de gêneros alimentícios. Programa Nacional do Livro Didático Proporciona material didático gratuitamente às escolas públicas. Programa Dinheiro Direto na Escola Transfere recursos de manutenção e de consumo necessários para manter o funcionamento da escola. Programa Caminho da Escola Visa garantir o acesso diário e a permanência de estudantes residentes em áreas rurais e ribeirinhas nas escolas públicas de educação básica. Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar Apoia o transporte dos estudantes das redes públicas de educação básica, residentes em áreas rurais, por meio de assistência técnica e financeira, em caráter suplementar, a estados, municípios e Distrito Federal. Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil Visa garantir o acesso de crianças a creches e escolas, bem como a melhoria da infraestrutura física da rede de educação infantil. 56 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial ATIVIDADES DE ESTUDO Agora, realize duas atividades de estudo para testar os seus conhecimentos. Atividade de Estudo 1 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: quais foram as principais mudanças introduzidas pela Constituição Federal no Estado de bem-estar social no Brasil? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. Atividade de Estudo 2 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: quais são as três condições necessárias para o Governo Federal realizar a provisão de serviços públicos focados no Estado de bem-estar social e por que são importantes? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. 57Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Encerramento Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Esta unidade abordou a estrutura do Estado de bem-estar social consignado na Constituição de 1988. A Seguridade Social avançou na universalização de direitos sociais na saúde e assistência social e inovou ao gerar o status de cidadania que independe de qualquer critério como renda ou emprego formal. A Seguridade Social, chave na estrutura da proteção social, ampliou a cobertura da previdência social e os benefícios dos trabalhadores rurais. A assistência social foi reconhecida como um direito e também passou a fornecer serviços e benefícios monetários. O SUS universalizou o acesso à saúde, e o seguro-desemprego foi implementado para amparar cidadãos e cidadãs. A educação básica foi reconhecida como um direito universal e seu acesso gratuito é um dever de Estado. Com efeito, para um país de renda média, que saiu de 21 anos de regime militar com uma enorme dívida social, os avanços na construção do Estado de bem-estar no país não foram poucos. 58 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Também vimos como o Estado brasileiro se organiza para a provisão de serviços públicos essenciais para a implementação do Estado de bem-estar social. Esperamos que esses conhecimentos contribuam para sua atuação como servidor/a público/a. Atividade de Estudo 1 O status da cidadania alargou o leque de direitos garantidos pelo Estado. Foi reforçado o dever do Estado na provisão de serviços e políticas sociais em áreas como a saúde, assistência social e previdência social, sob o conceito de Seguridade Social. Qualificação e a expansão da burocracia pública, a necessidade de gerar fontes de financiamento para as políticas de bem-estar social e a formulação e a implementação de políticas públicas que materializam a provisão de serviços públicos e estatais. Atividade de Estudo 2 Espelho de Resposta 59Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Glossário IDH: O IDH é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O IDH buscou oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. Clique aqui para saber mais. Poliarquia: Conceito que surgiu no âmbito da ciência política americana, criado por Robert Dahl para designar a forma como funcionam os regimes democráticos dos países ocidentais desenvolvidos. Clique aqui para saber mais. Medida Provisória: As medidas provisórias são normas com força de lei editadas pelo presidente da república em situações de relevância e urgência. Apesar de produzir efeitos jurídicos imediatos, precisam da posterior apreciação pelo Congresso Nacional para se converterem em lei ordinária. Clique aqui para saber mais. Coronelismo: O coronelismo é uma prática política típica da República Velha, quando os chamados “coronéis” exerciam o poder sobre eleitores por meio do voto de cabresto para garantir votos em troca de favores das esferas políticas locais, estaduais e federais. Clique aqui para saber mais. Cidadania regulada: Descreve um tipo específico de cidadania em que só é cidadão que estivesse formalmente inserido no mercado de trabalho teria direitos reconhecidos pelo Estado. Clique aqui para saber mais. https://www.undp.org/pt/brazil/idh https://www.politize.com.br/poliarquia/ https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/entenda-a-tramitacao-da-medida-provisoriahttps://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/coronelismo-no-brasil.htm https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/coronelismo-no-brasil.htm https://www.scielo.br/j/eh/a/YC5NhQNKLyLL4dB9tJmw5wL/ 60 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Referências ABEL, V.; ALMEIDA, C. Por que a educação é o principal fator que impede o avanço do Brasil no ranking do IDH? O Globo, Brasília; Rio de Janeiro, 14 mar. 2024. Disponível em: https:// oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/03/14/por-que-a-educacao-e-o-principal-fator- que-impede-o-avanco-do-brasil-no-ranking-do-idh.ghtml. Acesso em: 27 fev. 2025. ABRUCIO, F. L.; LOUREIRO, M. R. Burocracia e ordem democrática: desafios contemporâneos e experiência brasileira. 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Necessita de verificação manual: 0 Aprovado manualmente: 2 Reprovado manualmente: 0 Ignorado: 9 Aprovado: 20 Com falha: 1 Relatório detalhado Documento Nome da regra Status Descrição Indicador de permissão de acessibilidade Aprovado Indicador de permissão de acessibilidade deve estar configurado PDF somente imagem Aprovado O documento não é um PDF com imagens somente PDF com tags Aprovado O documento está marcado como PDF Ordem de leitura lógica Aprovado manualmente A estrutura do documento oferece uma ordem de leitura lógica Idioma principal Aprovado O idioma do texto foi especificado Título Aprovado O título do documento é exibido na barra de título Marcadores Aprovado Os marcadores estão presentes em grandes documentos Contraste de cor Aprovado manualmente O documento tem contraste de cor apropriado Conteúdo da página Nome da regra Status Descrição Conteúdo marcado Com falha Todo o conteúdo da página está marcado Anotações marcadas Aprovado Todas as anotações estão marcadas Ordem de tabulação Aprovado A ordem de tabulação é consistente com a ordem de estruturas Codificação de caracteres Aprovado Foi fornecida codificação de caractere com segurança Multimídia marcada Aprovado Todos os objetos multimídia estão marcados Cintilação da tela Aprovado A página não causará cintilação da tela Scripts Aprovado Não há scripts inacessíveis Respostas cronometradas Aprovado A página não exige respostas cronometradas Links de navegação Aprovado Os links de navegação não são repetitivos Fomulários Nome da regra Status Descrição Campos de formulário marcados Ignorado Todos os campos do formulário estão marcados Descrições de campo Ignorado Todos os campos do formulário possuem descrição Texto alternativo Nome da regra Status Descrição Texto alternativo de imagens Aprovado Figuras requerem texto alternativo Texto substituto aninhado Aprovado O texto substituto nunca será lido Associado com conteúdo Aprovado Texto alternativo deve ser associado a algum conteúdo Ocultar anotações Aprovado O texto alternativo não deve ocultar anotações Textos alternativos de outros elementos Aprovado Outros elementos que exigem texto alternativo Tabelas Nome da regra Status Descrição Linhas Ignorado TR deve ser um filho de Table, THead, TBody ou TFoot TH e TD Ignorado TH e TD devem ser filhos de TR Cabeçalhos Ignorado As tabelas devem ter cabeçalhos Regularidade Ignorado As tabelas contêm um número igual de colunas em cada linha ou de linhas em cada coluna. Resumo Ignorado As tabelas devem ter um resumo Listas Nome da regra Status Descrição Itens de lista Ignorado LI deve ser filho de L Lbl e LBody Ignorado Lbl e LBody devem ser filhos de LI Cabeçalhos Nome da regra Status Descrição Aninhamento apropriado Aprovado Aninhamento apropriado Voltar ao topoHistoricamente, o Estado sempre teve duas características-chave: • presença de um aparato administrativo para a provisão de serviços públicos; • monopólio legítimo da força em um território delimitado (Bobbio, 2017). Os Estados decidem de forma soberana, pois não se subordinam a nenhum outro poder no território. O poder não pode ser retirado, sem ele não há mais Estado e, por essa razão, não tem prazo de validade. 9Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial O surgimento e o crescimento do Estado coincidem com a evolução das sociedades humanas, que passaram a requerer uma forma de manutenção da ordem coletiva. O Estado também resultou do nascimento da propriedade individual e a necessidade de sua proteção legal, bem como da divisão de trabalho na sociedade (proprietários e os que nada têm), que se refletiu na expansão do poder político instituído e organizado, visando fazer uso de seus recursos de poder político e coercitivo em favor do status quo. Como o Estado é um ordenamento político que conta com recursos de poder para assegurar a ordem econômica e social, ele necessita de legitimidade: o comando político não pode se manter apenas pela coerção e precisa se basear em princípios organizativos aceitos pela sociedade (Bobbio, 2017). Saiba mais A ciência política distingue os conceitos de Estado e governo. O Estado é soberano, estável e conta com instituições permanentes como o Poder Judiciário, a burocracia pública e as forças armadas. Governos são uma parte do poder de Estado cuja formação não é permanente, pois periodicamente eleições modificam seus ocupantes. Governos são instituições do Estado, mas o contrário não se aplica. Governos não são soberanos, pois não podem se sobrepor às instituições do Estado. De comum, Estado e governos só existem por serem a forma que as sociedades têm de se organizar para atender a seus interesses coletivos. As bases filosóficas da legitimação do poder de Estado é longa e sofreu muitas transformações desde que Maquiavel definiu as bases da ciência política moderna no século XVI. O Estado absolutista foi o modelo em vigor entre os séculos XVI e XVIII nas nascentes nações europeias e assumiu sua preponderância sobre as liberdades individuais. Monarcas absolutistas confundiam seu reinado com o próprio Estado. A famosa declaração de Luís XIV, rei da França de 1643 a 1715, “o Estado sou eu”, revela a natureza do absolutismo: não há divisão entre as funções do Estado, pois o rei concentra em si todos os poderes. A legitimidade política dos reis, necessária para justificar seu poder político, em regra os apresentava como representantes de Deus, o que interessava à Igreja Católica. O contratualismo foi uma formulação filosófica sobre a formação do Estado que teve três grandes expoentes entre o século XVI e XVII: 10 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Thomas Hobbes Defendia que as sociedades humanas deveriam sair do chamado estado de natureza, no qual todos estavam em situação de guerra contra todos, como consequência da ausência de um poder civil. A criação do Estado seria uma decisão coletiva na qual, por meio de um contrato ou pacto de submissão, os indivíduos cederiam o direito para um soberano governar, desde que suas vidas fossem protegidas. O surgimento de um Estado concentrador de poder seria a forma para a evitar a anarquia social (Teixeira Filho, 2023). John Locke Filósofo inglês, entendia o contrato entre indivíduos para criar o Estado e o governo como um pacto necessário para a defesa da propriedade, sendo esta entendida como sua vida e as posses materiais. Os indivíduos já eram livres antes do contrato criador do poder político que, ao ser instituído, lhes amplia a segurança para manter suas posses. Contudo, como representante do liberalismo e da precedência dos direitos individuais sobre o poder de estado, caso ele usurpasse os cidadãos de suas prerrogativas, estes teriam direito de rebelião. Isso seria impensável na visão hobbesiana, segundo a qual é o Estado que institui direitos (Santos, 2021). Jean-Jacques Rousseau Defendia que o contrato social representa a criação do poder político como forma de a sociedade atuar diretamente, sem a intermediação de representantes e governos, além de expressar a soberania e a vontade popular de forma autônoma. Nisso reside a legitimidade do poder político soberano (Rosa, 2021). A concepção lockeana prevaleceu e o surgimento gradual de liberdades civis, como o direito ao habeas corpus, foram reduzindo, a partir do século XVII, os poderes estatais absolutos. Exemplo A Inglaterra se tornou o exemplo mais conhecido, sobretudo após a chamada Revolução Gloriosa de 1688, que reduziu os poderes do rei ao criar uma monarquia constitucional e controlada pelo parlamento. No século XIX surgiram as democracias liberais associadas à expansão gradual dos direitos políticos como o voto, ainda que limitado por critérios de renda e pela exclusão 11Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial das mulheres. Contudo, em vez de um suposto contrato entre indivíduos como critério para legitimar o poder político instituído, processos eleitorais passaram a ser forma de selecionar representantes políticos. A competição política ainda era restrita a oligarquias com status e poder econômico, e a participação política estava longe de ser inclusiva (Dahl, 2016). O século XX testemunhou a expansão das democracias de massa, e o direito ao voto se alargou para vários estratos sociais até se tornar universal e sem nenhuma barreira de status, classe, gênero ou educação. O surgimento de partidos políticos e o crescimento dos meios de comunicação de massa incrementaram a competição política para cargos eletivos em todos os níveis e poderes governamentais. Todos os cidadãos passaram a ter o direito de associar-se a um partido político, bem como de elegerem e serem eleitos para qualquer cargo. Esse tipo de democracia Dahl (2022) caracterizou como poliarquia por contar com um conjunto de características que serão descritas mais adiante. 2.2 A Democracia Contemporânea Você se lembra do conceito de democracia? Antes de seguir, pense um pouco e compare sua resposta com a definição que trazemos aqui: Conceito de democracia Democracia é uma forma de governo no qual o poder político é exercido pelo povo, e desde Aristóteles esse princípio geral sempre se manteve. Agora vejamos como esse conceito foi constituído. As antigas democracias só haviam sido testadas em territórios menores como as cidades- estado gregas. Eram experiências de democracia direta exercida pela população considerada livre, o que excluía escravos, além de ser a política uma atividade reservada aos homens. A seleção de líderes políticos na democracia era realizada por sorteio e inexistiam noções de direitos e do status de cidadania como aqueles consignados nas constituições modernas. Durante séculos acreditou-se que a democracia apenas seria viável em pequenos estados onde a população poderia se reunir e onde todos se conhecessem. Mesmo assim, havia críticas sobre o funcionamento das democracias, pois a participação direta em assembleias poderia gerar conflitos diante da dificuldade de produzir consensos. Democracia e líderes populistas poderiam manipular maiorias contra minorias, geralmente os mais pobres contra os mais ricos, o que seria o caminho para a turbulência pública. 12 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Elaboração: CEPED/UFSC (2025). A resposta a essa pergunta vem do século XVII, quando a democracia moderna começou a tomar forma e as ressalvas à democracia já mencionadas começaram a ser dissipadas com a Independência dos Estados Unidos, pois se fazia necessário um novo modelo de poder político. A inovação política consistiu em criar um governo democrático, que substituiua democracia dos antigos pelo governo republicano representativo. Para os chamados pais fundadores da nação americana, em grandes territórios, o governo democrático seria organizado por meio da delegação a representantes eleitos pela sociedade. Esse experimento democrático se transformou em um modelo universal para outras nações. Tocqueville, filósofo francês que viveu de 1805 a 1859 e se dedicou a estudar o liberalismo e a democracia, reconheceu que esta é a versão da democracia dos modernos em oposição à democracia dos antigos, baseada no princípio da soberania popular e da comunidade política formada por todos os indivíduos que dela participam de forma direta ou por meio de seus representantes (Paz, 2021). De forma resumida, democracia é uma forma de governo que se organiza pela competição política, geralmente por meio de partidos políticos, que de tempos em tempos promovem a seleção de líderes para ocupar cargos eletivos nos governos e no parlamento. 13Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial De acordo com Abraham Lincoln, A democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo. Fonte: Wikipedia (2025). Essa forma de governo representa soberania popular que aprova candidatos que os representam para produzir políticas públicas. Nesse processo reside sua legitimidade política, já que a origem do poder político está vinculada às decisões coletivamente adotadas. As democracias usam dois conceitos centrais para descrever diferentes formas de controle e responsabilidade: accountability vertical e accountability horizontal. Elaboração: CEPED/UFSC (2025). 14 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Antes de continuar, veja as definições desses conceitos: 1. Governos democraticamente eleitos são responsáveis e responsabilizáveis por seus atos perante as sociedades. Não há salvos-condutos para líderes usurpadores do poder ou maus governantes, e as democracias modernas dispõem de mecanismos para enfrentar esses problemas. 2. As democracias também dividem seus poderes para que estes não fiquem concentrados como no absolutismo. Para Madison, um dos fundadores da república democrática americana, o poder se divide (executivo, legislativo bicameral e judiciário) para que um controle o outro. ATIVIDADES DE ESTUDO Agora, realize duas atividades de estudo para testar os seus conhecimentos. Vamos ver se você entendeu o conceito de cada uma dessas definições. Escolha a alternativa correta que corresponde ao conceito apresentado. Atividade de Estudo 1 Atividade O que é accountability vertical? a) O controle exercido entre os poderes do Estado, como Executivo, Legislativo e Judiciário. b) O controle exercido pelos cidadãos sobre seus governantes por meio de eleições e participação política. c) A ausência de mecanismos de responsabilização em democracias modernas. d) A concentração de poderes em um único governante, sem fiscalização. Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. 15Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Atividade de Estudo 2 Atividade O que é accountability horizontal? a) O controle exercido entre os poderes do Estado, como Executivo, Legislativo e Judiciário. b) O controle exercido pelos cidadãos sobre seus governantes por meio de eleições e participação política. c) A ausência de mecanismos de responsabilização em democracias modernas. d) A concentração de poderes em um único governante, sem fiscalização. Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. A distinção entre esses conceitos é essencial para entender como as democracias evitam abusos de poder e garantem a responsabilidade dos governantes. Caso tenha errado alguma resposta, revise os conceitos e reflita sobre como eles se aplicam no sistema político atual. Em regra, a eleição de um governo democrático se dá pela maioria de votos, mas essa delegação não autoriza o líder político vencedor a se sobrepor às leis e tampouco a se opor aos direitos das minorias, dos derrotados e de seus opositores. Para assistir à videoaula “Constituição do Estado e Relação com a Democracia”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. 16 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Para lidar com o afastamento de líderes políticos eleitos, as democracias se valem usualmente de dois tipos de procedimentos. Em sistemas de governo presidencial, o impeachment é um instrumento constitucional utilizado para remover presidentes que cometeram os chamados crimes de responsabilidade praticados durante seu mandato. Geralmente, o impeachment é autorizado pela Câmara Baixa (por exemplo, a Câmara dos Deputados) e julgado pela Câmara Alta (por exemplo, o Senado). Esse sistema existe no Brasil. O voto de desconfiança é comum em sistemas de governo parlamentares e ocorre quando a oposição ao primeiro-ministro submete seu governo a uma moção que pode ser aprovada (confiança) ou desaprovada (desconfiança). O julgamento do governante é político e ele não precisa ter cometido crimes. Se o voto de desconfiança vence, o primeiro-ministro deve renunciar ao cargo e convocar novas eleições. Esse sistema existe na Inglaterra. Democracias são o governo das leis e não o governo de pessoas, o que também é conhecido como Estado democrático de direito, pois regras públicas como leis e constituições são igualmente aplicáveis quanto aos deveres e direitos a todos, sobretudo aos governantes. Como democracias são constituídas sob o fundamento da igualdade política – todos dispõem dos mesmos direitos – o cuidado é não a transformar em “tirania da maioria”. Este é um risco quando os vencedores buscam impor sua vontade e, assim, tornam desigual o exercício da liberdade política. Exemplo Exemplos atuais desses dilemas democráticos ocorrem em países que se opõem a direitos de grupos minorizados por questões de gênero, etnia, raça e orientação sexual. Segundo Dahl (2016), governos democráticos se caracterizam por cinco critérios que garantem a igualdade política entre os cidadãos que formam as comunidades políticas: 17Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 1. Participação efetiva Todos os membros têm oportunidades iguais e efetivas para que suas opiniões sejam conhecidas. 2. Igualdade de voto Os membros devem ter igual oportunidade de votos, e o peso desses votos deve ser igual. 3. Igual compreensão dos temas Todos os participantes devem ter iguais oportunidades de instruir-se sobre as alternativas e consequências de suas decisões. 4. Controle da agenda dos representantes eleitos Os integrantes devem ter a oportunidade de decidir como e quais assuntos devem ser incorporados à agenda de decisões governamentais. Esse processo nunca se encerra, pois a comunidade política está sempre aberta a mudanças introduzidas por seus membros sempre que assim decidirem. 5. Inclusão dos adultos e cidadania política Todos os adultos – ou ao menos a maioria – devem ter plenos direitos de cidadania expressos nos quatro critérios anteriores ao serem tratados como iguais politicamente. Os integrantes estão qualificados para participar das decisões sempre que tenham oportunidades de informar-se sobre temas de interesse. As cinco características enfatizam a igualdade política entre os cidadãos e cidadãs, já que democracias não aceitam distinções formais de qualquer tipo entre todos os portadores de direitos políticos. O Estado e suas instituições políticas como governos, parlamentos e o poder judiciário são responsáveis por garantir as condições para o pleno exercício dos direitos políticos. Dahl (2016) destaca as instituições políticas necessárias à democracia moderna, que se distinguem das outras experiências democráticas da história: 1. Representantes eleitos Estão sempre sob o escrutínio público que controlasuas decisões. 2. Eleições livres, imparciais e frequentes Nem podem ser em prazos tão curtos que não permitam ao governante eleito implementar suas ações e nem tão longas que corrompam o princípio da alternância de poder que caracteriza as democracias. 18 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 3. Liberdade de expressão Todas as cidadãs e cidadãos têm o direito de se expressar sem o temor de serem punidos sobre quaisquer temas, mas respeitando o Estado democrático de direito. 4. Acesso a fontes alternativas de informação Essencial para a sociedade não ficar refém de visões únicas sobre os fatos, sobretudo se os meios forem controlados pelos governos. 5. Autonomia associativa Todas as cidadãs e cidadãos têm o direito de constituir e participar de organizações como partidos políticos, ONGs, sindicatos, entre outras. 6. Cidadania inclusiva Nenhum/a adulto/a pode ter seus direitos políticos negados, pois estes são necessários para o pleno exercício dos cinco anteriormente mencionados. Essa configuração da democracia também encontra correspondência nas características que a administração pública foi historicamente incorporando. 2.3 Desenvolvimento Histórico da Administração Pública A evolução dos modelos de administração pública pode ser dividida da seguinte forma: Patrimonialista (antes da consolidação das democracias de massa) Para Regatieri (2021), Weber entende o patrimonialismo como uma forma tradicional de administração pública usual em governos não democráticos, e comum em Estados absolutistas, ao não separar o espaço público dos interesses privados. Como monarcas não eram eleitos e responsabilizáveis perante a sociedade, a separação da burocracia estatal dos interesses particulares do rei não existia. Esse tipo de administração não é público no sentido lato por duas razões: 1) politicamente e juridicamente, por não atender a cidadãs/os portadoras/es de direitos que cabem ao Estado; 2) não é universal em seus procedimentos, se baseia em privilégios e não se apoia em leis impessoais. 19Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Burocrático (contemporâneos das democracias de massa) A expansão da democracia de massa caminhou concomitantemente com o crescimento da administração pública burocrática por duas razões: 1) o controle da sociedade sobre os governos e a visão de um aparato estatal independente do governante eleito se consolidaram aliados ao Estado democrático de direito. Seria improvável que a administração pública patrimonial garantisse tratamento igualitário para cidadãs/ãos portadoras/es de direitos. 2) o crescimento das sociedades ampliou a necessidade de um Estado provedor de serviços, o que passou a exigir uma organização para atender demandas crescentes da sociedade. Segundo Weber (2022), o surgimento da burocracia espelha a democracia de massa, o que resulta na organização da administração pública e do exercício de sua autoridade amparado no princípio da igualdade perante a lei, base essencial do Estado democrático de direito. Gerencial (derivados da crise gerencial e de legitimidade da administração burocrática nas democracias de massa). A administração burocrática se estrutura com base em normas universais igualmente aplicáveis, já que perante as leis nenhum/a cidadão/a pode ter privilégios. O caráter público, republicano e não patrimonial da administração estatal caminhou ao lado da racionalidade organizacional do aparato burocrático estatal para responder às demandas sociais por serviços públicos em uma democracia de massas. Segundo Abrucio e Loureiro (2018), o modelo weberiano de administração burocrática se caracteriza por: 1. Seleção de servidores públicos segundo critérios de mérito e especialização técnica, por meio de processos universais de recrutamento, o que garante uma junção entre os critérios de meritocracia e igualdade perante a lei para o acesso aos cargos públicos. 2. Cargos burocráticos assim obtidos supõem estabilidade funcional para preservar o servidor público de ingerências políticas e manter a estabilidade da ação estatal no tempo. 3. Emprego público como uma profissão que exige remuneração fixa, carreira e garantias para exercer sua autonomia administrativa sem o receio de sofrer penalidades. 20 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 4. Burocracia estatal neutra e que atua de forma impessoal, pois no Estado democrático de direito as normas legais são a forma de organização social em oposição aos privilégios do patrimonialismo. 5. Administração burocrática hierarquizada e com subordinação entre autoridades superiores e inferiores. 6. Burocracia pública não decide de forma autônoma, pois são os políticos eleitos que têm essa legitimidade concedida pela sociedade. 7. Burocracias públicas subordinadas à política democrática, embora essa relação esteja longe de ser bem equilibrada. 8. Burocracia pública se organiza por meio de uma divisão de trabalho na qual seus integrantes têm atribuições definidas formalmente em estatutos legais. 9. Administração burocrática se orienta por procedimentos padronizados para reduzir a discricionariedade dos servidores via: a) protocolos de atuação, em tese adequados para atingir certo fim; b) critérios universais de funcionamento e acesso aos serviços públicos para proteger os servidores da ação dos políticos e garantir igual tratamento aos cidadãos. O modelo weberiano inspirou a organização das burocracias públicas que se expandiram durante o século XX alinhadas com a consolidação das democracias de massa e do status de cidadania caracterizado pelos direitos civis, políticos e sociais. Contudo, a partir da década de 1970, esse modelo começou a ser criticado por sua suposta ineficiência, dando origem a uma revisão de várias de suas características para configurar o que ficou conhecido como administração gerencialista por sua adoção de procedimentos empresariais para modernizar Quando você for estudar a burocracia pública, é importante considerar a visão de Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão responsável por desenvolver as formulações teóricas fundamentais para o estudo desse tema. Weber tinha uma clara compreensão do lugar das burocracias públicas nas democracias modernas e temia que seu crescimento pudesse representar riscos se os líderes políticos eleitos não controlassem sua atuação dos burocratas. Então, fica a dica: o ethos republicano de servidores públicos não lhes confere legitimidade para substituir os políticos eleitos. Burocracias públicas estão a serviço de todos os governos, mas não podem assumir o lugar dos representantes eleitos democraticamente. DICA 21Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial a gestão pública. As burocracias públicas passaram a ser criticadas por serem onerosas e demoradas para processar demandas, em descompasso com o ritmo da vida moderna. Para assistir à videoaula “Capacidade Estatal e Profissionalização da Burocracia”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. O modelo weberiano, orientado por procedimentos, deveria ser substituído pela definição de resultados finalísticos a serem buscados que, por sua vez, seriam avaliados por indicadores de performance. A mensuração de desempenho, em tese uma característica bem-sucedida nas empresas privadas, deveria gerar um novo formato de gestão pública por resultados. Como consumidores comparam custos e benefícios, a administração pública deveria se comportar como se estivesse diante de um cliente que merece receber o melhor serviço pelo menor custo, o que faria com que a qualidade de suas entregas fosse ampliada. Uma premissa central do gerencialismo assumia que as burocracias públicas, em vez de ter um ethos republicano, na verdade se comportavam como atores corporativos interessados em usar o aparato estatal para obter vantagens.Para enfrentar essa suposta distorção, seria necessário acabar com a estabilidade dos servidores públicos e criar formatos de vínculos funcionais com contratos baseados em performance. Servidores públicos deveriam ser submetidos a avaliações de desempenho, como nas empresas privadas, o que seria um antídoto para a ineficiência das burocracias públicas. O gerencialismo critica que a administração pública weberiana nada tinha de pública, pois sua falta de transparência dificultava que a sociedade pudesse responsabilizar os gestores por suas ações. A adoção de procedimentos de gestão à vista, apoiada em indicadores de resultado, faria as burocracias públicas prestarem contas aos cidadãos, que poderiam cobrar por mais resultados (Silva; Rodrigues, 2022). Gestão à vista também seria útil para enfrentar a crítica sobre a rigidez burocrática, pois a mensuração de desempenho e o foco no cliente-cidadão faria a administração pública se tornar mais flexível. Nessa linha, grandes organizações burocráticas, hierárquicas e estruturadas com base na divisão de trabalho especializado e segmentado deveriam ser substituídas pela descentralização de funções em órgãos menores e mais próximos dos cidadãos-clientes e por servidores públicos mais polivalentes. Um número maior de organizações públicas permitiria que essas competissem, atraindo cidadãos-clientes, numa adaptação de lógicas de mercado na administração pública (Carneiro; Menicucci, 2013). O gerencialismo serviu de referência para reformas do setor público em muitos países, a começar por Inglaterra e Estados Unidos, no final da década de 1970, mas foi a Nova Zelândia 22 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial que se tornou o grande laboratório de gerencialismo ao adotar o “manual” na íntegra, aliado a um grande processo de ajuste fiscal para reduzir os custos da administração pública. Para assistir à videoaula “Novos Paradigmas de Gestão Pública e Reforma do Estado”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. Observe que os países não têm modelos administrativos “puros”, e mesmo Weber, quando propôs os tipos ideais de administração pública, não tinha ilusões de que resquícios de formatos mais tradicionais seriam superados. Por essa razão, no caso brasileiro, os três tipos podem ser encontrados, pois lógicas patrimonialistas, burocráticas e gerenciais convivem de forma híbrida em nossas organizações públicas. Por exemplo, se a impessoalidade das normas fosse universal, o uso da máquina pública para fins particulares não existiria mais. DICA 23Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial ATIVIDADES DE ESTUDO Agora, realize duas atividades de estudo para testar os seus conhecimentos. Atividade de Estudo 3 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: quais as principais diferenças entre as modernas democracias de massa e a democracia dos antigos? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. Atividade de Estudo 4 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: quais as principais características da administração burocrática e como esse modelo se adapta às democracias de massa? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. 