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Um enunciado observacional completamente neutro é coisa que não existe: os enunciados observacionais estão Por exemplo, até uma afirmação comum como «ele tocou no fio eléctrico e apanhou um choque» presume que existe electrici- dade e que a electricidade pode ser perigosa. Ao usar a palavra o locutor pressupõe toda uma teoria acerca das causas do dano sofrido pela pessoa que to- cou no fio. Compreender o enunciado completamente implica compreender teorias acerca de coisas como a electricidade e a fisiologia. Os pressupostos teóricos estão incorporados na forma como o acontecimento é descrito. Por outras palavras, os enunciados observacio- nais classificam a nossa experiência de uma forma espe- cífica, mas esta não é a única maneira de classificar a nossa experiência. O tipo de enunciado observacional efectivamente feito em ciência, como, por exemplo, «a estrutura molecular da substância foi afectada pelo calor», pres- supõe teorias bastante elaboradas. A teoria vem sempre primeiro: a perspectiva simples do método científico está completamente enganada ao supor que a observa- ção imparcial precede sempre a teoria. que vemos depende do que sabemos e as palavras que escolhemos para descrever o que vemos pressupõem sempre uma teoria sobre a natureza do que vemos. Estes são dois factos inescapáveis acerca da natureza da observação que enfraquecem a noção de uma observação objectiva, sem preconceitos e neutra. 184CIÊNCIA Um terceiro aspecto acerca da observação é que os cientistas não se limitam a «observar», registando todas as medições de todos os fenómenos. Isso seria fisica- mente impossível. Os cientistas escolhem aspectos da situação sobre os quais se concentram. Esta escolha envolve, também ela, decisões teoricamente subordina- das. O problema da indução Um tipo diferente de objecção à perspectiva simples do método científico levanta-se pelo facto de esta se apoiar na indução e não na dedução. A indução e a dedução são dois tipos diferentes de argumentos. Um argumento indutivo envolve uma generalização basea- da num certo número de observações específicas. Se eu observar um grande número de animais com pêlo, con- cluindo a partir das minhas observações que todos os animais com pêlo são vivíparos (isto é, dão à luz crias em vez de porem ovos), estaria a usar um argumento indutivo. Um argumento dedutivo, por outro lado, parte de certas premissas, passando depois logicamente para uma conclusão que se segue dessas premissas. Por exemplo, das premissas as aves são animais» e cisnes são aves» posso concluir que, portanto, todos os cisnes são animais: este é um argumento dedutivo. Os argumentos dedutivos preservam a verdade. Isto significa que se as suas premissas são verdadeiras, as suas conclusões têm de ser verdadeiras. Entraríamos em contradição se afirmássemos as premissas e negásse- mos a conclusão. Assim, se as premissas as aves são animais» e cisnes são aves» são ambas verda- 185ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA deiras, tem de ser verdade que todos os cisnes são ani- mais. Ao invés, argumentos indutivos com premis- sas verdadeiras podem ter ou não ter conclusões verda- deiras. Mesmo que todas as observações de animais com pêlo por mim efectuadas tenham sido fidedignas e que todos os animais sejam de facto vivíparos, e mesmo que eu tenha feito milhares de observações, pode vir a descobrir-se que a minha conclusão indutiva de que todos os animais com pêlo são vivíparos é falsa. Na verdade, a existência do plátipo ornitorrinco, um tipo peculiar de animal com pêlo que põe ovos, significa que se trata de uma generalização falsa. Estamos sempre a usar argumentos indutivos. É a indução que nos leva a esperar que o futuro seja seme- lhante ao passado. Já bebi café muitas vezes, mas nunca me envenenou, por isso presumo, com base num argu- mento indutivo, que o café não me vai envenenar daqui para a frente. Sempre vi o dia seguir-se à noite, por isso presumo que continuará a fazê-lo. Observei muitas vezes que se estiver à chuva fico molhado, por isso presumo que o futuro será como o passado e evito sem- pre que possível ficar à chuva. Todos estes exemplos são casos de indução. As nossas vidas são todas base- adas no facto de a indução nos proporcionar previsões razoavelmente fidedignas acerca do nosso meio e acer- ca do resultado provável das nossas acções. Sem o prin- cípio da indução, a nossa interacção com o meio seria completamente caótica: não teríamos bases para presu- mir que o futuro seria como o passado. Não saberíamos se a comida que nos preparamos para ingerir iria ali- mentar-nos ou envenenar-nos; não saberíamos a cada passo se o chão iria sustentar-nos ou abrir-se um abis- mo, etc. Toda a regularidade prevista do nosso meio estaria aberta à dúvida. 