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Neutralidade, objetividade e a Prática Baseada em Evidências Pedro Sampaio Apresentação do professor Qual a relevância deste tema? - No contexto global - No contexto da Psicologia - No contexto das PBEs O que será abordado no curso 1. O que é neutralidade e o que é objetividade 2. Críticas à objetividade 3. Operacionalização do conceito 4. Apreciação das críticas à objetividade 5. A objetividade é possível/desejável na PBE? 1. O que é neutralidade e o que é objetividade. Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? • Neutralidade: • “a ideia de que as questões científicas seriam isentas dos vieses humanos (...) O conhecimento científico é, portanto, objetivo, entendendo objetividade como sinônimo de neutralidade” (Lopes & Laurenti, 2016, p.6) • A ideia de que “a ciência é livre de valores” (Oliveira, 2008, p.97) Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? • Objetividade: • “a ideia de que afirmações científicas, métodos, resultados – e os próprios cientistas – não são, ou não deveriam ser, influenciados por perspectivas particulares, julgamentos de valor, viés da comunidade ou interesses pessoais, para citar alguns fatores relevantes” (Stanford Encyclopedia of Philosophy). Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? • Imparcialidade: • “Uma escolha imparcial é aquela que é livre de viés ou preconceito” (Stanford Encyclopedia of Philosophy) • “A é imparcial na questão Q em relação ao grupo G se e somente se as ações de A em relação a Q não são influenciadas por quais membros de G se beneficiam ou são prejudicados por essas ações” (Gert 1995, 104) Neutralidade, objetividade ou imparcialidade? • Dado que os três termos são quase sempre utilizados de modo intercambiável, daremos preferência ao termo objetividade, entendendo-o como: • A ideia de que, em certos contextos, nossas ações não deveriam ser influenciadas por nossos vieses pessoais. Aplicações • No Direito, a imparcialidade é “a exigência de uma posição equidistante do julgador das partes e de tratamento equânime das mesmas” (Reichelt, 2014, p.2) • A imparcialidade do julgador é um princípio presente em várias constituições federais e órgãos internacionais, considerado elemento essencial para a validade de qualquer julgamento. • “a ideia de um juiz parcial, que prefira indevidamente uma das partes no processo, soa contraditória. Afinal, como alguém poderia assumir a tarefa de decidir um conflito, substituindo a vontade dos litigantes, predisposto a favorecer um deles?” (Lacerda, 2016, p.23) Aplicações • Na Ciência, a objetividade é frequentemente vista como necessária para a produção de conhecimento. • “A ciência é uma disposição a aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos” (Skinner, 1953, p.16) • Periódicos tentem a exigir ou incentivar medidas que favorecem a objetividade, tais como: • - declarações de conflitos de interesses; • - revisão por pares; • - replicabilidade • - metodologias que visam o controle de vieses (como o duplo-cego) Aplicações • Na psicoterapia, frequentemente espera-se que o psicólogo saiba separar suas questões e preferências das questões e preferências do cliente. • O Código de Ética do Psicólogo, do Conselho Federal de Psicologia, determina que ao psicólogo é vedado “Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais”. • É razoável dizer, portanto, que se suas ações não podem induzir convicções ideológicas para nenhum lado, que ele deve agir com neutralidade em relação a elas. 2. Críticas à objetividade Objetividade como exclusiva das ciências naturais • Weber (1917) argumentou que há quatro estágios em que os valores podem afetar a ciência. São eles: • (i) a escolha de um problema de pesquisa científica; • (ii) a coleta de evidências em relação ao problema; • (iii) a aceitação de uma hipótese ou teoria científica como resposta adequada ao problema com base nas evidências; • (iv) a proliferação e aplicação de resultados de pesquisas científicas Objetividade como exclusiva das ciências naturais • Para Weber (1917), as ciências naturais poderiam argumentar a favor de uma ausência de valores nos estágios ii e iii, por buscarem a causa de fenômenos da natureza, mas a ideia de uma descrição sem perspectiva seria absurda para as ciências sociais. • Esta perspectiva