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disso, todo o argumento céptico se baseia na capacida- de de distinguir os sonhos da vigília: de que outra for- ma poderia eu saber que por vezes sonhei estar acorda- do quando na realidade estava a dormir? Esta recorda- ção só faz sentido se eu tiver uma forma de afirmar que numa das experiências estava realmente acordado e que na outra estava a sonhar que estava acordado. A força desta resposta depende muito da experiência que cada um tem dos sonhos. Os sonhos de algumas pessoas podem ser extraordinariamente diferentes da vigília. Contudo, muitas pessoas têm pelo menos al- guns sonhos indistinguíveis da experiência quotidiana; e a experiência que algumas pessoas têm durante a vigília, sobretudo quando estão sob a influência do ál- cool ou de outras drogas, pode ter uma índole forte- mente onírica. Além disso, a experiência de falsos des- pertares quando o sonhador sonha que acordou, se levantou, vestiu, tomou o pequeno-almoço, etc. é relativamente comum. Contudo, em tais casos, o sonha- dor não se pergunta habitualmente se se trata da vigília ou não; geralmente, só quando ele acorda de facto é que a questão a sonhar agora?» se torna relevante. Não posso perguntar a sonhar?» Pelo menos um filósofo contemporâneo, Norman Malcom (n. 1911), defendeu que o conceito de sonho faz com que seja logicamente impossível perguntarnhar. Se posso fazer a pergunta, não posso estar a dor- mir e portanto não posso estar a sonhar. Só posso so- nhar que estou a fazer a pergunta e isso não é o mesmo do que fazer, verdadeiramente, a pergunta. Contudo, a investigação sobre o sonho mostrou que muitas pessoas experimentam diferentes níveis de consciência enquanto dormem. Algumas têm o que é conhecido por sonhos lúcidos. Num sonho lúcido o sonhador torna-se consciente de que está a sonhar, con- tinuando no entanto a sonhar. A existência de tais sonhos refutam a ideia de que é impossível estar cons- ciente ao mesmo tempo que se está a dormir. erro cometido por Malcom foi redefinir «sonho» de forma a já não significar o que geralmente se entende por esse termo. Afirmar que o sonho é um estado não consciente é uma perspectiva excessiva- mente simples. Alucinação Mesmo que não esteja a dormir, posso estar a alucinar. Alguém pode ter deitado uma droga no meu café que provoque alterações mentais de forma a que me pareça ver coisas que na verdade não existem. Tal- vez não tenha realmente uma caneta na mão; talvez não esteja de facto sentado frente a uma janela num dia soalheiro. Se ninguém deitou LSD no meu café, talvez aconteça apenas que atingi um tal estado de alcoolismo que comecei a alucinar. Contudo, apesar de esta ser uma possibilidade, é altamente improvável que possa 157ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA prosseguir tão facilmente a minha vida. Se a cadeira onde estou sentado é apenas imaginária, como pode ela sustentar o meu peso? Uma resposta a isto é que eu posso desde logo estar a alucinar que estou sentado: posso pensar que me vou sentar numa confortável pol- trona quando de facto estou deitado num chão de pe- dra e tomei um alucinogénio, ou bebi uma garrafa in- teira de Pernod. Cérebro numa cuba? A versão mais extrema deste cepticismo acerca do mundo exterior e da minha relação com ele é imaginar que não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos. Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão da experiência sensorial. cientista criou uma espécie de máquina de experiências. Do meu pon- to de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente a acontecer é que o cientista está a esti- mular certos nervos do meu cérebro de maneira a que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos meus cinco sentidos é na verdade o resultado de este cientista perverso estar a estimular o meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de ex- periências o cientista pode fazer com que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro o cientista pode dar-me a ilusão de estar a ver televisão, a correr uma maratona, a escrever um livro, a comer massa ou qualquer outra coisa que eu poderia fazer. A situação não é tão rebuscada como pode parecer: cientistas estão já a fazer experiências 158o MUNDO EXTERIOR com simulações feitas em computador conhecidas como máquinas de virtual». A história do cientista perverso é um exemplo do que os filósofos chamam uma experiência mental. Tra- ta-se de uma situação imaginária descrita de forma a esclarecer certas características dos nossos conceitos e pressupostos diários. Numa experiência mental, tal como numa experiência científica, através da elimina- ção de detalhes que complicam as coisas e através do controlo do que acontece, o filósofo pode fazer desco- bertas acerca dos