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H747 Holman, Gareth. Psicoterapia analítica funcional descomplicada : guia prático para relações terapêuticas / Gareth Holman … [et al.] ; tradução de Alan Souza Aranha … [et al.] ; revisores técnicos Priscila Rolim de Moura … [et al.]. — Novo Hamburgo : Sinopsys Editora, 2022. 400 p. ; 23 cm. Tradução de: Functional Analytic Psychotherapy Made Simple: A Practical Guide to Therapeutic Relationships. ISBN 978-65-5571-088-5 1. Psicoterapia. 2. Psicoterapeuta e paciente. I. Aranha, Alan Souza. II. Título. CDD 616.891425 Catalogação na publicação: Vanessa Levati Biff — CRB 10/2454 DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) 2022 Revisão técnica Priscila Rolim de Moura Terapeuta, supervisora e treinadora em Psicoterapia Analítica Funcional certificada pela University of Washington. Mestra em Psicologia Clínica pela Leiden University (reconhecida pela Universidade de São Paulo). Fundadora da iMind – Psicologia e Mindfulness. Claudia Kami Bastos Oshiro Professora Doutora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Cientista afiliada ao Center for the Science of Social Connection da University of Washington. Alessandra Villas-Bôas Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo. Terapeuta e treinadora em Psicoterapia Analítica Funcional certificada pela University of Washington. Obra originalmente publicada sob o título Functional Analytic Psychotherapy Made Simple – A Practical Guide to Therapeutic Relationships Copyright © 2017 by Gareth Holman, Jonathan Kanter, Mavis Tsai and Robert Kohlenberg. New Harbinger Publications, Inc. 5674 Shattuck Avenue Oakland, CA 94609 www.newharbinger.com Supervisão editorial: Paola Araújo de Oliveira Assistente editorial: Vitória Duarte Martinez Tradução: Alan Souza Aranha, Amanda Raña Ferreira, Aline Redressa, Daniel Afonso Assaz, Elisângela Ferreira da Silva, Fernanda Moreira, Gabriela dos Santos, Gabriela de Oliveira Lima, Joana Figueiredo Vartanian, Mariana Salvadori Sartor, Renata da Conceição da Silva Pinheiro Capa: Márcio Monticelli Preparação de originais: Marquieli Oliveira Editoração: Ledur Serviços Editoriais Ltda. Todos os direitos reservados à Sinopsys Editora (51) 3066-3690 atendimento@sinopsyseditora.com.br www.sinopsyseditora.com.br Autores Gareth Holman, PhD, é psicólogo e terapeuta em Seattle. É sócio da OpenTeam, uma empresa de consultoria que ajuda as equipes de negó- cios e liderança a se comunicarem abertamente e a cooperarem de modo efetivo para alcançarem seus objetivos. Sua prática em consultório par- ticular se concentra em melhorar os relacionamentos e a comunicação. Ele treina e troca conhecimentos com terapeutas e treinadores que estão praticando psicoterapia analítica funcional (FAP, do inglês functional analytic psychotherapy) e terapias comportamentais relacionadas em todo o mundo. Jonathan Kanter, PhD, é doutor em Psicologia Clínica pela University of Washington e professor associado de pesquisa e de FAP no Departa- mento de Psicologia da University of Washington, onde dirige o Center for the Science of Social Connection. Sua pesquisa central se concentra na FAP e em outras intervenções baseadas em uma compreensão com- portamental e contextual da conexão social e das relações íntimas em áreas de importância para a saúde pública em que os relacionamentos importam, como a psicoterapia e o racismo. É considerado o líder de pesquisas sobre a FAP e é regularmente convidado para palestras, work- shops e supervisões sobre a abordagem em âmbito internacional. Mavis Tsai, PhD, é cofundadora da FAP e diretora da FAP Specialty Clinic da University of Washington. Tsai tem seguidores internacionais como instrutora, supervisora e clínica. vi Autores Robert Kohlenberg, PhD, é cofundador da FAP e professor de Psicolo- gia na University of Washington. Steven C. Hayes, PhD, escritor do Prefácio, é professor da Nevada Foundation e diretor da formação clínica no Departamento de Psicologia da University of Nevada. Autor de 41 livros e quase 600 artigos científicos, sua carreira se concentra na análise da natureza da linguagem e da cogni- ção humana e da sua aplicação à compreensão e ao alívio do sofrimento e à promoção da prosperidade. Entre outras associações, Hayes foi pre- sidente da Association for Behavioral and Cognitive Therapies (ABCT) e da Association for Contextual Behavioral Science (ACBS). Seu traba- lho recebeu vários prêmios, incluindo o Prêmio de Impacto da Ciência na Aplicação da Sociedade para o Avanço da Análise do Comportamento e o Prêmio pela Realização da Vida da ABCT. Para John Avery (avô): “Todo dia, faça alguém sorrir”. Consciência, coragem, amor e humor. Agradecimentos GARETH HOLMAN Há muitas pessoas que ajudaram a criar este livro, não apenas modelando as palavras e as ideias que estão nele, mas também me ajudando a crescer nos últimos anos. Compilando essa lista, sinto-me um homem de muita sorte: Jen Loser, por apresentar a ideia de que a criatividade é um ato de amor no momento certo. Jonathan Bricker, por oferecer segurança — quando eu estava decidindo se deveria ou não assumir este projeto — de que o livro poderia oferecer uma contribuição digna, apesar da ausência de uma forte base de evidências para a FAP. “Será lindo como um guia clínico.” Neil Kirkpatrick — o terapeuta comportamental mais eficaz (ou pelo menos opinativo) que conheço —, por organizar o pri- meiro rascunho cabeludo do Capítulo 1 de maneira profundamente útil. Yvonne Barnes-Holmes, Carmen Luciano, Niklas Törneke, Joe Oliver, John Boorman, Miles Thompson, Nic Hooper, Kelly Wilson e Louise McHugh, por me inspirarem com a clareza e a paixão do seu trabalho durante a conferência da ACBS em 2015, em Berlim. O livro se crista- lizou em grandes saltos durante aquela semana. Tien Mandell, pelo seu trabalho original e seu desafio de esclarecer e tornar a teoria da FAP útil. Michael Vurek, Tore Gustafsson e Marie Blom, pelos seus comentá- rios e apoio em alguns capítulos iniciais. Marie Blom, em particular, por encontrar a maravilhosa citação de Virginia Woolf que abre a Parte 2. Fabian Olaz, por compartilhar sua amizade e seu crescimento comigo. x Agradecimentos Estamos na montanha-russa juntos. Benjamin Schoendorff, pelas suas amáveis palavras. Joanne Steinwachs, por “não selecionar e escolher”. Rachel Collis, por uma relação de trabalho real e verdadeira. Daniel Maitland, pela honestidade, por ter uma mente aberta, pela integridade e pelo trabalho duro. Angela Cathey, por persistir e acreditar. Russell Kolts, por compaixão e visões de pranchas de paddle. Jenn e Matthieu Villatte, pela amizade e pelo que parece ser uma afiliação entre irmãos. Glenn Callaghan, por acreditar que isso pode ser feito corretamente. Chris Hall, pela amizade e por uma visão externa. Todos os membros da comunidade da FAP, por se preocuparem com esse trabalho. Meus clien- tes e supervisionados, que foram a minha educação e o meu propósito mais valiosos. Kelly Koerner, Linda Dimeff, Katie Patricelli e Tim Kelly do Evidence Based Practice Institute, por me ensinarem tanto e depois me libertarem. Catharine Meyers, Heather Garnos, Katie Parr e Jesse Burson da New Harbinger, por me darem essa oportunidade e me apoiarem, com muita paciência e alegria, ao longo do caminho que me levou a chegar até aqui. Jasmine Star e James Lainsbury, pela edição brilhante e por se- gurarem minha mão. Bob Kohlenberg e Mavis Tsai, por serem meus pais profissionais. Este livro é minha verdadeira dissertação. Jonathan Kanter, por ser meu companheiro e amigo enquanto a FAP evoluiu nesses últi- mos anos. E para minha família, eu amo vocês. Sarah e Jackson, eu amo vocês. JONATHAN KANTER Agradeço a Alessandra Villas-Bôas e Glenn Callaghan pelas importantes contribuições para o meu pensamento sobre a FAP e pelo apoio pessoal que me deram; à minha esposa, Gwynne Kohl, por todo amor e apoio; e à Zoedo sofrimento — e os desafios en- volvidos na mudança — analisando os contextos sociais em que Mark e Joan vivem. Da mesma forma, pode ser possível fornecer alívio tera- pêutico para Mark ou Joan focando-se em uma faixa mais estreita de funcionamento psicológico, como planejamento de tarefa ou aceitação da dor e outros sentimentos. No entanto, esses processos, que parecem ser intrapessoais, se desenrolam necessariamente em contextos inter- pessoais, começando com o contexto interpessoal de aceitar a ajuda de um terapeuta. O ponto é tão importante, que repetimos: o contexto social tem impacto contínuo e penetrante não apenas na satisfação com relaciona- mentos, mas também no funcionamento em geral — humor; níveis de estresse; bem-estar geral; busca por metas; comportamentos relacionados com a saúde, tais como exercícios e nutrição; sensação de segurança; e senso de self, significado e propósito. Na linguagem da CBS, as intera- ções sociais são o contexto principal em que todos esses e outros aspectos da nossa psicologia são modelados, tanto ao longo do desenvolvimento quanto no presente. Mesmo a forma como nos relacionamos com nós mesmos é modelada por contextos interpessoais, por exemplo, como nossos pais e outras pessoas se relacionaram conosco, como eles nos tra- tam agora e como nos relacionamos com eles. (Claro, há uma miríade de outras causas não sociais de dor e sofrimento, como genética, fatores cog- nitivos e todos os tipos de traumas e estressores não sociais. Não estamos sugerindo a substituição de todo o modelo biopsicossocial do sofrimento por um modelo unicamente social; em vez disso, procuramos entender a importância da peça social no quebra-cabeça e dedicar a atenção ade- quada a ela.) A relação entre contexto social e satisfação e funcionamento gerais torna interessante olhar mais de perto a metáfora da conexão, como a conexão social. Com frequência, descrevemos nossas relações mais fortes 30 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças usando termos metafóricos, como “próximo” ou “profundo”. Na ver- dade, um dos métodos mais populares para medir a proximidade dos relacionamentos pede às pessoas que descrevam, visualmente, o quanto o próprio “eu” se sobrepõe ao dos outros — o quanto do self do outro é, metaforicamente, incluído no seu próprio self (Aron, Aron, & Smollan, 1992). Essas metáforas sobre a proximidade ou a profundidade da co- nexão revelam uma verdade simples: as relações mais próximas ou mais íntimas envolvem graus mais elevados de contato psicológico. Nos rela- cionamentos íntimos, revelamos mais de nós mesmos e abrimos mais de nós mesmos para influências. Somos capazes de dar e receber influência, que — idealmente — é apoiadora e benéfica. Ao mesmo tempo, se essa influência tem sido dolorosa, ou se não fomos ensinados a aceitar e nos beneficiar da conexão com os outros, nosso sofrimento pode ser agrava- do. Uma história dolorosa de relacionamentos modela como existimos na nossa rede atual de relações sociais. Além disso, o sofrimento psicoló- gico no presente tende a impactar como nos relacionamos. O desafio do processo interpessoal da terapia é amplificado, então, quando os problemas dos clientes interferem na sua participação efetiva no processo de influência interpessoal, que se encontra no coração da psicoterapia. Por exemplo, quando Mark evita dar ao seu terapeuta o feedback de que as sessões parecem muito abstratas, pois ele tem medo de desapontar o terapeuta (que não percebe esse desalinhamento), ou quando Joan evita compartilhar a extensão de seu sofrimento com seu terapeuta, pois ela tem vergonha, o progresso da terapia provavelmente está prejudicado. Muitas vezes, parece que esse tipo de desafio é a regra, e não a exceção, quando se trabalha com clientes que têm sofrimento significativo ou de longa data. Como terapeutas, encontramos