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Síndrome dos ovários policísticos (SOP) . A SOP é a endocrinopatia mais comum em mulheres em idade reprodutiva (menacme), com prevalência que varia de 5% a 20%, dependendo da população estudada e do critério diagnóstico empregado. É definida como uma doença multifatorial e um distúrbio endócrino, caracterizada por um desequilíbrio hormonal na mulher. A SOP apresenta uma combinação de alterações, incluindo: 1. Alterações Hiperandrogênicas (clínicas ou bioquímicas). 2. Anovulação Crônica (ou oligo-ovulação). 3. Ovários com Múltiplos Cistos localizados na região subcapsular e hipertrofia do estroma. A SOP também é considerada uma doença metabólica, pois, além das manifestações ginecológicas, pode cursar com resistência à insulina (RI), alterações lipídicas, Diabetes Mellitus (DM), obesidade e Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). Etiopatogenia A etiologia da SOP é complexa e multifatorial, ainda não estando completamente esclarecida. Envolve a influência de predisposição genética e fatores ambientais. É difundida de forma altamente hereditária, com a alteração hormonal sendo observada ainda no ambiente uterino. Fatores de risco ➔ Componentes Genéticos envolvidos. ➔ Fatores Metabólicos pré e pós-natais. ➔ Distúrbios Endócrinos Hereditários (como resistência à insulina e DM tipo II). ➔ Obesidade/Sobrepeso: A obesidade está fortemente associada à SOP, sendo um achado frequente que potencializa as manifestações da síndrome. Fatores Genéticos e Agregação Familiar A SOP é considerada atualmente um distúrbio multigênico complexo em sua etiologia, e não mais um padrão de herança monossômica dominante. Estudos genômicos (GWAS) têm identificado alterações em múltiplos loci associados à síndrome. Genes Envolvidos: Genes reguladores de vias biológicas de transporte de substância transmembrana, e de regulação de endocitose e reciclagem de receptores têm sido implicados na fisiopatologia. O excesso de androgênios, central para a SOP, inibe a aromatase (codificada pelo gene CYP19A1) nas células da teca. Fisiopatologia da SOP A Resistência à Insulina (RI) é fundamental na fisiopatologia da SOP. O mecanismo fisiopatológico principal envolve a produção excessiva de androgênios e a disfunção ovulatória, decorrente da desregulação do eixo Hipotálamo-Hipófise-Ovariano (HHO): Hipersecreção de LH: O hiperandrogenismo causa alterações na programação da regulação do eixo HHO, interferindo na sensibilidade do hipotálamo ao feedback do estrogênio e da progesterona. Isso resulta em uma secreção atípica de GnRH, que determina a secreção de pulsos anárquicos de gonadotrofinas, caracterizada pela hipersecreção de Hormônio Luteinizante (LH). Hiperandrogenismo Ovariano: O excesso de LH hiperestimula as células da teca do ovário, levando à produção de androgênios em níveis suprafisiológicos. Anovulação Crônica e Morfologia Policística: O ambiente intraovariano hiperandrogênico provoca a parada do desenvolvimento folicular. Múltiplos folículos são recrutados, mas não atingem a maturação completa, permanecendo retidos em estágio intermediário (2–9 mm), o que gera a morfologia policística dos ovários. A anovulação resultante causa a oligo-amenorreia e infertilidade. Fatores Intraovarianos O crescimento folicular parcial leva à alta produção de Inibina pela população de folículos antrais em crescimento, característica da SOP. Isso, por sua vez, faz com que os valores do Hormônio Folículo-Estimulante (FSH) estejam, provavelmente, próximos ao limite inferior da normalidade. Quadro clínico e critérios diagnóstico O quadro clínico da SOP é heterogêneo. As manifestações mais características decorrem do excesso de androgênios circulantes. Disfunção Menstrual/Oligo-amenorreia: Atraso menstrual com ciclos longos ou ausência de menstruação por 90 dias ou mais, ou a