conceitos sob investigação. Neste caso, a experiência mental é concebida para mostrar alguns dos pressupostos que costumamos ter acerca das causas da nossa experiência. Haverá alguma coisa acerca da minha experiência que possa mostrar que esta experiência mental não dá uma boa imagem da realida- de, que eu não sou apenas um cérebro numa cuba a um canto do laboratório do cientista perverso? Memória e lógica Apesar de a ideia de que posso ser apenas um cére- bro numa cuba parecer constituir uma forma extrema de cepticismo, há ainda, de facto, outros pressupostos de que podemos duvidar. Todos os argumentos que discutimos até agora pressupõem que a memória é mais ou menos digna de confiança. Quando dizemos que nos recordamos de ocasiões passadas em que os nossos sentidos não foram dignos de confiança, pressupomos que estas recordações são realmente recordações e que não são apenas os produtos da nossa imaginação ou de raciocínios caprichosos. E todos os argumentos que usam palavras pressupõem que nos lembramos correc- 159ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA tamente do significado das palavras usadas. No entan- to, a memória, tal como os dados dos nossos sentidos, não é digna de confiança. A minha experiência é não só compatível com a perspectiva de que poderia ser um cérebro numa cuba estimulado por um cientista perver- so, mas também, como Bertrand Russell (1872-1970) fez notar, com a ideia de que o mundo poderia ter apare- cido há cinco minutos juntamente com todas as pessoas que o habitam com «recordações» intactas, recordando- se todas de um passado completamente irreal. Contudo, se começarmos a questionar seriamente a fiabilidade da memória, tornamos toda a comunicação impossível: se não podemos presumir que as nossas recordações dos significados das palavras são geral- mente fidedignas, não há maneira de podermos sequer discutir o cepticismo. Além disso, poderia argumentar- se que a experiência mental do cientista perverso que manipula o cérebro numa cuba já introduz um cepticismo acerca da fiabilidade da memória, uma vez que se pressupõe que o nosso algoz tem o poder sufi- ciente para nos fazer acreditar que as palavras signifi- cam seja o que for que ele quiser. Um segundo tipo de pressuposto de que os cépticos raramente duvidam é a fiabilidade da lógica. Se os cépticos duvidassem que a lógica era realmente digna de confiança, isto enfraqueceria a sua posição. Os cépticos usam argumentos que se apoiam na lógica: o seu objectivo não é autocontradizer-se No entanto, se usam argumentos lógicos para demonstrar que nada é imune à dúvida, isto significa que os seus próprios ar- gumentos podem não ser procedentes. Logo, ao usar argumentos, cépticos parecem apoiar-se fortemente em algo que, se fossem consistentes, teriam de afirmar ser incerto. 160MUNDO EXTERIOR Contudo, estas objecções não respondem ao argu- mento da ilusão: sugerem apenas que o cepticismo tem limites; há alguns pressupostos que até mesmo um céptico extremo tem de admitir. Penso, logo existo Sendo assim, existirá alguma coisa acerca da qual eu possa ter a certeza? A resposta mais famosa e importante a esta questão céptica foi dada por Descartes. Ele argu- mentou que mesmo que toda a minha experiência fosse o produto de algo ou de alguém que me enganasse delibe- radamente ele usou a ideia de um génio maligno em vez de um cientista perverso o próprio facto de eu estar a ser iludido mostrar-me-ia algo de indubitável mostrar-me-ia que existo, uma vez que se não existisse não haveria ninguém para o enganador enganar. Este argumento é muitas vezes conhecido como o cogito, do latim ergo sum» que significa logo existo». Crítica ao cogito Algumas pessoas acham o argumento do cogito con- vincente. No entanto, as suas conclusões são extrema- mente limitadas. Mesmo que aceitemos que o facto de eu estar a pensar constitui uma demonstração da minha existência real, nada diz quanto ao que sou, excepto que sou uma coisa pensante. De facto, alguns filósofos, incluindo A. J. Ayer, argu- mentaram que mesmo esta conclusão vai demasiado lon- ge. Descartes errou ao usar a expressão «eu penso»: se tivesse sido consistente com a sua abordagem céptica 161ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA geral, deveria ter dito «há pensamentos». Descartes estava a pressupor que se há pensamentos tem de haver um pensador. Mas podemos duvidar disto. Talvez os pensa- mentos possam existir independentemente dos pensado- res. Talvez seja apenas a forma como a nossa linguagem está estruturada que nos leva a pensar que todo o pensa- mento precisa de um pensador. «eu» da expressão «eu penso» pode ser do mesmo tipo que o «ele» da expressão «ele hoje ainda vem chuva», que não se refere a nada. Realismo representativo Percorremos um longo caminho, no