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Abordagem Sistêmica omo vimos no capítulo anterior, a curiosidade e a necessidade de se verificar a maneira pela qual eram estruturadas as organizações trouxe- ram contribuições significativas para a busca da eficiência. A fim de avaliar de que maneira os sistemas organizacionais e administrativos eram estruturados e quais mecanismos eram necessários para que funcionassem como previsto, matemáticos e sociólogos encontraram um ponto comum na investigação de como as organizações funcionavam como sistemas. primeiro autor a desenvolver essas idéias foi Norbert Wiener (1894-1964). Wiener foi matemático, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e trabalhou na criação de mísseis dirigidos. A partir deste trabalho, aprofundou seu interesse pela manipulação de informações; no seu livro relata o resultado de seu estudo sobre controle e comunicação no animal e na máquina, além de detectar uma analogia entre máquinas e cérebro e sistema nervoso do homem. Os traba- lhos iniciais de Wiener sobre computadores e neurologia levaram-no a estudar padrões de comportamento de controle que ele acreditava serem significativos. Em seu livro ele define a cibernética como estudo da regulação e controle em sistemas, com ênfase sobre a natureza do feedback. Além disso, a cibernética trata dos métodos pelos quais os sistemas e seus subsistemas utilizam do seu próprio output para aferir efeito e realizar os ajustamentos necessários. processo fundamental de output, feedback e ajustamento é tema central da cibernética. Mas é Anthony Stafford Beer,¹ um inglês excêntrico,² nascido em 1926, quem transforma a cibernética em instrumento prático da Administração. Ele 1. BEER, Stafford A. administração. São Paulo: Ibrasa, 1979. 2. A biografia de Beer curiosa. Poi militar na editor, professor visitante na Universidade de Manchester professor adjunto de na Escola Wharton, na (a Mais tarde criou própria empresa de consultoria, SIGMA Science in General Management que seus amigos sua D acrônimo "Stafford is going mad além Allende. de colocar suas em prática no Chile, nos primeiros anos da década de 1970, sob governo144 KIL DANIEL F. DE BONIS MARCELO R. ABUD define a cibernética como a ciência da organização eficaz; sua tese fundamental postula que as organizações são como pessoas: têm um "cérebro" e um sistema nervoso central. Segundo autor, muitos dos problemas empresariais repousam na incompreensão clara de como seus sistemas funcionam. Assim, a raiz do problema está na maneira pela qual os sistemas se criam dentro das ções. E a melhor forma de entender como uma organização funciona é ignorar "organograma oficial", que apenas diz teoricamente 0 que deveria "mapeando" como cada parte da organização realmente reage em face das ações das outras partes. Desse modo, acredita autor, os efeitos de quaisquer mudan- ças no sistema podem ser previstos de antemão e corrigidos. Suponhamos que uma organização se empenhe em formular determinados conceitos sobre suas atividades concretas, para poder generalizá-los e aplicá-los futuramente. A organização, ao aplicar esses conceitos, pode confirmá-los Caso não sejam confirmados, a organização inicia todo o processo obser- ou vação, análise, formulação de conceitos, generalização e experimentação futura. Esse processo é reiterado e circular, e enquanto a organização existir processo não cessará. A circularidade torna-se, então, um hábito. No encadea- mento das atividades organizacionais, processo também não é linear, ocorren- do sempre a circularidade do feedback. De acordo com Jay Forrester (1918), professor da Sloan Scholl of Manage- ment do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, todos falam de sistemas, mas poucos se apercebem de quão difusos são os sistemas na criação de dificuldades que nos perturbam, e de como termo sistema abrange uma vasta amplitude do nosso universo, desde físico até organizacional. Kenneth Bouding³ fez uma classificação dos sistemas presentes em nosso universo, distribuindo-os em uma hierarquia de nove níveis: 1. primeiro nível é da estrutura estática. Poderia ser chamado das estruturas. 2. segundo nivel é do sistema dinâmico simples, com movimentos predeterminados e necessários. Poderia ser chamado o nível do determi- nismo. 3. terceiro nível é dos sistemas dos mecanismos de controle ou ciber- nético, que poderia receber nome de nível do termostato, pois é auto- regulável na manutenção do equilíbrio. 4. quarto é da estrutura do sistema aberto ou da estrutura que se mantém sozinha. É nível em que a vida começa a se diferenciar da não-vida, e poderia ser chamado 0 nível da célula. 3. Em KAST, Fremont E. & James E. Organização enfoque sistêmico. São Paulo: Pioneira, 2 ed.,INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA 145 5. o quinto é genérico-social, exemplificado pela planta e que domina o mundo empírico dos botânicos. 6. sexto é o animal, que se caracteriza pela mobilidade. 