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Estudo da psicossomática

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Estudo da psicossomática Você vai conhecer a construção histórica da psicossomática e sua efetivação no campo da saúde como área de conhecimento da psicologia. Profa. Leticia Nascimento Mello1. Itens iniciais Propósito Compreender o conceito e a origem da psicossomática dentro da psicologia, discutindo a dicotomia entre mente e corpo, permite que profissionais da área de saúde tenha fundamentos teóricos que facilitem seu trabalho na prática. Objetivos Comparar as abordagens monista e dualista no problema mente e corpo e sua importância no conceito de psicossomática. Descrever a evolução histórica do conceito de psicossomática. Definir uma relação entre os fundamentos da psicossomática e as práticas atuais. Introdução Vamos estudar a visão mente e corpo e conceito de psicossomática e somatopsíquico para melhor conhecermos a evolução da psicossomática, que aconteceu em três fases: psicanalítica, behaviorista e multidisciplinar. Porém, precisamos compreender que a psicossomática não se resume às doenças psicossomáticas, pois engloba um grande campo de estudos que considera o ser humano em sua forma biopsicossocial, ou seja, o indivíduo em sua integralidade. Vamos relacionar esses conceitos às práticas multi e interdisciplinares no campo da saúde. Vamos lá!1. conceito de psicossomática e sua fundamentação As concepções monista e dualista Confira, neste vídeo, as diferenças entre a abordagem do dualismo e do monismo e suas implicações. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A dicotomia mente e corpo e sua repercussão na prática da pessoa profissional de saúde Para discutirmos as concepções monista e dualista sobre o problema da mente e do corpo, precisaremos visitar brevemente a mãe de todas as ciências: a filosofia. Afinal, é nela que esse problema é posto de forma sistemática, além de ser pensado por renomados filósofos da nossa História. Veja o que importantes filósofos consideraram sobre essas concepções. Dualismo A posição dualista do problema mente e corpo não é uma unanimidade hoje. Para o dualismo, eles são entidades separadas, distintas e incompatíveis. Portanto, trata-se da oposição ao pensamento monista. Os dualistas aceitam que há relação entre mente e corpo, mas isso não significa que a mente padeceria após a morte física do corpo, por exemplo. Vamos recorrer ao dicionário de psicologia da American Psychological Association (APA) para melhor compreendermos esse conceito: No contexto do problema mente-corpo, dualismo é a posição de que mente e corpo constituem dois reinos ou substâncias separadas. Posições dualistas levantam a questão de como mente e corpo interagem no pensamento e no comportamento. [...] isso significa que a mente continua existindo mesmo que corpo material não exista mais. (APA, 2010, p.312) Platão foi um dos mais brilhantes filósofos que existiu. Ele nasceu em Atenas, na Grécia Antiga, e viveu entre os anos de 427-347 AEC. Formulou a tese de que existe um mundo dos sentidos e outro das ideias. Para explicar melhor a tese de Platão, podemos usar uma ilustração confeccionada pelo próprio filósofo: mito da caverna.AEC uso das siglas AEC (antes da Era Comum) e EC (Era Comum) tem como objetivo uma escrita inclusiva, sem distinção de crença ou cultura. São equivalentes aos termos antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). Resumindo mito da caverna consiste em prisioneiros que se encontram condenados a viverem o resto de seus dias em uma caverna, presos por correntes e impossibilitados de enxergarem que acontece além da entrada do lugar. Tudo o que eles conseguem ver são as sombras de pessoas e objetos projetadas na parede da caverna, graças a uma fogueira presente no local. Porém, um prisioneiro consegue escapar e encontrar a saída. Ele observa admirado o mundo exterior que sempre esteve ali, mas com qual ele apenas se conectava pelas sombras projetadas na parede da caverna. A alegoria da caverna serve para ilustrar a tese platônica do mundo das ideias e dos sentidos. Para o filósofo grego, esse mundo seria justamente o material, que conseguimos captar pelos nossos órgãos sensoriais. As projeções imperfeitas das sombras são o que captamos do que existe no mundo das ideias. Resumindo No mito elaborado por Platão, mundo das ideias é o exterior da caverna. As formas perfeitas e eternas residem nele, que está separado do âmbito material e não pode ser acessado pelos órgãos sensoriais. A forma de contato com o mundo das ideias é por meio da razão. Assim, para Platão, a alma do homem é imortal, e um dia ela já habitou o mundo das ideias, enquanto o corpo é possuidor dos sentidos e consegue captar o mundo material. A alma detém a razão e é a parte do ser humano que acessa mundo das ideias. filósofo é, então, considerado dualista. Para Platão, existe a clara separação entre corpo (material) e alma (abstrata). Enquanto o corpo habita o mundo dos sentidos, a alma pertence ao mundo das ideias. corpo seria um instrumento para a alma do ser humano. Segundo o mito da caverna, podemos entender que, para o dualismo, a mente e o corpo estão interconectados, mas eles também existem em diferentes níveis de compreensão da realidade. A mente é capaz de transcender as limitações do corpo físico e perceber uma realidade mais ampla e profunda.baseada no mito da caverna, concebido por Platão. René Descartes foi outro importante filósofo e dualista. Ele considerava que os sentidos são ferramentas falhas para conhecer a verdade, pois eles nos enganariam tempo todo. De fato, os sentidos humanos visão, olfato, paladar, tato e audição podem nos iludir. Basta recorrermos aos inúmeros exemplos de ilusão de ótica, nos quais uma figura pode ser interpretada de diversas formas ou pode nos levar a acreditar que uma imagem estática está em movimento. Faça o seguinte exercício: observe a imagem a seguir. Você verá uma imagem estática, mas terá a sensação de que ela está em movimento. llusão de movimento: imagem composta por círculos listrados em preto e branco, dando a impressão de que estão girando. Descartes busca pôr em xeque todas as certezas sobre mundo, com objetivo de chegar a outras irrefutáveis. A primeira certeza de Descartes era a de que ele não podia duvidar de sua própria existência, e daí veio a máxima criada por ele: penso, logo, existo. Em outras palavras, para pensar é preciso existir, pois não haveria a mínima possibilidade de um pensamento acontecer sem existência. Logo, ela se constituía uma certeza para Descartes. O filósofo francês usa o exemplo da cera para indicar como conhecemos as coisas pela razão, e não pelos sentidos. por mais que um pedaço de cera derretido tenha suas características modificadas, ele continua sendo cera:O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo que notei nela por intermédio dos sentidos, posto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontram-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece. (Descartes, 1979, 96) A dependência em conhecer por meio dos sentidos poderia nos enganar no exemplo citado, pois, graças a nossa res cogitans, sabemos que a cera continua sendo cera, mesmo que derretida e com outras características. Res cogitans Termo em latim que significa coisa pensante. Em circunstâncias naturais, todo ser humano pensa, e como indicado por Descartes, ele pode duvidar das ideias que tem de si e do mundo. É nesse sentido que o dualismo cartesiano está ancorado nas duas substâncias incompatíveis mostradas a seguir. Confira! Res cogitans Res extensa X Está associada à mente. Está relacionada ao corpo. Segundo a concepção de Descartes, existe claro dualismo entre mente e corpo. Destaca-se a opção do filósofo por usar o substantivo res extensa para nomear a esfera da matéria física, evidenciando que toda matéria física tem uma extensão no espaço. A própria cera, ainda que derretida, continua ocupando espaço com sua extensão. Res extensa Palavra de origem latina que significa coisa expandida. Descartes usa termo para indicar aspecto físico da matéria. próprio cérebro que alguns autores da psicologia, principalmente, os de cunho cognitivistas, vão indicar como sinônimo de mente possui uma extensão. Porém, para Descartes, a mente não possui nenhuma extensão no espaço, o que significa que ela continua existindo mesmo depois da morte do corpo material. De que forma mente e corpo