tornou-se influente no meio acadêmico e até no senso comum. • A ideia de que matemáticos, físicos e químicos podem ser objetivos, mas não psicólogos, sociólogos, economistas, etc., porque lidam com seres humanos e sociedades, onde nossa leitura já é carregada de vieses. Sociologia da ciência e a impossibilidade da objetividade • Em A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), Thomas Kuhn demonstrou que o progresso da ciência e a aceitação de paradigmas não é um processo tão lógico, ordenado ou objetivo quanto se supunha. • Além disso, segundo Kuhn (1962), as observações são “carregadas de teoria”: elas dependem de um corpo de suposições teóricas através das quais são percebidas e conceituadas. • Ele também popularizou o termo incomensurabilidade, referindo-se a teorias que não podem ser diretamente comparadas para avaliar a superioridade de uma sobre outra. Sociologia da ciência e a impossibilidade da objetividade • Em Contra o Método (1975), Paul Feyerabend argumentará que nenhum método consegue capturar o empreendimento científico e tudo vale. • A objetividade seria apenas um conjunto de valores de uma cultura específica e que limita o empreendimento científico. • Não há diferença entre os membros de uma tribo “primitiva” que defendem suas leis porque são as leis dos deuses e um racionalista que apela para padrões “objetivos”, exceto que os primeiros sabem o que estão fazendo enquanto o último não (Feyerabend ,1978, p.82). • Bruno Latour e A Vida de Laboratório (1979). Psicologia e a impossibilidade da objetividade • A Psicologia também teria demonstrado a impossibilidade da objetividade. • Psicanálise e o inconsciente. • Análise do Comportamento e o controle de estímulos. • Psicologia Cognitiva e os vieses cognitivos. A indesejabilidade da objetividade • Feyerabend (1975) não apenas considera impossível, como também indesejável almejar uma ciência objetiva e isenta de valores. • Ele denuncia os apelos a objetividade como ferramentas retóricas para reforçar a autoridade epistêmica de uma pequena elite intelectual (cientistas ocidentais) e como declarações mal disfarçadas de preferência pela própria visão de mundo. • Já a teoria da perspectiva (standpoint theory), proposta inicialmente por Harding (1991, 1993), desenvolve ideias marxistas no sentido de que a posição epistêmica está relacionada e é um produto da posição social. A indesejabilidade da objetividade • Para Harding (1991, 1993), a ciência é um empreendimento majoritariamente masculino, que reflete visões de mundo masculinas. • A proposta de Harding foi estendida para uma abordagem interseccional (Harding, 2015/2019), apontando a exclusão de outras minorias e como a prática científica contemporânea não os representa. • A autora propõe o conceito de objetividade forte enquanto uma objetividade que realmente está mais perto de não submeter-se a um viés social por adotar a pluralidade de visões de mundo. • As ideias de Harding inspiraram movimentos que reinvidicam a legitimidade científica de conhecimentos culturalmente validados. Ciência decolonial • Vídeo “Science Must Fail?” • https://www.youtube.com/watch?v=C9SiRNibD14 • Decolonialidade não necessariamente envolve igualar epistemicamente todos os saberes, mas há autores que defendem como um reconhecimento de que o discurso de ciência e razão foi usado para a dominaçãode povos. • Neste sentido, um pensamento decolonial poderia ser reconhecer a legitimidade de outros modos de produção de conhecimento dentro de contextos culturais específicos e não necessariamente incorporação destes como critério epistêmico. https://www.youtube.com/watch?v=C9SiRNibD14 A indesejabilidade da objetividade • Sendo a objetividade uma impossibilidade concreta e também um valor local, isso implicaria que adotar a objetividade seria: • 1- Uma ilusão; • E 2- Uma forma de impor, ou no mínimo ser conivente, com valores da classe dominante sobre minorias, com a desculpa de neutralidade. • Holland (1979) – Comportamentalismo: Parte do Problema ou Parte da Solução? • A proposta de uma produção de conhecimento socialmente engajada (e.g. Fernandes & de Rezende, 2016) A indesejabilidade da objetividade • A proposta de uma clínica socialmente engajada • Green FAP • Sociobehaviorismo • Psicoterapia feminista • “A epistemologia feminista contesta o que é determinado como conhecimento, quem o define e como ele é obtido, assim como questiona a posição neutra do(a) pesquisador(a), pois observa-se que não há uma só forma de se fazer ciência. (...) A terapeuta feminista minimiza ativamente a diferença de poder no relacionamento, torna seus valores claros para a cliente e permite que esta influencie os posicionamentos da terapeuta (Fideldes & Vandenberghe, 2014). 