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FERNANDO PLÍNIO DE ABREU RAMOS JOSE ALAN DIAS CARNEIRO A IMPRENSA FAZ E DESFAZ UM PRESIDENTE NOVA FRONTEIRA1994. by Fernando de edição da obta em por adquiridos pela SUMÁRIO S.A. Rua Bambina, 25 Botafogo CEP 22251-050 Rio de R) Tel.: 286-7822 Fax: 286-6755 Endereço NEOFRONT Telex: 34695 ENFS BR APRESENTAÇÃO Revisão do texto Recha INTRODUÇÃO GERAL: Revisão de A IMPRENSA E PODER NO BRASH 5 de A GESTAÇÃO DO COLLOR": Assistentes de DE UMA ELEIÇÃO A OUTRA 11 de Introdução 11 de Da obscuridade à liderança 15 de Marketing política: a criação do mito, do CNPq. ou "santo de casa não faz milagre" 19 Marketing política: a criação do programa, ou "juntando a fome com vontade de comer" 31 Centro de Documentação de Vácuo político polarização ideológica, do CPDoc ou do de engoliz sapos 40 L364n Fernando far e um presidente/ Fernando de A POLÍTICA DO GOVERNO COLLOR Ramos, Alan Dias Rio de Nova 1994. 166 EA IMPRENSA: DO APOIO À DECEPÇÃO 47 ISBN 85-209-0566-8 A posse: expectativas e surpresas 47 1991: o avanço da desestatização em meio à crise 61 Governo Fernando 1990-1992 2. 1992: última ofensiva e a derrocada final 75 política 3. dencial - Brasil. 5. Corrupção 1. de José A IMPRENSA E o GOVERNO COLLOR: AS DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO 81 CDD. 981.066 CDV. 070 (81) A escalada das denúncias 81 As de Pedro Collor e a CPI 89 impeachment 96A GESTAÇÃO DO COLLOR": DE UMA ELEIÇÃO A OUTRA Fernando Lattman-Weltman Do fundo do coração, o senhor acredita que tem realmente chances de ser presidence? Sem nenhuma presunção, eu sou futuro presidente da de Fernando Collor de Mello à re- vista 26 de abril de 1989.) Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente da República eleito diretamente pelo voto, no Brasil, após a ditadura o "fenômeno Collor", tal como ficou conhecido, foi um produto da mídia? Podem os de comunicação ser responsabilizados por sua vitória, que graves desdobramentos teve no cenário político nacional? À primeira pergunta responderíamos sem hesitação: sim. Não há dúvida, como iremos demonstrar aqui, de que o candidato Fernando Collor de Mello, independentemente de quais tenham sido os fatores que, de um modo ou de outro, contribuíram para a sua vitória, deveu sua própria razão de ser, a própria viabilidade de sua candidatura na eleição de muito mais à eficácia de um processo de marketingpolitico, realizado via mídia, do que a fatores políticos que poderíamos localizar na di- nâmica particular do sistema partidário ou da sociedade civil. Diferentemente de todas as demais candidaturas presentes na campanha presidencial, a sua traz a marca dos pro- 11cessos mercadológicos da mídia, e se destaca, inclusive comple- cas de democratização política a extensão cada vez maior do mentarmente, pela fraqueza de sua sustentação partidária direito de voto e a utilização política da mídia, em especial tele- social. Compare-se a candidarura do "caçador de marajás" com a de qualquer um de seus adversários, imediatamente ressaltará a variáveis estas que a reestruturação peculiaridade de sua situação: não era um partidário, de massa das nossas instituições políticas, no Estado quanto na socie- dade civil. Nesse sentido, é perfeitamente lícito atribuir vitó- ou de quadros, com uma política já estabelecida (como Leonel Brizola, Ulysses Aureliano Chaves ou Paulo ria em ou melhor, a de sua imagem, à atuação da A segunda questão, entretanto, introduz na análise uma variá- nem uma nova liderança surgida do processo de reorga- nização política dos partidos e da sociedade após a ditadura (como vel ética de resposta. Pois se é e acredicamos poder que o "fenómeno Collor" acima de tudo, Luís Inácio Lula da Silva, Mário Covas ou Roberto muito menos, um intérprete credenciado de grupos setotes mais produto da mídia em sentido genérico, falar na responsabilidade, individual coletiva, dos meios de comunicação envolvidos particulares da sociedade civil (como Guilherme Domingos ou Ronaldo Caiado). Mesmo fato de o processo mercadológico no já agora veículos de imprensa concretos e de construção da candidatura Collor à presidência ter-se particulares, implica uma série de novas questões. Com efeito, muitas das avaliações acerca do papel da imprensa na volvido a partir da sua experiência administrativa como governa- dor de Alagoas em nada contradiz especificidade e o caráter cobertura das eleições de 1989. tanto da campanha paradigmático do fenômeno. Na verdade, como veremos, Collor quanto posteriores, insistem no caráter deliberado, por vezes conspiratório, da ação dos principais veículos em favor de A utilizou-se de sua muito menos no sen- tudo que foi dito acima sobre sua candidatura sem tido de construir uma máquina partidária enraizada maiores problemas um elemento de intencionalidade e na vida política alagoana, do que no de construit uma imagem pública projetada para o imaginário político de todo o país. Aci- o que equivale a dizer que não apenas a mídia ajudou a eleger, mas de fato queria a de e a provocou ma de tudo, sempre mais alto o seu instinto de homem de A nosso o problema desta forma de explicação não propaganda, sua formação pessoal na área da comunicação. está tanto no que afirma, e sim no que ela impede que se A rigor, Collor nunca foi candidato de ninguém (a não ser dele mesmo e de sua hoje sabemos muito bem disso). No perceba. primeiro explicação conspiracional hipostasia a influência política eleitoral da mídia desprezando outras va- entanto, essa falta total de enraizamento político social pode ter riáveis importantes do jogo que, de um lado, possuem grande sido, paradoxalmente, um dos fatores que the permitiram tornar- se, sem maiores dificuldades, o candidato de todos, quer dizer, da autonomia em relação às escolhas dos veículos de comunicação, de articulam-se a resultances imprevistveis incontroláveis grande maioria silenciosa que está em roda parte mas não ocupa da própria produção É o caso, por exemplo, das can- lugar algum na vida política cotidiana do país (com exceção, é claro, dos rituais periódicos, quando se manifesta através do voto). didaturas definidas por questões internos de parti- dos dotados de grandes recursos eleitorais, que poderiam contar A candidatura Collor, portanto, foi o produro mais mais com o apoio consciente da mas que, no se exemplar, da nascente sociedade política de massas Uma inviabilizam eleitoralmente devido configurações simbólicas sociedade que se vem estruturando a partir de duas construídas inconscientemente pelos mesmos meios de comuni- 12 13o fizeram mais indireta do que diretamente, mais inconsciente do cação (como veremos, foi exatamente que aconteceu com o que deliberadamente, mais de acordo com a sua atuação prévia PMDB em 1989). do que com a cobertura da campanha eleitoral propriamente dita. Em segundo lugar, do mesmo modo, a explicação Assim, acreditamos, poderemos delinear um quadro de análi- conspiracional não leva em conta que o processo de construção se que, mais do que nos permitir fazer um julgamento adequado de uma imagem pública (como a do "caçador de pode da responsabilidade coletiva ou individual da mídia na eleição de necessitar de um período mais longo de maturação, anterior de Collor, nos dará condições de aprofundar a questão da ética alguns anos ao momento da campanha propriamente dito, e que, jornalística, relacionando-a não a um padrão moral abstrato e idea- ao longo daquele período, os meios de comunicação podem manter lista, e sim às condições históricas concretas em que a prática da sua atenção e, sua capacidade de intervenção imprensa se dá no Brasil de hoje. consciente muito mais ocupada com outras questões públicas, Antes de nos atermos à construção da economia simbólica (a mais urgentes na ordem do dia. Chegado o momento eleitoral, a narrativa) que presidiu a vitória eleitoral de Fernando Collor de dinâmica da disputa com suas alternâncias de expectativas e Mello, é necessário, contudo, proceder a uma pequena recapitu- de ofertas em termos tanto de programas quanto de candidatos lação dos eventos que marcaram a cobertura daquela campanha. e a própria encampação prévia por parte da mídia de determi- É o que faremos em seguida. nadas idéias ou propostas podem impor a estes mesmos órgãos de imprensa a escolha de uma candidatura, longe da ideal, mas pre- ferível a outras, mais inassimiláveis (teremos oportunidade de ilus- Da obscuridade à liderança trar ambos os processos). Uma vez definidas pela Constituição de 1988 as regras da eleição É, portanto, a própria complexidade e imprevisibilidade dos pro- presidencial, e feito o balanço das