qual considerá- mos a posição do realismo de senso comum. Ao seguir argumentos cépticos acerca dos sentidos e acerca da ques- tão de saber se poderemos estar a sonhar, vimos o alcance e limites deste tipo de dúvida filosófica. Entretanto, descobrimos algumas das limitações do realismo de senso comum. argumento da ilusão, sobretudo, mostrou a implausibilidade do pressuposto de que os sentidos nos dão, quase sempre, informação verdadeira acerca da natureza do mundo exterior. facto de os nossos sen- tidos nos poderem enganar tão facilmente deveria ser suficiente para reduzir a nossa confiança na ideia de que os objectos são realmente como parecem. realismo representativo é uma forma modificada do realismo do senso comum. Chama-se representativo por- que sugere que toda a percepção é o resultado da consci- ência de representações internas do mundo exterior. Quando vejo uma gaivota não a vejo directamente, ao contrário do que sugere o realismo de senso comum. Não tenho contacto sensorial directo com a ave. Ao invés, aquilo de que tenho consciência é uma representação 162MUNDO EXTERIOR mental, qualquer coisa como uma imagem interna, da gai- vota. Não tenho uma experiência visual directa da gaivota, apesar de a minha experiência visual ser causada pela gaivota; ao invés, tenho uma experiência da representa- ção da gaivota produzida pelos meus sentidos. realismo representativo responde a objecções levan- tadas pelo argumento da ilusão. Tomemos o exemplo da cor. mesmo vestido pode parecer muito diferente quando é visto debaixo de diferentes iluminações: o espectro de cores aparentes pode ir de escarlate a ne- gro. Se examinássemos as fibras do tecido do vestido mais de perto descobriríamos, provavelmente, tratar-se de uma mistura de cores. A maneira como é percepcio- nado dependerá também do observador: um daltónico pode muito bem ver o vestido de forma diferente de mim. Face a estas observações, não faz sentido afirmar que o vestido é realmente vermelho: a sua cor vermelha não é independente de quem percepciona. Para poder expli- car este tipo de fenómeno, o realismo representativo introduz a noção de qualidades primárias e secundárias. Qualidades primárias e secundárias John Locke (1632-1704) usou a distinção entre quali- dades primárias e secundárias. As qualidades primári- as são aquelas que um objecto tem efectivamente, inde- pendentemente das condições debaixo das quais é percepcionado e independentemente de estar sequer a ser percepcionado. As qualidades primárias incluem o tamanho, a forma e o movimento. Todos os objectos, por mais pequenos que sejam, têm estas qualidades e, segundo Locke, as nossas representações mentais destas qualidades são muito parecidas às dos objectos. A ciência preocupa-se sobretudo com as qualidades primárias dos 163ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA objectos físicos. A constituição de um objecto, determi- nada pelas suas qualidades primárias, dá origem à nossa experiência das qualidades secundárias. As qualidades secundárias incluem a cor, o cheiro e o sabor. Pode parecer que estas qualidades pertencem realmente aos objectos da nossa percepção, fazendo a cor vermelha parte, de alguma forma, de um vestido vermelho. Mas, na verdade, a cor vermelha não é senão a capacidade de produzir imagens vermelhas num ob- servador normal em condições normais. A cor vermelha não faz parte de um vestido vermelho da mesma ma- neira que a sua forma faz. As ideias de qualidades se- cundárias não são semelhantes aos próprios objectos; são em parte, ao invés, um produto do tipo de sistema sensorial que por acaso é o nosso. Segundo o realismo indirecto, quando vemos um vestido vermelho, vemos uma imagem mental que corresponde parcialmente ao vestido real que dá origem à imagem. A cor vermelha da imagem do vestido vermelho (uma qualidade se- cundária do vestido) não é semelhante a qualidades efectivas existentes no vestido real; contudo, a forma da imagem do vestido (uma qualidade primária do vesti- do) é geralmente parecida com a forma do vestido real. Críticas ao realismo representativo Observador na cabeça Uma crítica ao realismo representativo defende que esta teoria parece limitar-se a fazer recuar o problema da compreensão da percepção. Segundo o realismo representativo, quando percepcionamos algo fazemo-lo através de um tipo qualquer de representação mental. 