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UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 1 S2 – P1 Objetivos: 1- Revisar a resposta imunológica de Hipersensibilidade 2- Estudar tudo das alergias e intolerâncias alimentares 3- Compreender os alimentos mais relacionados às alergias e intolerâncias alimentares A resposta imune a um antígeno pode resultar não somente em imunidade protetora, mas também em uma reação detectável ao desafio com este antígeno, chamada sensibilidade. Portanto, a hipersensibilidade é o reflexo de respostas imunes excessivas ou aberrantes. Reações imunes lesivas ou patológicas são chamadas reações de hipersensibilidade. Essas reações ocorrem em duas situações: 1) respostas a antígenos externos, como microrganismos e substâncias ambientais, que podem lesar tecidos; 2) respostas contra antígenos próprios devido à falha da autotolerância, levando à autoimunidade e doenças autoimunes. As reações de hipersensibilidade são classificadas de acordo com o mecanismo imunológico que causa a lesão tecidual e a doença. Essas reações são divididas em quatro tipos principais, cada um com características distintas: Hipersensibilidade Tipo I (Imediata): É causada pela liberação de mediadores químicos, como histamina, a partir de mastócitos ativados. Essa reação geralmente ocorre quando o sistema imunológico produz anticorpos do tipo IgE contra antígenos ambientais (como pólen ou ácaros). A IgE se liga aos mastócitos, e, ao entrar em contato com o antígeno novamente, os mastócitos liberam substâncias que causam sintomas alérgicos, como coceira, inchaço e dificuldade respiratória. Hipersensibilidade Tipo II (Mediada por Anticorpos): Neste tipo, anticorpos (como IgG ou IgM) se ligam a antígenos presentes na superfície de células ou tecidos do próprio corpo, causando sua destruição ou prejudicando sua função. Isso pode ocorrer em doenças autoimunes, onde o sistema imunológico ataca células saudáveis por engano. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 2 Hipersensibilidade Tipo III (Doenças por Imunocomplexos): Aqui, anticorpos se ligam a antígenos solúveis no sangue, formando complexos antígeno- anticorpo. Esses complexos podem se depositar em vasos sanguíneos ou tecidos, desencadeando inflamação e dano tecidual. Exemplos incluem doenças como lúpus eritematosos sistêmico. Hipersensibilidade Tipo IV (Mediada por Células T): Diferente dos outros tipos, essa reação envolve células T (linfócitos) que reconhecem antígenos específicos, como autoantígenos ou microrganismos. Essas células T ativadas causam inflamação e lesão tecidual diretamente ou por meio da ativação de outras células do sistema imunológico. Um exemplo clássico é a reação à tuberculina no teste de tuberculose. A hipersensibilidade imediata é uma reação alérgica rápida, mediada por anticorpos do tipo IgE e mastócitos, que ocorre quando o sistema imunológico reage a antígenos específicos, como pólen, alimentos ou medicamentos. Essa reação causa sintomas como extravasamento de líquidos dos vasos sanguíneos, contração da musculatura lisa e aumento de secreções mucosas, seguidos de inflamação. Indivíduos propensos a essas reações são chamados de atópicos, e os distúrbios relacionados a esse processo são conhecidos como alergias ou atopia. O processo da hipersensibilidade imediata envolve uma sequência de eventos: 1. Ativação de células Th2 e Tfh: Essas células produzem interleucina-4 (IL-4), que estimula a produção de anticorpos IgE específicos contra o antígeno. 2. Ligação da IgE aos mastócitos: Os anticorpos IgE se ligam a receptores específicos na superfície dos mastócitos. 3. Reexposição ao antígeno: Quando o antígeno é reintroduzido no organismo, ele se liga às IgE já acopladas aos mastócitos, causando a ativação dessas células. 4. Liberação de mediadores: Os mastócitos liberam substâncias como histamina, UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 3 que causam sintomas imediatos, como aumento da permeabilidade vascular e contração da musculatura lisa, em questão de minutos (daí o nome "hipersensibilidade imediata"). 