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1 ELEMENTOS DE CONTABILIDADE AULA 2 2 Aspectos sobre a Teoria da Contabilidade 2.1 ORIGEM Podemos tratar a Teoria da Contabilidade como um conjunto coerente (sem a pretensão de exatidão) de postulados, princípios, restrições, qualidades de informação contábil, o todo subordinado aos objetivos das demonstrações contábeis e não fugindo da crítica questão do Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido (incluindo Receita e Despesa) para orientar a prática contábil. Alguns aspectos importantes tratados pela Teoria da Contabilidade são: Objetivos da Contabilidade. Cenários Contábeis. Princípios Fundamentais da Contabilidade: o postulados; o princípios; o convenções. 2.2 OBJETIVOS DA CONTABILIDADE Contabilidade pode ser considerada como sistema de informação destinado a prover seus usuários de dados para ajudá-los a tomar decisão. Usuários podem ser considerados como qualquer pessoa (física ou jurídica) que tenha interesse em conhecer dados (normalmente fornecidos pela contabilidade) de uma entidade. Os usuários podem ser internos _____________________________________________ ou externos _______________________________________________________________ Normalmente, os dados são elementos importantes constantes nos Relatórios Contábeis (resumos, periódicos e ordenados), que abrangem informações econômico-financeiras (patrimônio, capital, fluxo de caixa e despesas etc.). O objetivo principal da contabilidade, portanto, conforme a Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade, é o de permitir a cada grupo principal de usuários a avaliação da situação econômica e financeira da entidade, num sentido estático, bem como fazer inferências sobre suas tendências futuras. 2.3 CENÁRIOS CONTÁBEIS A Contabilidade é uma ciência social, pois estuda o comportamento das riquezas que se integram no patrimônio, em face das ações _______________. 3 Ainda que a Contabilidade se utilize de métodos quantitativos, não se pode confundi-la com as ciências matemáticas (ou exatas), que têm por objeto as quantidades consideradas abstratas que independem das ações humanas. A Contabilidade surgiu basicamente da necessidade de donos de patrimônio que desejavam mensurar, acompanhar a variação e controlar suas riquezas. Daí podermos afirmar que a Contabilidade surgiu em função de um usuário específico, o homem proprietário de patrimônio que, de posse das informações contábeis, passa a conhecer melhor sua “saúde” econômico- financeira, tendo dados para propiciar tomada de decisões mais adequadas. Podemos chamar de cenários contábeis primitivos o estágio embrionário em que as entidades comerciais e industriais estavam, em que o proprietário era a figura central da ação empresarial. Com o passar do tempo, novos usuários foram surgindo, tais como: o banqueiro, o fornecedor de mercadorias a prazo, o governo, o administrador, os acionistas, os empregados, os clientes, os sindicatos, os partidos políticos e outros segmentos da sociedade. Assim, temos hoje um cenário moderno da Contabilidade, o qual não se volta para o dono, mas para a entidade (como figura central), entidade está em rápido nível de crescimento, tornando-se (ou podendo tornar- se) empresa de porte, num crescimento tecnológico de mercado, de qualidade muito grande numa realidade de relativa instabilidade de preços e mercado. 2.4 PRINCÍPIOS (CONCEITOS) FUNDAMENTAIS DA CONTABILIDADE Existem regras de aplicação geral que orientam os procedimentos e práticas do profissional contábil no exercício de sua atividade. Essas regras, conceitos ou princípios visam a um tratamento contábil uniforme e servem como guia para a auditoria examinar a qualidade dos relatórios contábeis. Conforme o livro Contabilidade Introdutória, de uma equipe de professores da FEA/USP, para que os princípios sejam aceitos e incorporados à doutrina contábil, há duas condições básicas: Devem ser considerados praticáveis (ainda que com dificuldade) e objetivos pelo consenso