3. Operacionalizando o conceito de objetividade O que é operacionalizar? • Skinner e a Análise Operacional dos Termos Psicológicos • Pode-se chamar de comportamentalização ou definição pragmatista • A importância da operacionalização • Operacionalizar não diz nada sobre a validade do conceito: ex: mente, consciência, violência, etc. • Por que operacionalizar só agora? Objetividade x Psicologia • A definição de objetividade que adotamos até aqui: a ideia de que, em certos contextos, nossas ações não deveriam ser influenciadas por nossos vieses pessoais. • Talvez ela seja incompatível com a psicologia científica. • Afinal, somos todos produto de nossa história de reforçamento e a todo momento de alguma forma influenciados por variáveis alheias ao contexto que deveria controlar nosso comportamento. • Ex: miopia de hipóteses • Todavia, ao tentar operacionalizar um conceito, não basta apontar que sua definição usual na literatura é inconsistente com princípios comportamentais, ou muitas destas tentativas já teriam fracassado logo de início. • Mas, então, quando consideramos que alguém agiu com objetividade? E quando consideramos que faltou objetividade? Galileu e o cardeal Bellarmino Objetividade x não-objetividade • Neste exemplo, Galileu teria sido objetivo por ter mudado de opinião diante de novas evidências, ter apresentado abertura para adotar hipóteses rejeitadas pela maioria se estas são mais coerentes com as observações. • Já Bellarmino representaria o dogma, o apego emocional às ideias, o fechar os olhos às novas evidências quando elas contradizem visões de mundo caras a nós. • Mas em que sentido Galileu foi mais objetivo que Bellarmino? Objetividade x não-objetividade • Afinal, é possível argumentar que ambos têm preferências pessoais que afetam seus comportamentos. Enquanto Galileu valoriza mais a observação e a consistência entre ela e a teoria, Bellarmino valoriza mais a consistência da teoria com a Bíblia. • É até possível argumentar que, naquele período, a perspectiva de Galileu era mais particular, menos comum, do que a de Bellarmino. Afinal, partindo do pressuposto aceito pelo cardeal, e por quase todos de sua época, de que a Bíblia era infalível, ele estava sendo claro e objetivo ao apontar a contradição, que implicaria na rejeição do heliocentrismo (já que a Bíblia, infalível, não poderia ser rejeitada). • Portanto, tanto Galileu quanto Bellarmino apresentam argumentos lógicos e coerentes, mas lógicos e coerentes com valores diferentes (consistência com a observação / consistência com a Bíblia). • Em termos comportamentais, o comportamento de investigação, análise e conclusão de ambos está sob controle de regras claras e bem descritas, mas de regras diferentes. • Em certo sentido, portanto, tanto Galileu quanto Bellarmino agiram com objetividade, já que é possível explicar o comportamento de ambos sem pressupor que este foi significativamente controlado por outras variáveis (como rixas pessoais ou busca por fama) além das regras explícitas que adotam. • Este parece ser um dos contextos que controla nosso uso do termo objetividade. Objetividade ampla • Chamaremos de objetividade ampla quando o comportamento de investigação, análise e conclusão está sob controle de regras claras e bem descritas. • Ex: práticas desportivas, julgamento, Bellarmino e Giordano Bruno. • Nesta acepção, estaríamos nomeando como objetivo aquele comportamento sob controle de regras claras e bem descritas, sem discriminar outras características destas, como sua qualidade moral ou epistêmica. • Muito do que controla o uso do termo honestidade também está abarcado aqui. As objetividades específicas • Objetividade científica: a qualidade que se atribui ao comportamento que, em um contexto de produção de conhecimento, está (ou parece estar) suficientemente sob controle das regras epistêmicas descritas e prescritas pela comunidade científica. • Objetividade clínica: a qualidade que se atribui ao comportamento do psicoterapeuta que, no contexto clínico, está (ou parece estar) suficientemente sob controle dos valores (regras) do cliente e não dos próprios. • Objetividade jurídica: a qualidade que se atribui ao comportamento que, em um contexto jurídico, está (ou parece estar) suficientemente sob controle de regras jurídicas descritas e prescritas na legislação. 