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IBET – INSTITUTO BRASILEIRO DE ESTUDOS TRIBUTÁRIOS ANDRÉ DE SOUZA DIPE MÓDULO – TRIBUTO E SEGURANÇA JURÍDICA SEMINÁRIO I – DIREITO TRIBUTÁRIO E O CONCEITO DE TRIBUTO CAMPINAS 2015 1 - Que é Direito? Há diferença entre direito positivo e Ciência do Direito? Explique. Comumente, o vocábulo direito é empregado para determinar diferentes realidades, sendo mais observado seu emprego para significar: (i) direito como norma; (ii) direito como faculdade, prerrogativa do Estado de criar normas; (iii) direito como justo, o devido por justiça; (iv) direito como ciência, se confundindo com a Ciência do Direito e (v) direito como fato social, como fenômeno da vida em coletividade, ladeado de fatos econômicos, culturais entre outros. Contudo, o direito se expressa através de uma linguagem, ocupando-se de regular a conduta dos homens, e a forma com que se relacionam com vistas a preservar o bem estar coletivo. Tem-se, assim, o direito positivo como o conjunto de normas jurídicas válidas em determinado espaço territorial, expresso por meio de linguagem com vistas a disciplinar o comportamento entre os homens. Assim, o direito positivo se revela através de enunciados prescritivos veiculados através do texto legal, a letra da lei positivada em uma ordem jurídica. De seu turno, a Ciência do Direito tem por objeto o direito positivo, ou seja, seu estudo é a gama de proposições que tem por objetivo ordenar a vida dos homens. Compete a Ciência do Direito estudar as normas jurídicas descrevendo-as mediante metodologia própria. 2. Que é norma jurídica? Há que se falar em norma jurídica sem sanção? Justifique. Norma jurídica é um juízo, obtido por meio da interpretação de determinado texto. Repousa justamente na significação obtida das proposições jurídicas. É o produto do intelecto resultante da percepção do mundo. Dessa forma, podemos conceituar norma jurídica como uma estrutura lógica proveniente da interpretação do direito positivo, composta de uma hipótese que é a descrição de um fato fenomênico que prescreve uma relação jurídica. Entendendo-se sanção como consequência da ocorrência de determinado fato, não há que se falar em norma jurídica sem sanção. Isto porque a norma jurídica é composta por um antecedente (hipótese) que se liga ao consequente (tese), ou seja, sem uma sanção temos apenas enunciados prescritivos. 3. Há diferença entre documento normativo, enunciado prescritivo, proposição e norma jurídica? Explique. Sim, existe diferença entre documento normativo (Lei), enunciado prescritivo, proposição e norma jurídica. Por texto de lei (documento normativo), entende-se o suporte físico, a matéria resultante do processo legislativo positivado no papel. Enunciado prescritivo são as proposições do antecedente e do consequente expedidas pelo legislador. A proposição é a significação, a ideia, extraída dos enunciados, que de forma isolada ou em conjunto com proposições jurídicas constitui a norma jurídica. 4. Que é tributo (vide anexo I)? Com base na sua definição de tributo, quais dessas hipóteses são consideradas tributos? Fundamente sua resposta: (i) seguro obrigatório de veículos; (ii) multa decorrente de atraso no IPTU; (iii) FGTS (vide anexos II e III e IV); (iv) aluguel de imóvel público; (v) prestação de serviço eleitoral; (vi) imposto sobre a renda auferida por meio de atividade ilícita (ex. contrabando); (vii) tributo instituído por meio de decreto (inconstitucional – vide anexo V). Tributo, enquanto palavra, termo, assume variadas significações conforme a aplicação dada no texto de lei, nas acepções doutrinárias ou na jurisprudência, sendo possível atribuir-lhe significação de (i) determinada soma quantificada em dinheiro; (ii) o comportamento do sujeito passivo concernente a prestação correspondente ao seu dever jurídico; (iii) o direito subjetivo de titularidade do sujeito ativo, exigível do sujeito passivo em decorrência da soberania; (iv) a relação jurídica tributária que nasce com o com a verificação do fato previsto na hipótese da norma; (v) a norma tributária, ou seja, uma regra de direito; (vi) todo o fenômeno compreendido pela norma, a