profissional. Devem ser considerados úteis (relevantes). Conforme ainda aquele livro, o princípio, em primeiro lugar, deveria ser considerado adequado ou fiel à realidade, isto é, relevante para, em seguida, analisar-se sua praticabilidade (analisar se o custo de preparar a informação é menor que o benefício que essa informação trará aos usuários). Os teóricos da Contabilidade distinguem três grupos de princípios: os postulados, os princípios básicos e as normas convencionais. Normalmente, a Teoria da Contabilidade admite a necessidade de hierarquizar (priorizar) Conceitos, evidenciando que em tudo há hierarquia e que há muitos teóricos que admitem divisões nos princípios. É proposta a seguinte hierarquia: a) Postulados: São axiomas, dogmas, proposições evidentes cuja aceitação como verdadeiras é indiscutível. Os postulados são da entidade contábil e da continuidade. b) Princípios: São preceitos básicos que devem orientar os registros contábeis, mutáveis no tempo e sujeitos à discussão. São eles: Entidade, Continuidade, Oportunidade, Registro pelo Valor Original, Atualização Monetária, Competência e Prudência. Esses princípios garantem que as informações contábeis sejam fidedignas, comparáveis e úteis para a tomada de decisões. Embora possam ser adaptados conforme mudanças na legislação ou na prática contábil, sua aplicação correta é essencial para a qualidade e a transparência das demonstrações contábeis. 4 c) Convenções: São restrições, delimitações, condicionamentos de aplicação aos princípios contábeis. O exemplo dado na Teoria da Contabilidade é que os Princípios representam a larga estrada a seguir rumo a uma Cidade. As convenções seriam como sinais ou placas que indicam com mais especificidade o caminho a seguir, os desvios, as entradas, saídas etc. As convenções contábeis são: materialidade, conservadorismo, consistência e objetividade. 2.4.1 POSTULADOS CONTÁBEIS 2.4.1.1 Entidade Contábil Qualquer indivíduo, empresa, grupo de empresas ou entidades, que efetue movimentações quantificáveis monetariamente, desde que haja necessidade de manter Contabilidade, será tratado como uma entidade contábil. PAUSA PARA REFLEXÃO João, Amadeu e Carlos reúnem-se para constituir uma empresa com a finalidade de prestar serviços de encanamento. Resolvem denominar a empresa de O REI DOS ENCANADORES LTDA. Elaboram um contrato que contém as principais disposições convencionais. Concluem, ainda, a necessidade de possuir uma Contabilidade (para tanto, o Sr. Amadeu é escolhido como o realizador e idealizador da Contabilidade de sua empresa). O Rei dos Encanadores Ltda., a partir desse momento, será visto como uma entidade contábil. A. A entidade e a personalidade jurídica A moderna teoria contábil vem evidenciar que não há necessidade de uma conotação jurídica, isto é, de personalidade jurídica (registro na Junta Comercial, Secretaria da Fazenda etc.) para identificar-se uma entidade contábil. Uma sociedade irregular (de fato) pode, perfeitamente, ser uma entidade contábil. Um setor de uma empresa, desde que se identifique a necessidade de relatório contábil individualizado, que se destaca dos demais setores em aspectos como receitas (vendas) e despesas, investimentos etc., pode ser tratado como uma entidade contábil ou subentidade contábil. Uma pessoa física que, pela complexidade e volume de seus negócios, necessite manter Contabilidade para si, será tratada como uma entidade contábil. O mesmo podemos dizer para uma igreja, um clube de recreação, todas as entidades sem fins lucrativos etc. PAUSA PARA REFLEXÃO Como regra básica, o Sr. Amadeu, com plenos poderes em sua nova função, estabelece uma primeira norma: “não vamos misturar as coisas: dinheiro dos sócios não entra na Contabilidade da empresa e, como contrapartida, os sócios não metem a mão no dinheiro da empresa”. Por que essa é a regraáurea da Contabilidade? B. A entidade e os sócios Quando se fala em entidade contábil, uma característica fundamental é a manutenção de registros contábeis que destaquem a entidade como pessoa distinta das pessoas dos sócios (ou acionistas). Portanto, a Contabilidade objetiva relatar fatos contábeis concernentes à entidade contábil para os sócios e a outros usuários dos relatórios contábeis. 