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a criança e a cidade participação infantil na construção de políticas públicas A criança e a cidade Participação infantil na construção de políticas públicas A criança e a cidade Participação infantil na construção de políticas públicas nepei TEIA FaE UFMG Levindo Diniz Carvalho Faculdade de Educação FEDERAL MINAS Luciana Maciel Bizzotto (Org.)Infâncias, direitos e políticas 1. Isso é coisa de criança? Fábio Baroli, Sem título, série "Vendeta", óleo sobre tela, 2010. Imagem disponível no site Prêmio Pipa. Sebastião Salgado, Crianças em uma acampamento de sem-terra à beira da estrada PR-158, 1996. Imagem disponível no site Sebastião Salgado. Bansky, Policeman 1 Searching Girl, Londres, 2007. Imagem disponível no site de Bansky. Cláudia Jaguaribe, Mariana e amiga, 2010. Imagem disponível no site de Claudia Jaguaribe. 14 15criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas Como você se sentiu ao ver essas imagens? Porém, para atingir nossos objetivos, Comovido? Indignado? Incomodado? basta observarmos que a escola e a casa são Indiferente? Imagina por que se sentiu assim? na atualidade os lugares onde as crianças passam a maior parte de seu tempo. Por isso, Nossa reação diante de imagens como essas ficou naturalizado em nosso discurso que é uma manifestação do que historiadores da espaço doméstico e as instituições educativas infância apontam como uma nova fronteira seriam os únicos espaços realmente infantis, entre gerações traçada pelo mundo moderno enquanto a rua seria um lugar inadequado ocidental, configurando os lugares, os momen- para quem ainda não tem idade suficiente tos, as informações e as atividades compreen- para circular desacompanhado. Com isso, didas como infantis. Nesse processo, espaço as atividades infantis, que antes aconteciam público da rua, onde reuniões e decisões cole- ao ar livre, em grupos de diferentes idades tivas da vida em sociedade acontecem, passou e longe do olhar adulto, se tornaram mais a ser atribuído aos homens adultos, sendo supervisionadas, sendo contato entre os espaço doméstico da casa, onde se realizam pares reduzido a relações entre crianças as atividades de cuidado para a sobrevivência agrupadas por idade em instituições escolares e as decisões individuais sobre a família, ou sociais. destinado a proteger as mulheres e as crianças. Paralelamente, surgiram as escolas, que se encarregaram da formação preparató- 2 w ria para a vida adulta, social e produtiva, separando as crianças das atividades laborais e de outros assuntos e vivências, como aqueles 8 4 relacionados à violência e ao sexo. CÉU 10 E que esse processo tem nos ensinado? 5 As suas consequências são tão extensas e 6 complexas que não caberiam neste material. 16 17criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas Especialistas e ativistas têm alertado para as participação das crianças, como direito ao inúmeras, diversas e graves consequências acesso às informações que lhes dizem respeito, decorrentes dessa situação. Mas, neste direito à organização coletiva e, até mesmo, à material, gostaríamos de chamar atenção mobilização para pressionar as autoridades na para um aspecto para qual pouco destaque defesa de seus interesses. é dado: fato de que a ausência de meninos e meninas no espaço público produz a Veja a seguir algumas experiências interessan- invisibilidade social das crianças. Nem tes do exercício da cidadania na infância: eleitoras, nem contribuintes, as crianças foram e continuam sendo privadas do direito à EL Brasil participação social e política, que muitas As cartas das crianças da Maré: "Não vezes impede que instituições, governantes As cartas gosto do helicóptero porque ele atira e das crianças da as pessoas morrem" e agentes sociais levem em consideração Maré: "Não gosto Crianças do Complexo de Favelas da Maré descrevem horror da vida sob fogo cruzado em mais de L500 cartas enviadas para a Justiça do Rio, que restabelece impactos que as decisões políticas podem ter do helicóptero regras para operações policiais no local. Seis jovens morrem nos últimos cinco dias em outras comunidades fluminenses porque ele atira sobre suas vidas. e as pessoas morrem". El País, Qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça 14 ago. 2019. quando você pensa em participação social e