5. Reação de fase tardia: Além dos mediadores de ação rápida, os mastócitos liberam citocinas que atraem neutrófilos e eosinófilos para o local da reação, causando inflamação horas depois. Esse processo é responsável por lesões teciduais em casos de exposições repetidas ao antígeno. Ativação das células Th2: Os atópicos desenvolvem uma resposta Th2 e Tfh (células T auxiliares foliculares) intensa, com produção de interleucina-4 (IL-4). Essa resposta leva à produção de grandes quantidades de anticorpos IgE, que são responsáveis pelas reações alérgicas. Os antígenos que causam essas reações são chamados de alergênicos. Obs.: Os Tfh são uma subpopulação de células T CD4+ especializadas em auxiliar as células B no processo de produção de anticorpos. Eles desempenham um papel crucial na imunidade adaptativa e na formação de centros germinativos nos folículos linfoides, onde ocorrem maturação e seleção das células B de alta afinidade. Os Tfh promovem a ativação, proliferação e diferenciação das células B em células plasmáticas produtoras de anticorpos ou células B de memória. Mecanismo da Resposta Alérgica: 1- Ativação de Células Tfh e Th2: Nos órgãos linfoides, as células Tfh secretam IL-4, que estimula os linfócitos B a se transformarem em plasmócitos produtores de IgE. As células Th2 produzem citocinas como IL-4, IL-5 e IL-13, que desempenham papéis importantes nas reações alérgicas: IL-4 e IL-13 promovem respostas teciduais, como aumento da motilidade intestinal e secreção de muco. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 4 IL-5 atrai e ativa eosinófilos, células envolvidas na inflamação característica das doenças alérgicas. 2- Papel dos Mastócitos e IgE: A IgE produzida se liga a mastócitos nos tecidos. Quando o indivíduo é reexposto ao alergênio, ocorre a ativação dos mastócitos, liberando mediadores como histamina, que causam sintomas imediatos (ex.: coceira, inchaço, contração da musculatura lisa). Horas depois, a liberação de citocinas pelos mastócitos desencadeia uma reação de fase tardia, com inflamação e lesão tecidual. Fatores Genéticos e Ambientais: Genética: A propensão para desenvolver alergias tem uma forte base genética. Mutações em genes relacionados a citocinas (como IL-4, IL-5 e IL-13) e ao receptor de IL-4 estão associadas a doenças atópicas. Além disso, mutações no gene da filagrina, uma proteína importante para a barreira da pele, aumentam o risco de dermatite atópica e outras alergias, como asma. Ambiente: Fatores como poluição do ar e exposição a microrganismos influenciam o desenvolvimento de alergias. Isso pode explicar o aumento da incidência de doenças alérgicas, especialmente em sociedades industrializadas. Ativação dos Mastócitos: Indivíduos atópicos (propensos a alergias), os anticorpos IgE, produzidos em resposta a um alergênio, ligam-se a receptores de alta afinidade (FcεRI) na superfície dos mastócitos. Esse processo é chamado de sensibilização, pois prepara os mastócitos para reagir em exposições futuras ao mesmo antígeno. Em pessoas não alérgicas, os mastócitos também carregam IgE, mas em quantidades insuficientes para causar reações alérgicas significativas. Ativação dos Mastócitos: Os mastócitos estão presentes em tecidos conectivos, especialmente sob epitélios e próximos a vasos sanguíneos. A localização da ativação depende da rota de entrada do alergênio: Alergêniosinalados ativam mastócitos nas vias respiratórias. Alergênios ingeridos ativam mastócitos no intestino. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 5 Alergênios que entram na corrente sanguínea podem causar ativação sistêmica. A ativação ocorre quando o alergênio se liga a duas ou mais moléculas de IgE nos mastócitos, causando ligação cruzada dos receptores FcεRI. Isso desencadeia a liberação de mediadores inflamatórios. Mediadores Liberados pelos Mastócitos: 1- Aminas Vasoativas (ex.: histamina): Causam aumento da permeabilidade vascular, vasodilatação e contração da musculatura lisa, levando a sintomas como inchaço, coceira e dificuldade respiratória. 