se relacionavam para Descartes? autor acreditava que a glândula pineal exerce papel fundamental nesse processo.63. Desenho de René Descartes em retratando a função da glândula pineal. Para Descartes, a mente não é sinônimo de cérebro, porque os animais, assim como os humanos, possuem cérebros, mas eles não têm capacidade de raciocínio. Os animais, em suma, consistem apenas em corpos. Já os seres humanos possuem corpos e mente. Descartes se aproxima de Platão, não no sentido da existência de um mundo dos sentidos e outro das formas, mas pela via da existência da mente (ou alma, segundo Platão), após o perecimento do corpo físico humano. Monismo Grande parte da comunidade científica defende a posição monista, isto é, a de que mente e corpo não se constituem em substâncias diferentes. Os monistas acreditam que o ser humano, apesar da sua aparente diversidade expressa pelo problema mente e corpo, tem sua gênese em um único princípio ou substância. monismo, em uma concepção discursiva do problema mente e corpo, refere-se a quem considera a integração entre as duas entidades. Nesse caso, mente e corpo estão relacionados e intrinsecamente combinados. O dicionário de psicologia da APA descreve: "No contexto do problema mente-corpo, monismo é qualquer posição que evita o dualismo." (2010, p. 621).Atenção Existe a ideia geral de que a vertente dualista do problema mente e corpo se refere a algum tipo de espiritualidade o que faz sentido, uma vez que a eternidade da mente, para Descartes, ou mundo das ideias, segundo Platão, evoca algo desconhecido pelo ser humano. monismo, por sua vez, estaria mais associado à crença na finitude da espécie (e, consequentemente, de seu corpo, mente e substância). Filósofos monistas também pensavam o monismo pela via do espírito. Para Hegel, por exemplo, não existe separação entre ser e pensar (como existe em Descartes). Entretanto, Hegel pensa o monismo pela via de espírito infinito. Algo parecido acontece com Spinoza que, apesar de ser monista, considerava que Deus é a substância única, mas no sentido de que ele e natureza são a mesma coisa. Por isso Spinoza é considerado um panteísta. A psicologia contemporânea do século XXI tende a se aproximar mais do monismo do que do dualismo. Uma das explicações para isso foi a empreitada para tornar a psicologia do século XIX uma ciência experimental. William Wundt recebe o crédito por isso ao inaugurar, em 1879, em Leipzig (Alemanha), primeiro laboratório de psicologia experimental. Wilhelm Wundt com pesquisadores no laboratório da Portanto, para se tornar ciência, a psicologia precisou se universidade. adequar aos equipamentos, instrumentos e laboratórios, considerados científicos. Como analisar a mente por meio de instrumentos e técnicas científicas, uma substância que, para Descartes, não tem extensão no tempo e que, para Platão, já habitou o mundo das ideias? Na impossibilidade de provar a existência da mente separada do corpo pelo menos, no que tange ao uso de instrumentos científicos atualmente, grande parte dos psicólogos adota uma posição monista. Porém, isso não significa dizer que o dualismo tenha desaparecido da psicologia ou de qualquer outro campo científico. No entanto, é bem verdade que é mais difícil encontrar cientistas que adotam essa posição, pelo menos, publicamente. Atividade 1 Na filosofia, o dualismo se refere à crença ou à teoria de que existem duas substâncias (ou categorias) fundamentais, distintas de realidade e independentes. Em alguns casos, elas são até opostas entre si. Qual é a problemática central da divisão mente-corpo e do dualismo na filosofia da mente? A A falta de evidências científicas para apoiar a existência da mente como uma entidade separada do corpo. B A dificuldade em explicar como a mente pode influenciar corpo e vice-versa.c A incapacidade de reconciliar a experiência subjetiva da consciência com a matéria física do corpo. D A ausência de uma definição clara e precisa do que constitui a mente e o corpo. E A tendência de atribuir todos os fenômenos mentais exclusivamente ao funcionamento do cérebro. A alternativa c está correta. dualismo sugere que a mente e corpo são duas substâncias diferentes e independentes, o que levanta questões sobre como essas realidades podem interagir. Essa questão é conhecida como o problema da interação mente-corpo. Enquanto o corpo é compreendido em termos físicos e pode ser estudado objetivamente, a mente envolve aspectos subjetivos e experiências internas que são difíceis de quantificar e explicar em termos puramente físicos. A dificuldade em reconciliar a experiência da consciência com a matéria física do corpo é uma das principais críticas ao dualismo e tem motivado diversas teorias na filosofia da mente. curioso caso de Phineas Gage e a dicotomia mente- corpo Assista, neste vídeo, ao famoso caso de Phineas Gage e ao seu impacto na concepção monista da problemática mente-corpo. Perceba a importância dessa visão para o entendimento de doenças e doentes. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. o curioso caso de Phineas Gage Para ilustrar monismo e sua afirmação de que mente e corpo constituem uma só substância, o emblemático caso é usado. Gage nasceu em 1823, no estado de Nova Hampshire, nos Estados Unidos da América. Em 1848, ele estava trabalhando como operário em uma linha férrea, fazendo detonações no terreno para abrir o caminho necessário para a passagem dos trilhos. Isso era feito com pólvora e, em uma de suas rotinas, um acidente aconteceu enquanto Gage acomodava a substância no local planejado.acidente fez voar uma barra de ferro de mais de um metro contra seu crânio. Ela atravessou seu rosto (a extremidade da cabeça do operário, para ser mais exato), atingindo seu cérebro. A morte parecia certa para os colegas de trabalho que presenciaram o acidente, mas Gage ficou apenas atordoado e logo recuperou seus sentidos. Suas capacidades intelectuais pareciam intactas e é provável que os médicos da época tenham ficado surpreendidos pela aparente falta de consequências ou efeitos colaterais do acidente. Retrato de Phineas Gage segurando a barra de ferro Após o acidente, Phineas Gage, que era considerado um que atingiu. exemplo de trabalhador, responsável, respeitoso e educado com as pessoas que conheciam seu caráter, passou a agir de forma bem diferente, tratando os outros de forma desrespeitosa, agindo com irresponsabilidade e sendo grosseiro com seus colegas de trabalho. Será que a barra de ferro que atravessou seu cérebro tinha alguma relação com a mudança na personalidade de Phineas Gage? 150 anos mais tarde, pesquisadores usando técnicas modernas de neuroimagem do crânio preservado de Gage e uma simulação computadorizada do acidente, demonstraram que o principal dano ao cérebro de Gage tinha ocorrido no córtex pré-frontal [...] esta área do cérebro é envolvida na maioria dos nossos processos de pensamento avançado [...] Por isso, não é surpresa que os aspectos do self as características que associamos ao nosso self, as emoções provocadas por essas características e nossa habilidade em regulá-lo, envolvam o processamento no córtex pré-frontal. (Nolen et al., 2012, p. 458) A mente é composta por propriedades que apenas ser humano é capaz de expressar pelo menos, até o estado da arte científica atual, como pensamento crítico, raciocínio lógico, linguagem, aspectos relativos à personalidade de cada ser, sentimentos, emoções e memórias, entre outras. Alguns desses aspectos mentais foram prejudicados por causa da barra de ferro que atravessou Phineas Gage. Isso seria um indício de que mente e corpo (cérebro) formam uma única substância. Assim, exemplo do operário norte-americano pode ser utilizado como uma forma de ilustrar a posição monista referente ao problema mente e corpo. Atualmente, a psicossomática parece estar mais próxima de uma abordagem monista do que de uma visão dualista do problema mente e corpo. Hipócrates, filósofo que pensou uma medicina psicossomática (mesmo sem dar esse nome), era um filósofo monista. Ele considerava que a alma (o que chamaríamos hoje de mente) era um componente orgânico do corpo. A posição da psicossomática faz sentido na medida em que profissionais e estudiosos da área pensam que os aspectos psicológicos podem fazer surgir uma determinada doença ou até mesmo trazer complicações para uma já existente. É a mente trazendo reflexos para o corpo.A abordagem somatopsíquica também vai fazer essa relação