164o MUNDO EXTERIOR Assim, ao ver alguém a dirigir-se na minha direcção é como ver um filme deste acontecimento. Mas se isto é assim, o que estará então a interpretar a imagem no ecrã? É como se eu tivesse uma pessoa pequenina sen- tada na minha cabeça a interpretar o que acontece. de presumir que esta pessoa pequenina teria de ter outra pessoa ainda mais pequenina dentro da sua cabeça para interpretar a interpretação: e assim por diante, infi- nitamente. Parece improvável que eu tenha um número infinito de pequenos intérpretes na minha cabeça. O mundo real é incognoscível Uma objecção importante ao realismo representativo afirma que esta teoria faz com que o mundo real seja incognoscível. Ou então só é indirectamente cognoscí- vel. Tudo o que poderá alguma vez constituir as nossas experiências são as nossas representações mentais do mundo e não temos maneira de comparar as nossas representações mentais do mundo com o próprio mun- do. É como se cada um de nós estivesse encurralado num cinema privado que nunca podemos abandonar. No ecrã vemos vários filmes e presumimos que eles mostram o mundo real tal como é pelo menos em termos das qualidades primárias dos objectos que ve- mos representados. Mas, uma vez que não podemos sair do cinema para verificar o nosso pressuposto, nun- ca podemos saber qual é o grau de semelhança entre o mundo tal como aparece nos filmes e o mundo real. Este é um problema sobretudo para o realismo re- présentativo, porque esta teoria afirma que as nossas representações mentais das qualidades primárias dos objectos são semelhantes às próprias qualidades dos objectos do mundo exterior. Mas, se não temos 165ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA maneira de verificar se isto é verdade, não temos razões para acreditar nisso. Se a minha representação mental de uma moeda é circular, não tenho maneira de verifi- car se isto corresponde à verdadeira forma da moeda. Estou limitado aos dados dos meus sentidos e, uma vez que estes funcionam através de representações mentais, nunca poderei ter uma informação directa acerca das verdadeiras propriedades da moeda. Idealismo idealismo é uma teoria que evita algumas das difi- culdades que se levantam ao realismo representativo. Tal como esta última teoria, o idealismo faz dos dados senso- riais de entrada o ingrediente básico na nossa experiência do mundo. Assim, também o idealismo se baseia na no- ção de que toda a nossa experiência é constituída por representações mentais e não pelo mundo. Contudo, o idealismo vai mais longe do que o realismo representati- Defende que não existe justificação para afirmar que o mundo exterior existe realmente, uma vez que, como vimos nas nossas críticas ao realismo representativo, o mundo exterior é incognoscível. Isto parece absurdo. Como pode alguém defender seriamente que estamos enganados quando falamos do mundo exterior? Sem dúvida que todos os indícios apontam na direcção oposta. Um idealista responderia que os objectos físicos a catedral de S. Paulo, a minha secretária, as outras pessoas, etc. só existem enquan- to estão a ser percepcionadas. Não precisamos de intro- duzir a ideia da existência de um mundo real para lá da nossa experiência: tudo o que podemos efectivamente conhecer são as nossas experiências. É mais convenien- 166o MUNDO EXTERIOR te dizer a ver ali a minha guitarra» do que a ter uma experiência visual do tipo guitarra», mas um idealista argumentaria que a primeira é apenas uma abreviatura da última. As palavras guitarra» são uma forma conveniente de referir um padrão recor- rente de experiências sensoriais e não um qualquer objecto físico que exista independentemente das mi- nhas percepções. Estamos todos fechados em cinemas individuais a ver filmes, mas não há nenhum mundo fora dos cinemas. Não podemos abandonar o cinema porque não há nada lá fora. Os filmes são a nossa única realidade. Quando ninguém está a olhar para o ecrã, o projector desliga-se mas o filme continua a passar. Sem- pre que olho para o ecrã o projector acende-se e o filme está precisamente no momento em que estaria se o projector tivesse estado sempre ligado. Uma consequência disto é que, para os idealistas, objectos só existem enquanto são percepcionados. Quan- do um objecto não está a ser percepcionado no meu cine- ma privado, não existe. bispo Berkeley (1685-1753), o mais famoso idealista, declarou que est percipi»: exis- tir é ser percepcionado. Assim, quando deixo uma sala, esta deixa de existir, quando fecho os meus olhos, o mundo desaparece, quando pestanejo, seja o que for que está à minha frente deixa de estar desde que, claro, mais ninguém esteja a percepcionar estas coisas na altura. Críticas ao idealismo Alucinações e sonhos À primeira vista, esta teoria da percepção pode ter dificuldades em lidar com as alucinações e com os so- 167ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA nhos. Se tudo aquilo de que temos experiência são as nossas próprias ideias, como conseguimos distinguir a realidade da imaginação? Contudo, os idealistas conseguem explicar isto. Os verdadeiros objectos físicos são, de acordo com o idea- lista, padrões repetidos de informação sensorial. A mi- nha