eleições municipais de novem- cessos eleitorais que se perde de vista com esse tipo de interpretação. bro daquele ano, teve início na imprensa a da sucessão. Mas, ainda mais do que isso, o que se deixa de perceber com a Durante os primeiros meses de 1989, contudo, o noticiário de adoção unilateral da explicação conspiratória é a distinção entre maior destaque voltou-se, de um lado, para a cobertura da crise as práticas conscientes e inconscientes da mídia e seus atores. Deixamos de poder identificar os processos impessoais e rotinei- econômica e seus diversos aspectos, e, de para as iniciativas ros através dos quais se constroem todos os elementos narrativos do governo federal relativas a essas questões. No que se refere à crise, os assuntos na ordem do dia eram, obviamente, a inflação, que organizam a inteligibilidade e os sentidos das atitudes dos atores e instituições de nossa vida política que se realimentam as dívidas externa e interna, o déficit público, a reforma do Esta- do. Quanto às iniciativas do Planalto, a época era do chamado destes eventos. Nesse sentido, que nos propomos apresentar adiante é uma Plano Verão, a última grande tentativa do governo José Sarney reconstituição desta narrativa que, não desprezando jamais a hi- em matéria de plano de combate à inflação. pótese conspiracional, deixa-a de lado, contudo, e procura mos- As matérias relativas à eleição presidencial se concentravam no trar como os meios de comunicação brasileiros ajudaram a eleger acompanhamento da indefinição das candidaturas dos dois maio- Fernando Collor de Mello para a presidência da República, a des- res partidos brasileiros à época, o Partido do Movimento Demo- peito de suas próprias possíveis preferências. Como, na verdade, crático Brasileiro (PMDB) e o Partido da Frente Liberal (PFL), 15 14únicos, ao que tudo indicava, capazes de opor uma forte candida- as principais qualidades ou virtudes de cada candidato; na segun- tura de "centro", ou de "centro-direita", ao favoritismo que então da, as suas principais dificuldades de campanha; e, finalmente, na obtinham nas pesquisas os já candidatos Leonel Brizola (do PDT, terceira coluna, a forma de superá-las. Sobre Collor de Mello o Partido Democrático Trabalhista) e Inácio Lula da Silva (do quadro era sucinto, direto e, de certo modo, coluna 1 PT, Partido dos Trabalhadores), ambos identificados no cenário (virtudes) "caçador de marajás, paladino da moralização do político-partidário nacional com propostas de "esquerda". setor público" (...), "seus 38 anos têm sua graça eleitoral"; coluna Com efeito, as pesquisas de intenção de voto apontavam en- 2 (dificuldades) "não se sabe se é do primeiro ou do segundo tão Brizola em primeiro lugar, seguido por Lula. Abaixo deste, time. Se é lider no Nordeste ou no Country Club Rio. Se é, de vinha uma de candidatos, ou de pretendentes a candidatos, fato, candidato a presidente ou a vice"; coluna 3 (modo de superá- entre os quais então governador de Alagoas, Fernando Collor las) "fica na exclusiva dependência do Instituto Gallup"! (como de Mello, e outros, como Jânio Quadros, Orestes Quércia e An- se pôde perceber, ao longo da campanha, foram exatamente as tônio Ermírio de Morais, que jamais chegaram a disputar a elei- pesquisas de intenção de voto que forneceram os primeiros indí- ção mas estiveram fortemente presentes nos cálculos políticos do cios de que a candidatura de Collor poderia se transformar numa noticiário político de maior destaque sempre privi- real opção ao longo da campanha). legiava os desdobramentos das crises internas do PMDB e do PFL, Naquele momento, contudo, nos idos de março de 1989, a às voltas com as candidaturas indesejadas e, ao menos aparente- candidatura de Collor não parecia ser digna de muita atenção por mente, incontornáveis de Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves, parte da grande imprensa. Na verdade, Collor aparecia no noti- respectivamente (isto é bem mais visível no caso das grandes re- ciário menos na condição de candidato do que de administrador vistas, Veja Isto por questões de periodicidade e tama- público que se tornara famoso em nível nacional pelo seu aprego- nho muito mais seletivas do que os jornais; Veja, por exemplo, em ado combate aos "marajas" e funcionários "fantasmas" de Ala- seu número do dia 26 de abril de 1989, dá maior destaque ao goas. Não é, portanto, fortuita a observação feita pela Isto PMDB e ao PFL do que à chegada de Collor aos primeiros luga- nhor de que não se sabia se ele era efetivamente candidato a presi- res das pesquisas). dente ou a Numa reportagem que, hoje, vista à distância, se mostra digna Assim, quando o "caçador de marajás" voltou a agitar Alagoas, de figurar em qualquer antologia do jornalismo político brasilei- nos primeiros meses de 1989, por conta de cortes por ele efetua- ro, Isto É/Senhor, em 22 de março de 1989, focalizava aquilo que dos na folha de pagamentos do governo do estado, as duas princi- com muita propriedade chamou de "o espectro de Brizula", uma pais revistas pouco ou nenhum espaço deram ao assunto, e quan- mistura de Brizola e Lula, ou seja, o fantasma de um governo do o fizeram sequer mencionaram a situação de Collor como can- mais ou menos radical de esquerda. Além da capa, que definia a didato à presidência. É verdade que os principais jornais do Rio escolha do candidato "anti-Brizula" com a imagem de um funil de Janeiro e de São Paulo deram destaque em seu noticiário polí- no qual entravam vários candidatos e saíam apenas Quércia e Jânio, tico nacional ao confronto de Collor com o funcionalismo públi- a revista apresentava um quadro de três colunas onde eram listados e a Assembléia Legislativa de Alagoas, mas mesmo aí sua can- todos aqueles candidatos que poderiam se tornar o favorito das didatura não era encarada como uma alternativa viável (ou como chamadas elites brasileiras. Na primeira coluna eram relacionadas uma das mais 16 17A situação do "caçador de marajás" começou a se modificar, Na medida em que Collor avançava na preferência do eleito- entretanto, a partir de 30 de março de 1989, quando foi ar, no rado, multiplicavam-se as adesões de políticos e empresários. Os horário gratuito de televisão reservado por lei aos um próprios meios de comunicação viram-se obrigados a se posicionar. programa do obscuro Partido da Juventude então rebatizado Em junho já se questionava até_mesmo se haveria ou não um de Partido da Reconstrução Nacional (PRN). um segundo turno, pois tudo levava a crer na possibilidade de uma dos primeiros resultados da então pequena porém já eficiente vitória de já no primeiro escrutínio. trutura de campanha de Collor, foi pouco comentado pela gran- Em setembro, com o início da propaganda gratuita na televi- de imprensa. A rigor, revistas simplesmente o ignoraram: quanto são, sua candidatura se estabilizou começou a sofrer os impactos aos jornais, limitaram-se noticiar o ocorrido em pequenas maté- da propaganda dos adversários. Seus começaram a cair. mas rias de pouco destaque, ou mesmo em notas de colunas (é o caso numa proporção e num ritmo que jamais ameaçaram sua liderança. do por exemplo, que dois dias após a transmissão publicou no Collor venceu o primeiro turno com larga dianteira, e entrou seu "Informe JB" oito linhas sobre a do programa, que na árdua disputa do segundo turno em condições de sustentar o aliás foi muito atingindo 61 pontos percentuais, ou de assédio de seu opositor, que encostou. ameaçou, mas não conse- 50 milhões de guiu vencê-lo. Como isto foi possível? Como um candidato apa- No entanto, os resultados logo começaram a se fazer sentir nas rentemente pouco conhecido, um mero coadjuvante sem parti- pesquisas. Duas semanas após a transmissão do programa do PRN, do. oriundo de um estado pobre e pequeno, se tornou, mais exatamente em 16 de abril, em pesquisa divulgada pelo Ibope, mente da noite para o dia, o franco favorito na disputa da mais Collor já aparecia em segundo lugar, ao lado de Lula e dois importante cleição dos últimos trinta anos da história do país? Como pontos de Brizola. E passada mais uma semana, em 26 de a se produz um fenômeno elcitoral com esta magnitude e significação? revista Isto É/Senhor abriu sua capa para divulgar pesquisa do Ins- E qual papel específico da grande imprensa neste resultado? Gallup em que o candidato aparecia já em primeiro lugar, posição de onde não sairia mais. Neste primeiro momento, dianteira de Collor foi recebida Marketing e criação do mito, pela imprensa com um misto de frieza, perplexidade descon- OU "santo de casa não faz milagre" fiança. A revista Veja, por exemplo, referia-se seguidamente ao a busca em torno do novo, da renovação, da coragem..." como uma espécie de "chuva de (Entrevista de Collor à revista A escalada de Collor prosseguiu, contudo. Logo após assumir o primeiro posto nas pesquisas, no dia 27 de abril, 0 candidato Os três programas de produzidos pela equipe de Collor, apareceu em outro programa de desta vez sob 2 sigla patroci- exibidos no espaço gratuito de propaganda de partidos sem qual- nadora do desconhecido PTR (Partido Trabalhista Renovador). quer envergadura política, cumpriram com perfeição o papel de Em maio sua candidatura disparou nas pesquisas. O "caçador de tornar conhecidas junto à grande massa do eleitorado as idéias e, marajás" tornava-se enfim o centro das não apenas da principalmente, a imagem do coroando um esforço imprensa mas também de toda a classe política e demais atores de marketing baseado em pesquisas sobre os anseios da população diretamente envolvidos no processo. raras vezes executado com camanha minúcia e no Brasil. 