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36.1 Diferenciando ética e moral Costuma-se, com muita habitualidade, tratar indistintamente os termos ética e moral. É neste sentido que é mister identificar a existência de claras distinções entre estes vocábulos, o que não pode ser feito sem uma prévia reflexão sobre o tema. O termo ética, em sua etimologia, revela que éthos (grego, singular) está ligado à ideia do hábito, daquilo que é fruto da ação reiterada humana, o que determina o modo de agir do indivíduo. Já o termo éthe (grego, plural) é o conjunto de hábitos ou comportamentos de grupos ou de uma coletividade, podendo corresponder, nesta acepção mais coletiva, aos próprios costumes. A tradição latina, ao traduzir éthos por mos (donde, moral), perverteu a origem etimológica ao confundir ética com moral. Define-se ética como sendo a capacidade de ação livre e autônoma do indi- víduo. Significa, acima de tudo, capacidade de resistência que o indivíduo tem em face das externas pressões advindas do meio (inclusive pressões morais ilegítimas). Somente o indivíduo pode praticar a ética, e, neste sentido, por vezes, ser ética significa confrontar a moral reinante, por vezes, estar de acordo com a moral reinante. Lembra-se aqui o julgamento de Sócrates, que, com seu pensar (sua ética), foi condenado pela maioria de votos da Assembleia de Atenas (moral coletiva) como um malfeitor da cidade. No entanto, a história o reabilitou como o mais importante símbolo do pensamento antigo! Define-se moral como o conjunto das sutis e, por vezes até mesmo não explícitas, manifestações de poder axiológico, capazes de constituir instâncias de sobredeterminação das esferas de decisão individual e coletiva. A moral, geralmente, se constitui por um processo acumulativo de experiências indivi- 36 DIREITO E ÉTICA: O COMPORTAMENTO HUMANO EM QUESTÃO 616 CURSO DE FILOSOFIA DO DIREITO • Bittar / Almeida duais, que vão ganhando assentimento geral, até se tornarem regras e normas abstratas (“Não matarás”; “Não darás falso testemunho”). Esta distinção, que já se tornou clássica no pensamento contemporâneo, retrata a tensão bipolar indivíduo/sociedade expressa na relação entre Sittli- chkeit e Moralität, advinda dos debates do eixo filosófico Kant-Hegel,1 também incorporada na reflexão de Jürgen Habermas,2 tão relevante para a discussão sobre a consciência moral. É certo que não existe indivíduo sem sociedade, e vice-versa, de modo que comportamento ético e exigência moral social acabam se intercambiando o tempo todo. Mas, o que precisa ficar claro é que nem tudo o que é moralmente aceito (por um grupo, por uma maioria, ou pela hegemonia coletiva) pode ser chamado de eticamente aceitável. Os alemães do período entre-guerras não somente votaram no partido so- cial-nacionalista, que veio a conduzir Hitler ao poder, como aplaudiram seu expansionismo e seu dinamismo disciplinado que devolveu dignidade ao povo alemão e ascendeu a nação alemã ao ápice do poder imperialista europeu; não teriam sido cúmplices do extermínio sistemático de judeus, ciganos, poloneses, idosos e deficientes? Seria ao povo lícito, neste período, ser contra o antisse- mitismo reinante? A questão que se põe define bem a diferenças entre as práticas sociais majoritárias, os valores consagrados pelo consenso de meio-termo social, e a 1 “Hegel introduz uma precisão conceitual: reserva o conceito de Moralität para o ator individual que pela ação já consciência moral dos seus equívocos e acertos; e reserva o conceito de Sittlichkeit para a ação moral praticada no coletivo, conscientizada por cada ator individual. Hegel resolve de maneira dialética a tensão criada com a polaridade entre indivíduo e so- ciedade, deixando claro que a ação moral individual já é socialmente mediada, enriquecendo a consciência moral subjetiva. Da mesma forma, a ação moral coletiva não seria sittlich se não se calcasse na consciência moral de cada um dos atores no interior de uma comunidade social (oikós, pólis, sociedade civil etc). Não há indivíduo sem sociedade, como não há sociedade sem indivíduos. A questão da moralidade não é nem subjetiva nem individual, ela sempre é objetiva e social, mas conscientemente medida pela perspectiva subjetiva de cada indivíduo. Por isso a questão da moralidade tem de ser transformada numa questão da Sittlichkeit. Esta última inclui e absorve a primeira. Qual o segredo profundo da Sittlichkeit hegeliana? O trabalho e a educação, ou seja, duas formas de ação que permitem transformar simultaneamente o indivíduo, e a sociedade por vias racionais” (Barbara Freitag, Itinerários de Antígona: a questão da moralidade, Papirus, Campinas, 1992, p. 70 e 71). 