política? Eleições? Pois bem, no senso comum, EU NÃO a participação social e política é imaginada TERO POQUE ELE EAS como algo a se realizar na vida adulta, sendo PESSOAS MORRE CASA isso necessária uma longa preparação até que esse direito seja adquirido. Você pode estar pensando, "Ah, mas, é claro, as crianças não podem votar", e não vamos aqui refutar esse argumento. Mas que estamos propondo é que a cidadania não seja associada exclusivamente ao exercício do voto. Ao contrário, convidamos você a imaginar diversas formas possíveis de 18 19criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas Crianças Brasil de Fato Rio de Janeiro que citaram Paulo Freire INÍCIO GERAL Sem Terrinhas REFORMA AGRÁRIA em protesto cobram mais atenção Sem Terrinhas cobram mais atenção às escolas do campo, no conseguem Rio mais tempo de às escolas do campo, Encontro estadual reuniu crianças que vivem em áreas de acampamentos e assentamentos do MST de todo recreio. Correio no Rio. Brasil de Fato, Mariana Pitasse 1 nov. 2017. de Fato de Novembro de 2017 Braziliense, 1 out. 2021. CORREIO BRAZILIENSE MINAS ERAIS Crianças que citaram Paulo Freire em protesto conseguem mais As crianças se na Assembleia Legislativa do de para sobre educação Pablo tempo de recreio Um dos desenhos contou até mesmo com patrono da educação brasileira como parte do protestos. Cartazes viralizaram na internet e estudantes conseguem mais tempo no recreio AUMENTAD Carta de um menino desde que negro da Escola Integrada à sua can do mim inteiro na cansado de da professora. Acervo sou isso deixa pessoal de Mara coisa uso dea Evaristo, 2022. you so juntam para mais say a tipo : ti mais do moundo outros quando alguém a luz coisa que mais do R sou (crédito: Reprodução/Redes Sociais) manha 20 21A criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas que você pensa sobre esses exemplos? estado do Espírito Santo. Através de um Conhece outras iniciativas assim? telefone de lata, elas falam sobre práticas culturais que exemplificam a singularidade Infelizmente, as manifestações sociais e de sua infância. Você consegue identificar políticas das crianças são menos frequentes algumas dessas práticas? do que gostaríamos, já que, como vimos, a ausência delas no espaço social torna a infância socialmente invisível. Como se não MATERIAL bastasse, a institucionalização da infância BÁSICO (alguns autores vão falar de domesticação, confinamento, emparedamento) também DISQUE está relacionada à expectativa de deter- QUILOMBOLA minados padrões que cada criança deve corresponder. problema é que esse papel social foi universalizado a partir da experi- ência das crianças de famílias de camadas Disque quilombola sociais superiores de países europeus e norte-americanos, e foi estendido como Clique aqui para assistir Vídeo disponível no canal do YouTube da modelo universal de infância a ser repro- ao vídeo. Equipe Disque, 2016. duzido em contextos muito diversos, como na Ásia, África e América Latina incluindo Brasil -, sem que se levasse em conta a diversidade de formas de se viver a infân- Circular pelas ruas, dançar funk ou brincar cia, ou, melhor seria até dizer, as infâncias. com fogo são atividades que não fazem parte da chamada infância hegemônica e Para ilustrar essa ideia, dê uma olhada podem ser consideradas erradas. Sobre a no Disque Quilombola, vídeo que traz um recusa da pluralidade das formas de viver diálogo divertido entre crianças de uma das crianças ao redor do mundo, ouça O que comunidade quilombola e de um morro no diz a antropóloga Clarice Cohn: 22 23A criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas A situação fica ainda mais grave quando MATERIAL observamos que essa diversidade muitas ve- BÁSICO zes se converte em desigualdades. Segundo relatório da Fundação Abrinq, Brasil, país de dimensão continental, tem 69,8 milhões de crianças e adolescentes entre e 19 anos de idade, que representa 33% da população do país. É importante ressaltar que as con- Trecho de Na Íntegra Clarice Cohn e dições em que essas crianças vivem não são apenas diversas, mas também extremamente Clique aqui Mary Del Priori Infância desiguais. Os dados revelam que, entre julho para assistir ao vídeo. e novembro de 2020, 45,4% de crianças entre Vídeo disponível originalmente no canal do a 14 anos viviam em famílias em situação de YouTube da UNIVESP, 