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Neutralidade, 
objetividade e a Prática 
Baseada em Evidências
Pedro Sampaio
Apresentação 
do professor
Qual a 
relevância deste 
tema?
- No contexto 
global
- No contexto 
da Psicologia
- No contexto 
das PBEs
O que será 
abordado no curso
1. O que é neutralidade e o que é 
objetividade
2. Críticas à objetividade
3. Operacionalização do conceito
4. Apreciação das críticas à objetividade
5. A objetividade é possível/desejável na 
PBE?
1. O que é
neutralidade e o 
que é objetividade.
Neutralidade, objetividade ou 
imparcialidade?
Neutralidade, objetividade 
ou imparcialidade?
Neutralidade, objetividade 
ou imparcialidade?
• Neutralidade:
• “a ideia de que as questões científicas 
seriam isentas dos vieses humanos (...) 
O conhecimento científico é, portanto, 
objetivo, entendendo objetividade 
como sinônimo de neutralidade” 
(Lopes & Laurenti, 2016, p.6)
• A ideia de que “a ciência é livre de 
valores” (Oliveira, 2008, p.97)
Neutralidade, objetividade 
ou imparcialidade?
• Objetividade:
• “a ideia de que afirmações científicas, 
métodos, resultados – e os próprios 
cientistas – não são, ou não deveriam 
ser, influenciados por perspectivas 
particulares, julgamentos de valor, viés 
da comunidade ou interesses pessoais, 
para citar alguns fatores relevantes” 
(Stanford Encyclopedia of Philosophy).
Neutralidade, objetividade 
ou imparcialidade?
• Imparcialidade:
• “Uma escolha imparcial é aquela que é 
livre de viés ou preconceito” (Stanford 
Encyclopedia of Philosophy)
• “A é imparcial na questão Q em relação 
ao grupo G se e somente se as ações 
de A em relação a Q não são 
influenciadas por quais membros de G
se beneficiam ou são prejudicados por 
essas ações” (Gert 1995, 104)
Neutralidade, objetividade 
ou imparcialidade?
• Dado que os três termos são quase sempre 
utilizados de modo intercambiável, daremos 
preferência ao termo objetividade, 
entendendo-o como:
• A ideia de que, em certos contextos, 
nossas ações não deveriam ser 
influenciadas por nossos vieses pessoais. 
Aplicações
• No Direito, a imparcialidade é “a exigência de uma posição 
equidistante do julgador das partes e de tratamento equânime 
das mesmas” (Reichelt, 2014, p.2)
• A imparcialidade do julgador é um princípio presente em várias 
constituições federais e órgãos internacionais, considerado 
elemento essencial para a validade de qualquer julgamento.
• “a ideia de um juiz parcial, que prefira indevidamente uma das 
partes no processo, soa contraditória. Afinal, como alguém 
poderia assumir a tarefa de decidir um conflito, substituindo a 
vontade dos litigantes, predisposto a favorecer um deles?” 
(Lacerda, 2016, p.23)
Aplicações
• Na Ciência, a objetividade é frequentemente vista como necessária 
para a produção de conhecimento.
• “A ciência é uma disposição a aceitar os fatos mesmo quando eles são 
opostos aos desejos” (Skinner, 1953, p.16)
• Periódicos tentem a exigir ou incentivar medidas que favorecem a 
objetividade, tais como:
• - declarações de conflitos de interesses;
• - revisão por pares;
• - replicabilidade
• - metodologias que visam o controle de vieses (como o duplo-cego)
Aplicações
• Na psicoterapia, frequentemente espera-se que o psicólogo saiba 
separar suas questões e preferências das questões e preferências do 
cliente.
• O Código de Ética do Psicólogo, do Conselho Federal de Psicologia, 
determina que ao psicólogo é vedado “Induzir a convicções políticas, 
filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a 
qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções 
profissionais”.
• É razoável dizer, portanto, que se suas ações não podem induzir 
convicções ideológicas para nenhum lado, que ele deve agir com 
neutralidade em relação a elas.
