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UNISINOS - Curso de Psicologia 
Disciplina de Psicofarmacologia 
Texto complementar aulas iniciais 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
A Farmacologia pode ser definida como o estudo dos efeitos das substâncias químicas 
sobre a função dos sistemas biológicos. 
Surge como ciência em meados do século XIX, baseada mais em princípios de 
experimentação do que em dogma, assim como as outras ciências novas que surgem neste 
período. Entretanto, desde o início da civilização, remédios à base de ervas sempre foram 
utilizados, farmacopéias foram redigidas, mas nada que se utilizasse embasamento cientifico. 
Registros escritos encontrados na China e na Egito citam muitos tipos de remédios utilizados na 
época, incluindo alguns que são utilizados até hoje. Os primeiros acervos terapêuticos eram 
documentos que refletiam as tradições místicas, religiosas e médicas da sociedade antiga. 
O ímpeto para a farmacologia surgiu da necessidade de melhorar a qualidade da 
intervenção terapêutica dos médicos que, naquela época eram proficientes na observação clínica 
e diagnóstico, porém amplamente incompetentes quando se tratava de terapia. 
A psicofarmacologia não possui um nascimento especificado. Os transtornos mentais, 
em geral, foram considerados pela Medicina somente no século XIX. Em 1892, a obra de 
Kraepelin “sobre as influências de alguns medicamentos em determinados fenômenos psíquicos 
elementares lança o nome ‘farmacopsicologia’ e apresenta os estudos sobre a morfina, chá, 
álcool, cloraldeído e paraldeído” (OLIVEIRA, 1994). Somente na década de 50 surge a conhecida 
psicofarmacologia, com um antipsicótico chamado clorpromazina. 
 
CONCEITOS GERAIS 
 
No dia-a-dia, é muito comum notar pessoas ou meios de comunicação utilizando a 
palavra remédio como sinônimo de medicamento. No entanto, elas NÃO significam a mesma 
coisa. 
A idéia de remédio está associada a todo e qualquer tipo de cuidado utilizado para curar 
ou aliviar doenças, sintomas, desconforto e mal-estar. Alguns exemplos de remédio são: banho 
quente ou massagem para diminuir as tensões; chazinho caseiro e repouso em caso de resfriado; 
hábitos alimentares saudáveis e prática de atividades físicas para evitar o desenvolvimento de 
doenças crônicas não-transmissíveis; medicamentos para curar doenças, entre outros. 
Já os medicamentos são produtos tecnicamente obtidos, elaborados em farmácias 
(medicamentos manipulados) ou indústrias (medicamentos industriais), que devem 
obrigatoriamente terem sido avaliados para suas caracterísiticas de segurança, eficácia e 
qualidade, seguindo as determinações legais. A medicamentos são elaborados com a finalidade 
de diagnosticar, prevenir, curar doenças ou aliviar seus sintomas. O efeito do medicamento se 
deve a uma ou mais substâncias ativas com propriedades terapêuticas reconhecidas 
cientificamente, que fazem parte da composição do produto, denominadas fármacos ou 
princípios ativos. 
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Assim, um preparado caseiro com plantas medicinais pode ser um remédio, mas ainda 
não é um medicamento; para isso, deve atender uma série de exigências do Ministério da Saúde, 
visando garantir a segurança dos consumidores. 
Atualmente, o termo droga apresenta uma definição muito ampla, sendo definida como 
qualquer substância que é capaz de modificar a função dos organismos vivos, resultando em 
mudanças fisiológicas ou de comportamento. Assim, o termo droga refere-se a qualquer 
substancia química que possui a capacidade de produzir efeito farmacológico, ou seja, que 
provoque alterações funcionais ou somáticas, sendo estas benéficas ou não. Popularmente este 
termo também é utilizado para se referir a substância de uso ilícito, embora o emprego neste 
contexto tenha menos interesse neste momento. 
O termo fármaco (também conhecido como princípio ativo) refere-se a substância 
química ativa, bem caracterizada em relação as suas propriedades, e que apresenta 
propriedades farmacológicas, sendo utilizada com finalidade medicamentosa. Um fármaco é 
empregado para modificar ou explorar sistemas fisiológicos ou estados patológicos, em benefício 
da pessoa na qual se administra. Todo medicamento apresenta na sua composição um ou mais 
fármacos. Assim, todo fármaco é uma droga, mas nem toda droga pode ser considerada um 
fármaco. 
As farmacologia, como ciência, basicamente se divide da seguinte forma: 
 
Farmacologia Geral: Estuda os conceitos básicos e comuns a todos os grupos de drogas. 
 