guitarra é um padrão de informação sensorial, previ- sivelmente recorrente. As minhas experiências visuais da guitarra ajustam-se às minhas experiências tácteis da guitarra: posso ver a minha guitarra encostada à parede e depois posso tocar-lhe. As minhas experiências da guitarra relacionam-se entre si de forma regular. Se estivesse a alucinar uma guitarra, não existiria tal inter- relação entre as minhas experiências: talvez no momen- to em que fosse tocar guitarra não tivesse as experiên- cias tácteis que esperava. Talvez as minhas experiências visuais da guitarra se comportassem de formas comple- tamente imprevisíveis: a minha guitarra poderia pare- cer materializar-se e dissolver-se à minha frente. Analogamente, um idealista pode explicar como pode- mos distinguir entre os sonhos e a vigília através das dife- renças detectáveis entre as diversas maneiras segundo as quais as experiências sensoriais se conectam entre si. Por outras palavras, não é apenas a natureza de uma experiência imediata que é capaz de identificar se se trata de uma alucinação, de um sonho ou de uma expe- riência da vida real, mas também a sua relação com outras experiências: o contexto geral da experiência. Conduz ao solipsismo Uma das principais críticas à teoria idealista da per- cepção defende que esta parece conduzir ao solipsismo: a perspectiva segundo a qual a minha mente é tudo o 168MUNDO EXTERIOR que existe e que tudo o resto é uma criação minha. Se as únicas coisas de que posso ter experiência são as minhas próprias ideias, não somos conduzidos apenas à perspectiva segundo a qual não existem objectos físi- cos; somos também conduzidos à perspectiva segundo a qual não existem outras pessoas (ver a «Men- tes Alheias» no capítulo 6, pp. 228). Tenho tantos indí- cios favoráveis à existência de outras pessoas como a favor da existência de outros objectos físicos, nomeada- mente padrões repetidos de informação sensorial. Mas então, uma vez que afastámos a ideia da existência de objectos físicos reais responsáveis pela minha experiên- cia, talvez nada exista excepto enquanto ideia na minha mente. Talvez todo o mundo e tudo o que ele tem seja uma criação da minha mente. Talvez não exista mais ninguém. Para o colocar em termos do meu exemplo do cinema: talvez o meu próprio cinema privado com o seu repertório específico de filmes seja a única coisa que existe. Não há outros cinemas e não há nada exte- rior ao meu cinema. Por que razão constituirá uma crítica afirmar que uma teoria conduz ao solipsismo? Uma resposta a isto é que o solipsismo se parece mais com uma doença mental, uma forma de megalomania, do que uma posi- ção filosófica defensável. Talvez uma resposta mais persuasiva, usada por Jean-Paul Sartre na sua obra O Ser e o Nada, seja a de que em quase todas as acções todos nós mostramos acreditar que existem outras mentes para além da nossa. Por outras palavras, não é o tipo de posição que qualquer de nós poderia facil- mente adoptar à vontade: estamos tão acostumados a presumir que existem outras pessoas que agir de acor- do com o solipsismo seria dificilmente concebível. Tome-se o exemplo de emoções sociais como a vergo- 169ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA nha e o embaraço. Se for apanhado a fazer qualquer coisa que preferia não ser visto a fazer, tal como esprei- tar pelo buraco da fechadura, terei muito provavelmen- te vergonha. No entanto, se eu fosse um solipsista, isto não faria sentido. O próprio conceito de vergonha não teria sentido. Enquanto solipsista, eu acreditaria ser a única mente existente: não existiria mais ninguém para me julgar. Analogamente, sentir embaraço seria absur- do para um solipsista. Não existiria nenhuma pessoa perante a qual pudesse sentir-me embaraçado, excepto eu mesmo. grau com que estamos comprometidos com a crença na existência de um mundo para além das nossas próprias experiências é tal, que mostrar que uma posição filosófica conduz ao solipsismo é suficiente para enfraquecer a sua plausibilidade. A explicação mais simples O idealismo pode também ser criticado por outros motivos. Mesmo que concordemos com a ideia do ide- alista de que tudo a que temos acesso são as nossas próprias experiências sensoriais, poderíamos ainda as- sim querer saber o que causa estas experiências e por que se conformam a tais padrões regulares. Por que razão podem as experiências sensoriais ser organizadas tão facilmente naquilo a que na linguagem quotidiana chamamos físicos»? Certamente que a respos- ta mais directa a isto é afirmar que os objectos físicos existem realmente lá fora, no mundo exterior, e que causam as experiências sensoriais que temos deles. Era isto, sem dúvida, que Samuel Johnson (1709-1784) que- ria dizer quando, em resposta ao idealismo do Bispo Berkeley, deu