pela via inversa: o corpo físico e material gera impactos psicológicos ao sujeito. É compreensível que, na psicossomática, a relação mente- corpo e corpo-mente se enverede pelas vias do monismo, que concebe mente e corpo como uma única substância. Conforme um desses componentes do ser humano é modificado, outro absorve as consequência dessa mudança, sejam elas positivas ou negativas. É claro que o dualismo também considera que há relação Paciente na cama de hospital com equipamento no entre mente e corpo. Basta recordarmos a glândula pineal dedo para monitorar a frequência cardíaca. como local da alma humana para Descartes. Entretanto, essa relação parece ser ainda mais frágil, uma vez que, para os dualistas, a mente continuaria a existir após a morte do corpo físico. No monismo, mente e corpo padecem, uma vez que o sujeito deixa de existir no mundo físico. É por isso que a posição atual da psicossomática está mais próxima de um monismo do que de um dualismo. Compreender o elo e a conexão entre mente e corpo é fundamental para a pessoa profissional que aposta na psicossomática como ponto privilegiado para tratar o ser humano como um ser integral. Estar atento aos aspectos biológicos, psíquicos e sociais do indivíduo pode auxiliar no processo de cura do sujeito. Casos para reflexão Imagine um profissional que considera apenas a materialidade do corpo do sujeito e as lesões físicas ou as doenças que acometem a estrutura física do indivíduo. Pode ser um cardiologista que decide se opera ou não determinado paciente, se caso dele é de urgência ou se pode esperar mais um pouco. Para tomar essas decisões, ele precisa olhar para os aspectos emocionais do cardíaco. Seria interessante que todo médico que tomasse essa tipo de decisão perguntasse como vai a vida da pessoa, a de seus familiares ou os aspectos financeiros, por exemplo. De forma geral, é Profissional da saúde colocando o estetoscópio no peito do paciente necessário verificar a regularidade da vida da pessoa a fim de descobrir se está propensa a tomar algum grande susto em sua vida que descompense suas emoções e que possa agravar seu quadro cardíaco, levando-a até um infarto. Agora, pense em outro profissional que considera apenas psicológico do sujeito. Nesse exemplo, focaremos uma psicóloga, que é quem trabalha com a subjetividade, a emoção, os sentimentos e as cognições do sujeito de forma mais direta e clara. Quem imaginamos recebe em seu consultório um paciente, mas ela se preocupa apenas com o psicológico da pessoa.Psicóloga com mão no ombro do paciente, representando atendimento atencioso. Conforme as sessões avançam, queixas de insônia, cansaço, tristeza e ganho de peso se acumulam e ganham cada vez mais força na vida do paciente. A psicóloga não tem dúvida e diagnostica o paciente com depressão. Todavia, ela insiste na hipótese de que a doença está relacionada a uma série de pensamentos disfuncionais, crenças e esquemas, que favorece o surgimento do transtorno. Ainda que a terapia esteja ajudando essa pessoa, a depressão persiste. Paciente em consulta, reclamando de insônia para sua psicóloga. Em um exame de rotina indicado por seu médico, o paciente descobre que possui hipotireoidismo e que essa desregulação da tireoide pode acarretar sintomas bem semelhantes a um quadro depressivo. Inclusive, algumas pessoas com hipotireoidismo podem, de fato, desenvolver um quadro depressivo. Com tratamento adequado e indicado pelo médico e com o acompanhamento psicológico, o paciente consegue melhorar seu quadro depressivo. A psicóloga observou apenas a mente do sujeito e desconsiderou seu corpo. Caso tivesse uma visão mais holística do problema, ela poderia ter poupado seu paciente de um longo período de sofrimento, indicando-o para o médico competente, que descobriria problema hormonal precocemente. Atividade 2 Psicossomática é uma abordagem importante no estudo do desenvolvimento e na manifestação de doenças. Por que é fundamental compreender a relação entre mente e corpo na prática da psicossomática? A Por priorizar tratamento de doenças físicas exclusivamente por meio de abordagens psicológicas.B Por reconhecer que a saúde do ser humano é influenciada por fatores biológicos, psíquicos e sociais. c Por negar a existência de qualquer ligação entre os aspectos mentais e físicos da saúde. D Por enfatizar apenas os aspectos sociais do indivíduo, ignorando os biológicos e psíquicos. E Por considerar apenas os fatores biológicos na promoção da cura do paciente. A alternativa está correta. Compreender o elo e a conexão entre mente e corpo é fundamental na prática da psicossomática, pois essa abordagem considera o ser humano como um todo integrado, no qual os aspectos mentais, físicos e sociais estão interconectados. Assim, ao atentar-se a esses aspectos o profissional de psicossomática pode identificar e abordar as causas subjacentes das doenças, promovendo um processo de cura mais eficaz e integral.2. Evolução histórica da psicossomática A histeria e a psicanálise Confira, neste vídeo, os casos das histéricas e a sua importância na origem da psicossomática. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Durante o século XIX e início do alguns proeminentes médicos, como Jean-Martin Charcot, Pierre Janet, Josef Breuer e Sigmund Freud, investigavam com afinco um fenômeno que deixa uma parcela da comunidade médica europeia curiosa. Tratava-se de casos de pessoas, mais especificamente mulheres, que chegavam a vários consultórios médicos da época e apresentavam sintomas de problemas físicos ou desordem com o próprio corpo. Os sintomas eram os mais variados e podiam incluir: Cegueira Dores nas pernas Desmaios Impossibilidade de andar Câimbras nos membros superiores ou inferiores Amnésia e uma série de outros sintomas. Apesar dos muitos sintomas que podiam se manifestar das mais diversas formas, algo em comum agrupava esse conjunto de pessoas que buscava tratamento com os médicos da época: elas experimentavam os sintomas, mas os exames médicos não apontavam causa física ou lesão orgânica. Para entendermos melhor, vamos imaginar a história a seguir. Um binde que cegou Uma mulher chega a um consultório médico queixando-se de que, de repente, ficou cega. Ela conta que foi se divertir em uma festa com amigos na noite anterior, bebeu um pouco mais além da conta, mas chegou à casa em segurança levada por uma das pessoas que estavam no seu grupo. A noite de arrependimento Já em sua casa, ela procurou a cama de imediato, pois estava muito cansada e com dores de cabeça devido à alta dose de álcool ingerida.Preocupação e exame médico, muito preocupado, pede com gentileza que essa senhora se sente na maca para que ele possa examiná-la. Cuidadosamente, o profissional vai até sua mesa e abre uma gaveta, retira uma pequena lanterna e se dirige até a maca. mistério da cegueira médico acende a lanterna e joga a luz nos olhos da mulher. Para sua surpresa os olhos da paciente estão reagindo à luz, o que significa que não existe nenhum tipo de lesão física que justifique a cegueira. Ela deveria estar enxergando, mas ela afirma que não está. Esse tipo de manifestação, transtorno ou doença ficou conhecido como histeria. Histeria é uma palavra de origem grega (hystera) que significa útero. A origem do termo nos indica o motivo de essa desordem ter sido nomeada de tal forma: as observações dos médicos, psicanalistas e neurologistas dos séculos XIX e XX apontavam a predominância da histeria em mulheres. [...] uma neurose caracterizada por quadros clínicos variados. Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, através de sintomas corporais paroxísticos (ataques ou convulsões de aparência epiléptica) ou duradouros (paralisias, contraturas, cegueira). (Roudinesco, 1998, p. 337) Os médicos reagiam de duas maneiras às histéricas: Primeiro Segundo Recusavam-se a tratar as histéricas, pois Acreditavam nas Se não há lesão acreditavam que seus sintomas eram uma histéricas, mas se orgânica espécie de atuação teatral, e por isso, que elas X sentiam limitados comprovada, não estavam doentes de verdade. A falta de para ajudá-las, como ele poderia uma comprovação concreta expressa em uma vez que não oferecer algum algum tipo de exame e a ausência de lesões havia exames que tipo de ajuda ou orgânicas que justificassem as queixas das comprovassem tratamento para pacientes contribuía para a recusa desses lesões. suas pacientes? médicos. Até mesmo as explicações que Freud forneceu para a manifestação da histeria não foram suficientes por um longo período. A aceitação de suas teorias sobre as histéricas começou a ganhar mais prestígio à medida que sua respeitabilidade, como fundador da psicanálise, foi crescendo. A pequena explicação sobre a histeria nos ajuda a compreender como as doenças foram tratadas de forma isolada pelos profissionais que se incumbiam delas.Somente as manifestações físicas e as lesões orgânicas nos tecidos do corpo humano eram consideradas na hora de ajudar quem estava sofrendo. Hoje, evoluímos nesse sentido e muitos profissionais compreendem a importância do diagnóstico e do tratamento integrado. Profissionais de medicina encaminham seus pacientes para consultórios de psicologia, docentes solicitam aos familiares avaliação com neurologista, profissionais de psicologia encaminham seus pacientes a psiquiatras. Ou seja, esses profissionais se preocupam em saber em que contexto a queixa é produzida. É cada vez mais comum e desejável que profissionais, além de encaminharem, também busquem contato direto uns com os outros, no intuito de discutir o caso do paciente que têm em comum. Assim, eles podem traçar estratégias conjuntas mais efetivas para ajudar a pessoa que os busca. ser humano é um ser biopsicossocial e, por isso, deve ser tratado segundo essa perspectiva. Afirmar que ser humano é um ser biopsicossocial significa Pessoas com as mãos juntas ao centro, simbolizando parceria entre profissionais. dizer que os três aspectos de sua vida devem ser considerados quando se fala de ser humano. Todos os indivíduos possuem uma herança genética, características físicas próprias, e um corpo biológico composto por órgãos, hormônios, neurônios, tecidos fibrosos, ossos, músculos e afins. corpo não se resume apenas a essas características biológicas, pois nossas variáveis psíquicas também existem. São elas: a atenção, a inteligência, as emoções, a personalidade, o humor etc. Tão importante quanto nossas características biológicas e psíquicas é contexto social em que vivemos, as nossas relações familiares, escolares, religiosas, políticas, laborais e afetivas, que também formam ser humano. As dimensões biológica, social e psíquica são indissociáveis e, por isso, as escrevemos juntas: biopsicossocial. Corpo Biológico Biopsicossocial Variáveis Contexto Psíquicas Social Esquema com as três dimensões que compõem ser humano.Ainda que muitos profissionais, sejam eles médicos, psicólogos, psicanalistas, neurologistas e educadores, entre outros, compreendam ser humano como um ser biopsicossocial, muitas doenças parecem apresentar o mesmo problema da histeria: parecer ser "frescura", algo menos importante ou até mesmo falta de vontade do sujeito em superar o que está passando. Um exemplo disso é a depressão. Comentário Frases como: "isso é falta do que fazer" ou "dê um tanque de roupa suja para lavar que isso vai melhorar rapidinho" ou ainda que a depressão seria "ausência de Deus na vida da pessoa", costumam ser ouvidas por quem passa por um processo depressivo e não contribuem em nada para a melhora. Pelo contrário, essas frases preconceituosas podem agravar o quadro desses indivíduos. Parece que a falta de um exame de imagem ou uma lesão orgânica também leva uma parcela da sociedade a não dar a devida importância a transtornos psicológicos ou doenças que não possuem uma explicação física. É possível que essas pessoas até neguem a existência desses transtornos, uma vez que não aparecem em uma ressonância magnética. Esse é caso das doenças psicossomáticas. Atividade 1 A histeria era considerada uma doença mental caracterizada por muitos sintomas físicos e emocionais sem uma causa orgânica aparente. Por que os médicos, muitas vezes, recusavam-se a tratar pacientes histéricos no passado? A Acreditavam que os sintomas dos histéricos eram uma atuação teatral, e não uma doença real. Não havia exames médicos capazes de comprovar as lesões orgânicas que justificassem as queixas das pacientes. c As explicações fornecidas por Freud sobre a histeria não eram aceitas pela comunidade médica da época. D Os médicos não tinham interesse em tratar doenças que não apresentavam manifestações físicas visíveis. E Os médicos não tinham conhecimento suficiente sobre os aspectos psicológicos das doenças para oferecerem tratamentos eficazes. A alternativa A está correta.Acreditar que se tratava de uma encenação provocava a recusa de tratamento, pois os profissionais não consideravam os sintomas como indicativos de uma condição médica genuína, e sim, de uma espécie de fingimento por parte das pacientes. A falta de conhecimento e a estigmatização das doenças psicológicas, como a histeria, reflete a prevalência de uma abordagem médica que priorizava apenas as manifestações físicas e as lesões orgânicas visíveis como critério para o tratamento. conceito de psicossomática Acompanhe, neste vídeo, a definição de psicossomática e as semelhanças e diferenças entre os conceitos de psicossomática e somatopsíquica, acompanhadas de exemplos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Psicossomática é uma palavra formada pela junção de duas outras de origem grega: psykhé, que significa alma, e sôma, que se traduz como corpo. A psicossomática estuda como a nossa mente se relaciona com o nosso corpo e a produção de doenças. Segundo Julio de Melo Filho (2010), uma pesquisa nessa área se debruça: "[...] sobre a relação mente-corpo, sobre os mecanismos de produção de enfermidades, notadamente sobre os fenômenos do estresse" (Filho et al., 2010, p. 29). A definição do termo segundo a APA (2010, p.765) é: "adj. caracteriza abordagem baseada na crença de que a mente (psique) desempenha um papel em todas as doenças que afetem os vários sistemas corporais (soma)." Roudinesco localiza na Grécia Antiga o nascimento desse tipo de medicina: "Nascida com Hipócrates, a Medicina Psicossomática concerne simultaneamente ao corpo e ao espírito e, mais à relação direta entre a soma e a psyché" (1998, p. 624). Portanto, a psicossomática compreende como doenças orgânicas são provocadas por conflitos psíquicos, geralmente, inconscientes. É importante destacar que tanto a palavra alma como o termo espírito possuem o sentido de mente nesses escritos. Hipócrates foi filósofo que fundou a psicossomática em termos epistemológicos, mas foi Heinroth quem criou essa expressão (Filho et al., 2010, p. 29). Em outras palavras, Hipócrates praticava a psicossomática, mas não nomeava sua prática assim. Heinroth, além de nomear esse campo, também cunhou outro termo importante: o conceito de somatopsíquico. Estátua de Hipócrates, em Amsterdã, Holanda. Saiba mais Segundo a APA (2010, p. 875), somatopsíquico refere-se ao "estudo do impacto psicológico de doença ou incapacidade fisiológica [...]". Vamos esclarecer ainda mais os conceitos de psicossomática e somatopsíquica. Acompanhe!Atenção Condições psicossomáticas e somatopsíquicas podem acontecer de forma conjunta, porque uma não anula a outra. Assim, é possível que uma pessoa conviva com alguma condição crônica de saúde que movimente negativamente seu psiquismo, trazendo consequências desfavoráveis para o seu físico. Por exemplo: a fibromialgia é uma doença psicossomática na medida em que psiquismo do sujeito tem influência na dor e na intensidade da doença. Mas ela também é somatopsíquica, uma vez que o sofrimento experimentado pode gerar um quadro de ansiedade generalizada na pessoa, que sempre está à espera da próxima onda de sofrimento. Ou seja, não há dualidade mente e corpo, e, nessa perspectiva, a dualidade mente-corpo é superada. Atividade 2 A psicossomática é uma abordagem que visa à compreensão mais holística da saúde e do funcionamento humano, integrando aspectos mentais, físicos e emocionais no processo de diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças. Por que é importante reconhecer que condições psicossomáticas e somatopsíquicas podem ocorrer de forma conjunta? A Uma condição sempre anula a outra. Portanto, é importante identificar qual delas está presente para determinar o tratamento adequado. B A interação entre saúde mental e física pode ter consequências significativas para bem-estar geral do indivíduo. c As condições psicossomáticas são sempre causadas por problemas físicos, enquanto as somatopsíquicas são causadas exclusivamente por problemas psicológicos. D As condições psicossomáticas só podem ocorrer se houver uma condição física subjacente, e vice-versa. E As condições psicossomáticas e somatopsíquicas são sempre tratadas de forma separada, e reconhecer sua coexistência pode complicar o processo de tratamento. A alternativa c está correta. É importante reconhecer que condições psicossomáticas e somatopsíquicas podem ocorrer de forma conjunta, porque a interação entre saúde mental e física pode ter consequências significativas para o bem-estar geral do indivíduo. Quando uma pessoa enfrenta uma condição de saúde crônica que afeta negativamente seu estado psicológico, isso pode, por sua vez, influenciar sua saúde física. Da mesma forma, problemas de saúde física podem ter impacto adverso na saúde mental de uma pessoa. Reconhecer a interconexão entre mente e corpo é essencial para fornecer um tratamento abrangente e eficaz, que leve em consideração todos os aspectos da saúde do indivíduo. As três fases da psicossomática Acompanhe, neste vídeo, as perspectivas teóricas de psicanálise e do behaviorismo, assim como a visão multidisciplinar, no entendimento da psicossomática e dos fenômenos relativos a doenças e doentes. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A psicossomática surge como uma resposta à tradição dualista cartesiana de compreender a doença. Ela propõe um olhar holístico para a doença e se refere à origem psicológica de doença orgânica e aos efeitos psicológicos de doença física (somatopsíquica), compreendendo mente, corpo e ambiente como indissociáveis para a compreensão da saúde e do adoecimento humanos. Curiosidade termo psicossomático aparece pela primeira vez em 1818, quando psiquiatra alemão J.C. Heinroth descreveu a insônia e a influência das paixões na tuberculose, na epilepsia e no cancro. Porém, somente no século posterior, o conceito foi estruturado por influência da psicanálise. Em uma perspectiva histórica, podemos afirmar que a psicossomática passou por três fases (Filho; Burd, 2010): a psicanalítica, a behaviorista e a multidisciplinar. Vamos examinar com mais detalhes cada uma dessas fases! Fase psicanalítica Foi a primeira descrita pelos autores que usamos como referência no Brasil, quando o assunto é Psicossomática. Freud, o pai da psicanálise, entendia que ideias reprimidas podiam acarretar conversões sintomáticas no corpo do sujeito. É o que acontecia com a histeria e sua transformação para um sintoma físico, sem um correspondente orgânico lesionado. A conversão foi descrita por Freud como um mecanismo inconsciente, presente na matriz clínica da neurose histérica, em que a pulsão ligada a uma ideia é recalcada, é convertida em representantes ideativos do próprio corpo (Galdi; Campos, 2017, 30)Para a psicanálise, algumas enfermidades que não podiam ser explicadas por lesões físicas, que, por consequência, eram consideradas psicossomáticas, tinham suas origens no inconsciente. Qual é a diferença entre histeria e doença psicossomática? Na histeria, não existe um correspondente físico lesionado que justifique os sintomas do paciente. Apesar de essa relação também não existir na psicossomática, nela, é possível que algum órgão, tecido ou músculo apresente distúrbios, devido às questões da psiquê. Fase behaviorista Foi a segunda fase. Os behavioristas formavam grupos que, nos séculos XIX e queriam fazer da psicologia uma ciência mais objetiva e quantificável. interesse deles era prever e controlar comportamento (Watson, 1913, p. 1). Positivismo, corrente filosófica que defendia a neutralidade, sistematização e objetividade das pesquisas, exerceu grande influência nas obras behavioristas. Imagina-se que esses preceitos foram usados nos estudos behavioristas sobre as doenças psicossomáticas, diferentemente de grande parte da comunidade que as estuda, que compreende a existência da mente e seus efeitos sobre o corpo. Os behavioristas, ainda que admitam a existência da mente, não estão interessados em seu estudo, uma vez que, para eles, o que importa é o comportamento e o ambiente em que o sujeito está inserido. Para eles, a mente é uma substância abstrata que não pode ser quantificada, medida e observada de forma direta, neutra e empírica. Alguns behavioristas chegam a afirmar que a psicossomática está mais para a vertente dualista do que para uma concepção monista. Os behavioristas se afastam dos estudos que buscam investigar a mente e seus processos, pois são eventos que não podem ser observados. Essa é a posição de Watson, fundador do behaviorismo, que concebia a existência da mente, mas pensava ser impossível estudá-la com os métodos que considerava adequados para uma psicologia que pretendia se tornar científica. Assim, para estudar os processos mentais, era comum que John Watson, considerado o fundador do behaviorismo. os contemporâneos de Watson utilizassem uma metodologia conhecida como introspecção. Se para os behavioristas, a mente não deve ser estudada, já que é inacessível aos métodos de pesquisa realmente válidos, como eles entendem a psicossomática? Para eles, essas alterações fisiológicas sem causa orgânica aparente podem ser compreendidas olhando as contingências. Contingências Trata-se da probabilidade de determinado evento (o estresse, por exemplo) acontecer depois de outro (como uma bronca do chefe no trabalho). Assim, o estresse é contingente à bronca. Isto é, uma série de contingências aversivas é experimentada pelas pessoas em suas rotinas. Por exemplo, ambiente de trabalho e as tarefas laborais podem causar níveis elevados de estresse incessante. Para os behavioristas, o ambiente do indivíduo que somatiza precisa ser transformado em algo mais positivo para a sua saúde, principalmente, se ele não tem condições de contornar as contingências aversivas de sua vida por conta própria.Suponha que uma pessoa esteja enfrentando altos níveis de estresse devido a demandas excessivas no trabalho. Esse estresse crônico pode desencadear sintomas físicos, como dores de cabeça frequentes e problemas digestivos. Atenção Na perspectiva behaviorista, sintomas psicossomáticos podem ser compreendidos como o resultado de um processo de condicionamento. O indivíduo pode associar ambiente de trabalho estressante a sentimentos de ansiedade e tensão, o que desencadeia respostas físicas automáticas, como tensão muscular e aumento da produção de ácido no estômago. Fase multidisciplinar É a terceira fase da psicossomática. Filho et al. (2010, p. 29) afirmam que ela é: "[...] atividade essencialmente de interação, de interconexão entre vários profissionais de saúde." Uma abordagem multidisciplinar pressupõe a contribuição de diversos profissionais para atender um mesmo paciente. Pensar a psicossomática dessa forma implica apostar que várias especialidades (psicologia, medicina, psiquiatria, nutrição, neurologia ou qualquer outra) não conseguem dar conta da integralidade do ser humano de forma isolada. A multidisciplinaridade está relacionada ao conceito de um ser humano biopsicossocial. França e Rodrigues (2005) resumem bem essa afirmação. Para eles: "[...] o que somos hoje é resultado de nossa interação com o mundo e todas as nossas experiências do passado e de expectativas futuras. É um sistema único, constituído por três subsistemas: mente, corpo e relacionamentos sociais". Atenção Uma instituição de cuidados clínicos composta por diversos profissionais de saúde (como médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais, entre outros) não está automaticamente praticando uma medicina psicossomática. Ainda que a atual fase da psicossomática demande é necessário que todos os profissionais compreendam ser humano como um ser biopsicossocial e o tratem dessa forma, considerando a possibilidade de que a psiquê possa provocar desordens físicas capazes de descompensar a psique da pessoa. Uma atuação psicossomática não pode tratar apenas da doença. Filho et al. (2010, p. 40) dizem que essa nova visão terapêutica "[...] trouxe para pensamento médico-científico e para a prática assistencial o mote clássico: tratar doentes e não doenças." A psicossomática não se resume apenas às doenças psicossomáticas, pois engloba a compreensão do ser biopsicossocial e a importância de um trabalho multidisciplinar para oferecer a melhor assistência possível para as pessoas que necessitam de cuidados em saúde.Psicossomática, em síntese, é uma ideologia sobre a saúde, o adoecer e sobre as práticas de Saúde, é um campo de pesquisas sobre estes fatos e, ao mesmo tempo, uma prática a prática de uma Medicina integral [...] Hoje, a gama de