ocorrência do fato e relação jurídica que com ela nasce. O texto legal do artigo 3º da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 é o seguinte: Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. A definição legal acima transcrita revela cinco abordagens para uma análise crítica, sendo a primeira a assertiva de que “é uma prestação pecuniária compulsória”. Assim, representa o comportamento obrigatório, ao dever, de uma prestação em determinada soma em dinheiro. A expressão que se seque, “em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir”, na qual “em moeda” acaba por ser dispensável, vez que já abarcada pela locução anterior “prestação pecuniária”, e o restante deságua em um demasiado alargamento das prestações tributárias, posto que grande maioria dos bens são dotados em um valor que se pode exprimir em moeda, possibilitando, inclusive, que o trabalho do homem, pois passível de valoração, se torne objeto de uma relação tributária. Já a locução “que não constitua sanção de ato ilícito” é de grande importância, já que delimita o conceito de tributo, excluindo da natureza tributária a sanção imposta ao cometimento de um ato ilícito, assim, por conexão ao fato originário se revelará a natureza da relação. A instituição em lei já decorre naturalmente do principio da legalidade insculpido na Constituição Federal, de onde as obrigações postas no direito pátrio são, por sua natureza, derivadas da lei, havendo apenas a distinção na conduta, mormente no seu elemento subjetivo que se revela na vontade, para que se configure a prestação. De certo que a obrigação de fazer ou não fazer algo decorre da lei, e sendo a obrigação compulsória é natural que somente se possa falar em instituição por meio de lei. Por fim, a locução “e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”, deve ser compreendida observando-se a classificação de atos de direito administrativo com vistas à relação tributária, sendo plenamente vinculados àqueles atinentes a atos do procedimento de arrecadação, sendo certo que em muitas hipóteses o administrador pode, em decorrência de lei, integrar a norma de seu juízo ou vontade na verificação do caso concreto. Diante destas colocações, exigir o tributo em lei e mediante atividade administrativa plenamente vinculada não é aspecto fundamental de uma definição de tributo, pois como já colocado, a exigibilidade decorrente de lei é imposta pelo próprio princípio constitucional da legalidade e a vinculação plena da atividade administrativa acaba sendo um exagero do texto, posto que o administrador, por vezes, esta autorizado pela lei a integrar seu juízo a norma jurídica. São considerados tributos o seguro obrigatório de veículos, as custas judiciais e o imposto sobre a renda auferida por meio de atividade ilícita. O seguro obrigatório de veículos tem as características de tributo, posto que é compulsório, exigido em valor pecuniário e não constituí sanção de ato ilícito, relevante aqui é a relação jurídica entre o Estado que tem o poder-dever de exigi-lo. A multa decorrente de atraso no pagamento do IPTU constitui sanção de ato ilícito, não podendo, assim, ser considerada tributo. O FGTS constitui direito subjetivo do trabalhador e não do Estado, vez que sua destinação é aquele e não este, tem assim natureza de obrigação trabalhista, sendo que a atuação do Estado em favor do recolhimento da contribuição não faz dele titular do direito, os valores não são recolhidos aos cofres como receita pública. O aluguel de imóvel público não tem caráter compulsório, há a vontade de contratar, a voluntariedade, não podendo ser considerando tributo. As custas judiciais são tributos, posto que são resultado da prestação de serviço público específico e divisível,tendo como base de cálculo o valor da atividade estatal referida diretamente ao sujeito passivo. São, assim, taxas. A prestação de serviço eleitoral não pode ser considerada tributo, pois não há o caráter pecuniário da prestação. O imposto sobre a renda auferida por meio de atividade ilícita, é tributo posto que o fato gerador é a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza. Ou seja, basta que se adquira a disponibilidade