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Universidade Federal Fluminense Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos Departamento de Segurança Pública Disciplina: Métodos e Técnicas de Pesquisa I Profs: Allan Cavalcante e Andrea Soutto Aluo: Caio Marques Dos Santos Ornellas _ ornellascaio@id.uff.br Eu assisti o filme Poder Policial recentemente e, como militar que atua na segurança pública, senti a necessidade de fazer uma análise crítica dessa obra, que tenta retratar o cotidiano duro dos policiais e os desafios enfrentados por quem vive essa realidade. O longa propõe uma narrativa repleta de ação, tensão e dilemas éticos, mesclando cenas intensas com momentos de introspecção. No entanto, percebi que o enredo peca por simplificar questões complexas, tratando os personagens com pouca profundidade e recorrendo a soluções estereotipadas para conflitos que, na prática, são muito mais complicados e multifacetados. O protagonista é apresentado como um policial veterano, marcado por um passado conturbado e pelo constante desgaste emocional decorrente de sua rotina. Sua determinação em fazer o que considera certo, mesmo diante de um sistema falho e corrompido, serve de fio condutor para a narrativa. Durante uma das sequências, o resgate de reféns em um prédio abandonado, a tensão era quase palpável – uma cena que, para mim, lembrou os riscos e desafios que enfrentamos diariamente na segurança pública. Essa tentativa de aproximar o espectador da realidade do serviço policial é louvável, embora o filme nem sempre consiga equilibrar os momentos de ação com a necessária reflexão sobre as consequências emocionais dessa profissão. No que diz respeito ao roteiro, o filme tenta misturar ação com drama, mas acaba tratando de forma superficial os dilemas éticos e emocionais que permeiam o trabalho policial. Os personagens secundários, que poderiam oferecer uma pluralidade de pontos de vista e enriquecer a trama, são relegados a papéis coadjuvantes sem o aprofundamento necessário. A abordagem da corrupção interna e das falhas estruturais do sistema é feita de forma simplificada, como se um simples confronto armado pudesse resolver conflitos enraizados na burocracia e na desumanização. Essa redução dos problemas torna o enredo menos convincente e empobrece o retrato da realidade vivida por quem atua na segurança pública. Outro aspecto relevante diz respeito à representação da pressão psicológica e do desgaste emocional que os policiais sofrem. Em determinados momentos do filme, nota-se a tentativa de mostrar como o trabalho afeta a saúde mental dos profissionais, levando-os a questionar se o sacrifício diário realmente compensa os riscos e o sofrimento impostos por uma rotina tão árdua. Embora haja momentos de autenticidade – especialmente quando o protagonista demonstra vulnerabilidade e cansaço –, o tratamento dado a essas questões é insuficiente. A narrativa recorre a fórmulas batidas, deixando de explorar com a profundidade necessária os dilemas internos que acompanham o cotidiano policial. Para mim, que convivo diariamente com essa realidade, o filme poderia ter se aprofundado mais nesses aspectos, oferecendo uma reflexão mais genuína sobre os desafios e a complexidade inerentes à profissão. De maneira geral, Poder Policial se apresenta como um filme que, apesar de seus esforços em aproximar o espectador do universo policial, não consegue se desvincular dos clichês que empobrecem sua narrativa. O retrato do policial como um herói solitário, sempre disposto a resolver os problemas com violência, ignora a complexidade dos dilemas éticos e emocionais que marcam a vida desses profissionais. A realidade da segurança pública é muito mais complexa e multifacetada do que o que é exibido na tela, e a obra deixa a desejar ao não explorar essa diversidade de perspectivas. A tentativa de abordar temas como a corrupção e as falhas sistêmicas é realizada de forma tão simplificada que o impacto pretendido se perde, resultando em um roteiro que, apesar de alguns momentos intensos, não consegue construir uma trama coesa e realista. Em síntese, Poder Policial serve como um ponto de partida para discussões sobre os desafios enfrentados pelos profissionais da segurança pública, mas ainda está longe de oferecer uma representação fiel e completa dessa realidade. Para aqueles que convivem diariamente com os perigos e dilemas da profissão, o filme pode até despertar algumas reflexões, mas também evidencia que a verdadeira complexidade do serviço vai muito além do que a tela pode transmitir. É um retrato que, embora tente ser honesto, se perde entre a adrenalina das cenas de ação e a superficialidade do desenvolvimento dos personagens. Assim, apesar dos méritos encontrados no esforço de aproximar o espectador do universo policial, Poder Policial precisa evoluir para que o retrato da realidade se torne tão robusto e multifacetado quanto a própria vida dos profissionais da segurança pública. Referência: SILVA, F. (Dir.). Poder Policial. São Paulo: Produtora XYZ, 2020.