7. sétimo é o nível humano, isto é, aquele que ser humano, indivi- dualmente considerado, como um sistema provido de e capaz de utilizar a linguagem e o simbolismo. 8. oitavo nível é do sistema social, que tem por base uma organização humana, onde se tomam em consideração conteúdo e sentido das mensagens, a natureza e as dimensões dos sistemas de valores, a trans- mutação das imagens em registros históricos, as simbolizações da arte, da música e da poesia e a complexa gama das emoções humanas. 9. Por último, os sistemas que são os sistemas supremos e absolutos, desconhecíveis, aos quais não é possível escapar, mas que também apresentariam estrutura e relacionamento sistemático. 6.1. A Teoria Geral dos Sistemas aparecimento da Teoria geral dos sistemas forneceu uma base para a unificação dos conhecimentos científicos nas últimas Ludwig von Ber- talanffy (1901-1972) concebeu esse nome no início da década de 1920, criando em 1954 a Society for General Systems introduziu esse nome para descrever as características principais das organizações como sistemas, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. A Teoria Geral dos Sistemas, segundo próprio tem por finalidade identificar as propriedades, princípios e leis característicos dos siste- mas em geral, independentemente do tipo de cada um, da natureza de seus elementos componentes e das relações entre eles. De acordo com autor, existem certos modelos ou sistemas que, independentemente de sua especificidade, são aplicáveis a qualquer área de conhecimento. Tais modelos impulsionariam uma tendência em direção a teorias generalizadoras. Assim, com princípios gerais que, na verdade, são idéias vinculadas no desenvolvimento e ao surgimento da automação e da cibernética, Bertalanify propõe uma nova teoria científica, a Teoria Geral de Sistemas, que tem leis semelhantes às que governam sistemas biológicos. Nessa formulação teórica, D autor incorpora os conceitos fundamen- tais dos postulados anteriores do sistema biológico e das áreas matemáticas correlatas. 4. Ludwig von. "Teoria geral dos sistemas: aplicação à psicologia" in dos Rio de Janeiro: FGV, 1976, Série Ciências146 KIL H. PARK, DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD Um sistema se define como um complexo de elementos em interação isto é, pode ser utilizada para fenômenos investigados nos diversos natureza ordenada e não fortuita. A Teoria Geral dos Sistemas é interdisciplinar tradicionais da pesquisa científica. Ela não se limita aos sistemas ramos aplica-se a todo e qualquer sistema constituído por componentes em mas Além disso, a Teoria Geral dos Sistemas pode ser desenvolvida em várias linguagens matemáticas, em linguagem escrita ou ainda computadorizada. A aplicação do pensamento sistêmico, segundo Kast & Rosenzweig, uma particular importância para as ciências sociais, além de apresentar tem estreito relacionamento entre a teoria e sua aplicação a diversas áreas do conhe- um cimento humano. A teoria de sistemas possibilitou, por exemplo, a unificação diversas áreas do conhecimento, pois "sistema é um conjunto de elementos de interação e intercâmbio com o meio ambiente Ou ainda, confor- em me define "um sistema pode ser definido como um conjunto de objetos único". ou entidades que se inter-relacionam mutuamente para formar um todo Além disso, para entendermos a teoria de sistemas e sua difusão, devemos levar em conta duas características obrigatórias aos sistemas sociais: 1. funcionalismo: embora esta palavra apresente várias conotações, fun- damentalmente o termo dá ênfase a sistemas de relacionamento e à unificação das partes e dos subsistemas um todo funcional. 0 funcionalismo procura ver nos sistemas suas partes componentes, real- çando que cada elemento tem uma função a desempenhar no sistema mais amplo. Isto significa que cada elemento de um subsistema tem um papel a desempenhar num sistema mais amplo. 2. holismo: um conceito estreitamente relacionado ao do funcionalismo, é a concepção de que todos sistemas se compõem de subsistemas e seus elementos estão inter-relacionados. Isto significa que todo não é uma simples soma das partes, e que 0 próprio sistema só pode ser explicado como uma globalidade. holismo representa o oposto do elementarismo, que encara total como soma das partes Assim, conceito de organização como um sistema complexo de variáveis torna-se cada vez mais importante na sua análise e compreensão. 5. LITTLEJOHN, Stephen W. da comunicação humana. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988, 42. 