186tivamente à questão de saber se é verdade que todos os animais com pêlo são vivíparos. As suas conclusões não são tão fidedignas quanto as conclusões resultantes de argumentos dedutivos com premissas verdadeiras. Para ilustrar este aspecto, Bertrand Russell usou o exemplo de uma galinha que acorda todas as manhãs pensando que, uma vez que foi alimentada no dia an- terior, sê-lo-á mais uma vez naquele dia. Um dia acorda e o camponês torce-lhe o pescoço. A galinha estava a usar um argumento indutivo baseado num grande nú- mero de observações. Estaremos a ser tão tolos quanto esta galinha, ao apoiarmo-nos tão fortemente na indu- ção? Como poderemos justificar a nossa fé na indução? Este é o chamado problema da indução, um problema identificado por David Hume no seu Tratado acerca do Conhecimento Humano. Como poderemos nós alguma vez justificar a nossa confiança num método de argu- mentação tão pouco digno de confiança? Esta questão é particularmente relevante para a filosofia da ciência porque, pelo menos na teoria simples delineada acima, a indução desempenha um papel crucial no método científico. Inferência a favor da melhor explicação Nem todos os argumentos indutivos são da forma atrás referida. Outro importante estilo não-dedutivo de argumentação é conhecido como inferência a favor da melhor explicação ou, menos frequentemente, abdução. Com este tipo de argumento não passamos simples- 187ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA mente de observações passadas a predições gerais para o futuro. Em vez disso, ponderamos a plausibilidade de uma hipótese em função do tipo de explicação que ofe- rece. A melhor hipótese é aquela que explica mais. Assim, por exemplo, se chego a casa e encontro entra- nhas de rato na cozinha e o meu gato a dormir profun- damente com um ar muito satisfeito no preciso mo- mento em que habitualmente pede para ser alimentado, a melhor explicação do que aconteceu na minha ausên- cia é que o meu gato apanhou e comeu um rato e de- pois pôs-se a dormir uma sesta. Eu observo os factos, mas não deduzo a conclusão: há outras explicações pos- síveis para o que aconteceu. Por exemplo, outro gato pode ter entrado através da gateira e ter deixado as entranhas do rato no chão da cozinha. Ou talvez a minha mulher, tentando confun- dir-me, tenha matado e desmembrado um rato deixan- do-o ali para incriminar o gato. A minha conclusão de que foi o meu gato que matou e comeu o rato é, con- tudo, a mais plausível em circunstâncias como estas. Isso é assim porque, enquanto as hipóteses alternativas conseguem explicar as entranhas, não explicam a razão por que o gato parece tão satisfeito. Este tipo de racio- cínio é muito importante na ciência e no quotidiano. Mas, como mostram os exemplos anteriores, não é completamente fiável. Há sempre outras possíveis explicações dos mesmos factos. A minha mulher podia ter incriminado o gato, tendo escolhido precisamente um dia em que o gato estivesse particularmente inac- tivo de modo a que ele dormisse durante a hora habi- tual da refeição. A conclusão da inferência a favor da melhor explicação não se segue, então, inevitavelmente das premissas, ao contrário do que sucede com um argumento dedutivo válido. Isto levanta também toda 188CIÊNCIA a espécie de questões acerca do que é que conta como a melhor explicação em todas as circunstâncias e porquê. Os filósofos discordam sobre se a inferência a favor da melhor explicação é melhor caracterizada como uma forma de indução. Contudo, todos eles reconhecem que a verdade das premissas de tais argumentos não garan- te a verdade da conclusão. A este respeito, as inferências a favor da melhor explicação carecem da fiabilidade dos argumentos dedutivos. Isto não deve ser interpre- tado como uma crítica da inferência a favor da melhor explicação. Usamos este estilo de raciocínio precisa- mente nas circunstâncias em que a dedução é impossí- vel: quando, por exemplo, tentamos compreender a causa ou explicação de algo e há mais do que uma perspectiva possível acerca de como as coisas acabaram por ser o que são. Outro aspecto do problema da indução Até agora tratámos o problema da indução como uma questão acerca da justificação da generalização sobre o futuro com base no passado. Há outro aspecto do problema da indução que ainda não abordámos. Trata-se do facto de existirem numerosas generaliza- ções muito diferentes que poderíamos fazer com base no passado, todas elas consistentes com a informação disponível. Contudo, estas diferentes generalizações podem resultar em previsões completamente diferentes acerca do futuro. Isto é muito bem exemplificado no exemplo do «verdul», introduzido pelo filósofo con- temporâneo Nelson Goodman (1906-1998). Este exem- plo pode parecer de alguma forma artificial, mas ilustra um aspecto importante. 189ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Goodman inventou termo «verdul» para revelar este segundo aspecto do problema da indução. «Verdul» é o nome de uma cor. Uma coisa é verdul se for observada antes do ano 2000 e for verde ou se não for observada antes do ano 2000 e for azul. Goodman escreveu antes de 2000: na discussão que se segue tro- quei «2000» por «2100» para que o argumento continue a funcionar hoje. Temos uma vasta experiência que sugere ser verdadeira a generalização as esme- raldas são verdes». Mas a informação disponível é igualmente consistente com a ideia de que as esmeraldas são verduis» (presumindo que todas as observações foram feitas antes do ano 2100). No entan- to, afirmar que todas as esmeraldas são verdes ou que são verduis afecta as previsões que faremos acerca da observação de esmeraldas depois do ano 2100. Se dis- sermos que todas as esmeraldas são verduis, a nossa previsão será a de que algumas esmeraldas observadas depois do ano 2100 serão azuis: as que foram observa- das antes do ano 2100 serão verdes e as que não foram observadas antes do ano 2100 serão azuis. No entanto, se dissermos, como é mais natural, que todas as esme- raldas são verdes, a nossa previsão será a de que todas elas serão verdes seja qual for a altura em que forem observadas. Este exemplo mostra que as previsões que fazemos com base na indução não são as únicas que poderíamos fazer com base na informação disponível. Assim, não só ficamos com a conclusão de que as previsões que faze- mos com base na indução não são cem por cento fide- dignas, mas também que nem sequer são as únicas previsões consistentes com a informação que acumu- lámos. 190Parece funcionar Uma resposta ao problema da indução é fazer notar que a confiança na indução não é apenas generalizada, mas também razoavelmente frutuosa: a maior parte das vezes é uma forma extremamente útil de descobrir re- gularidades na natureza e de descobrir o seu compor- tamento futuro. Como já fizemos notar, a ciência permi- tiu-nos mandar pessoas à lua: se a ciência se baseia no princípio da indução temos muitíssimos indícios de que a nossa crença na indução é justificada. É claro que há sempre a possibilidade de o sol não nascer amanhã ou de, como a galinha, nos torcerem o pescoço mal acorde- mos amanhã, mas a indução é o melhor método que temos. Nenhuma outra forma de argumentação nos aju- dará a prever melhor o futuro do que o princípio da indução. Uma objecção a esta defesa do princípio da indução afirma que a própria defesa se apoia na indução. Por outras palavras, é um argumento viciosamente circular. argumento acaba por não ser mais do que afirmar que, porque a indução demonstrou no passado ser bem sucedida, sob vários aspectos, continuará a sê-lo no futuro. Mas esta afirmação é, ela própria, uma genera- lização baseada num número específico de casos felizes de indução, tratando-se por isso, também, de um argu- mento indutivo. Um argumento indutivo não pode jus- tificar satisfatoriamente a indução: isso seria uma peti- ção de princípio, pressupondo o que nos propomos demonstrar, nomeadamente que a indução é justificada. 191ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Evolução Proposições universais, isto é, enunciados que come- çam por «todos...», tais como os cisnes são bran- cos», pressupõem semelhanças entre as coisas indivi- duais que estão a ser agrupadas. Neste caso, tem de existir uma semelhança entre todos os cisnes individu- ais para que faça sentido agrupá-los. Contudo, como vimos no caso do «verdul», não existe apenas uma maneira de classificar as coisas que encontramos no mundo ou as propriedades que lhes atribuímos. É pos- sível que se um dia alguns extraterrestres pousassem na terra viéssemos a descobrir que usavam categorias muito diferentes das que usamos e que com base