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UNIDADE Trabalho e Progresso Introdução Estudar as relações de trabalho no Brasil passa por uma diferenciação necessária que se desdobra em várias situações-problemas. Antes de mais nada, é preciso entender que a nação brasileira se erigiu em grande medida devido ao trabalho escravo, que moldou processos produtivos do Brasil Colô- nia até a República, em um período que ultrapassa metade da história do Brasil. Quer saber mais? Veja: MATTOS, R. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2007; RESENDE, L. História Fundamental do Brasil. Belo Horizonte: Álvares, 1971; SOUZA, de e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2008. Ou seja, são trezentos anos de escravidão que percorrem os anos de 1550 a 1850, deixando marcas profundas na nação e estabelecendo uma forma de produção que não tinha qualquer valorização ou respeito por aqueles que assumiam a força de produção da sociedade. Aqui, é importante resgatar a questão dos indígenas, que sofreram também com processos de escravização e alijamento dos benefícios de sua força de trabalho e de suas terras e condições de produção para, à força, se adequarem ao processo de produção dos colonizadores. A escravidão no Brasil. Disponível em: https://bityl.co/8qx9 Apesar do apresamento indígena não ter tido a intensidade da escravidão negra e nem ter durado tanto tempo, não podemos esquecer que também teve peso significativo para Brasil, cuja herança deixa uma dívida histórica, social e política que não pode ser esquecida. Posto isso, é preciso pontuar outras questões para amplo entendimento da questão. No Brasil, trabalho não foi só escravo. Outras modalidades também ocorreram desde Período Colonial e nos dão pistas importantes para entendimento da própria socie- dade e da cultura brasileira. Seguindo entendimento de Karl Marx e do marxismo posterior, que pontua que trabalho é a própria forma na qual ser humano se relaciona consigo, com próximo e com a natureza, é na ação de transformação dos elementos pela ação intencional que vai do polo da necessidade (sobrevivência) até a expressão de manifestação dos senti- mentos (imitação do belo) -, que trabalho se circunscreve em mais do que uma ação para a sobrevivência ou acumulação. 8Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Quer saber mais? Veja: HARVEY, D. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005; MARTINS, J.S. 0 cativeiro da terra. 8. ed. São Paulo: hucitec, 2000; MARX, capital: crítica da economia política. Livros I e III. São Paulo: Nova Cultural, 1986; OLIVEIRA, F. de. Elegia para uma re(li)gião: Sudene, Nordeste. In: Planejamento e conflito de classes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. O trabalho é a própria ação do ser que, ao trabalhar, é também um artista criador de cultura. Ou seja, trabalho do ser humano é sua expressão no mundo e sua ligação com ele, seja seu mundo interior (ele mesmo), seja mundo exterior (a natureza e a sociedade). O trabalho no Brasil pode ser simplificadamente dividido em trabalho escravo e tra- balho livre. Porém, essa divisão é básica e inicial. Comecemos por entender que implicou a questão desses dois tipos de trabalho inseridos na lógica da colonização e do tipo de trabalho que colonizador trouxe para a terra brasilis. Esse trabalho era inicialmente de extração, comércio e produção de cana-de-açúcar e derivados, que, posteriormente, veio a assumir uma expansão cada vez maior na divisão do trabalho social. Dessa forma, trabalharemos as questões do trabalho escravo e do trabalho livre para entender um pouco mais sobre a História do Brasil no Império. A Economia e as Formas de Trabalho que Compunham a Economia Imperial: Trabalho Escravo e Trabalho Livre A chegada dos portugueses no Brasil trouxe mudanças importantes para habi- tantes da terra brasilis, que compartilhavam e extraíam de forma artesanal e familiar meios de sobrevivência, com um impacto mínimo na natureza em sua ação laboral. O sistema extrativista foi a primeira forma de atuação laboral, que durou pouco tempo, com a instalação dos engenhos de cana-de-açúcar e a formação de vilas e comunidades que vieram para instalação, manutenção e expansão dos locais. A questão do comércio sempre foi muito forte para desenvolvimento das regiões, pois Brasil agropecuarista também era Brasil comercial e que empregava diversos contingentes, muitos deles de forma empreendedorista e outros tantos informais tra- balho informal que, aliás, ainda persiste no Brasil atual e que não parece haver solução a curto ou médio prazo. 9UNIDADE Trabalho e Progresso Junto a isso, há no trabalho religioso uma grande fonte e espaço de atuação, tendo em vista que a Igreja Católica atuava em diversas áreas, como educacional, saúde e cui- dado, registro civil e administrativo, além do trabalho catequético. O que também é digno de nota, e ainda carece de mais estudos no Brasil, é a questão do trabalho estatal, que foi uma das bases de desenvolvimento do País. Ainda hoje, diversos municípios e localidades dependem do emprego público, que sustenta e dá a base da economia, movendo diversos outros setores. Assim, em síntese, podemos entender que a colonização e a formação do Brasil se deram através do trabalho no campo agrário e pecuarista, do comércio extrativista, do empreendedorismo, do trabalho escravo e livre, do trabalho estatal e do trabalho religioso. Em relação ao trabalho escravo, podemos afirmar que a prática ocorreu após a in- serção de diversos países europeus na antiga rede de tráfico escravo africano que existia em África e que europeus transformaram em uma rede transatlântica. tráfico de escravos africanos: novos horizontes. em: https://bityl.co/8qxF A antiga rede de comércio de escravos existiu na África desde século II a.C., acen- tuando-se de forma exponencial na Idade Moderna com a entrada dos países europeus na constituição do tráfico negreiro transatlântico. A arqueologia ainda não desvendou a origem do fenômeno social da escravização de um povo pelo outro. Foram encontrados sinais gráficos e esculpidos em pedras e ca- vernas de que a captura de escravos fazia parte das expedições militares egípcias desde 2680 a. C., aproximadamente. A