Farmacologia Aplicada: ou Farmacologia Especial, ocupa-se dos fármacos reunidos em grupos 
de ação farmacológica similar. 
 
Farmacodinâmica: estuda o que o fármaco faz com o organismo. Aborda aspectos como local 
de ação, mecanismo de ação, ações e efeitos, efeitos terapeuticos e efeitos tóxicos de um 
fármaco. Considerada a base da farmacoterapia. 
 
Farmacocinética: estuda o que o organismo faz com o fármaco. Atende aspectos da 
movimentação do fármaco no organismo, tais como absorção, distribuição, metabolismo ou 
biotransformação e excreção de um fármaco. 
 
FARMACOCINÉTICA 
 
O sucesso terapêutico do tratamento de doenças em humanos depende de bases 
farmacológicas que permitam a escolha do medicamento correto, de forma científica e racional. 
Mais do que escolher o fármaco adequado („certo“) visando reverter, atenuar ou prevenir um 
determinado processo patológico, o uso de um medicamento também precisa se basear nas 
características fisiopatológicas, idade, sexo, peso corporal e raça do paciente. Como a 
intensidade dos efeitos, terapêuticos ou tóxicos, dos medicamentos depende da concentração 
do fármaco alcançada em seu sítio de ação, é necessário garantir que este atinja, em 
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Ex: comprimido de diazepam: 
1. Ele é engolido (administração); 
2. No estômago/intestino, o comprimido se desintegra e o fármaco se dissolve – essa é a fase BIOFARMACÊUTICA; 
3. O fármaco dissolvido atravessa o epitélio intestinal, entra no sangue e é levado para o corpo todo – começa a fase FARMACOCINÉTICA, com absorção e depois distribuição; 
4. No caminho, o fígado vai metabolizando uma parte (BIOTRANSFORMAÇÃO) e os rins vão excretando outra (excreção); 
5. Quando ele atinge o SNC em concentração suficiente, aparecem os efeitos ansiolíticos/hipnóticos – essa é a fase FARMACODINÂMICA (o que o fármaco faz com o organismo). 
concentrações adequadas, o órgão ou sistema suscetível ao efeito benéfico requerido. Para tal 
é necessário escolher doses que garantam a chegada e a manutenção das concentrações 
terapêuticas junto aos sítios moleculares de reconhecimento no organismo, também 
denominados sítios receptores. Se quantidades insuficientes estão presentes no sítio receptor, 
o medicamento pode parecer ser ineficaz mesmo sendo o „certo“, falsiando, assim, a eficácia do 
fármaco escolhido; em uma situação como esta, o fármaco pode ser descartado erroneamente, 
sendo que o sucesso terapêutico poderia ser alcançado se a dose e/ou o intervalo de 
administração (posologia) corretos fossem prescritos. Do mesmo modo, esquemas posológicos 
inapropriados podem produzir concentrações excessivas no sítio receptor, o que acarretaria a 
produção de toxicidade e, mais uma vez, o medicamento „certo“ pode erroneamente ser 
descartado, por apresentar excessivas concentrações no organismo. 
O estabelecimento de esquemas posológicos padrões e de seus ajustes na presença de 
situações fisiológicas (idade, sexo, peso, gestação), hábitos do paciente (tabagismo, ingestão de 
alcool) e algumas doênças (insuficiência renal e hepática) é orientado por informações 
provenientes de uma importante subdivisãoda farmacologia, a FARMACOCINÉTICA. 
O termo CINÉTICA refere-se a um objeto em movimentação. Farmacocinética é a divisão 
da farmacologia que usa modelos matemáticos para descrever e prever a quantidade dos 
medicamentos e suas concentrações em vários fluidos do organismo e as mudanças nestas 
quantidades com o tempo. A farmacocinética é definida como o estudo quantitativo do 
desenvolvimento temporal dos processos de absorção, distribuição, biotransformação e 
excreção dos fármacos. Nestes estudos, os teores dos fármacos e seus metabólitos (produtos 
da biotransformação) no organismo são determinados, permitindo a obtenção de importantes 
dados sobre estas substâncias, tais como: 
 