nelas faziam previsões indutivas muito diferentes das que fazemos. No entanto, como o exemplo do «verdul» mostra, algumas generalizações parecem mais naturais do que outras. A explicação mais plausível deste facto é evolucionista: os seres humanos nascem com um grupo de categorias geneticamente programadas, com base nas quais classificamos a nossa experiência. Obtivemos, enquanto espécie, por um processo de selecção natural, uma tendência para fazer generalizações que prevêem com bastante exactidão o comportamento do mundo que nos rodeia. São estas tendências que entram em jogo quando raciocinamos indutivamente: temos uma tendência natural para classificar as nossas experiências do mundo de formas que conduzem a previsões fide- dignas. Quer esta explicação da indução justifique a nossa confiança nela quer não, proporciona sem dúvida uma explicação da razão pela qual confiamos geral- mente nos argumentos indutivos e por que motivo esta confiança é geralmente correcta. 192CIÊNCIA Probabilidade Outra resposta ao problema da indução é admitir que apesar de nunca podermos mostrar que a conclu- são de um argumento indutivo é cem por cento certa, podemos, no entanto, mostrar que é muito provavel- mente verdadeira. As chamadas leis da natureza que a ciência descobre não estão absolutamente demonstra- das como verdadeiras: são generalizações que têm uma alta probabilidade de serem verdadeiras. Quantas mais observações confirmarem estas leis, mais provavelmen- te serão verdadeiras. Esta resposta é por vezes conheci- da como probabilismo. Não podemos ter a certeza que o sol irá nascer amanhã, mas podemos, com base na indução, achar que isso é altamente provável. Contudo, uma objecção a esta ideia é que a própria probabilidade é algo que pode mudar. A atribuição de probabilidades a um acontecimento futuro é baseada na frequência da sua ocorrência no passado. Mas a única justificação para supor que a probabilidade se verificará no futuro é, ela mesma, indutiva. Logo, trata- se de um argumento circular, uma vez que confia na indução para justificar a nossa confiança na indução. Falsificacionismo: conjectura e refutação Outra saída para o problema da indução, pelo me- nos tal como ele afecta o tema do método científico, é negar que a indução seja a base do método científico. O falsificacionismo, a filosofia da ciência desenvolvida por Karl Popper (1902-1994), entre outros, faz isto mes- mo. Os falsificacionistas defendem que a perspectiva simples da ciência está errada. Os cientistas não come- 193para serem melhores do que as teo- rias anteriores. Estas conjecturas são então sujeitas a testes experi- mentais. Mas estes testes têm um objectivo muito espe- cífico. Não pretendem demonstrar que a conjectura é verdadeira, mas antes demonstrar que é falsa. A ciência funciona tentando falsificar teorias e não tentando de- monstrar que são verdadeiras. Qualquer teoria que se mostre ser falsa é abandonada ou, pelo menos, modifi- cada. A ciência progride, assim, através de conjecturas e refutações. Nunca podemos ter a certeza, em relação a qualquer teoria, de que ela é absolutamente verdadei- ra: em princípio, qualquer teoria pode ser falsificada. Esta perspectiva parece adaptar-se bem ao progresso testemunhado na história da ciência: a visão ptolemaica do universo, que coloca a terra no seu centro, foi ultra- passada pela copernicana; a física de Newton foi ultra- passada pela física de Einstein. A falsificação tem pelo menos uma grande vanta- gem em relação à perspectiva simples da ciência: um único caso de falsificação é suficiente para mostrar que uma teoria não é satisfatória, ao passo que por mais observações que confirmem uma teoria, nunca podem ser suficientes para nos darem cem por cento de certeza de que a teoria será confirmada por todas as observa- ções futuras. Esta é uma característica dos enunciados universais. Se digo os cisnes são brancos», basta a observação de um único cisne preto para refutar a minha teoria. Contudo, se eu observar dois milhões de 194CIÊNCIA cisnes brancos, o próximo cisne que observar pode muito bem ser preto: por outras palavras, a generaliza- ção é muito mais fácil de refutar do que de demonstrar. Falsificabilidade falsificacionismo proporciona também uma ma- neira de distinguir as hipóteses científicas úteis das hipóteses irrelevantes para a ciência. teste da utilida- de de uma teoria é o seu grau de falsificabilidade. Uma teoria é inútil para a ciência na verdade, nem sequer é uma