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ERGONOMIA APLICADA Dulce América de Souza Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as relações do homem com o meio edificado e os seus componentes. Dimensionar os espaços de acordo com as suas funções e normatizações. Projetar situações de ergonomia de mobiliários e equipamentos. Introdução O homem estabelece relações de ordem prática e subjetiva com os espaços habitados. Há uma dimensão sensorial da arquitetura que é de- terminada pela qualidade dos ambientes. Do ponto de vista dimensional, as diversas escalas do ambiente físico determinam nossas apropriações e nosso comportamento em um determinado espaço ou edifício. Do microambiente ao ambiente global, as referências dimensionais são constantes na vida humana — elas nos situam no espaço e conferem qualidades ergonômicas aos diversos ambientes. Neste capítulo, você vai estudar as percepções de escala que con- firmam o pressuposto teórico do homem como padrão de referência dimensional. Você também vai ler a respeito da ABNT NBR 15575:2013, que padroniza o patamar mínimo de desempenho das edificações habi- tacionais, incluindo um item exclusivo para os parâmetros dimensionais. A partir desses conhecimentos, você vai analisar aspectos ergonômicos, identificando as determinações da Norma e as prescrições técnicas refe- renciadas pela teoria em situações de projeto arquitetônico. Relações práticas e subjetivas entre o homem e o ambiente construído No livro Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos, Pallasmaa (2011, p. 16-17) descreve que “A arquitetura é nosso principal instrumento de relação com o espaço e o tempo, e para dar uma medida humana a essas dimensões, ela domestica o espaço ilimitado e o tempo infi nito, tornando-o tolerável, habitável e compreensível para a humanidade”. Nossas percepções espaciais são determinadas pelos elementos da paisagem, seja ela edifi cada ou não. No ambiente construído, a primeira sensação desencadeada é a relação de escala. Existem, no entanto, outros níveis de impressão causados nas pessoas pelos espaços construídos: eles se referem à dimensão afetiva da arquitetura. Neufert (2013, p. 18) admite o domínio sensorial da arquitetura quando afirma que “O homem não é apenas um corpo vivo que ocupa e utiliza um espaço; a parte afetiva não tem menos importância. Seja qual for o critério ao dimensionar, pintar, iluminar ou mobiliar um local, é fundamental considerar a ‘emoção’ que ele cria em quem o ocupa”. Para tanto, segundo o autor, a única escala referencial deve ser o corpo humano. Os arquitetos devem conhecer as dimensões tanto dos objetos e equipamentos quanto dos espaços mínimos que o homem utiliza diariamente, para conferir comodidade, conveniência e experiências sensoriais agradáveis aos usuários dos seus projetos. A partir das decisões de projeto, o arquiteto cria as condições para que o usuário experimente o ambiente. A experiência, na arquitetura, dá-se em relação ao espaço, que, segundo Ching (2014, p. 80), “[...] é o vazio existente entre as formas”. O projeto arquitetônico configura criteriosamente o espaço para acomodar diversas funções; o espaço, então, confere propósito a uma edificação. O programa de necessidades de um projeto arquitetônico é uma importante etapa do estudo preliminar; nele, o arquiteto elenca os ambientes e os pré-dimensiona para atender a todas as funções da edificação (ou do projeto urbano). A funcionalidade de um determinado ambiente é determinada por algu- mas variáveis, dentre elas o tamanho e a proporção do espaço a ele destinado, conforme leciona Ching (2014). Para a ergonomia interessam, sobretudo, as relações de escala física, embora elas não sejam as únicas responsáveis por conferir qualidades espaciais a um projeto. A apropriação do espaço físico define diferentes comportamentos humanos: nos sentimos e agimos Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos2 de maneira diferente em um espaço pequeno ou restrito