• Condições para seu uso adequado, pela determinação da via de administração, posologia 
(doses e intervalo entre as doses) e variações correlatas em função de patologias como 
insuficiência renal, alterações hepáticas e outras. 
• Previsão de outros efeitos em potencial, como os colaterais, por exemplo, no caso de acúmulo 
do fármaco em determinado compartimento (organotropismo); ou ainda os oriundos de 
interações medicamentosas a nível dos processos de absorção, distribuição, biotransformação 
e excreção. 
• Determinação dos principais sítios de biotransformação. 
• Determinação das vias de excreção. 
 
Assim sendo, podemos afirmar que a compreensão e a aplicação cuidadosa dos 
princípios farmacocinéticos podem freqüentemente auxiliar no estabelecimento e manutenção 
de quantidades terapêuticas e não tóxicas dos medicamentos no organismo; isto por permitir 
uma escolha racional da dose, freqüência e via de administração. Além disso, como supra 
referido, em muitos casos as características dos pacientes são reconhecidamente responsáveis 
por alterações do movimento do fármaco naquele organismo, ou seja das propriedades 
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farmacocinéticas desta substância em particular. Ajustes apropriados na dose ou freqüência de 
administração podem ser realizados, para compensar estas mudanças, evitando, assim, os 
problemas potenciais da ineficácia terapêutica ou toxicidade. Em uma ampla visão, a 
compreensão da farmacocinética pode favorecer as chances de segurança e eficácia da 
terapêutica medicamentosa. A farmacocinética estabelece estreita relação com duas outras 
importantes fases da atividade terapêutica: a fase (bio)farmácêutica e a farmacodinâmica. O 
efeito ou resposta terapêutica, é o resultado dos fenômenos que ocorrem após administração de 
um medicamento e estes dependem, por sua vez, das características do fármaco, das 
características do indivíduo e, o mais importante, da interação entre estes dois fatores: fármaco 
e indivíduo. 
Os processos farmacocinéticos são conhecidos pela sigla ADME, que representam: 
Absorção, Distribuição, Metabolismo e Excreção. 
 
ABSORÇÃO E MOVIMENTAÇÃO DO FÁRMACO ATRAVÉS DE MEMBRANAS 
 
A atividade terapêutica, ou uma eventual toxicidade, de um medicamento depende da 
permanência no organismo. O estudo de seu trajeto no organismo constitui, portanto, uma etapa 
indispensável do conhecimento do perfil do fármaco e também para a eleição da melhor forma 
farmacêutica que se adapte à obtenção dos efeitos terapêuticos requeridos. Um fármaco só pode 
exercer seu efeito farmacológico nos tecidos, depois de ter sido transportado para o sangue. A 
circulação sistêmica é responsável pela trajetória do fármaco no organismo. A absorção 
assegura sua chegada no sangue, o qual o conduzirá aos diferentes tecidos e órgãos, lugares 
estes de ação farmacológica, armazenamento, biotransformação e eliminação. 
O fármaco, para sua movimentação no organismo obrigatoriamente atravessa membranas 
biológicas sob influência das características físico-químicas de ambos. Assim sendo devemos 
relembrar as características destas “barreiras”/membranas biológicas, bem como os 
mecanismos que regem a passagem dos fármacos através delas. 
Os fármacos em geral passam através das células e não dos espaços intercelulares que são 
diminutos, permitindo apenas o trânsito de água , sais e compostos de baixo peso molecular. A 
membrana celular é uma estrutura dinâmica, mutável e adaptável à passagem de diferentes 
substâncias. Seu comportamento funcional é bastante variável no organismo, o que explica as 
diferenças observadas na velocidade, quantidade e tipo de substâncias transportadas pelas 
diversas membranas celulares. 
A membrana plasmática consiste em uma dupla camada de lipídeos anfifílicos com suas cadeias 
de hidrocarboneto orientadas para dentro, a fim de formar uma fase hidrófoba contínua e suas 
cabeças hidrófilas voltadas para fora. Cada molécula de lipídeo na camada dupla pode 
movimentar-se no sentido lateral, conferindo à membrana fluidez, flexibilidade, grande 
resistência elétrica e relativa impermeabilidade à moléculas altamente polarizadas. As proteínas 
da membrana embutidas na dupla camada exercem muitas vezes a função de receptores que 
proporcionam vias de sinalização elétricas ou químicas e alvos seletivos para a ação de 
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fármacos. Constituintes da membrana, sua inter-relação, polaridade e diâmetro dos poros 
conferem seletividade à esta estrutura celular. Os fármacos atravessam as membranas por 
processos passivos ou por mecanismos que envolvem a participação ativa dos componentes da 
membrana. 
 