hipótese científica se não for possível que exista nenhuma observação que a falsifique. Por exem- plo, é relativamente simples conceber testes que pode- riam falsificar a hipótese «a chuva em Espanha atinge principalmente a planície», ao passo que nenhum teste pode mostrar que é falso que hoje vai chover ou não». Este último enunciado é verdadeiro por definição e portanto não tem nada a ver com a observação empírica: não é uma hipótese científica. Quanto mais falsificável for um enunciado, mais útil é à ciência. Muitos enunciados são expressos de forma vaga, fazendo com que seja bastante difícil ver como poderiam ser testados e como interpretar os resultados. Um enunciado arrojado e falsificável, contudo, mostra- rá muito rapidamente ser falso, ou então resistirá à fal- sificação. Em qualquer dos casos, ajudará ao progresso da ciência: se for falsificável, contribuirá para encorajar o de uma hipótese que não possa ser assim tão facilmente refutada; se mostrar ser difícil de falsificar, fornecerá uma teoria convincente, e quaisquer novas teorias serão ainda melhores. Ao examinar melhor algumas hipóteses que muitas pessoas pensam serem científicas verificamos não se- 195ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA rem testáveis: não há observações que as falsifiquem. Um exemplo controverso disto ocorre no caso da psica- nálise. Alguns falsificacionistas argumentaram que muitas das afirmações da psicanálise são logicamente infalsificáveis, não sendo, portanto, científicas. Se um psicanalista afirma que o sonho de um certo doente trata de facto de um conflito sexual não resolvido da sua infância, não há nenhuma observação que possa falsificar esta afirmação. Se o doente negar a existência de qualquer conflito, o analista tomará isto como mais uma confirmação de que o doente está a reprimir algo. Se o doente admitir que a interpretação do analista é correcta, também isto irá confirmar a hipótese. Logo, não há maneira de falsificar a afirmação, não podendo portanto aumentar o nosso conhecimento do mundo. Portanto, segundo falsificacionistas, é uma hipótese pseudo-científica: não é de maneira nenhuma uma ver- dadeira hipótese científica. Contudo, só porque uma teoria não é científica neste sentido, não se segue que não tenha valor. Popper pensava que muitas das afir- mações da psicanálise poderiam eventualmente tornar- se testáveis, mas que, na sua forma pré-científica, não deveriam ser tomadas como hipóteses científicas. A razão para evitar hipóteses que não podem ser testadas é o facto de impedirem o progresso científico: se não é possível refutá-las, não há maneira de as subs- tituir por uma teoria melhor. o processo da conjectura e refutação característico do progresso científico seria contrariado. A ciência progride através dos erros: atra- vés de teorias que são falsificadas e substituídas por outras melhores. Neste sentido, há um certo grau de tentativa e erro na ciência. Os cientistas experimentam uma hipótese, verificam se podem falsificá-la e se o conseguirem substituem-na por outra melhor que é 196CIÊNCIA então sujeita ao mesmo tratamento. Todas as hipóteses substituídas - os erros contribuem para o acréscimo geral do nosso conhecimento do mundo. Ao invés, as teorias logicamente infalsificáveis são, a esse respeito, pouco úteis para o cientista. Muitas das mais revolucionárias teorias científicas tiveram origem em conjecturas arrojadas e imaginati- vas. A teoria de Popper sublinha a imaginação criativa envolvida na concepção de novas teorias. A este respei- to, dá uma explicação mais plausível da criatividade cientifica do que a perspectiva simples, que faz das teorias científicas deduções lógicas a partir das obser- vações. Críticas ao falsificacionismo O papel da confirmação Uma crítica ao falsificacionismo é o facto de não conseguir tomar em linha de conta o papel da confir- mação de hipóteses na ciência. Ao concentrar-se nas tentativas de falsificar hipóteses, não presta atenção aos efeitos das previsões bem sucedidas sobre a aceitação ou não de uma hipótese científica. Por exemplo, se a minha hipótese afirma que a temperatura a que a água entra em ebulição varia de forma constante em relação à pressão atmosférica do ambiente em que a experiên- cia for conduzida, isto permitir-me-á fazer várias previ- sões acerca da temperatura a que a água entrará em ebulição debaixo de diferentes pressões. Por exemplo, poderá levar-me a prever e bem que os monta- nhistas não conseguirão fazer uma boa