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71UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal Em seu aspecto histórico, a teoria queer nasce em meados dos anos de 1980, nos Estados Unidos, e se relaciona com movimentos feministas e a descoberta do HIV/AIDS. A chegada do vírus HIV causador da AIDS trouxe uma nova doença e, além disso, um enorme preconceito, pois, ficou conhecida como a “peste gay”, marginalizando ainda mais a população LGBTI+. Salo de Carvalho (2017, p. 204) afirma que a teoria queer provoca a construção social feita pelo o heterossexismo como o polo homem x mulher, o que acaba por definir o que se encaixa ou não em seu papel, bem como, a constatação do que seria um desvio. Conforme Miskolci (2012, p. 32 - 33) esse olhar queer permite uma reflexão crítica em relação às normas e convenções de gênero que automaticamente permitem que muitas pessoas sejam insultadas cotidianamente. O autor aponta para um questionamento desse insulto, “a primeira experiência com relação à sexualidade de todo mundo, seja daquele que foi rejeitado e aprendeu que não era normal, seja de quem adotou as normas e se inseriu socialmente de uma forma mais fácil, digamos assim, é uma experiência de injúria”. A consequência da cultura heterossexista é apontar que tudo o que é diferente dela é anômalo e desviante. A explicação para a fobia ao grupo LGBT+ parece decorrer dessa construção de um grupo desviante – fora da heteronormatividade – onde a violência assu- me contornos históricos. Percebe-se que a relação binária (homem/mulher) heterossexista acaba por instituir formas de violência contra o grupo LGBT+. No ano de 2019, o Supremo Tribunal Federal, entendeu que atos homofóbicos e transfóbicos constituem atos de racismo. A pergunta que pode surgir é a seguinte: como a homotransfobia poderia estar relacionada com o racismo? Vou esmiuçar essa situação. A Corte Constitucional invocou o precedente Siegfried Ellwanger (HC 82424) que parte da ideia de que o racismo já não mais se vincula às questões biológicas, pois, não há diferen- ças entre as pessoas já apontado pelas teses científicas mais modernas. Assim, o racismo precisa ser compreendido como um processo político-social de segregação e exclusão, independentemente de vinculação biológica. Com esse ponto de partida, há a autorização segundo o Supremo Tribunal Federal para punir os atos homotransfóbicos dentro da Lei de Racismo (Lei 7.716/1989). Destaco que a decisão pretende ser temporária, pois, uma vez que seja feita a Lei para punir esses casos específicos, não mais se fará necessária a utilização da referida decisão. A decisão dada pela Corte Constitucional brasileira é importante para a proteção da população LGBTI+, já que o país é um dos que mais possuem mortes motivadas por ódio ao grupo. Sem dúvidas, não é apenas no campo legislativo que a situação deve ser 72UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal motivada, mas uma gama de políticas públicas devem ser desenvolvidas, sobretudo, as de cunho educativo para eliminar todas as formas de preconceito e/ou discriminação que são o gérmen dessa espécie de violência. SAIBA MAIS O Brasil registou uma morte de LGBT+ a cada 26 horas somando 329 em 2019: ROLIM, Marcio. Brasil registra morte de 1 LGBT+ a cada 26 horas somando 329 em 2019. Ob- servatório, São Paulo, 24 de abril de 2020. Disponível em: https://observatoriog.bol.uol. com.br/noticias/brasil-registra-morte-de-1-lgbt-a-cada-26-horas-somando-329-em-2019 . Acesso em 08 de março de 2021. REFLITA “O que vão dizer de nós? Seus pais, Deus e coisas tais Quando ouvirem rumores, do nosso amor Baby, eu já cansei de me esconder Entre olhares, sussurros com você Somos dois homens, e nada mais [...] Um novo tempo há de vencer Pra que a gente possa florescer E, baby, amar, amar, sem temer” Flutua – Liniker e Johnny Hooker Disponível em: https://www.letras.mus.br/johnny-hooker/flutua/ 73UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal CONSIDERAÇÕES FINAIS Bom chegamos ao final de mais uma unidade e aqui se encerram os estudos refe- rente a disciplina de Criminologia e Política criminal. Você percebeu que a Criminologia Feminista possui uma proposta de uma análise sobre perspectiva de gênero acerca do fenômeno criminal. Como eu disse no início, a Cri- minologia Feminista propõe uma análise da mulher enquanto vítima dos crimes e também como autora de um delito. Como vítima é necessário se perguntar como o Direito Penal revitimiza as mulheres, sobretudo, nos crimes sexuais. Já no plano de autoria delitiva, é na aplicação da pena que se nota um distanciamento das demandas femininas dentro de um presídio por não oferecer condições mínimas à saúde da mulher, como questões referente a menstruação, a gravidez e a lactação. Também abordei o chamado Direito Penal do Inimigo proposto por Günther Jakobs. A proposta quase matemática se distancia muito da realidade ao dizer que o Direito