6. Esse conceito é fundamental para enfocar sistemas. No enfoque tradicional da orga- nização, estudado subsistemas separadamente, com a idéia posterior de juntar as partes para formar todo. enfoque sistêmico diz que isso não é possível, já que é necessário começar pelo sistema total.INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 147 6.2. Principais Conceitos da Teoria dos Sistemas 6.2.1. Tipos de sistemas: fechado e aberto Uma distinção importante para a teoria da organização é a classificação das organizações em sistemas fechados ou abertos. Um sistema fechado é aquele que não realiza intercâmbio com seu meio externo, tendendo necessariamente para um progressivo caos interno, desintegração e morte. Nas teorias anteriores da Administração, a organização era considerada suficientemente independente para que seus problemas fossem analisados em torno de estrutura, tarefas e relações internas formais, sem referência alguma ao ambiente externo, pois as atenções estavam concentradas apenas nas operações internas da organização, adotando-se, para isso, enfoques racionalistas. Um sistema aberto é aquele que troca matéria e energia com seu meio externo. E, como diz Bertalanffy, a organização é um sistema aberto, isto é, um sistema mantido em importação e exportação, em construção e destruição de componentes materiais, em contraste com os sistemas fechados de física conven- cional, sem intercâmbio de matéria com meio. Considerando-se a perspectiva de sistema aberto, podemos dizer que um sistema consiste em quatro elemento a) objetos: são partes ou elementos do conjunto. Dependendo da natureza do sistema, os objetos podem ser físicos ou abstratos. b) atributos: são qualidades ou propriedades do sistema e de seus objetos. c) relações de interdependência: um sistema deve possuir relações internas com seus objetos. Essa é uma qualidade definidora crucial dos sistemas. Uma relação entre objetos implica um efeito mútuo ou interdepen- d) meio ambiente: sistemas não existem no vácuo; são afetados pelo seu meio 6.2.2. Entropia Os sistemas fechados devem, de acordo com segundo princípio da termo- dinâmica, eventualmente alcançar um estado de em que sistema 7. LITTLEJOHN, Stephen W., idem. 8. Um observador define um determinado sistema de acordo com seus propósitos pessoais, de modo que um objeto pode ser incluído ou excluído tanto no sistema como no meio ambiente, dependendo do ângulo de visão e interesse. Para tal, ver hierarquia sistêmica.148 PARK, DANIEL DE BONIS E MARCELO ABUD permanece constante no tempo e os processos param. estado de eventualmente alcançado nos sistemas fechados é determinado pelas condições iniciais. Isso significa que a característica principal do sistema fechado é tendência inerente à movimentação para um estático e à entropia.9 A a entropia, um conceito emprestado da termodinâmica, diz respeito à tendência que todos os sistemas fechados apresentam de passar a um estado caótico ou aleatório, em que não há mais potencial para a transformação de energia ou trabalho. Assim, a organização como sistema fechado tende a aumentar a entropia com passar do tempo, caminhando para a desordem e conseqüente 6.2.3. Eqüifinalidade Os sistemas abertos, por sua vez, podem, uma vez pressupostas algumas condições, alcançar um estado constante de equilíbrio, de modo que os processos e D sistema como um todo não cheguem a um repouso estático. Ou seja: se em um sistema aberto é alcançado um estado constante independentemente do tempo, esse estado é independente das condições iniciais e depende apenas das condições atuais do sistema. Essa propriedade é denominada de Desse modo, a do sistema significa que um certo estado final pode atingido de muitas maneiras de vários pontos de partida diferentes. 6.2.4. Mecanismos de feedback Os sistemas abertos são regulados, procuram atingir metas e, portanto, são intencionais, possuindo uma finalidade objetiva. Desse modo, a organização, mesmo sem estímulos externos, não é um sistema passivo, mas um sistema intrinsecamente ativo. E como uma organização naturalmente se mantém em chamado de estado constante de um sistema aberto, ela é capaz de liberar potenciais ou tensões existentes em resposta a estímulos libertadores. Um estímulo, isto é, uma alteração nas condições externas, não causa um processo em um sistema que de outra forma seria inerte. Ele apenas modifica os processos de um sistema autonomamente ativo. Os mecanismos de feedback correspondem a respostas a uma perturbação externa. Partindo das saidas do sistema, feedback remete às suas entradas, de forma a controlar funcionamento do sistema, para manter um estado desejado 9. Convém notar que não existe a nomenciatura positive, mas apenas entropia entropia esta última como aquela que nega aINTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 149 ou orientá-lo para uma meta Os mecanismos de feedback podem ter graus de complexidade A regulação do feedback dá-se por causalidade linear e unidirecional, en- quanto a regulação do sistema aberto se dá por meio de interação multivariável. As regulações do primeiro tipo são baseadas em arranjos ou estruturas preesta- belecidos, e as do segundo tipo, em interação dinâmica. Os arranjos ou estrutu- de feedback são sistemas fechados com relação à energia e à matéria, embora sejam abertos com relação à informação. Geralmente, os circuitos de feedback são superpostos a regulações primárias, como mecanismos secundários de regula- ção, e