19 18Desde o primeiro instante, a candidatura de Collor acima de Um mês depois, em 27 de abril de 1989. foi transmitido um homem de comunicação foi pensada como um pro- segundo programa. Collor era convidado especial do programa duto que deveria se amoldar, nos mínimos e trabalhar do PTR, mas na verdade participou de toda a sua elaboração e suas próprias características de acordo com as demandas de seu ocupou-o praticamente por inteiro. estilo repetiu do anterior público: eleitor. e reforçou a imagem jovial intrépida do caçador de marajás. Um dos primeiros exemplos de tal minúcia foi a escolha do Ainda haveria um terceiro programa, desta vez do igualmente novo nome do partido de Collor. nome "Partido da Recons- obscuro Partido Social Cristão (PSC), exibido em 18 de maio de trução em substituição ao "Partido da foi 1989. altura, Collor já havia disparado nas pesquisas, era cuidadosamente pensado para transmitir, ao mesmo tempo, a idéia conhecido e popular em todo o país, e objetivo era consolidar a de mudança, de renovação de restauração de uma ordem de imagem do candidato, suas palavras de ordem seus En- coisas, personificada na figura de Collor. "O caçador de marajás" tre 5 de fevereiro 2 de maio de 1989 Collor havia multiplicado viria, sem radicalismos, restabelecer um idílico reinado da por seis os seus pontos nas pesquisas já quase o triplo do moralidade pública, à base apenas de sua energia, co- segundo colocado. ragem e compromisso com os valores mais caros 20 imaginário Embora possam ter sido vistos como a revelação, em primeira sou um cristão extremamente preocupado com as mão, de uma novidade promissora, os três programas questões nacionais e sociais e que tem uma esperança muito gran- eram apenas coroamento, a ponta do iceberg mercadológico posto de no futuro deste país" (entrevista concedida a 0 Globo em 5/2/89 em prática com extrema pela equipe de Collor já muito e repetida, quase que ipsis literis, à revista Isto em 26/4/89). antes da campanha de 89. Foi sob a chancela do novo partido que Collor apresentou sua Na verdade, ao menos desde o momento em que assumiu o candidatura e seu produto ao grande eleitorado brasileiro. pro- governo de Alagoas, Collor desenvolveu um estilo de administra- grama do PRN foi ao em 30 de março de 1989 e combinava os ção que jamais deixou de privilegiar o caráter "espetacularizado" recursos técnicos mais em voga na nossa propaganda audiovisual da política Todas as suas iniciativas governamentais com um discurso político enfático, no qual foram contemplados foram pensadas e postas em prática com uma preocupação mas como a crise moral, a dívida externa, a desesperança da popula- "mercadológica" medidas de impacto cram ção críticas ao governo Sarney, aos "coronéis" éclaro, aos "marajás". divulgadas em cadeias de rádio e televisão tal como se tornaria Como não poderia deixar de ser, o programa do PRN era um comum quando de sua passagem pela tudo era feito programa de sobre Fernando Collor de Mello. Na melhor tradi- num estilo marcadamente personalista e supra-institucional, sem ção do populismo, ou do messianismo brasileiros, a resolução dos consulta a outros poderes, lideranças e instituições. A estratégia problemas nacionais era associada imediatamente às qualidades implícita ou deliberada, consciente ou não visava sempre a pessoais do candidato e reduzida a uma questão de pura e simples estabelecer uma conexão imediata entre Collor, o chefe do Exe- vontade política (a do eleiso). resultado não poderia ter sido cutivo (estadual ou e o povo, na defesa dos interesses cerca de 81% dos telespectadores consultados em pes- deste último, à revelia e/ou a despeito dos intermediários consti- quisa consideraram o programa bom ou ótimo. E Collor tornou- tuídos, fossem estes representantes parlamentares ou funcioná- se, após a apresentação, conhecido de mais de metade da população. rios públicos, e de tal modo que não restasse dúvida alguma sobre 20 21a quem, para o bem ou para o mal, cabia todo o mérito e respon- uma matéria especial sobre o "furação Collor", que "começa a sabilidade. Desse modo, por exemplo, os cortes no funcionalis- mudar a vida de Alagoas", publicada pelo Jornal do menos mo alagoano foram deliberadamente feitos sem qualquer consul- de um mês após sua posse, em 5 de abril de 1987. De acordo com ra à Assembléia Legislativa do estado, ou mesmo à bancada de o jornal, "pela primeira vez um governador enfrenta os marajás apoio ao governador (que, inclusive, posicionou-se então contra do funcionalismo, pistoleiros e os barões do açúcar". Poucos me- Collor). Em entrevista publicada pelo Jornal do Brasil ses depois (em 24 de novembro de 1987) o jB repetia a dose com Collor chegou a afirmar que não abriria mão de assumir inteira- matéria de duas páginas cítulos laudatórios sobre Collor: "Ala- mente a responsabilidade pelo dos funcionários e que duvi- goas derruba clientelismo administrando por mérito"; "Oito me- dava que a classe política "topasse a parada". Ou seja: o confronto ses de obstinação que contagia todo o país": "Epopéia: acerto das não apenas previsível, como desejado. medidas resulta em "Rio aprova 2 ges- Do ponto de vista administrativo, a arrogância a auto-sufi- tão de "Receita de Collor foi mudar com ação ciência do então governador levou-o a acumular, tanto neste quan- "Alagoas vai servir como exemplo para o norte fluminense" to em outros episódios, uma série de inimizades até mesmo A adesão foi, contudo, muito mais ampla sistemática, o JB No entanto, a despeito de sua e inefi- está longe de ser o único veículo a incorrer neste tipo de desvio, cácia, as medidas de impacto tomadas por Collor atingiram em tão freqüente no jornalismo profissional, muitas vezes produzido cheio seu verdadeiro alvo: o imaginário político popular. A caça de modo inconsciente na maioria dos casos, sem maiores con- aos "califas" "fantasmas" de Alagoas, mesmo que (estamos, portanto, diante de uma exceção). É o que obtendo parcos resultados concretos, repercutiu em todo o Brasil nos mostra uma seleção de 57 manchetes, não só do Jornal do e consolidou a imagem pública de Fernando Collor. mas também de Globe, 0 Estado de S. Paulo a de É forçoso admitir, contudo, que em todo esse processo o S. Paulo, de 26 de novembro de 1986 a 5 de fevereiro de 1989 marketing de Collor seus assessores contou não apenas com far- (ver Anexo 1). Essas manchetes revelam que os quatro principais to espaço na mídia, mas também com uma verdadeira adesão edi- jornais do país apresentam um padrão bastante similar no trata- torial dos principais órgãos de imprensa. Quer dizer, os seus "re- mento editorial dado ao então governador de Aiagoas. Em certos clames" foram não apenas divulgados como também incorpora- momentos a identidade parece ser total, fazendo com que dos à própria pauta dos veículos, tal como os "anunciantes" los fiquem praticamente iguais (ver no Anexo 1, matérias 22 desejavam: com seus slogans, bordões, ênfases apelos. Se o ho- 23; 29, 30, 31 32; 43, 44 e 45; 46 47, por exemplo). mem público Fernando Collor de Mello buscou desde cedo ven- Outra similitude evidente é a forma de construção das senten- der-se como produto. os principais jornais e revistas do país fo- ças. Em praticamente toda a amostra o padrão é igual: "Collor ram alguns dos seus primeiros para além do mer- "Collor diz", "Collor não faz", "Colior não etc. cado regional alagoano. protagonista aparece sempre em primeiro plano, só, sempre em A rigor, logo após assumir o governo do estado de Alagoas, ação. E, que talvez seja ainda mais significativo, sempre envolvi- de tomar as primeiras medidas de