• Transporte através de Membranas 
 
1 . Difusão simples ocorre seguindo um gradiente de concentração em virtude de sua 
solubilidade na camada lipídica. Esta transferência é diretamente proporcional ao gradiente de 
concentração através da membrana. A explicação física para o fenômeno da difusão é que cada 
partícula de soluto possui movimento aleatório próprio, dado pelo seu grau de agitação térmica 
molecular e que, além disso, sofre choques constantes de outras partículas adjacentes; assim, 
nas regiões onde a concentração de soluto é inicialmente maior, esses eventos de choque 
ocorrem em maior proporção que naquelas regiões onde a concentração de soluto é baixa ou 
nula. Desta forma, embora cada partícula se mova ao acaso, o movimento global médio do soluto 
se direciona para „invadir“ áreas de menor concentração e o transporte do soluto é realizado na 
região de maior para a de menor concentração através da membrana, sem interferência e gasto 
de energia pela mesma. 
Também intervém no processo de difusão simples o coeficiente de difusão da molécula: esta se 
difundirá mais rapidamente através de uma membrana quanto menor for seu tamanho; porém 
o elemento mais importante para a permeabilidade de uma molécula através de uma 
determinada membrana é a solubilidade: quanto maior a lipossolubilidade (lipofilia) da 
molécula, maior é seu coeficiente de partição e mais rápida será sua difusão. Apesar disto, não 
podemos esquecer que o organismo é uma sucessão de fases lipídicas e aquosas e que portanto 
um coeficiente de partição muito elevado ou muito baixo, pode constituir um obstáculo à difusão 
generalizada do fármaco. 
 
2 . Difusão por poros, também conhecida como difusão aquosa, ocorre para substâncias 
hidrossolúveis de pequeno tamanho (íons inorgânicos, uréia, metanol, água) e estas podem 
transpor a membrana através de poros virtuais, verdadeiros canais aquosos formados entre as 
proteínas; essa passagem envolve fluxo de água, resultante de diferenças de pressão 
hidrostática ou osmótica através da membrana, o qual arrasta pequenos solutos. O diâmetro dos 
canais é variável, para a maioria das membranas, os poros possuem diâmetro ainda menor, 4 a 
7 Å, permitindo somente a passagem de substâncias com peso molecular muito pequeno. Já as 
células endoteliais dos capilares, tem poros de diâmetro maior, cerca de 30 a 40 Å, permitindo a 
passagemde moléculas maiores mas, impedindo a passagem de moléculas tão grandes quanto 
a albumina. Por isso fármacos ligados às proteínas plasmáticas não passam, em condições 
fisiológicas, ao líquido intersticial. O processo de difusão por poros é muito importante nos tecidos 
renal e hepático. 
 
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A membrana plasmática é uma bicamada lipídica com proteínas embutidas, relativamente impermeável a moléculas muito polares/ionizadas. 
Os fármacos podem atravessar essa barreira de cinco jeitos principais: 
1. Difusão simples (passiva); 
2. Difusão por poros (dufisão aquosa); 
3. Difusão facilitada; 
4. Transporte ativo; 
5. Endocitose (e exocitose). 
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Na DIFUSÃO SIMPLES o fármaco atravessa diretamente a bicamada lipídica a favor do gradiente de concentração (do lado mais concentrado para o menos concentrado), sem gasto de energia. 
Passam melhor: moléculas menores, mais lipossolúveis e não ionizadas. 
A velocidade aumenta quanto maior o gradiente de concentração e quanto mais fino for o tecido. 
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Na DIFUSÃO POR POROS os fármacos hidrossolúveis pequenos (como íons, ureia) passam através de “canais aquosos” entre proteínas da membrana ou poros dos capilares. 
Muito importante no rim e no fígado, onde há poros maiores nos capilares. 
Fármacos ligados a proteínas plasmáticas (tipo albumina) não passam pelos poros comuns, por serem grandes. 
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Transportes especializados são utilizados por fármacos hidrossolúveis de maior tamanho 
molecular, o que os impede de transpor a membrana pelos processos passivos . Deslocam-se 
mediante a complexação com carreadores, componentes da membrana celular (proteínas) que 
a atravessam segundo seu próprio gradiente de difusão, liberando o substrato no outro lado e 
retornando a posição original. Os carreadores tem especificidade pelo substrato e são saturáveis. 
Os transportes especializados requerem, ou não, gasto energético. 
 