ocorrência de menos de 9 ciclos menstruais em um ano. Acomete 60% a 85% das pacientes. Hiperandrogenismo Clínico: Presente em 80% a 85% das pacientes: Hirsutismo: Crescimento de pelos terminais em áreas androgênio-dependentes. É a queixa mais frequente (70% a 80%). Acne e Pele Oleosa (Seborreia). Alopecia (queda de cabelo de padrão androgênico). Sinais de virilização (clitoromegalia e engrossamento da voz) são raros e não típicos, mas podem ocorrer em casos graves. Metabólicas: Obesidade, acantose nigricans, apneia do sono. Reprodutivas: Infertilidade (causa mais frequente de infertilidade anovulatória, prevalência estimada de 75%). Critérios Diagnósticos (Consenso de Rotterdam) O Consenso de Rotterdam (2003/2012), publicado pela ASRM e ESHRE, é o protocolo mais amplamente utilizado e flexível. O diagnóstico de SOP em mulheres adultas requer a presença de pelo menos 2 dos 3 critérios listados abaixo, após a exclusão de outras causas de hiperandrogenismo: Oligo-amenorreia ou Anovulação Crônica: Presença de 9 ciclos ou menos no período de um ano. Hiperandrogenismo Clínico e/ou Laboratorial: ➔ Clínico: Presença de hirsutismo (Índice de Ferriman-Gallwey), acne e/ou alopecia de padrão androgênico. ➔ Laboratorial: Elevação de pelo menos um androgênio sérico (Testosterona total, Androstenediona, SDHEA). Morfologia Ovariana Policística (MOP) à Ultrassonografia (US): Presença de 12 ou mais folículos antrais (medindo entre 2 a 9 mm de diâmetro) em pelo menos um dos ovários, e/ou volume ovariano maior ou igual a 10 cm³. Diagnóstico em Adolescentes: É mais difícil devido à sobreposição de sintomas com as mudanças fisiológicas da puberdade. O Consenso de Rotterdam de 2012 sugeriu que, para adolescentes (2 anos pós-menarca até 19 anos incompletos), os três critérios de Rotterdam deveriam estar presentes. O diagnóstico de ovários policísticos por ultrassom não é recomendado como ferramenta diagnóstica na adolescência, e o diagnóstico deve ser protelado após os 18 anos. Fenótipos de Rotterdam Com base nos critérios de Rotterdam, as pacientes podem ser agrupadas em 4 fenótipos: Fenóti po Oligo- ou Amenorré ia Hiperand rogenis mo Ovários Policísti cos (USG) A Sim (+) Sim (+) Sim (+) B Sim (+) Sim (+) Não (-) C Não (-) Sim (+) Sim (+) D Sim (+) Não (-) Sim (+) Exame clínicos e de imagem O diagnóstico da SOP é quase sempre clínico, focando na irregularidade menstrual e no hiperandrogenismo clínico. Exames Clínicos Anamnese: Histórico de obesidade na infância e detalhes da puberdade (telarca, pubarca, menarca). Índice de Ferriman-Gallwey: Escala para quantificação de pelos em nove áreas androgênio-dependentes (0 a 4 pontos por área), utilizada para nortear a avaliação do hirsutismo. Valores de corte variam por etnia (4-6). Exames Laboratoriais (Bioquímicos e Hormonais) A propedêutica diagnóstica inclui a investigação metabólica e bioquímica, sobretudo em pacientes com sobrepeso e obesas, buscando fatores de risco cardiovascular. Hormônios Sexuais/Eixo HHO: A dosagem de LH não é essencial, pois tem baixo valor preditivo (menos de 50% das pacientes têm LH elevado em dosagem isolada). O FSH estará provavelmente próximo ao limite inferior da normalidade, devido à alta produção de Inibina. Androgênios: Testosterona total e livre, Androstenediona, Sulfato de Deidroepiandrosterona (SDHEA). Outros para Diagnóstico Diferencial: ● Prolactina (PRL). Espera-se que esteja normal, mas pode estar elevada em cerca de 10% dos casos. ● Hormônio Tireoestimulante (TSH). ● 17-alfa-hidroxiprogesterona (17-OHP) (para excluir Hiperplasia Adrenal Congênita). ● Teste de gravidez (βHCG). Rastreio Metabólico: Avaliação do metabolismo glicídico e lipídico (Glicemia, Triglicerídeos, HDL-colesterol). Exames de Imagem Ultrassonografia (US): Utilizada parao critério morfológico (MOP). Requer a presença de folículos antrais (2-9 mm) e/ou