impacto, o futuro "prodígio do em disputas e conflitos, sempre em busca de um objetivo. das urnas" já contava com o beneplácito da imprensa. Talvez o Em primeiro lugar, tanto em termos cronológicos quanto no exemplo mais paradigmático desta adesão, ou encampação, seja que diz respeito à hierarquia simbólica da cruzada "collorida", 23 22vem, obviamente, a luta contra os marajás. Em seguida, mas sem- de que nos parece mais interessante, contudo, é pre ligado ao ideal de fundo implicado no primeiro e fundamen- explorar as potencialidades de uma hipótese acerca da inserção da tal combate - ou seja, a moralização do Estado vem o en- mídia naquilo que poderíamos chamar de uma configuração es- frentamento com Sarney e seu governo, naquele momento pecífica de economia crescentemente suspeito e impopular. Esse combate que se des- Tratar-se-ia de um processo histórico de construção de uma dobra num afastamento progressivo e sistemático do PMDB, cada narrativa social sobre os principais significados da experiência co- vez mais desgastado, e na defesa da convocação de eleições diretas letiva de uma sociedade num determinado momento. Uma cons- para a Presidência, no menor prazo possível (conectando assim os trução ideológica e portanto comprometida, de um lado, com difusos populares de instauração de uma ética pública e interesses particulares, e de outro, com uma busca de coerência de escolha do presidente). interna, verossimilhança e legitimidade que ordena o caos e dá A cruzada em que se envolve o "caçador de marajás" atinge, às práticas, individuais e coletivas, sentidos e atribuições, tanto por fim, seu ápice dramático com a não-resignação diante da de- negativos quanto positivos, de tal modo que se torna possível aos cisão do Supremo Tribunal Federal, que ordena ao governador produtores e consumidores desta economia identificar os confli- cumprimento das leis de seu estado (no caso, o pagamento dos tos, os personagens e valores que se encontram em evidência nos salários dos marajás). A carga dramática do enredo, já ativada pelo diversos momentos da narrativa como nos enredos de novela). estilo de Collor e incensada, entre outros elementos, até por amea- Como não poderia deixar de ser, em nossa sociedade a mídia ças de morte, ganha contornos institucionais mais amplos e trans- detém uma posição estratégica nos processos de (re)elaboração borda a esfera da administração pública restrita com a propalada das estruturas e dos conteúdos destas narrativas, nas oscilações e disposição do governador de sacrificar seu mandato, correndo o acessos desta Trata-se, no entanto, de uma econo- risco da intervenção, em prol de uma questão de princípio que mia, de uma espécie de mercado, que se organiza e evolui de acor- extrapola qualquer formalismo jurídico: pagar os salários dos do com as interações e os cálculos parciais de inúmeros atores, e marajás "pode ser legal mas não é moral". cruzado oferece-se onde a posição estratégica dos meios de comunicação não lhes dá, em holocausto pela moralização pública, e a consciência nacional de modo algum, o monopólio da dotação de sentido aos fatos. agradece: "Mensagens de apoio chegam de todo o país." Assim, sua ação (re)produtora se em grande medida, de ma- Na verdade, é neste processo evidente de neira Quer dizer: para além dos posicionamentos adesão editorial a um projeto de marketing político, quem a editoriais deliberados, das matérias "encomendadas" ou com "en- rigor está usando quem. Impossível não reconhecer em vários dereço certo", há sempre o terreno maior e mais movediço da dos de nossa amostra uma nítida intenção de encampar cobertura cotidiana, onde as diretrizes editoriais têm de ser inter- o discurso do enérgico e eloqüente governador nordestino no pretadas à luz das urgências da produção indus- sentido da veiculação das opiniões e proposições do próprio trial da concorrência, e onde o chamado feeling jornalístico jornal (ver, por exemplo, no Anexo 1, os títulos 9, 11, de falar mais alto do que quaisquer procedimentos técnicos 20, 54 e 57). rotinizáveis, do que qualquer manual de redação.¹ Desse modo, É claro que poderíamos aqui aderir à teoria da explicação num certo sentido, pode-se dizer que, a despeito da sua posição conspiracional, tão repisada quanto não inteiramente desprovida a mídia acaba cambém sendo levada a atuar no mer- 24 25cado simbólico com um relativo grau de insegurança e incerteza, principais empresários do setor no país, antes de sequer imaginar a possibilidade de, um dia, chegar à presidência). enfrentando situações e seguindo tendências que pode ter decisi- Todos esses fatores nos permitem compreender por que, por vamente ajudado a criar mas cujas não poderia exemplo, tal como se pode perceber pela relação de títulos de prever ou controlar. nossa amostra, o governador de Alagoas praticamente não é aban- De posse dessas premissas, não fica tão compreender, donado pelas pautas dos jornais nem por um mês sequer, da posse portanto, a adesão editorial dos principais jornais brasileiros ao à entrega do cargo ao vice. marketing "collorido". As atitudes do governador de Alagoas, a Mas se a imprensa obtinha de Collor, ao mesmo tempo, um persistência com que manteve a si e suas bandeiras em constante símbolo e um porta-voz de seus próprios anseios, ela também the evidência, não apenas se adequaram às angústias e dava recursos mercadológicos que muito provavelmente não era expectativas da imprensa, seja com relação ao governo Sarney, em ainda capaz de avaliar. particular, seja no que respeita aos caminhos do Estado brasileiro, Não apenas a administração Collor em Alagoas passou a ser em termos mais genéricos. Mais do que isso: elas se beneficiaram como sinônimo de modelo, de ideal administrativo para do comprometimento que os veículos tinham assumido com os um país cansado de decepções na esfera político-institucional, ideais de moralização e modernização, ao fazer a como também as qualidades pessoais do "caçador de marajás", crítica do Estado e da sociedade, contribuir tão decisivamente sua imagem, associada às suas supostas iniciativas moralizadoras, para a configuração peculiar da economia simbólica daquele mo- o tornaram o ideal nacional de homem Num certo sen- mento. Tratava-se de um comprometimento tão ou mais instru- tido, essa conjugação de virtudes, de um lado pessoais mental dados os imperativos impessoais do mercado de dis- e, de outro, públicas, já fazia dele uma espécie de cursos públicos quanto propriamente ético. Como diria mais eleito, de predestinado ao sucesso e à redenção nacional (como o tarde o próprio Collor, já como candidato à presidência, ele sim- tempo pôde mostrar, longo do seu curto mandato presidencial plesmente sempre disse que se queria ouvir, e (ou sugeriu e do processo de impeachment, próprio Collor parece ter acredi- fazer) o que se queria que fosse feito. Em o que a mídia tado em eleição, em sua predestinação, tal eram sua crença em queria ouvir ver sua absolvição e seu apego ao mandato, só igualados por sua recu- Além disso, interesse da grande imprensa pelas aventuras de sa obstinada em defender-se). Collor em Alagoas pode ser explicado, sem a necessidade de qual- Desse modo, uma vez criado o personagem, e seu ou quer referência a ou a conchavos políticos na economia simbólica da pública nacional, todo também por imperativos econômicos análogos e complementa- res aos postos pela "economia simbólica": um "caçador de marajás" o noticiário relativo à administração Collor em Alagoas passou a do Nordeste é sem dúvida mais interessante (e obtém mui- se referendar e a reproduzir, de um modo ou de outro, mito do to mais ibope) do que um cotidiano, próximo, familiar, e muitas "caçador de do inimigo público número um da corrup- vezes modorrento governador de estilo tradicional (o que, obvia- ção, do empreguismo e da inépcia governamental. desejo de mente, em nada contradiz o fato de que, como homem de comu- reforma e de moralização da coisa pública, recorrentemente pre- nicação, herdeiro de um grande poder no nível regional, Collor sente nos conteúdos e pressupostos do noticiário dos principais poderia também manter desenvolver excelentes relações com os veículos, ganhou assim uma encarnação uma personifica- 27 26ção estimulante (e, a razoavelmente inofensiva, dada a distância a importância relativas de Alagoas, na ótica do centro nunca deixa de fazer, a imprensa cobrou a contrapartida de seu intelectual jornalístico do país Rio e São Paulo). investimento. É possível, vendo-se o tratamento dispensado a Collor pela Seguindo este padrão simbólico-editorial, cobertura prosse- imprensa em sua