de renda ou provento e nada mais. A aquisição da renda é o fato tributável, não importando se tem origem lícita ou não. Mister se faz a divisão dos momentos, o primeiro é o que o legislador define como situação bastante para que surja a obrigação tributária, e neste não pode haver a ilicitude. Momento outro é o da concretização daquela situação prevista em lei. Não se trata, assim, de sanção por ato ilícito. Por último, tributo instituído por meio de decreto, de certa forma respondido indiretamente ao longo desta resposta, não pode ser considerado tributo, já que instituído por meio de decreto, quando deveria ser instituído através de Lei. 5. Que é direito tributário? Sob as luzes da matéria estudada, efetuar crítica à seguinte sentença: “Direito tributário é o ramo do Direito público positivo que estuda as relações jurídicas entre o Fisco e os contribuintes, concernentes à instituição, arrecadação e fiscalização de tributos”, e propor definição para “direito tributário”. A sentença acima exposta peca ao confundir o Direito Tributário com a Ciência do Direito Tributário. Isto porque o estudo do Direito Tributário é tarefa da Ciência do Direito Tributário, não se confundindo com aquele, que é um conjunto de normas jurídicas. Assim, pode-se propor a definição de Direito Tributário como o conjunto de proposições normativas que condizente à instituição, arrecadação e fiscalização de tributos, de forma direta ou indireta, didaticamente autônomo dos demais ramos do direito. 6. Dada a seguinte lei (exemplo fictício): Prefeitura Municipal de Caxias, Lei Municipal n. 2.809, de 10/10/2011 Art. 1º Esta taxa de controle de obras tem como fato gerador a prestação de serviço de conservação de imóveis, por empresa ou profissional autônomo, no território municipal. Art. 2º A base de cálculo dessa taxa é o preço do serviço prestado. § 1º - A alíquota é de 5%. § 2º O valor da taxa será calculado sobre o preço deduzido das parcelas correspondentes ao valor dos materiais utilizados na prestação do serviço. Art. 3º Contribuinte é o prestador de serviço. Art. 4º Dá-se a incidência dessa taxa no momento da conclusão efetiva do serviço, devendo, desde logo, ser devidamente destacado o valor na respectiva “NOTA FISCAL DE SERVIÇOS” pelo prestador de serviço. Art. 5º A importância devida a título de taxa deve ser recolhida até o décimo dia útil do mês subsequente, sob pena de multa de 10% sobre o valor do tributo devido. Art. 6º Diante do fato de serviço prestado sem a emissão da respectiva “NOTA FISCAL DE SERVIÇOS”, a autoridade fiscal competente fica obrigada a lavrar “Auto de Infração e Imposição de Multa”, em decorrência da não-observância dessa obrigação, no valor de 50% do valor da operação efetuada. Pergunta-se: a) Quantas normas há nessa lei? b) Identificar todas as normas jurídicas veiculadas nessa lei. c) Qual dessas normas institui tributo? d) Qual dessas normas é estudada pela Ciência do Direito Tributário? Justificar. e) O texto legal, acima transcrito, é Ciência do Direito? Justificar. Na lei acima posta existem 7 (sete) normas, quais sejam: - 1ª norma: Veículo Introdutor - 2ª norma: Regra Matriz de Incidência Tributária (artigo 1º ao 4º) - 3ª norma: Obrigação acessória (artigo 4º, destacar o valor do material na nota fiscal) - 4ª norma: Emitir nota fiscal (artigo 4º combinado com o artigo 6º ) - 5ª norma: Sancionatória (artigo 5º, não pagar o tributo multa de 10%) - 6ª norma: Outra norma sancionatória (artigo 7º, não emitir nota fiscal, multa de 50%) - 7ª norma: RMIT, relativa a data para pagamento, caso não tenha sido introduzida na 2ª norma que estipula a RMIT. A norma instituidora do tributo é o Veículo Introdutor de Norma, ou seja, Lei Municipal nº 2.809/1. Todas estas normas são estudadas pela Ciência do Direito Tributário, uma vez que compete a Ciência do Direito Tributário se debruçar sobre o texto legal extraindo seu conteúdo de significação. O texto legal acima transcrito não se confunde com Ciência do Direito, pois é direito positivo, expresso em linguagem, é, na verdade, o objeto da Ciência do Direito. Assim, não se pode confundir o objeto de estudo da Ciência do Direito com ela própria.