Penal deve fazer uma diferenciação entre o Direito Penal do Cidadão e o Direito Penal do inimigo. A consequência dessa proposta, sobretudo para os países mais periféricos como o Brasil, é a produção de inimigos de ocasião como as pessoas pobres, negras e as camadas mais vulneráveis da sociedade. Nesse sentido a teoria parece não ser positiva. Outro tema que foi objeto de análise durante os estudos foi o superencarceramento. Hoje há um grande déficit de vagas disponíveis no sistema carcerário brasileiro o que acaba por repercutir em uma superlotação, condições desumanas e degradantes de cumprimento de pena e promove o surgimento de facções criminosas que se instalam dentro e fora dos muros das prisões. Se o cárcere brasileiro é ocupado por pessoas majoritariamente pobres e com baixa escolaridade é necessário pensar em políticas públicas que evitem que o sujeito seja aliciado para a criminalidade e isso passa necessariamente por um projeto de educação, saúde, assistência social etc. Finalmente, acabei por abordar a questão da homofobia e da transfobia. Apresentei como o Supremo Tribunal Federal se posicionou frente à questão já que o Brasil é um dos países que mais mata pessoas LGBTI+. O enfrentamento do problema não deve ser apenas jurídico, mas também de ações efetivas que eliminem o preconceito e a discriminação que em sua forma mais grave significam a morte de uma pessoa. Assim, eu me despeço de você, espero que você tenha sido provocado durante os temas aqui trabalhados. Abraços! 74UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal LEITURA COMPLEMENTAR DIREITO PENAL DE EFEITOS SIMBÓLICOS Por André Luís Callegari e Daniela ScariotDe há muito Silva Sánchez alerta sobre o fenômeno da expansão do Direito Penal e seus efeitos globais sobre as legislações penais. Em sua concepção, a expansão pode ser caracterizada, especialmente, pela (i) criminaliza- ção de novos bens jurídicos e incremento da pena dos já existentes, (ii) aumento de tipos de perigo abstrato e normas penais em branco, e (iii) flexibilização das regras de imputação e relativização das garantias processuais.As principais causas são o aparecimento de novos bens jurídicos penalmente relevantes, o efetivo surgimento de novos riscos trazidos pela sociedade pós-industrial, e o sentimento geral de insegurança social – dentro do conceito de sociedade de risco, introduzido por Beck.Neste último ponto, o papel exercido pela mídia de massas é crucial, pois por meio de suas opiniões leigas e desprovidas de fundamento jurídico, infla o discurso da impunidade e gera uma sensação de insegurança com a ex- ploração sensacionalista de notícias envolvendo criminalidade. A consequência é o clamor social por medidas político-criminais mais severas e rápidas.O fenômeno da expansão do Direito Penal também se deve a busca incessante de resolução dos conflitos sociais atra- vés de políticas populistas, isto é, que servem para aplacar o clamor social, mas que não apresentamqualquer resolução para o problema.Os legisladores de plantão estão sempre prontos com os seus pacotes de medidas de resolução da criminalidade que se traduzem, normalmente, em aumento de penas e restrições de garantias. A verdade é que o ganho político destas medidas é incomensurável, pois estamos diante de um tema que atinge a todos e qualquer proposta de uma possível solução sempre é atraente, ainda que nela venha dissimulada toda uma legislação de exceção.Esse fenômeno também é conhecido como populismo punitivo e as suas características são guiadas por três assunções: que as penas mais altas podem reduzir o delito; que as penas ajudam a reforçar o consenso moral existente na sociedade; e que há ganhos eleitorais que são produto deste uso. Também pode ser definido como aquela situação em que as considerações eleitorais primam sobre as considerações de efetividade. Acrescentando-se como marco deste populismo que as decisões de política criminal se adotam com desconhecimento da evidência e baseiam-se em assunções simplistas de uma opinião pública não informada. E, assim, abre-se espaço para oportunismos políticos e legislativos, que, em detrimento de uma política criminal séria, fornecem respostas céleres, porém desprovidas da necessária profundidade técni- 75UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal ca e, muitas vezes, da desejada efetividade, produzindo apenas efeitos simbólicos, mas cumprindo com a função de demonstrar um legislador atento aos anseios populares, sob a quimera de que isso represente mais segurança.Nesse sentido, Díez-Ripollés aponta que o Direito Penal se converteu em um instrumento na busca por objetivos políticos que pouco tem a ver com a prevenção da criminalidade. Uso este, que o autor considera abusivo e que impacta fortemente na qualidade das decisões legislativas, cujo objetivo é nada mais do que produzir determinados efeitos simbólicos e tranquilizadores sobre a população. Assim, a