a pessoa inteira por meio da interação social da terapia — e é claro que os clientes trazem sua história social para essa interação. Psicoterapia analítica funcional descomplicada 31 APRENDIZAGEM SOCIAL Agora, do ponto de vista da CBS, vamos considerar um pouco mais de perto como as interações sociais modelam o comportamento. A perspec- tiva da CBS constitui a base da postura terapêutica na FAP, e existem alguns princípios gerais da CBS que se aplicam às nossas relações sociais. Aqui, vamos apresentar apenas alguns conceitos básicos, que serão aprofundados no próximo capítulo — novamente, não em virtude da teoria em si, mas porque a perspectiva da CBS é um elemento-chave nas ferramentas clínicas práticas da FAP. Todo comportamento é aprendido A perspectiva geral dos profissionais da CBS é que os comportamentos com os quais trabalhamos em psicoterapia são aprendidos. Em outras palavras, os comportamentos foram modelados em sua forma atual por experiências no mundo. Se você faz alguma coisa, há uma razão pela qual você o faz: você aprendeu a se comportar dessa maneira em situações anteriores. Essa perspectiva geral leva a uma postura de muita aceitação: o comportamento sempre faz sentido em seu contexto. Assim como nós não culpamos a bola de bilhar por ir para onde a física indica, nós não culpamos os clientes por como os seus comportamentos se desdobram. (Isso não significa que os comportamentos não possam ser alterados, pois somos sempre capazes de evoluir — é disso que se trata aprender. Tam- pouco significa que o comportamento é sempre ideal. Fazer sentido não é o mesmo que ser ideal.) Por exemplo, se uma cliente descreve sentir medo quando você con- ta a ela que está saindo de férias, você pode descobrir que ela tem uma história de coisas dolorosas que ocorreram quando os outros a deixaram sozinha. Os sentimentos dela refletem essa história, assim como seus es- forços para convencê-lo a ficar em contato. Da mesma forma, um cliente que relata ataques de pânico diários provavelmente aprendeu a temer 32 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças os sinais de medo em seu próprio corpo, apesar de esse medo do medo paradoxalmente levar exatamente à experiência que ele não deseja ter. Como você tem, sem dúvida, experimentado, os clientes podem achar esclarecedor obter tais perspectivas sobre como a experiência modelou seus comportamentos. A profunda influência das interações sociais no comportamento modelado As interações sociais causam um impacto tão profundo sobre nós por duas razões principais: outras pessoas constantemente fornecem expe- riências que modelam o nosso comportamento; e, como seres huma- nos, chegamos a este mundo preparados para sermos profundamente modelados por nossas experiências sociais. À medida que nos movemos pelo mundo social, o caminho em que estamos é, em grande parte, re- sultado da nossa história de interações com os outros, que modela uma ampla gama de comportamentos relacionados com o nosso bem-estar psicológico, incluindo como expressamos nossas emoções e necessida- des, encontramos segurança e proteção, tomamos decisões importantes e resolvemos problemas. O impulso do passado nos leva para a frente, e somos empurrados em uma direção ou outra pelas nossas interações com os outros. Cada um de nós também está influenciando outros no proces- so; a influência é recíproca. Com o tempo, os efeitos dessa modelagem podem ser positivos, re- sultando na capacidade de efetivamente buscar apoio dos outros, pro- cessar emoções, resolver problemas e construir identidade e significado compartilhados. Se esse for o caso, podemos ser gratos pelo fato de que os nossos esforços para nos conectarmos com os outros tenham encontrado, em geral, sucesso suficiente para que continuemos a nos aproximar e a aumentar nossas habilidades para isso. Podemos ser gratos pelo ambiente social razoavelmente acolhedor que utilizamos para processar experiên- cias dolorosas, tomar grandes decisões de vida, lidar com a mudança ou simplesmente desfrutar de um tempo quieto e conectado com alguém.Psicoterapia analítica funcional descomplicada 33 Infelizmente, a influência dos outros, ao longo do tempo, também pode ser negativa, levando a limitações na nossa capacidade de nos engajarmos so- cialmente e nos beneficiarmos das conexões sociais nos modos mencionados (processar emoções, tomar decisões, etc.). Especificamente, podemos acabar apresentando padrões de nos relacionarmos com os outros que são restritos pelo passado. A curto prazo, esses padrões podem nos ajudar a sentir algum grau de conforto ou invulnerabilidade, porém eles geralmente têm custos a longo prazo. Como você provavelmente deve ter visto com alguns de seus clientes em profundo sofrimento, esses padrões podem resultar em um ciclo vicioso, em que o sofrimento se torna uma barreira que impede a conexão com os outros, e essa falta de conexão perpetua o sofrimento. Naturalmente, essas generalizações são amplas, com o propósito de ilustrar como as interações sociais influenciam o comportamento. A re- alidade não é tão preto no branco. Para muitos de nós, pode ser mais correto dizer que temos formas de nos relacionarmos que funcionam mais ou menos bem, e que algumas das nossas maneiras têm desvanta- gens, porém podem ser melhoradas. Quando estamos sob estresse ou nos sentindo vulneráveis, essas limitações podem ser mais custosas, podendo estar diretamente associadas ao nosso sofrimento. USANDO O RELACIONAMENTO TERAPÊUTICO COMO CONTEXTO PARA MUDANÇA Compreender a relação entre conexão social e problemas psicológicos, e como a melhora da conexão social pode levar a uma melhora no bem- -estar, leva a uma conceituação muito particular da função e do signifi- cado da relação terapêutica. O relacionamento terapêutico é fonte de in- fluência para o comportamento do cliente — influência exercida no aqui e agora. Quando os clientes procuram tratamento, sobretudo quando seus problemas psicológicos envolvem dificuldades em relação a outras pessoas, o relacionamento terapêutico apresenta tanto uma oportunida- de quanto uma responsabilidade. 34 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças Imagine que Tom, mencionado no início deste capítulo, tenha vindo ver você. As respostas dele para você parecem tensas. Ele se esforça para articular os pensamentos, e não parece encontrar um caminho através das dificuldades da vida. Se você ficar ansioso em relação à incerteza dele ou muito ansioso para ajudá-lo, pode morder a mesma isca que a mãe dele mordeu: completar suas frases, oferecer soluções, correr para resol- ver problemas. Com a melhor das intenções, você se arrisca a perpetuar uma interação traiçoeira, na qual Tom recebe a mensagem de que ele é deficiente e menos capaz que os outros. Ele pode consentir e ainda assim permanecer desmoralizado. Vamos colocar de forma mais explícita: na relação terapêutica, existe o risco de que você possa recriar e reforçar os problemas interpessoais que estão causando o sofrimento do cliente. Aqui estão alguns outros exemplos: • Um cliente que tende a criticar os outros também faz isso dura- mente com o terapeuta. O terapeuta abstém-se ou responde de modo defensivo. O cliente, por sua vez, aumenta as suas críticas e, eventualmente, deixa de comparecer à terapia. • Uma cliente geralmente evita pedir o que precisa. O terapeuta não sabe como ajudá-la e faz sugestões que não são úteis. A clien- te não segue essas sugestões inúteis, de modo que o terapeuta a considera preguiçosa ou desmotivada. Como consequência, a cliente sente vergonha e é ainda menos provável que peça o que precisa, criando um ciclo que persiste por semanas. • Um cliente tem um processo interno de ruminação infinita e ten- de a conversar com outras pessoas de forma semelhante, moven- do-se por meio de ciclos entediantes e queixosos. O terapeuta sente impulsos contraditórios de ouvir atentamente e reconhe- cer a dor do cliente e interrompê-lo com impaciente frustração. Quando o terapeuta finalmente faz um esforço para se concentrar na mudança de comportamento, o cliente percebe o julgamento do terapeuta e se sente ainda mais ansioso. Psicoterapia analítica funcional descomplicada 35 Essa responsabilidade, no entanto, também é uma oportunidade. Em essência, a relação terapêutica dá ao terapeuta uma oportunidade de ser um agente para interromper padrões sociais disfuncionais e nutrir aqueles mais eficazes. Assim, você tem a oportunidade de ver claramente as questões interpessoais que os clientes trazem para a terapia e pode escolher se envolver com essas questões no âmbito terapêutico, em vez de meramente recapitular o que os clientes experimentam com os outros fora da sessão. O resultado pode ser um virtuoso ciclo em que os clientes melhoram seu relacionamento com você e, como consequência, seus re- lacionamentos com os outros, contribuindo para melhorar o bem-estar geral. Por exemplo, com Tom, você pode reconhecer que a história so- cial dele modelou sua reticência e ansiedade em agradar os outros. Você pode, então, de forma gentil e persistente, apresentar oportunidades para Tom expressar suas próprias necessidades e encontrar seu próprio cami- nho. Você pode desafiá-lo a aproveitar essas oportunidades. Vejamos algumas outras maneiras de criar um ciclo virtuoso usando os exemplos anteriores: • Você pode apontar para o cliente, de modo compassivo, que as críticas dele são dolorosas e gentilmente relacionar a sua experiên- cia à de outras pessoas que o cliente afastou. Você pode desafiá-lo a colaborar com você para encontrar outras maneiras de expressar as necessidades dele. • Você pode perceber a passividade e a vergonha da cliente e traba- lhar em estreita colaboração com ela para perceber momentos em que ela recua, sugerindo que ela, em vez disso, encontre a lingua- gem para articular o que quer na terapia e na vida. • Você pode explicar ao cliente a tensão que você sente entre o desejo de ouvir atentamente e a preocupação de que a narrativa dele não é o uso mais eficiente do tempo da sessão. Então, vocês poderiam chegar a uma solução equilibrada que atenda às neces- sidades do cliente, a fim de progredir na terapia. 