2- Proteases: Podem causar dano tecidual local. 3- Metabólitos do Ácido Araquidônico: Prostaglandinas: Vasodilatação. Leucotrienos: Contração prolongada da musculatura lisa (especialmente nos brônquios). 4- Citocinas: Promovem inflamação e recrutamento de leucócitos, como eosinófilos e neutrófilos, para o local da reação. Reação de Fase Tardia: Além dos efeitos imediatos, as citocinas liberadas pelos mastócitos (como TNF e IL-4) e quimiocinas produzidas por células epiteliais recrutam leucócitos, causando uma reação de fase tardia: Eosinófilos e neutrófilos liberam proteases que causam danos teciduais. Células Th2 exacerbam a inflamação, produzindo mais citocinas, como IL-5, que ativa eosinófilos. Reações adversas a alimentos (RAA) é o termo aplicado para todas as reações que ocorrem após a exposição a um alimento. Essas reações podem ser divididas em tóxicas e não tóxicas. As reações tóxicas ocorrem em qualquer indivíduo exposto, desde que a dose seja suficientemente alta. As reações não tóxicas dependem da suscetibilidade individual e são classificadas de acordo com o envolvimento ou não do sistema imune. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 6 O entendimento do conceito de RAA é essencial para que possamos diferenciar o que é alergia alimentar (AA) do que não é. Por definição, a AA corresponde às RAA, reprodutíveis e com envolvimento do sistema imune. Obs.: Destaca-se que reprodutibilidade significa que, se o paciente consumir o mesmo alimento (na mesma quantidade e com a mesma forma de preparo), sempre será desencadeada a reação alérgica. A AA é dividida em 3 categorias de acordo com o mecanismo imunológico envolvido: mediada por IgE, não mediada por IgE e mista. As RAA que não envolvem o sistema imunológico podem ser enzimáticas, farmacológicas ou ter mecanismos não definidos. Na alergia alimentar a parte do alimento que causa os sintomas é a proteína que vai sensibilizar um sistema imunológico não preparado para tolerar. Ou seja, nas reações alérgicas é o sistema imunológico que comanda a resposta sendo ativado de maneira inadequada e levando a manifestações clínicas, que podem variar de um sangramento nas fezes a uma reposta grave do organismo, como é a anafilaxia, que pode colocar a pessoa em risco de vida. Na intolerância, a história é diferente, pois a reação é muito mais relacionada ao intestino e sua incapacidade de processar o alimento de maneira adequada. Se tomarmos como exemplo a intolerância à lactose, o defeito é em uma enzima - a lactase, que se encontra no intestino e está defeituosa em graus diferentes. Neste contexto, os sintomas são muito mais gastrintestinais e alimentos que contenham proteína do leite, mas não contenham lactose podem ser ingeridos UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 7 A alergia ou hiperssensibilidade alimentar engloba as reações adversas que envolvem o sistema imunológico. São reprodutíveis e induzidas por proteínas alimentares, que ocorrem em indivíduos geneticamente predispostos. Habitualmente, as manifestações clínicas ocorrem após ingestão do alimento, mas são passíveis de serem observadas após contato direto na pele, pela veiculação do alérgeno por cuidadores que o consumiram e ficaram com resquícios de suas proteínas nas mãos, boca ou utensílios comuns ou, até mesmo, por via inalatória. O trato gastrointestinal (TGI) é único porque abriga um equilíbrio harmonioso entre uma imensa variedade de microrganismos e o sistema imunológico, permitindo a digestão e absorção de nutrientes sem causar inflamação. Esse equilíbrio se deve a dois tipos principais de defesas: 1. Defesas Inespecíficas: a) Barreira física: O epitélio intestinal, formado por células unidas por tight junctions e desmossomos, impede a entrada indiscriminada de substâncias. Essas células são renovadas semanalmente a partir de células-tronco das criptas, que geram principalmente enterócitos (80%), além