um forte pontapé numa grande pedra, declarando: 170MUNDO EXTERIOR Berkeley sugeriu que é Deus, e não os objectos físi- cos, que causa a nossa experiência sensorial. Deus deu- nos uma experiência sensorial ordenada. Deus percepciona todos objectos durante todo o tempo, de forma que o mundo continua a existir quando não é percepcionado pelos seres humanos. Contudo, como vimos no capítulo 1, a existência de Deus não pode ser dada como garantida. Para muitas pessoas, a existência de objectos físicos reais seria uma hipótese explicativa muito mais aceitável das causas da nossa experiência. idealista acredita que, para que algo exista, tem de ser percepcionado. Uma razão para esta crença é o facto de ser logicamente impossível que alguém possa veri- ficar se o contrário é verdade: ninguém poderia obser- var se a minha guitarra deixa de existir quando nin- guém está a percepcioná-la, uma vez que para fazer essa observação alguém teria de estar a percepcioná-la. No entanto, mesmo que isto seja verdade, há vários indícios que apontam para o facto de a minha guitarra continuar a existir quando não é percepcionada. A ex- plicação mais simples para o facto de ela continuar encostada à parede quando acordo de manhã é admitir que ninguém lhe mexeu, nem a levou emprestada, nem a roubou, e que continuou a existir impercepcionada pela noite fora. A teoria do fenomenismo é um desen- volvimento do idealismo que leva em linha de conta esta hipótese altamente plausível. Fenomenismo Tal como o idealismo, fenomenismo é uma teoria da percepção baseada na ideia de que só temos acesso directo à experiência sensorial e não ao mundo exterior. 171ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Mas difere do idealismo na sua explicação dos objectos físicos. Ao passo que os idealistas defendem que a nos- sa noção de um objecto físico é uma abreviatura de um grupo de experiências sensoriais, fenomenistas como John Stuart Mill pensam que os objectos físicos podem ser completamente descritos em termos de padrões de experiências sensoriais efectivas ou possíveis. A possibi- lidade de ter experiência sensorial da minha guitarra continua em aberto mesmo quando não estou efectiva- mente a olhar para ela ou a tocar-lhe. Os fenomenistas acreditam que todas as descrições dos objectos físicos podem ser traduzidas em termos de descrições de expe- riências sensoriais efectivas ou hipotéticas. Um fenomenista é como alguém encurralado no seu próprio cinema privado, a ver filmes. Mas, ao contrário do idealista, que acredita que as coisas representadas no ecrã deixam de existir quando não estão a ser projectadas, o fenomenista acredita que estes objectos continuam a existir enquanto experiências possíveis, mesmo que não estejam a ser projectadas no ecrã nesse momento. Além disso, o fenomenista acredita que tudo o que aparece, ou poderia aparecer, no ecrã pode ser descrito na linguagem da experiência sensorial sem qualquer referência a objectos físicos. fenomenismo pode ser criticado das seguintes formas. Críticas ao fenomenismo Dificuldade em descrever objectos É extremamente complicado exprimir uma afirma- ção sobre objectos físicos como «a minha guitarra está 172o MUNDO EXTERIOR encostada à parede, no meu quarto, impercepcionada» somente em termos de experiências sensoriais. Na ver- dade, todas as tentativas de descrever objectos físicos desta forma falharam. O solipsismo e o argumento da linguagem privada fenomenismo, tal como o idealismo, parece con- duzir ao solipsismo: as outras pessoas são apenas expe- riências perceptivas efectivas ou possíveis que eu pode- ria ter. Já examinámos várias objecções ao solipsismo. O argumento da linguagem privada, originalmente usado por Ludwig Wittgenstein (1889-1951) na sua obra Investigações Filosóficas, proporciona outra objecção a este aspecto do fenomenismo. O fenomenismo presume que cada pessoa pode identificar e nomear sensações particulares somente com base na sua própria experiência directa. Esta iden- tificação e re-identificação de sensações apoia-se na experiência privada, e não na existência de objectos fí- sicos públicos. argumento da linguagem privada mostra que esse acto privado de nomear e re-identificar as sensações não poderia jamais ocorrer, enfraquecendo assim o fenomenismo. Toda a linguagem depende de regras, e as regras dependem da existência de maneiras de verificar se elas foram ou não bem aplicadas. Ora, suponha-se que um fenomenista teve uma sensação de vermelho: como pode ele verificar se esta sensação é da mesma cor do que as outras que ele rotulou de «vermelho»? Não há maneira de verificar isto, uma vez que para o fenome- nista não há diferença entre ser vermelho e pensar-se que é vermelho. É como alguém que procura recordar- -se do horário do comboio e tem de