36 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças Os dois pilares fundamentais da FAP — análise funcional e conexão genuína — equilibram-se mutuamente e ajudam você a conquistar a oportunidade de criar um relacionamento que é exclusivamente terapêu- tico para cada cliente. Relações terapêuticas genuínas e autênticas são essenciais Experimentar uma maneira diferente de se relacionar é um veícu- lo mais potente para modelar o comportamento relacional do que simplesmente falar sobre isso. Novamente, essa é uma afirmação so- bre como as pessoas aprendem; geralmente aprendemos mais efetiva- mente por meio da experiência, também chamada de aprendizagem experiencial, do que por meio da recepção passiva de informações. Isso não quer dizer que falar não seja importante — muito do nosso relacionamento consiste em falar —, mas sim, experimentar um de- safio e praticar um comportamento diferente podem ser um potente contexto para mudança. Vamos considerar novamente o caso de Tom. Ele somente avalia- rá plenamente suas experiências com a mãe, os efeitos de sua história e o grau em que ele é orientado a agradar outras pessoas por meio da experiência de se relacionar com você e dos desafios que você oferece. Mais importante, com você, ele pode começar a encontrar coragem para passar pelo sentimento da ansiedade que o impediu de fazer pedidos e declarar suas necessidades claramente para os outros. A aprendizagem experiencial em um relacionamento terapêutico é um tipo de trabalho que requer que nós, terapeutas, sejamos abertos e diretos sobre o que está acontecendo na relação terapêutica, o que é um nível de autenticidade ou autorrevelação que muitos terapeutas consi- deram desafiador. Essa franqueza pode se manifestar simplesmente com uma observação sobre como o cliente interage na terapia; por exemplo,“Percebo que me encontro inseguro sobre o que exatamente você deseja alcançar aqui”. Ou “Eu noto que você tende a concordar com o que eu Psicoterapia analítica funcional descomplicada 37 sugiro que nós coloquemos na agenda”. Ou “Eu noto que você parece bastante cético sobre muitas das coisas que eu digo”. A aprendizagem experiencial também pode significar revelar aspec- tos mais vulneráveis de nós mesmos ou de nossas reações aos clientes. Por exemplo, podemos expressar nossa frustração para um cliente per- sistentemente atrasado, sabendo que ele tende a evitar o contato com as consequências negativas de suas ações. Podemos pedir-lhe para entrar em contato com a nossa reação. Podemos convidá-lo a perceber que emoções ou sensações surgem para ele como resultado. Em virtude dessas interações serem complexas, diferenciadas e in- dividuais, é importante que elas sejam genuínas, o que significa que o terapeuta está operando no contexto de suas experiências e reações reais para a situação. Por quê? Em primeiro lugar, porque qualquer uma ou todas as reações exercidas podem ser relevantes para a terapia, uma vez que o relacionamento terapêutico não deve ser mais simples do que um relacionamento real. Em segundo lugar, porque os seres humanos estão equipados com uma capacidade refinada para detectar falta de genuini- dade — quando os outros estão escondendo respostas ou reações. Quan- do a falta de genuinidade é detectada, ela não é um fato neutro. Embora possa não desencadear uma sensação primordial de ameaça, pelo menos desencadeará precaução, o que pode minar a qualidade da relação tera- pêutica. Essa reação é especialmente provável para clientes que foram prejudicados ou traídos por outros. A análise funcional nos mantém no caminho Como os relacionamentos genuínos e autênticos são complexos, utili- zamos a análise funcional para permanecer no caminho em relação aos objetivos terapêuticos. A análise funcional é um processo de avaliação em que utilizamos princípios da aprendizagem para entender o que um determinado comportamento representa para o cliente no contexto da sua própria história e situação de vida. Para esse fim, consideramos as questões a seguir: 38 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças • Como esse comportamento foi modelado no passado? • Como isso funcionou no passado? • Como isso funciona agora? • Quais são os custos associados a ele? Dessa forma, podemos entender quais comportamentos represen- tam problemas na vida do cliente e quais — apesar de parecerem desajei- tados ou imperfeitos — na verdade representam passos importantes para o crescimento. (Uma terceira classe de comportamentos inclui aqueles que podem chamar a nossa atenção — por exemplo, um cliente que é notável em mencionar pessoas famosas ou importantes para impressio- nar os outros —, porém não representam qualquer problema clinica- mente significativo. É importante discriminar esses comportamentos dos das outras duas classes, para que não tentemos “tratar” o que não precisa ser tratado.) Por sua vez, a análise funcional ajuda a garantir que respondamos de modo estratégico e terapêutico aos clientes, no momento, com base na nossa compreensão de seus problemas e do crescimento ou da mudança de comportamento que eles necessitam. Por exemplo, com Tom, pode- mos observar que algumas afirmações desajeitadas de suas necessidades são, na verdade, um passo importante em direção à assertividade. Você pode observar que há uma potencial contradição nesse proces- so: e se a análise funcional determinar que devemos ver um determinado comportamento como crescimento (p. ex., Tom deve ser mais assertivo), e ainda assim genuinamente acharmos aquele comportamento desagra- dável (p. ex., consideramos Tom exigente de uma forma que nos faz re- lutante em apoiar)? Devemos suprimir nossa reação pessoal para apoiar o crescimento de Tom? Felizmente, essa contradição raramente surge na realidade. Em pri- meiro lugar, quando paramos para realmente entender um cliente, seja por meio de uma análise funcional ou por outros meios, nossas respostas ao cliente tendem a se alinhar naturalmente com a análise funcional: sentimos satisfação e felicidade com os passos do cliente em direção ao Psicoterapia analítica funcional descomplicada 39 crescimento, pois entendemos o significado e a luta por trás desses pas- sos. Da mesma forma, sentimos algum nível de frustração genuína ou decepção (equilibrada, claro, com compaixão e compreensão) quando vemos clientes presos em padrões autodestrutivos. Em segundo lugar, se você não pode responder natural e positivamente ao crescimento do cliente, então esse comportamento provavelmente é algo importante para se abordar. Por exemplo, você pode dizer a Tom: “Algo me ocorreu. Você sabe que eu apoio que você seja mais assertivo. E eu noto que, de alguma maneira, você está passando do ponto de ser franco, talvez duro. Você também notou isso?”. Como os relacionamentos autênticos envolvem duas pessoas, no processo da FAP, nossas próprias reações e percepções são tão im- portantes quanto as do cliente. Por conseguinte, também visamos continuamente a análise funcional a nós mesmos, refinando nosso autoconhecimento como terapeutas, nos perguntando como estamos contribuindo para o momento terapêutico e garantindo que a nossa abordagem atenda aos clientes, e não aos nossos próprios objetivos. O pressuposto é de que os terapeutas também são humanos, por- tanto são suscetíveis à influência dos clientes, assim como eles são suscetíveis à nossa. Quando nos relacionamos com clientes em seu sofrimento, sobretudo se as coisas estão acontecendo rapidamente ou com uma grande quantidade de emoção, complexidade ou luta, po- demos perder o equilíbrio. Mais uma vez, a análise funcional ajuda a nos manter na linha. No próximo capítulo, apresentaremos os princípios essenciais e prá- ticos da perspectiva da CBS que está no cerne da FAP e de tratamentos similares (mais notavelmente, da ACT). RESUMO • Uma conexão social pobre representa tanto risco de mortalidade quanto o tabagismo. 40 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças • Do ponto de vista da CBS, as relações sociais são um contexto- -chave para modelar o funcionamento psicológico — humor, motivação, emoção e realização — e, portanto, o bem-estar ao longo da vida. • A psicoterapia envolve processos de conexão social e influência por meio da relação terapêutica, que pode modelar mudanças no funcionamento psicológico e social do cliente. • A FAP convida você a equilibrar uma forma genuína e autêntica de se relacionar com o cliente com uma compreensão baseada na análise funcional — uma maneira de avaliar a função do que está acontecendo na relação terapêutica para cada cliente de modo individual. Ao fazer isso, você pode garantir que a sua resposta ao cliente é terapêutica e não perpetua os problemas do cliente nos relacionamentos.Kanter, minha inspiração para ver alegria e beleza em todas as coisas, grandes e pequenas. Agradecimentos xi MAVIS TSAI Agradeço aos meus coinstrutores da FAP na University of Washington ao longo dos anos — Mary Plummer Loudon, Gareth Holman, Andrew Fleming, Julia Hitch, Hilary Mead e Daniel Maitland — por me aju- darem a criar um profundo ambiente de aprendizado, em que as feridas de todos são validadas, e nossos talentos, nutridos. Laura Brown, Julie Gottman, Barbara Johnstone, Kelly Koerner, Linda Luster, Joanne Stein- wachs e Jennifer Waltz são irmãs de alma. Sou incrivelmente grata aos supervisionados e estudantes que moldaram quem eu sou — muitos de vocês se tornaram poderosos companheiros de FAP que inspiram minha mente e coração. E para Bob: você é o amor e a luz da minha vida, e isso nunca vai mudar. ROBERT KOHLENBERG Pensando nos relacionamentos de tempos atrás que plantaram as semen- tes e definiram as condições que, eventualmente, levaram à FAP: Loren Acker, Ivar Lovaas, Steven C. Hayes e Barbara Kohlenberg. Vocês, que conhecem a história da FAP, também sabem como o sagrado relaciona- mento entre Mavis e eu estava e está em seu centro. Também quero agra- decer pelas contribuições dos meus coautores, Jonathan e, claro, Mavis novamente, e sobretudo de Gareth, que foi a força motriz inspiradora e o principal contribuinte para este livro. Apresentação à edição brasileira A presentar este livro à comunidade brasileira de analistas do com- portamento é, considerando alguns aspectos especiais, uma opor- tunidade honrosa e de grande responsabilidade. O primeiro ponto se refere ao que a FAP representa no desenvolvimento da análise clínica comportamental. Não seria demais afirmar que, ao ser proposta por Tsai e Kohlenberg (1987), a FAP provocou certa revolução na análise comportamental da relação terapêutica. A explicitação dos processos presentes na interação terapeuta-cliente, bem como suas decorrências, ofereceu aos profissionais melhor compreensão do processo e os ajudou a construir instrumentos para atuar nesse campo de forma mais segura e eficiente. Além disso, inúmeras pesquisas sobre aspectos específicos da relação terapêutica foram desenvolvidas desde então, cujos resultados, por sua vez, impulsionaram a busca de conhecimento científico sobre outros processos e propostas terapêuticas. Apenas por esses motivos, escrever sobre a FAP já seria um privilégio. Contudo, se a isso se soma a oportunidade de apresentar uma obra cujos autores reúnem o que há de mais especial e essencial sobre o tema, em um texto acessível e de aplicabilidade direta, de estreita fi- delidade com o modelo terapêutico proposto e suas bases conceituais e filosóficas, a tarefa se torna ainda mais provocativa! É disso que se trata este livro, escrito por Holman, Kanter, Tsai e Kohlenberg com a maestria que lhes é peculiar, sendo indispensável para os clínicos com- portamentais. Há um terceiro aspecto que transformou a oportunidade xiv Apresentação à edição brasileira de estar aqui em algo ainda mais significativo e me fez reescrever esta Apresentação. Ocorre que, quando da finalização deste texto, Robert Kohlenberg, idealizador da FAP (juntamente com Mavis Tsai) e um dos autores deste livro, nos deixou, em 28 de novembro de 2021, par- tindo com a dignidade com a qual viveu em direção ao exercício pleno de seu justo direito à eternidade. Esse fato foi extremamente impactante para mim e também, visi- velmente, para os analistas clínicos comportamentais em todo o mundo. Provocou em mim uma série de emoções intensas e me levou a uma via- gem no tempo: vejo-me, nos anos 1970/1980, em meio a um grupo de alunos e outros terapeutas iniciantes, hipnotizados, assistindo à filmagem de uma sessão terapêutica em grupo conduzida por Carl Rogers (1961), tentando avidamente entender o que ali acontecia. Ambiciosamente al- mejávamos identificar e descrever os processos comportamentais presen- tes nas interações que estabelecia com o grupo, inconformados sauda- velmente com o que nos era dito, sobre não haver ali qualquer tipo de “controle comportamental”, como se fosse possível interagir com alguém sem afetá-lo e ao seu responder, portanto, sem exercer algum controle. Essa experiência gerou acaloradas discussões entre nós, em vários mo- mentos, nas quais nos perguntávamos sobre como poderíamos analisar o que de especial ele fazia, uma vez que conseguia ter um impacto clínico importante que também desejávamos. As ferramentas mais especiais que tínhamos à época, para obter respostas, não eram muito mais do que o que havia sido escrito por Skinner (1953) sobre a psicoterapia