cultura dos povos envolvidos apresentava como um status de força e prestígio para soberano. Era uma prova de que a campanha militar fora bem-sucedida na apreensão de inimigos, revelando a glória do povo e a virilidade dos seus guerreiros. Assim, historiadores, antropólogos e encontraram vestígios de que, em África, desde a Antiguidade, havia uma cultura de escravização que era sustentada por diversos motivos: família, clã, tribo, etnia, língua, religião, status e riqueza, entre outros. Quer saber mais? Veja: LOVEJOY, P. A escravidão: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996; SILVA, da e. A manilha e 0 libambo. A escravidão na África de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Editora da UFRJ, 2003. As diversas tribos e reinos em constante disputa por territórios, riquezas e água fa- ziam escravos e produziam contingentes apresados, destinados aos postos comerciais instalados nas costas africanas, que eram vendidos por mercadores africanos para outras nações ou grupos. 10Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Ocorriam também apresamentos e razias (incursões em territórios inimigos) por endi- vidamento, crimes, heresias, fome, abandono ou por outros motivos Dessa forma, estudiosos demonstraram que tráfico de escravos da Núbia para Egito, ao longo do Nilo, girava em torno de 500 escravos por ano, em um período constante de 4.000 anos. Naturalmente, havia diferenças regionais no modo como escravos eram tratados e as regras para sua libertação. No Islã, por exemplo, havia regras sobre a alforria, espe- cialmente nos casos de escravos soldados, que não acontecia no sul do Saara. Essa forma de tratamento e as regras sobre apresamento e seu processo de liber- tação fazia com que sistema sempre buscasse a reposição, com novas capturas, para a manutenção do comércio. O desenvolvimento do comércio de escravos africanos, entre os continentes, estava inserido na prática no interior da própria África e foi um importante fator no desenvol- vimento das redes inter-regionais de caravanas, com registros no Egito, na Núbia, na savana subsaariana e na Etiópia, desde século IV. Outro ponto importante é que, na África pré-colonial, havia uma preferência por escravos do sexo feminino por conta da capacidade de reprodução e da venda de con- cubinas para os haréns. Além disso, havia uma "razão econômica" pela preferência da compra de mulheres e crianças, pois, como era a justificativa na época, eram mais valiosas devido ao trabalho doméstico, à maior longevidade e à possibilidade de reprodução, além de ser mais fácil para assimilação às estruturas de parentesco. Já na cultura islâmica, foi abolido sistema de concubinagem. Devido às regras sociais de determinados reinos, especialmente de influência islâ- mica, a segunda geração de escravos adquiridos se tornava livre, logo, essa mão de obra escrava não se autorreproduzia. Na formação dos grandes reinos africanos, a escravidão tornou-se um importante fenômeno social, utilizando extensivamente contingentes escravizados na produção, como instrumento do poder político e para a servidão doméstica e sexual. Esses escravos eram utilizados para OS mais diversos trabalhos, desde trabalhos agrícolas, na extração nas minas, no transporte, nas residências e em atividades militares. Desse modo, ampliou-se a oferta regular de escravos, afetando a organização social e cultural em algumas regiões em África. Estudiosos constataram que já havia um comércio pré-Atlântico, de longa distância. Assim, que europeus fizeram, ao se inserirem nesse antigo sistema, foi controlar, intensificar e modificar suas regras para que atuasse em grande escala. Havia ainda as trocas comerciais entre as caravanas inter-regionais do Saara, nego- ciando ouro e marfim, trocados por sal. 11UNIDADE Trabalho e Progresso Os apresados serviam de carregadores e, depois, eram vendidos nos entrepostos em um complexo comércio que incrementava as relações sociais entre as regiões e povos do Oriente Médio e partes de África. Em muitos reinos da África pré-colonial, havia a presença dessa escravidão militaris- ta, ou seja, exércitos de escravos. CALDEIRA, Escravos em Portugal: das origens ao século XIX. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2017. A grande mudança ocorreu com a entrada das nações europeias na rede de comércio escravo, que causou aumento exponencial das expedições pela enorme procura por conta da colonização nas Américas pelo uso dessa mão de obra. Assim, que era um processo cultural, se transformou pela necessidade de grandes contingentes que os europeus demandaram para a reposição dessa mão de obra. Isso intensificou a guerra, a violência, as mortes, incentivando outros grupos a se integrarem no sistema. Diversas "empresas de apresamento" foram criadas, fazendo surgir "empresários" especializados na captura de escravos para fins comerciais, afetando sociedades na lógica capitalista de estratificação política e econômica. Os diversos reinos e tribos acabaram por se inserir no sistema europeu de forma a burocratizar suas formas de atuação para atender aos interesses comerciais e formar exércitos para controle social e conquista de cativos, através da guerra. O tráfico negreiro realizado por Portugal se iniciou no século XV. Os relatos historio- gráficos remontam a 1444, com africanos levados para Algarve, Sul de Portugal. GOMES, L. Escravidão: do primeiro leilão até a morte de Zumbi dos Palmares. vol. I. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. Já para Brasil, esse "comércio" foi de 1550 a 1850, embora 6.900 africanos escra- vizados ainda tenham sido desembarcados no país entre 1851 e 1856. Entre início do século XVI até a metade do século XIX, Brasil foi maior importador de escravos africanos das Américas, sendo a única nação independente que praticou maci- çamente tráfico negreiro, transformando-se no maior agregado político escravista. O tráfico negreiro ocorreu em todo Oceano Atlântico, entre séculos XVI e XIX, em quatro eixos principais e um eixo derivado, unindo portos brasileiros à África. VISENTINI, P. F.; RIBEIRO, L. D.; PEREIRA, D. História da África e dos africanos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2020. 12Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Em ordem crescente, primeiro eixo foi último a ser criado e que teve menor duração. Unia a Amazônia à Guiné-Bissau, na Senegâmbia, e dependia da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778), criada para administrar territórios da Guiné-Bissau e da Amazônia. O segundo eixo unia Pernambuco, Angola e golfo da Guiné. O terceiro eixo ia da Bahia ao golfo da Guiné e à baía de Benim. Havia um intrincado processo de trocas em que escravos eram trocados por tabaco, uma mercadoria de exportação privilegiada que era enviada para portos de Benim. O último eixo conectava Rio de Janeiro à Angola e Moçambique, além de outros portos negreiros da África Ocidental. Tabela 1 Os eixos do tráfico negreiro Eixo Descrição Circuito Amazônia, Essa rede dependia da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Guiné-Bissau Maranhão, criada pelo marquês de Pombal para administrar os territórios e Senegâmbia das duas pontas do circuito marítimo, a Guiné-Bissau e a Amazônia. Circuito Pernambuco, Unia Pernambuco a Angola e, secundariamente, ao golfo da Guiné. Angola Fazia 0 transporte do tabaco baiano e, às vezes, pernambucano, Circuito Bahia, III Golfo da Guiné mercadoria de exportação privilegiada, garantindo aos produtores escravistas regionais frete para os portos do Benim. Conectava 0 Rio de Janeiro e seus portos subsidiários a Angola e, mais Circuito Rio de IV tarde, depois da chegada da Corte, a Moçambique e, por vezes, a outros Janeiro, Angola portos negreiros da África Ocidental. Da Guanabara, derivava uma rede vinculando 0 tráfico fluminense ao Rio da Prata. Durante 300 anos de comércio escravista utilizando esses quatro eixos de trans- porte, milhares foram trazidos para Brasil, porém, não há consenso entre historia- dores sobre número exato do contingente total. Porquanto houve tanto comércio oficial, quanto comércio ilegal, dados são controversos, incompletos e alguns claramente falseados. As estimativas apresentam a cifra entre quatro e cinco milhões de pessoas. Esse sistema acabou por se incorporar ao sistema mercantil internacional do Medi- terrâneo, e incorporado aos espaços produtivos coloniais e transnacionais das fronteiras mercantis do capitalismo global em um vasto e complexo mosaico de atividades econô- micas fundadas na exploração do trabalho escravo, unindo Ocidente e Oriente. Desde o século XII, no sistema controlado pelas cidades italianas de Gênova e Veneza. Já no século XV, a expansão ultramarina ibérica permitiu a ampliação para espaço Atlântico. Os portugueses inovaram associando a produção açucareira ao trabalho dos africanos escravizados, abrindo novas frentes de cultivo da cana-de-açúcar nos arquipélagos da costa africana. 13UNIDADE Trabalho e Progresso Dessa forma, podemos afirmar que havia uma conjugação estreita entre escravidão negra e açúcar branco, antes mesmo da colonização da costa nordeste do Brasil. No final do século XV, a rede de engenhos da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano permitiu que a indústria açucareira portuguesa adquirisse um novo perfil, prefigurando que viria a ser nos 250 anos seguintes. Na primeira metade do século XVII, tráfico transatlântico permitiu aos portugueses monopólio sobre a oferta de açúcar nos mercados europeus. Entretanto, isso não du- rou muito, pois a ampliação da base de consumidores urbanos no noroeste da Europa, aliada aos altos preços que eles se dispunham a pagar pelo artigo, levou outros países a enfrentarem o comércio e monopólio português, lançando-se ao mar para participar das benesses econômicas alcançadas pelo Império Ibérico. Por todo século XVIII, açúcar brasileiro foi perdendo espaço nos mercados eu- ropeus para produtores escravistas das Antilhas britânicas e francesas. Dessa forma, ocorreu uma verdadeira guerra comercial entre a Companhia das índias Ocidentais holandesa e Império Português no Atlântico Sul, que abriu espaço para que inte- resses escravistas das zonas açucareiras interferissem diretamente nos negócios negrei- ros, estabelecendo um eixo bilateral no tráfico transatlântico de escravos. Isso se deu pelo controle das operações, contatos mais sólidos na África, viagens mais curtas pelo Atlântico: tudo para manter um controle de preços dos escravos na tentativa de conter a crise da indústria açucareira brasileira. Portugal não conseguiu fazer frente à guerra comercial e aos ataques piratas perpe- trados por diversos países e buscou a saída na intensificação da busca por metais pre- ciosos, buscando replicar modelo minerador que os espanhóis haviam constituído nas suas colônias. Assim, a busca por metais preciosos, após a década de 1670, representou uma resposta à crise que Império Português viveu. No início do século XVII, a indústria da prata espanhola entrou em estagnação no mesmo momento em que holandeses e ingleses aumentavam dreno de metais pre- ciosos da Europa para Oceano Índico. A descoberta de ouro no Brasil alterou as condições de operação da economia inter- nacional e mesmo a geografia da escravidão no Atlântico Sul. Porém, quem mais se beneficiou dessa riqueza foi a Inglaterra, que, por conta de sua aliança diplomática com Portugal, acabou por irrigar OS cofres dos bancos e empresas inglesas que conseguiram construir, a partir do século XVII, seu sistema financeiro, baseado no padrão-ouro, que foi decisivo para a consolidação do poder naval-militar da e do arranque da revolução industrial vivida pelo país. O poder global britânico acabou por interferir e modificar as relações no sistema escravista português no Atlântico Sul já na primeira metade do século XVIII. Da mesma forma, acordos que Portugal tinha com a Inglaterra transformaram profundamente espaço econômico e social da escravidão no Brasil. Os Britânicos e seu Império. Disponível em: https://bityl.co/8qxL 14Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância O Brasil não aproveitou a riqueza extraída das minas de ouro e desperdiçou grande parte nas demandas de consumo de luxo nos centros urbanos dispersos de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Já entre Rio Grande do Sul e Piauí, criou-se um sistema de transporte para suprir a demanda da região das minas com os