2016. pobreza, 4,6% da população nessa faixa etária (1.768.476 de crianças) estavam em situação A fala de Clarice Cohn nos mostra que aquilo de trabalho infantil e 1,6 milhão de crianças que geralmente consideramos infância ou e adolescentes de até 17 anos afirmaram não seja, período da vida para brincar, estudar e estar na escola. ser protegido do mundo considerado adulto não corresponde às formas de vida de todas Infelizmente esses dados não são isolados, as crianças. Aliás, sobre meninos e meninas mas refletem a realidade da América Latina. que vivem outras infâncias, costuma-se dizer Apesar da significativa redução da pobreza que são crianças "sem infância". Essa afirma- experimentada na região a partir do século ção, ainda que preocupada com a violação XXI, em 2016, a cada 100 crianças com menos de direitos, nega a riqueza e a complexidade de 15 anos, 47 viviam em situação de pobreza, das experiências infantis. Não é porque essas sendo que 17 delas se encontravam em situ- crianças não correspondem a uma imagem ação de pobreza extrema, como mostra um idealizada que podemos dizer que elas não estudo realizado pela Comissão Econômica têm infância. para a América Latina e Caribe (Cepal). 24 25A criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas Embora as desigualdades que recaem sobre a indígenas que vivem nas regiões Norte e infância brasileira sejam históricas e persisten- Nordeste são mais afetados pela insuficiência tes, diversas pesquisas têm apontado para de renda, em comparação com brancos das agravamento da situação durante a pandemia, demais regiões do País, chegando a pobreza sendo identificados: aumento nas taxas de monetária infantil a dobrar no primeiro grupo abandono escolar, recuo nas matrículas em em relação ao segundo. Esses dados são creches, a estagnação da taxa de mortalidade preocupantes porque a pobreza e as múltiplas (que vinha decrescendo), crescimento do privações (à educação, saúde, informação, número de crianças abaixo de 5 anos desnu- água, saneamento e moradia) durante a tridas e das taxas de notificação de violência infância dificultam a interrupção do ciclo de doméstica e sexual, além da diminuição da pobreza entre gerações, contribuindo para a cobertura vacinal obrigatória de crianças. Em reprodução estrutural das desigualdades na comum, esses estudos trazem a constatação sociedade no Brasil. de que a situação é ainda mais grave para crianças brasileiras moradoras de áreas rurais, pobres, negras ou deficientes. E esse contexto de desigualdades não para por aí. Segundo estudo Pobreza Infantil Monetária no Brasil Impactos da pandemia na renda de famílias com crianças e adolescentes, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) neste ano, em 2022, a pobreza monetária e a pobreza monetária extrema impactam, proporcionalmente, dobro de crianças e adolescentes, em comparação com os adultos. A pesquisa aponta também que meninas e meninos pretos, pardos e 26 27criança e a cidade Infâncias, direitos e políticas 2. Direitos das crianças: marco legal A infância não foi inventada em uma Por isso, a construção de políticas públicas que tenham por objetivo garantir os direitos data específica, nem por uma pessoa só. das crianças é mais justa e eficiente quando se A construção da ideia de infância, como reconhece a diversidade cultural e as desigual- pensamos hoje, foi uma obra coletiva de dades sociais (econômicas, culturais, raciais, adultos e crianças que começou há séculos de gênero, etc.) que marcam contexto atrás, sofreu avanços e recuos e, claro, ainda não terminou. Um dos desdobramentos desse brasileiro. Sobre esse tema, ouça a fala de Maria de Salete Silva, especialista em Políticas percurso foi reconhecimento da criança Públicas para a Infância: como um sujeito de direitos, processo que implicou no surgimento de uma série de marcos legais, dentre os quais se destaca a Convenção sobre Direitos da Criança MATERIAL BÁSICO de 1989. Isso não significa que direitos das crianças tenham surgido com esse documento. Na verdade, eles são fruto de um intenso debate que antecedeu a sua SILVA aprovação e de conquistas que marcam esse percurso histórico. Desafios para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes Clique aqui para assistir Vídeo disponível no canal do YouTube do ao vídeo. Instituto Arcor Brasil , 2021. 28 29