e a relação terapêutica. Episódio à parte, seguíamos atuando como clínicos, anco- rados na análise do comportamento, correndo os riscos destinados aos exploradores e, bem ou mal (ou os dois), íamos tendo nossos comporta- mentos modelados pelas contingências. Muitos analistas debruçaram-se sobre vários aspectos relacionados ao tema, mas, de fato, foi somente com a chegada de Kohlenberg, com seu olhar privilegiado e preciso fren- te às relações terapêuticas que eram estabelecidas nas intervenções reali- zadas por Mavis, comprometido com a análise do comportamento assim como a necessidade de se estabelecerem conexões humanas significativas, Apresentação à edição brasileira xv que tivemos respostas mais consistentes e específicas para nossos questio- namentos. Como se pode observar, o tempo corrido desde as primeiras análises de Skinner (1953) sobre a psicoterapia e a relação terapêutica e a propo- sição da FAP (Tsai & Kohlenberg, 1987) é de pouco mais de 30 anos. Não é muito, visto o expressivo salto que representou na análise com- portamental da relação terapêutica. A partir de então, tínhamos possibi- lidade e diretrizes para planejar nossa relação com o cliente, tornando-a uma instância de mudança terapêutica direta e de forte impacto, afas- tando-nos aos poucos dos processos de ensaio e erro. A FAP nos indicou o caminho para que pudéssemos tecer a “trama terapêutica” com mais competência. Em paralelo, fortaleceu a constatação da impossibilidade da neutralidade terapêutica e, ao ressaltar a humanidade comum entre clientes e terapeutas, demonstrou como poderiam colocar suas inescapá- veis imperfeições a serviço da terapia, tornando, assim, os clínicos ainda mais responsáveis por suas ações. Desde então, a FAP, intervenção clínica que tem como principal “mecanismo” a modelagem de comportamentos clinicamente relevantes do cliente, em sua interação com o terapeuta, no aqui e agora da sessão, tem sido cada vez mais especificada e enriquecida por meio do traba- lho de muitos pesquisadores e terapeutas, ou terapeutas-pesquisadores, influenciados pelos criadores da abordagem ou dela mesma. Kohlenberg, portanto, não poderia deixar de ser destacado e valorizado na Apresen- tação à edição brasileira de Psicoterapia analítica funcional descomplicada: guia prático para relações terapêuticas, uma obra fortemente conectada com a essência da FAP. Esta obra apresenta um texto conceitualmente preciso, com base no conhecimento científico produzido e que é enriquecido, generosamente, com a revelação de seus autores, de suas experiências clínicas, o que a tor- na, além de um recurso muito bem embasado e de aplicabilidade direta, bastante familiar aos terapeutas. Pesquisadores, professores e supervisores certamente também se beneficiarão de sua leitura, pois os adjetivos “simples e descomplicado” xvi Apresentação à edição brasileira jamais significam ou esbarram na superficialidade, na “tecnocracia” ou subvertem princípios essenciais. Pelo contrário. Este livro fortalece a im- portância da análise funcional no seguimento flexível, pelos terapeutas, das regras propostas e na implementação dos procedimentos e estratégias sugeridas. Psicoterapia analítica funcional descomplicada: guia prático para rela- ções terapêuticas, é, de fato, “praticável”. Encaminha os terapeutas passo apasso na realização da FAP, do começo ao fim, ao agregar à já mencio- nada base conceitual sólida descrições objetivas dos processos compor- tamentais relevantes, vinhetas clínicas que os exemplificam, perguntas reflexivas e exercícios factíveis para que os profissionais desenvolvam as habilidades específicas necessárias, sem esquecer-se de indicar material suplementar e grupos de apoio. Esta obra é um presente que recebemos de seus autores enquanto nos despedimos de Kohlenberg, a quem mais uma vez expresso gratidão e ad- miração, tanto pelo que produziu quanto pela forma como viveu, por sua sabedoria ao decidir sobre o momento e a forma como gostaria de partir e, ainda, por sua coragem e autocuidado ao tomar sua decisão final. Certa- mente ele deixa sua presença eternizada nos clínicos de sua geração, naque- les que se seguiram a ele e certamente impactará aqueles que ainda virão. Ao leitor, estou certa de que sua interação com este livro o ajudará a praticar a FAP de maneira descomplicada, mas competente e consistente com suas bases teóricas, produzindo assim relações profundas e positiva- mente transformadoras, funcionalmente terapêuticas, que ajudarão seus clientes a desenvolverem conexões humanas significativas e a construir uma vida valorosa. Fátima Conte Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Analista do Comportamento com Acreditação Honorária e Vitalícia pela Associação Brasileira de Ciências do Comportamento (ABPMC). Professora Associada aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sócia-fundadora do Instituto Continuum, onde coordena o curso on-line de Formação e Especialização em Terapias Contextuais. Apresentação à edição brasileira xvii REFERÊNCIAS Rogers, C. R. (1961). On becoming a person. Houghton Mifflin. Skinner, F. B. (1953). Science and human behavior. Macmillan. Tsai, M. & Kohlenberg, R. (1987). Functional analytic psychotherapy. In N. S. Jacobson (Ed). Psychotherapists in clinical practice: cognitive and behavioral perspectives (pp. 388-443). Guilford Press. Prefácio Tratando as pessoas com consciência, coragem e amor O s seres humanos evoluíram em pequenos grupos e locais. Somos seres sociais, e a importância de outras pessoas é tão básica para a nossa psicologia quanto a respiração é para a nossa fisiologia. Como questão científica, sabemos que os outros são fundamen- tais para o nosso funcionamento, mas também podemos sentir o quão importante isso é no nosso dia a dia. Se você olhar para o que é mais importante e o que é mais doloroso para você, é provável que pessoas estejam envolvidas em ambas as reações. Podemos ser atormentados por rejeição, solidão, vergonha ou problemas de relacionamento: mas todos esses exemplos demonstram a importância de outras pessoas como ponto focal de nossa dor psicológica. Podemos desejar alcançar, criar, contribuir ou amar, mas esses exemplos também precisam implicitamente ser com- partilhados com outras pessoas. A maioria dos problemas clínicos se reflete em nossos relacionamen- tos com os outros. Isso é etiologicamente verdadeiro: experiências como falta de amparo, abandono interpessoal, negligência e trauma estão en- tre as experiências mais tóxicas conhecidas; na direção oposta, apoio so- cial, intimidade e carinho estão entre as mais revigorantes. É de admirar, então, que a qualidade do relacionamento terapêutico esteja relacionada xx Prefácio com os resultados da maioria das formas de terapia, incluindo aquelas que são baseadas em evidências? Se os processos sociais são centrais para o desenvolvimento de pro- blemas humanos, devemos esperar que a psicopatologia apareça na re- lação entre clientes e terapeutas; e em muitos casos, se não na maioria, nós vemos isso. Isso será um problema se não for tratado corretamente, mas também pode ser uma oportunidade se for detectado, uma vez que o terapeuta será capaz de trabalhar diretamente com o comportamento- -problema alvo no consultório. Para fazer isso, no entanto, você precisa de um conjunto claro de princípios que o orientem. Você precisa olhar para a função dos even- tos sociais, e não apenas para a sua forma. A maioria dos clientes tem relações sociais importantes fora da psicoterapia, porém, muitas vezes, elas não são curativas, pois as pessoas acidentalmente reforçam compor- tamentos errados ou apoiam regras inúteis. Se apenas estar na presença de outros fosse o suficiente, então as pessoas geralmente não procura- riam ajuda profissional. As reações automáticas que temos com os outros pode não ser o que eles precisam terapeuticamente. O terapeuta precisa ser genuíno, mas também precisa ser cuidadoso e estratégico. Esse é um equilíbrio complicado que precisa ser baseado em princípios. O que a FAP oferece é um pequeno conjunto de diretrizes claras que ajudam os terapeutas a manterem os seus olhos em direção às caracterís- ticas da relação terapêutica que mais predizem resultados. A FAP pode ser utilizada como tratamento em muitos casos, mas também pode ser utilizada para apoiar a implantação e o aumento de outros métodos de tratamento, sobretudo aqueles delineados das mesmas raízes comporta- mentais. Este livro posiciona a FAP como parte da ciência comportamen- tal contextual (CBS, do inglês contextual behavioral science). Ao fazê-lo, convida o leitor a harmonizar os princípios da FAP com a análise com- portamental moderna, incluindo a teoria das molduras relacionais (RFT, do inglês relational frame theory). Esse é um passo interessante e impor- tante que dará ao clínico da FAP um poderoso conjunto adicional de Prefácio xxi conceitos a serem aplicados. Além disso, isso dá um semblante novo ao uso do reforço social contingente como parte da agenda terapêutica. Este livro também abarca vigorosamente o modelo de “consciência, coragem e amor”, que conecta mais a análise funcional abstrata e os com- portamentos clinicamente relevantes (CCRs) para domínios definidos por conjuntos de análises funcionais. Nem todos aprovarão essa etapa, mas sei que os clínicos a aprovarão, pois ela torna a FAP imediatamente mais vital e focada. E isso, por sua vez, torna a FAP mais simples: mais simples de entender, mais simples de ensinar e mais simples de implantar. A última parte desta obra lança uma luz clara sobre áreas de cresci- mento e dificuldade, mostrando como usar esse modelo de forma prática e criativa. Algumas questões abordadas — tais como terminar a terapia e explorar o que foi aprendido — são, muitas vezes, perdidas em outros livros. Essas seções sábias, por si só, já valem o preço da admissão. Espero ver novos caminhos à frente, à medida que pesquisadores e clínicos descompactam ainda mais esse modelo. Minha sugestão para você, ao ler este livro, é explorar esse modelo com a consciência de olhar a oportunidade, a coragem de explorar completamente o novo território e o amor da humanidade para adquirir novas habilidades com humil- dade — para trazer tudo isso para a tarefa. Se fizer isso, você mudará durante a jornada, assim como a vida daqueles a quem você serve. Steven C. Hayes Professor fundador e diretor de treinamento clínico University of Nevada Sumário Apresentação à edição brasileira ................................................ xiii Fátima Conte Prefácio: Tratando as pessoas com consciência, coragem e amor ... xix Steven C. Hayes Introdução ................................................................................... 1 PARTE 1: AS IDEIAS ............................................................. 17 1 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças................................................................................... 19 2 Tenha uma perspectiva contextual do comportamento ............... 41 3 Esteja fundamentado na análise do comportamento .................. 61 4 Postura de consciência, coragem e amor ..................................... 99 5 Processo de modelagem com as cinco regrasda psicoterapia analítica funcional .................................................................... 119 xxiv Sumário PARTE 2: A PRÁTICA ........................................................ 139 6 Conheça a si mesmo ................................................................ 143 7 Construa um alicerce no início da terapia ................................ 167 8 Chamada para o momento presente ......................................... 201 9 Responda ao crescimento ......................................................... 