criminalidade se torna uma aliada aos interesses eleitorais de curto prazo, pois adquire valor político diante da população, que almeja respostas normativas. Isso gera um efeito em cadeia entre a expansão do Direito Penal e as legislações de efeitos simbólicos; cada vez mais anseio por legislações que, desprovidas de efetividade geram mais sensação de impunidade e injustiça, aumentando o clamor por mais Direito Penal. E o ciclo se repete. Mas o que é, então, o Direito Penal de efeitos simbólicos? Não há um consenso na doutrina que aponte para um único e definitivo conceito, no entanto, podemos entender como simbólicas aquelas legislações que postulam uma pretensão de regramento de uma situação, sem apresentar as condições necessárias. Ou seja, quando for possível fazer um contraponto entre real x aparente; manifesto x latente; realmente pretendido x realmente realizado; intenção do legislador x efeitos práti- cos; prestígio x efetividade de determinada legislação, teremos efeitos simbólicos. Cancio Meliá observa o ressurgimento de um Direito Penal com “efeitos meramente simbólicos”, que, utilizado em um sentido crítico, faz referência justamente ao papel de determinados agentes políticos que somente buscam o objetivo punitivista visando dar a “impressão tranquilizadora de um legislador atento e decidido”,6 em uma evidente atitude populista. Assim, o que Cancio Meliá define como Direito Penal simbólico, em sua visão, mantém relação fraternal com o punitivismo. Ao tratar do tema, Silva Sánchez refere que frequentemente a expansão do Direito Penal se apresenta como produto de uma espécie de perversidade do aparato estatal, que buscaria no permanente recurso à legislação penal uma (aparente) solução fácil aos pro- blemas sociais, deslocando ao plano simbólico (isto é, ao da declaração de princípios, que tranquiliza a opinião pública) o que deveria resolver-se no nível instrumental (da proteção efetiva). Portanto, diante da transformação e do avanço tecnológico surgem novos bens jurídicos e a tentativa cada vez mais veloz de se tentar conter a criminalidade através da 76UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal incriminação de condutas. Ocorre que nessa pressa olvidam-se os princípios da legalidade e taxatividade, criando-se tipos penais abertos e de difícil compreensão. Esse movimento fica demonstrado através do aumento de projetos apresentados em matéria de leis penais e processuais penais, cujo discurso é sempre o de melhorar o sistema já existente. Assim, estaria justificado o uso político do Direito Penal, porque há vários parlamentares trabalhando para uma suposta melhoria na segurança pública e na proteção de bens jurídicos, ainda que isto não seja verificado na prática. O discurso político quase nunca reflete as medidas necessárias, embora aparen- temente demonstre aos cidadãos certa tranquilidade que poderá advir das aprovações das medidas propostas. Esse discurso de cunho populista tem um efeito mágico sobre a população que pugna por medidas mais duras, olvidando-se que, no futuro próximo, será a destinatária das mesmas. André Luís Callegari é advogado criminalista, professor de Direito Penal no IDP- -Brasília e pós-doutor em Direito pela Universidad Autónoma de Madrid e Daniela Scariot é advogada criminalista no Callegari Advogados. Fonte: CALLEGARI, André Luís; SCARIOT, Daniela. Direito Penal de efeitos simbólicos. Consultor Jurídico, São Paulo, 21 de abril de 2020. Disponível em: ttps://www.conjur.com.br/2020-abr-21/callegari-sca- riot-direito-penal-efeitos-simbolicos . Acesso em: 08 de março de 2020. 77UNIDADE IV Tópicos Avançados em Criminologia e Política Criminal MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Criminologia Feminista: novos paradigmas Autor: Soraia da Rosa Mendes Editora: Saraiva Sinopse: Nessa obra, a autora propõe um novo paradigma que visa analisar a condição feminina, seja, na como autora de crimes, seja como vítima. Ademais, o potente texto faz uma denúncia agu- da sobre a invisibilidade feminina no pensamento criminológico. FILME/VÍDEO Título: Ano: 2014 Sinopse: O documentário mostra a realidade do sistema carcerá- rio como a superlotação, a morosidade, a cultura do medo a falta de respeito aos direitos básicos dos apenados como o acesso ao trabalho e a educação, o que repercute diretamente sobre o aprofundamento das desigualdades sociais. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=b6RDgB8G- VW8 WEB Título do Podcast: Praia dos Ossos Apresentação do link: No dia 30 de dezembro de 1976, Ângela Diniz foi assassinada com quatro tiros numa casa na Praia dos Os- sos, em Búzios, pelo então namorado Doca Street, réu confesso. Mas, nos três anos que se passaram entre o crime e o julgamento, algo estranho aconteceu. Doca tornou-se a vítima. Link do site: https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/ (também está disponível no Spotify, Deezer, Google Podcasts e outros)