de células de Goblet (produtoras de muco), células enteroendócrinas e células de Paneth. b) Muco e mucinas: O muco, composto por mucinas, recobre o epitélio e atua como primeira linha de defesa. Ele não só impede a adesão de bactérias, mas também serve como matriz para a difusão dos peptídeos antimicrobianos, como alfa-defensinas, lisozima C, fosfolipases e lectinas, produzidos pelas células de Paneth. Esses componentes bioquímicos ajudam a neutralizar patógenos e toxinas. c) Outros fatores: O ácido gástrico, as secreções biliares e pancreáticas, e a motilidade intestinal também contribuem para a eliminação de microrganismos e manutenção da integridade da barreira. 2. Defesas Específicas (Imunológicas): Três níveis de organização: a) Barreira epitelial intestinal: A primeira linha onde antígenos entram em contato com o sistema imunológico. b) Lâmina própria: Logo abaixo do epitélio, concentra a maioria das células imunológicas (linfócitos T de memória, principalmente CD4+, linfócitos CD8+, células T reguladoras – Treg –, células dendríticas, macrófagos, mastócitos, eosinófilos e células linfoides inatas). c) GALT (Tecido Linfoide Associado ao Trato Gastrointestinal): Parte do sistema MALT, o GALT é composto por estruturas organizadas, como as Placas de Peyer, folículos linfoides isolados e linfonodos mesentéricos. Esse conjunto é o maior órgão UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 8 linfoide do corpo, abrigando aproximadamente 5×10¹⁰ linfócitos. 3. Captação e apresentação de antígenos: Os antígenos alimentares podem atravessar a barreira epitelial por diferentes vias. Células especializadas, como as células M (localizadas nas Placas de Peyer) e os dendritos de células dendríticas que se projetam entre as células epiteliais, capturam esses antígenos. Em seguida, essas células apresentadoras de antígenos (APCs) ativam células T naïve (Th0) nos tecidos linfoides. Dependendo do perfil de citocinas liberadas, essas células T se diferenciam em Th1, Th2, Th17 ou Treg. Tolerância oral: Em indivíduos saudáveis, a ativação de células T reguladoras (Treg) promove a liberação de TGF-β e IL-10, que, por sua vez, induzem a produção de IgA pelos linfócitos B. A IgA secretora é transportada através do epitélio com a ajuda do componente secretor, formando uma barreira imunológica que neutraliza bactérias, vírus e toxinas, além de evitar a penetração de antígenos. Resposta alérgica: Se houver falha na barreira ou fatores predisponentes, a captação dos antígenos pode direcionar a resposta imune para um perfil Th2, levando à produção de IgE, que se liga a mastócitos e basófilos, liberando mediadores inflamatórios e desencadeando reações alérgicas. 4- Interação com a microbiota: A diversidade e a quantidade de microrganismos no intestino (cerca de 10¹⁴ células, com 4.000cepas diferentes) são resultado de uma coevolução que beneficia tanto os microrganismos quanto o hospedeiro. A microbiota auxilia no desenvolvimento dos tecidos linfoides e na manutenção da homeostase, sendo fundamental para o equilíbrio entre as respostas imunológicas pró e anti- inflamatórias. Nas alergias alimentares, a exposição ao alérgeno inicia uma cadeia de eventos imunológicos que podem ser divididos em três grandes mecanismos: Mediadas por IgE: Durante a fase de sensibilização, o sistema imunológico produz UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 9 anticorpos IgE específicos contra proteínas presentes no alimento. Esses anticorpos se fixam em receptores de alta afinidade (FcεRI) em mastócitos e basófilos. Em exposições subsequentes, o alérgeno se liga a essas IgE fixadas, promovendo a agregação dos receptores e a degranulação celular. A liberação de mediadores como histamina, proteases, citocinas e outros fatores inflamatórios provoca reações imediatas – geralmente em minutos – que podem se manifestar como urticária, angioedema, broncoespasmo, rinite ou mesmo anafilaxia grave. Reações não mediadas por IgE: Nesse caso, a resposta imunológica não envolve