5 Assim, em uma atividade agropecuária, por exemplo, o contador deverá separar os gastos originados pelo negócio (entidade contábil) dos gastos do pecuarista (proprietário), sobretudo quando este reside na própria fazenda. Se há um único medidor de consumo de luz na fazenda, a contabilidade terá como incumbência separar (embora não seja uma tarefa fácil) o que compete ao empreendimento do que foi consumido particularmente pelo proprietário. Se, em uma emergência, o sócio tirar dinheiro do bolso e pagar uma conta da empresa, a contabilidade registrará um empréstimo que a pessoa física está fazendo à pessoa jurídica ou à entidade contábil para que esta pague uma dívida. E se, em outra condição excepcional, o sócio utilizar dinheiro da firma, a contabilidade registrará um empréstimo da entidade para o sócio (ou um adiantamento). Portanto, a contabilidade não pode impedir certos fatos que, de início, venham ferir um princípio básico, mas estabelecer corretivos e, se possível, tentar disciplinar os sócios em face das normas contábeis. 2.4.1.2 Continuidade Contabilmente, as entidades são consideradas empreendimento em prosseguimento (em operação, em continuidade, em andamento). Com base na continuidade, a empresa realiza grandes investimentos, constrói prédio, adquire tecnologia, contrai financiamentos etc. Esse princípio básico de contabilidade contribui notavelmente para a avaliação monetária dos bens da empresa. Como sabemos, há certos bens que a empresa, como “algo em andamento” (continuidade), não destina à venda, mas a utilizar em seu negócio. É o caso, por exemplo, de uma indústria que possui Máquinas e Equipamentos como meio de produção, não desejando, evidentemente, vender essas máquinas, mas utilizá-las em seu empreendimento. Ora, se a empresa não deseja vender as máquinas, estas não deverão ser avaliadas pelo preço corrente de mercado (preço de venda ou de saída). Deverão, entretanto, ser avaliadas por sua capacidade atual de trazer benefícios futuros para o empreendimento em andamento, ou seja, a valores de entrada (preço de aquisição, ou o preço que custaria para repor essa máquina no estado em que se encontra). PAUSA PARA REFLEXÃO O contador da Indústria Metalúrgica Amazonas S.A. está indeciso em atribuir o valor adequado para uma máquina usada, adquirida como um bem de produção para sua empresa (portanto, a empresa não pretende vender a máquina, porém utilizá-la). Seria por 5 milhões (preço de compra) ou por 4,5 milhões (preço de tabela de venda se a empresa quisesse dispor dela naquele momento)? Se partirmos do pressuposto de que a empresa é algo em andamento (continuidade) e que utilizará o bem na manutenção de sua atividade, não o destinando, portanto, à venda, deveremos avaliar por qual preço? Se, eventualmente, a empresa entrasse em um processo de liquidação (descontinuidade), a avaliação adequada de seus bens seria qual preço? No caso de se detectar a impossibilidade de prosseguimento do empreendimento (descontinuidade), por meio de dados esclarecedores (evidências, tais como prejuízos constantes, liquidação extrajudicial etc.), o contador deverá informar aos usuários dos relatórios contábeis tal situação. Essa é uma “responsabilidade social” do contador. 