3. Difusão facilitada o carreador transporta o fármaco a favor do gradiente de concentração, 
com velocidade superior a da difusão simples, mas sem gasto energético. Ocorre sempre a favor 
do gradiente de concentração. 
 
4. Transporte ativo o movimento do fármaco se faz contra o gradiente de concentração, 
gradiente elétrico ou uma combinação de ambos, com gasto energético pela célula; esta energia 
é fornecida por hidrólise do ATP ou de outras ligações altamente energéticas. Estes sistemas de 
transporte especializados são passíveis de competição, ou seja, substâncias similares ao 
fármaco, endógenas ou exógenas, podem competir pelo mesmo carreador da membrana. Outros 
processos ativos que devem ser evidenciados são a endocitose e a exocitose. 
 
5. A endocitose ocorre quando partículas sólidas (fagocitose) ou líquidas (pinocitose) são 
englobadas pela membrana, mediante sua invaginação, seguida de estrangulamento, formando-
se vacúolos que se situam na própria membrana ou no interior da célula. 
 
Observa-se que a velocidade de transporte de substâncias através de uma membrana é 
influenciada pela espessura e área permeável da membrana, bem como por características do 
fármaco, como tamanho, forma molecular e coeficiente de partição lipídeo/água. A constante de 
dissociação (pKa) da substância ativa e a o pH do meio onde se encontra (compartimentos 
corporais), também influenciam potencialmente sua velocidade de transporte por membranas 
biológicas. Para eletrólitos fracos, sais de ácidos ou bases fracas, como são a maioria de nossos 
fármacos, o pH do meio determina seu grau de dissociação em solução. Para estes fármacos, a 
passagem passiva através da membrana dependerá da lipossolubilidade e da quantidade da 
forma não ionizada. 
O grau de ionização portanto, é dependente de dois fatores relacionados pela equação de 
Henderson – Hasselbach: 
• A constante de dissociação da substância ou pKa 
• O pH do meio onde se encontra a molécula, o qual pode ser diferente entre os lados da 
membrana. 
 
O valor do pKa de uma substância representa o valor de pH do meio no qual a concentração da 
forma ionizada é igual a concentração da forma não inonizada. Qualquer pH diferente desse, 
origina proporções diversas das formas ionizada e não ionizada. Assim, fármacos ácidos fracos 
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A DIFUSÃO FACILITADA ainda é a favor do gradiente de concentração, sem gasto de energia, mas precisa de um carreador proteico específico. 
O carreador “pega carona” com o fármaco, atravessa a membrana e o libera do outro lado. 
É saturável (tem um limite de velocidade) e pode ter competição entre substâncias que usam o mesmo carreador. 
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Aqui o fármaco é transportado contra o gradiente de concentração ou elétrico, com gasto de energia (geralmente vinda de ATP). 
Também envolve carreadores específicos e é saturável e sujeito a competição. 
Exemplo: glicoproteína‑P, que bombeia fármacos para fora de certos compartimentos (para bile, urina, lúmen intestinal, sangue materno, fora do cérebro), podendo reduzir a absorção ou o acesso ao SNC. 
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A membrana “abraça” partículas sólidas (fagocitose) ou líquidas (pinocitose), forma um vesícula e leva o conteúdo para dentro da célula. 
É mais relevante para moléculas grandes (como algumas proteínas) do que para a maioria dos psicofármacos, mas faz parte do repertório de transporte. 
em meio ácido se dissociam pouco permanecendo predominantemente na forma não-ionizada, 
mais lipossolúvel e com melhor capacidade de difusão. O contrário ocorre para fármacos básicos. 
O fármaco atravessa a membrana mais facilmente por difusão passiva somente se ele não 
estiver ionizado. 
 