produtos da pecuária. Da mesma forma, articulou-se a abertura de rotas de escoamento do Mato Grosso a Belém do Grão-Pará, atravessando rios do vale da bacia amazônica, em direção a São Paulo e ao sul de Minas Gerais. Essas regiões tornaram-se celeiros das cidades e vilas do ouro, e portos (Rio de Janeiro e Bahia) converteram-se em portas de entrada de mercadorias importadas para o ouro e para africanos escravizados. Assim, a região nordeste sofreu com a perda de escravos para mineradores, e direcionou suas cargas de mão de obra escrava para as minas. Os senhores de engenho da costa nordeste sentiram efeitos dessa perda e do des- locamento português de uma região para outra. Já na década de 1780, surge no Maranhão e em Pernambuco um novo setor agroex- portador, o algodão. Por mais de trinta anos, este produto esteve entre mais valorizados pelas empresas britânicas, diversificando a pauta de exportações da América Portuguesa. Algodão do Brasil e a Economia Atlântica: Comparações Entre Maranhão e Pernambuco (C.1750-C.1810). Disponível em: https://bityl.co/8qxM Tudo isso reconfigurou a demografia e as atividades do Maranhão entre o fim do século XVIII e início do século XIX. Assim, já na década de 1810, essa capitania apre- sentava a maior proporção de escravos de todo Brasil. Ainda no início do primeiro quarto do século XIX, trabalho escravo passou por outra profunda transformação com a vinda da família real portuguesa para o Brasil. A Abertura dos Portos, realizada por Dom João VI, estimulou as exportações de açúcar, algodão, tabaco, arroz e couros. Nessa época, a Inglaterra estava em plena Re- volução Industrial, consolidando sistema que daria base para capitalismo industrial. A abertura dos portos do Brasil em 1808: dos factos à doutrina. Disponível em: https://bityl.co/8r14 Nesse sistema, escravismo estava em dessincronia com processos de concor- rência e, por isso, a Inglaterra começou um processo diplomático de modificação da escravidão nos países que ainda mantinham tal prática. Em 1845, a Inglaterra aprova a lei denominada Lei Bill Aberdeen, que estabeleceu a legalidade do apresamento de qualquer embarcação suspeita de fazer tráfico de es- cravos, mesmo em águas territoriais de outros países, e julgamento da tripulação pelos tribunais ingleses. 15UNIDADE Trabalho e Progresso Os Negociantes de Escravos e Pressão Inglesa pela Abolição do Tráfico Transatlântico (1830-1850). em: https://bityl.co/8r17 Os navios, chamados de "tumbeiros", com a bandeira do Império Brasileiro, foram aprisionados e, assim, um verdadeiro estado de guerra instalou-se entre o Brasil e a Inglaterra. Os ataques aos navios negreiros eram veiculados pela imprensa como "viola- ção da soberania nacional", enquanto os horrores do comércio de escravos começaram a ser amplamente divulgados. Apesar dessa situação, na prática, a Lei Bill Aberdeen acabou por gerar um comércio ilegal e aumentou tráfico de africanos para Brasil. A terceira grande mudança verificada ocorre em 1822, com a Independência e as articulações cada vez maiores para a libertação dos escravos por diversos grupos e as- sociações criadas com esse intuito. Em 1855, tráfico de escravos africanos foi abolido oficialmente pela Lei Eusébio de Queiroz, e o comércio negreiro passou a ser considerado pirataria. Em 1854, a Lei Nabuco de Araújo ampliou e aumentou o rigor das fiscalizações. Após a Guerra de Secessão (1861-1865), Brasil era único país independente que ainda preservava a escravidão, enquanto a prática já não era mais tolerada por muitos países, com destacadas organizações abolicionistas na França e Inglaterra. Guerra da Secessão. Disponível em: https://bityl.co/8r1B Em 1865, a Junta Francesa de Emancipação fez um apelo ao Imperador Dom Pedro II em favor dos cativos. O imperador enviou uma mensagem à Câmara, solicitando que se dis- cutisse assunto e iniciou tratativas nesse sentido. Em 1880, havia um clima antiescravista na sociedade. Ainda neste ano, surgiram diversos órgãos abolicionistas nas províncias, criados por um grupo de propagandistas que contava com ilustres nomes como Joaquim Nabuco. Pedro Pereira e 0 emancipacionismo: "três pontos cardeais". Disponível em: https://bityl.co/8r1F Para uma visão de conjunto das associações criadas no período, apresentamos: 16Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Quadro 1 Instituições abolicionistas, instituição e data Sociedade Brasileira Contra Escravidão; 1880 Sociedade para Libertação dos Escravos na Escola Militar do Rio de Janeiro. Sociedade Abolicionista Luso Brasileira; Centro Abolicionista Forense; Caixa Emancipadora do Clube Vasques; Clube Abolicionista dos Cozinheiros e Copeiros Confederados; 1883 Clube Infantil Libertador; Sociedade dos Meninos ; Caixa de Donativos do Congresso Literário Guarany; Libertadora 28 de Setembro; Clube dos libertos contra a escravidão. 1884 Clube Dos Advogados Contra a Escravidão. Joaquim Nabuco, Jerônimo Sodré, entre outros, discursavam constantemente e os debates sobre a Abolição se intensificaram na Câmara. A campanha abolicionista as- sumiu uma postura cautelosa diante do que fazer com contingente de negros e sua inserção no mercado de trabalho, questão tida como um entrave para país alcançar "progresso" e a "civilização". O sistema escravista estava quase em colapso, com fugas de escravos e mesmo com a ajuda de militantes antiescravistas, como Antônio Bento, que promoviam fugas e acoi- tamento de fugitivos. Assim, no embate entre abolicionistas e escravocratas, diversas leis foram aprovadas, como a Lei do Ventre Livre, aprovada em 1871, e a Lei dos Sexagenários, aprovada em 1885. Lei dos Sexagenários completa 130 anos. Disponível em: https://bityl.co/8r1W Ao mesmo tempo em que a aprovação destas leis foi um avanço para liberais, serviram de medidas protelatórias para adiar a Abolição. Dessa forma, a libertação dos escravos e a mudança de sistema de mão de obra no Brasil foram concretizadas depois de muitas lutas. Os liberais eram fortes em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Essas pro- víncias defendiam modelo federalista, e se insurgiram em 1835 e em 1842 contra a centralização do Estado. Porém, esses liberais eram, em sua maioria, grandes proprie- tários e, a partir do desenvolvimento da cafeicultura em Minas Gerais, teria início uma disputa interna pelo poder. Dessa forma, havia diferenças entre as culturas de São Paulo e do Sul. Em São Paulo, prevaleceu republicanismo pragmático e federalista e, no Sul, predominou uma visão centralizadora com influência do positivismo. 