2 “A moral trata do que é igualmente bom para todos, enquanto a ética se ocupa do diferente. Ela engloba a necessidade de autoesclarecimento, ou de esclarecimento de quem somos e de quem gostaríamos de ser (Habermas, 1993), de forma que saibamos naturalmente quais são nossas obrigações e dúvidas” (Roberto Cardoso de Oliveira, A questão étnica: qual a possibilidade de uma ética global?, in As dimensões culturais da transformação global, Lourdes Arizpe, Unesco, 2001, p. 56). Direito e Ética: o Comportamento Humano em Questão 617 marca da contribuição do in-divíduo (aquele que não se divide) para o mundo, da personalidade que não se esgota em reproduzir a moralidade alheia, mas criativamente se faz sujeito por decidir com autoesclarecimento. Ser resistente, no sentido da ética foucaultiana (Michel Foucault), é ser capaz de exercitar a sua autonomia, a sua personalidade, ante mesmo a conjuntura que força à pasteurização e à homogeneização dos comportamentos em unidades servis a ideologias reinantes. Em poucas palavras, é não se deixar assujeitar desde fora, na medida em que isto é possível, nos diversos contextos em que é possível resistir às inflexões do poder que se mascara e se reveste das mais diversas faces possíveis. 36.2 A dimensão do saber ético e a dimensão do saber jurídico Desse modo, pode-se admitir que todo conteúdo de normas morais tem em vista sempre o que a experiência registrou como bom e como mau, como o que é capaz de gerar felicidade e infelicidade, como sendo o fim e a meta da ação humana, como a virtude e o vício. Essa preceptística, que não é estável, e nem homogênea em sua totalidade e em sua generalidade, entre as diversas culturas, varia ao sabor de inúmeros fatores. Com os meios de realização escolhidos, com os fins almejados, com as consequências práticas e com os reflexos sociais previstos… percebe-se, com- preende-se, constrói-se, delibera-se… quais são os padrões de conduta aceitáveis e inaceitáveis. Isso, porém, não se pode definir antes da necessária passagem pelo convívio histórico. O que se quer dizer é que as regras orientativas e disciplinadoras do que seja o socialmente aceitável e conveniente decorrem da abstração das experiências e vivências sociais historicamente engajadas. O indivíduo produz conceitos e padrões éticos e envia-os à sociedade, assim como a sociedade produz padrões e conceitos morais e envia-os (ou inculca), por meio de suas instituições, tradições, mitos, modos, procedimentos, exigências, regras, à consciência do indivíduo. É dessa interação, e com base no equilíbrio dessas duas forças, que se pode extrair o esteio das preocupações ético-normativas. De um lado, a ética do indivíduo, do outro lado, a moral da sociedade. Se o saber ético estuda o agir humano, está claro que possui fronteiras muito tênues com o saber jurídico, de modo que Ética, como saber, e Direito como ciência, convivem. Deve-se dizer que dentre as normas sociais e demais convenções destacam-se as normas jurídicas, com as quais interagem as nor- mas morais. Assim, há que se investigar as relações existentes entre ambas as categorias de normas, procurando-se definir o âmbito de alcance de cada qual. 618 CURSO DE FILOSOFIA DO DIREITO • Bittar / Almeida As normas jurídicas distinguem-se das normas morais, fundamentalmenteem função da cogência e da imperatividade que as caracterizam. Eis aí uma pri- meira delimitação de suma importância. As normas morais possuem autonomia com relação ao Direito, e, pode-se dizer, vice-versa, o que, por contrapartida, não significa dizer que não possuam influências, ou que não possuam relações e imbricações recíprocas. Fundamentalmente, o que se quer dizer é que a relação entre Direito e ética, entre normas jurídicas e normas morais, é estreita, não obstante se possam identificar nitidamente as diferenças que se marcam entre os dois campos de estudo. Deve-se admitir que a cumplicidade existente entre Direito e moral é no- tória, além de inegável.3 Quando se trata de relacionar ambas as esferas,4 é de crucial importância assinalar que, às vezes, normas morais e normas jurídicas convergem, às vezes, divergem. Que dizer das normas jurídicas de direitos humanos, contrárias à discriminação, contrárias ao desmando… se não que se trata de um conjunto de preceitos morais que deságuam no universo das prescrições jurídicas para encontrar seu reforço na coação estatal?5 Que