4. Apreciação das críticas à objetividade “A objetividade absoluta não existe” • A objetividade tem de ser absoluta para existir? • Objetividade é um conceito. • Conceitos são “abstrações que ajudam a compreender, categorizar e organizar informações sobre o mundo ao nosso redor. É uma unidade fundamental do pensamento e da linguagem, permitindo-nos comunicar e compartilhar conhecimentos de forma eficaz”. • Conceitos não respondem bem a atribuições absolutistas. Nem os conceitos ordinários e nem os científicos “A objetividade absoluta não existe” Conceitos ordinários: altruísmo, beleza, mal-estar. Conceitos científicos: animal na Biologia, massa na Mecânica Clássica, controle de estímulos na Análise do Comportamento. “A objetividade absoluta não existe” • Mas alguns conceitos só fazem sentido se absolutos: onipotência, perfeição. • Este é o caso da objetividade? • O antagonista da objetividade seria a parcialidade. • Mas o que é ser parcial? “A objetividade absoluta não existe” • Todos nossos comportamentos são influenciados por cada elemento da nossa genética, história de vida e cultura. • Algumas variáveis estão mais frouxamente relacionadas com alguns comportamentos e podem ser muito pouco relevantes para compreende- lo, prevê-lo e altera-lo, especialmente se considerarmos que existem outras variáveis que exercem um controle mais significativo sobre ele. • A sexualidade controla muitos de nossos comportamentos, inclusive como vemos a nós mesmos, mas possivelmente será uma variável pouco relevante para um engenheiro que construiu um prédio. A não ser que tenhamos motivos específicos para acreditar que, naquele caso, foi uma variável relevante (como ele ser vouyer e ter deixado locais ocultos que permitem a ele espionar outros). A maioria de nós consideraria exagerado, no entanto, se alguém defendesse que engenheiros devem sempre explicitar suas preferencias sexuais porque suas obras não são neutras em relação a seus fetiches. “A objetividade absoluta não existe” • Idem à religião e ser técnico de informática que vai consertar um computador • Então é possível que mesmo elementos importantes de nossa história,e caros a nós, sejam variáveis pouco relevantes em contextos onde o comportamento é controlado por outras variáveis. • Tentamos o tempo todo responder discriminativamente, ou seja, emitir a resposta que tem maior probabilidade de ser reforçada naquele contexto. Isso significa responder sob controle de determinados estímulos e não de outros. • Isso que permitiu a ciência, que consistiu em parar de responder sob controle de determinados estímulos (religiosos, arbitrários, petições de princípios validadas culturalmente – valores sociais) e passar a responder sob controle de outros (valores epistêmicos – observação, lógica, etc). “A objetividade absoluta não existe” Mas cuidado com a falácia bulverista! Parece que chamamos de parcial aquele comportamento que é incoerente com as regras prescritas para o contexto que ocorre, sendo melhor compreendido enquanto sob controle de variáveis espúrias. Então parcialidade não parece ser simplesmente ter, em algum nível, parte dos comportamentos influenciados por variáveis além das regras prescritas no contexto, ou tudo seria parcial. “A objetividade absoluta não existe” • Então a objetividade parece menos similar à onipotência ou perfeição, pois podem existir “parcialidades irrelevantes” • É mais similar ao altruísmo ou ao controle de estímulos. • Assim, mesmo que a objetividade absoluta não exista, o conceito de objetividade é útil, por: • 1. nomear coerentemente um conjunto de fenômenos e não outros (relevância conceitual) • 2. ser um valor, que pode servir de norte para práticas, já que parece haver diferença significativa entre buscar ou não a objetividade (relevância prática) “A objetividade não é desejável” “A objetividade engessa a investigação” • A crítica é de que adotar