24 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Abordamos a evolução histórica do Estado como organização política e suas características mais importantes como forma de poder político organizado. De modo especial, o Estado moderno e seu papel em grandes territórios chamados nações/países. Vimos as principais ideias políticas que historicamente foram evoluindo para explicar o surgimento do Estado e as fontes de sua legitimidade junto às populações que são governadas desde o século XVI até as democracias de massa contemporâneas. Apresentamos as características mais relevantes das democracias modernas e como se distinguem das democracias dos antigos, bem como as principais instituições políticas necessárias para o funcionamento dessas formas de governo. Além disso, descrevemos a evolução da administração pública desde o patrimonialismo, passando pela administração burocrática influenciada pelo modelo weberiano e o surgimento do gerencialismo. Esperamos que os conhecimentos adquiridos aqui contribuam para sua atuação como servidor/a público/a. 25Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Atividade de Estudo 1 Resposta correta: b) Accountability vertical refere-se ao controle exercido pelos cidadãos sobre seus governantes, principalmente por meio de eleições e participação política. Resposta correta: a) Accountability horizontal ocorre entre os próprios poderes do Estado, como Executivo, Legislativo e Judiciário, garantindo a fiscalização e o equilíbrio entre eles. Atividade de Estudo 2 Espelho de Resposta Atividade de Estudo 3 A democracia dos antigos não apresentava governo representativo e não era baseada no princípio da soberania popular. A administração burocrática se adapta à democracia de massas por ser uma forma organizacional pautada na universalidade das regras, republicana, não patrimonial e que garante direitos iguais a todos. Atividade de Estudo 4 26 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Unidade 3 – Democracia e a Constituição de 1988 no Brasil Apresentação da Unidade Ao longo da história republicana do Brasil, iniciada em 1889, houve vários períodos de interrupção da democracia ou deturpação dessa forma de governo, a exemplo da República Velha, em que o falseamento do modelo representativo ocorria devido ao voto de cabresto que era aberto e sujeito a coerção dos coronéis (Leal, 2012). Veja como esses períodos se marcaram: Até 1930 A vida republicana teve dificuldade em consolidar uma verdadeira democracia, já que menos de 5% da população tinha o direito de votar. De 1930 a 1945 A ditadura de Getúlio Vargas impediu eleições para presidente e, após o Estado Novo em 1937, também para governadores, sem falar no fechamento do Congresso Nacional. Entre 1946 e 1964 Houve um breve retorno da democracia, mas ainda assim ameaçada por golpes militares, sendo mais conhecido aquele que buscou impedir a posse de João Goulart em 1961. De 1964 a 1985 O país experienciou um longo período de ditadura militar que suprimiu liberdades políticas e democráticas. Após 1985 É o período democrático mais longo na história do país, o que mostra como essa forma de governo é recente e ainda enfrenta desafios. 27Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Esta unidade tem por objetivo estudar o Estado democrático de direito no Brasil e como a Constituição de 1988 assentou as bases desse modelo para evitar rupturas autoritárias. Assim, você poderá compreender um pouco mais sobre as características da democracia brasileira e suas bases constitucionais. A partir de agora, vamos: • descrever as características da democracia representativa no Brasil; • apresentar as bases e instrumentos de democracia participativa no Brasil. 3.1 A Democracia Representativa no Brasil 3.1.1 As Bases Constitucionais da Democracia Representativa A Constituição de 1988 consagra o Estado democrático de direito com cinco fundamentos: Soberania Significa que o povo brasileiro é o titular do governo democrático, que obtém sua legitimidade política do apoio popular. A soberania também significa que suas decisões não podem ser sustadas por nenhuma ordem superior. Não há nenhuma autoridade ou poder acima da Constituição e das decisões soberanas das instituições que formam o sistema político brasileiro: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Cidadania É uma premissa central da democracia, pois a concessão de direitos civis, políticos esociais deve ser a regra, cabendo ao Estado conceder a seus habitantes um mesmo status jurídico, sem distinção por critérios de renda, raça, religião ou etnia. A Constituição, nessa linha, define o racismo como crime inafiançável e imprescritível. Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Elaboração: CEPED/UFSC (2025). 28 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Dignidade da pessoa humana É o respeito aos direitos fundamentais, garantindo condições para uma vida digna, liberdade, igualdade e justiça. Valores sociais do trabalho e da livre iniciativa É o fundamento por meio do qual indivíduos e empresas são livres para desenvolver e conduzir atividades econômicas sem controle direto do Estado. Pluralismo político Assegura que a diversidade de opiniões e expressões da sociedade não sofrerão impedimentos de qualquer ordem, respeitadas as normas legais. Sociedades democráticas são plurais, pois o livre debate de ideias alimenta seu desenvolvimento contínuo sem preconceitos e censura. Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Elaboração: CEPED/UFSC (2025). 29Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Esses princípios são organizadores das regras do sistema democrático do país que, para ser livre, precisa eleger seus governantes e representantes políticos. A Constituição de 1988 restabeleceu a soberania popular por meio do direito ao voto. O povo foi impedido de eleger a/o presidenta/e de 1961 a 1989, governadores de 1965 a 1982 e prefeitos de capital até 1985. O direito político ao voto é basilar nas democracias e sua cassação impede o exercício da soberania popular. A Constituição ratificou o direito ao voto obrigatório e secreto para quem tem entre 18 e 70 anos e para todos os cargos eletivos de governos e parlamentos. Após 1985, a democracia brasileira reparou um erro histórico ao permitir que a população analfabeta pudesse exercer o direito de votar. Aos adolescentes entre 16 e 18 anos também se aprovou o voto facultativo. A competição eleitoral passou a ser organizada por meio de partidos políticos que, mediante autorização do Tribunal Superior Eleitoral, podem ser formados e operam como veículos para a disputa de cargos eletivos. Como nos lembra Dahl (2022), o exercício dos direitos políticos depende das liberdades e direitos civis, o que também está consagrado na Constituição de 1988. Em seu artigo 5º, a CF estabelece direitos como a liberdade de manifestação de pensamento, expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, liberdade de reunião e de associação para fins lícitos, acesso à informação pública de interesse particular e coletivo e petição aos poderes públicos, em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder. Após 21 anos de supressão da liberdade de expressão e de censura imposta pelo regime militar, a Carta Magna fundamenta as bases do pleno exercício dos direitos civis. Ainda falando do artigo 5º, é importante mencionar que ele tem cláusulas essenciais para a democracia e o pluralismo político, pois garante o direito de os indivíduos se expressarem livremente, ficando vedado o anonimato. 30 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Isso significa que o artigo 5º contém cláusulas que permitem que as pessoas vivam mais livres e seguras, garantias fundamentais para a democracia. Essas garantias incluem liberdade de expressão, associação política, reunião pública e proteção contra arbitrariedade estatal. Também assegura liberdade de crença e consciência, e protege a vida privada, o que é um elemento crucial no pós-ditadura militar. Vamos detalhar para que você entenda o que cada uma dessas garantias significa: Fica garantido o direito de crítica, a liberdade de imprensa, a franquia para associar-se a partidos políticos, sindicatos ou outras organizações, desde que não atuem contra o Estado democrático de direito. O direito a reuniões públicas fica assegurado, pois a democracia supõe a organização coletiva. Igualmente importante nas democracias é a garantia constitucional de que o Estado não pode valer-se de seus poderes de forma arbitrária contra seus cidadãos. Como uma democracia laica, o Estado não se vincula a nenhuma religião, mas assegura a inviolável liberdade de consciência e de crença: ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, o que é mais uma forma de igualdade jurídica entre as/os cidadãs/os. 31Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial A vida privada é inviolável, o que parece óbvio em democracias, mas importante de ressaltar diante da prática usual da ditadura militar de espionar adversários do regime ou de pessoas consideradas subversivas. Saiba mais No Brasil, dois instrumentos são importantes para reduzir a falta de transparência do Estado na relação com a sociedade: • O habeas data, previsto no artigo 5º da Constituição, visa garantir que a pessoa física ou jurídica tenha acesso ou promova a retificação de suas informações que estejam registradas em banco de dados de órgãos públicos ou instituições similares. • A Lei de Acesso à Informação, vigente desde 2012, regulamenta o direito de acesso às informações públicas, conforme manda a Constituição. Por meio dela, qualquer pessoa física ou jurídica, sem necessidade de apresentar motivo, pode solicitar informações dos órgãos públicos. A Constituição também definiu as regras para o controle horizontal entre os poderes da República, pois esta também é uma salvaguarda para preservar a democracia. 