dizer das normas jurídicas que caminham dissociadas de quaisquer resguardos éticos ou, por vezes, contrárias à ética?6 É por demais importante grifar que se torna impossível ao jurista penetrar adequadamente nos meandros jurídicos menosprezando por completo as re- gras morais. Se isso já é por si difícil e prejudicial, então se torna inaceitável a posição que receita ao jurista manter distância absoluta do estudo das normas éticas, como aquela que resulta do pensamento kelseniano. Em outras palavras, e sinteticamente, tudo confirma a hipótese de que a pesquisa jurídica deve ser uma pesquisa conjugada com a ética;7 deve-se perceber que os entrelaçamentos entre o Direito e a temática ética são inegáveis.8 3 Nada há a desabonar essa ideia, a não ser posturas teóricas formalistas e puristas, do ponto de vista metodológico, como ocorre com a Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen. 4 A respeito do tema, consulte-se o excelente estudo Ética e direito (1996) de Chaïm Perelman. 5 Deve-se consultar, a respeito, a análise histórico-evolutiva dos direitos humanos em Com- parato, A afirmação histórica dos direitos humanos, 1999. 6 Este é o caso das normas que contêm prazos, indiferentes a conteúdos morais; das normas processuais que consentem a mentira em nome da defesa pessoal do réu, contrariamente ao que diz a moral quanto à mentira. 7 Hans Kelsen não negava a possibilidade de estudo da justiça; é certo que não só estudava a justiça (A ilusão da justiça; O que é justiça; O problema da justiça), como também a julgava um valor relativo. Estudou, porém, a justiça com um valor em separado do Direito, como objeto de uma ciência própria, autônoma e desvinculada do Direito (estuda normas jurídicas), a Ética (estuda normas morais). 8 Já se teve oportunidade de afirmar isto em outra parte. Ver, portanto, Bittar, Teorias sobre a justiça: apontamentos para a história da Filosofia do Direito. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2000. Direito e Ética: o Comportamento Humano em Questão 619 36.3 A ética e o poder de escolha E, quando se trata de pensar a ética, trata-se de evidenciar a raiz de onde tudo provém, a sede das tormentas e das soluções sociais: o comportamento humano. De fato, não bastasse o termo éthos (gr., hábito) já revelar esse sentido, a reflexão ética se propõe exatamente a colocar-se atenta aos entrelaçamentos profundamente humanos das ações intersubjetivas e das intenções intrasub- jetivas. Agir eticamente implica decisão. Para que se decida é necessária prévia deliberação (boulesis), prévio processo mental de sopesamento de meios e fins. É nesta balança que entram as aflições do bom e do mau, do justo e do injusto, do certo e do errado. Se não existisse dúvida, se as leis morais fossem presididas por imperativos absolutos e naturais, se não houvesse espaço para o livre-arbítrio e tudo fosse nada mais que mera extensão da “vontade divina” (pura heteronomia), não haveria espaço para a manifestação do bem ou do mal existente no interior de cada um. Não haveria ética num mundo totalmente determinado pelo destino (natural, divino, causal). Por isso, sempre quando se fala em ética se está a falar em liberdade e em responsabilidade. A capacidade de correlacionar a esfera íntima de minha liberdade de autodeterminação (ficar ou não no emprego, aceitar ou não a propina, corroborar ou não esta decisão, pagar ou não o oficial de justiça, pro- pagandear ou não esta ideia...) e a responsabilidade sobre a esfera exterior dos resultados de minha ação (prejudicar um amigo, trair uma causa, corromper o poder, desestabilizar o poder...) tem a ver com capacidade ética desenvolvida por indivíduos dotados de phrónesis, prudência, na leitura aristotélica. É sempre dentro de uma conjuntura, consideradas as pressões existentes, os riscos envolvidos, a complexidade das relações atreladas à situação, que se verifica o momento decisório, que significa o exercício do ato de escolha. Toda ação ética implica escolha. Neste sentido, a escolha “é uma espécie de salto. Salto absoluto porque não se pode voltar atrás”.9 Todo ato individual é absolutamente autêntico, na medida em que reúne em torno de si reflexão prévia, liberdade de agir e responsabilidade assumida pelas consequências do ato.10 É do conjunto destes saltos que me faço a mim, que determino meu percurso existencial, e, exatamente por isso, neste processo, me torno autor da Também, leia-se em Ferraz Júnior, Introdução ao estudo do direito, 1994, p. 355: “Pelo que dissemos, a justiça é o princípio e o problema moral do direito”. 