17UNIDADE Trabalho e Progresso Em relação à escravidão, funcionários públicos e burocratas em geral defendiam as medidas abolicionistas, especialmente do Norte e no Sul, onde havia resistência para a aprovação da libertação dos escravos. Os proprietários eram contra a Abolição e votavam com frequência contra governo. Já os políticos do Norte, eram mais flexíveis a essa questão. Assim, Partido Conservador estava dividido, da mesma forma que Partido Liberal. O Partido Liberal era muito mais coeso em relação à não aprovação de medidas reformistas os grandes latifundiários de Minas Gerais e de São Paulo bloqueavam as tentativas dos liberais do Norte ou dos profissionais liberais do Rio de Janeiro. As leis que iam no sentido de libertação ou relaxamento da escravidão, como a Lei dos Sexagenários, só se tornaram possíveis de serem implementadas com apoio dos conservadores. Assim, todas as leis abolicionistas e de reforma social foram aprovadas por gabinetes conservadores. Aos poucos, negros foram sendo integrados à sociedade, de forma a encontrar espaços de convivência e modos de sobrevivência. O fato é que a Abolição e a inserção social dos negros no Brasil são parte da uma com- plexa história em que diversas pessoas e grupos, instituições e movimentos fizeram parte. A extinção legal da escravidão no Brasil foi efetuada através de uma lei, apresentada pelo gabinete conservador de João Alfredo. A Lei Áurea foi assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Foram libertos 750.000 escravos, que representava 10% da população negra. Decreto de extinção da escravidão no Brasil. Disponível em: https://bityl.co/8r20 O trabalho dos ex-escravos se concentrou na agricultura doméstica, nos ofícios e serviços domésticos e urbanos. Os libertos buscavam trabalhos na moagem da cana, no preparo do açúcar, na construção civil, na carpintaria, na olaria, sapataria, ferraria, etc. Tivemos, também, a abertura de trabalho para libertos nas fábricas, em trabalhos de base, onde eram escolhidos os mais "sociáveis", cuidando de todo tipo de serviço que aprenderam nas casas-grandes e habitações urbanas. Carregadores de água, recolhimento de lixo, transporte de fardos em redes, cadeiras e palanques: no século XIX, surgiu a atividade dos chamados negros de ganho e negros de aluguel. Essas modalidades de trabalho constituíam no aluguel dos serviços dos es- cravos pelos seus senhores, inclusive para poder público da época. Alguns negros de aluguel tiveram a possibilidade de juntar dinheiro e comprar sua própria alforria. História do Negro no Brasil. Disponível em: https://bityl.co/8r23 18Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Já os negros de ganho trabalhavam e repassavam seus ganhos a seus donos. Os tra- balhos eram variados, alugados a terceiros pessoas, grupos, instituições e movimentos. Em relação às condições dos ex-escravos, Marina de Mello e Souza, afirma: O ex-escravo que trabalhava no campo muitas vezes preferiu permanecer nas áreas rurais, ocupando pequenos pedaços de terra, geralmente em 20 sistema de parceria nos quais cedia parte de sua produção ao dono da terra que cultivava. Mas ao longo do século XX, e principalmente a par- tir da década de 1930, a migração de negros e seus descendentes rumo às cidades cresceu cada vez mais. Eles geralmente desempenhavam as funções mais subalternas, uma vez que só alguns poucos afro-brasileiros conseguiam se educar, prosperar nos negócios e ascender socialmente. (SOUZA, 2008, 125) Dessa forma, trabalho do ex-escravo estava circunscrito e delimitado pela falta de acesso às condições para a escolarização. A Imigração Os estudos históricos sobre a questão da imigração é algo recente pela ciência histórica no Brasil. Os primeiros trabalhos sobre tema a ganhar relevância datam da segunda metade do século XX. É com Maria Teresa Petrone, Boris Fausto, Maria Beatriz Nizza da Silva, Michael Hall, entre outros, que importantes estudos sobre a imigração vieram à luz. O foco dos primeiros estudos foi a substituição do trabalho escravo e do negro pelo trabalho imigrante. Segundo Lená Medeiros de Menezes: Inicialmente, a dimensão da imigração rural e da "substituição do escravo pelo imigrante", com foco na lavoura cafeeira, tendeu a ser priorizada no livro: Da senzala à Colônia, de Maria Emília Viotti da Costa (1966), é, com relação a essa abordagem, menção obrigatória, seguindo-se outros, nas próximas décadas. (REZNIK, 2020, 21) Atualmente, ampliaram-se as teorias e são apresentadas várias causas em um conjunto de diversos fatores explicativos para entendimento do fenômeno. Assim, a questão da imigração no final do século XIX é entendida como um fenô- meno ligado às transformações do Brasil com a nascente indústria, a necessidade de povoamento e adensamento de diversas regiões do Brasil, a falta de mão de obra capaz de dar conta das novas demandas da agricultura, a questão da libertação dos escravos e a influência de uma visão de caráter eugenista, que se desenvolveu no início do século XX, além do problema educacional e de formação de mão de obra que não foi equacionada devidamente. Eugenia no Brasil, 1917-1940. Disponível em: https://bityl.co/8r2G 19UNIDADE Trabalho e Progresso Há que se separar, também, a imigração urbana, destinada principalmente às indús- trias da região Sudeste, e a imigração rural, que não ficou restrita apenas a esta região. Também é necessário atentar para a origem da imigração simplificadamente cha- mada "étnica". Dessa forma, as imigrações italiana, espanhola, alemã, leta, asiática, japonesa, chinesa, russa, americana, judia, árabe, libanesa, turca, entre outras, devem ser entendidas como parte desse processo. Outro ponto importante que começa a surgir na área de História da Educação é a pesquisa sobre a proliferação de instituições criadas nesse período 1800 e 1890 para atender as mais variadas demandas da imigração. Também é importante