Ex: 
Fármacos ácidos (HA) liberam um próton (H+) causando a formação de um ânion (A-): 
 
HA H+ + A- 
 
Onde, 
HA = forma não ionizada do ácido. 
 
 
O equilíbrio entre os dois lados da membrana na difusão passiva se dá entre as formas não 
ionizadas. Assim, uma membrana que separa fluidos com diferentes pH, terá maior concentração 
de um fármaco ácido no lado alcalino e vice-versa. 
Esta teoria tem extrema importância em toda a farmacocinética: no processo de absorção através 
do trato gastrintestinal (TGI), por exemplo, onde são amplas as variações de pH ( 1 a 3,5 no 
estômago, 5 a 6 no duodeno e próximo de 8 ao nível do íleo); ou ainda no tratamento de certas 
intoxicações medicamentosas, onde a modificação do pH do meio permite a liberação da 
substância ativa a partir dos locais de fixação tisssular e sua eliminação; exemplificando: a 
alcalinização urinária acelera a excreção renal de um barbitúrico, ácido orgânico fraco, que por 
estar em sua forma ionizada no pH alcalino, terá dificuldade em sofrer reabsorção tubular, o que 
favorece o controle da intoxicação. 
 
Outros fatores que influenciam a movimentação dos fármacos pelas membranas, influenciando 
a absorção incluem: 
 
- Fluxo de sangue no local de absorção: 
Fluxo de sangue é maior no intestino do que no estômago; 
 
-Superfície disponível para absorção: 
Superfície rica em bordas no intestino que aumenta a absorção; 
 
Tempo de contato com a superfície de absorção: 
Se uma fármaco se desloca muito rápido ao longo do TGI; 
Qualquer retardo do transporte do fármaco do estômago para o intestino reduz sua velocidade 
de absorção; 
Presença de alimento no estômago. 
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Ácidos fracos em meio ácido ficam mais na forma não ionizada → atravessam melhor a membrana. 
Bases fracas em meio básico ficam mais não ionizadas. 
Como só a forma não ionizada difunde bem, mudar o pH de um compartimento (por exemplo, alcalinizar a urina) pode prender o fármaco na forma ionizada ali e facilitar sua eliminação em intoxicações. 
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IMPORTANTE: 
- A absorção ocorre quando o fármaco chega na circulação sanguínea. É o processode o fármaco sair do local de administração e entrar no sangue, e isso depende de características do fármaco, da membrana e do paciente. 
- Os mecanismos de transporte são os cinco acima elencados, sendo que DIFUSÃO SIMPLES + pH/pKa respondem por grande parte do comportamento clínico dos fármacos. 
- O fármaco só faz efeito se conseguir atravessar membranas e chegar ao sítio de ação (por exemplo, o cérebro, no caso de psicofármacos). 
- Difusão simples, difusão por poros, transporte ativo etc. determinam quanto do fármaco chega e quão rápido isso acontece, influenciando início de ação e intensidade do efeito. 
- Características individuais como idade, doenças, interações medicamentosas, pH de diferentes compartimentos, uso de outras drogas…, podem alterar expressão de transportadores e o funcionamento de barreiras como a hematoencefálica (Isso explica por que a mesma dose em dois pacientes diferentes pode ter efeito fraco em um e forte (ou tóxico) em outro). 
- Se o paciente tem insuficiênia renal, usa outra medicação que possa competir com o mesmo carregador, alterou a dieta/álcool/fumo… tudo isso pode alterar transporte e, consequentemente, a concentração do fármaco. 
- Os mecanismos são universais (difusão, transporte ativo etc.), mas cada organismo mexe nos parâmetros: fluxo sanguíneo, pH, função dos rins, expressão de transportadores, etc. Logo, ao entender a regra geral, é possível avaliar: 
1. “Idosa, magra, com rim ruim” → provavelmente elimina mais devagar, então qualquer dose padrão tem mais risco de acumular.
2. “Adolescente, saudável, fumante pesado” → pode metabolizar mais rápido alguns fármacos, precisando de ajuste pelo médico. 
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Expressão da glicoproteína-P: 
Glicoproteína P é transportadora para vários fármacos; 
Expressa em todo o organismo e suas funções incluem: 
Fígado: transporta fármaco para a bile visando à sua eliminação; 
Rins: bombeia para a urina visando à excreção; 
Placenta: transporta fármaco devolta para o sangue materno, reduz a exposição do feto; 
Intestino: transporta para o lúmen intestinal e reduz absorção; 
Capilares do cérebro: bombeia fármacos devolta ao sangue, limitando seu acesso ao cérebro; 
Esta proteína pode reduzir o processo absortivo para fármacos que apresentem afinidade com 
ela. 
 