se desenvolvem a partir delas. Basicamente, feedback pode ser classificado como positivo ou negativo, dependendo do modo que sistema lhe responde. feedback negativo ocorre quando há um desvio em relação a um padrão e sistema ajusta-se reduzindo ou neutralizando esse desvio. Esse tipo de feedback é mecanismo mais impor- tante para a homeostase. Por outro lado, diante do desvio, sistema pode também responder ampliando ou mantendo esse desvio. A isso se dá nome de feedback Esse tipo de mecanismo é importante no desenvolvimento do sistema. processo denominado "relação circular de causa e é um exem- plo de feedback positivo, ou seja, feedback aumenta ou acelera 05 desvios do sistema, podendo criar descontinuidade e culminar na destruição desse sistema. Isso significa que muitas vezes circularidade pode levar sistema à descontinuidade. As relações circulares de causa e efeito precisam ser rompidas antes que rompam se introduz feedback negation. 6.2.5. Homeostase funcionamento autônomo do sistema e seu impulso para realizar certos movimentos representam princípio da homeostase, que focaliza exclusiva- mente uma tendência para equilíbrio. Em geral, conceito de homeostase não é aplicável a atividades espontâneas; a processos cuja meta é a criação de tensões e não a redução; aos processos de crescimento, desenvolvimento, e criação; e às leis dinâmicas, isto é, não baseadas em mecanismos fixos, mas inerentes a um sistema que funciona como um todo. Uma das tarefas primárias do muitos subsistemas interatuantes é a manutenção do equilíbrio no sistema. A homeostase é, essencialmente, um conceito sincrônico, isto é, referente à manutenção da constância durante um certo lapso de tempo. 10. Ogricola S. "A visão sistêmica da empresa", in Politica e estratégia de empresas. Rio de Guanabara, 1982, pp. 13-81.150 H. DANIEL F DE BONIS E MARCELO R. ABUD 6.2.6. Diferenciação Inversamente ao conceito sincrônico, existem conceitos desenvolvimentis- tas ou diacrônicos, que são regras empíricas que estabelecem que os sistemas vivos tendem a uma crescente diferenciação e organização. Como existe um meio ambiente circundante em constante mudança, sistema deve ser adaptável e capaz de, ele próprio, efetuar mudanças e reordenar-se na base de pressões ambientais. Assim, padrões difusos e globais são substituídos por funções mais especializadas. Um tipo de crescimento diferenciado nos sistemas é que Berta- lanffy qualificou como mecanização progressiva. Segundo suas palavras: "o prin- cípio da mecanização progressiva exprime a transição da inteireza indiferencia- da para função mais alta, possibilitada pela especialização e divisão do trabalho; importa, também, em perda de potencialidade nos componentes e de regulabi- lidade no A mecanização conduz ao estabelecimento de partes principais ou centros do sistema, isto é, componentes que dominam seu comportamento e podem exercer uma causalidade desencadeadora. Por meio desse processo, uma pequena alteração em uma parte principal pode, por meca- nismos de ampliação, causar grandes mudanças no sistema total. Por esse motivo deve ser estabelecida uma ordem hierárquica das partes ou processos. 6.2.7. Hierarquias Todo sistema compõe-se de subsistemas de ordem inferior, que, por sua vez, fazem parte de um sistema de ordem superior. Desse modo, há uma hierarquia entre componentes do sistema. A noção de hierarquia não está apenas relacionada com os níveis de subsistemas, fundamentando-se na neces- sidade de um abarcamento mais amplo ou de um conjunto de subsistemas que componha um sistema mais amplo, visando à coordenação das atividades e processos. 6.2.8. Fronteiras Qualquer sistema possui fronteiras, sejam elas espaciais ou dinâmicas. As fronteiras espaciais existem apenas uma observação simplista. Assim, todas as fronteiras são, em última análise, dinâmicas. As fronteiras estabelecem uma separação entre sistema e o meio ambiente e fixam domínio em que devem ocorrer as atividades dos subsistemas. Isso significa que toda organização possui fronteiras, isto é, uma determinação de seu campo de ação. Desse modo, uma organização só pode ser eficaz à medida que conhece suas fronteiras, seu limite organizacional. Pensar em fronteiras leva-nos a pensar em diversos aspectos da análiseINTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 151 sistêmica: 0 grau da abertura do sistema, sua maior ou menor receptividade das organizações quanto a insumos e informações e suas possibilidades de cresci- mento e desenvolvimento. 