registrar que a imigração portuguesa nunca cessou, desde Brasil Colônia. Dessa forma, em diversas ocasiões, Brasil recebeu levas significativas de portugueses que vinham para tentar melhorar as suas condições de vida. Assim, podemos afirmar que, no final do século XVIII, quando ocorre a suspensão do tráfico de cativos, as elites já buscavam alternativas para a substituição da força de trabalho no país. Em 1773, Henrique Velloso de Oliveira emite um parecer em que propõe alternativas para a substituição da mão de obra escrava no Brasil, seja nas lavouras, minas ou cidades, visando a continuação da produção no Brasil. O século XIX trouxe duas grandes mudanças: fim do trabalho escravo e a distribuição das atividades produtivas. O sistema escravista demonstrava seu esgotamento e as pressões para a industriali- zação exigiam outro sistema e matriz de produção. O Antigo Sistema Colonial entra em colapso com a nova realidade e as necessidades de uma nação livre. Para Sergio Buarque de Holanda: Em tais circunstâncias, imigrante europeu despontava como paradigma do trabalhador ideal, a melhor alternativa para a substituição do braço escravo, quando um dia a economia do país e proprietários estivessem preparados para realizá-la. Entretanto, letrados apontavam a dificulda- de de adaptação ao clima tropical como o mais grave problema enfrentado pelos imigrantes no único núcleo colonial instalado no decênio de 1810. (HOLANDA, 995, p. 75) O desenvolvimento industrial das outras nações, notadamente a Inglaterra, levou capitalismo a decretar fim do tráfico de escravos por conta das mudanças no eixo eco- nômico mundial e fim progressivo de medidas protecionistas, características da fase mercantilista, dando início ao crescimento do mercado desses países. Dessa maneira, na primeira metade do século XIX, com a intensa pressão inglesa e crescente movimento antiescravista no país, houve a promulgação de leis, no sentido de progressivamente migrar de um sistema para outro. Entretanto, não foi nada fácil a mudança cultural e operacional no Brasil, dominado por elites agrárias e que tinham nessa matriz energética toda a sua base econômica. 20Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Assim, domínio político tanto regional, quanto federal que fazendeiros escravo- cratas exerciam na política brasileira afetava interesses ingleses. Celso Furtado, assim aponta, quando afirma: Ao crescer a procura de escravo no Sul para as plantações de café intensi- fica-se tráfico interno em prejuízo das regiões que já estavam operando com rentabilidade reduzida. As decadentes regiões algodoeiras particu- larmente Maranhão sofreram forte drenagem de braços para Sul (...). Ademais, é provável que a redução do abastecimento de africanos e a elevação do preço destes hajam provocado uma intensificação na utiliza- ção da mão de obra e, portanto, um desgaste ainda maior da população escrava. (FURTADO, 2003, p. 121) O desenvolvimento experimentado no Sul e Sudeste com a economia cafeeira fez aumentar a procura pela mão de obra escrava de tal modo que todo um mercado pa- ralelo foi criado. Mas, à medida que aumento da pressão internacional e crescente movimento abolicionista acirravam, passou-se a ver na entrada do imigrante estrangeiro a alternativa ideal para substituir a mão de obra escrava, pois, além de melhores hábitos de trabalho e conhecimento de técnicas superiores na agricultura, branqueamento foi considerado como um atrativo para muitos no Brasil. Desenvolveu-se a crença de que imigrante europeu era exemplo ideal de trabalha- dor. Assim, processo de imigração conviveu com a progressiva diminuição do tráfico negreiro e aumento da produção cafeeira. Segundo Emília Viotti da Costa: de um lado fazendeiros que possuíam muitos cativos em áreas pouco pro- dutivas, bem como mais endividados com a compra deles, que passavam a enxergar com mais aceitação do fim do tráfico. Por outro lado, os que demonstravam maior interesse em prosseguir com abastecimento de es- cravos eram traficantes e fazendeiros de áreas que prosperavam rapida- mente, mas não possuíam a mão de obra necessária para efetivo cultivo de suas terras. (COSTA, 1999, 286) Além disso, notou-se que houve um deslocamento migratório da força de trabalho escravo do Norte e Nordeste para Sul com a decadência da produção dos engenhos de cana-de-açúcar e a extração de ouro, seguido do nascimento da lavoura cafeeira no Sul e Sudeste do Brasil. Essa colonização era amplamente subsidiada com pagamento dos transportes e gastos de instalação e, assim, promoviam-se obras públicas para trabalho aos colonos em pro- jetos que, muitas vezes, não tinham continuidade. Emília Viotti da Costa aponta que havia, naquela época, duas demandas: uma voltada para o trabalho nas produtivas lavouras de café e outra que desejava com imigrante formar núcleos de povoamento, proposta que foi veemente criticada por fazendeiros e políticos do eixo sul, que afirma- vam que país necessitava de imigrantes para a lavoura e não empre- gados em núcleos de colonização que, no mais das vezes, consumiam as verbas públicas e provavam-se ineficazes. (COSTA, 1999, 204) Contudo, também não foi um processo fácil, pois as demandas da produção cafeeira fizeram com que muitos buscassem no tráfico ilegal e pirata a sua satisfação por mão de 21UNIDADE Trabalho e Progresso obra. Com a elevação dos preços, estabeleceu-se de forma intensa esse tipo de tráfico, e ampliou-se de forma considerável tráfico interno de escravos a partir da segunda metade do século XIX. A aquisição de escravos tornou-se cada vez mais onerosa para os fazendeiros e era insuficiente para executar as demandas das grandes lavouras de café, que cresciam exponencialmente. Instalou-se uma verdadeira ação de busca de escravos no Norte e Nordeste, com seu transporte para as fazendas no Sul e Sudeste, debilitando ainda mais a já combalida economia agraria dessas regiões. Diante dessa situação, em 1853, foi criado um imposto sobre a exportação de escra- e, em 1854, foi colocado em pauta um projeto de lei que coibia tráfico interpro- vincial de escravos, segundo Caio Prado Júnior: Os efeitos da suspensão do tráfico começam logo a se fazer sentir. Cessa- ra bruscamente, e