247 10 Equilibre estrutura e fluxo: a interação lógica ........................... 271 11 Compreensão em movimento — conceituação de caso com a psicoterapia analítica funcional .............................................. 293 12 Solidificar a mudança com tarefas de casa e exercícios experienciais ............................................................................ 323 13 Marcar o fim da terapia ............................................................ 341 Conclusão ................................................................................ 351 Referências ............................................................................... 359 Leituras adicionais ................................................................... 365 Indíce ...................................................................................... 367 Introdução Nem o amor sem conhecimento nem o conhecimento sem amor podem produzir uma vida boa. Bertrand Russell 2 Introdução Você chega ao seu consultório e se traz consigo. Mas o que mais você traz? Talvez você traga uma má noite de sono ou o estresse da segun- da-feira de manhã. Você pode trazer um bom café e o compromisso de fazer o bem. Você está em um momento de altos ou baixos na sua carreira? Você está aprendendo um novo método ou consultando co- legas fantásticos? Ou você está se perguntando o que fará em seguida, pois muitas semanas se tornaram “blé” ultimamente? Você está lutan- do para gostar de algumas das pessoas que você verá esta semana? Que deleite você trouxe consigo? Quais medos? Quais esperan- ças? Quais vulnerabilidades? Que vergonha você trouxe consigo? Você ainda está um pouco dolorido de uma sessão lancinante na sexta-feira? Você está se sentin- do desconectado de um amigo devido a algo que aconteceu no fim de semana? Você está com medo de alguma coisa? Ao iniciar o dia, com que firmeza você se apega ao que represen- ta como terapeuta? Como você está resistindo? Você está realmente olhando para as suas fraquezas como terapeuta? Você está tentando demais? O que você está evitando enfrentar em sua vida agora? Onde você está vulnerável? E como todas as variáveis citadas afetam a maneira como você atua como terapeuta hoje? Como elas afetarão seus clientes? Seu cliente — talvez ele seja um cliente novo, digamos que seu nome é Tom — também traz a si mesmo e sua história para a sessão. Tom acorda ansioso para a consulta com você. As mãos dele tremem enquanto ele serve o café. Ele imagina que você estará sentado em frente a ele, silenciosa- mente profissional e cheio de avaliação. Ele se imagina se contorcen- do. Ele ensaia o que vai dizer para poder soar pelo menos semicoe- rente. Ele sente o pânico subindo em seu peito. Ele se lembra de uma série de médicos sem nome questionan- do-o. Embora bem-intencionados, todos eles o colocaram no limite. E então você e Tom se encontram. O que acontece quando os seus históricos, vulnerabilidades e perspectivas interagem? O que ele Psicoterapia analítica funcional descomplicada 3 vai tirar da interação? Como você vai encorajá-lo? Como você vai su- tilmente desencorajá-lo? Envergonhá-lo? Como você vai convidá-lo a se abrir? Por sua vez, como ele vai envergonhar você? Desapontá-lo? Como você servirá a ele? Ou, se agir para preservar seu senso de especialização e competência, você vai sutilmente ou não tão sutil- mente esquecer de Tom e negligenciar os principais problemas que precisam de atenção? Cada cliente não é apenas um caso, e você não é apenas um te- rapeuta. Você e seu cliente são duas pessoas se engajando em uma dança de conexão (esperançosamente curativa) com uma fundação que envolve centenas de milhares de anos de evolução humana. Isso é muito para uma segunda-feira de manhã! 4 Introdução A psicoterapia analítica funcional (FAP, do inglês functional analytic psychotherapy), assunto desta obra, é sobre ser consciente, corajoso e habilidoso no momento em que interage com cada cliente. É sobre estar atento à sua própria história, com consciência e envolvimento com um cliente que está à frente da sua própria história. À medida que a interação se desdobra, a FAP é sobre ver juntos, com coragem e compaixão, como o momento presente na terapia pode conter o próprio problema para o qual seu cliente está buscando ajuda, aproveitando a oportunidade para crescer e mudar aqui e agora de uma maneira que é imediata, experien- cial e relacional. Quando isso ocorre, a interação não é somente compas- siva e conectada, mas também cria mudanças. Temos dois objetivos principais com este livro: • Em primeiro lugar, por meio das lentes da ciência comporta- mental contextual (CBS, do inglês contextual behavioral science), queremos ajudá-lo a reconhecer que o que acontece em cada mo- mento em uma sessão de terapia é um comportamento que faz sentido no contexto da história de aprendizagem de cada pessoa, e esse comportamento está se desdobrando agora em resposta ao presente. A análise funcional é o processo de avaliação no coração dessa maneira de ver cada momento em sessão. É um modo de se relacionar com o comportamento que é empático e compassi- vo, bem como principista e preciso. Na FAP, aplicamos a análise funcional para entender os problemas do cliente — em particu- lar, como este momento na terapia pode evocar estes problemas. A análise funcional é a forma como “miramos” os processos de mudança da FAP. É também como nós entendemos o que este momento significa para esta pessoa única. • Em segundo lugar, queremos mostrar como tecer a análise fun- cional com honestidade, coragem, compaixão e envolvimento pessoal no processo terapêutico. Uma relação terapêutica autên- tica serve à análise funcional, pois esse é o meio natural em que os seres humanos se tornam “conhecidos” um pelo outro — por Psicoterapia analítica funcional descomplicada 5 meio da dança vulnerável de autorrevelação e respostas, encon- trando uma linguagem e uma perspectiva comuns. A interseção entre análise funcional e relacionamento define a FAP. Por que você deveria se importar? Em primeiro lugar, é amplamente aceito que a qualidade da relação terapêutica é importante para os resultados na terapia (Horvath, Del Re, Flückiger, & Symonds, 2011). A FAP é baseada em pesquisa e análise so- bre o que cria relacionamentos fortes e conectados, oferecendo diretrizes concretas para criar bons relacionamentos terapêuticos. Em segundo lugar, a FAP fornece uma estrutura para se pensar sobre o processo terapêutico em um ambiente altamente individualizado, com um caminho preciso. A FAP mantém-se firme no crescente movimento da CBS (Hayes, Barnes-Holmes, & Wilson, 2012; Hayes, Levin, Plumb- -Vilardaga, Villatte, & Pistorello, 2013) e da terapia comportamental em geral. Ela se baseia na prática central da terapia comportamental, que é definir comportamentos específicos e, em seguida, direcioná-los por meio de processos de mudança específicos em terapia. Por sua vez, o terapeuta responde aos comportamentos não com base no que eles pa- recem, mas no que eles realmente significam para o cliente (isto é, como eles funcionam) no contexto de sua vida em desdobramento. Dizer que a FAP é uma terapia comportamental significa algo bem diferente do que significava há várias décadas. A mais nova onda de te- rapias comportamentais (e terapias de outros tipos) diminuiu a lacuna entre a distância de princípio do terapeuta comportamentale a sensível sintonização do psicólogo humanista. Como terapeutas, não precisamos mais escolher entre uma estrutura de avaliação baseada em evidências e ser totalmente humano e sensível em nossas interações com os clientes. A FAP e seus companheiros de viagem — terapia de aceitação e com- promisso (ACT, do inglês acceptance and commitment therapy; Hayes, Strosahl, & Wilson, 1999), terapia focada na compaixão (CFT, do in- glês compassion-focused therapy; Gilbert, 2010) e terapia comportamental dialética (DBT, do inglês dialectical behavior therapy; Linehan, 1993), 6 Introdução em particular — integram esses pontos de vista. Se você tem experiência em terapias mais experienciais, a FAP pode ajudá-lo a melhorar a preci- são de suas avaliações. Se você tem histórico em terapias comportamen- tais, a FAP pode ajudá-lo a melhorar o fluxo experiencial e o imediatismo do seu trabalho. De muitas maneiras, a terapia é um processo: uma série de eventos que se desenrolam entre duas pessoas que influenciam uma à outra de maneira extremamente sutil. Uma respiração, um suspiro ou um desvio de olhar podem comunicar mais do que um longo fluxo de palavras, sobretudo quando terapeutas ou clientes estão mais vulneráveis ou emo- tivos. E porque esse processo de influência mútua é muitas vezes sutil, rápido, automático e efêmero — ou tão estendido ao longo do tempo que é difícil conectar os pontos —, é fácil perder o que realmente está acontecendo no momento. É fácil perder a terapia que acontece no aqui e agora e desdobra-se na sequência contínua dos momentos presentes. É fácil ignorar que a batalha que está acontecendo no aqui e agora, em sessão, é geralmente o que acontece em outras situações da vida de um cliente. Também é fácil ignorar os pequenos e hesitantes momentos de novas possibilidades em que mudanças profundas possam se enraizar. A FAP é sobre desacelerar, sintonizar esse processo e perceber que a interação é sobre você e seu cliente. A FAP trata de examinar o pessoal e o interpessoal por meio dos princípios gerais de aprendizagem, reconhe- cendo que nenhum conjunto de princípios sobrevive inteiramente ao contato com a vida real. A postura da FAP é que fazer a devida diligência no processo terapêutico também requer conhecer os nossos pontos ce- gos, passando pela nossa vulnerabilidade, assumindo riscos e expressan- do o que sentimos — não de modo imprudente, mas sim estratégico. No decorrer de uma sessão, o terapeuta da FAP pode traçar uma análise funcional em um quadro e, então, evocar a expressão honesta de raiva do cliente, relacionada com um comentário que ele fez durante a análise funcional. Com um cliente diferente, o terapeuta da FAP pode passar 40 minutos trabalhando em conjunto para que ele possa expressar pensamentos e sentimentos vulneráveis no momento, para depois passar Psicoterapia analítica funcional descomplicada 7 os 10 últimos minutos da sessão definindo uma tarefa comportamental concreta. Na FAP, as ferramentas de terapia comportamental e o processo interpessoal deliberadamente se misturam. Com ênfase em um relacionamento terapêutico intenso, engajado e individualizado, a FAP reflete o consenso científico em curso e a evolução de que as relações sociais são fundamentais para modelar o bem-estar humano e a sua realização. A psicoterapia é simplesmente uma expressão do poder da conexão social. Não é devido à mágica, a uma coincidência ou a um truque de psicologia científica que um re- lacionamento (que é o que a terapia é) possa ser incrivelmente terapêu- tico. A evolução humana procedeu de tal maneira que relacionamentos íntimos podem nos influenciar de modo significativo. Como resultado, nós, seres humanos, somos instrumentos extremamente sensíveis de mudança para o outro. Em virtude do foco da FAP no engajamento genuíno no relaciona- mento terapêutico e porque a terapia a partir de uma distância interpes- soal é uma violação desse princípio, é justo dizer que a FAP exige muito dos terapeutas. Ela requer que você faça o seu trabalho para que possa estar consciente dos seus erros com os clientes, ser vulnerável, assumir riscos, sentir emoções, e assim por diante. Estamos na mesma situação que os nossos clientes: lutamos como seres humanos. Essa postura de favorecer o engajamento genuíno não é acidental ou arbitrária; não é uma questão de preferência pessoal. Faz parte de um