2. Críticas à 
objetividade
Objetividade como exclusiva das 
ciências naturais
• Weber (1917) argumentou que há quatro estágios em que 
os valores podem afetar a ciência. São eles: 
• (i) a escolha de um problema de pesquisa científica; 
• (ii) a coleta de evidências em relação ao problema; 
• (iii) a aceitação de uma hipótese ou teoria científica como 
resposta adequada ao problema com base nas evidências; 
• (iv) a proliferação e aplicação de resultados de pesquisas 
científicas
Objetividade como exclusiva das 
ciências naturais
• Para Weber (1917), as ciências naturais poderiam argumentar a favor 
de uma ausência de valores nos estágios ii e iii, por buscarem a causa 
de fenômenos da natureza, mas a ideia de uma descrição sem 
perspectiva seria absurda para as ciências sociais.
• Esta perspectiva tornou-se influente no meio acadêmico e até no 
senso comum.
• A ideia de que matemáticos, físicos e químicos podem ser objetivos, 
mas não psicólogos, sociólogos, economistas, etc., porque lidam com 
seres humanos e sociedades, onde nossa leitura já é carregada de 
vieses. 
Sociologia da ciência e a 
impossibilidade da objetividade
• Em A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), Thomas Kuhn 
demonstrou que o progresso da ciência e a aceitação de 
paradigmas não é um processo tão lógico, ordenado ou objetivo 
quanto se supunha.
• Além disso, segundo Kuhn (1962), as observações são 
“carregadas de teoria”: elas dependem de um corpo de 
suposições teóricas através das quais são percebidas e 
conceituadas.
• Ele também popularizou o termo incomensurabilidade, 
referindo-se a teorias que não podem ser diretamente 
comparadas para avaliar a superioridade de uma sobre outra.
Sociologia da ciência e a 
impossibilidade da objetividade
• Em Contra o Método (1975), Paul Feyerabend argumentará que 
nenhum método consegue capturar o empreendimento científico e 
tudo vale.
• A objetividade seria apenas um conjunto de valores de uma cultura 
específica e que limita o empreendimento científico.
• Não há diferença entre os membros de uma tribo “primitiva” que 
defendem suas leis porque são as leis dos deuses e um racionalista 
que apela para padrões “objetivos”, exceto que os primeiros sabem o 
que estão fazendo enquanto o último não (Feyerabend ,1978, p.82).
• Bruno Latour e A Vida de Laboratório (1979).
Psicologia e a impossibilidade da 
objetividade
• A Psicologia também teria demonstrado a impossibilidade 
da objetividade.
• Psicanálise e o inconsciente.
• Análise do Comportamento e o controle de estímulos.
• Psicologia Cognitiva e os vieses cognitivos.
A indesejabilidade da 
objetividade
• Feyerabend (1975) não apenas considera impossível, como também 
indesejável almejar uma ciência objetiva e isenta de valores.
• Ele denuncia os apelos a objetividade como ferramentas retóricas para 
reforçar a autoridade epistêmica de uma pequena elite intelectual 
(cientistas ocidentais) e como declarações mal disfarçadas de 
preferência pela própria visão de mundo.
• Já a teoria da perspectiva (standpoint theory), proposta inicialmente 
por Harding (1991, 1993), desenvolve ideias marxistas no sentido de 
que a posição epistêmica está relacionada e é um produto da posição 
social. 
A indesejabilidade da 
objetividade
• Para Harding (1991, 1993), a ciência é um empreendimento 
majoritariamente masculino, que reflete visões de mundo masculinas.
• A proposta de Harding foi estendida para uma abordagem 
interseccional (Harding, 2015/2019), apontando a exclusão de outras 
minorias e como a prática científica contemporânea não os 
representa.
• A autora propõe o conceito de objetividade forte enquanto uma 
objetividade que realmente está mais perto de não submeter-se a um 
viés social por adotar a pluralidade de visões de mundo.