9 Heller, Agnes Heller entrevistada por Francisco Ortega, 2002, p. 42. 10 Vide Heller, An ethics of personality, 1996, p. 155 e 157. 620 CURSO DE FILOSOFIA DO DIREITO • Bittar / Almeida minha própria condição (rico, porém solitário e doente; pobre, não obstante feliz e reconhecido; cansado, porém vitorioso). No fundo, somos artífices de nossa própria personalidade, artistas em permanente processo de cinzelamento de nossos contornos, que se aferem pela nossa visão de nós mesmos e pela visão externa que têm de nós os outros. 36.4 Ética e responsabilidade profissional Isso é particularmente importante e curioso de se estudar, quando se trata de pensar a relação existente entre o Direito e a Ética, pois qual seria a con- duta aceita socialmente? Quais seriam os comportamentos admissíveis pela sociedade, por não ferirem seus valores, suas instituições e suas finalidades? Comportamentos antiéticos são todos antijurídicos? E vice-versa? É possível se pensar que existe um mínimo ético na dimensão estrutural do Direito, como afirmam alguns autores? Quais os parâmetros desse mínimo ético? Estes não são mais simples problemas para a Filosofia do Direito; são sim dilemas, na medida em que se convive diuturnamente com a revisão desses postulados a cada vez que uma pessoa é morta, é presa, é torturada, é violada em seus direitos fundamentais etc. É inegável, portanto, a relevância da discussão da perspectiva ética em face da perspectiva jurídica, na medida em que uma interfere sobre a outra, seja do ponto de vista pragmático, seja do ponto de vista teórico. Se o comportamento humano é o grande foco de atenção das discussões sobre a eticidade, num primeiro olhar, que é que se constata no comportamento humano? Parte-se de uma pergunta: do que é que somos capazes como seres capazes de razão, de deliberação e decisão? Do que é que somos capazes por sermos seres que pensam causas e fins, meios e métodos, por sermos seres que intentam, que confabulam, que refletem, que agem e que são capazes de criação? O que podemos fazer como seres criativos? Quando a pergunta é o que somos capazes de fazer como seres criativos, a resposta parece encaminhar-se com facilidade. Somos capazes de agir, fazer, produzir, inovar, revolucionar, mudar, instituir, estruturar, formar, construir, dominar, sistematizar, dimensionar,calcular, consertar, moldar etc. Isso significa que nestes verbos moram as grandes conquistas e realizações, de indivíduos, grupos e, por vezes, civilizações inteiras. Ainda mais, isso significa que somos capazes de imensas obras de engenharia, de criativas soluções mecânicas, de formidáveis obras artísticas, de lideranças intelectuais e teóricas, de descobertas e revelações científicas, de soluções práticas e técnicas que favorecem a melhoria da qualidade de vida, de imensas atitudes de solidariedade e afetividade, de Direito e Ética: o Comportamento Humano em Questão 621 realizações que rompem limites físicos e aumentam a flexibilidade da condição humana, entre outras coisas. No entanto, é paradoxal que a capacidade de criar se encontre alinhada com a paralela capacidade de destruir. E essa parece ser uma força tão equivalente àquela criativa. É assim que fenômenos absolutamente assintônicos e diame- tralmente opostos convivem lado a lado, produzindo todas as contradições que marcam a vida social. Se somos capazes daquelas coisas anteriormente citadas, também somos capazes de desfazer, destituir, desestruturar, deformar, desconstruir, inviabilizar, desarticular, poluir, vingar etc. Isso significa que nestes verbos moram as grandes catástrofes que marcaram e marcam indivíduos, grupos e sociedades. Onde está a humanidade está a ambiguidade. É assim que a mesma ciência que produz cura de doenças para milhares também produz artefatos capazes de destruição em massa. O mesmo exército que é capaz de se mobilizar para salvar vidas pode ser o agente que assassina crianças, mulheres e idosos indefesos. A mesma indústria que alimenta, veste e produz é capaz de criar em série os meios de destruição da vida. O mesmo gênio posto à disposição da melhoria da condição humana é capaz de servir às causas mais ignóbeis. O mesmo sentimento que é capaz de unir duas pessoas pode ser transformado na causa de seu recíproco aniquilamento. O mesmo fervor popular que movimenta a luta por direitos e práticas sociais justas é capaz de exercer-se cegamente em busca de ideais políticos arbitrários. O mesmo Estado que é capaz de criar regras e mantê-las a serviço da comunidade