atividades do que se chama de Psicossomática abrange o ensino ou a prática de qualquer tipo de fenômenos de saúde e de interações entre pessoas, como as relações as relações humanas dentro de uma família ou de uma instituição de saúde, a questão das doenças agudas e crônicas, o papel das reações adaptativas ao adoecer, a invalidez, a morte, os recursos terapêuticos extraordinários. (Filho et al., 2010, 29) Atividade 3 A neurose histérica é um termo que foi historicamente usado na psicologia e na psiquiatria para descrever um tipo específico de neurose, caracterizada por sintomas físicos e emocionais que não têm uma base orgânica clara. Como Freud descreve a conversão na matriz clínica da neurose histérica? A Um mecanismo consciente de defesa contra ideias indesejadas. B processo pelo qual as ideias são reprimidas no inconsciente. c fenômeno no qual as pulsões do corpo são transformadas em ideias conscientes. D Um mecanismo inconsciente, no qual a pulsão ligada a uma ideia é convertida em representantes ideativos do próprio corpo. E Um processo psicossomático no qual as ideias conscientes se manifestam em sintomas físicos. A alternativa c está correta. Freud descreve a histeria como um mecanismo inconsciente, no qual a pulsão ligada a uma ideia é convertida em representantes ideativos do próprio corpo. Isso significa que os conflitos psicológicos inconscientes são transformados em sintomas físicos, sem que a pessoa tenha consciência do processo. A conversão é um dos principais mecanismos de defesa identificados por Freud na neurose histérica, em que os conflitos internos são expressos de forma simbólica por meio de sintomas corporais.DSM e a psicossomática Veja, neste vídeo, os diferentes transtornos com sintomas somáticos: o de ansiedade de doença, factício e o conversivo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Por serem desencadeadas ou agravadas por questões psicológicas, as doenças psicossomáticas podem ser manifestadas em dores, alterações gastrointestinais, tremores, manchas na pele e falta de ar, e esses sintomas tendem a se intensificar em situações de estresse. diagnóstico é complexo e se dá por exclusão. Não há uma causa específica, mas alguns fatores são recorrentes, como a sobrecarga profissional, vivência de evento traumático, situações de violência, luto, ansiedade e preocupação excessiva. Além disso, a dificuldade para falar sobre o sofrimento psicológico vivenciado parece ser outro fator relevante. Paciente tensa em consulta com psicóloga. Quando está sobrecarregado, sujeito possui três vias para liberar as excitações: Pensamento Comportamento Organismo sofrimento intenso (ou mesmo a sobrecarga de atividades) pode perturbar funcionamento do organismo e favorecer, de acordo com a cultura, os traços de personalidade e o momento de vida, além do surgimento de patologias psíquicas ou somáticas. Isso acontece quando conflito psíquico e o sofrimento ultrapassam a capacidade habitual da pessoa de tolerar situações de estresse, impedindo que elas sejam elaboradas. adoecimento aparece como uma tentativa de equilíbrio para o corpo e, quando é percebido dessa forma, implica não somente tratar os sintomas da doença, mas também mudar fatores que propiciaram seu desencadeamento. Essas patologias são tratadas no capítulo de Sintomas somáticos e outros transtornos relacionados, na última revisão do Manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-V). Manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-V) É uma referência elaborada pela Associação Americana de Psiquiatria para psicólogos, médicos e terapeutas ocupacionais, a fim de definir diretrizes no diagnóstico de transtornos mentais. instrumento é atualizado de acordo com avanço científico, que fornece novas evidências que podem retirar, inserir ou alterar critérios para diagnóstico. DSM-V classifica como portador de transtorno com sintomas somáticos quem apresenta qualquer número de sintomas somáticos acompanhados por pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos, relacionados aos sintomas em si ou às preocupações associadas à saúde. Confira como são caracterizados:Pensamentos desproporcionais e persistentes sobre a gravidade dos próprios sintomas. Nível persistentemente elevado de ansiedade sobre a saúde ou os sintomas. Tempo e energia dedicados excessivamente aos sintomas ou problemas de saúde. diagnóstico pode ser aplicado mesmo na presença de uma doença clínica, devido à ênfase dada aos pensamentos e comportamentos que acompanham o sintoma. Observe diagnóstico de três tipos de transtornos. Transtorno de ansiedade de doença Acomete indivíduos que experimentam alto nível de ansiedade pelo temor de estar doente, mas sem sintomas somáticos. Esses pacientes eram classificados como hipocondríacos até o DSM-IV. Assim, essa categoria foi excluída devido ao caráter pejorativo que o termo adquiriu, ou seja, "quem tem mania de doença". Transtorno factício Foi incluído no capítulo dos Sintomas somáticos e outros transtornos relacionados como diagnóstico para indivíduos que apresentam falsificação de sintomas físicos ou psicológicos, sem um incentivo externo evidente, mas motivados por assumir o papel de enfermo. Nesses casos, não falamos em adoecimento psicossomático. São situações em que os sintomas não existentes são usados como justificativa para determinado comportamento ou mesmo para obter benefícios, sejam eles conscientes ou inconscientes. Transtorno conversivo É conhecido hoje pela psicanálise como a histeria de conversão. Nesse quadro, é necessária a presença de um ou mais sintomas de alterações da função motora e sensorial voluntária, enquanto os exames neurológicos descartam outras causas para a sintomatologia apresentada. Nesses casos, o sintoma não é falseado, como no Transtorno factício, nem o organismo apresenta algum tipo de lesão orgânica de fato (como no Transtorno de sintomas somáticos). A pessoa, de fato, sente que está relatando, mas não há alteração no organismo que justifique. Há ainda a inclusão de um novo diagnóstico no capítulo citado: Fatores psicológicos que afetam outras condições médicas. Ele identifica os quadros nos quais fatores psicológicos e comportamentais afetam negativamente o estado de saúde por interferirem em outras condições clínicas. Atividade 4 A conversão, no contexto psicológico e psiquiátrico, refere-se ao fenômeno no qual sintomas físicos inexplicáveis ou perturbações no funcionamento do corpo ocorrem como resultado de fatores psicológicos ou emocionais subjacentes. Como é caracterizado transtorno conversivo? A Presença de sintomas falsificados para obter atenção ou benefícios secundários. Presença de lesões orgânicas no organismo que justifiquem os sintomas relatados.c Presença de sintomas de mudança da função motora e sensorial voluntária, com exclusão de outras causas por meio de exames neurológicos. D Presença de sintomas físicos inexplicáveis que causam sofrimento significativo. E Presença de sintomas físicos reais, mas que não causam desconforto ou prejuízo significativo. A alternativa c está correta. transtorno conversivo é definido pela manifestação de sintomas que afetam a função motora e sensorial voluntária, que são identificados após a exclusão de outras causas e por meio de avaliações neurológicas. Nesse transtorno, sintomas físicos são reais, mas não há uma base orgânica que justifique sua manifestação. Diferentemente do Transtorno factício, no qual sintomas são falseados deliberadamente, e do Transtorno de sintomas somáticos, em que há lesões orgânicas reais, no conversivo a pessoa realmente sente os sintomas, mas eles não podem ser explicados por uma condição médica identificável.3. Os fundamentos da psicossomática e as práticas atuais A psicologia da saúde Acompanhe, neste vídeo, o que é a psicologia da saúde, os seus horizontes e as leis brasileiras relativas ao conceito de saúde, destacando o papel da psicologia da saúde na atenção básica e na primária. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Doenças já foram tratadas como algo isolado, levando em conta, pura e simplesmente, suas questões relacionadas a manifestações físicas. Introduzido por Heinroth, no início do século XIX, o termo psicossomático vai nos informar sobre a influência recíproca entre mente e corpo, buscando compreender toda perturbação somática resultante de uma desordem psicológica, que intervém de modo constante na gênese da doença. conceito de psicossomática engloba três diferentes horizontes Dimensão psicológica da doença Relação entre médico e paciente Toda doença física tem implicações psíquicas Uma boa relação pode contribuir para a para o sujeito que a experimenta. recuperação do sujeito e até mesmo para a adesão do paciente a uma determinada intervenção. Procedimentos terapêuticos Relacionados à pessoa que, no momento, está doente. Tais procedimentos, sejam eles realizados por qualquer profissional que esteja envolvido no caso, precisam levar em conta que o ser humano é um ser biopsicossocial. Saiba mais A Psicologia da Saúde tem início, pelo menos no que tange a seu marco oficial, com um grupo de trabalho na APA. Esse grupo se reúne para discutir a crescente demanda pela prática da psicologia da saúde e para conduzir e avaliar pesquisas neste campo. Oito anos depois do início das atividades deste grupo, uma divisão específica para a área foi criada dentro da instituição que congrega inúmeros psicólogos norte-americanos. Essa divisão ficou conhecida como divisão 38. Aqui em nossas terras tropicais, as instituições de saúde surgem como mais um dos inúmeros campos de atuação para os profissionais que se graduaram em Psicologia. Os hospitais e demais instituições de saúdecomeçaram a perceber a importância de ter um ou mais psicólogos na equipe, uma vez que a compreensão de um ser humano biopsicossocial demanda a atenção de profissionais capacitados para intervir na psique desses sujeitos. Quem melhor do que os profissionais especializados em Psicologia da Saúde para desempenhar este trabalho? Mas afinal, que é a Psicologia da Saúde? Segundo um importante psicólogo norte-americano, ex-presidente da APA e presidente do primeiro departamento de Psicologia Médica do seu país de origem, a Psicologia da Saúde pode ser definida da seguinte maneira: É o conjunto de contribuições educacionais, científicas e profissionais específicas da Psicologia, utilizadas para a promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento das doenças, identificação da etiologia e diagnóstico (de problemas) relacionados à saúde, doença e disfunções, para a análise do sistema de atenção à saúde e formação de políticas de saúde. (Matarazzo, 1980, p. 815) Diante disso, torna-se importante salientar que cabe à Psicologia da Saúde, o interesse frente ao adoecimento do sujeito e a promoção de saúde, isto é, como cada um experimenta seu estado de saúde e doença, dando espaço para suas relações pessoais e visões de mundo. Existem duas leis brasileiras que falam um pouco sobre o conceito de saúde, são elas: Lei n° 8080 de 19/9/90 Lei n° 8142 de 18/12/90 Discorre sobre a promoção, proteção e Descreve a participação da comunidade na recuperação da saúde gestão do SUS. mais interessante dessas leis é que elas estabelecem um conceito que não se restringe apenas a tratar a saúde enquanto ausência de doença, mas pensam a saúde enquanto um conceito ampliado em que é preciso levar em conta alguns universos que fazem parte da vida de todo ser humano. Assim, temos o universo físico, já que todos nós temos um corpo e nos relacionamos de forma concreta no mundo. universo socioeconômico, tendo em vista que todo ser humano: Nasce em uma família. Frequenta instituições. Relaciona-se socialmente com outros vários seres humanos. Também não podemos perder a dimensão econômica em que esse indivíduo está inserido, pois acesso a serviços de saúde pode ser diferente a depender de sua condição econômica. universo cultural se constitui em um ponto importante na medida em que ter saúde também passa por uma concepção de um sujeito cultural. As duas leis vão garantir acesso à saúde como um direito de todo cidadão brasileiro, afirmando a responsabilidade do Estado em garantir esse direito.Atenção A Lei 8142/90 ainda vai enumerar os princípios do SUS que, dentre tantos, podemos destacar a acessibilidade do nosso sistema de saúde para todas as pessoas que procurem ajuda médica, a universidade do serviço e a humanização no tratamento das pessoas. Você pode conferir as outras atribuições do SUS na Lei 8142/90, que está disponível no site do Planalto Federal. Cabe agora esclarecer as diferenças entre dois termos que podem parecer sinônimos, mas não são. Atenção básica Atenção primária É conjunto de ações de saúde, no âmbito Refere-se ao primeiro nível de contato individual e coletivo, que abrange a X de indivíduos, famílias e comunidade promoção da saúde, a prevenção de agravos, com sistema de saúde, sendo um diagnóstico, tratamento, a reabilitação e a conceito mais amplo que envolve a manutenção da saúde. Pode ser considerada coordenação e a continuidade do uma parte da atenção primária. cuidado. A estratégia de saúde da família (ESF) modelo que vem ganhando cada vez mais espaço como um substituto de um que preconizava a atenção individual, centrada na pessoa trabalha na perspectiva da atenção básica. Agora que já entendemos a Psicologia da Saúde, passamos ao entendimento de suas formas de atuação. Vamos lá? Atividade 1 Sobre a definição da psicologias da saúde, é correto afirmar: I. A psicologia da saúde se concentra na promoção, na prevenção e no tratamento da saúde como um todo. II. A psicologia da saúde utiliza contribuições educacionais, científicas e profissionais de diversas áreas de conhecimento. III. A psicologia da saúde não se preocupa com a prevenção ou tratamento de doenças. Podemos considerar verdadeiras: A Apenas e Apenas c ApenasD Apenas e III E Apenas e III A alternativa A está correta. A psicologia da saúde tem como preocupação a prevenção e tratamento de doenças, além da promoção da saúde. Trata-se de uma disciplina que aborda aspectos físicos, mentais, sociais e ambientais relacionados à saúde e ao bem-estar das pessoas. A psicologia hospitalar Acompanhe, neste vídeo, a diferença entre a psicologia clínica, a psicologia da saúde e a psicologia hospitalar. Você compreenderá também a relação de todas elas com a psicossomática. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A prática diária da psicologia Hospitalar é atribuição do psicólogo hospitalar: "Atender a pacientes, familiares e/ou responsáveis pelo paciente; membros da comunidade dentro de sua área de atuação; membros da equipe multiprofissional e eventualmente administrativa, visando o bem-estar físico e emocional do paciente; e, alunos e pesquisadores, quando estes estejam atuando em pesquisa e assistência" (CFP, 2001, p. 13). Segundo Simonetti (2004, p. 15), "Psicologia Hospitalar é campo de entendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento". A Psicologia Hospitalar não trata apenas das doenças com causas psíquicas, mas sim dos aspectos psicológicos de toda e qualquer doença. Desta forma, toda doença apresenta aspectos psicológicos; toda doença encontra- se repleta de subjetividade, e por isso, pode-se beneficiar do trabalho da Psicologia Hospitalar. Cada doença é entendida de uma determinada forma, conforme sujeito está adoecido. Vamos pensar juntos em exemplos para Psicóloga segurando mão de paciente idosa. compreender como uma mesma doença pode reverberar de forma diferente conforme o sujeito que a experimenta? Estudo de caso 1Imagine um homem chamado Carlos André, com 52 anos, casado há 32 com sua esposa, pai de dois filhos e em plena ascensão em sua carreira como chefe da unidade de trauma de um hospital, referência neste tipo de atendimento em sua cidade. Nos últimos dois dias, Carlos começa a sentir febre com constância, dores de garganta e nota o aparecimento recente de feridas pelo corpo. Apropriando-se de sua formação e conhecimento em Medicina, opta por tomar alguns analgésicos para aliviar os sintomas, porém os mesmos incômodos continuam após se encerrar o "efeito" das medicações Médico de cabelos brancos, sentado com as mãos no administradas. rosto e se sentindo mal. Depois de muita postergação, ele resolve trocar sobre seus sintomas recentes com um colega médico que indica, aquilo que já deveria ter feito, uma bateria de exames para investigar o caso. Após duas semanas, ele volta a conversar com colega médico, no entanto, desta vez, no lugar de paciente, pois Carlos André acabou de descobrir que é portador do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Como médico, Carlos sabe que vírus é uma condição crônica, sem cura e que exige muitos cuidados, mas que, com os avanços tecnológicos da indústria farmacêutica, é possível conviver relativamente bem com vírus, desde que tenha boa adesão ao