• As ideias de Harding inspiraram movimentos que reinvidicam a 
legitimidade científica de conhecimentos culturalmente validados.
Ciência decolonial
• Vídeo “Science Must Fail?”
• https://www.youtube.com/watch?v=C9SiRNibD14
• Decolonialidade não necessariamente envolve igualar epistemicamente
todos os saberes, mas há autores que defendem como um 
reconhecimento de que o discurso de ciência e razão foi usado para a 
dominaçãode povos.
• Neste sentido, um pensamento decolonial poderia ser reconhecer a 
legitimidade de outros modos de produção de conhecimento dentro 
de contextos culturais específicos e não necessariamente 
incorporação destes como critério epistêmico.
https://www.youtube.com/watch?v=C9SiRNibD14
A indesejabilidade da 
objetividade
• Sendo a objetividade uma impossibilidade concreta e também um 
valor local, isso implicaria que adotar a objetividade seria:
• 1- Uma ilusão;
• E 2- Uma forma de impor, ou no mínimo ser conivente, com valores 
da classe dominante sobre minorias, com a desculpa de neutralidade.
• Holland (1979) – Comportamentalismo: Parte do Problema ou Parte 
da Solução?
• A proposta de uma produção de conhecimento socialmente engajada 
(e.g. Fernandes & de Rezende, 2016)
A indesejabilidade da 
objetividade
• A proposta de uma clínica socialmente engajada
• Green FAP
• Sociobehaviorismo
• Psicoterapia feminista
• “A epistemologia feminista contesta o que é determinado como 
conhecimento, quem o define e como ele é obtido, assim como 
questiona a posição neutra do(a) pesquisador(a), pois observa-se que 
não há uma só forma de se fazer ciência. (...) A terapeuta feminista 
minimiza ativamente a diferença de poder no relacionamento, torna 
seus valores claros para a cliente e permite que esta influencie os 
posicionamentos da terapeuta (Fideldes & Vandenberghe, 2014).
3. Operacionalizando o 
conceito de objetividade
O que é operacionalizar?
• Skinner e a Análise Operacional dos Termos Psicológicos
• Pode-se chamar de comportamentalização ou definição 
pragmatista
• A importância da operacionalização
• Operacionalizar não diz nada sobre a validade do conceito: 
ex: mente, consciência, violência, etc.
• Por que operacionalizar só agora?
Objetividade x Psicologia
• A definição de objetividade que adotamos até aqui: a ideia 
de que, em certos contextos, nossas ações não deveriam 
ser influenciadas por nossos vieses pessoais. 
• Talvez ela seja incompatível com a psicologia científica.
• Afinal, somos todos produto de nossa história de 
reforçamento e a todo momento de alguma forma 
influenciados por variáveis alheias ao contexto que deveria 
controlar nosso comportamento.
• Ex: miopia de hipóteses
• Todavia, ao tentar operacionalizar 
um conceito, não basta apontar 
que sua definição usual na 
literatura é inconsistente com 
princípios comportamentais, ou 
muitas destas tentativas já teriam 
fracassado logo de início.
• Mas, então, quando consideramos 
que alguém agiu com 
objetividade? E quando 
consideramos que faltou 
objetividade?
Galileu e o cardeal
Bellarmino
Objetividade x não-objetividade
• Neste exemplo, Galileu teria sido objetivo por ter mudado 
de opinião diante de novas evidências, ter apresentado 
abertura para adotar hipóteses rejeitadas pela maioria se 
estas são mais coerentes com as observações.
• Já Bellarmino representaria o dogma, o apego emocional 
às ideias, o fechar os olhos às novas evidências quando 
elas contradizem visões de mundo caras a nós. 
• Mas em que sentido Galileu foi mais objetivo que 
Bellarmino? 