e em um espaço amplo ou livre. Moser (2018) relaciona as diferentes apropriações humanas com os limites físicos do espaço (menor, mais estreito ou mais baixo) e com as restrições comportamentais. Uma escola, uma igreja, um hospital, um shopping ou um parque são locais que definem padrões atitudinais distintos. No contexto do ambiente físico, as escalas podem ser definidas em quatro níveis, conforme mostra o Quadro 1. Fonte: Adaptado de Moser (2016). Nível 1: microambiente Espaço privativo; casa; alojamento; espaço de trabalho. Nível individual e familiar. Nível 2: mesoambiente Espaços compartilhados semipúblicos; hábitat coletivo; condomínio; prédios corporativos; vizinhança; parques; espaços verdes. Nível 3: macroambiente Ambientes coletivos públicos; bairros; cidades; aldeias; campo. Nível 4: ambiente global Ambiente na sua totalidade (construído e natural). Quadro 1. Ambiente físico Em relação ao Quadro 1, os níveis que representam o espaço privativo — tanto residencial quanto laboral — e os espaços compartilhados semipúblicos são aqueles aos quais conseguimos estabelecer critérios dimensionais mais precisos, a partir do amparo normativo e das informações técnicas disponíveis. A Figura 1 exemplifica as percepções de escala relacionadas ao microam- biente e ao mesoambiente. As escalas monumentais (Figura 1a) conferem proporções de amplitude (vertical e/ou horizontal) aos espaços edificados, as escalas intermediárias (Figura 1b) estabelecem condições de transição entre o meso e o microambiente, ao passo que a escala humana pode ser refletida nos interiores habitacionais (Figura 1c), onde o homem é a medida de referência para os equipamentos e o mobiliário, conforme leciona Hertzberger (1999). 3Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos Figura 1. Escalas de referência. Fonte: (a) Galeria... ([2018], documento on-line); (b) e (c) Shutterstock, 2018. Para que os ambientes sejam adequados ao uso, devem conter espaços com área, dimensões e equipamentos que permitam o desenvolvimento das funções previstas no programa, bem como o acesso conveniente aos espaços Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos4 que os constituem. O dimensionamento dos espaços projetados é orientado por normatizações e orientações técnicas condizentes com suas funções. Orientações para o dimensionamento de espaços: a habitabilidade na ABNT NBR 15575:2013 A defi nição de espaços adequados às funções e aos usuários em projetos arqui- tetônicos prevê o conhecimento da antropometria, das dimensões do mobiliário e dos equipamentos como informações técnicas essenciais. O arcabouço teórico resultante dos estudos publicados apoia os arquitetos na busca pela funcionali- dade e adequação ergonômica dos ambientes projetados. Além de se apoiar na bibliografi a referencial, todos os projetos devem atender à legislação municipal e estadual e às normas técnicas publicadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que estabelecem critérios para a defi nição da dimensão física dos equipamentos e do mobiliário para diversos usos. Com a redução dos espaços destinados à habitação nas últimas décadas, estudos foram desenvolvidos para auxiliar os arquitetos quanto à adequação de leiautes e dimensionamento. Esse fenômeno é global e envolve as habita- ções de interesse social (HIS) e demais sistemas habitacionais denominados compactos, conforme lecionam Pedro et al. (2011). No Brasil, o aumento significativo da produção de HIS recebeu a contribuição da ABNT NBR 15575 (“Edificações habitacionais — Desempenho”), publicada em 2013. A Norma define níveis mínimos de desempenho para qualquer edificação de uso habitacional (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013). Vejamos a nota nº. 1 da ABNT NBR 15575:2013(ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013, documento on-line): NOTA 1: Esta Norma não estabelece dimensões mínimas de cômodos, deixando aos projetistas a competência de formatar os ambientes da habitação segundo o mobiliário previsto, evitando conflitos com legis- lações estaduais ou municipais que versam sobre dimensões mínimas dos ambientes. 5Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos A ABNT NBR 15575:2013 é dividida em seis partes que tratam de requisitos gerais e específicos (sistemas estruturais, piso, vedações verticais internas e externas, cobertura e sistemas hidrossanitários). Na Parte 1, intitulada “Re- quisitos gerais”, a Norma apresenta uma lista de requisitos do usuário, “[...] utilizada como referência para o estabelecimento dos requisitos e critérios” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013, documento on-line). São eles: segurança, habitabilidade e sustentabilidade, compostos pelos requisitos expostos no Quadro 2. Fonte: Adaptado de Associação Brasileira de Normas Técnicas (2013). Segurança Segurança estrutural Segurança contra fogo Segurança no uso e na operação Habitabilidade Estanqueidade Desempenho técnico Desempenho acústico Desempenho lumínico Saúde, higiene e qualidade do ar Funcionalidade e acessibilidade Conforto tátil e antropodinâmico Sustentabilidade Durabilidade Manutenibilidade Impacto ambiental Quadro 2. Requisitos do usuário Os parâmetros dimensionais são definidos no requisito identificado como “funcionalidade e acessibilidade”, para o qual são apresentados outros quatro requisitos relativos aos componentes, apresentados no Quadro 3. Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos6 Fonte: Adaptado de Associação Brasileira de Normas Técnicas (2013). Funcionalidade e acessibilidade Altura mínima de pé-direito Disponibilidade mínima de espaços para uso e operação da adaptação Adequação para pessoas com deficiências físicas ou mobilidade reduzida Possibilidade de ampliação da unidade habitacional Quadro 3. Composição do requisito denominado funcionalidade e acessibilidade Destacamos que o nível de atendimento aos critérios dimensionais es- tabelecidos pela Norma apresenta um patamar mínimo de desempenho; os níveis intermediário e superior possuem caráter facultativo. Isso significa que o maior desafio para os arquitetos e projetistas é atender ergonomicamente à disponibilidade mínima de espaços para as atividades da habitação; os demais níveis podem ser alcançados com menor dificuldade. O Requisito 16.2, intitulado “Disponibilidade mínima de espaços para uso e operação da habitação”, tem como objetivo “[...] apresentar espaços mínimos dos ambientes da habitação compatíveis com as necessidades humanas” (ASSOCIA- ÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013, documento on-line). Para atender à proposição, o critério estabelecido é: “Para os projetos de arquitetura de unidades habitacionais, sugere-se prever, no mínimo, a disponibilidade de espaço nos cômodos da edificação habitacional para colocação e utilização dos móveis e equipamentos-padrão listados no anexo F” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013, documento on-line). A Norma apresenta como condição mínima a necessidade de considerarmos a dimensão mobiliário/equipamento e, ainda, o seu espaço de uso, indicados no anexo mencionado. O Anexo G — “Dimensões mínimas e organização funcional dos espaços” — visa a “[...] apresentar como sugestão algumas das possíveis formas de organização dos cômodos e dimensões compatíveis com as necessidades humanas” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013, documento on-line). O Quadro 4 traz as informações contidas na Tabela 2 do Anexo F da Norma. 7Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos Ambiente Mobiliário Circulação (m) ObservaçõesMóvel ou equipamento Dimensões (m) L P Sala de estar Sofá de três luga- res com braço 1,70 0,70 Prover espaço de 0,50 na frente do assento, para sentar, levantar e circular. Largura mínima da sala de estar deve ser 2,40 m. Número mínimo de assentos determinado pela quantidade de habitantes da unidade, considerando o número de leitos. Sofá de dois lugares com braço 1,20 0,70 Poltrona com braço 0,80 0,70 Sofá de três luga- res sem braço 1,50 0,70 Sofá de dois lugares sem braço 1,00 0,70 Poltrona sem braço 0,50 0,70 Estante/armário para TV 0,80 0,50 0,50 Espaço para o mó- vel obrigatório. Mesinha de cen- tro ou cadeira - - - Espaço para o móvel opcional. Sala de estar/ jantar sala de jantar/copa copa/ cozinha Mesa redonda para 4 lugares D = 0,95 - Circulação mínima de 0,75 a partir da borda da mesa (es- paço para afastar a cadeira e levantar). Largura mínima da sala de estar/jantar e da sala de jantar (isolada) deve ser de 2,40 m. Mínimo: 1 mesa para 4 pessoas. Admite-se leiaute menor da mesa encostada na parede, desde que haja espaço para seu afasta- mento, quando da utilização. Mesa redonda para 6 lugares D = 1,20 - Mesa quadrada para 4 lugares 1,00 1,00 Mesa quadrada para 6 lugares 1,20 1,20 Mesa retangular para 4 lugares 1,20 0,80 Mesa retangular para 6 lugares 1,50 0,80 Quadro 4. Dimensões mínimas de mobiliário e circulação (Continua) Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos8 Ambiente Mobiliário Circulação (m) ObservaçõesMóvel ou equipamento Dimensões (m) L P Cozinha Pia 1,20 0,50 Circulação mínima de 0,85 fron- tal à pia, fogão e geladeira. Largura mínima da cozinha: 1,50 m. Mínimo: pia, fogão, geladeira e armário. Fogão 0,55 0,60 Geladeira 0,70 0,70 Armário sob pia e gabinete - - - Espaço obrigatório para móvel. Apoio para refeição (2 pessoas) - - - Espaço opcional para móvel. Dormitório casal (principal) Cama de casal 1,40 1,90 Circulação mínima entre o mobiliá- rio e/ou paredes de 0,50. Mínimo: 1 cama, 2 criados-mudos e 1 guarda-roupa. Admite-se apenas 1 criado- mudo, quando o 2º interferir na abertura de portas do guarda-roupa. Criado-mudo 0,50 0,50 Guarda-roupa 1,60 0,50 Dormitório para 2 pessoas (2º dormitório) Camas de solteiro 0,80 0,90 Circulação mínima entre as camas de 0,60. Demais circu- lações: mínimo de 0,50. Mínimo: 2 camas, 1 criado-mudo e 1 guarda-roupa. Criado-mudo 0,50 0,50 Guarda-roupa 1,50 0,50 Mesa de estudo 0,80 0,60 Quadro 4. Dimensões mínimas de mobiliário e circulação (Continuação) (Continua) 9Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos O rol programático de uma unidade básica de habitação apresentado no Quadro 4 apresenta algumas incongruências, segundo Pereira (2013). Uma delas diz respeito ao número de usuários da unidade: é apontado apenas um morador no 3º dormitório, apesar de ser prática comum a adoção de dois moradores por dormitório. Também no espaço destinado à sala de jantar é Ambiente Mobiliário Circulação (m) ObservaçõesMóvel ou equipamento Dimensões (m) L P Dormitório para 1 pessoa (3º dormitório) Cama de solteiro 0,80 1,90 Circulação mínima entre o mobiliá- rio e/ou paredes de 0,50. Mínimo: 1 cama, 1 guarda-roupa e 1 criado-mudo.Criado-mudo 0,50 0,50 Armário 1,20 0,50 Mesa de estudo 0,80 0,60 Banheiro Lavatório 0,39 0,29 Circulação mínima de 0,40 frontal ao lavatório, vaso e bidê. Largura mínima do banheiro: 1,10 m, exceto no box. Mínimo: 1 lavatório, 1 vaso e 1 box. Lavatório com bancada 0,80 0,55 Vaso sanitário (caixa acoplada) 0,60 0,70 Vaso sanitário 0,60 0,60 Box quadrado 0,80 0,80 Box retangular 0,70 0,90 Bidê 0,60 0,60 Área de serviço Tanque 0,52 0,53 Circulação mínima de 0,50 frontal ao tanque e máquina de lavar. Mínimo: 1 tanque e 1 máquina (tanque de no mínimo 20 litros) Máquina de lavar roupa 0,60 0,65 Fonte: Adaptado de AssociaçãoBrasileira de Normas Técnicas (2013). Quadro 4. Dimensões mínimas de mobiliário e circulação (Continuação) Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos10 requerido um assento por número de leitos. Mesmo considerando apenas um único morador no 3º dormitório, a Norma permite uma mesa de refeições com, no mínimo, quatro assentos, o que não atenderia ao total de cinco moradores na unidade. Causa curiosidade a definição da mesa de estudos como equipamento opcional nos dormitórios, mesmo considerando habituais algumas atividades como estudar, ler, escrever, reparar e guardar objetos