6 2.4.2 PRINCÍPIOS CONTÁBEIS Princípios são regras amplas e fundamentais que direcionam a forma de registrar, classificar e interpretar fatos contábeis. No Brasil, eram formalmente estabelecidos pela Resolução CFC 750/1993 (revogada em 2016, mas ainda úteis como base conceitual). Esses princípios funcionam como alicerces para a contabilidade, garantindo que as informações financeiras sejam confiáveis, comparáveis e úteis para a tomada de decisões. Os Princípios Contábeis Foram Extintos? Mesmo com a revogação da Resolução 750/1993 os princípios de contabilidade não deixaram de existir. Os princípios, na verdade, não foram eliminados e sim diluídos nos diversos CPCs. Conforme publicação pelo próprio CFC (Conselho Federal de Contabilidade) em novembro de 2016 o comunicado “Revogação da Resolução nº 750/1993: contexto e considerações” o fato de ter revogado a resolução não extingue os princípios contábeis: “Revogar a Resolução nº 750/1993, porém, não significa que os Princípios de Contabilidade estejam extintos. A revogação das resoluções visa à unicidade conceitual, indispensável para evitar divergências na concepção doutrinária e teórica, que poderiam comprometer aspectos formais das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBCs)” “Com isso, os Princípios de Contabilidade, sob o ponto de vista das Estruturas Conceituais dos setores privado e público, passaram a ser comportados dentro das normas específicas, respectivamente, a NBC TG Estrutura Conceitual (Resolução nº 1.374/2011) e NBCTSP EC.” Assim, entende-se que a Resolução 750/1993, que tratava de forma compilada os princípios contábeis, numa só resolução, a partir de 2017, eles serão tratados em CPCs específicos, ou seja, foram diluídas em diversos CPCs. 2.4.2.1 Princípio da Entidade Igual ao postulado da entidade, reafirma que a empresa é separada do proprietário. Esse princípio impede que os bens, obrigações e resultados pessoais dos sócios sejam misturados com os da empresa. Exemplo: Se o dono retira dinheiro do caixa para uso pessoal, isso deve ser registrado como retirada de sócio (e não como despesa da empresa). Se o proprietário usa um carro pessoal para prestar serviço à empresa, deve-se registrar um aluguel ou reembolso como operação entre partes relacionadas. 2.4.2.2 Princípio da Continuidade Igual ao postulado da continuidade. Pressupõe que a empresa continuará operando no futuro previsível, a menos que haja evidência contrária (falência, liquidação, encerramento planejado). Exemplo: Uma fábrica comprando uma máquina com vida útil de 10 anos parte da premissa de que continuará operando durante todo esse período. 7 Se houver risco de encerramento, a avaliação patrimonial muda: ativos podem precisar ser ajustados ao valor de liquidação. 2.4.2.3 Princípio da Oportunidade Os fatos contábeis devem ser registrados de forma integral e no momento mais adequado, assegurando que as informações sejam tempestivas, completas e confiáveis. Esse princípio determina que qualquer variação relevante no patrimônio da entidade, seja positiva ou negativa, deve ser reconhecida assim que houver evidências suficientes, mesmo que o recebimento ou pagamento ainda não tenha ocorrido. Exemplos: Registrar imediatamente uma provisão para perdas em um processo judicial assim que este se tornar provável e mensurável. Reconhecer a redução ao valor recuperável (impairment) de um ativo tão logo se identifique perda de valor. Atualizar o valor de um investimento de acordo com a cotação de mercado disponível, para que as demonstrações contábeis reflitam a realidade patrimonial. 2.4.2.4 Princípio do Registro pelo Valor Original Os ativos e passivos devem ser registrados pelo valor de aquisição, e esse valor só muda por procedimentos previstos em norma (como depreciação, reavaliação ou ajuste a valor justo). Exemplo: Se um terreno comprado por R$ 100 mil hoje vale R$ 200 mil, no balanço ele permanece por R$ 100 mil até haver norma que permita ajuste. Uma empresa que compra máquinas importadas deve registrá-las pelo valor pago (incluindo frete e impostos), independentemente de o valor de mercado variar logo depois. A valorização de um imóvel por motivos de mercado não pode ser reconhecida de forma espontânea,apenas conforme normas específicas. 