3.2 O Controle Horizontal entre os Poderes O artigo 2º da Constituição define que são poderes da União – independentes e harmônicos entre si – o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Esta é uma das quatro cláusulas pétreas da Constituição, o que impede de ser emendada, modificada ou suprimida. Em linha com as premissas de Madison, um dos pais fundadores da democracia americana, em todos os países em que essa forma de governo foi adotada existe algum procedimento de divisão horizontal e de controle mútuo de poderes. Cada poder tem responsabilidades específicas e, por isso, são autônomos, mas também convivem de forma interdependente e, na medida do possível, de forma harmônica, pois decisões que afetam a população dependem do funcionamento dos três poderes. A Constituição de 1988 manteve o sistema de governo presidencial, o que se replica para estados (governadores) e municípios (prefeitos) de forma simétrica. 32 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Para assistir à videoaula “Relação entre o Controle e a Gestão na Construção de Políticas Públicas”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. Os chefes do Poder Executivo têm a responsabilidade de organizar a administração de seus governos, o que ocorre por meio da definição de seus ministérios e secretarias. Ao Poder Executivo cabe executar e implementar leis elaboradas por esse próprio poder ou pelo poder legislativo (Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores). A divisão horizontal de poderes. Fonte: Wikipedia (2025), adaptada por CEPED/UFSC (2025). 33Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Ao Poder Legislativo cabe elaborar leis e, em nome da sociedade, fiscalizar o governo. Na esfera federal, o Congresso Nacional é bicameral e formado pela Câmara dos Deputados (que representa o povo brasileiro) e o Senado Federal (que representa as unidades da federação). A Câmara dos Deputados é formada por 513 deputados eleitos para um mandato de 4 anos e o Senado Federal conta com 81 senadores eleitos para um mandato de 8 anos. Em ambos os casos, são permitidas reeleições indefinidas. Como apoioà função de fiscalizar o Poder Executivo, o Congresso Nacional também conta com o Tribunal de Contas da União (TCU), como será apresentado na próxima seção. Nos estados, o controle externo é exercido pelas assembleias legislativas e pelos tribunais de contas dos estados. Na esfera municipal, o Poder Legislativo é a Câmara de Vereadores (Grohmann, 2001). Saiba mais Apesar de vigorar no Brasil a separação de poderes, o presidente tem muitos poderes que exercem influência sobre a produção legal via poderes reativos e proativos. As situações nas quais o presidente interfere diretamente são a rejeição de leis aprovadas, na edição de medidas provisórias de caráter unipessoal do presidente da república, com força de lei e editada sem participação do Poder Legislativo que será chamado a discuti-la e aprová-la. A faculdade constitucional de editar medidas provisórias é uma das mais marcantes mudanças institucionais do presidencialismo no Brasil após 1988, pois confere muito poder político ao presidente em sua relação com o Congresso Nacional. O Poder Judiciário é formado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal de Justiça (STJ), tribunais regionais federais e tribunais dos estados e do Distrito Federal. Na esfera federal, o STF ocupa uma importante função de ser uma corte suprema constitucional, instância recursal e de resolução de conflitos federativos, além de exercer seu papel de peso e contrapeso em relação às ações do Governo Federal. Justamente para exercer com liberdade seu papel de controle das ações dos demais poderes, o judiciário tem autonomia administrativa e financeira garantidas pela Constituição Federal (Grohmann, 2001). 3.3 Órgãos de Controle Externo e Interno e seu Papel na Democracia Anteriormente falamos sobre a forma como o controle horizontal de poderes se organiza. No entanto, os poderes constitucionais do presidente, governadores e prefeitos são 34 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial também limitados por uma rede de instituições de controle externo. Essas instituições são responsáveis pelo processo de accountability horizontal: agências estatais com direito, poder legal e capacidade de ação – desde sanções legais até impeachment – contra delitos cometidos pelo presidente e autoridades públicas. São agências com poder de fiscalizar autoridades com poderes legais e constitucionais, e com autonomia de atuação, que complementam o controle horizontal externo exercido pelo Poder Legislativo. A Constituição de 1988 delegou amplos poderes ao Judiciário e aos órgãos de controle autônomo, como o Tribunal de Contas e o Ministério Público. Os constituintes empoderaram uma rede de controle para vigiar e prevenir irregularidades (Filgueiras, 2018). As possibilidades garantidas constitucionalmente de exercício do poder majoritário dos chefes do poder executivo são controladas por instituições fortes e autônomas. As principais instituições de controle horizontal externo e interno são: • Controladoria Geral da União. • Tribunal de Contas da União. • Ministério Público. De acordo com o artigo 70 da Constituição Federal, o Controle de Contas é exercido pelo Congresso Nacional com o auxílio do Tribunal de Contas, que terá a função de fazer a análise da execução financeira e orçamentária, operacional e patrimonial da administração pública. Por simetria, o mesmo artigo se aplica aos Estados e municípios. A Corte de Contas auxilia o Congresso no exercício do controle externo com as seguintes atribuições: 1. Apreciação das contas anuais do presidente da república. 2. Julgamento das contas dos administradores e responsáveis por bens e valores públicos. 3. Emissão de parecer acerca da legalidade de licitações e contratos, admissão de pessoal, concessão de pensões e aposentadorias. 4. Apuração de denúncias apresentadas por qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato sobre irregularidades ou ilegalidades na aplicação de recursos federais. 5. Realização de inspeções e auditorias por iniciativa própria ou via Congresso Nacional. 6. Fiscalização da aplicação de recursos da União repassados a estados. 35Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 7. Emissão de pronunciamento conclusivo, por solicitação da Comissão Mista Permanente de Senadores e Deputados, sobre despesas realizadas sem autorização. Com relação ao Ministério Público (MP), com a Constituição de 1988, esse órgão adquiriu autonomia funcional e pode tomar decisões sem interferências de outros órgãos. O MP não está vinculado a nenhum dos poderes do Estado e é uma instituição permanente que atua na função jurisdicional do Estado com a atribuição de defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais e, na função de controle, na fiscalização do Poder Público. O MP atua como instituição de controle externo por meio da: 1. Apresentação de denúncias criminais contra autoridades públicas perante os tribunais. 2. Exigência do cumprimento da lei e fiscalização de sua obediência por ocupantes de cargos públicos, sendo uma atribuição que exerce com grande discricionariedade, o que amplia sobremaneira sua atuação como órgão de controle. 3. Proposição de Ações Diretas de Inconstitucionalidade para controlar a constitucionalidade das leis criadas pelo parlamento e atos do presidente da república. 4. Denúncia de improbidade administrativa contra autoridades públicas propondo sanções em casos de enriquecimento ilícito ao atuar na administração pública direta e indireta. 5. Participação de ações populares para preservar, contra atos das autoridades públicas, o patrimônio público, histórico e cultural, o meio ambiente e a moralidade administrativa. 