diversos. Embora trate de dimensões mínimas voltadas à HIS, devemos considerar as prescrições da ABNT NBR 15575:2013 como um importante instrumento para dimensionar espaços reduzidos, como os apartamentos compactos largamente produzidos nas grandes cidades. Um exemplo que corrobora com a dimensão de circulação para cozinhas apresentada no Quadro 4 é mostrado na Figura 2. Figura 2. Espaço para as atividades da cozinha (circulação): (a) geladeira, (b) armário de cozinha e (c) prateleira baixa de cozinha. Fonte: Adaptada de Boueri Filho (2008). O Quadro 4 determina que a dimensão livre mínima à frente dos equi- pamentos (pia, fogão e geladeira) seja de, no mínimo, 0,85 m. A Figura 2 apresenta, para cada situação, os níveis mínimo, recomendado e ótimo. À frente da geladeira, uma dimensão de 0,70 m atende basicamente ao manejo de abrir a porta; a adoção da distância estabelecida na Norma garantiria mais 11Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos conforto ao usuário. Para acessar armários e prateleiras inferiores da cozinha, a dimensão de 0,80 m é ainda limitada à totalidade dos movimentos humanos; a dimensão de 0,85 m (prevista na NBR) é aparentemente ainda restritiva, sendo recomendado um espaço livre de 0,90 m. Para dimensionar os espaços de acordo com suas funções, devemos conhecer as dimensões dos equipamentos e/ou do mobiliário, bem como o espaço necessá- rio para desenvolver as diversas atividades envolvidas. Acomodar os itens em um leiaute funcional — que respeite as áreas mínimas exigidas — é uma atribuição desafiadora para o arquiteto; no entanto, devemos sempre considerar o mínimo exigido como uma “meta”, não como um “parâmetro” limite. As restrições espaciais normalmente ocorrem pelo orçamento disponível determinado pelo cliente; nossa responsabilidade é atender a seus anseios com base na legislação pertinente, visando obter a melhor ergonomia do ambiente construído. Espaços de atividades que contribuem para situações ergonômicas dos projetos arquitetônicos Os ambientes internos são projetados como locais de movimento, atividade e repouso humano. “Deve haver, portanto, um ajuste entre a forma e as di- mensões do espaço interior e nossas próprias dimensões corporais”, conforme leciona Ching (2013, p. 54). A forma e o dimensionamento das habitações normalmente são confi gurados em relação às especifi cidades funcionais e aos padrões de equipamentos e mobiliário; cabe ao arquiteto organizar es- pacialmente as funções, de forma a garantir o perfeito funcionamento dos espaços habitados. Para efeito de exemplifi cação da aplicação das normas e dos padrões dimensionais referenciais, analisaremos a seguir duas situações residenciais com usos distintos: a área de trabalho das cozinhas e o espaço para repouso dos dormitórios. Ergonomia nas cozinhas Uma das áreas que deve ser cuidadosamente planejada é a cozinha, onde o dimensionamento é um fator importantíssimo, pois os equipamentos não são ajustáveis. Um projeto arquitetônico deve facilitar ao máximo o bom funcio- namento da cozinha, não somente com a aplicação das medidas recomendadas pelas normas e prescrições técnicas, mas também por meio de uma adequada setorização dos equipamentos. O conhecido triângulo de trabalho (ou trian- Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos12 gulação) é um percurso ininterrupto resultante da movimentação entre as três zonas de trabalho — geladeira, pia e fogão —, conforme leciona Mancuso (2004). O projeto deve otimizar a triangulação, reduzindo ou otimizando as distâncias e liberando esse espaço de qualquer obstrução, como exemplifi ca a Figura 3. Figura 3. Triângulo de trabalho. Fonte: Adaptada de Cozinha... (2016). A ergonomia em uma cozinha pode ser alcançada a partir de algumas orientações, conforme sugere Mancuso (2004) quando define os centros de trabalho. Estes são resultantes das tarefas desenvolvidas nas cozinhas, cuja correta coordenação depende da eficiência do projeto; são elas: a) Recepção e