crescente reconhecimento mundial — núcleo da CBS — que o bem-estar humano é nutrido ou prejudicado pelos contextos nos quais vivemos, os quais são esmagadoramente sobre outras pessoas. Como mostra o cientista prevencionista e analista do comportamento Tony Biglan, resumindo mais de cinco décadas de ciência comportamental nas áreas de parentalidade, educação, saúde pública e ciência clínica, “ambientes acolhedores” apoiam profundamente a saúde humana e o bem-estar (2015). Existem várias maneiras diferentes de focar a FAP (Bonow, Mara- gakis, & Follette, 2012). Contudo, devido ao importante lugar da FAP 8 Introdução na comunidade da CBS e da crescente base de evidências que respal- dam as intervenções dessa abordagem (Hooper & Larsson, 2015), este livro baseia-se fortemente na fundação dos princípios da CBS relativos aos contextos em que os seres humanos florescem. Assim como a CBS, a FAP é sobre criar um contexto compassivo para a mudança — um que ancora ação flexível e comprometida — na relação terapêutica. EVIDÊNCIAS PARA A FAP Este livro é um guia clínico baseado em princípios comportamentais, em vez de um manual de reivindicações empíricas diretas. A razão para isso é simples: a base de evidências para aplicações específicas de princí- pios da FAP — o que é necessário para fazer alegações empiricamente fundamentadas — tem ainda uma distância para percorrer. Dito isso, uma das prioridades da FAP desde o seu início tem sido construir uma abordagem de tratamento que seja altamente flexível e experiencial, porém fundamentada em princípios rigorosos da ciência comportamental. A FAP baseia-se na CBS (Hayes et al., 2012) e procura aplicar os princípios básicos da CBS à psicoterapia, com foco particular na natureza e nos desafios de criar, manter e melhorar as relações tera- pêuticas. Embora a pesquisa da FAP tenha algum caminho para cobrir, nes- ta seção, forneceremos um panorama da pesquisa que foi realizada até agora. Em termos diagnósticos, a FAP é uma abordagem transdiagnós- tica: enfatiza processos de relacionamento terapêutico que são impor- tantes para o tratamento em todos os diagnósticos. A pesquisa inicial sobre a FAP seguiu essa postura ampla com uma série de estudos de caso, descrições da FAP e pequenos estudos-piloto com clientes que experi- mentavam uma gama diversificada de problemas, incluindo depressão, transtorno da personalidade histriônica, transtorno da personalidade bor- derline, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de conduta, abuso de substâncias, problemas nas relações interpessoais, abuso sexual, dor, ansiedade acadêmica, agorafobia, exibicionismo, anorgasmia, transtorno Psicoterapia analítica funcional descomplicada 9 da personalidade não específica e transtorno de ansiedade inespecífica (revisado em Mangabeira, Kanter, & Del Prette, 2012). Uma série de estudos de caso individuais mais controlados sobre a FAP também foram publicados (Esparza Lizarazo, Muñoz-Martínez, Santos, & Kanter, 2015; Landes, Kanter, Weeks, & Busch, 2013; Kanter et al., 2006). Um total de nove clientes, com uma gama de transtornos, como depressão, ansiedade e transtornos da personalidade, foram en- volvidos nas investigações. Esses estudos são únicos e particularmente relevantes para este livro, uma vez que eles demonstram a abordagem individualizada da análise funcional que está no coração da FAP, bem como grandes mudanças clinicamente relevantes no âmbito do cliente individual, em vez de uma média de grupo. Outras pesquisas substanciais da FAP foram realizadas com foco na depressão. Em 1996, Bob Kohlenbergrecebeu uma bolsa do National Institute of Mental Health para estudar se o treinamento da FAP me- lhoraria os resultados do tratamento de terapia cognitiva para depres- são conduzido por especialistas (Kohlenberg, Kanter, Bolling, Parker, & Tsai, 2002). A equipe dele argumentou que a terapia cognitiva, então reconhecida como o padrão-ouro de tratamento empiricamente validado para a depressão, foi uma grande abordagem, porém ainda poderia se beneficiar das principais características da FAP: análise funcional, aten- ção à relação terapêutica e foco em melhorias no funcionamento social. Os terapeutas especialistas completaram primeiramente a sua terapia tí- pica com 16 clientes. Então, eles participaram de um protocolo de trei- namento da FAP, após o qual eles completaram a terapia com 24 clientes. O estudo descobriu que os clientes no primeiro grupo tiveram um bom desempenho, com 48% deles apresentando melhora clinicamente sig- nificativa. Os clientes da FAP, no entanto, ficaram ainda melhores, pois cerca de 70% deles apresentaram melhorias. Curiosamente, os clientes do primeiro grupo não demonstraram nenhuma melhoria em uma me- dida bem-validada sobre o funcionamento social: satisfação no relaciona- mento. Em contrapartida, os clientes da FAP demonstraram melhorias na satisfação em relacionamentos. 10 Introdução Pesquisas recentes proporcionaram maior compreensão dos meca- nismos responsáveis pelos benefícios da FAP encontrados em estudos an- teriores. Por exemplo, agora, temos evidências de que a estratégia da FAP de reforçar os comportamentos de melhoria em sessão (que discutiremos ao longo deste livro) é o mecanismo-chave responsável pelas melhorias dos clientes nos estudos de caso único discutidos anteriormente (Busch et al., 2009; Oshiro, Kanter, & Meyer, 2012) e que os processos do FAP foram os únicos responsáveis pelas melhorias no estudo de terapia cog- nitiva que acabamos de descrever (Kanter, Schildcrout, & Kohlenberg, 2005). Mais recentemente, e mais notadamente, Daniel Maitland e cola- boradores (no prelo) produziram o primeiro estudo controlado rando- mizado de um tratamento FAP para dificuldades interpessoais. A FAP produziu resultados superiores de conexão social, ansiedade e esquiva em comparação com uma condição de controle ativa mínima (espera vigilante) em uma amostra de clientes ansiosos que apresentavam pro- blemas interpessoais. Em um delineamento de tratamento alternado, Maitland e Gaynor (2016) demonstraram anteriormente a superiorida- de da FAP em comparação com a escuta ativa para melhorar o funcio- namento interpessoal. Em ambos os estudos, as classificações da aliança terapêutica também foram superiores para os tratamentos com a FAP. Mais estudos são necessários, e esperamos que este livro possa inspi- rar ainda mais os pesquisadores. COMO USAR ESTE LIVRO Este livro é baseado no conhecimento experiencial e prático. Enquanto utilizamos a linguagem técnica e geralmente confiamos mais no seu co- nhecimento de psicoterapia, nossas palavras são apenas sinais destinados a levá-lo para experiências e comportamentos particulares. Esperamos que você participe plenamente e que seja dono dessas experiências, para que possa encontrar seu próprio jeito de trabalhar com a FAP. Então, por favor, faça uma pausa e pratique o que lhe pedimos para praticar. Como Psicoterapia analítica funcional descomplicada 11 você provavelmente sabe, treinar o conteúdo com conhecimento inte- lectual faz pouco para mudar as habilidades reais (ver Beidas & Kendall, 2010). Uma música surge quando você pratica totalmente a FAP, e você não a ouvirá se apenas ler as palavras. Oferecemos exercícios que são práticos e interessantes e abordam toda a gama de princípios da FAP, a fim de facilitar a sua prática. Você pode praticá-los no dia a dia da sua vida pessoal, na sua prática de psi- coterapia ou em ambos. Como você pode observar, iremos falar com você não apenas como terapeuta, mas como uma pessoa inteira. Temos várias razões para pedir a você que se envolva em uma prática pessoal dos princípios da FAP. Você não está fora do processo de psicoterapia. De fato, você está no centro do processo. Isso inclui as palavras que você diz, as expressões que você mostra, onde você avança e onde você recua na dança da terapia e tudo o mais que contribui para como você aparece na sessão. Tudo isso é moldado pela sua história — não apenas o seu treinamento profissional, mas também a sua história pessoal de amor e conexão, de pertencimento e solidão, de sofrimento e luta, bem como as suas atuais circunstâncias de vida. Você nem sempre tem de se revelar, e pode haver partes de si mesmo que você nunca revelará em terapia. Contudo, uma vez que o processo de terapia é uma dança com nuances primorosas de influência entre duas pessoas, até mesmo as suas disposições mais sutis e vulneráveis podem, às vezes, importar. Como terapeutas FAP, não pedimos aos clientes que pratiquem ou façam o que não fazemos. Para ser um instrumento sensitivo e orientar bem os clientes, os terapeutas devem estar familiarizados com o cami- nho. A empatia é geralmente vivenciada por meio da experiência pessoal. Dito isso, você também deve ter consciência suficiente sobre as maneiras particulares pelas quais você viajou em seu próprio caminho para discri- miná-las dos caminhos dos outros. A terapia é exigente e requer autoconsciência. Os terapeutas precisam se envolver em práticas constantes de autocuidado e autorreflexão com- 12 Introdução passiva. Você reagirá aos seus clientes. E, às vezes, essas reações serão in- fluenciadas mais pela sua própria história do que pelos próprios clientes. Desse modo, você deve ser capaz de identificar quais de suas reações são principalmente sobre você e sua história, e, portanto, não fornece infor- mações amplamente úteis sobre o cliente envolvido. Esses aspectos citados descrevem a postura que pedimos a você como terapeuta da FAP. Um conjunto ligeiramente diferente de pon- tos que definem a postura que nós convidamos você a adotar durante o aprendizado da FAP pode ser encontrado ao ler este livro. A seguir, confira algumas sugestões específicas sobre como aproveitar esta obra ao máximo. Encontre parceiros de treino. Em virtude do foco da FAP nas inte- rações interpessoais, provavelmente não será uma surpresa que alguns dos exercícios deste livro envolvem a interação com outras pessoas. Mui- tos deles podem ser realizados com clientes, mas será útil fazer certos exercícios com outras pessoas. Aqui e agora, no início, tente identificar algumas pessoas que possam estar dispostas a participar de conversas pro- fundamente sinceras com você ou a experimentar alguns jogos divertidos de psicologia experiencial. As pessoas escolhidas podem ser colegas, mas também podem ser amigos ou familiares. Liberte-se do perfeccionismo e abrace o desconforto. Espere sentir-se desconfortável enquanto se envolve em muitos dos exercícios deste livro, além de aprender a análise funcional (se ela é nova para você) enquanto pratica a FAP em geral. Não há problema em se sentir desajeitado e an- sioso. Você está praticando algo novo. Mesmo com toda a experiência, os autores deste livro continuam a se sentir ansiosos muitas vezes ao praticar a FAP ou treinar terapeutas na FAP. Você pode achar útil pensar no seu desconforto dessa maneira: na verdade, ele representa a sua sintonização e sensibilidade à dança da abertura até outra pessoa, a sua capacidade de se relacionar com os clientes a partir de uma fundação de humanidade compartilhada, em vez de a partir de uma experiência desconectada. Dis- cutimos essa ideia em profundidade mais adiante. Agora, basta focar em Psicoterapia analítica funcional descomplicada 13 aceitar o desconforto e lembrar-se de que isso é um sinal de que você está no caminho certo. Confie em sua própria experiência. Tenha em mente que a psicotera- pia é um remédio forte, que pode ser tão prejudicial quanto benéfico se nãofor gerido de forma eficaz. Isso significa administrá-la localmente utilizando os anos que você se dedicou ao treinamento para desenvolver a capacidade de praticar com competência. Como não podemos saber os detalhes das situações