2.4.2.5 Princípio da Atualização Monetária Os valores devem ser corrigidos para refletir a moeda de poder aquisitivo da data das demonstrações, evitando distorções causadas pela inflação. No Brasil, essa atualização plena não é mais aplicada para todos os itens, mas permanece em casos específicos (como aplicações financeiras, ativos no exterior ou contratos indexados). Exemplo: Títulos atrelados ao IPCA ou CDI têm seu valor atualizado periodicamente para refletir a variação monetária, garantindo que o patrimônio contábil seja realista. 8 2.4.2.6 Princípio da Competência As receitas e despesas devem ser reconhecidas no período a que se referem, independentemente de pagamento ou recebimento. Exemplo: Se a empresa paga aluguel de janeiro em fevereiro, a despesa é de janeiro. Uma empresa de eventos que recebe o pagamento em dezembro por um show que ocorrerá em janeiro não pode registrar a receita em dezembro. Ela pertence ao mês do evento. Uma venda de produto em novembro que só será paga em março do ano seguinte deve ser reconhecida em novembro. 2.4.2.7 Princípio da Prudência Determina registrar receitas apenas quando certas e despesas assim que forem prováveis. Visa evitar superavaliação de ativos e receitas e subavaliação de passivos e despesas. Exemplo: Registrar uma provisão para devedores duvidosos antes mesmo da inadimplência efetiva. Se há uma ação judicial contra a empresa e os advogados avaliam alta probabilidade de perda, deve-se registrar a provisão mesmo que o valor exato ainda seja incerto. Uma possível receita futura não deve ser reconhecida até estar totalmente garantida por contrato e entrega. 2.4.3 CONVENÇÕES CONTÁBEIS 2.4.3.1 Objetividade Para que não haja distorções nas informações contábeis, o contador deverá escolher, entre vários procedimentos, o mais adequado (o mais objetivo) para descrever um evento contábil. Um dos aspectos quase sempre abordados é que os registros contábeis deverão ter suporte, sempre que possível, em documentação gerada nas transações ou evidência que possibilite (além do registro) a avaliação. Numa situação em que não haja documento para suporte de contabilização, poder convocar peritos em avaliação que, mediante laudos, forneceriam um valor objetivo para o contador desenvolver, de maneira imparcial, sua contabilidade. É importante a impessoalidade (neutralidade) do contador (em relação aos usuários dos informes contábeis) que, quanto mais objetivo for, mais imparciais (não enviesados) serão esses informes. 9 Observe que no exemplo em que abordávamos a compra de uma máquina por R$5 milhões, cujo preço tabelado no mercado era de R$ 4,5 milhões, o contador fará o registro por R$ 5 milhões (suporte na documentação gerada na transação). Se, por exemplo, a máquina adquirida por R$5 milhões tivesse como preço de mercado R$ 8 milhões, o contador seria objetivo se a registrasse por R$ 5 milhões. Portanto, de nada valeria a opinião do contador sobre o melhor preço a ser registrado. Ele (o contador) será, então, objetivo, neutro, imparcial e impessoal. 2.4.3.2 Consistência Uma vez adotado certo critério contábil, dentro de vários igualmente relevantes, ele não deverá ser mudado, de ano para ano (ou constantemente), porque, ao assim o fazendo, estaríamos impossibilitando a comparação dos relatórios contábeis (no decorrer do tempo) e dos estudos preditivos (tendências). Isso não quer dizer que, se condições supervenientes induzirem a mudar de critério, não deva ser feito. Por meio de evidenciação (Notas Explicativas) nos relatórios contábeis, expondo a mudança de critério e suas implicações no lucro da empresa (se houver), a mudança será realizada. Quando houve a Lei das Sociedades por Ações (1976 e agora 2007), observamos mudanças de critérios em diversas empresas. Entretanto, isso não pode ser encarado como quebra de consistência, porque se trata de uma mudança esporádica e, em certos casos, até compulsória. Nesse caso, a mudança deverá ser evidenciada em Notas Explicativas. É importante ressaltar, aqui, que as Leis das Sociedades por Ações (1976 e 2007) consolidaram, como notável contribuição à contabilidade, a uniformidade nos relatórios contábeis. Dessa forma, diversos tipos de sociedades apresentam relatórios padronizados, a mesma estrutura