6.2.9. Inputs e outputs Como sistemas lidam com as descontinuidades? Uma das formas foi dada por pesquisadores da cibernética, que fomularam chamado princípio da "caixa preta" (ver Figura 6.1.). Figura 6.1. o sistema organizacional recursos valor não pessoal humanos econômico social m m e a b I e n e i t e n d a a S t r material/ Subsistemas produtos/ tecnologia equipamentos operacional, serviços administrativo e de informação S a a $ valor créditos capital m E e 0 a b e n i e t i feedback feedback Suponhamos que num sistema organizacional, seus membros sabem coletar informações ou insumos entram e saem, mas ignoram ou não têm152 KIL H. PARK, DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD condições de levantar dados sobre que ocorre dentro do sistema. É 0 fenômeno denominado em matemática de algo que transfor- ma um determinado tipo de entrada (input) em determinado tipo de saída (output). Como a organização não tem condições de momento para saber 0 que está ocorrendo na "caixa preta", ela procura introduzir input certo e obter output desejado. Daqui percebemos a importância do controle, tanto em sistemas quanto em atividades. 6.3. Alguns Esquemas Conceituais da Teoria de Sistemas Churchman é um autor que focaliza o aspecto da praticidade da teoria sistêmica no campo administrativo, formulando considerações básicas como 0 objetivo central do sistema, seu ambiente, os recursos e componentes dos sistemas e suas respectivas medidas de rendimento. Algumas definições que auxiliam na aplicação prática dessa teoria são: a) Sistemas: Conjunto estruturado visando a um fim, no qual existem relações complexas e não triviais entre os elementos constitutivos, de modo que todo seja mais do que a soma das partes. Exemplo: sistema econômico. b) Sistema Operacional: Conjunto de atividades estruturadas, visando a um objetivo estabelecido, especialmente à produção de bens e serviços eco- nômicos ou socialmente valiosos. Exemplos: empresa, hospital, escola. c) Sistema Administrativo: Conjunto de recursos estruturados, constituído de pessoas, equipamentos, materiais e procedimentos, destinados a processar uma tarefa administrativa específica. Exemplos: rotina de seleção e controle de produção e materiais, controle de desempenho. d) Sistema de Informação: Subsistema do sistema administrativo, destinado a processar fluxo de informação. Exemplos: sistema contábil, sistema de controle de qualidade. Alguns elementos dos sistemas são: 1. diretrizes, objetivos, planos, projetos, metas; 2. entrada (input), saída (output), processamento, meio externo, variáveis endógenas, interfase, ambiente externo, variáveis exógenas; 3. laços positivos (amplificadores) e laços negativos (estabilizadores); 4. sensor, medidor, controle, correção, retroação, homeostase, regulador, servomecanismo, cibernética, cibernética de segunda ordem; 5. ruído, entropia, anti-sistema, redundância, neguentropia.INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 153 Alguns dos princípios da dinâmica do sistema são: 1. Todas as partes de um sistema são relacionadas. Assim, uma alteração numa das partes do sistema causa necessariamente uma mudança em todas as demais. Isso significa que a otimização dos objetivos requer uma integração do próprio sistema. 2. Em vista da grande complexidade que existe no relacionamento entre as variáveis do sistema e em razão dos muitos laços que interligam os subsis- temas, efeitos das mudanças que incidem sobre modelo são contra-in- tuitivos e devem ser analisados pela construção e validação de um modelo. 3. Quanto mais rápida a informação e quanto menor 0 número de estágios de um sistema, menores serão as oscilações produzidas por uma pertur- bação e mais rápida será a volta ao equilíbrio. Outro esquema conceitual provém de alguns dos membros do Instituto Tavistock de Londres, que sublinham a relação meio ambiente-grupos de traba- lho, mostrando relações entre a parte formal da organização (dimensão técnica) e aspectos grupais (dimensão social). Desse modo, as organizações de trabalho podem ser definidas como siste- mas sociotécnicos estruturados, e subsistemas psicossocial e técnico devem ser encarados como parte da organização. Quadro 6.1. Sistema sociotécnico estruturado social relações sociais (inclusive as informais) dentro da empresa técnico tecnologia estrutura divisão do trabalho Os sistemas organizacionais podem ser ainda divididos em três níveis: a) técnico: parcelamento de tarefas; b) organizacional: coordenação do parcelamento das tarefas; c) institucional: responsável pelo relacionamento entre a organização e o meio ambiente. A partir de pesquisas empíricas realizadas por Trist & Bamforth¹¹ sobre a modernização das minas de carvão, verificou-se uma relação bastante íntima 11. TRIST, Eric L. & BAMFORTH, K.W. "Some social and psychological consequences of the Longwall Method of coal-getting", in Human Relations. Fev./1951. / 3-38.154 KIL H. PARK, DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD entre instituições e estruturas. As tecnologias tradicionais de extração coesos do carvão dos. As tecnologias que mecanizadas modernas, chamadas tradicional Longwall faziam com os mineiros trabalhassem em pequenos grupos de e integra- instituíram trabalho individual, rompendo com sistema de ope- ração e abolindo os pequenos grupos de trabalho. Esse novo método trouxe diversos problemas: foram verificados absenteísmo, turn-over e queda na produ- tividade. Com o tempo, de forma gradual