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22UNIDADE I Criminologia LEITURA COMPLEMENTAR: PESQUISA INOVADORA OU REPRISE LOMBROSIANA Por Felipe Cardoso Moreira de Oliveira Turim, 1876, Cesare Lombroso publica O Homem Delinqüente. A partir dos ventos cientificistas darwinianos da época, o médico italiano procura aplicar aos “pacientes” do sistema penal, métodos capazes de identificar características comuns e peculiares dos presos, buscando, assim, traçar e, por que não, desenhar o retrato do criminoso. Um dos tópicos abordados por Lombroso é “a loucura moral e o delito entre as crianças”. Entre suas conclusões afirma Lombroso que “impedir a união tristemente fecunda dos alcoólatras e dos delinqüentes, que nós sabemos uma fonte tão grande de criminosos precoces, seria o único meio de fazer desaparecer o delinqüente nato, este infeliz que, segundo os fatos que relatamos, é absolutamente incurável”. De tal posição, sugere: “e se, partindo daí, encontramos Roussel, Barzillai e Fer- ri para censurar as casas de correção, que infelizmente poderíamos chamar com justiça de oficinas de corrupção, acreditamos que haveria para o país uma imensa vantagem em fundar em seu lugar manicômios criminais, ou melhor ainda um asilo perpétuo para os menores afetados por tendências criminosas obstinadas, ou por loucura moral”. Porto Alegre, janeiro de 2008, professores dos departamentos de Neurologia e de Genética das duas mais importantes Universidades do Rio Grande do Sul — PUCRS e UFRGS, respectivamente — propõem a elaboração de um trabalho científico de duração de dois anos no qual pretendem investigar, a partir de entrevistas com as mães, com os menores, avaliação psicológica, exame genético e ressonância magnética do cérebro, os mais variados aspectos, a fim de “explicar” o que leva um jovem a se “comportar de maneira violenta”. Têm como objeto de seu estudo 50 jovens internados na Fase — neologismo de Febem — acusados da prática de homicídio. A polêmica é posta à mesa em um banquete de acusações de obscurantismo e de determinismo. Estas linhas não têm qualquer cunho de opor-se à pesquisa científica ou ao neces- sário diálogo interdisciplinar tão esquecido no tratamento das questões criminais de nosso País. O que assusta é a justificativa e o que por trás da pesquisa, aos poucos, se desvela. Preocupa o discurso dos pesquisadores que dentre suas justificativas afirmam que gostariam que os resultados da pesquisa fossem utilizados para impulsionar políticas 23UNIDADE I Criminologia públicas de prevenção e evitar conseqüências, “em vez de pensar na doença, pensar na vacina” e, para mim, a mais emblemática das afirmações, a de que “com o que se conhece até agora a situação não mudou”. É inegável que a pesquisa “secreta”, justa possuidora de tal adjetivo já que segundo o pesquisador “mesmo se procurassem não saberiam detalhes do projeto, porque a gente não fica divulgando (...) quem tem de conhecer somos nós, as comissões científicas, os comitês de ética e os sujeitos da pesquisa”,terá como principal conseqüência fundamentar um discurso punitivo maior em relação aos menores que integram o sistema penal — não se fale que Fase não é sistema penal, pois é tão ou mais acre quanto. Outro ponto sociologicamente superado que pode ser, e, não tenho dúvidas, será revisitado pela pesquisa, é o da separação entre o bem e o mal. O paradigma do bem e do mal que sustentou a ideologia da defesa social, superado pela teoria estrutural-funciona- lista, postada com os fundamentos desenvolvidos especialmente por Durkheim e Merton, revigora-se. Os resultados da pesquisa que se propõe, míope no que se refere às relações de interação do sujeito com o meio social, ao que parece, correm o risco de desconsiderar a desproporção entre os fins culturalmente reconhecidos como válidos e os meios legítimos à disposição do indivíduo para chegarem a tais fins. Finalmente, ao menos para início de conversa, os pesquisadores