passagem pelo governo de Alagoas, indagar gue pelo ano de 1988. E assim, os embates de Collor com o fun- se já naquele momento os grandes jornais do país chegaram a cionalismo com 2 classe política alagoana, no início de 1989, no namorar sua candidatura à presidência. Com efeito, à primei- alvorecer da campanha presidencial, mereceram algum destaque ra vista, ao menos os jornais do Rio parecem, em determina- por parte dos principais jornais do cixo Rio-São Paulo, embora o dos momentos, ter-se deixado seduzir pela possibilidade de personagem central fosse ainda muito mais o governador do que que naquele momento estivesse surgindo uma verdadeira lide- o candidato. Mais uma vez foi praticamente a estes rança nacional (e, o que seria ainda melhor, sem maiores com- veículos não voltar a demonstrar um mínimo de simpatia para promissos com São Paulo). com o jovem governador que, originário das elites "belgas" do Uma análise mais aprofundada do noticiário, contudo, enfra- Sudeste, parecia seguir enfrentando de peito aberto o atraso secu- lar da política nordestina, descrita como "vicia- quece essa hipótese. Se, em 1987, seu primeiro ano de mandato, da" e Concinuava sendo, evidentemente, por um lado, o combate aos marajás é sempre bem-visto e aplau- dido, por outro lado, as articulações de Collor em de uma ainda pouco para fazer de Collor (o candidato a o chapa com ele como vice e Mário Covas como presidente não preferido das elites e/ou da imprensa. Mas foi mais do que sufici- parecem despertar muito ente para reforçar, junto ao eleitorado, a imagem positiva, reno- vadora e redentora de Collor, o governador. agora, porém, num A situação não melhora em nada com o lançamento de sua momento muito mais decisivo. candidatura à sucessão pelo PMDB, no início de 1988. Pelo con- Além disso, se antes Collor já havia dado mostras do seu feeling trário. tom cada mais agressivo de suas críticas a Sarney ao romper pública e radicalmente com o gover- sua disposição de disputar a convenção do partido, até mesmo no federal, no episódio da definição constitucional do mandato contra a candidatura de Ulysses Guimarães, não parecem encon- de o affaire Collor funcionalismo alagoano permi- trar muito respaldo no E embora os grandes jornais tiu demarcar ainda mais a distância que existia entre sua forma de abram espaço para a sua defesa (moral) no debate com STF, a administrar e a de Sarney, então objeto da execração pública. Os postura desafiadora de Collor é unanimemente grandes jornais não puderam se furtar a reconhecer (e a reprodu- Tudo leva a crer que, na medida em que Collor se desloca da zir) o fato de que, enquanto o presidente da República titubeara esfera administrativa regional para o cenário das disputas nacio- quisera entregar ao Congresso a responsabilidade por cortes no nais, da situação de governador moderno de um estado pobre e funcionalismo público federal, Collor fizera questão de assumir atrasado para a de candidato a vice depois, a inteiramente as de chefe do Executivo alagoano na presidente, o entusiasmo da imprensa torna-se rarefeito. De acor- resolução da mesma questão. A verdade é que, mesmo agindo de do, inclusive, com a valorização simbólica obtida pela cruzada de maneira personalista e fazendo mais estardalhaço do combate aos marajás, as matérias mais críticas ao seu governo são que obtendo resultados concretos, Collor contou mais uma vez aquelas que começam a pôr em questão a efetividade e a eficácia com a cumplicidade da mídia por se propor fazer aquilo que esta desse combate, a fidelidade à bandeira da Como considerava adequado. Não foi, infelizmente, a última vez. 28 29Nessa época, início de 1989, como vimos, a grande imprensa preferência. Este índice, contudo, ganhava uma dimensão maior, estava, contudo, mais ocupada com outros assuntos e pois Collor era conhecido de apenas 39% dos Mais Já contribuíra decisivamente para a candidatura de Collor, mas uma vez trabalho em grande parte inconsciente e a médio/lon- talvez ainda não se houvesse dado conta disso. go prazo da mídia, e a construção do mito do "caçador de marajás", A assessoria do candidato, entretanto, continuou trabalhando se fizeram notar. sistematicamente, como já fazia havia pelo menos um ano. Uma E não paravam as sondagens e as boas notícias: o Vox Populi pesquisa do Instituto Vox Populi, dirigido por Marcos Antônio descobriu também que a luta contra os marajás era considerada Coimbra, filho do embaixador Marcos Coimbra, cunhado de prioritária pela grande maioria dos entrevistados; que entre os Collor, mostrou que à pergunta "Qual o governador que mais desejados para o futuro presidente estavam os de mais admira?" 12% dos entrevistados responderam: Collor. Os "ser jovem", "ter experiência "ser de oposição a governadores do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco, e de Sarney"; e que não fazia diferença "ser desquitado" ou "ter sido do São Paulo, Orestes Quércia, obtiveram então índices de 7% e PDS". por diante a grande tarefa dos assessores de Collor foi 8%, respectivamente. torná-lo mais conhecido, de acordo com as coordenadas e atribu- não creditar parte deste sucesso à configuração não tos fornecidos pelas pesquisas. prevista e talvez não exatamente desejada da economia sim- o personagem já estava criado, portanto, e entrava na disputa bólica, produzida em grande medida de modo inconsciente e in- com um trunfo que poucos dos seus contendores poderiam igua- direto pelos grandes meios de comunicação em seus intercâmbios lar: uma imagem construída a partir dos anseios mais e com o marketing "collorido". difusos da população. A imagem do eleito, do redentor. Na verdade, como podemos perceber, a distância geográfica e Bastava agora aprimorar seu discurso e convencer as parcelas mais psicológica entre e o eixo Rio-São Paulo, onde estão sediados bem informadas do eleitorado aquelas que, como a mídia, todos os principais jornais. revistas e redes de rádio e do país, em pelo menos alguma margem de manobra no mercado dos discursos vez de prejudicar acabou, inclusive, por contribuir para que fosse públicos de que Collor poderia ser, também, o seu candidaro. forjada a imagem do "caçador de marajás" e para que, em qualquer Faltava, portanto, 0 programa de governo do "eleito". comparação mais ou menos superficial, distante porém marcante governador de Alagoas fosse mais bem aquinhoado que os mandatá- rios mais próximos, mais conhecidos e, mais Marketing e política: a criação do programa, vulneráveis. Seria a concretização, no terreno da política, do velho ditado popular que diz que "santo de casa não faz milagre". OU "juntando fome com a vontade de comer" Outro aspecto que animou os assessores de Collor além do "Estou na frente porque há uma sintonia entre aquilo que venho pregando, Vox Populi, em especial a agência mineira de publicidade Setem- e fazendo, e aquilo que espera sociedade brasileira de um político." bro foi o fato de que sua candidatura, um ano antes da campa- (Entrevista de Collor a Isto 26/4/1989.) nha (em março de 1988), já possuía um enorme potencial de sucesso da candidatura de Collor o papel dos meios de comu- crescimento: numa pesquisa da Vox Populi ela aparecia em tercei- lugar (atrás de Brizola e de Lula) com 3,9% das indicações de nicação neste processo não se restringem à preparação, talvez in- consciente, do imaginário popular para receber em seus sonhos o 30 31"caçador de Não se esgota na criação de um mito popular de reformador administrativo, de demiurgo moralizador. Para a confecção de nossa amostra foram adotados dois proce- Tanto quanto a própria sensibilidade de Collor para o dimentos básicos: marketing, e a competente atuação de seus assessores, o que cha- 1) para os jornais: levantamento das primeiras páginas de edi- ma a atenção, quando analisamos o conteúdo do noticiário nos ções dominicais, com um intervalo de duas semanas entre cada últimos meses de 1988, e nos primeiros de 1989. bem como, a edição, classificação das notícias por assunto por importância partir de então, o comportamento da imprensa na campanha, é o relativa (posição na página, presença, ausência dimensão de re- fato de que as temáticas privilegiadas pela mídia foram habilmen- cursos gráficos/editoriais, como fotos, manchetes, texto, ilustra- te incorporadas pelo discurso do candidato vitorioso e ções etc); obteve-se assim uma amostra parcial de 84 edições redirecionadas para o público. 