armazenagem de alimentos: deve estar situada perto da entrada de serviço e ter uma mesa ou bancada para depositar as compras, antes de separá-las, limpá-las e guarda-las; b) Cocção: fogão e forno de micro-ondas. por especificação dos fabricantes, fogão e geladeira não devem estar encostados. As bocas do fogão devem estar junto à mesa de trabalho e no mesmo nível, para que se possa manipular com facilidade as panelas quentes; c) Servir: nas cozinhas compactas e conjugadas pode ser o passa-pratos; d) Armazenagem: os armários altos não deverão ter mais de 30 cm de profundi- dade e o espaço entre a bancada de trabalho e os armários altos deve ser de 60 13Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos cm. Quando se tem armários altos “L”, formando cantos, é conveniente se adotar prateleiras giratórias. É conveniente que os armários fiquem deslocados do piso aproximadamente 10 cm; facilita a limpeza e não permite a entrada de água. e) Preparação de comidas e limpeza: são dois centros relacionados entre si que consistem na mesa de trabalho ou bancada. A profundidade ideal da bancada é de 60 cm, a altura é 90 cm. Em geral, se dimensionam os balcões de acordo com as medidas dos aparelhos para neles se encaixarem: fogão, lava-louças (MANCUSO, 2004, p. 51-54). As cozinhas tipo linear (Figura 4) são muito comuns em apartamentos compactos. É possível projetar uma cozinha funcional nesse formato; no entanto, é necessário um espaço mínimo de 80 a 90 cm entre a bancada de trabalho e a parede oposta, mais precisamente de 0,85 cm; é o que prevê a ABNT NBR 15575:2013 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013). Figura 4. Cozinha linear. Fonte: Adaptada de Cozinha... (2016). Em espaços menos compactos, o leiaute com bancadas paralelas nas duas paredes opostas funciona muito bem. Entre as bancadas, a circulação deve atender à distância mínima de 1,10 m, conforme leciona Mancuso (2004). Essa configuração prevê que centros de trabalho possam ser locados nas duas bancadas paralelas, e, portanto, as dimensões e o posicionamento dos equipamentos e do Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos14 mobiliário devem ser criteriosamente estudados. Supondo que em bancadas opostas sejam locados forno elétrico e fogão, ou fogão e geladeira, os espaços mínimos destinados à circulação central devem ser reconsiderados. Isso porque a circulação incorpora as atividades de manejo dos equipamentos, que devem ser executadas com máxima segurança, conforme mostra a Figura 5. Figura 5. Bancadas paralelas. Fonte: Adaptada de Panero e Zelnik (2008). A Figura 5 apresenta uma situação com dimensões recomendadas, com base na análise de Panero e Zelnik (2008, p. 162). Nela, a distância mínima entre as bancadas de trabalho opostas é de 121,9 cm; a zona de trabalho do forno embutido requer um espaço livre de 101,6 cm, adequado para acomodar o forno aberto e a máxima profundidade corporal do usuário. A figura tracejada indica que a medida livre de 101,6 cm não permitirá espaço para circulação caso os equipamentos dos dois lados da bancada estejam sendo usados ao mesmo tempo. Outro dado dimensional relativo à segurança na execução da tarefa de cocção é muito importante: a altura dosolhos. “Quanto a isso, a distância entre a parte superior do fogão até a parte inferior da coifa de exaustão deve permitir que as bocas posteriores do fogão sejam totalmente visíveis pelo usuário”, conforme lecionam Panero e Zelnik (2008, p. 162). Ergonomia nos dormitórios A função dos dormitórios abrange, essencialmente, as atividades de dormir e descansar; a elas estão associadas outras atividades complementares, como 15Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos ler, conversar em privado, assistir TV, estudar, arrumar e escolher roupas, vestir e despir roupas, entre outras. São as áreas mais privativas da habitação e possuem características dimensionais e confi gurações espaciais distintas em relação às particularidades dos usuários, conforme