6. Ação Civil Pública por danos causados por autoridades públicas ao meio ambiente, patrimônio público, cultural e artístico e contra a ordem econômica, por exemplo. Preste atenção nos papéis do Tribunal de Contas da União, não apenas no controle externo ex post das ações do Poder Executivo, mas também sua atuação definindo metas e resultados a serem obtidos pela Administração Pública Federal. Trata-se de uma nova forma de controle que incide sobre a produção e avaliação das políticas públicas.DICA 36 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Internamente aos Poderes Executivos vem crescendo a organização de controladorias. Na esfera federal, a Controladoria-Geral da União (CGU) é o órgão central de controle interno do Poder Executivo Federal, assim como existe em muitos estados e municípios. Cabe à CGU apoiar o chefe do Poder Executivo na defesa do patrimônio público e na transparência dos atos governamentais. Entre suas funções centrais estão: 1. Realização de auditorias e fiscalizações sobre como os recursos públicos são utilizados. 2. Encaminhamento das representações ou denúncias fundamentadas que receba, relativas à lesão contra o patrimônio público, de forma a zelar por sua integridade. 3. Instauração de sindicância quando constatada a omissão de autoridade competente e, se for o caso, aplicando a penalidade administrativa cabível. 4. Atuação na prevenção e combate à corrupção na administração pública. 5. Avaliação dos gastos públicos quanto à eficácia e eficiência da gestão pública. 6. Desenvolvimento da função de correição administrativa ao fiscalizar e inspecionar o exercício das atividades de servidores públicos, visando evitar abusos ou irregularidades. 7. Recebimento, exame e encaminhamento de denúncias realizadas contra a ação de agentes públicos, órgãos e entidades do Poder Executivo. 8. Realização de auditorias públicas para fiscalizar como estados, municípios, órgãos e entidades públicos e privados utilizam recursos públicos federais. Essa rede de instituições é importante para moderar o exercício dos poderes que a Constituição garante aos presidentes, o que também explica muitoda estabilidade da governança democrática que o país construiu desde 1988. Argumento similar se aplica para o controle interno de governadores, prefeitos e outras autoridades públicas. Para assistir à videoaula “Gestão Participativa nas Políticas Públicas”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. 37Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial 3.4 A Democracia Participativa no Brasil A Constituição de 1988 não apenas consagrou e ratificou as bases da democracia representativa e a lógica da divisão horizontal e de controle entre os poderes: a maior inovação institucional inserida no texto constitucional e outros textos legais diz respeito à democracia participativa. A Constituição alargou o conceito de cidadania política para assegurar que a sociedade seja chamada a fiscalizar a ação dos governantes. Existem diferentes instrumentos de controle social e de expressão direta de exercício da soberania popular que se estendem além do direito de votar e ser votado, em linha com o artigo 1º da Constituição. O artigo 14 da Constituição define o plebiscito, a iniciativa e o referendo como meios de exercício da soberania popular. Soberania popular É exercida por sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos e mediante a participação em plebiscitos, referendos e leis de iniciativa popular. Contudo, com exceção da iniciativa popular, para o plebiscito e o referendo a sociedade depende da convocação do poder legislativo, além de não existir nenhuma lei determinando temas que necessariamente deveriam merecer consulta popular. O plebiscito e o referendo são consultas formuladas para que a população delibere sobre matéria de relevância constitucional, legislativa ou administrativa. Plebiscito É o instrumento por meio do qual a população opina sobre antes da criação do ato legislativo ou administrativo. Em 1993, um plebiscito definiu se o país deveria ter um regime republicano ou monarquista e um sistema presidencialista ou parlamentarista. Desde então, este foi o único plebiscito. A Constituição também prevê que plebiscitos podem ser requisitados pelo Congresso Nacional em assuntos que entenda ser necessária a consulta à sociedade. O referendo é convocado por ato legislativo ou administrativo. Esse tipo de consulta tem eficácia absoluta, permitindo ou impedindo o ingresso do texto legal ou do ato administrativo sobre o qual incidiu a consulta. Em outubro de 2005 se votou para decidir sobre a validade de um artigo no Estatuto do Desarmamento que proibia o comércio de armas. O plebiscito é convocado antes da criação do ato legislativo ou administrativo que trate do assunto em pauta. O referendo é convocado depois, para a população votar se aceita ou rejeita a proposta. 38 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Iniciativa popular É a ação direta da sociedade na elaboração das leis. Para uma lei de iniciativa popular ser proposta ao Poder Legislativo, requer-se a assinatura de um por cento dos eleitores, distribuído por 5 unidades federativas e, no mínimo, 0,3% dos eleitores de cada uma dessas unidades federativas. O projeto de lei deve limitar-se a um só assunto e não pode ser rejeitado por vício de forma, cabendo ao parlamento providenciar a correção de eventuais impropriedades de técnica legislativa ou redação. Exemplo Um exemplo exitoso da iniciativa popular foi a Campanha Ficha Limpa, lançada em abril de 2008 com o objetivo de melhorar o perfil dos candidatos e candidatas a cargos eletivos do país. Após entrar em vigor, a lei foi declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Além dessas modalidades, os conselhos gestores de políticas públicas efetivam a democracia participativa e possibilitam a participação social ao constituírem espaços de corresponsabilidade entre governos e sociedade na definição de políticas garantidoras de direitos. Os conselhos existem nos três níveis da federação, mas sobretudo nos municípios essas instâncias ampliam o controle social sobre as políticas públicas descentralizadas como educação, saúde, assistência social, habitação, segurança pública, entre outras. Trata- se, pois, de espaços institucionalizados de participação em que membros do Estado e da sociedade discutem e decidem sobre políticas públicas. Esses conselhos podem ser: • setoriais: saúde, educação, cultura, meio ambiente; • temáticos (temas transversais): direitos humanos, gênero, cor; • gestão: de hospitais, Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Plano de Metas, Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Nos 5.570 municípios, esta é uma prática amplamente disseminada e, segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Munic IBGE) (2011-2020), verificou-se a existência de pelo menos 70.521 conselhos nos municípios, o que representa uma média de 12,66 por cidade. Como o Governo Federal repassa recursos para os municípios, cabe aos conselhos setoriais fiscalizar a aplicação dos fundos e avaliar como as ações são realizadas. 39Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Exemplo Na educação, o conselho municipal verifica a aplicação de recursos repassados para o Fundeb. Na saúde, o conselho municipal verifica a aplicação da verba do Fundo Municipal de Saúde, responsável pela gestão dos recursos recebidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Com as possibilidades legais abertas com a criação de conselhos como instâncias de controle social e maior autonomia da sociedade perante o Poder Público, a ampliação dessa forma de participação é um importante instrumento para desenvolver a ação política dos cidadãos. Para se ter uma dimensão da importância dos conselhos gestores de políticas públicas no Brasil: a) até 2016 existiam 35 conselhos nacionais em várias áreas (saúde, assistência social, cultura, direitos de crianças e adolescentes, meio ambiente, por exemplo); b) em 2023 foram recriados conselhos extintos em 2019 (Juventude, Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Ciência e Tecnologia, Políticas sobre Drogas, Desenvolvimento Industrial, Direitos de Pessoas Idosas e Povos e Comunidades Tradicionais). Além dos instrumentos de democracia anteriormente discutidos, também existem as audiências públicas, que são espaços de participação abertos que podem ser convocadas para a população se informar e se manifestar sobre uma determinada política ou projeto de lei. Para assistir à videoaula “O Estado de Bem-Estar Social no Pós-Constituição Federal de 88”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. 