verificar a sua 173ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA recordação através si próprio, em vez de ser através do horário real. É uma verificação privada e não pública, não podendo ser usada para ter a certeza quanto à do nosso uso público da palavra «vermelho». Assim, o pressuposto de que um fenomenista poderia descrever a sua experiência nesta linguagem que se verifica a si mesma está errado. Realismo causal realismo causal presume que as causas da nossa experiência sensorial são os objectos físicos existentes no mundo exterior. realismo causal parte da observa- ção de que a função biológica principal dos nossos sen- tidos é ajudar-nos a orientarmo-nos no nosso meio ambiente. É através dos nossos sentidos que adquiri- mos crenças acerca do nosso meio. Segundo o realismo causal, quando vejo a minha guitarra o que acontece realmente é o seguinte: os raios de luz reflectidos na guitarra causam certos efeitos na minha retina e nou- tras áreas do meu cérebro. Isto faz-me adquirir certas crenças acerca do que estou a ver. A experiência de adquirir crenças é a experiência de ver a minha guitarra. A maneira pela qual adquirimos crenças preceptivas é importante: nem todas as maneiras servem. Para que eu possa ver realmente a minha guitarra é essencial que a minha guitarra seja a causa das crenças por mim ad- quiridas acerca dela. A ligação causal própria da visão é a que resulta de um objecto que reflecte raios de luz para a minha retina e o processo subsequente de pro- cessar esta informação no meu cérebro. Se, por exem- plo, eu estava sob o efeito de barbitúricos e estava ape- nas a alucinar, então não estava a ver a minha guitarra. 174MUNDO EXTERIOR A causa das minhas crenças eram os barbitúricos e não a guitarra. Na visão, trata-se de adquirir informação acerca do meio e não de produzir representações mentais de qual- quer tipo. Tal como o realismo representativo, o realismo causal presume que existe realmente um mundo exte- rior que continua a existir quer esteja a ser objecto de experiência quer não. Presume também que as crenças que adquirimos através dos órgãos dos sentidos são geralmente verdadeiras é por isso que, em resultado da natural no decurso da evolução, os nossos receptores sensoriais são como são: têm a tendência para nos dar informação fidedigna acerca do nosso meio. Outra grande vantagem do realismo causal sobre as teorias rivais da percepção é o facto de poder facilmente explicar como pode o nosso conhecimento actual afec- tar a nossa percepção. Ao adquirir informação, o nosso sistema de classificação e o nosso conhecimento exis- tente afectam directamente a forma como tratamos a nova informação e o que seleccionamos e interpretamos como relevante. Iremos regressar a este tema no pró- ximo capítulo, na sobre observação (ver p. 181). Críticas ao realismo causal A experiência da visão A principal crítica ao realismo causal defende que ele não dá conta, satisfatoriamente, do que é realmente ver algo, não dá conta do aspecto qualitativo da visão. Reduz a experiência da percepção a uma forma de re- colha de informação. Contudo, o realismo causal é, até hoje, a teoria da percepção mais satisfatória. 175ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Pressupõe mundo real realismo causal pressupõe um mundo real exterior que existe independentemente de as pessoas o per- cepcionarem ou não. Isto é conhecido como um pres- suposto metafísico por outras palavras, é um pressu- posto acerca da natureza da realidade. Para uma pessoa com tendências idealistas este pressuposto metafísico é inaceitável. Contudo, uma vez que quase toda a gente está comprometida com a crença num mundo real que existe independentemente de nós, este pressuposto pode ser encarado como um aspecto a favor do rea- lismo causal, em vez de constituir uma crítica. Conclusão Neste capítulo, explorámos algumas das teorias filo- sóficas mais importantes acerca do mundo exterior e da nossa relação com ele. próximo capítulo centra-se numa forma particular de descobrir o mundo, nomea- damente a investigação científica. Leitura complementar Os argumentos cépticos de Descartes são apresenta- dos na primeira das suas Meditações e o seu argumento do cogito encontra-se no princípio da segunda. Ambas podem ser encontradas em Meditações sobre a Filosofia Primeira (Coimbra: Livraria Almedina, 1985). A melhor pequena introdução à filosofia de Descartes é, de longe, a entrevista de Bernard Williams presente em Os Gran- des Filósofos, editado por Brian Magee (Lisboa: Editorial Presença, 1989), um livro que já recomendei. 