ainda no momento sem nenhum substituto equivalente, a mais forte corrente de povoamento do país representada anualmente por algumas dezenas de milhares de indivíduos. A lavoura logo se res- sentirá da falta de braços, e problema se agrava de ano para ano. Estava-se com a progressão da cultura do café num período de franca expansão das forças produtivas, e simples crescimento vegetativo da população trabalhadora não lhe podia atender às necessidades crescen- tes. (PRADO, 2012, p. 188) Além disso, podemos afirmar que a imigração internacional está ligada a transforma- ções no mundo. Entre 1850 e 1870, Alemanha, França, Bélgica, Itália, Estados Unidos e Japão ingressaram no sistema capitalista internacional, disputando com a Inglaterra as fontes de matérias-primas e mercados. Dessa forma, podemos perceber que a expansão do capitalismo trouxe mudanças em diversas áreas, como nos transportes, notadamente nas ferrovias, na navegação a vapor e em invenções e descobertas em diversas áreas, que levou ao deslocamento de pessoas e ao crescimento populacional. Mas não só. A incorporação de terras e de mão de obra às atividades comerciais e industriais também destruiu modo de vida de diversas populações e levou à falência muitos camponeses, que se viram obrigados a buscar emprego e trabalhos nas cidades. Isso levou à imigração e aos deslocamentos de enormes contingentes, constantes ao longo dos anos, que formaram uma massa de desempregados que perambulava pelas ruas dos centros urbanos europeus. Houve um processo de imigração internacional da Europa para novo mundo, nota- damente EUA, Austrália e América do Sul. No Brasil, levas de imigrantes italianos e alemães chegaram a partir de 1870. No início do século XX, a Europa estava em uma corrida armamentista, motivada principalmente pela disputa de terras na África por conta de suas riquezas minerais e por conta das necessidades de matérias-primas para a manutenção da Revolução Indus- trial de segunda geração, movida pelo capitalismo industrial nascente. 22Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A Primeira Guerra Mundial acabou por ser a oportunidade para a nascente indústria brasileira, que se expandiu graças à força de trabalho vinda para as Américas, tornando- -se primeiros trabalhadores do parque industrial em diversas capitais do País, além de trazer diversos camponeses para Brasil e criar no Sudeste e Sul uma importante e diversa rede agrícola. Leia: MAGNOLI, D. (Org). História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2013; HOBSBAWM, A Era dos Extremos: 0 breve século XX 1914-1991. São Paulo: Cia das Letras, 1995. A partir de uma intensa propaganda desenvolvida pelas agências contratadoras de imigrantes, muitos vieram para Brasil buscando melhores condições de vida. Os Diferentes Grupos de Atuação na Economia do Brasil No Brasil, diversos grupos vieram para essas terras para comércio, exploração, plantio, cuidado e negócios, e, dessa forma, tornou-se a marca do País a ação empresarial, seguindo uma característica do Império Português, cujo Estado não tinha as condições financeiras e pessoal especializado suficiente para cuidar de todas as ações necessárias na Colônia. As empresas que se estabeleceram no Brasil tinham como parceiro de atuação a pró- pria Coroa, que acabava por participar das atividades de forma indireta, mas que dava suporte para as ações econômicas e empresariais, seja por meio do fornecimento da segurança, transporte, infraestrutura ou da concessão de terras para exploração. A primeira grande ação nesse sentido foram as Capitanias Hereditárias e acordo com a Santa Sé, denominado padroado real. Essas foram ações que se intensificaram de forma exponencial na época das descobertas de ouro nas Minas Gerais. Capitanias Hereditárias. Disponível em: https://bityl.co/8r2Sf Diversas empresas familiares e internacionais passaram a atuar no Brasil: ingleses, portugueses, holandeses, franceses, americanos, entre outros, passaram a fazer negó- cios no Brasil e a estabelecer as ações de comércio, que se intensificaram a partir da vinda da família real para ao Brasil e a abertura dos portos às nações amigas. Nas pala- vras de Ruy Mauro Marini: Forjada ao calor da expansão comercial promovida, no século XVI, pelo capitalismo nascente, a América Latina se desenvolve em estreita con- sonância com a dinâmica do capital internacional. Colônia produtora de metais preciosos e gêneros exóticos, num primeiro momento contribui para aumento do fluxo de mercadorias e para a expansão dos meios de pagamento que, ao mesmo tempo em que permitiam desenvolvimento 23UNIDADE Trabalho e Progresso do capital comercial e bancário na Europa, sustentaram o sistema manu- fatureiro europeu e abriram caminho para a criação da grande indústria. (MARINI, 2000, 107-108) Quer saber mais? Veja: ALEXANDRE, V. Os sentidos do império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime Português. Porto: afrontamento, 1993; ALMADA, J. de A. Aliança inglesa: subsídios para 0 seu estudo. Lisboa: Imprensa Na- cional de Lisboa, 1946; ARRUDA, J.J. de A. Uma colônia entre dois impérios: a abertura dos portos brasileiros, 1800-1808. Bauru: Eusc, 2008. Do pau-brasil ao açúcar, do ouro ao cacau, do café às laranjas: esses foram apenas al- guns produtos e riquezas explorados, aos quais irão se somar centenas de outros, como petróleo e diversos minérios, exaustivamente explorados. CALDEIRA, J. História da riqueza no Brasil: cinco séculos de pessoas, costumes e governos. São Paulo: Estação Brasil, 2017. O próprio Império Português criou empresas à semelhança das empresas interna- cionais de outros países, como a Companhia de Comércio do Maranhão, fundada em 1681, que tinha monopólio da importação e exportação e estabeleceu uma nova etapa de intervenção estatal. A Companhia do Grão-Pará e Maranhão. Disponível em: https://bityl.co/8r2Z Assim, conviviam os grupos empresariais internacionais, grupos familiares, go- verno com suas empresas estatais, grupos público-privados em parcerias e planos de negócio, todos interagindo entre si. Para se ter uma ideia sobre esses processos, citamos Flávia Campany do Amaral: Manolo Florentino afirma que entre os homens mais ricos da praça ca- rioca, sete