e espontânea, antigo sistema voltou a ser implantado. pesquisador Rice¹² voltou a aplicar semelhante método de pesquisa numa organização de grupos de trabalho em tecelagens indianas, obtendo resultados semelhantes. A descoberta desses pesquisadores foi a existência da relação indissolúvel entre tarefas e pessoas, entre instituições e estruturas. Isso porque a tecnologia baseia-se nas tarefas a serem executadas pelas pessoas, e a tecnologia, como fator determinante da mudança, não pode induzir uma alteração radical na composi- ção dos grupos de trabalho, sob o risco de resultar uma desorganização de seu sistema social. Isso significa que, embora potencial da tecnologia moderna seja indiscutivelmente maior do que da tecnologia tradicional, não havendo simul- taneamente uma reestruturação do sistema psicossocial da organização, a pro- dutividade decorrente será menor. Os autores concluem que no interior das organizações as pessoas produzem novas aspirações e novos valores, fazendo com que a noção de eficiência da organização nunca seja real. Dessa forma, que se pode estimar é apenas sua eficiência potencial. 6.3.1. Vendo organizações como sistemas sociotécnicos Na Abordagem Sistêmica das organizações, estas são vistas como sistemas sociotécnicos estruturados. Essa abordagem apresenta vários aspectos de inte- resse. As organizações são analisadas como sistemas abertos, relacionados com outros sistemas, com os quais trocam informações. São sistemas dinâmicos, em constante adaptação e mudança, buscando equilíbrio, a homeostase. Como sistemas que são, estão sujeitos a receber insumos (inputs), analisá-los e liberá-los como resultados (produtos/serviços outputs). Em função desses produtos, sistema é então retroalimentado (por feedback) segundo suas necessidades. Esta- belece-se então um ciclo. Esquematicamente, podemos representá-lo como na Figura 6.2. A compreensão dos processos administrativos foi auxiliada pelo enfoque sistêmico, na medida em que este demonstra um aspecto da organização ainda não abordado. Ele oferece uma visão moderna e abrangente, mostrando a parte tock 12. RICE, 1958. A.K. Productivity and social the Ahmedabad experiment. Londres: Tavis-INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 155 Figura 6.2. A organização como sistema sociotécnico entradas saídas sistema feedback formal da organização (técnico) e também aspectos grupais (social). Fornece assim meios de se estabelecer um modo condizente de analisar as organizações com seu atual estágio de desenvolvimento e complexidade. 6.4. A Concepção da Natureza Humana: Homem Organizacional Vimos, no capítulo anterior, a primeira vertente da influência da sociologia estruturalista na teoria administrativa, os funcionalistas. Como segunda versão do estruturalismo, surge a teoria de sistemas abertos. Para os autores Kast & Rosenzweig,¹³ o enfoque sistêmico apresenta algumas limitações, que derivam de alguns aspectos em si presentes. A principal é que, por derivar muito das ciências exatas, a abordagem trata a organização de forma a criar um modelo. Mas as organizações são ainda mais complexas do que os sistemas 13. KAST, Fremont E. & ROSENZWEIG, James E. Organização e administração; enfoque sistêmico. São Paulo: Pioneira, ed., 1980.156 KIL H. PARK, DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD físicos ou biológicos. A visão da empresa como sistema parece, às vezes, muito mecanizada, como se esta fosse uma máquina física. Destacados estes aspectos, 0 enfoque sistêmico ainda oferece grande utilidade nos estudos sobre a Vimos também, pelas conclusões das pesquisas realizadas, que na Aborda- gem Sistêmica há uma forte tendência em se enfatizar as funções (ou conjunto de atividades) exercidas pelos indivíduos nos subsistemas. Essa tendência faz surgir uma teoria da organização de sistemas de papéis. Os autores Maynts, Luhmann, Gross, McEachner e Getzels, por exemplo, apresentam esquemas conceituais nos quais a organização é entendida como um sistema de papéis, mediante o qual as pessoas se mantêm inter-relacionadas. Em outros termos, se nas outras abordagens a ênfase estava na questão da racionalidade ou da produ- tividade, nesta abordagem a questão do papel dos indivíduos é o ponto focal. conjunto dos comportamentos esperados de uma determinada posição social no sistema social (que se transforma em comportamento esperado na organização) relaciona-se com outros indivíduos nos seus respectivos papéis. É chamado conjunto de papéis organizacionais, com cada indivíduo no seu papel. modelo de sistema de papéis baseia-se na noção do papel social como sendo fundamental. É a idéia de que, existindo papéis, existem também funções na organização que alteram ou reforçam comportamento destes papéis, con- forme a expectativa de valores percebida, ou seja, comportamento potencial, no qual cada papel funciona como um sistema. Quando a expectativa coincide com esperado, será obtido comportamento desejado. Nessa abordagem, as variáveis organizacionais são as que intervêm na relação social, tais como a dos indivíduos e a relação interpessoal. São variáveis que se referem à posição, de caráter flexível ou rígido, o que é uma extração do papel independentemente do papel social no qual indivíduo está inserido. Esse indivíduo é o chamado Homem Organizacional, sobre o qual a Administração exerce influência fazendo com que seu comportamento real, ou a predisposição a atuar, se dirija rumo às metas organizacionais. equilíbrio, nessa Abordagem Sistêmica, está na dependência direta do equilíbrio emocio- nal, dado pelos parâmetros da eficiência dos seus participantes. 