volume ovariano 10 cm³. Nota: O uso do Hormônio Anti-Mulleriano (HAM) como substituto da ultrassonografia não é recomendado, pois os estudos não estabelecem pontos de corte conclusivos para positividade, apesar de mostrar boa correlação com a contagem de folículos e o volume ovariano. Tratamento da síndrome dos ovários policísticos O tratamento é centrado nas queixas atuais do paciente e na prevenção de consequências a longo prazo. A abordagem terapêutica deve ser composta por uma equipe multiprofissional. Tratamento Não Medicamentoso (Ministério da Saúde) Modificações do Estilo de Vida (MEV) Devem ser sempre recomendadas para todas as pacientes: Dieta balanceada e prática regular de exercícios. Redução do Peso Corporal: Recomendável para pacientes com sobrepeso ou obesidade, especialmente se associadas a comorbidades metabólicas. A redução ponderal é associada a benefícios quase unânimes em parâmetros hormonais, metabólicos (perfil lipídico e glicemia), hirsutismo, ciclicidade menstrual e fertilidade. Cirurgia Bariátrica (CB): Pode ser indicada para portadoras de SOP com IMC > 35 kg/m² que falharam no tratamento não-cirúrgico para obesidade, demonstrando eficácia a curto prazo em parâmetros clínicos, laboratoriais, reprodutivos e metabólicos. Tratamento Farmacológico (Ministério da Saúde) Os fármacos preconizados pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde incluem: Anticoncepcionais Hormonais Combinados (AHC/COC): Etinilestradiol mais levonorgestrel. Constituem a primeira escolha para o tratamento de manifestações androgênicas (hirsutismo, acne) e para regularizar ciclos menstruais e proteger o endométrio. Antiandrogênios: Ciproterona (50 mg). Fármacos antiandrogênicos (ciproterona, espironolactona, finasterida) podem ser usados em associação aos COCs, especialmente em casos graves ou quando a resposta ao COC isolado é insuficiente. Progestogênios: Acetato de medroxiprogesterona (10 mg) e Noretisterona (0,35 mg). Sensibilizador da ação de insulina: Metformina (500/850 mg). MECANISMOS E FORMA DE USO DA METFORMINA E MIO-INOSITOL Tanto a metformina quanto o mio-inositol são sensibilizadores de insulina, indicados devido ao papel fundamental da Resistência à Insulina na fisiopatologia da SOP. Metformina A metformina reduz os níveis de insulina e de androgênios. Melhora as taxas de nascidos vivos e de ovulação quando usada isoladamente ou em conjunto com o citrato de clomifeno no tratamento da infertilidade. Melhora o hiperandrogenismo laboratorial. Efeitos Limitações: Não é indicada como monoterapia para o hirsutismo. Seus efeitos na melhora dos ciclos menstruais são pouco previsíveis. Não altera significativamente o perfil lipídico, glicemia de jejum, pressão arterial, peso ou IMC. Indicações e Uso: Dose: Deve ser utilizada na dose de 1.000 a 2.500 mg. Administração: Deve ser iniciada com doses mais baixas, usadas em conjunto com alimentos, para minimizar efeitos colaterais (principalmente gastrointestinais) e aumentar a adesão. Duração: Em casos de alterações reprodutivas, a metformina deve ser usada até a concepção. Para prevenção de consequências metabólicas de longo prazo, sugere-se reavaliação periódica e continuação em uso contínuo. Recomendada na prevenção de DM tipo 2 em pacientes com estados pré-diabéticos, síndrome metabólica e desejo gestacional. Mio-Inositol O mio-inositol é um sensibilizador de insulina comercializado como suplemento alimentar. Sua ação visa a melhoria do desbalanço hormonal intraovariano, em vez de atuar como indutor direto da ovulação. Pode ter efeito positivo em alguns padrões metabólicos, diminuir o hiperandrogenismo laboratorial e promover melhora no padrão ovulatório. As evidências sugerem que os inositois, quando prescritos devido a alterações metabólicas, podem ser mais eficazes que a metformina isolada nas manifestações hiperandrogênicas. Uso: A dose preconizada é de 2g a 4g (pó) ou 1,2g (cápsulas gelatinosas) ao dia. Formulações frequentemente incluem ácido fólico ou folato. Associação: A associação de mio-inositol e D-quiro-inositol (proporção 40:1) parece conferir benefícios nos tratamentos de infertilidade, agindo o mio-inositol como sensibilizador de insulina e o DQI como inibidor de aromatase. Comorbidades associadas à SOP A SOP está frequentemente associada a diversos distúrbios metabólicos e psicossociais, que aumentam o risco a longo prazo. Comorbidades Metabólicas e Cardiovasculares Resistência à Insulina (RI) e Diabetes: A RI e a hiperinsulinemia são achados frequentes. A SOP está associada a maior risco de DM tipo 2 e intolerância à glicose. Síndrome Metabólica (SM): Frequentemente associada à SOP. A SM engloba anormalidades clínicas e laboratoriais associadas a um risco maior de doenças cardiovasculares, incluindo obesidade abdominal, alteração do metabolismo de carboidratos, dislipidemia, inflamação, disfunção endotelial e HAS. Critérios NCEP-ATP III (para SM): Ter três dos cinco critérios: circunferência abdominal > 88 cm (ou 80 cm para asiáticas orientais), HDL 150 mg/dL, pressão arterial sistêmica > 135/85 mmHg ou uso de anti-hipertensivos, e glicose > 100 mg/dL. Dislipidemia: A anormalidade lipídica mais frequente é a diminuição do HDL-colesterol e o aumento de triglicerídeos (padrão aterogênico). Mulheres obesas com SOP têm um perfil lipídico mais aterogênico e risco de disfunção endotelial. Doenças Cardiovasculares (DCV): A SOP está associada a maior risco de DCV clínicas e subclínicas a longo prazo. Há evidências confiáveis que associam a SOP a um maior risco de eventos tromboembólicos (TEV). Complicações Gestacionais e Perinatais A SOP aumenta o risco de complicações na gravidez: Diabetes Gestacional (DMG): Risco aumentado em 2,8 vezes. Síndromes Hipertensivas da Gestação: Risco aumentado em 2,0 a 4,0 vezes. Incluem Hipertensão Gestacional e Pré-Eclâmpsia (PE). Complicações Neonatais: Risco aumentado em 2,3 vezes para internação em UTI neonatal. Aborto: A SOP está associada ao aumento do risco de aborto. Prole: O ambiente intrauterino hiperinsulinêmico pode induzir a reprogramação fetal. Há aumento significativo do desenvolvimento de obesidade infantil na prole de pacientes SOP. Comorbidades Psicossociais A SOP pode levar à piora da qualidade de vida (QV) e da função sexual. Transtornos Psicológicos: Maior prevalência de transtornos alimentares, depressão e ansiedade. Fatores de Piora da QV: ● Distúrbios menstruais ● Hiperandrogenismo (hirsutismo e acne) ● Infertilidade e obesidade são os sintomas mais frequentemente relacionados à redução da QV. Mais de 30% das mulheres com SOP podem apresentar distúrbios relacionados à sexualidade, frequentemente associados à aparência física (obesidade e hirsutismo) e às alterações hormonais. Etiopatogenia Fatores de risco ➔Componentes Genéticos envolvidos. Fatores Genéticos e Agregação Familiar Fisiopatologia da SOP Fatores Intraovarianos Quadro clínico e critérios diagnóstico Critérios Diagnósticos (Consenso de Rotterdam) Fenótipos de Rotterdam Exame clínicos e de imagem O diagnóstico da SOP é quase sempre clínico, focando na irregularidade menstrual e no hiperandrogenismo clínico. Exames Clínicos Exames Laboratoriais (Bioquímicos e Hormonais) Exames de Imagem Tratamento da síndrome dos ovários policísticos O tratamento é centrado nas queixas atuais do paciente e na prevenção de consequências a longo prazo. A abordagem terapêutica deve ser compostapor uma equipe multiprofissional. Tratamento Não Medicamentoso (Ministério da Saúde) Tratamento Farmacológico (Ministério da Saúde) MECANISMOS E FORMA DE USO DA METFORMINA E MIO-INOSITOL Metformina Mio-Inositol Comorbidades Metabólicas e Cardiovasculares Complicações Gestacionais e Perinatais Comorbidades Psicossociais