lecionam Pedro et al. (2011). Pedro et al. (2011, p. 15) classificam três sistemas de atividades que cons- tituem a função dormir/descanso: “Dormir/descanso de casal, dormir/des- canso duplo e dormir/descanso individual”. Comuns a todos os sistemas, há a variedade de funções exercidas nesse espaço íntimo e a limitação de espaço detectada na maioria das habitações atuais (normalmente, apartamentos). Muitas são as relações básicas de antropometria desconsideradas nos espaços de dormir que adotam as dimensões mínimas estabelecidas nos pro- gramas de HIS. Mancuso (2004, p. 36) observa: “Em geral demasiadamente pequenos, os dormitórios causam transtornos nos projetistas na medida em que estes não conseguem, muitas vezes, acomodar no local nem o estritamente necessário, quanto mais, sugerir novas propostas de uso”. Em apartamentos, as áreas de dormir giram em torno de 10 m² para solteiros e de 12 a 14 m² para casal; todos precisam de inúmeros equipamentos para atender com qualidade à diversidade de funções. Os espaços mínimos definidos pelas legislações municipais (Código de Obras e Edificações — COE), aliados às dimensões mínimas de mobiliário e circulação estabelecidas na NBR 15575, comprometem a usabilidade dos dormitórios. Exemplificando: o COE do Município de São Paulo determina que quartos de solteiro possuam área mínima de 5 m² e que seja possível a inscrição de um círculo com diâmetro de 2,00 m no piso (PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2017). Uma simulação em planta é apresentada na Figura 6. Figura 6. Dimensões mínimas para dormitórios (COE-SP). Fonte: Quartos.jpg ([2016], document on-line). Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos16 Retomando o instituído no Quadro 4 (Dimensões mínimas de mobiliário e circulação), a ABNT NBR 15575:2013 estabelece que no quarto de solteiro seja possível a colocação de, no mínimo, duas camas (0,80 × 1,90 m cada), com um criado mudo (0,50 × 0,50 m) entre elas, além de um guarda-roupa (1,50 × 0,50 m). O espaço entre as camas deve ter, no mínimo, 0,60 m, e as demais circulações, 0,50 m. Analisando a Figura 6, constatamos que as dimensões determinadas pelo COE-SP não atendem à exigência da ABNT NBR 15575:2013 quanto ao mobiliário mínimo exigido para quartos de solteiro (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2013). No entanto, um quarto de solteiro com 8 m² pode atender tanto ao quesito dimensões mínimas exigidas pelo COE do Município de São Paulo quanto ao disposto na ABNT NBR 15575:2013 em relação ao mobiliário mínimo. Vale ressaltar a importância de um leiaute com a melhor disposição dos móveis e equipamentos, para que, de fato, o quarto atenda à usabilidade necessária (Figura 7). Figura 7. Leiaute adequado para dimensões mínimas. Fonte: Quartos.jpg ([2016], document on-line). A Figura 7 apresenta o leiaute de um dormitório de solteiro com área aproximada de 8 m², acatando todas as prescrições da Norma quanto ao mobiliário e à dimensão das circulações. Embora resultando em um espaço restrito — inviabilizando as atividades de estudos, por exemplo —, o leiaute alcança o mínimo de ergonomia e usabilidade. 17Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos O equipamento básico dos dormitórios é a cama, que varia de dimen- são quanto ao modelo individual (solteiro) ou casal. Em relação às camas, destaca-se a necessidade de acesso a todo o perímetro do móvel para rea- lizar as tarefas de limpeza e arrumação. A Figura 8 ilustra as dimensões mínimas, recomendadas e ótimas para o espaço de atividades relacionado ao equipamento, tendo como referência as recomendações da literatura de ergonomia voltada à arquitetura. Figura 8. Dimensões de camas. Fonte: Pedro et al. (2011, p. 17). As dimensões expressas na Figura 8 podem ser confrontadas com as di- mensões adotadas nos projetos de HIS, cuja área mínima do dormitório é de 8 m², enquanto a dimensão mínima é de 2,50 m. Para um dormitório de casal, o mobiliário mínimo determinado na ABNT NBR 15575:2013 é constituído de uma cama, dois criados-mudos e um guarda-roupa. No Brasil, o modelo de casal de dimensão mínima possui 1,38 m de largura e é o mais utilizado nas HIS. Verificamos que, em relação à produção teórica referencial, há dis- paridade dimensional especialmente nos espaços destinados às atividades em torno do móvel. Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos18 Várias avaliações de qualidade no dimensionamento dos espaços da habita- ção são realizadas pelos institutos certificados e pelas universidades, havendo unanimidade em relação à pontuação reduzida nos dormitórios, conforme afirma Lapetina (2007, p. 53): Nos dormitórios a grande maioria teve a pontuação diminuída pois não há espaço para a arrumação das camas, ou seja, o ambiente não comporta o movimento da pessoa curvada para exercer esta atividade, ficando ainda mais agravada a capacidade de comportar o mobiliário e os equipamentos; neste caso, ressaltamos a cadeira /poltrona e a televisão, que são itens constantes na listagem, como almejado dentro dos dormitórios. As Figuras 9 e 10 apresentam as dimensões mínimas, recomendadas e ótimas para se realizar algumas das tarefas comuns nos espaços de dormir/ descanso, segundo as referências técnicas de arquitetura. Figura 9. Circular, arrumar e acessar o criado-mudo. Fonte: Pedro et al. (2011, p. 21). 19Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos Figura 10. Utilização do roupeiro e da cômoda. Fonte: Pedro et al. (2011, p. 22). A circulação mínima exigida pela ABNT NBR 15575:2013 entre o mobili- ário (cama de casal) e as paredes é de 50 cm, e entre duas camas é de 60 cm. Verificamos nas Figuras 9 e 10 que a funcionalidade dos dormitórios demanda espaços mais amplos. Na maioria dos casos, a execução das tarefas diárias de limpeza e arrumação invadem os espaços de uso dos guarda-roupas e demais mobiliários ou equipamentos, como as portas de acesso aos compartimentos. Uma importante constatação é a identificação da falta de espaço para as atividades acopladas aos dormitórios, especialmente quando se trata de quartos para duas pessoas. Em geral jovens, esses usuários utilizam o dormitório para realizar suas tarefas de escola, receber amigos, assistir TV e acessar computadores, dentre outras, conforme explica Lapetina (2007). Desenvolver projetos que atendam às necessidades dos usuários nas áreas privativas é um estimulante exercício para os arquitetos e designers. Com o domínio dos conhecimentos da ergonomia, podemos propor alternativas de mobiliários multifuncionais, flexíveis e adaptados dimensionalmente às múltiplas tarefas desenvolvidas nos espaços de dormir/repousar. As relações espaciais estabelecidas entre o homem e o meio suscitam uma revisão de alguns aspectos, em especial no que tange às dimensões restritas Relações entre as dimensões do homem, do mobiliário e dos equipamentos construídos20 das habitações. Por meio da aplicação da antropometria, constatamos que os dimensionamentos que respeitam o corpo e o comportamento humanos podem contribuir consideravelmente paraa melhoria da qualidade de vida nos espaços habitados. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15575-1: edificações habitacio- nais — desempenho. Parte 1: requisitos gerais. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2018. BOUERI FILHO, J. J. Projeto e dimensionamento dos espaços da habitação: espaço de atividades. São Paulo: estação das Letras e Cores, 2008. CHING, F. D. K. Arquitetura de interiores ilustrada. Porto Alegre: Bookman, 2013. CHING, F. D.K. Introdução à arquitetura. Porto Alegre: Bookman, 2014. COZINHA: como projetar? 3Hauss, 29 fev. 2016. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2018. GALLERIA Vittoria Emanuele II. Civitatis, Belo Horizonte, [2018]. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2018. HERTZBERGER, H. Lições de arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. LAPETINA, C. M. L. 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