176MUNDO EXTERIOR The British Empiricists, de Stephen Priest (Londres: Penguin, 1990), outro livro já recomendado na minha introdução, inclui discussões de vários tópicos deste capítulo. A Guide Through the Theory of Knowledge, de Adam Morton ed., Oxford: Blackwell, 1997). The Problem of Knowledge, de A.J. Ayer (Harmondsworth: Penguin, 1956), é útil, ainda que ligeiramente datado. Os Problemas da Filosofia (Coimbra: Arménio Amado, 1980), de Bertrand Russell, é ainda hoje uma leitura compensadora: trata-se de uma pequena introdução à filosofia, concentrando-se sobre questões epistemoló- gicas, que tem feito parte das leituras recomendadas aos candidatos ao estudo universitário da filosofia ao longo da maior parte do século XX. 1775 Ciência A ciência permitiu-nos mandar pessoas à Lua, curar a tuberculose, inventar a bomba atómica, os automó- veis, o aeroplano, a televisão, os computadores e várias outras coisas que mudaram a natureza da nossa vida quotidiana. Reconhece-se, geralmente, que o método científico é a forma mais eficaz de descobrir e prever o comportamento da natureza. Nem todas as invenções científicas têm sido benéficas para os seres humanos é óbvio que esses desenvolvimentos tanto têm sido usados para destruir como para melhorar a vida huma- na. Contudo, seria difícil negar o sucesso na manipula- ção da natureza que a ciência tornou possível. A ciência produziu resultados, ao passo que a bruxaria, a magia, a superstição e a mera tradição não têm mostrado, com- parativamente, grande coisa a seu favor. método científico é um grande avanço em relação a formas anteriores de adquirir conhecimento. Histori- camente, a ciência substituiu a «verdade de autorida- de». A verdade de autoridade significava aceitar como verdadeiras as ideias de várias impor- 179ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA tantes especialmente as obras que sobreviveram de Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego antigo, e os ensinamentos da Igreja não por causa do que afirma- vam, mas por causa de quem o afirmava. Ao invés, o método científico sublinha a necessidade de efectuar testes e fazer observações detalhadas acerca dos resul- tados antes de confiar em qualquer afirmação. Mas o que é o método científico? Será realmente tão digno de confiança quanto somos habitualmente leva- dos a acreditar? Como progride a ciência? Este é o tipo de questões que os filósofos da ciência colocam. Nesta secção, consideraremos algumas questões gerais acerca da natureza do método científico. A perspectiva simples do método científico Uma perspectiva simples, mas muito comum, do método científico é a seguinte: o cientista começa por um vasto número de observações de certo aspecto do mundo: por exemplo, o efeito de aquecer a água. Estas observações devem ser tão objectivas quanto possível: o objectivo do cientista é ser imparcial e não ter precon- ceitos ao registar os dados. Uma vez recolhida, pelo cientista, uma grande quantidade de dados baseados na observação, o estádio seguinte é criar uma teoria que explique o padrão de resultados. Esta teoria, se for boa, explicará simultaneamente o que estava a acontecer e irá prever o que é provável que aconteça no futuro. Se os resultados futuros não se coadunarem completamen- te com estas previsões, o cientista modificará a sua te- oria para dar conta deles. Porque existe uma grande regularidade na natureza, as previsões científicas po- dem ser extraordinariamente precisas. 180CIÊNCIA Assim, por exemplo, um cientista pode começar por aquecer água a 100°C debaixo de condições normais e observar a água a entrar em ebulição e a evaporar. O cientista pode então fazer várias outras observações do comportamento da água debaixo de diferentes tempera- turas e pressões. Com base nestas observações, o cientista irá sugerir uma teoria acerca do ponto de ebulição da água em relação à temperatura e à pressão. Esta teoria irá explicar não apenas as observações particulares feitas pelo cientista, mas irá também, se for uma boa teoria, expli- car e prever todas as observações futuras do comporta- mento da água debaixo de diferentes temperaturas e pressões. Segundo esta perspectiva, o método científico começa com observações, passa à teoria e produz assim uma generalização (ou enunciado universal) capaz de gerar previsões. Se a generalização for boa, será consi- derada uma lei da natureza. A ciência produz resulta- dos objectivos que podem ser confirmados por qual- quer pessoa que queira repetir os testes originais. Esta perspectiva do método científico é surpreen- dentemente comum, mesmo entre os cientistas activos. No entanto, é insatisfatória por vários motivos, os mais importantes dos quais são seus pressupostos acerca da natureza da observação e acerca dos argumentos indutivos. Críticas à perspectiva simples Observação Como vimos, a perspectiva simples do método cien- tífico afirma que os cientistas começam por efectuar observações imparciais antes de formular teorias para 181