chávena de chá a altitudes elevadas porque a água entra em ebulição a 197ciência. Previsões bem sucedidas com base em hipóte- ses, sobretudo se são hipóteses invulgares e originais, desempenham um papel importante no desenvolvi- mento científico. Isto não destrói o falsificacionismo: o poder lógico de uma única observação falsificadora continuará a ser sempre maior do que qualquer número de observações confirmadoras. No entanto, o falsificacionismo precisa de ser ligeiramente modificado para dar conta do papel desempenhado pela confirmação de hipóteses. Erro humano falsificacionismo parece advogar o derrube de uma teoria com base num único caso de falsificação. Contudo, na prática há muitas componentes em qualquer experiência ou estudo científico, havendo geralmente margem considerável para o erro e a má interpretação dos resultados. Os aparelhos de medição podem funcionar mal ou os métodos de recolha de dados podem não ser fidedignos. Assim, os cientistas não deviam, certamente, ser facilmente influenciados por uma observação única que pareça destruir uma teoria. Popper concordaria com isto. Não se trata de um problema sério para o falsificacionismo. Do ponto de vista da lógica é claro que em princípio um único caso falsificador pode destruir uma teoria. Contudo, Popper não sugere que os que praticam a ciência devem pura 198CIÊNCIA e simplesmente abandonar uma teoria assim que tive- rem um caso que aparentemente a falsifique: pelo con- trário, devem ser cépticos e investigar todas as origens possíveis de erro. Historicamente incorrecto falsificacionismo não dá adequadamente conta de muitos dos desenvolvimentos mais significativos da história da ciência. A revolução copernicana, a ideia de que o sol estava no centro do universo e que a terra e os outros planetas o orbitavam ilustra o facto de que a presença de casos aparentemente falsificadores não conduziu as grandes figuras à rejeição das suas hipóte- ses. Agarraram-se às suas teorias face a dados em con- trário que, segundo padrões da época, eram arrasa- dores. A alteração do modelo científico da natureza do universo não ocorreu segundo um processo de conjecturas seguido de refutações. Só depois de vários séculos de desenvolvimento da física pôde a teoria ser adequadamente testada em função da observação. Analogamente, a teoria da gravitação de Isaac Newton (1642-1727) foi aparentemente falsificada por observações da órbita lunar, realizadas pouco depois da apresentação pública da sua teoria. Só muito mais tarde se mostrou que estas observações tinham sido enganadoras. Apesar desta refutação aparente, Newton e outros cientistas mantiveram-se fiéis à teoria da gravitação, o que teve efeitos benéficos para o desen- volvimento da ciência. No entanto, segundo a perspec- tiva falsificacionista de Popper, a teoria de Newton deveria ter sido abandonada por ter sido falsificada. que estes dois exemplos sugerem é que a teoria falsificacionista da ciência nem sempre se ajusta muito 199ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA bem à história efectiva da ciência. A teoria precisa pelo menos de ser modificada para poder explicar de forma precisa como as teorias científicas são substituídas. A obra de Thomas Kuhn (1922-95) sugere que aquilo que acontece em momentos-chave da história da ciên- cia é que se desenvolve um novo paradigma, toda uma nova estrutura no seio da qual a ciência é conduzida. Num momento assim não há uma decisão racional de abandonar um paradigma refutado devido ao peso da informação disponível desfavorável a ele. Paradigmas radicalmente novos minam as suposições acerca do modo como a ciência tem sido conduzida até aí: envol- vem novas suposições, novas interpretações dos dados disponíveis e uma nova gama de problemas para se- rem resolvidos. A justificação para o novo paradigma não emerge do interior da estrutura do velho para- digma. A ciência não progride por conjecturas e refuta- ções, mas por uma série de mudanças de paradigma. Cientismo Fazem-se frequentemente afirmações ousadas a res- peito do âmbito da ciência. Algumas pessoas têm mes- mo argumentado que a ciência pode explicar tudo o que é importante acerca da condição humana. Se algo não pode ser explicado cientificamente, argumentam, não pode de todo ser explicado. Alguns filósofos chega- ram mesmo a declarar que a própria filosofia é uma parte da ciência. Ideias semelhantes têm também criado raízes em outras áreas académicas, incluindo o estudo da literatura e da música. termo é fre- quentemente usado de um modo depreciativo para re- ferir uma série de opiniões do género. 