devem estar aten- tos para não incorrerem no mesmo “equívoco” de Lombroso: “esquecer” que o fato de estar fora das grades do sistema penal não significa ser o indivíduo dócil ou não ter ele praticado delitos. Traduz, apenas, que a seletividade do direito e do processo penal não lançou contra eles a sua força; informa, tão-somente, que seus atos violentos e seu desrespeito à lei não foram identificados pelo ogro penal. Para concluir, cumpre relembrar a profética previsão de Lombroso, que no fim do prefácio da quarta edição da referida obra afirma: “Talvez de minha obra não reste em breve pedra sobre pedra, mas a idéia que lhe deu origem, pouco a pouco transmitida e revigorada por esses pensadores, cursores qui vitae lampada trahunt, esta idéia não perecerá.” Felipe Cardoso Moreira de Oliveira é Advogado, professor universitário e conse- lheiro fundador do !TEC. Fonte: OLIVEIRA, Felipe Cardoso Moreira de. Pesquisa inovadora ou reprise lombrosiana. Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). São Paulo, 03 de março de 2008. Disponível em:https://www. ibccrim.org.br/noticias/exibir/4510/ . Acesso em 08 de março de 2021. 24UNIDADE I Criminologia MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Laranja Mecânica Autor: Anthony Burgess Editora: Aleph Sinopse: Trata-se de um clássico da ficção científica. A história aborda a violenta gangue liderada por Alex que em tom sádico sai às ruas buscando “diversão”. O livro suscita reflexões sobre liberdade, violência e a punição (física e psicológica). FILME/VÍDEO Título: Laranja Mecânica Ano: 1971 Sinopse: O filme é de produzido por Stanley Kubrick e baseado no romance datado de 1962 de Anthony Burgess. O filme traz à tona temas como a delinquência juvenil, as formas de castigo, gangues e outros. Alex, o personagem principal é o líder da gangue que comete crimes violentos com a chamada “ultraviolência”. O filme é muito utilizado para o debate entre crime e castigo. 25 Plano de Estudo: 1 A Escola de Chicago: a explicação ecológica do crime; 2 Teoria da Associação Diferencial e a Teoria da Anomia; 2.1 A Teoria da Associação Diferencial ou Social Learning; 2.2 Teoria da Anomia; 3 Teoria da Subcultura Delinquente; 4 O Labelling Approach (Teoria do Etique- tamento) e a Criminologia Crítica; 4.1 O Labelling Approach; 4.1 A Criminologia Crítica. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a Criminologia Sociológica. • Compreender os tipos de teoria sociológica da Criminologia. • Estabelecer a importância de fatores que contribuem para o fenômeno criminológico. UNIDADE II As Escolas da Criminologia de Base Sociológica Professora Mestre Andressa Paula de Andrade 26UNIDADE II As Escolas da Criminologia de Base Sociológica INTRODUÇÃO Bom, seguindo com as lições sobre Criminologia. Nesta unidade, analisarei com você as chamadas Escolas Sociológicas. Se a Criminologia Positivista se dedicava a analisar o delinquente, sobretudo, Cesare Lombroso, a Escola Sociológica vai buscar compreender o que pode colaborar ou influenciar diretamente sobre o crime. Seria a desigualdade social, seria a cidade ou seria a falta de acesso a um trabalho digno? Tudo isso deve ser compreendido a seguir. Quando você dirige o seu carro ou caminha pela cidade, você sabe por qual razão determinados bairros são considerados mais violentos? Há pesquisadores que se dedicam a entender e mensurar as taxas de criminalidade de determinadas regiões. Igualmente, você já parou para se questionar qual é o rosto do delinquente brasilei- ro? Digo, você já parou para se perguntar qual a cor, classe econômica, grau de instrução e onde moram a maioria das pessoas atingidas pelo o sistema de justiça criminal? Uma pergunta fundamental também a ser feita nesse primeiro momento é a se- guinte: as pessoas das altas classes delinquem? Se delinquem, qual a razão de não serem presas ou as punições serem tão brandas? Essas perguntas são fundamentais para as vertentes sociológicas que abordarei na sequência. Por fim, desejo um excelenteestudo para vocês. 