em sua forma final, facilitando a comparação dos relatórios entre empresas do mesmo ramo operacional ou, ainda, de atividade diferente (evidentemente, a comparação se tornaria difícil, por exemplo, entre uma indústria e uma instituição financeira, ou empresa de seguros, dadas as peculiaridades de ramos de atividade). Todavia, é preciso destacar que uniformidade não é consistência, sendo esta um princípio básico, enquanto aquela, não. A uniformidade está mais no terreno legal do que no científico. Na realidade, a consistência refere-se ao contexto temporal, no âmbito da própria empresa, enquanto a uniformidade abrange relatórios estruturados dentro das mesmas normas legais, em empresas distintas. 2.4.3.3 Materialidade Por meio da materialidade, definiremos o que é material (relevante) e o que o contador deve informar em seus relatórios. Um ângulo bastante interessante para visualizar a materialidade é a análise do binômio Custo x Benefício. Há determinadas informações contábeis cujo custo para evidenciá-lo (tempo do pessoal da contabilidade, material, computador) é maior que o benefício que trará aos usuários (acionistas, administradores) dessas informações. O esforço “sobrenatural” para encontrar uma pequena diferença (esporádica) nos relatórios contábeis; a mobilização de todo um departamento contábil para constatar se o consumo de embalagem no valor de R$0,016 refere-se ao produto A, B ou C etc. são exemplos de montantes irrelevantes que muitas vezes tornam imaterial sua informação, ou seja, o benefício gerado é menor que o custo. 10 Portanto, para valores irrisórios em relação ao todo, a “materialidade” desobriga a um tratamento mais rígido que os itens de cifras relevantes. PAUSA PARA REFLEXÃO “Não vamos dar um tratamento rigoroso aos itens de valores pequenos”, diz o Sr. Amadeu. “Vamos fazer relatórios que sejam importantes para que a Diretoria tome decisões, para que haja grandes benefícios para a empresa, compensando assim a despesa (custo) que vamos ter com o Departamento de Contabilidade: funcionários, máquinas, móveis, papéis...” 2.4.3.4 Conservadorismo A posição conservadora (precaução) do contador será evidenciada para antecipar prejuízo e nunca antecipar lucro. Assim, ele não influenciará os acionistas, por exemplo, a um otimismo que poderá ser ilusório. Assim, se a empresa detém um estoque cujo custo de aquisição (ou de fabricação) seja de R$ 10 milhões, e o valor de mercado (preço que a empresa obteria se vendesse seu estoque hoje) fosse de R$ 8,1 milhões, o contador deve antecipar o prejuízo de R$ 1,9 milhão, sem perspectiva de aumento do preço, mesmo que a mercadoria não tenha sido vendida. Note que o prejuízo ainda não ocorreu; todavia, para não esconder dos acionistas uma situação negativa que poderá ocorrer num futuro próximo, o prejuízo será antecipado. Se o contador estiver em dúvida diante de dois montantes, igualmente válidos de dívida da empresa com terceiros, ele deverá registrar o maior valor. Assim, se, no momento do pagamento da dívida, prevalecer o maior valor, ninguém terá surpresa desagradável. Na contabilidade, como medida de prudência, será evidenciada uma situação pessimista, evitando transtornos não previstos. Portanto, o objetivo do conservadorismo é não dar uma imagem otimista em uma situação alternativa que, com o passar do tempo, poderá reverter-se. RESUMO A Teoria da Contabilidade é um conjunto coerente de postulados, princípios e convenções que orientam a prática contábil, sempre alinhada aos objetivos das demonstrações financeiras.Seu propósito é fornecer informações úteis e relevantes aos usuários internos (como gestores) e externos (como investidores e governo), para avaliar a situação econômico-financeira de uma entidade e auxiliar na tomada de decisões. A contabilidade surgiu da necessidade de mensurar, acompanhar e controlar riquezas, evoluindo de um foco no proprietário para uma visão voltada à entidade como centro das operações. Os princípios fundamentais se dividem em três níveis hierárquicos: (1) Postulados — verdades universais aceitas sem contestação, como o da entidade contábil e da continuidade; (2) Princípios — regras amplas e mutáveis que norteiam registros, como entidade, continuidade, oportunidade, valor original, atualização monetária, competência e prudência; (3) Convenções — restrições que ajustam a aplicação dos princípios, como objetividade, consistência, materialidade e conservadorismo. Esses conceitos foram antes reunidos na Resolução CFC 750/1993, mas hoje estão incorporados a normas e CPCs específicos. 