200CIÊNCIA Crítica ao cientismo Visão redutora da explicação O tipo de explicações que cientistas visam é geral. Os cientistas procuram generalizações legiformes que se aplicam numa grande variedade de situações. Mas para compreender, por exemplo, uma relação particular entre dois seres humanos em termos de reacções fisiológicas, herança genética, condicionamento infantil, e assim por diante, embora a ciência possa dar uma imagem fiel, omite a experiência vivida de se apaixonar (ou desapaixo- nar) tema que pode ser mais prontamente tratado por um romancista ou poeta do que por um psicólogo expe- rimental. Analogamente, aqueles que tentam compre- ender uma peça musical enquanto ouvintes, não preci- sam geralmente, para apreciar a música, das complexas análises da harmonia do musicólogo nem da descrição da audição do fisiologista. As explicações científicas têm o seu lugar, mas não são tudo. A principal objecção ao cientismo é que sobrevaloriza a explicação científica. Conclusão Neste capítulo, centrei-me no problema da indução e na perspectiva falsificacionista do método científico. Apesar de as pessoas que fazem ciência não precisarem de estar conscientes das implicações filosóficas do que fazem, muitos deles foram influenciados pela explica- ção falsificacionista do progresso científico. Apesar de a filosofia não afectar necessariamente a forma como os cientistas trabalham, pode, sem dúvida, alterar a forma como compreendem o seu trabalho. 201bem escrito e é estimulante. Cobre de forma acessível a maior parte dos temas importantes da filosofia contem- porânea da ciência. Philosophy of Natural Science (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1966), de C. G. Hempel, e Philosophy of Science: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2002), de Samir Okasha, podem também ser úteis. Popper (Londres: Fontana, 1973), de Bryan Magee, é uma boa introdução à obra de Karl Popper. Introdução Histórica à Filosofia da Ciência (Lisboa: Terramar, 1998), de John Losee, constitui um estudo claro e interessante da história da filosofia da ciência. 2026 Mente o que é a mente? Teremos nós almas não físicas? É o pensamento apenas um aspecto da matéria física, unica- mente um resultado do estímulo de nervos no cérebro? Como poderemos ter a certeza de que as outras pessoas não são apenas robôs sofisticados? Como podemos afir- mar que são efectivamente conscientes? Todas estas ques- tões pertencem à área da filosofia da mente. Filosofia da mente e psicologia A filosofia da mente deve distinguir-se da psicologia, apesar de as suas relações serem estreitas. A psicologia é o estudo científico do comportamento e pensamento humanos: baseia-se na observação das pessoas, muitas vezes sob condições experimentais. Ao invés, a filosofia da mente não é uma disciplina experimental: não envolve a produção de verdadeiras observações científicas. A filosofia centra-se na análise dos nossos conceitos. 203ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Os filósofos da mente ocupam-se de questões conceptuais que surgem quando pensamos acerca da mente. Um psicólogo pode investigar, por exemplo, alterações da personalidade, como a esquizofrenia, atra- vés do exame de doentes, submetendo-os a testes, etc. Um filósofo, por outro lado, coloca questões concep- tuais como que é a mente?» ou queremos dizer com 'doença Tais questões não podem ser respondidas só através do exame de casos reais: exigem que analisemos o significado dos termos nos quais as próprias questões se exprimem. Para ilustrar este aspecto, considere-se outro exem- plo. Um neuropsicólogo que investigue o pensamento humano pode observar padrões de estimulação nervosa no cérebro. Um filósofo da mente colocaria a questão conceptual mais básica de saber se a actividade destes nervos é equivalente ao pensamento ou se existe algu- ma característica do nosso conceito de pensamento que signifique que não pode ser reduzido a uma ocorrência física. Ou, para colocar a questão de uma forma mais tradicional, teremos nós mentes distintas dos nossos corpos? Neste capítulo, examinaremos alguns dos debates centrais da filosofia da mente, concentrando-nos nas questões de saber se uma explicação física da mente é adequada e se podemos ter conhecimento das mentes das outras pessoas. problema mente/corpo Na forma como nos descrevemos a nós próprios e ao mundo, fazemos geralmente