27UNIDADE II As Escolas da Criminologia de Base Sociológica 1. A ESCOLA DE CHICAGO: A EXPLICAÇÃO ECOLÓGICA DO CRIME Se a Criminologia de vertente Positiva, sobretudo com Cesare Lombroso, se de- bruçava sobre o estudo do criminoso que tinha sua inclinação ao crime a partir de questões biológicas, a Escola de Chicago vai se preocupar com o fator ambiental, especialmente o espaço urbano enquanto elemento da criminalidade (VIANA, 2020), sendo a cidade a produtora do crime. Neste sentido, as razões de existência estariam diretamente ligadas a organização da cidade de maneira geográfica. Consequentemente, as características físicas e sociais das regiões seriam o núcleo central da Escola de Chicago. É na Escola de Chicago que se verifica a utilização dos social surveys que em uma tradução seria uma espécie de pesquisa/inquérito social. O objetivo é entrevistar um grupo de pessoas sobre certos interesses do pesquisador, sendo Clifford R. Shaw e Henry D. Mckay os seus principais defensores. Soma-se a isso a utilização de estudos biográficos de casos individuais, com o objetivo de prospectar os delitos cometidos por um indivíduo (SHECAIRA, 2014). Em termos de macrocriminalidade, o maior contributo desta vertente seria dos inquéritos sociais e das pesquisas científicas, sendo que as mesmas são utiliza- das até hoje, como por exemplo, na criação de mapas de risco da violência. Uma das propostas da Escola de Chicago era justamente a melhoria de condições sociais através da pesquisa científica para implementar programas de política social que melhorassem as condições de vida dos indivíduos (SERRANO MAÍLLO; PRADO, 2019). 28UNIDADE II As Escolas da Criminologia de Base Sociológica Há, ainda, dois conceitos importantes no pensamento da Escola de Chicago. O pri- meiro se funda na ideia da teoria da desorganização social. Esse expoente vai abordar que o aumento da criminalidade nas grandes cidades se dá em virtude dos incipientes controles sociais informais, à desordem e à falta de integração e sentimento de solidariedade entre os seus membros (OLIVEIRA, 2020). Nesse sentido: A deterioração dos “grupos primários” (família etc.), a modificação “qualitati- va” das relações interpessoais que se tornam superficiais, a alta mobilidade e a consequente perda de raízes no lugar de residência e valores tradicionais e familiares, a superpopulação, a tentadora proximidade às áreas comerciais e industriais onde se acumula riqueza e o citado enfraquecimento do controle social criam um meio desorganizado e criminógeno (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 1997, p. 246). A segunda ideia importante da Escola de Chicago seriam as zonas/áreas de de- linquência. Segundo esse ponto, a cidade se desenvolveria em círculos concêntricos por meio de um conjunto de zonas ou anéis a partir da área central. Observe a figura a seguir: A Zona I (também chamada de Loop) seria a zona central, onde as atividades financeiras, profissionais, burocráticas existem. Já a Zona II seria considerada uma zona de transição, pois, figuraria entre o polo comercial (Zona I) para os bairros residenciais, onde os mais pobres habitariam através de pensões, moradias coletivas e também pe- las chamadas tenement houses que seriam espécies de cortiços. Na cidade de Chicago, local onde o estudo se desenvolveu, a zona de transição passou a abrigar a maioria dos imigrantes (Chinatown, Little Sicily) e, ainda, favoreceu o surgimento de guetos. A Zona III era composta por moradores de trabalhadores e a segunda geração de imigrantes que conseguiram sair da zona de transição e suas péssimas condições de trabalho. Por sua vez, a Zona IV seria uma zona composta por bairros residenciais, onde os moradores possuem um maior poder executivo e ocupam postos de trabalhos executivos. Por fim, a Zona V seria habitada por pessoas dos mais elevados estratos sociais (SHECAIRA, 2014).