11 Cada postulado e princípio possui implicações práticas: por exemplo, separar bens da empresa e dos sócios (princípio da entidade), avaliar ativos conforme sua utilização contínua (continuidade), registrar fatos no momento em que ocorrem (oportunidade) e reconhecer despesas prováveis antes de receitas incertas (prudência). Já as convenções asseguram a aplicação prática com clareza e consistência, evitando distorções e priorizando informações relevantes. Em suma, a Teoria da Contabilidade fornece a base conceitual para que a informação contábil seja útil, objetiva e comparável. Ao combinar fundamentos teóricos com aplicação prática e postura ética, garante que os relatórios contábeis sirvam como ferramenta confiável para decisões estratégicas, refletindo a realidade econômica das entidades e atendendo às necessidades de diferentes usuários. AVALIAÇÃO DO APROVEITAMENTO Questão 1 — Quadro Comparativo Com base no conteúdo estudado sobre Postulados, Princípios e Convenções Contábeis, complete o quadro fornecido pelo professor, preenchendo para cada item: O conceito (em suas palavras) Um exemplo prático Utilize linguagem clara e objetiva. A atividade será entregue na próxima aula. Categoria Nome Conceito Exemplo prático Princípio Entidade Princípio Continuidade Princípio Oportunidade Princípio Registro pelo Valor Original Princípio Atualização Monetária Princípio Competência Princípio Prudência Convenção Objetividade Convenção Consistência Convenção Materialidade Convenção Conservadorismo 12 Questão 2 — Estudo de Caso Leia cada situação apresentada e identifique qual princípio ou convenção contábil está sendo aplicado ou violado. Após identificar, justifique sua resposta em 2 a 3 linhas, explicando a relação entre a situação e o conceito estudado. 1. O sócio usa dinheiro do caixa da empresa para pagar sua conta de luz pessoal. 2. A empresa compra uma máquina por R$ 500.000, mas o valor de mercado dela é R$ 600.000. O contador registra pelo valor pago. 3. A empresa de eventos recebe, em novembro, pagamento integral de um show que ocorrerá apenas em janeiro do ano seguinte. 4. Uma fábrica mantém estoques avaliados pelo custo de aquisição, mesmo que o valor de mercado tenha subido. 5. A empresa registra uma provisão para perdas com clientes que ainda não atrasaram pagamentos, mas que já demonstram alto risco de inadimplência. 6. Um contador mantém, ano após ano, o mesmo método para calcular a depreciação de máquinas, sem mudanças arbitrárias. 7. O relatório contábil deixa de incluir um gasto de R$ 0,50 com papel por considerá-lo irrelevante para as demonstrações. 8. Uma construtora compra um terreno por R$ 1 milhão, esperando usá-lo em suas operações futuras. Ela não pretende vendê-lo, mesmo que o mercado esteja pagando R$ 1,5 milhão. 9. Uma loja registra uma venda no mês em que emitiu a nota fiscal, mesmo que o cliente vá pagar só dois meses depois. 10. Ao avaliar uma dívida judicial incerta, o contador registra o valor mais alto possível para evitar surpresas negativas. Questão 3 — Caça aos Exemplos no Mundo Real Pesquise na internet situações reais (notícias, balanços, decisões de empresas, casos jurídicos) em que seja possível identificar a aplicação de princípios ou convenções contábeis. Encontre 1 exemplo, indique: 1. Qual foi a situação 2. Qual princípio ou convenção se aplica 3. Por que ele se aplica nesse caso Podem ser utilizados exemplos nacionais ou internacionais.