951 Assim, a condenação ao papel do Estado, não só como agente 2) para as revistas: levantamento dos das edições sema- controlador da economia mas também como gerador da própria nais, também com um intervalo de duas semanas entre cada edi- crise, os motes da "caça aos marajás", da austeridade, do ção, e classificação das notícias por assunto e por importância enxugamento da máquina estatal, da modernização da economia relativa (presença na capa, nas entrevistas, nos editoriais, desta- e do suposto anacronismo das supostas propostas estatizantes da que relativo no obteve-se assim uma amostra parcial de esquerda, foram repetidos à exaustão, com o respaldo de todo o 58 edições e 508 noticiário, transformando-se, por fim, em verdades históricas ne- As notícias foram classificadas em 65 categorias de assunto cessárias e Tanto que, inclusive, Collor pôde jogar que, por sua vez, foram agrupadas em oito grupos temáticos, dos com duas linhas programáticas, aptas, de um lado, a fazê-lo quais três guardam interesse direto para nossa pesquisa ("Crise candidato dos sonhos da grande massa de "descamisados" (outra "Crise política" "Sucessão dois inte- metáfora utilizada com insistência), e de outro, a torná-lo não resse secundário ("Sociedade civil" "Política e apenas palatável mas também atraente às elites empresariais. As- os demais interesse apenas marginal ("Economia/outros", sim, ao mesmo tempo que elegia os funcionários públicos para o ca/outros" "Diversos")." papel de bode expiatório e armava o circo da moralização admi- Com relação à freqüência com que sobre determina- nistrativa para a grande massa do eleitorado, o candidato acena- do assunto aparecem, percebe-se que, obviamente, o noticiário para as elites, com a retirada do Estado da economia. E em dos principais veículos impressos é bastante diversificado, com ambos os casos não fazia mais do que repetir o teor das principais uma predominância quantitativa de assuntos "diversos", com pou- matérias de muitos editoriais da imprensa. ca ou nenhuma relação com a vida política e econômica, quer Um pequeno levantamento das principais matérias dos jor- dizer, com os assuntos mais diretamente ligados ao funcionamen- nais Folha de S. Paulo, 0 Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil das to do governo federal. Assim, o grupo "Diversos", que engloba revistas Veja Isto de agosto de 1988 a agosto de 1989, categorias de assuntos tais como "Comportamento", "Esportes", permitiu-nos construir uma amostra que revela alguns dados in- "Crimes", "Cultura", "Curiosidades" etc, teressantes sobre a formação da política da campanha é o de maior freqüência na amostra total, com 34,22% (Tabela 1). presidencial de 1989. Em segundo lugar, entre os grupos temáticos da amostra total, encontra-se o de "Política internacional", que guarda um certo 32 33interesse para nossa argumentação, com 13,17%; em terceiro, o Tabela 1. Freqüência de noticias por grupos de assunto: grupo de notícias sobre a "Crise que engloba as amostra total e 5 primeiras, de acordo com o ranking gorias "Inflação", "Dívida "Dívida interna", "Estatais", Amostra total 5 primeiras Dif "Planos econômicos", "Estagnação" e "Déficit com Grupos (%) (%) (%) 12,86%; e, em quarto, o de notícias sobre a "Sucessão", com 9,69% Crise econômica 12,86 15,16 2,30 (tecnicamente "empatado" com o da "Sociedade civil", 9,32%). (outros) 6,09 4,89 -1,20 A distribuição temárica da amostra total de notícias não espelha, Crise 8,39 10,90 2,51 contudo, o verdadeiro grau de importância editorial atribuído pelos (outros) 6,27 6,89 0,62 veículos às notícias, é, na verdade, muito mais um indicador do Sucessão 9,69 12,66 2,97 perfil sociocultural do público-alvo de cada publicação. Sociedade civil 9,32 11,53 2,21 Para obtermos uma imagem mais acurada da hierarquização Politica internacional 13,17 12,28 -0,89 temático-ideológica dos jornais revistas analisados, classificamos Diversos 34,22 25,69 -8,53 as notícias de cada edição de acordo com seus atributos gráfico- Totais 100,00 100,00 0,00 de modo a estabelecer uma espécie de ranking que nos Sendo estes últimos grupos os mais decisivos para nossa análise, permite dizer, de cada edição, quais as matérias principais. É interessante notar, através deste procedimento, que, se res- pois dizem respeito diretamente à campanha sucessória e sua agen- da, o fato de seus conteúdos aparecerem relativamente melhor no tringirmos a às cinco notícias principais de cada edição, a ordem e os graus de freqüência dos grupos temáticos sofrem mu- subconjunto das matérias principais permite-nos perceber o quanto danças significativas. grupo de notícias "Diversas" segue em são privilegiados na hierarquia temático-editorial dos veículos. Ou primeiro mas com maior redução percentual: cerca de seja: mesmo aparecendo menos do que outros assuntos, quando Diferentemente. contudo, do que ocorre na amostra principal, fazem recebem, relativamente, destaque. aqui o segundo lugar é do grupo de notícias sobre a "Crise econô- Tabela 2. Freqüência de por grupos de assunto: mica", que cresce para 15,16%. grupo da "Política internacio- total e principais, de acordo com o ranking nal" é suplantado inclusive pelo grupo da "Sucessão", que apre- senta o maior índice de variação positiva (2,97%) e assume o ter- Amostra total Var ceiro lugar. Outros significativos são as variações positivas Grupos (%) (%) (%) dos grupos "Crise política" (2,51%) e "Sociedade civil" (2,21%). Crise econômica 12,86 14,38 1,52 Por fim, é digno de registro o fato de a redução de freqüência Economia (outros) 6,09 5,23 -0,86 Crise politica 8,39 relativa principal, a do grupo "Diversos", dado em prol de 12,42 4,03 (outros) 6,27 9,15 2,88 um ganho equilibradamente entre os grupos "Crise 9,69 9,80 0,11 "Crise "Sucessão" e "Sociedade Sociedade civil 9,32 9,80 0,46 Politica 13,17 11,76 -1,41 Diversos 34,22 27,45 -6,77 Totais 100,00 100,00 0,00 34 35entretanto, levarmos em conta as não das cin- Uma análise da evolução editorial individual das categorias de primeiras mas da notícia principal de cada edição, é muito assunto, do conjunto global para o grupo mais seleto de notícias significativo o fato de que o grupo temático que mais aumenta a as principais de cada edição demonstra ainda mais clara- sua participação é da "Crise política", que engloba as categorias mente o destaque relativo das notícias diretamente relacionadas à "Corrupção", "Empreguismo". "Clientelismo", agenda eleitoral e, em particular, das mais especificamente rela- tério Sarney", "Nepotismo", "Negociação de car- cionadas à crise política (Tabela 3). gos públicos", "Impunidade", "Poder "Governa- caso mais flagrance de prestígio editorial inversamente pro- bilidade", "Estabilidade do regime" e "Serviços públicos" (Tabela porcional à sua freqüência global é o da categoria "Nepotismo", 2). Se os grupos cuja participação aumenta diminui continuam cuja única aparição na amostra foi justamente na condição de sendo os mesmos da comparação anterior. a distribuição do aumen- matéria principal de sua edição ("Congresso é campeão de em- to entre os grupos privilegiados desequilibra-se sensivelmente em fa- pregar parentes", JB, 19/2/89). do grupo da "Crise cuja variação passa a ser de 4,03% Isto não apenas demonstra que, como propusemos anterior- (ou de 48,03% em relação à sua participação na amostra global). mente, os meios têm suas pautas e políticas editoriais em grande Isto significa que as referentes a este grupo recebem medida condicionadas por imperativos postos por aquilo que cha- um destaque editorial relativo muito mais significativo do que mamos de uma economia simbólica que, no caso, privilegia todas as outras. um assunto tão claramente referenciado à crise de legitimidade e 3. Categorias de assunto que apresentam maior participação de iniciativa polícica vivenciada pelo país, atribuída basicamente relativa no passagem de amostra para motérios de ao comportamento moral dos políticos mas também nos in- acordo com 0 ranking dica o modo pelo qual, ao seguir tal condicionamento, a impren- sa reproduz os elementos constitutivos da narrativa social em pro- AT Dif. cesso as coordenadas lógicas e valorativas que a organizam. Grupo (%) (%) (%) (%) Não por acaso, empreguismo, mordomias, 1. Nepotismo Crise politica 0,06 0,65 0,59 983,33 clientelismo, impunidade e demais mazelas do governo Sarney e 2. Tigres Polit. 