anticorpos IgE, mas sim células T e outras células inflamatórias. Os sintomas, muitas vezes, surgem de forma mais tardia e podem se restringir principalmente ao trato gastrointestinal – como na proctocolite ou na enterocolite induzida por proteínas alimentares –, ou até mesmo provocar alterações na mucosa intestinal, levando a síndromes de má absorção. Reações mistas: Algumas condições, como a esofagite eosinofílica ou a síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar (FPIES), envolvem mecanismos tanto mediados por IgE quanto por respostas celulares, configurando um quadro clínico mais complexo e, por vezes, de difícil manejo. Os principais alimentos responsáveis pelas alergias alimentares variam conforme a faixa etária e a região geográfica. Em crianças, os alérgenos mais comuns incluem: Leite de vaca: Tradicionalmente o mais prevalente em bebês e crianças pequenas. Ovo: Frequentemente associado a quadros de dermatite atópica. Trigo e soja: Comumente relacionados a reações transitórias. Em adultos, os alérgenos mais frequentemente identificados são: Amendoim e outras oleaginosas: Com alto risco de reatividade sistêmica. Peixes e frutos do mar: Devido a proteínas específicas que podem cruzar com alérgenos de outros organismos (como ácaros e parasitas). Além disso, a reatividade cruzada entre diferentes alimentos e entre alimentos e aeroalérgenos (como pólen) pode complicar a identificação do agente causador. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 10 Diversos fatores podem predispor um indivíduo ao desenvolvimento de alergias alimentares: Genética: A predisposição hereditária é fundamental. Se um parente próximo (por exemplo, um dos pais) tem alguma doença alérgica, o risco de alergia alimentar aumenta (cerca de 40%), e se ambos os pais apresentam atopia, o risco pode chegar a 80%. Estudos também apontam para a participação de genes específicos, como os da filagrina e os polimorfismos no gene STAT6, embora os testes genéticos ainda não sejam aplicados na prática clínica para prever alergias. Fatores Dietéticos: A alimentação da gestante e da mãe lactante pode modular o sistema imunológico do bebê. No geral, recomenda-se que as gestantes mantenham uma dieta equilibrada e sem restrições, pois não há evidências consistentes de que a exclusão de certos alimentos (como peixe, ovo ou leite) previna a alergia alimentar. Além disso, o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e sua continuidade com alimentação complementar equilibrada são importantes para o desenvolvimento da tolerância oral, pois o leite materno contém IgA secretora e outros fatores imunorreguladores. Uso de Fórmulas e Introdução de Alimentos: A oferta precoce de fórmulas à base de leite de vaca pode induzir disbiose intestinal, aumentando o risco de alergia. Já a introdução precoce de alimentos sólidos alergênicos tem sido reavaliada, pois a exclusão prolongada pode favorecer a sensibilização. Diversificar a dieta na infância pode, na verdade, promover a tolerância aos alérgenos. Fatores Ambientais e Comportamentais: Aspectos como o parto cesariano, uso de antibióticos, higiene excessiva e exposição a fumos ou álcool durante a gestação também são importantes, pois podem interferir na colonização e na composição da microbiota intestinal, elemento crucial para o desenvolvimento imunológico. Por outro lado, ter irmãos mais velhos e contato com animais de estimação pode ser protetor, estimulando a diversidade microbiana. Outros Fatores: A deficiência de vitamina D (especialmente níveis abaixo de 15 ng/mL), baixa ingestão de ácidos graxos ômega-3 e antioxidantes, desmame precoce e obesidade (por atuar como uma condição inflamatória) também estão associados a um maior risco de alergia alimentar. As apresentações clínicas das alergias alimentares variam amplamente: Sintomas cutâneos: Urticária, angioedema e exacerbação da dermatite atópica são comuns. Reações UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 11 imediatas costumam ocorrer minutos após a exposição