Objetividade x não-objetividade
• Afinal, é possível argumentar que ambos têm preferências pessoais 
que afetam seus comportamentos. Enquanto Galileu valoriza mais a 
observação e a consistência entre ela e a teoria, Bellarmino valoriza 
mais a consistência da teoria com a Bíblia. 
• É até possível argumentar que, naquele período, a perspectiva de 
Galileu era mais particular, menos comum, do que a de Bellarmino. 
Afinal, partindo do pressuposto aceito pelo cardeal, e por quase todos 
de sua época, de que a Bíblia era infalível, ele estava sendo claro e 
objetivo ao apontar a contradição, que implicaria na rejeição do 
heliocentrismo (já que a Bíblia, infalível, não poderia ser rejeitada).
• Portanto, tanto Galileu quanto Bellarmino apresentam argumentos 
lógicos e coerentes, mas lógicos e coerentes com valores diferentes 
(consistência com a observação / consistência com a Bíblia). 
• Em termos comportamentais, o comportamento de 
investigação, análise e conclusão de ambos está sob controle de 
regras claras e bem descritas, mas de regras diferentes. 
• Em certo sentido, portanto, tanto Galileu quanto Bellarmino
agiram com objetividade, já que é possível explicar o 
comportamento de ambos sem pressupor que este foi 
significativamente controlado por outras variáveis (como rixas 
pessoais ou busca por fama) além das regras explícitas que 
adotam.
• Este parece ser um dos contextos que controla nosso uso do 
termo objetividade.
Objetividade ampla
• Chamaremos de objetividade ampla quando o comportamento de 
investigação, análise e conclusão está sob controle de regras claras e 
bem descritas.
• Ex: práticas desportivas, julgamento, Bellarmino e Giordano Bruno.
• Nesta acepção, estaríamos nomeando como objetivo aquele 
comportamento sob controle de regras claras e bem descritas, sem 
discriminar outras características destas, como sua qualidade moral ou 
epistêmica.
• Muito do que controla o uso do termo honestidade também está 
abarcado aqui.
As objetividades específicas
• Objetividade científica: a qualidade que se atribui ao comportamento 
que, em um contexto de produção de conhecimento, está (ou parece 
estar) suficientemente sob controle das regras epistêmicas descritas e 
prescritas pela comunidade científica. 
• Objetividade clínica: a qualidade que se atribui ao comportamento do 
psicoterapeuta que, no contexto clínico, está (ou parece estar) 
suficientemente sob controle dos valores (regras) do cliente e não dos 
próprios.
• Objetividade jurídica: a qualidade que se atribui ao comportamento 
que, em um contexto jurídico, está (ou parece estar) suficientemente 
sob controle de regras jurídicas descritas e prescritas na legislação.
4. Apreciação
das críticas à
objetividade
“A objetividade absoluta não 
existe”
• A objetividade tem de ser absoluta para existir?
• Objetividade é um conceito. 
• Conceitos são “abstrações que ajudam a compreender, 
categorizar e organizar informações sobre o mundo ao 
nosso redor. É uma unidade fundamental do pensamento e 
da linguagem, permitindo-nos comunicar e compartilhar 
conhecimentos de forma eficaz”.
• Conceitos não respondem bem a atribuições absolutistas. 
Nem os conceitos ordinários e nem os científicos
“A objetividade 
absoluta não 
existe”
Conceitos ordinários: altruísmo, 
beleza, mal-estar.
Conceitos científicos: animal na 
Biologia, massa na Mecânica 
Clássica, controle de estímulos 
na Análise do Comportamento.
“A objetividade absoluta não 
existe”
• Mas alguns conceitos só fazem sentido se absolutos: 
onipotência, perfeição.
• Este é o caso da objetividade?
• O antagonista da objetividade seria a parcialidade.
• Mas o que é ser parcial?
“A objetividade absoluta não 
existe”
• Todos nossos comportamentos são influenciados por cada elemento da 
nossa genética, história de vida e cultura. 