tratamento. Apesar dessas informações e seu conhecimento técnico, no lugar de paciente, ele continua apavorado com a descoberta. Ele sabe que o HIV é uma doença grave, mas que não é sinônimo de morte no século XXI. No entanto, dado o diagnóstico, permanece temeroso e ansioso com outras questões, dentre elas: Em um primeiro momento, os possíveis impactos que essa situação pode causar em seu trabalho. A ampliação da unidade que ele esperava para o início do próximo ano pode não acontecer, a doença pode trazer um estigma para sua vida, pode fazer seu prestígio cair junto aos seus colegas. A doença que ele contraiu, provavelmente, ao que tudo indica, é fruto de algumas relações extraconjugais que Carlos André foi acumulando ao longo do tempo, das quais ele se relacionava sexualmente sem os devidos cuidados para não contrair ou contaminar outra pessoa com doenças sexualmente transmissíveis. Carlos imagina que dar essa notícia para sua esposa e família, necessariamente, lhe obrigará a contar a verdade sobre suas relações extraconjugais. Como resultado disso, ele teme a possibilidade de sua esposa lhe pedir divórcio e, consequentemente, perder o convívio diário com seus filhos. Estudo de caso 2 Agora, vamos imaginar que um jovem de 27 anos, chamado Henrique, solteiro, sem filhos, que reside com seus pais enfermeiros, começa a apresentar os mesmos sintomas de Carlos André, sendo também diagnosticado com HIV. Inicialmente, Pedro recebe a notícia como uma condenação à morte e fica ansioso por conta desse diagnóstico, mas, depois do impacto inicial e de muitas conversas com seus pais, que lhe apoiaram e ofereceram todo o suporte que precisava, começa a perceber que a doença, ainda que grave e demandadora de muitos cuidados, tem controle e que é possível conviver com ela de forma satisfatória, sem Jovem sentado e nervoso recebendo diagnóstico. perder a qualidade em sua vidaHenrique compreende que as consequências para seu comportamento sexual descuidado (uma vez, saindo de uma balada, momento que ele não usou preservativos para se prevenir do HIV) foram graves, porém o mundo não acabou e ele pode viver com o vírus, desde que tome os devidos cuidados. Sua ansiedade começa a desaparecer conforme percebe o apoio que tem da família, de amigos e dos resultados do tratamento médico; esta rede de apoio tem feito toda a diferença. É possível perceber que o mesmo processo, neste caso, o HIV, carrega significados diferentes para Carlos André e para Henrique? A doença é grave, a ansiedade e os medos que acompanham o diagnóstico acometem aos dois, mas Henrique encontra apoio da família e dos amigos, consegue absorver melhor o impacto da notícia e ter uma qualidade de vida resguardada. Carlos André experimenta a ansiedade de forma mais elevada e por maior tempo, imagina como o diagnóstico pode interferir em diversas áreas de sua vida, a quem ele irá recorrer para conseguir suporte e apoio emocional nesse momento? Mesmo acontecimento, vários sentidos que irão repercutir no estado de saúde. A partir das definições supracitadas, cabe aqui a distinção entre Psicologia da Saúde, Psicologia Hospitalar e Psicologia Clínica, pois, ao mesmo tempo que se torna possível encontrar diferenças, também se faz necessário associar suas semelhanças no que tange às formas de atuação na prática nos especialistas nestas áreas: Psicologia Clínica Psicologia da Saúde Atua nos três níveis de atenção: primário, Atua nos três níveis de atenção: primário, secundário e terciário, no sentido de promover secundário e terciário, mas sua atuação está a saúde mental para os usuários destes mais voltada para o universo sanitário, com serviços. especial atenção para os desdobramentos psicológicos de uma doença ou impossibilidade física que comprometa a saúde do sujeito. Psicologia Hospitalar É uma área que está dentro da Psicologia da Saúde, todavia, sua atuação está limitada ao hospital, enquanto local de trabalho do profissional. Está associada ao nível secundário e terciário. entendimento do "ser doente" percebido por muitos dos profissionais da saúde, centrado apenas em questões anatomofisiológicas, não leva em consideração as subjetividades do sujeito. Sendo assim, a tendência é a redução de funcionalidades, dando prioridade aos aspectos e manifestações da doença e não ao sujeito adoecido. A doença não é uma variação da dimensão da saúde; ela é uma nova dimensão da vida. (Canguilhem, 2009, p. 73)Durante muito tempo, a saúde humana foi tratada separando mente e corpo. A importância do profissional de saúde em superar essa dualidade e compreender a pessoa em sua integralidade é fundamental, já que a divisão mente-corpo somente tem função didática, mas, na prática, pouco auxilia na compreensão da saúde e do adoecimento humanos. Atividade 2 As áreas da psicologia da saúde, hospitalar e clínica nos permitem abordar importantes fenômenos e especificidades do psiquismo em diferentes contextos. Qual das seguintes afirmações melhor descreve a distinção entre elas? A A psicologia da saúde se concentra na promoção da saúde e prevenção de doenças, enquanto a psicologia hospitalar trata exclusivamente de pacientes internados em hospitais. A psicologia clínica se concentra no tratamento de transtornos mentais. A psicologia da saúde, a psicologia hospitalar e a psicologia clínica são áreas distintas da psicologia, mas todas se concentram exclusivamente no tratamento de transtornos mentais. c A psicologia da saúde se concentra na promoção da saúde e prevenção de doenças, a psicologia hospitalar atua no contexto hospitalar, seja no tratamento de pacientes ou apoio a suas famílias. A psicologia clínica trata de transtornos mentais em diversos ambientes de atendimento. D A psicologia da saúde, a psicologia hospitalar e a psicologia clínica são termos intercambiáveis que descrevem a mesma área de atuação na psicologia. E A psicologia da saúde se concentra no tratamento de transtornos mentais em ambientes comunitários, a psicologia hospitalar trata de transtornos mentais exclusivamente em hospitais e a psicologia clínica se concentra na promoção da saúde física. A alternativa c está correta. A psicologia da saúde se dedica à promoção da saúde e à prevenção de doenças, enquanto a psicologia hospitalar concentra-se no ambiente hospitalar, oferecendo suporte aos pacientes e às suas famílias, e a psicologia clínica aborda transtornos mentais em diferentes contextos de atendimento. Embora cada uma dessas áreas tenha suas próprias prioridades e métodos específicos, todas estão inseridas na área mais ampla da psicologia voltada para a saúde e o bem-estar das pessoas.4. Conclusão Considerações finais Neste tema, iniciamos falando sobre dualismo, concepção de que mente e corpo constituem substâncias distintas, e o monismo, abordagem que considera mente e corpo parte da mesma substância. Posteriormente, estudamos o conceito de psicossomática e somatopsíquica. A primeira diz respeito à relação entre mente e corpo e à produção de doenças advindas de desordens psíquicas. Já a segunda trata dos aspectos psicológicos gerados por uma lesão física ou doença. Além disso, analisamos como a psicossomática assume uma posição mais conectada com o monismo do que com o dualismo. Também compreendemos características da psicologia da saúde, da psicologia hospitalar e questões relativas à multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Todos esses temas são atravessados pelos estudos da psicossomática. fim deste material não significa algum tipo de fechamento, pois há muito mais a ser estudado, e o que aprendemos durante nossa leitura são aspectos introdutórios aos temas abordados. Explore + Veja, a partir do livro Psicossomática hoje, como os autores Julio de Mello Filho e Miriam Burb abordam aspectos históricos e conceituais da psicossomática. Ouça o episódio de podcast Processo Saúde e Doença Psicossomática, de Larissa Linard. Referências AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. APA. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-V). 5 ed. Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013. BRASIL. Lei n° 8080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Consultado em meio eletrônico em: 01 nov. 2020. BRASIL. Lei n° 8142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Consultado em meio eletrônico em: 01 nov. 2020. BORING, A history of experimental psychology. 2. ed. Nova Jersey: Prentice Hall, 1950. 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