ao alérgeno. Sintomas respiratórios: Podem incluir rinoconjuntivite, broncoespasmo e, em casos graves, edema laríngeo, que representa risco para a via aérea. Sintomas gastrointestinais: Náuseas, vômitos, diarreia e cólicas abdominais são frequentemente observados, podendo ser tanto mediadas por IgE quanto não. Reações sistêmicas: A anafilaxia é a manifestação mais grave, caracterizada por hipotensão, choque e, se não tratada imediatamente, risco de óbito. O diagnóstico das alergias alimentares é multifacetado, envolvendo: História clínica detalhada Identificação temporal dos sintomas e relação com a ingestão do alimento suspeito é fundamental. Testes cutâneos (Prick Test): Realizados com extratos padronizados ou, quando necessário, com o método “prick-to-prick” usando alimentos in natura. São seguros e podem confirmar a sensibilização, embora tenham um valor preditivo positivo limitado. Dosagem de IgE sérica específica: Utiliza-se, por exemplo, o sistema ImmunoCAP® para quantificar os níveis de anticorpos específicos. A análise por componentes (CRD – Component Resolved Diagnosis) tem aumentado a precisão diagnóstica ao diferenciar reatividade cruzada de sensibilização genuína. Teste de Provocação Oral (TPO): Considerado o padrão-ouro, esse teste controlado (preferencialmente duplo-cego e placebo- controlado) é utilizado para confirmar a alergia, especialmente em casos de dúvidas diagnósticas, embora envolva riscos de reações graves e requeira supervisão médica especializada. O manejo das alergias alimentares baseia-se em: Evitação rigorosa do alérgeno: Medida primária para prevenir reações. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 12 Terapia farmacológica: Uso de anti-histamínicos e corticosteroides para reações leves e de adrenalina em casos de anafilaxia. Imunoterapia oral: Em alguns casos, especialmente em crianças, a imunoterapia oral tem sido empregada para induzir a tolerância, embora seu uso ainda seja criterioso. Substituição nutricional: Para alérgicos a alimentos básicos (como o leite), fórmulas especiais – parcialmente ou extensamente hidrolisadas, ou fórmulas de aminoácidos– são fundamentais para evitar deficiências nutricionais. Anafilaxia: Episódios repetidos podem ocorrer, representando risco vital. Impacto nutricional: Restrições dietéticas severas podem levar a deficiências nutricionais, comprometendo o crescimento em crianças e a saúde geral em adultos. Carga psicossocial: O estigma e a ansiedade associados à necessidade de evitar alimentos comuns podem afetar a qualidade de vida. A intolerância alimentar, ou reacção de hipersensibilidade a alimentos não-alérgica, constitui um tipo de reacção adversa em que não está implicado um mecanismo imunológico. Este tipo de reações é dose dependente e tende a provocar um efeito retardado (horas a dias), o que torna difícil identificar a causa subjacente Diferentemente das alergias, as intolerâncias alimentares não envolvem o sistema imune de forma direta. Seus mecanismos incluem: Defeitos enzimáticos: O exemplo clássico é a intolerância à lactose, decorrente da redução ou deficiência da enzima lactase após o período de amamentação. Essa diminuição, frequentemente programada geneticamente, impede a digestão adequada da lactose, levando à sua fermentação pelas bactérias intestinais, com produção de gases, ácidos e, consequentemente, sintomas como distensão, flatulência e diarreia. Além disso, intolerâncias a outros carboidratos, como frutose ou sacarose, podem ocorrer por mecanismos similares. Reações farmacológicas: Alguns alimentos contêm substâncias com atividade farmacológica – por exemplo, histamina, tiramina e outras aminas biogênicas – que, em doses elevadas, podem desencadear efeitos adversos. Nesses casos, o efeito é dose- dependente e os sintomas podem UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 13 variar conforme a quantidade ingerida. Intolerâncias alimentares indefinidas: Existem reações que não se encaixam nos mecanismos enzimáticos ou farmacológicos