• Algumas variáveis estão mais frouxamente relacionadas com alguns 
comportamentos e podem ser muito pouco relevantes para compreende-
lo, prevê-lo e altera-lo, especialmente se considerarmos que existem 
outras variáveis que exercem um controle mais significativo sobre ele. 
• A sexualidade controla muitos de nossos comportamentos, inclusive 
como vemos a nós mesmos, mas possivelmente será uma variável pouco 
relevante para um engenheiro que construiu um prédio. A não ser que 
tenhamos motivos específicos para acreditar que, naquele caso, foi uma 
variável relevante (como ele ser vouyer e ter deixado locais ocultos que 
permitem a ele espionar outros). A maioria de nós consideraria 
exagerado, no entanto, se alguém defendesse que engenheiros devem 
sempre explicitar suas preferencias sexuais porque suas obras não são 
neutras em relação a seus fetiches.
“A objetividade absoluta não 
existe”
• Idem à religião e ser técnico de informática que vai consertar um 
computador
• Então é possível que mesmo elementos importantes de nossa história,e caros a nós, sejam variáveis pouco relevantes em contextos onde o 
comportamento é controlado por outras variáveis. 
• Tentamos o tempo todo responder discriminativamente, ou seja, 
emitir a resposta que tem maior probabilidade de ser reforçada 
naquele contexto. Isso significa responder sob controle de 
determinados estímulos e não de outros.
• Isso que permitiu a ciência, que consistiu em parar de responder sob 
controle de determinados estímulos (religiosos, arbitrários, petições 
de princípios validadas culturalmente – valores sociais) e passar a 
responder sob controle de outros (valores epistêmicos – observação, 
lógica, etc). 
“A objetividade 
absoluta não 
existe”
Mas cuidado com a falácia bulverista!
Parece que chamamos de parcial aquele comportamento que 
é incoerente com as regras prescritas para o contexto que 
ocorre, sendo melhor compreendido enquanto sob controle 
de variáveis espúrias.
Então parcialidade não parece ser simplesmente ter, em 
algum nível, parte dos comportamentos influenciados por 
variáveis além das regras prescritas no contexto, ou tudo 
seria parcial.
“A objetividade absoluta não 
existe”
• Então a objetividade parece menos similar à onipotência ou 
perfeição, pois podem existir “parcialidades irrelevantes”
• É mais similar ao altruísmo ou ao controle de estímulos.
• Assim, mesmo que a objetividade absoluta não exista, o 
conceito de objetividade é útil, por:
• 1. nomear coerentemente um conjunto de fenômenos e não 
outros (relevância conceitual)
• 2. ser um valor, que pode servir de norte para práticas, já que 
parece haver diferença significativa entre buscar ou não a 
objetividade (relevância prática)
“A objetividade
não é desejável”
“A objetividade engessa a 
investigação”
• A crítica é de que adotar a objetividade limitaria o surgimento 
de outras formas de produção de conhecimento.
• Antes de tudo, a história da ciência parece demonstrar o 
contrário. Foi justamente o ficar sob controle de regras 
epistêmicas e rejeitar ideias até então sustentadas pela tradição 
ou autoridade que permitiu o surgimento de conhecimentos 
novos e até contraintuitivos.
• Ex: Kepler, Galileu, Darwin, Einstein, Skinner, Beck, etc.
• A produção de conhecimento sem objetividade é que parece 
engessar a investigação, pois esta tem de servir a valores não-
epistêmicos.
• Ex: Inquisição, ciência nazista, ciência soviética, etc.
“A objetividade serve ao status 
quo”
• A objetividade ( o discurso da ciência e da razão) de fato já foi 
instrumentalizada para prejudicar minorias.
• Entretanto, objetividade científica implica apenas ficar sob controle de 
regras epistêmicas no contexto de produção de conhecimento, não 
em todos os contextos. O cientista pode e deve adotar valores, como 
os da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
• A objetividade é necessária para a confiabilidade do conhecimento 
científico, o que é do interesse das minorias.