6.5. Resumo A Teoria Geral dos Sistemas surgiu do trabalho de Ludwig von Bertalanffy, a partir de conceitos matemáticos e biológicos. sistema é um complexo de elementos em interação, de natureza ordenada e não fortuita. A descrição das organizações como sistemas foi a concepção utilizada pela abordagem estudada neste capítulo.INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 157 Os sistemas possuem duas características obrigatórias: 0 funcionalismo e o holismo. funcionalismo determina que cada elemento do sistema tem um papel a desempenhar, e se relaciona com os demais. holismo atesta que todo não é a soma das partes, mas um complexo resultado da interação de todas elas. Os sistemas podem ser abertos ou fechados, em relação às suas trocas com 0 ambiente; sistemas fechados tendem à entropia e à morte. São permeados por mecanismos de feedback negativo e positivo, e tendem a um equilíbrio dinâmico chamado homeostase. Além disso, são diferenciados e hierarquizados. Churchman dá-nos um enfoque prático da teoria dos sistemas nas organi- zações, relacionando às propriedades dos sistemas a dinâmica organizacional. Trist e Bamforth, do Instituto Tavistock de Londres, mostraram como a inserção da tecnologia pode desagregar sistemas psicossociais constituídos. 6.6. Exercícios 1. Explique qual a importância para a Administração do surgimento da Teoria Geral dos Sistemas, comentando suas principais características. 0 que esta teoria trouxe de efetivamente novo para a Teoria da Administração? 2. Defina com as suas palavras: a) homeostase b) entropia c) holismo d) mecanização progressiva 3. Diferencie um sistema fechado de um sistema aberto e exemplique cada um deles. Que problemas podem ocorrer a uma organização que se comporte como um sistema fechado? 4. Por que mecanismos de feedback são fundamentais para perfeito funcionamento dos sistemas? Diferencie feedback negativo de feedback positivo, exemplificando. 5. Os conceitos de "sistema de papéis" e "homem organizacional" foram de extrema importância para desenvolvimento da teoria sistêmica. Defina-os e estabeleça a relação existente entre eles. 6.7. ESTUDO DE CASO: "Relatório ao governador do Estado de Alagoas" "Exmo. Sr. Governador: Trago a V. Excia. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.158 KIL H. DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD Não foram muitos, que os recursos são exíguos. Assim minguados, entre- tanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que Município se achava, muito me custaram. Começos PRINCIPAL, que sem demora iniciei, de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, mandante do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, êsses, resolviam ques- tões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encon- trei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela. Dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bilis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mão de Nosso Senhor, que administra- va melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos; os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem suas obrigações e, sobre- tudo, não se enganam em contas. Devo muito a êles. Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior. Receita e Despesa A orçada em 50:000$000, subiu, apesar de 0 ano ter sido péssimo, a 71:649$290, que não foram sempre bem aplicados por dois motivos: porque não me gabo de empregar dinheiro com inteligência e porque fiz despesas que não faria se elas não estivessem determinadas no orçamento. Poder Legislativo Despendi com poder legislativo pagamento a dois secretários, um que trabalha, outro aposentado, telegramas, papel, selos. Iluminação A iluminação da cidade custou 8:921$800. Se é muito, a culpa não é minha: é de quem fez contrato com a emprêsa fornecedora de luz. Obras Públicas Gastei com obras públicas 2:908$350, que serviram para construir um muro no edifício da Prefeitura, aumentar e pintar açougue público, arranjar outroINTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 159 açougue para gado miúdo, reparar as ruas esburacadas, desviar as águas que, em épocas de trovoadas, imundavam a cidade, melhorar curral do matadouro e comprar ferramentas. Adquiri picaretas, pás, enxadas, martelos, marrões, marretas, carros para atêrro, aço para brocas, etc. Montei uma peque- na oficina para consertar utensílios estragados. Eventuais Houve 1:069$700 de despesas eventuais: feitio e conserto de medidas, materiais para aferição, placas. 