das maiores fortunas eram de negociantes de escravos. Para o autor, esta elite econômica impulsionava uma economia profundamente marcada por formas mercantis de acumulação, as quais configuravam eixos da reprodução econômica, razão pela qual é devido à importân- cia política e econômica da Corte, é possível que estivéssemos à frente da mais importante fração dominante do país. Para Manolo, a rede de atuação dos negociantes não se limitava ao Rio de Janeiro e enquanto empresária, controlava grande parte dos mecanismos de acumulação do Sudeste com redes que se estendiam desde os confins do Mato Grosso até Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Santos e Minas Gerais. (AMARAL, 2009) 24Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Assim, podemos afirmar que Brasil se caracterizou como um local privilegiado em atividades legais e ilegais, em relação à América Latina. Além disso, suas riquezas e potencialidades agrícolas acabaram por elevar Brasil a um patamar capaz de participar do processo global, contribuindo com matérias-primas e alimentos para barateamento da força de trabalho na Europa, ao mesmo tempo que se aproveitava de uma abundante mão de obra barata capaz de gerar excedentes e garantir seu desenvolvimento. Sobre esses movimentos, não podemos deixar de falar da microeconomia, tão importante e negligenciada por muitos no entendimento da constituição da sociedade capitalista do Brasil. Mulheres: mundo do trabalho e autonomia econômica. Disponível em: https://bityl.co/8r2h O Brasil, como ressaltamos no início, desde muito cedo, pôde ser caracterizado como um país do empreendedorismo em sua mais básica definição econômica -, por ques- tões de sobrevivência, ou mesmo por falta de outras opções. Quer saber mais? Veja: CALDEIRA, J. História do Brasil com empreendedores. São Paulo: Mameluco, 2009. Análise Histórica do Empreendedorismo: Estudo das Principais Características que Definem um Empreendedor de Sucesso. Disponível em: Assim, podemos ver na História do País, ao lado da macroeconomia, uma outra vertente microeconômica que se estabeleceu em processo de sobrevivência, como am- bulantes, vendedoras e vendedores, transportadoras, comércio itinerante, trabalhos ma- nuais, cuidadores e todo tipo de atividade que foi se tornando uma marca de nossa atividade econômica. Importante lembrar que é Brasil entre séculos XVII a XIX, como nos esclarece Kátia de Queirós Mattoso: Brasil dos séculos XVII, XVIII e XIX é pouco urbanizado. Por volta de 1820, apenas 7% da população brasileira vive na cidade e esses núcleos urbanos são quase todos portos voltados para o mar alto, a mãe-pátria, comércio: Pernambuco, Bahia, Rio, são verdadeiras fortalezas econô- micas. Dominam com arrogância um imenso interior onde burgos muito pequenos, aldeias, povoados, não passam de pousadas no caminho do sertão. Somente as Minas Gerais conhecem verdadeira urbanização, pois os numerosos agentes do poder real e uma multidão de comerciantes vivem nas cidades dessa província mineira. (MATTOSO, 2003, p. 110) Entender essa cultura econômica de subsistência é complexo, pois há uma ausência de pesquisadores históricos capazes de fazer uma avaliação técnica e profunda, aliando um diálogo entre história e economia, nunca fácil de se engendrar. 25UNIDADE Trabalho e Progresso Dignos de exceção sobre essa complexidade são excelentes trabalhos empreendidos por Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Raimundo Faoro. Quer saber mais sobre esses pesquisadores? Veja: PRADO Jr., A revolução brasileira. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972; FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 4. ed. Porto Alegre: Globo, 1977; FURTADO, Formação econômica do Brasil. 10. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1970. Caio Prado diz que, apesar da economia de subsistência não ser principal no que ele denominou de tripé das atividades fundamentais da economia colonial, centradas no trinômio grande propriedade, trabalho escravo e monocultura voltado ao comércio exterior, ainda assim, era necessário perceber sua importância, pois já no Período Colo- nial ocupava uma parcela expressiva da população, que Caio Prado classificou como categoria de segunda ordem. Em sua perspectiva, tratava-se de atividades subsidiárias destinadas a amparar e tornar possível a realização das primeiras. Dessa maneira, de forma sintética, podemos apresentar o pensamento de Caio Prado Júnior sobre a questão da economia de subsistência como sendo dependente, exclusiva ou parcial da grande lavoura. Já para setor de bens de consumo da fazenda, esta estava voltada para consumo interno, mas não à exportação em relação à produção de alimentos. Distinta da grande lavoura, a produção acabou por engendrar na mono- cultura familiar. Caio Prado entende setor de subsistência com certa autonomia, no qual havia di- ferença entre os pequenos proprietários, vaqueiros e grandes proprietários e seus escravos. Isso implica em dizer que a economia de subsistência era uma economia de maior liberdade transacional entre as partes. Assim, de forma sintética e resumida podemos apresentar os diversos grupos de atu- ação na economia no Brasil da seguinte forma: 26Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Quadro 2 - Os diferentes grupos de atuação na economia do Brasil Particulares Agentes que investiam em determinada área com 0 intuito de auferir riqueza e ganho no Brasil. Estado Agente público que atuava no Brasil. Instituições Associações de pessoas e ou empresas com 0 Estado para uma público-privadas ação econômica. Empresas Agentes estrangeiros atuando na área econômica. internacionais Microempresários Empreendedorismo e ações de subsistência. Dessa maneira, podemos dizer quer o Brasil se caracterizou pelo empreendedorismo e pela ação público-privada desde os seus primórdios. Quer saber mais? Veja: BOSI, dialética da colonização. 3. ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995; CARDOSO, F.H. As ideias e seu lugar: ensaios sobre as teorias do desenvolvimento. Petrópolis/RJ: Vozes, 1980; FAUSTO, História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Edusp, 1995. 27

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