• A objetividade é necessária para a confiabilidade nas instituições, 
como a Justiça. Afinal, seu oposto envolveria não seguir as regras 
descritas e acordadas, tornando as pessoas vulneráveis ao arbítrio 
pessoal (as regras do jogo mudam no meio do jogo); 
“A objetividade serve ao status 
quo”
• Abrir mão da objetividade envolve uma queda de braço 
ideológica, onde cada um tenta usar seu poder para empurrar o 
mundo em uma determinada direção, e não através da 
persuasão, mas de abuso da confiança depositada nele
• Pressupõe infalibilidade, onde meus valores pessoais são os 
corretos e levam a um bem maior do que seguir as regras 
acordadas.
• Como já ilustrado, a adoção da objetividade contribuiu para a 
mudança do status quo. Um conhecimento de maior 
confiabilidade, permite a tomada de decisões mais bem 
informadas.
5. A objetividade é
possível/desejável
na PBE?
A PBE enquanto 
campo da ciência
Enquanto produção de 
conhecimento científico, os 
métodos valorizados pela PBE 
visam favorecer a objetividade.
Exemplo: Ensaio Clínico 
Randomizado.
A psicoterapia não é uma ciência
• Na psicoterapia, não há os controles de variáveis de um 
contexto experimental e o objetivo não é 
necessariamente a produção de conhecimento, mas o 
bem-estar do cliente.
• A Psicoterapia pode ser uma prática baseada em ciência 
(em evidências!), mas não é uma ciência per se.
• Enquanto ciência, há a adoção dos valores epistêmicos 
prescritos pela comunidade científica. Mas quais os valores 
prescritos na psicoterapia?
Há três classes de valores 
na psicoterapia:
• - Os valores éticos da profissão
• - Os valores do cliente
• - Os valores da abordagem
Os valores éticos da profissão
• Alguns dos valores explicitados pelo Código de Ética do 
Psicólogo, do Conselho Federal de Psicologia:
• - respeitar e promover a liberdade;
• - promover saúde e qualidade de vida;
• - rejeitar situações em que a Psicologia esteja sendo 
aviltada;
• - levar em conta o contexto social.
• Algumas contradições internas há resoluções explícitas, 
outras não.
Os valores do cliente
• Valores tendem a ser contextuais, ou seja, diz respeito à descrição de 
quais ações produzem as consequências mais reforçadoras naquele 
contexto.
• Frequentemente os clientes parecem agir de modo incongruente com 
os valores que descrevem ter. É importante apontar isso para o 
cliente, avaliar as variáveis que controlam seu comportamento e 
questionar se deve alterar seus valores ou suas ações.
• Algumas vezes, o cliente adotará valores dos pais, amigos ou da 
cultura que não levam a consequências apetitivas a ele.
• Noutras, poderá apresentar dificuldade de agir de modo coerente 
com seus valores apenas porque está refém das armadilhas do 
reforçamento imediato.
Os valores da abordagem
• As Práticas Baseadas em Evidências estão agrupadas sobre um mesmo 
nome justamente por compartilharem um valor em comum: 
• - Deve-se aplicar a intervenção que produz o melhor resultado 
possível para aquele problema, de acordo com as melhores evidências 
disponíveis.
• Este valor tende a ser complementado por outros, afinal o melhor 
resultado só será obtido levando em consideração as características 
particulares do cliente e com a devida perícia do clínico.
• Nas PBEs tende a ser bastante valorizado procedimentos como 
Treino de Regulação Emocional, identificação de Distorções 
Cognitivas, etc. Estes assemelham-se a uma aplicação clínica da 
objetividade.
O que é ser clinicamente 
objetivo?
• Devido às três classes de valores que devem controlar 
o comportamento do psicoterapeuta, ser clinicamente 
objetivo em uma Psicoterapia Baseada em Evidência 
consiste em:
• Utilizar a melhor evidência disponível para 
auxiliar o cliente a agir de acordo com seus 
valores, contanto estas não entrem em conflito 
com os valores da profissão.