a objetividade limitaria o surgimento de outras formas de produção de conhecimento. • Antes de tudo, a história da ciência parece demonstrar o contrário. Foi justamente o ficar sob controle de regras epistêmicas e rejeitar ideias até então sustentadas pela tradição ou autoridade que permitiu o surgimento de conhecimentos novos e até contraintuitivos. • Ex: Kepler, Galileu, Darwin, Einstein, Skinner, Beck, etc. • A produção de conhecimento sem objetividade é que parece engessar a investigação, pois esta tem de servir a valores não- epistêmicos. • Ex: Inquisição, ciência nazista, ciência soviética, etc. “A objetividade serve ao status quo” • A objetividade ( o discurso da ciência e da razão) de fato já foi instrumentalizada para prejudicar minorias. • Entretanto, objetividade científica implica apenas ficar sob controle de regras epistêmicas no contexto de produção de conhecimento, não em todos os contextos. O cientista pode e deve adotar valores, como os da Declaração Universal dos Direitos Humanos. • A objetividade é necessária para a confiabilidade do conhecimento científico, o que é do interesse das minorias. • A objetividade é necessária para a confiabilidade nas instituições, como a Justiça. Afinal, seu oposto envolveria não seguir as regras descritas e acordadas, tornando as pessoas vulneráveis ao arbítrio pessoal (as regras do jogo mudam no meio do jogo); “A objetividade serve ao status quo” • Abrir mão da objetividade envolve uma queda de braço ideológica, onde cada um tenta usar seu poder para empurrar o mundo em uma determinada direção, e não através da persuasão, mas de abuso da confiança depositada nele • Pressupõe infalibilidade, onde meus valores pessoais são os corretos e levam a um bem maior do que seguir as regras acordadas. • Como já ilustrado, a adoção da objetividade contribuiu para a mudança do status quo. Um conhecimento de maior confiabilidade, permite a tomada de decisões mais bem informadas. 5. A objetividade é possível/desejável na PBE? A PBE enquanto campo da ciência Enquanto produção de conhecimento científico, os métodos valorizados pela PBE visam favorecer a objetividade. Exemplo: Ensaio Clínico Randomizado. A psicoterapia não é uma ciência • Na psicoterapia, não há os controles de variáveis de um contexto experimental e o objetivo não é necessariamente a produção de conhecimento, mas o bem-estar do cliente. • A Psicoterapia pode ser uma prática baseada em ciência (em evidências!), mas não é uma ciência per se. • Enquanto ciência, há a adoção dos valores epistêmicos prescritos pela comunidade científica. Mas quais os valores prescritos na psicoterapia? Há três classes de valores na psicoterapia: • - Os valores éticos da profissão • - Os valores do cliente • - Os valores da abordagem Os valores éticos da profissão • Alguns dos valores explicitados pelo Código de Ética do Psicólogo, do Conselho Federal de Psicologia: • - respeitar e promover a liberdade; • - promover saúde e qualidade de vida; • - rejeitar situações em que a Psicologia esteja sendo aviltada; • - levar em conta o contexto social. • Algumas contradições internas há resoluções explícitas, outras não. Os valores do cliente • Valores tendem a ser contextuais, ou seja, diz respeito à descrição de quais ações produzem as consequências mais reforçadoras naquele contexto. • Frequentemente os clientes parecem agir de modo incongruente com os valores que descrevem ter. É importante apontar isso para o cliente, avaliar as variáveis que controlam seu comportamento e questionar se deve alterar seus valores ou suas ações. • Algumas vezes, o cliente adotará valores dos pais, amigos ou da cultura que não levam a consequências apetitivas a ele. • Noutras, poderá apresentar dificuldade de agir de modo coerente com seus valores apenas porque está refém das armadilhas do reforçamento imediato. Os valores da abordagem • As Práticas Baseadas em Evidências estão agrupadas sobre um mesmo nome justamente por compartilharem um valor em comum: • - Deve-se aplicar a intervenção que produz o melhor resultado possível para aquele problema, de acordo com as melhores evidências disponíveis. • Este valor tende a ser complementado por outros, afinal o melhor resultado só será obtido levando em consideração as características particulares do cliente e com a devida perícia do