que você e seus clientes enfrentam, não leve nada neste livro como uma recomendação absoluta. Se algo não lhe parece certo, confie na sua intuição e siga a sua experiência — ou procure a supervisão de especialistas. Vamos pedir a você para assumir riscos calcu- lados, mas, por favor, não seja imprudente ou confie em nós cegamente. Estenda a mão se precisar de ajuda. Se você tiver dúvidas ou preocupa- ções sobre a FAP, não pense que isso acontece porque você é, de alguma forma, inadequado como terapeuta. Para que sejamos responsáveis por ensinar a FAP de forma eficaz e tenhamos a oportunidade de fazê-lo, nos informe do que você precisa. Nós nos importamos profundamente com este trabalho e continuamos humildes ao fazê-lo. Se entrar em contato com a comunidade da FAP, você receberá respostas. Basta acessar a co- munidade da FAP enviando um e-mail para cada um de nós (para infor- mações de contato, visite http://www.functionalanalyticpsychotherapy. com/find-a-fap-Supervisor). Se você está no Facebook, pode pedir para ser adicionado ao grupo privado da FAP, ou se conhece alguém que já é um membro, pode pedir a essa pessoa para adicioná-lo. Participe de treinamento formal ou supervisão. Se você quiser inten- sificar a sua prática dos princípios do FAP, se achar que partes da FAP permanecem difíceis de colocar em prática ou se simplesmente deseja ter uma experiência poderosa da FAP em ação, considere a possibilidade de ingressar no treinamento on-line ou inscrever-se para supervisão com um dos crescentes números de treinadores da FAP em todo o mundo. Confira https://functionalanalyticpsychotherapy.com para uma lista dos próximos treinamentos, supervisores e treinadores disponíveis. Embora 14 Introdução esta obra ofereça ideias importantes para você ponderar, exercitar e pro- cessar no seu próprio ritmo, workshops, treinamentos on-line e supervisão individual fornecerão uma maior profundidade de aprendizagem expe- riencial sobre a FAP, de maneiras que vão além do escopo possível em um livro. ORGANIZAÇÃO DO LIVRO Este livro está organizado em duas partes. A Parte 1 (Capítulos 1 a 5) abrange os princípios essenciais da FAP, ao passo que a Parte 2 (Capítulos 6 a 13) aborda a prática clínica. O Capítulo 1 apresenta uma aborda- gem contextual da visão comportamental da conexão social, descreven- do, a partir dessa perspectiva, como o funcionamento social influencia os problemas psicológicos e como as relações terapêuticas funcionam. O Capítulo 2 se aprofunda na perspectiva comportamental contextual na raiz da FAP. O Capítulo 3 introduz os princípios fundamentais da análise funcional aplicados à FAP. O Capítulo 4 descreve o modelo de consciência, coragem e amor, uma estrutura para a análise funcional das conexões sociais que podem ser aplicadas às relações terapêuticas, bem como a outros contextos sociais. Por fim, o Capítulo 5 conecta todos os tópicos anteriores para descrever o processo terapêutico no centro da FAP, encapsulado nas cinco regras da FAP. A Parte 2 causa uma sensação ligeiramente diferente da Parte 1 por uma razão simples: embora a teoria seja a espinha dorsal da FAP, ter uma noção teórica não é o suficiente para você se tornar um clínico eficaz da abordagem. Um conjunto particular de habilidades — pessoais, interpes- soais e clínicas — é necessário para colocar a teoria em uso. Vamos tratar disso um pouco mais amplamente no Capítulo 6, com a apresentação de alguns exercícios que os terapeutas podem fazer para desenvolver au- toconsciência e flexibilidade interpessoais, que apoiam as habilidades da FAP. O Capítulo 7 apresenta os elementos da FAP em jogo no início da terapia e estabelece como fortalecer a base para o trabalho nessa fase inicial. O Capítulo 8 aprofunda o processo de evocar e explorar o que Psicoterapia analítica funcional descomplicada 15 está ocorrendo na sessão entre você e o cliente. O Capítulo 9 discute a próxima parte importante no processo da sessão: como responder às melhorias de um cliente de maneiras reforçadoras. O Capítulo 10 revisa todas as cinco regras da FAP e discute uma estrutura para utilizá-las em uma única interação: a interação lógica. Ele também discute como a prá- tica real da FAP pode se desviar de algo lógico e linear. O Capítulo 11 aborda a conceituação de casos na FAP. O Capítulo 12 aborda o dever de casa e os exercícios experienciais e como estes são utilizados na FAP. O Capítulo 13 discute o fim da terapia, um tema de atenção especial na abordagem. PARTE 1 As ideias 1 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças Não existe algo como “a pessoa se fez sozinha”. Nós somos feitos de milhares de outros. Qualquer pessoa que nos tenha feito algo de bom ou nos dito uma palavra de encorajamento entrou na construção do nosso caráter e dos nossos pensamentos, bem como do nosso sucesso. George Matthews Adams 20 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças Pense, por um momento, nas interações e nos relacionamentos mais importantes que você teve em sua vida. Pense naquelas que foram mais conectadas, alegres e inspiradoras. Pense, também, naquelas interações que foram mais dolorosas e desoladoras, terminando em traição e decepção. Como todas essas experiências definiram você? Quais lições você levou adiante? Quais palavras de outra pessoa você nunca esquecerá? Quais hábitos, formados no passado, você repete hoje? Considere Tom, o cliente mencionado na Introdução, que cresceu em uma família tida como distante, mas, às vezes, também sufocante. A mãe dele — uma executiva que trabalhava bastante — ensinou-lhe que as emoções devem ser controladas, pois são problemas a serem resolvidos. Ele se sentia ansioso sobre as próprias emoções. Sentia- -se envergonhado da sua contínua inabilidade de fazer as coisas da maneira como sua mãe ensinara. No ensino médio, uma professora incentivou a habilidade de escrita dele, dando-lhe uma experiência de orgulho. Daquele momento em diante, ele valorizou as suas habilida- des literárias, mas também lutou, pois sua mãe duvidou do seu valor. Um pequeno grupo de amigos da faculdade fortaleceu nele uma vi- são de como a sociedade — principalmente o mundo corporativo — é opressiva e antiética. Ele se sentiu próximo a eles e sentiu uma justa indignação com o mundo. Tom, como todas as pessoas, é a soma de seus relacionamentos e experiências. Ambos afetam como ele vê a si mesmo, os outros e o mundo e como se sente sobre essas coisas. Reserve de 5 a 10 minutos para escrever algumas coisas. O que você vivenciou e aprendeu com os relacionamentos que teve? Psicoterapia analítica funcional descomplicada 21 A FAP trata da criação de relações terapêuticas em que você se rela- ciona hábil e estrategicamente com os clientes para criar um con- texto de mudança. Enquanto muitas relações mudam vidas, a relação terapêutica visa a mudar vidas de modo terapêutico. Antes de entrarmos nas especificidades da FAP e na sua abordagem da mudança terapêutica, vamos partir do início, com a perspectiva que trata de cada momento da FAP. A FAP é fundamentada em uma visão de psicologia e influência social que integra a CBS com a crescente ci- ência da conexão social, incluindo como as conexões sociais afetam o funcionamento psicológico. Esse fundamento molda a conceituação do relacionamento terapêutico pela FAP e a postura do terapeuta em cada momento com os clientes. Neste capítulo, como forma de seguir em direção aos aspectos clínicos mais experienciais e aplicados pela FAP, nós expomos essa base. AS CONEXÕES SOCIAIS IMPORTAM Os seres humanos necessitam de conexão social para prosperar, de modo que os problemas com esse tipo de conexão podem criar um profundosofrimento. Essa afirmação é baseada em um conjunto de descobertas científicas bem-estabelecido, que trata da importância fundamental da conexão social. Confira, a seguir, algumas dessas descobertas. • Ter relações sociais pobres ou extremamente limitadas causa um efeito na mortalidade, sendo comparável a fumar e duas vezes maior quando comparado com o efeito da obesidade (Holt-Luns- tad, Smith, & Layton, 2010). Em outras palavras, as conexões sociais mantêm as pessoas saudáveis e as ajudam a viver mais. Pesquisadores estimam que os impactos negativos na saúde de ter uma vida pobre ou limitada em relações sociais são equivalentes a fumar 15 cigarros por dia (Holt-Lunstad & Smith, 2012). • Tanto relacionamentos pobres (caracterizados por conflitos) quanto relações sociais limitadas (solidão) afetam negativamente 22 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças os hormônios do estresse, o funcionamento do sistema imuno- lógico e o funcionamento do sistema cardiovascular, entre mui- tos outros fatores (Kiecolt-Glaser et al., 2005; Cacioppo et al., 2002). Na verdade, o apoio social é uma influência fundamental nos resultados de uma série de problemas de saúde, desde doen- ças cardiovasculares a tuberculose e esquizofrenia (House, Landis, & Umberson, 1988). • Os seres humanos têm uma considerável propriedade neural de- dicada ao processamento de sinais sociais, e a sintonia com esses sinais surge nos primeiros momentos após o nascimento, quando os bebês se orientam em direção a rostos e imitam expressões faciais (Meltzoff & Moore, 1977). • As relações sociais fazem parte dos principais mecanismos que conduziram à evolução do complexo cérebro humano e estão profundamente interligadas com sistemas biológicos que regulam a fisiologia e as emoções humanas (Cacioppo & Patrick, 2008; Porges, 2001). Ao examinar todas essas descobertas, a ciência evolucionária apon- ta que o funcionamento social tem sido fundamental para a sobrevi- vência da nossa espécie e modelou quem somos — de forma genética, fisiológica e comportamental. Somos os ancestrais dos seres humanos que se relacionaram efetivamente com os outros não apenas em termos de mecanismos sociais com significado evolutivo óbvio, tais como in- terações sexuais e parentalidade, mas também em termos de uma série de comportamentos relacionais pró-sociais que funcionam no nível de grupos e promovem o bem-estar do grupo, como amizade, altruísmo e aprendizado e resolução de problemas cooperativos (Bugental, 2000; Sober & Wilson, 1998). Nós nos espalhamos para cobrir o globo não devido à nossa força física ou à nossa inteligência individual, mas porque, coletivamente, nossas habilidades de conexão e cooperação nos tornam poderosos. (Para análises cativantes dessa perspectiva, ver Harari, 2015, e Henrich, 2016.) Psicoterapia analítica funcional descomplicada 23 Existem quatro ideias centrais para se entender como a evolução nos modelou e aos desafios sociais que enfrentamos hoje: 1. Evoluímos para nos sintonizar e operar em pequenos grupos. 2. Também evoluímos para competir com outros grupos. 3. Em qualquer relacionamento, nós trabalhamos para encontrar um equilíbrio entre próximo e distante. 4. O mundo atual — talvez diferente do que experimentamos em nossa história evolutiva — envolve navegar entre e através de vá- rios “grupos internos” e “grupos externos” próximos e distantes. O mundo de hoje requer que nos tornemos hábeis em formar e manter relacionamentos que atravessem mudanças e em equi- librar nossas próprias necessidades contra as necessidades dos vários grupos aos quais pertencemos. Evoluímos para nos sintonizar e operar em pequenos grupos. Em- bora hoje nós façamos parte de uma ampla gama de grupos sociais — de famílias a comunidades (virtuais ou não) para unidades maiores, como cidades, estados e nações —, os grupos-chave nos quais evoluímos e florescemos por dezenas de milhares de anos tendiam a ser pequenos. No máximo, eles normalmente alcançavam o famoso número de Dun- bar, 150 (Dunbar, 2010). Mesmo em um mundo com sete bilhões de pessoas, grupos com o número de Dunbar, ou inferior a ele, tendem a ser os que mais nos modelam. Como a ciência do apego mostra, essa formação se inicia cedo, com nossos cuidadores primários (Cassidy & Shaver, 1999). Ela continua após a infância, com amigos adolescen- tes e salas de aula, e, na idade adulta, com companheiros de quarto e parceiros românticos. Nossas emoções, comportamentos e senso de self e propósito estão bem-ajustados às sutilezas dos relacionamentos e aos vínculos que se desenvolvem dentro desses grupos relativamente pequenos. A capacidade que temos de coordenar nossas ações com os outros depende de uma capacidade robusta de ver sentido na mente destes. 