40 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Exemplo a) Audiências públicas realizadas pelo Poder Executivo e Poder Legislativo para discutir o orçamento. b) Audiências públicas realizadas para discutir obras com impacto ambiental, licitações, contratos administrativos, concessões, agências reguladoras. c) Consultas públicas, que não são presenciais, têm período determinado, mas visam subsidiar a tomada de decisão e de edição das normas da administração pública por meio da contribuição dos cidadãos. d) Por fim, a sociedade pode participar por meio de ouvidorias ao enviar reclamações, denúncias e sugestões. Existem também as conferências de políticas públicas que são espaços de discussão organizados em todos os níveis da federação. Ocorrem em diversas políticas públicas e temas transversais: saúde, educação, assistência social, direitos humanos, transparência e controle social, entre outras. Geralmente apresentam subsídios para o planejamento da política pública e elegem representantes que participam nas conferências federais. Desde sua criação em 1941 até 2016, já foram realizadas 138 conferências nacionais e centenas de milhares de conferências intermediárias nas esferas municipais e estaduais. Paraentender os vários instrumentos de democracia participativa que foram implantados no Brasil, após 1988, você deve considerar o contexto anterior da ditadura militar que impedia a sociedade de participar da tomada de decisão sobre políticas públicas. A Constituição de 1988 buscou criar mecanismos que reforçassem a expansão dos direitos de cidadania no interior da administração pública como forma de evitar a centralização de decisões que afetam a vida das pessoas, como era usual durante o regime militar. Por outro lado, você deve considerar que os vários mecanismos de participação social foram concebidos também como antídotos contra novos retrocessos autoritários. Por essas razões, o Brasil é conhecido como um país em que várias inovações institucionais foram implantadas e lograram êxito como forma de ampliar a participação social na administração pública. DICA 41Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial ATIVIDADES DE ESTUDO Agora, realize duas atividades de estudo para testar os seus conhecimentos. Atividade de Estudo 1 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: qual a importância dos órgãos de controle quanto às ações das autoridades públicas? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. Atividade de Estudo 2 Atividade Pense um pouco, pegue papel e caneta e responda à seguinte questão: qual a importância dos processos de democracia participativa no Brasil? Veja o espelho de resposta após o encerramento da Unidade. 42 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Elaboração: CEPED/UFSC (2025). Resumindo, vimos que a Constituição de 1988 apresenta princípios que sustentam a democracia representativa e a democracia participativa no Brasil. Não por acaso, ela passou a ser conhecida com a Constituição Cidadã ao ter consolidado e ampliado o conceito de democracia. Além disso, compreendemos que o país não apenas conta com um desenho robusto de instituições democráticas e um sistema de divisão de poderes e controle externo e interno, mas também as arenas de controle social operam no âmbito da administração pública em todas as esferas da federação. Por fim, ressaltamos que democracias também garantem sua legitimidade se a provisão de serviços públicos for bem conduzida para garantir direitos, o que será objeto de apresentação na próxima unidade. Esperamos que, com o que aprendeu aqui, você possa melhorar em sua atuação como servidor/a público/a. 43Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Atividade de Estudo 1 Os órgãos de controle têm o poder de fiscalizar autoridades com poderes legais e constitucionais, e com autonomia de atuação, que complementam o controle horizontal externo exercido pelo Poder Legislativo. Permitem o exercício dos direitos políticos, de instrumentos de controle social e de expressão direta de exercício da soberania popular para além do direito de votar e ser votado. Atividade de Estudo 2 Espelho de Resposta 44 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Unidade 4 – Estado de Bem-Estar e Provisão de Serviços Após 1988 Apresentação da Unidade O Brasil acumulou uma enorme dívida social como consequência das políticas regressivas e concentradoras de renda implementadas durante a ditadura militar, o que se expressava em indicadores muito ruins, como taxa de analfabetismo e mortalidade infantil. A pobreza alcançou patamares elevados e a expectativa de vida seguia baixa. A universalização de serviços básicos como coleta de lixo e oferta de água estavam longe de terem números expressivos em termos de cobertura. O retorno à democracia veio acompanhado de uma avaliação pelos responsáveis em elaborar a Constituição de 1988, da necessidade desse acerto de contas com a sociedade brasileira. Também por essa razão, a Carta Magna ficou conhecida como Constituição Cidadã ao consagrar vários dispositivos que transformaram e/ou garantiram vários direitos sociais universais. Por exemplo, a saúde passou a ser um direito independente da situação formal das pessoas no mercado de trabalho, como era exigido pelas regras prévias à criação do Sistema Único de Saúde após 1988. A Constituição de 1988 definiu as bases do Estado de bem-estar social no Brasil de modo que, além dos direitos civis e políticos, a democracia também incorporou a universalização de direitos sociais. O status da cidadania, pela primeira vez na história republicana do país, alargou o leque de direitos garantidos pelo Estado. Nesse sentido, esta unidade apresenta as características do Estado de bem-estar no Brasil, visando: • descrever as características do Estado de bem-estar no Brasil após 1988; • abordar o papel do Estado na provisão de serviços públicos após 1988. 4.1 O Estado de Bem-Estar Social no Brasil após 1988 A estrutura do Estado de bem-estar social no Brasil sofreu mudanças significativas após 1988. De um modelo marcado por uma ausência de direitos sociais universais, que vigorou até o final do regime militar, a concepção que emergiu com a Constituição de 1988 45Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial reforçou o dever do Estado na provisão de serviços e políticas sociais em áreas como saúde, assistência social e previdência social, sob o conceito de Seguridade Social. O artigo 6 da Constituição Federal define os direitos sociais como a garantia do acesso universal à educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. A Constituição alterou o modelo de cidadania regulada de políticas sociais que, na sua essência, esteve em vigor desde o governo Getúlio Vargas até o final do regime militar em 1985. A oferta de direitos sociais era segmentada por grupos sociais, sob padrões clientelistas ou autoritários, como consequência da ocupação funcional no mercado de trabalho e contribuição à previdência social, sem apoio de uma administração pública burocrática no sentido da impessoalidade e universalidade de regras, além de ser um modelo centralizador de relações intergovernamentais para a provisão de serviços. Até 1988, existia uma “grande divisão entre insiders e outsiders, por meio de um mecanismo de superposição de vantagens que favorece os trabalhadores mais bem qualificados no mercado de trabalho” (Arretche, 2018, p. 299). A Constituição alterou a estrutura do Estado de bem-estar social ao universalizar direitos e introduzir dispositivos de proteção e seguridade social. Nesse padrão universalista, as políticas não poderiam mais segregar os beneficiários por critérios contributivos, pois o status de cidadão ficou garantido constitucionalmente e, assim, o acesso a políticas que antes não estavam a seu alcance. Para assistir à videoaula “O Papel dos Servidores Públicos na Promoção do Estado de Bem-Estar Social”, acesse o conteúdo interativo da disciplina. O padrão universalista de políticas sociais, bem como a expansão de sua cobertura, visou assegurar a todo cidadão o direito a usufruir dos serviços e bens públicos produzidos pelo Estado. A Constituição introduziu um capítulo da Seguridade Social, o que permitiu que o status de cidadania fosse conferido de forma universal e adotado como um princípio central do Estado democrático de direito. Conforme o artigo 194, a Seguridade Social compreende ações do Estado e da sociedade destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, previdência social e assistência social. Ademais, para avaliar o Estado de bem-estar no Brasil, importa também considerar os avanços na política pública de educação. Assim, entre os principais avanços trazidos pela Constituição de 1988, temos: 46 Estado e Democracia no Brasil e a Constituição de 1988 Programa de Desenvolvimento Inicial Na área da saúde, a