clínico. • Nas PBEs tende a ser bastante valorizado procedimentos como Treino de Regulação Emocional, identificação de Distorções Cognitivas, etc. Estes assemelham-se a uma aplicação clínica da objetividade. O que é ser clinicamente objetivo? • Devido às três classes de valores que devem controlar o comportamento do psicoterapeuta, ser clinicamente objetivo em uma Psicoterapia Baseada em Evidência consiste em: • Utilizar a melhor evidência disponível para auxiliar o cliente a agir de acordo com seus valores, contanto estas não entrem em conflito com os valores da profissão. Como ser clinicamente objetivo? • Descrever seus valores pessoais e os valores pessoais do cliente • Discriminá-los, para evitar responder sob controle do que produziria consequências reforçadoras para seu comportamento, mas não para o do cliente. • Ter clareza que o objetivo da psicoterapia é auxiliar o cliente a agir de acordo com os valores dele, não empurrar o mundo para a direção que você considera correta. • Sempre que suas intervenções envolverem levar o cliente a questionar seus valores, certificar-se de que este questionamento está sob controle dos interesses do cliente e dos valores da profissão, não de preferências pessoais. Considerações finais Uma acepção pragmatista da objetividade: • Não atrela objetividade ao realismo; • Não atrela objetividade à ahistoricidade (sujeito que escaparia de ser produto de sua história); • Não atrela objetividade a um método específico; • Não atrela objetividade a um sistema político ou ideologia (além dos valores epistêmicos, se considera-los como ideologia); • Não nega as observações de Kuhn, Latour e outros de que a comunidade pode nutrir vieses que sustentam ou rejeitam ideias controlados por valores não-epistêmicos; • Não sustentaque o cientista ou terapeuta deve ser frio e impassível Ela sustenta que: • O conceito de objetividade tem valor conceitual e prático (a objetividade “existe”); • Sermos fruto da nossa história de reforçamento não impede o esforço para colocar o comportamento do cientista sob controle de valores epistêmicos; • A objetividade permite o constante surgimento de outros métodos e até de conhecimentos contraintuitivos; • A objetividade ajuda a diminuir a influência de valores ideológicos na produção de conhecimento e a rejeitar petições de princípios infundadas (é a melhor forma de avaliar ideologias); • A objetividade contribui para questionar a ordem vigente, aceita por tradição e aversão à mudança e não por ser a mais verdadeira; Ela sustenta que: • A ciência, mesmo com seus defeitos comunitários, mostrou ser a melhor forma de produção de conhecimento, mas pode perder esta estima social se justamente não considerar problemático o cientista sustentar ou rejeitar ideias por valores não-epistêmicos, dando cada vez mais ênfase na objetividade como um valor (e tê-la como um valor não é garantia de que está conseguindo ela, como qualquer valor/lei de qualquer cultura). • O cientista pode ser passional, tanto na comunicação científica quanto em diversos aspectos da produção de conhecimento. O que a objetividade visa colocar em xeque não é a presença de emoções, sequer de emoções intensas, mas do raciocínio emocional – em termos comportamentais, que elas controlem a análise e conclusões. Na Psicoterapia Baseada em Evidências a objetividade clínica é essencial para: • Garantir a qualidade da intervenção, de modo que ela seja baseada em evidências e não em preferências pessoais; • Garantir a confiança nos psicoterapeutas, que não se aproveitarão da vulnerabilidade do cliente e da confiança depositada no profissional para manipular o cliente a agir de acordo com valores pessoais do psicoterapeuta; • Agir de acordo com o prescrito pelo Código de Ética do Psicólogo; Há uma diferença pragmática entre práticas e profissionais que buscam agir com objetividade e as que abraçam vieses. É importante criticar os chavões que “objetividade não existe” quando estes são usados como desculpa para que alguém haja de modo deliberadamente parcial sem ser punido. Valer-se da posição de psicoterapeuta ou pesquisador para empurrar o mundo na direção que prefere é uma forma de desonestidade. A imperfeição da objetividade é preferível às consequências desastrosas da parcialidade. Obrigado! • pedsampaio@gmail.com • @pedsampaio