uma distinção entre os aspectos mentais e os aspectos físicos. Os aspectos 204MENTE mentais são coisas como o pensamento, o sentimento, a decisão, o sonho, a imaginação, os desejos, etc. As físi- cas incluem os pés, os membros, os nossos cérebros, chávenas de chá, o Empire State Building, etc. Quando fazemos algo, tal como jogar ténis, usamos ambos os aspectos, mentais e físicos: pensamos nas regras do jogo, de onde o nosso adversário irá prova- velmente fazer a próxima jogada, etc., e movemos os nossos corpos. Mas existirá uma verdadeira divisão entre a mente e o corpo, ou será esta apenas uma forma conveniente de falar acerca de nós mesmos? proble- ma de explicar a verdadeira relação entre a mente e o corpo é conhecido como o problema da mente/corpo. Chama-se dualistas aos que acreditam que a mente e o corpo são coisas separadas, que cada um de nós tem as duas coisas, a mente e o corpo. Os que acreditam que o mental é num certo sentido a mesma coisa que o físico, que não somos mais do que carne e sangue e que não temos uma substância mental separada, são conhe- cidos como fisicalistas. Zombies Há muito em jogo aqui. Imagine que é possível fazer uma cópia perfeita do seu corpo que corresponda a cada uma das suas moléculas. Um fisicalista teria de dizer que o seu gémeo artificial teria a experiência da consciência igual à do leitor. Em contraste, um dualista poderia concordar que, apesar de não haver diferenças físicas entre dois, pode haver diferenças mentais. Num caso extremo, o seu gémeo artificial pode agir exactamente do mesmo modo que o leitor, sair-se com o mesmo tipo de comentários na mesma entoação que 205realmente dor. Este é obviamente um exemplo rebuscado, e nin- guém está a sugerir que algumas pessoas são zombies deste tipo. A ideia disto é clarificar as diferentes supo- sições dos fisicalistas e dualistas. Em princípio, para os dualistas a mente e o corpo podem separar-se. Para os dualistas, a experiência mental pode fazer sentido. Para os fisicalistas não pode haver quaisquer zombies deste tipo: acreditam que seja quem for que partilhe a sua estrutura molécula a molécula terá o mesmo tipo de vida interior que o leitor, terá o mesmo tipo de expe- riência da consciência que o leitor. Dualismo dualismo, como vimos, envolve a crença na exis- tência de uma substância não física: o mental. Um dua- lista acredita tipicamente que o corpo e a mente são substâncias distintas que interagem uma com a outra, mas que permanecem separadas. Os processos mentais, tais como o pensamento, não são o mesmo do que os físicos, tais como o disparar das células do cérebro; os processos mentais ocorrem na mente e não no corpo. A mente não é o cérebro vivo. dualismo mente/corpo é uma perspectiva defen- dida por muita gente, sobretudo por quem acredita ser possível sobreviver à nossa morte corpórea, quer vivamos num tipo qualquer de mundo de espíritos, quer reencarnemos num novo corpo. Ambas estas pers- 206MENTE pectivas pressupõem que os seres humanos não são apenas seres físicos e que a nossa componente mais importante é a mente não física ou, como é geralmente chamada em contextos religiosos, a alma. René Descar- tes é provavelmente o dualista mente/corpo mais fa- moso: tal dualismo é geralmente conhecido como dualismo cartesiano (o adjectivo é formado a partir do nome de Descartes). Um motivo forte para acreditar que o dualismo é verdadeiro é a dificuldade que quase toda a gente tem em ver como pode uma coisa puramente física, como o cérebro, dar origem aos complexos padrões de senti- mentos e pensamentos a que chamamos consciência. Como poderia uma coisa puramente física sentir me- lancolia ou apreciar uma pintura? Tais questões dão ao dualismo uma plausibilidade inicial, enquanto solução do problema da mente/corpo. Contudo, há várias críti- cas importantes a esta teoria. Críticas ao dualismo Não pode ser cientificamente investigado Uma crítica por vezes levantada contra o dualismo mente/corpo defende que esta perspectiva não nos aju- da realmente a compreender a natureza da mente. Tudo o que nos diz é que existe em cada um de nós uma substância não física que pensa, sonha, tem experiênci- as, etc. Mas, alegam fisicalistas, uma mente não física não poderia ser investigada directamente: em particu- lar, não poderia ser investigada cientificamente, porque a ciência só lida com o mundo físico. Tudo o que pode- ríamos examinar seriam seus efeitos no mundo. 207

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