PARÂMETROS FARMACOCINÉTICOS RELACIONADOS A ABSORÇÃO 
 
BIODISPONIBILIDADE: refere-se a quantidade de uma substância que, introduzida no 
organismo, atinge a circulação sistêmica e, portanto, torna-se disponível para exercer sua 
atuação terapêutica. Com a via intravenosa a biodisponibilidade é de 100%, pois toda substância 
alcança a corrente circulatória. Mas no caso da via oral (ou outra via que não a intravenosa), a 
absorção pode não ser total (geralmente não é!) e, portanto, a substância não ficará 100% 
disponível, pois parte não conseguirá chegar à corrente sangüínea. 
Do ponto de vista regulatório (definição da ANVISA), a biodisponibilidade um parâmetro 
farmacocinético, característico do medicamento administrado à um sistema biológico intacto e 
indica a velocidade e intensidade com que um fármaco atinge a circulação sistêmica. 
A medida da velocidade de absorção de um fármaco é avaliada através dos seguintes 
parâmetros: 
• Concentração plasmática máxima (Cmáx) 
Este parâmetro representa a maior concentração sangüínea alcançada pelo fármaco após 
administração oral, sendo, por isso, diretamente proporcional à absorção. Desta forma, depende 
diretamente da extensão e velocidade de absorção, porém, também da velocidade de 
eliminação, uma vez que esta inicia-se assim que o fármaco é introduzido no organismo. 
Esta medida não deve ser avaliada por si só, pois pode conduzir a conclusões errôneas. Para 
efeito terapêutico ótimo e seguro, este parâmetro deve estar posicionado, na curva de 
concentração sangüínea X tempo, entre a concentração mínima efetiva(CME) e a concentração 
máxima tolerada (CMT), intervalo também conhecido como janela terapêutica. 
 
• Tempo para alcançar a concentração máxima no plasma (Tmáx) 
Este parâmetro tem íntima relação com a velocidade de absorção do fármaco e pode ser usado 
como simples medida desta. É alcançado quando a velocidade de entrada do fármaco na 
circulação é excedida pelas velocidades de eliminação e distribuição; absorção não pode, 
portanto, ser considerada completa neste estágio. 
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A medida da extensão (quantidade) de absorção de um fármaco é avaliada através do seguinte 
parâmetro: 
 
• Área sob a curva de concentração plasmática vs. tempo(ASC) 
Representa a quantidade total de fármaco absorvido. Para fármacos administrados 
cronicamente, é um parâmetro mais crítico que a velocidade de absorção. É considerado o mais 
importante parâmetro na avaliação da biodisponibilidade, sendo expressado em 
quantidade/volume x tempo (mg/mL x h) e pode ser considerado representativo da quantidade 
total de fármaco absorvido após administração de uma só dose desta substância ativa. ASC é 
proporcional à quantidade de fármaco que entra na circulação sistêmica e independe da 
velocidade. 
 
Para ilustrar, usaremos um paciente que toma um comprimido de diazepam. As etapas que 
ocorrem são: 
 
Administração do medicamento: 
O comprimido é administrado pela via oral. 
Etapa/fase bio(farmacêutica): 
O comprimido alcança o estômago e se desintegra. O fármaco começa a se dissolver no suco-
gástrico/ fluido intestinal. A dissolução do fármaco é etapa fundamental para permitir a absorção. 
Etapa/fase farmacocinética: 
Uma vez dissolvido o fármaco começa a ser absorvido e alcança a circulação sistêmica. Ao 
atingir a circulação sistêmica, passa ser distribuído atinge o SNC, local de ação. 
Concomitantemente ao processo de distribuição, já pode começar a ser metabolizado e 
excretado do organismo. 
Etapa/fase farmacodinâmica: 
A partir do momento que o fármaco atinge o SNC e começa a produzir o seu efeito terapêutico. 
Esta etapa ocorre concomitantemente a fase farmacocinética. O efeito começa a reduzir a partir 
do momento que o fármaco é eliminado do organismo (etapa farmacocinética).

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