Como ser clinicamente objetivo?
• Descrever seus valores pessoais e os valores pessoais do cliente
• Discriminá-los, para evitar responder sob controle do que 
produziria consequências reforçadoras para seu 
comportamento, mas não para o do cliente.
• Ter clareza que o objetivo da psicoterapia é auxiliar o cliente a 
agir de acordo com os valores dele, não empurrar o mundo 
para a direção que você considera correta.
• Sempre que suas intervenções envolverem levar o cliente a 
questionar seus valores, certificar-se de que este 
questionamento está sob controle dos interesses do cliente e 
dos valores da profissão, não de preferências pessoais.
Considerações 
finais
Uma acepção pragmatista da 
objetividade:
• Não atrela objetividade ao realismo;
• Não atrela objetividade à ahistoricidade (sujeito que escaparia de ser 
produto de sua história);
• Não atrela objetividade a um método específico;
• Não atrela objetividade a um sistema político ou ideologia (além dos 
valores epistêmicos, se considera-los como ideologia);
• Não nega as observações de Kuhn, Latour e outros de que a 
comunidade pode nutrir vieses que sustentam ou rejeitam ideias 
controlados por valores não-epistêmicos;
• Não sustentaque o cientista ou terapeuta deve ser frio e impassível
Ela sustenta que:
• O conceito de objetividade tem valor conceitual e prático (a 
objetividade “existe”);
• Sermos fruto da nossa história de reforçamento não impede o esforço 
para colocar o comportamento do cientista sob controle de valores 
epistêmicos;
• A objetividade permite o constante surgimento de outros métodos e 
até de conhecimentos contraintuitivos;
• A objetividade ajuda a diminuir a influência de valores ideológicos na 
produção de conhecimento e a rejeitar petições de princípios 
infundadas (é a melhor forma de avaliar ideologias);
• A objetividade contribui para questionar a ordem vigente, aceita por 
tradição e aversão à mudança e não por ser a mais verdadeira;
Ela sustenta que:
• A ciência, mesmo com seus defeitos comunitários, mostrou ser a 
melhor forma de produção de conhecimento, mas pode perder esta 
estima social se justamente não considerar problemático o cientista 
sustentar ou rejeitar ideias por valores não-epistêmicos, dando cada 
vez mais ênfase na objetividade como um valor (e tê-la como um valor 
não é garantia de que está conseguindo ela, como qualquer valor/lei 
de qualquer cultura).
• O cientista pode ser passional, tanto na comunicação científica quanto 
em diversos aspectos da produção de conhecimento. O que a 
objetividade visa colocar em xeque não é a presença de emoções, 
sequer de emoções intensas, mas do raciocínio emocional – em 
termos comportamentais, que elas controlem a análise e conclusões.
Na Psicoterapia Baseada 
em Evidências a 
objetividade clínica é 
essencial para:
• Garantir a qualidade da intervenção, de modo que ela 
seja baseada em evidências e não em preferências 
pessoais;
• Garantir a confiança nos psicoterapeutas, que não se 
aproveitarão da vulnerabilidade do cliente e da 
confiança depositada no profissional para manipular o 
cliente a agir de acordo com valores pessoais do 
psicoterapeuta;
• Agir de acordo com o prescrito pelo Código de Ética 
do Psicólogo;
Há uma diferença pragmática entre práticas e 
profissionais que buscam agir com objetividade 
e as que abraçam vieses.
É importante criticar os chavões que 
“objetividade não existe” quando estes são 
usados como desculpa para que alguém haja de 
modo deliberadamente parcial sem ser punido.
Valer-se da posição de psicoterapeuta ou 
pesquisador para empurrar o mundo na direção 
que prefere é uma forma de desonestidade.
A imperfeição da objetividade é preferível às 
consequências desastrosas da parcialidade.
Obrigado!
• pedsampaio@gmail.com
• @pedsampaio

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