24 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças O modelo de conectividade flexível (Levin et al., 2016; Vilardaga, Esté- vez, Levin, & Hayes, 2012) — modelo da CBS que está reunindo supor- te empírico — argumenta que a nossa capacidade de nos conectar com os outros depende de três capacidades distintas: tomada de perspectiva (capacidade de compreender a perspectiva do outro), empatia (capacida- de de sentir o que se sente nessa perspectiva) e aceitação (disposição para experimentar os sentimentos que vêm dessa perspectiva). Essas capacida- des são os mecanismos psicológicos da conexão. Estamos tão imersos na água da conexão, que é fácil esquecer que nossa capacidade de entender os outros é uma tarefa psicológica maravilhosamente complexa. Por sua vez, o envolvimento efetivo nos relacionamentos favorece o bem-estar ideal. Por meio dos milhares de estudos sobre esse tema (além dos resultados citados anteriormente), três temas principais emergiram. O primeiro é que relacionamentos íntimos e intimidade são altamente benéficos (aqui, “intimidade” significa compartilhar pensamentos e sentimentos que você não compartilha com qualquer pessoa). Mesmo quando temos apenas um ou dois relacionamentos íntimos, tendemos a ser mais felizes e saudáveis, tanto física quanto mentalmente. O segundo tema é que receber apoio social é importan- te. Mais uma vez, não são quantos amigos temos, e sim se sentimos que existem pessoas que nos apoiarão quando precisarmos. O terceiro tema envolve a participação social — sentimento de que somos parte de uma comunidade maior. Essa comunidade poderia ser uma família estendida, um grupo de amigos, uma rede de colegas de trabalho, uma igreja ou outro grupo religioso, um clube ou time de algum esporte ou uma organização voluntária. O que parece importar é sentirmos que pertencemos a um grupo — que é maior do que nós e nossos relacio- namentos íntimos pessoais. Evoluímos para competir com outros grupos. O outro lado da proxi- midade com os outros, é claro, é a tendência de nos relacionarmos com cautela, reserva, competitividade e agressão. Essa tendência tem um claro papel em nossas relações com aqueles que estão fora dos nossos grupos Psicoterapia analítica funcional descomplicada 25 sociais, sobretudo com pessoas em relações competitivas ou agressivas com nossos grupos. De fato, a ciência da evolução argumenta que nos unimos dentro de grupos porque um grupo altamente cooperativo pode competir com outros indivíduos e grupos. Em outras palavras, a forma- ção de grupos poderosos é uma vantagem competitiva fundamental dos seres humanos (o que também é verdade para outros seres sociais). Quando em competição, nós parecemos ter a capacidade de desligar o maquinário que sustenta a conexão. Podemos desumanizar e nos des- conectar para não sentir a dor daqueles que prejudicamos ou ignoramos. Essa habilidade é subjacente ao preconceito, à esquiva (dos problemas dos outros), à capacidade de violência, e assim por diante (Levin et al., 2016). Portanto, temos a capacidade de nos desconectar assim como de nos conectar. Todos os relacionamentos envolvem equilibrar proximidade e dis- tância. Em geral,nos unimos dentro de nossos grupos e competimos com outros que pertencem a grupos externos, porém somos sensíveis a danos e à exploração mesmo em nossos relacionamentos mais próximos e nos pequenos grupos a que pertencemos. Portanto, equilibramos cons- tantemente proximidade e distância, conexão e desconexão, dar abertura e sustentar limites e oferecer aos outros e atender a nós mesmos. Inte- ragir ou ser influenciado por outras pessoas é uma faca de dois gumes: pode nos fazer bem ou pode nos prejudicar. Ser próximo de outra pessoa sempre nos deixa um pouco vulneráveis e requer um salto de fé. Essa é a tensão de ser um ser humano socialmente sintonizado, com necessidades e vulnerabilidades sociais. Temos uma série de emoções sociais que nos orientam para essa tensão. Raiva quando nossas necessidades não são satisfeitas. Culpa ou vergonha quando violamos as necessidades do outro ou do grupo como um todo. Amor e gratidão quando o outro atende às nossas necessidades. Tristeza e pesar quando o outro nos trai. A história de nossas relações sociais é, em muitos aspectos, uma his- tória de como encontrar equilíbrio entre proximidade e distância — en- tre ter nossas necessidades atendidas e nos proteger do dano e da vul- 26 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças nerabilidade. Como tal, é a história de como nos machucamos e nos nutrimos e, como resultado, como aprendemos a nos relacionar com os outros. Todos nós carregamos essa tensão, pois a evolução exigiu que os grupos lutassem com esse equilíbrio para obter êxito. Para sobreviver, tivemos de tecer linhas delicadas de conexão, mas também tivemos de ser capazes de cortá-las quando o custo de as manter se tornava muito alto. De fato, às vezes parece que a nossa própria capacidade de dar um passo atrás e nos desconectar — para que, então, possamos voltar e nos reconectar quando for a hora certa — é parte do que torna os relaciona- mentos resilientes e flexíveis. Hoje, o mundo é diferente. Não só todos nós experimentamos essa faca de dois gumes da conexão humana, como também vivemos em um mundo que é bastante diferente do mundo de nossos ancestrais, aquele que modelou e otimizou os nossos mecanismos acerca da conexão social. Esse mundo era, muitas vezes, pequeno e relativamente estável, com uma visão de mundo razoável e bem-definida e um conjunto de regras sociais. Por exemplo, uma criança nascida em uma tribo coletora-caçadora no centro-sul da África na década de 1940 viveu uma vida muito semelhan- te a uma criança nascida na década de 1840 ou 1540, ou mesmo 40 d.C. Essa criança interagiu principalmente com as mesmas 20 ou 30 pessoas ao longo de sua vida. Esse tipo de arranjo social estável (da perspectiva de 2016) foi a norma, e não a exceção, para a maior parte da história humana. Hoje, a escala social do mundo é muito maior. Muitos grupos — definidos por diferenças a respeito de crenças religiosas e políticas, focos profissionais, práticas culturais, hobbies, além de afiliações escolares e es- portivas, por exemplo — se misturam e vivem juntos, o que exige muito mais demanda da nossa capacidade de adaptação e cooperação social. Por exemplo, nós experimentamos transição social após transição social, com as quais entramos em novos grupos, construímos novas alianças e decidimos em quem confiar. Essas transições podem continuar por toda a nossa vida, e podemos nunca nos estabelecer em uma comunidade es- Psicoterapia analítica funcional descomplicada 27 tável. Nossa visão de mundo pode diferir tão marcadamente da de nossos próprios pais, que temos dificuldade em nos relacionarmos com eles. Ao mesmo tempo, somos também filhos de pais que enfrentaram perturba- ções semelhantes no seu tecido social, bem como conflitos e negociações similares. Hoje, enfrentamos desafios que forçam a nossa capacidade de adaptação social como parte normal da vida. O CONTEXTO SOCIAL IMPORTA O legado dessa história evolucionária se reflete profundamente na nossa psicologia. Não é que apenas somos sensíveis e nos sentimos melhores ou piores dependendo de como as pessoas interagem conosco; em todas as nossas interações humanas, estamos trabalhando para equilibrar pro- ximidade e distância, aprendendo as lições de nossos relacionamentos e carregando as cicatrizes e as vitórias deles. Navegar no mundo social é tão importante para a nossa espécie, que as relações sociais nos modelam. Elas deixam marcas duradouras, influenciando o nosso comportamento e bem-estar. As ligações entre dificuldades com conexão social e problemas psico- lógicos são profundas e existem em quase todos os principais transtornos psiquiátricos (Barnett & Gotlib, 1988; Beck, 2010; Horowitz, 2004; Leach & Kranzler, 2013; McEvoy, Burgess, Page, Nathan, & Fursland, 2013; Pettit & Joiner, 2006; Pincus, 2005). A seta causal provavelmente aponta para ambas as direções: estressores sociais causam estresse psi- cológico, que, por sua vez, cria estresse social. Como resultado, muitos clientes que procuram a psicoterapia não estão apenas lutando com eles mesmos, mas também com os outros, e muitas vezes eles têm uma longa e dolorosa história de como fazer isso. Considere Mark, um cliente que entrou em depressão após perder o emprego oito meses atrás e que agora está quase totalmente isolado. Embora ele possa parecer egoísta e afastado, seu isolamento é, na ver- dade, intensamente interpessoal. Mark cresceu em uma casa em que era geralmente ignorado ou criticado; devido a esse contexto, desenvolveu 28 Conexão social e relação terapêutica como contextos para mudanças a sensação permanente de que algo estava errado com ele. Ele experi- menta baixos níveis de ansiedade e de reticência, que se instalam em seu corpo sempre que ele está perto de pessoas que teme que o avaliarão de modo negativo. Mark lidou com seu senso de inadequação, tornan- do-se muito direcionado a agradar os outros, de modo que a maioria das pessoas pensa que ele é um cara legal. Ainda assim, como se lhe pedissem para falar uma língua que nunca aprendeu, ele tem poucas palavras para expressar suas próprias necessidades ou sentimentos; ele só sabe que se sente “mal”. À medida que sua depressão se aprofun- dava, ele se tornava cada vez mais oprimido por telefonemas e e-mails de amigos e familiares. Para ele, foi mais fácil evitar a proximidade do que sentir a dor de falar com eles. Agora, ele está congelado em um torturante isolamento, alternando entre vários estados aversivos: seve- ra autocrítica e desespero; culpa por seu contínuo afastamento, que ele sabe que preocupa profundamente a sua família; e distanciamento entorpecido, girando em torno do sono, da televisão e da pornografia, que apenas reforça a sua crença de que ele é inútil. Ou considere Joan, que sofre de dor crônica relacionada com uma lesão no trabalho que ocorreu há vários anos. Embora a causa mais óbvia de sua dor seja a própria lesão, o sofrimento de Joan, no contexto atual, envolve muitas outras pessoas. Ela se sente culpada por ser um fardo para o seu marido, que não apenas está mantendo a família financeiramente, mas também cuidando de todas as tarefas domésticas. Conduzida pela culpa, Joan periodicamente se esforça demais em casa, exacerbando a sua dor. Quando seu fisioterapeuta prescreveu exercícios que eram muito difíceis, ela estava muito envergonhada para dizer isso a ele, de modo que, em vez disso, cancelou várias sessões seguidas. Em geral, Joan evita buscar por amigos ou ex-colegas de trabalho, pois ela está envergonhada e frustrada e não quer que as pessoas a vejam “assim”. Ocasionalmente, ela expressa sua frustração por meio de comentários hostis aos filhos ou ao marido. Ao longo de vários meses, ela passou a atender aos critérios de depressão. Psicoterapia analítica funcional descomplicada 29 Em ambos os casos, embora seja possível imaginar uma versão do problema da pessoa ocorrendo fora do contexto social, só podemos compreender a história completa