0,12 0,65 0,53 seu ministério são todos elementos de uma mesma narrativa a 3. Empreguismo Crise politica 0,37 1,31 0,94 254,05 4. respeito de desordens econômicas, políticas, e sobretudo morais, Crise politico 0,56 1,98 1,40 250,00 5. Crise 0,19 0,65 0,46 242,10 que se articulam na definição, ao menos, de uma agenda negati- 6. Cand. Maluf Sucessão 0,19 0,65 0,46 242,10 va, quer dizer, de tudo o que é preciso mudar na vida pública 7. Grevas civil 1,86 4,58 2,72 146,24 brasileira. A presença do item "greves" no grupo das dez categorias de 8. Collor Sucessão 1,37 3,27 1,90 138,68 maior destaque relativo, longe de significar um reconhecimento da 9. G/M Sarney Crise 2,17 4,58 2,41 111,05 legitimidade da ação de grupos de trabalhadores, encaixa-se perfeita- 10. Impunidade 0,68 1,31 0,63 92,65 mente nesta "não-agenda", dado tratamento negativo que o assun- AT to recebe no noticiário (veremos isso, em detalhe, mais adiante). entre ligres de do do como A complexidade da configuração da economia simbólica de e G/M de uma sociedade como a nossa, ao menos no período em questão, 36 37pode ser exemplificada também pelo significativo desempenho como tais assuntos foram tratados. Ou seja, nos diz o que entrou da categoria de política internacional "tigres asiáticos" (que se deve, na agenda da eleição, mas não de que forma. basicamente, a uma matéria de capa de Veja, de 14/9/88). De Para proceder a uma análise mais selecionamos um acordo com uma lógica que equaciona crise e estagnação econô- novo grupo de títulos e de trechos de notícias que, acreditamos, micas como produtos praticamente unilaterais, de um lado, da ilustram o modo como nossos principais veículos encaravam as voracidade fiscal, do gigantismo, da inépcia e da corrupção esta- principais determinantes e saídas para a crise (ver Anexo 3). Como tais, de outro, do nacionalismo econômico, a imagem da pros- se pode observar nessa nova amostra, assuntos enfocados, o peridade crescimento de certos países, como resultante imediata espaço e o destaque dedicados, a forma de abordá-los podem va- do advento de uma iniciativa privada livre de barreiras e entraves riar das reportagens de capa artigos editoriais, das entrevis- burocráticos, independentemente de maiores considerações so- tas com especialistas às matérias Entretanto, a ló- bre suas experiências históricas e políticas singulares, opera como gica que articula todos os diferentes elementos, todos os diferen- uma espécie de ideal normativo. Ideal que assim é capaz de dis- tes "fatos", sejam estes opiniões abalizadas ou dados estatísticos, tinguir e julgar entre propostas mais ou menos legítimas, mais ou equaciona a crise econômica brasileira do mesmo modo: se a in- menos adequadas (sem, obviamente, necessitar pôr em questão flação é o maior problema, Estado é o agente praticamente uni- os próprios pressupostos da operação, da lógica de lateral do processo a sua moralização e reforma, ou melhor, a interessante observar, também, a evolução do grupo sobre a sua redução, o seu "enxugamento", são as "Crise econômica", quando passamos da amostra das cinco pri- uso freqüente de certos adjetivos, advérbios de modo e in- meiras matérias para a das principais. Embora continue sendo o tensidade, figuras de retórica do linguajar corriqueiro e, princi- segundo grupo, em termos de participação há aqui uma redução palmente, consagradas à época (tais como a fauna das significativa, além de que nenhuma de suas categorias apresenta "baleias", "tigres" e "elefantes"), que pressupõem, no mínimo, a desempenho individual de maior destaque. Tudo nos leva a crer familiaridade e a concordância tácita dos interlocutores este que o caráter praticamente crônico da nossa crise econômica privilégio argumentativo de quem dialoga com base na estabili- ao menos de acordo com a configuração da nossa economia simbó- dade ideológica de um "senso comum" ilustra mais do que lica o ritmo de evolução de seus elementos, se são suficientes qualquer editorial, ou tomada de posição explícita, a adesão dos para manter o grupo temático sempre em evidência, não o são, con- veículos a uma narrativa que ordena, explicita e localiza tanto as tudo, para ocupar as matérias principais, pelo menos na mesma pro- tramas conflitos como seus protagonistas. porção que conseguem as notícias sobre a crise política e a portanto recorrente o raciocínio, mais ou menos explícito, Neste sentido, a presença das categorias de assunto sobre as mais ou menos subjacente, de que a solução da crise econômica candidaturas de Paulo Maluf Fernando Collor no grupo das dez brasileira passa pela solução de um conflito que, à primeira vista, mais privilegiadas nos chama a atenção para a importância que os aparece como sendo de ordem política: de um lado os reformadores personagens (protagonistas, coadjuvantes, "heróis" e "vilões") têm do Estado, de outro, os seus defensores (e beneficiários); ou, dito para a estrutura narrativa da economia de outro modo: de um lado os modernos, de outro, os arcaicos. A distribuição temática das notícias, pelas amostras totais ou Na verdade, porém, tal conflito não é tratado pela imprensa parciais, ainda não nos diz, contudo, nada a respeito do modo como sendo efetivamente político entre interesses legitima- 38 39mente conflitantes ou mesmo ideológico entre correntes de É na junção da configuração da economia simbólica do perío- pensamento igualmente e A do e da eficácia de uma estratégia de marketing eleitoral com a ção simbólica do momento político, (re)produzida pela impren- indecisão o vácuo no centro e na direita, de um lado, e com a sa, apresenta-se com toda a sua coerência tipicamente ideoló- radicalização da imagem da esquerda, de outro, que, acreditamos, gica pelo modo como deslegitima o comportamento político pode ser melhor compreendido o papel específico da imprensa na dos supostamente arcaicos através do recurso à moralização a construção do mito Collor. E é aqui, também, que os elementos racionalização (ou universalização) de seus argumentos. intencionais presentes na cobertura jornalística da eleição se evi- De posse do ideal não necessariamente falso, mas inevita- denciam mais claramente. velmente mítico da modernização, e de suas (ideo)lógicas Assim, num prosseguimento lógico do processo anterior, a im- inquestionáveis, a imprensa se julgou capaz não apenas de diag- prensa, que havia "dado" o programa, surpreendeu-se (e, em cer- nosticar a raiz dos males que afetavam nossa economia, como tos casos, encantou-se) com seu candidato, que se apresentava também de indicar o modo pelo qual se devia então ao mesmo tempo como liberal e popular, jovem empresário Desse modo, pode-se dizer que, indiretamente, ao centrar seu e liderança carismática. Acolheu-o com diferentes graus de senso discurso nestes temas e com este viés, ao seguir repro- crítico, preocupou-se até, em certos casos, em tratá-lo imparcial- duzindo a configuração simbólica e ideológica do momento, a mente e em dar chance aos demais (até mesmo, quem sabe, para grande imprensa praticamente preparou o programa de seu can- que surgisse uma alternativa melhor). Mas direta indiretamente didato que, por uma série de circunstâncias políticas, conjunturais ajudou a pavimentar seu caminho até o topo, ao reforçar com seu e técnicas entre outras, o melhor aparelhamento para lidar noticiário e sua opinião as mesmas críticas ao "velho" e o mesmo com o marketing político contemporâneo veio a ser Fernando apelo ao "novo" que Collor tão bem soube manipular. E também, Collor de Mello. de modo ao não dirigir suas luzes com toda energia para os pontos politicamente mais fracos e para os aspectos mais som- brios e pouco edificantes que a máquina "collorida" já apresenta- Vácuo politico e polarização ideológica, va em seu desfile rumo à vitória (quer dizer, do modo como esta do oficio de engolir sapos mesma imprensa faria poucos anos depois, nos meses que antece- deram impeachment). A rigor, no entanto, será impossível compreender o sucesso da candidatura Collor, e o mais ou menos mais Como foi inúmeras vezes assumido, ao menos no início da campanha, a imprensa, tal como seus principais interlocutores ou menos consciente da grande imprensa às suas palavras de or- dem, sem levar em conta, também, dois outros aspectos: 1) o as elites acompanhava ansiosamente as manobras nos basti- vácuo político que se abriu pelas indecisões, indefinições e dores da política partidária tradicional. Inúmeras vezes os jornais idiossincrasias das forças políticas do centro e da direita vácuo e revistas abriram suas manchetes e suas páginas principais para que foi ocupado com mestria por Collor, 2) o papel de verdadei- revelar os meandros das definições no PMDB e, em menor esca- ros espantalhos da burguesia que coube aos candidatos da esquer- la, no PFL. E embora uma grande parcela do eleitorado, prova- da, Lula e Brizola. velmente a maioria, não leia nem jornais nem revistas, não há como descartar a hipótese acerca do efeito sobre o imaginário 40 41popular destas matérias relacionadas ao festival de intrigas, do engodo, mas não puderam