conhecidos, possivelmente relacionadas à ingestão de aditivos, corantes ou conservantes, cujos mecanismos ainda permanecem parcialmente elucidados. A intolerância alimentar mais comum é a intolerância à lactose. Outras condições incluem: Intolerância aos FODMAPs: Conjunto de carboidratos fermentáveis (oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis) que, em indivíduos suscetíveis, não são completamente absorvidos e provocam sintomas devido à fermentação bacteriana e efeito osmótico. FODMAPs são um grupo de carboidratos fermentáveis que podem causar sintomas digestivos em algumas pessoas, especialmente naquelas com síndrome do intestino irritável (SII) ou outras condições gastrointestinais sensíveis. A sigla FODMAP significa: Fermentáveis: Carboidratos que são fermentados por bactérias no intestino. Oligossacarídeos: Como frutanos e galacto-oligossacarídeos (GOS), encontrados em alimentos como trigo, cebola e legumes. Dissacarídeos: Como a lactose, presente no leite e derivados. Monossacarídeos: Como a frutose (em excesso em relação à glicose), encontrada em frutas como maçã e pera. And Polióis: Como sorbitol e manitol, presentes em algumas frutas e adoçantes artificiais. Intolerâncias a aditivos e aminas: Algumas pessoas reagem aos conservantes, corantes e outros aditivos presentes nos alimentos processados, bem como às aminas biogênicas naturalmente presentes em alimentos como queijos maturados e certos frutos do mar. Os fatores que aumentam o risco de desenvolver intolerâncias alimentares incluem: Predisposição genética: Muitas intolerâncias, como a à lactose, possuem um componente genético que determina a persistência ou a diminuição da atividade enzimática com o avançar da idade. Alterações na microbiota e no trânsito intestinal: Disfunções no equilíbrio da flora intestinal podem agravar os sintomas em intolerâncias UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 14 relacionadas à fermentação dos carboidratos. Associações com outras patologias: Estudos apontam uma ligação entre intolerâncias alimentares e condições como Síndrome do Cólon Irritável, Doença Inflamatória Intestinal, Doença Celíaca, e até mesmo riscos de osteoporose e carcinoma colorretal. Essa associação pode decorrer tanto do efeito direto dos alimentos mal digeridos quanto da inflamação crônica decorrente da lesão intestinal. Os sintomas das intolerâncias alimentares geralmente se instalam de forma tardia – horas ou até dias após a ingestão – e são frequentemente dose-dependentes: Gastrointestinais: Distensão abdominal, flatulência, cólicas e diarreia são os sinais mais comuns, decorrentes da fermentação dos carboidratos não absorvidos e do efeito osmótico. Sintomas sistêmicos: Em alguns casos, podem ocorrer manifestações menos específicas, como fadiga e cefaleia. O diagnóstico de intolerâncias alimentares baseia-se essencialmente em: História clínica detalhada: A identificação da relação entre a ingestão do alimento e o aparecimento dos sintomas é fundamental. Testes de exclusão alimentar: Dietas de eliminação seguidas de reintrodução podem ajudar a confirmar a sensibilidade a um determinado componente. Testes funcionais: O teste do hidrogênio expirado, por exemplo, é utilizado para diagnosticar a intolerância à lactose, mensurando a quantidade de hidrogênio produzido pela fermentação bacteriana dos carboidratos não absorvidos. Testes genéticos: Em alguns casos, especialmente na intolerância à lactose, a análise de mutações específicas pode confirmar o diagnóstico. O manejo das intolerâncias alimentares envolve: Modificação dietética: A eliminação ou redução da ingestão do componente causador é a base do tratamento. No caso da intolerância à lactose, é possível que pequenas quantidades sejam toleradas sem o desenvolvimento de sintomas, permitindo uma abordagem flexível para evitar deficiências nutricionais. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 15 Suplementação enzimática: A administração de enzimas (como a lactase) pode auxiliar na digestão dos alimentos e reduzir os sintomas. Orientação nutricional: Fundamental para evitar a exclusão total de grupos alimentares essenciais, prevenindo complicações nutricionais a longo prazo. Acompanhamento clínico: Dada a associação com outras patologias gastrointestinais, o monitoramento é necessário para identificar e tratar possíveis complicações secundárias. Deficiências nutricionais: A eliminação total de um alimento, como o leite, pode levar a deficiência de cálcio, vitamina D e outros nutrientes essenciais. Sintomas crônicos: A persistência dos sintomas pode impactar a qualidade de vida e, em alguns casos, contribuir para a exacerbação de quadros como a Síndrome do Cólon Irritável. Os alérgenos alimentares são substâncias presentes nos alimentos que podem desencadear reações alérgicas. Na maioria dos casos, esses alérgenos são glicoproteínas hidrossolúveis, que podem ter sua capacidade de causar alergia alterada pelo processamento (como o cozimento) ou pela digestão. Existem dois tipos principais de "partes" dessas proteínas (epítopos) que o sistema imunológico reconhece: • Epítopos conformacionais: São formados pela estrutura tridimensional da proteína. Se essa estrutura for modificada (por exemplo, pelo calor ou hidrólise), esses epítopos podem perder a capacidade de se ligar aos anticorpos e, assim, diminuir a alergenicidade. • Epítopos lineares: São sequências contínuas de aminoácidos que mantêm sua estrutura mesmo após processos simples, permanecendo capazes de desencadear reações. Os alimentos que causam reaçõesmais graves costumam ter proteínas termoestáveis e resistentes aos ácidos e enzimas digestivas. Um alimento pode provocar alergia de três maneiras: 1. Contato direto: Seja por ingestão, contato com a pele ou pelas vias respiratórias. 2. Reatividade cruzada prévia: A pessoa já foi sensibilizada por um alérgeno similar (por exemplo, por inalação) e, ao ingerir o alimento, ocorre uma reação. 3. Reatividade cruzada entre alérgenos inaláveis e alimentares: Por exemplo, a sensibilização pelo pólen ou látex pode levar a reações quando alimentos que compartilham estruturas semelhantes são consumidos. UNITPAC – MEDICINA (SOI III) EZEQUIEL G. RODRIGUES 16 Embora praticamente qualquer alimento possa causar alergia, cerca de 80% dos casos estão relacionados a produtos como leite de vaca, ovo, soja, trigo, amendoim, castanhas, peixes e crustáceos. Novos alérgenos, como kiwi, gergelim e, em alguns lugares, a mandioca, também têm sido identificados. 1. YONAMINE, Glauce H.; PINOTTI, Renata. Alergia alimentar: alimentação, nutrição e terapia nutricional. Barueri: Manole, 2020. E-book. p.55. ISBN 9786555761818. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.co m.br/reader/books/9786555761818/ . Acesso em: 14 fev. 2025. 2. ABBAS, Abul K.; LICHTMAN, Andrew H.; PILLAI, Shiv. Imunologia Básica - Funções e Distúrbios do Sistema Imunológico. 6. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2021. E- book. p.251. ISBN 9788595158672. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.co m.br/reader/books/9788595158672/ . Acesso em: 14 fev. 2025. 3. RODRIGUES, Marisa Loio Rainho. Intolerâncias Alimentares: Trabalho Final do 6º Ano Médico com vista à atribuição do grau de Mestre no âmbito do ciclo de estudos de Mestrado Integrado em Medicina. 2011. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2011. 4. SÓLE, D. et al. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2018 - Parte 1 – Etiopatogenia, clínica e diagnóstico. Arq Asma Alerg Imunol, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 7-38, 2018. 5. SÓLE, D. et al. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2018 - Parte 2 – Diagnóstico, tratamento e prevenção. Arq Asma Alerg Imunol, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 39-82, 2018. 6. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOLOGIA (ASBAI). Alergia Alimentar. 2023. Disponível em: https://asbai.org.br/wp- content/uploads/2023/08/ALERGIA- ALIMENTAR-ASBAI-2023.pdf. Acesso em: 14 fev. 2025.