é capaz de escravidão, alienação e desvio de poder. A mesma máquina que transporta pessoas e pode distribuir alimentos pode despejar toneladas de bombas sobre culpados e inocentes, civis ou militares. A mesma lógica teórica que justifica descobertas inteiras é capaz de pôr-se a serviço de tiranos e conquistas soberanas e arbitrárias. O mesmo programador de software que traz soluções informáticas ao estado da técnica é o portador de conhecimentos suficientes para inviabilizar seu uso (hacker). As mesmas técnicas agrícolas que favorecem que frutos tenros e plantas medicinais possam vicejar dão suporte para o plantio de ervas das quais se extraem alucinógenos que sus- tentam o tráfico e a exploração humana. As mesmas relações de trabalho que produzem crescimento e riqueza, progresso e inovação são manipuláveis para a exploração de uns pelos outros. Um discurso filosófico pode ser importante arma de luta pacífica contra a opressão, contra a inculcação de ideias, contra a degeneração e a apatia mentais, mas pode ser também a chama para incendiar multidões em direção a práticas violentas e a derramamento inútil de sangue. É curioso pensar que o mesmo líquido pode ser veneno e antídoto! Atrás de todo esse dilema está o infindável rol de escolhas, e, nesse sentido, vale 622 CURSO DE FILOSOFIA DO DIREITO • Bittar / Almeida questionar: que escolha deve ter o operador do Direito ao postular caminhos de ação prática no desempenho de sua profissão?; qual o grau de responsabilidade social que mora atrás das perspectivas de atuação do operador do Direito?; qual o comprometimento do operador do Direito com a dimensão da cidadania, e com a afirmação da democracia e dos direitos humanos? Pensar essas questões é pensar que toda vez que se postula algo em juízo (sobre o patrimônio, o estado civil, a liberdade ou a vida das pessoas), toda vez que se peticiona à administração pública, toda vez que se escreve um artigo de temática atual e polêmica, toda vez que se resolve um problema de aplicação do Direito, se vive o compromisso do operador com seu meio, pois suas ações agem sobre o mundo, interferem na vida comunitária, modificam o poder etc. Há um altíssimo grau de intervenção do jurista sobre os mundos fático, social, político, econômico, cultural e axiológico, o que por si só justifica que as práticas jurídicas sempre sejam re-pensadas, na perspectiva de um positivismo crítico e reavaliativo (na perspectiva de Foucault), que os operadores do Direito sejam chamados à berlinda da responsabilidade de seus misteres, e que o Direito seja utilizado como instrumento de transformação social, na perspectiva da afirmação da cidadania, na busca de efetividade da justiça social, bem como no culto objetivo e direto da democracia como prática da igualdade política e de liberdade de ação sobre o mundo social. É nesse sentido que a ética pode ser considerada um meio ao conjunto das pressões externas (dos costumes, da economia, da política, das normas sociais) o último reduto do exercício da liberdade de escolha pelo indivíduo capaz de discernir, e, portanto, capaz de exercer resistência (Freud, Nietzsche, Foucault). Discutir, portanto, ética e ética profissional, para o universo das profissões jurídicas, é mais que um simples reclamo, ou uma sofisticação filosófica, e sim uma necessidade imperativa para que se possa pensar constantemente, invocando uma lição de Alaôr Caffé Alves, a quem se serve com o que se faz? Conclusões A Ética, como saber filosófico, possui por objeto especulativo o estudo das questões morais, enquanto a ciência do Direito possui por objeto normas jurídicas. Não obstante as dificuldades que decorrem da compreensão dessa decisão, é ela aceita como um ponto divisor de águas e limítrofe entre águas contíguas. Ética e Direito conjugam-se, apesar de constituírem campos diversos de estudo, intercambiando valores e normas entre si. Dessa dialética é que se nutre o rico debate interdisciplinar. Direito e Ética: o Comportamento Humano em Questão 623 Mais que tudo, há que se dizer que o tema de ética perpassa o exercício do Direito quotidianamente, pois grandes decisões que se projetam sobre a vida social passam por decisões de operadores do direito. O sentido de responsa- bilidade ético-social parece ser ainda mais aflitivo nesta profissão, o que só pode tornar este tipo de debate um exercício indispensável para a formação de novos profissionais (ensino jurídico) e para o acompanhamento do exercício prático-profissional dos operadores (comissões de ética profissional).