obter dele exatamente o compro- conchavos e traições, minuciosamente registrados, que cercou as metimento desejado. candidaturas de Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves." Na medida em que foram se frustrando, uma a uma, as candi- Se já não bastassem os cinco anos de Sarney e da "Aliança De- daturas mais desejáveis pelo centro e pela direita, chegou-se in- mocrática" (e seus desastrosos efeitos sobre a credibilidade das clusive a sondar a possibilidade de novas alternativas a Collor. Se instituições democráticas), o noticiário dos primeiros meses de as velhas máquinas partidárias pareciam emperradas, e candida- 1989 seria suficiente para dar uma folgada vantagem a qualquer turas populistas tradicionais se mostravam relutantes, tentava-se candidato que conseguisse apresentar-se como agora buscar nas novas caras da política uma que parecesse mais desvinculado de partidos e facções. Com insignificância consistente e confiável do que a do "caçador de marajás". Foi 0 política do PRN e dos demais partidos que apoiavam Collor, que, que quase ocorreu, por exemplo, com as candidaturas de Gui- provavelmente, foi um dos fatores a pesar no descaso com que Afif Domingos (do PL, Liberal) Mário Covas inicialmente a candidatura do governador de Alagoas foi tratada (do PSDB, Partido da Social-Democracia Brasileira) que, em de- pela mídia uma vez que, do ponto de vista das pesquisas de terminados momentos da campanha, chegaram a figurar como opinião da época, Collor já era, indubitavelmente, um assunto alternativas melhores e mais consistentes do que Collor. Se no importante, mesmo que em quarto lugar esta caso de Afif as suas conhecidas propostas liberais já bastavam para cia, portanto, paradoxalmente parece ter sido mais um dos ele- fazê-lo famoso discurso de Covas no plenário da mentos positivos de sua campanha. Se a escolha da sigla, por Collor, mara, no início de julho de 1989, propondo um "choque de capi- se deveu simplesmente mais à falta de uma legenda maior, graças talismo" para o Brasil, atraiu o interesse e a boa vontade da im- à exposição pública da "lavagem de roupa suja" dos dois maiores prensa, chegando inclusive a preocupar favorito nas partidos, a obscuridade de PRN & tornou-se um verdadeiro Ambas as candidaturas, contudo, logo deixaram de ser cortejadas trunfo de campanha. em virtude da dianteira avassaladora obtida pelo ex-governador Outro aspecto marcante da cobertura foi a espera longa e inú- de Alagoas nas pesquisas e da polarização ideológica do processo til pelas candidaturas de Jânio, Quércia e Antônio Ermírio (ou sucessório. Ficou logo evidente a todos que não adiantava sonhar ainda Resende, ou Sílvio Santos). De um lado aguardava-se a com liberais ou com social-democratas mais autênticos. exor- possibilidade de definição de um dos grandes partidos por nomes cismo do espectro de "Brizula" só poderia ser garantido com a perfeitamente digeríveis que poderiam unificá-los em torno de vitória de Collor e seu discurso ambíguo e sem substância. cálculos políticos pragmáticos, colocando assim em marcha má- Se analisarmos o conteúdo das matérias jornalísticas do ano quinas partidárias estimáveis (e de so- de 1989 veremos que, à parte certos episódios lamentáveis (o caso nhava-se com a repetição de um engodo, de uma candidatura que "Eureka", a edição do último debate no "Jornal Nacional", por possuísse, ao mesmo tempo, os dons de falar a linguagem mais exemplo, e a exploração tendenciosa do seqüestro do empresário popular, principalmente a mais em voga no momento, que era a Abílio Diniz no geral a imprensa buscou atuar com um míni- do moralismo, e de estar reconhecidamente comprometida com mo de imparcialidade no tratamento jornalístico das candidatu- interesses, tradições e estruturas políticas de longa data estabeleci- ras consideradas de esquerda. não quer dizer que a mídia dos. Como o tempo pôde mostrar, as obtiveram a repetição fosse simpática aos principais candidatos desta faixa do espectro, 42 43Lula e Brizola, embora ambos tenham, a rigor, obtido espaço manipulação de slogans, de fisiologismo e de esbanjamento de jornalístico bastante razoável. A verdade é que a simples cobertu- recursos que se avolumavam à vista de todos, em torno do líder ra diária da campanha e das propostas de ambos, conduzida de das pesquisas. Com uma naturalidade que não se veria mais pou- maneira crítica e minuciosa (de que a imprensa é capaz quando cos anos depois, quando daria a partida na série de reportagens quer), já seria suficiente para expor os problemas e mazelas de que conduziram o presidente Collor ao impeachment, a revista Veja candidaturas, neste aspecto semelhantes a todas as outras. E para comentava 0 aparato do candidato na reta final do pleito: demonstrar o quanto a vitória de Lula ou de Brizola, sim, em especial, longe de implicar qualquer risco real para a ordem política e "Ele chega às vésperas da eleição com vários jatinhos à sua disposição, econômica existente, prenunciava a adoção de políticas que, ao me- dependendo da ocasião, a frota é reforçada por bimotores. Em seus desloca- mentos, normalmente viaja em uma esquadrilha de cinco jatinhos. Um é nos aparentemente, se situavam a quilômetros de distância do recei- para o candidato, outro para assessores e amigos, dois para seguranças tuário preconizado pela imprensa e pelas elites, no combate à crise. por fim, ele reserva um para os jornalistas que cobrem sua campanha viaja- Há que se levar em conta, sem dúvida, que 1989, assim como rem de graça (...). Nenhum dos outros candidatos, em seus melhores mo- já havia sido 1988, foi um ano pródigo em greves e confrontos mentos de campanha, exibiu-se com essa suntuosidade dentro da luta toral. No máximo os concorrentes dispunham de dois trabalhistas, e que a imprensa de modo geral deu, como de hábi- to, um tratamento severo e negativista ao movimento sindical Tudo, portanto, perfeitamente natural! A própria figura de (em particular à CUT, sempre associada ao PT); que ao longo do Paulo César Farias, o PC, tesoureiro da campanha que se tornou ano e da campanha foi ressuscitada uma série de velhos fantas- milionária, assim como seus antecedentes suspeitos, já eram lar- mas, como ameaças de fuga em massa de empresários, ocupação gamente Era perfeitamente visível, portanto, já na de quartos de famílias da classe média por flagelados nordestinos, campanha de Collor, a presença dos mesmos elementos que cor- entre outras "pérolas"; e que, no mesmo momento em que o muro roeram governo Sarney, as candidaturas do PMDB e do PFL de Berlim vinha abaixo, o discurso, as propostas e o estilo de Brizola tão minuciosamente registradas e que, como se veria mais tar- soavam por demais contrastantes (e, dada a configuração simbó- de, inviabilizariam a efetivação do programa de governo da mídia lica predominante, decididamente anacrônicos). Mas na verdade, por seu candidato, quando eleito. com exceção dos casos mais vexaminosos já citados, a diferença De certo modo, a imprensa não fez mais do que, tácita ou de tratamento dado pela maioria dos grandes órgãos com ex- declaradamente, reconhecer na escalada de Collor um fato con- ceção da Folha e da Isto a Lula e a Brizola, de um lado, e, de sumado, que se converteria no desaguadouro de todas as forças outro, a Collor e demais candidatos do centro e/ou da direita inclusive as suas próprias que anatematizavam "o espectro pode ser melhor descrita com a adoção de outro ditado popular: de Brizula". Mesmo que, para isso, fosse necessário fazer vista grossa "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei." Assim, enquanto os pro- a uma série de indicativos que Collor e seu grupo já forneciam, ao gramas (ou a falta de) de Lula e Brizola eram submetidos às mais longo de toda a campanha, do que estava por vir com sua vitória. duras análises, que seria perfeitamente razoável, o chão de onde Assim como se dizia então de Lula, Collor foi uma espécie de brotava o discurso de Collor era examinado de modo menos que sapo que a grande imprensa teve de engolir em curioso superficial. Além disso, àquela época, a grande maioria da im- é que, como vimos, de certo modo foi ela própria quem se indu- prensa não parecia se importar com os inúmeros indicadores de ziu a tal dieta. 44 45Como os próximos artigos ilustram, houve ainda um momen- to em que se tentou acreditar que o sabor do prato não era tão ruim assim, e que à sua boa aparência correspondia realmente algum conteúdo nutritivo. Que do sacrifício poderia advir algum benefício. Por fim, contudo, sua digestão completa provou ser impossível. Em pouco tempo foi preciso expeli-lo. 46