724$000 foram: para uniformizar as medidas pertencentes ao Município. Os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em outras desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de querosene e caixões de sabão, a que arrancavam tábuas, para enganar 0 comprador. Fui descaradamen- te roubado em compras de cal para os trabalhos públicos. Cemitério No cemitério enterrei 1895000 pagamento ao coveiro e conservação. Escola de Música A filarmônica 16 de Setembro consumiu 1:990$660 ordenado de um mestre, aluguel de casa, material, luz. Funcionários da Justiça e da Polícia Os escrivães do júri, do civel e da polícia, delegado e os oficiais de justiça levaram 1:843$ 314. Administração A administração municipal absorveu - vencimentos do prefeito, de dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um serven- te; impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos neces- sários à secretaria, telegramas. Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordiná- rio vai para êles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, pro- clamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao govêrno do Estado, que não precisa disto; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua um telegrama; porque deputado F. esticou a canela um telegrama. Dispêndio inútil. Tôda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1556 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.160 PARK, DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. ABUD Arrecadação As despesas com a cobrança dos impostos montaram a Foram altas porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em que aqui os contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem. Chamei um advogado e tenho seis agentes encarregados de arrecadação, muito penosa. Município é pobre e demasiado grande para a população que tem, reduzida por causa das secas continuadas. Limpeza Pública Estradas No orçamento, limpeza pública e estradas incluiram-se numa só Consumiram 25:111$152. Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas; retirei da cidade lixo acumulado pelas gerações que por aqui passaram; incinerei mon- turos imensos, que a Prefeitura não tinha suficientes recursos para remover. Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças. Pôsto de Higiene Em falta de verba especial, inseri entre dispêndios realizados com a limpeza pública os relativos à profilaxia do Município. Contratei com Dr. Leorne Menescal, chefe do Serviço de Rural, a instalação de um pôsto de higiene, que, sob a direção do Dr. Hebreliano Vanderlei, tem sido de grande utilidade à nossa gente. Viação Consertei as estradas de Quebrangulo, da Porcina, de Olho d'Água aos limites de Limoeiro, na direção de Cana Brava. Foram reparos sem grande importância e que menciono para que esta exposição não fique incompleta. Faltam-nos recursos para longos tratos de rodovias e quaisquer modificações em caminhos estreitos, ingrimes, percorridos por animais e veículos de tração animal, depressa desaparecem. É necessário que se esteja sempre a renová-las, pois as enxurradas levam num dia trabalho de meses e os carros de bois escangalham que as chuvas deixam. Os empreendimentos mais sérios a que me aventurei foram a estrada de Palmeira de Fora e terrapleno da Lagoa.INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 161 Estrada de Palmeira de Fora Tem oito metros de largura e, para que não ficasse estreita em uns pontos e larga em outros, uma parte dela foi aberta em pedra. Fiz cortes profundos, aterros valetas e passagens transver- sais para as águas que descem dos montes. Cerca de vinte homens trabalharam nela quase cinco meses. Parece-me que é uma estrada razoável. Custou 5:094$400. Tenciono prolongá-la à fronteira de Sant'Ana do Ipanema, não nas condi- ções em que está, que as rendas do Município me não permitiriam obra de tal vulto. Outra Estrada Como, a fim de não inutilizar-se em pouco tempo, a estrada de Palmeira de Fora ser exclusivamente a pedestres e a automóveis, abri outra paralela ao trânsito de animais. Terrapleno da Lagon espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era uma coelheira imensa, um vasto acampamento de tatús, qualquer coisa deste gênero. Buraco por tôda a parte. 0 que existiu, feito na administração do prefeito Francisco Cavalcante, quase que havia desaparecido. Em um dos lados do caminho abria-se uma larga fenda com profundidade que variava de três para cinco metros. A água das chuvas, impetuosa em virtude da inclinação do terreno, transformava-se ali em verdadeira torrente, que aumentava a cavidade e ocasionava sério perigo aos transeuntes. Além disso outras aberturas se iam formando, invernos cavavam galerias subterrâneas, e aquilo era inacessível a veículo de qualquer espécie. Empreendi aterrar e empedrar 0 caminho, mas reconheci que solo não fendido inconsistente: debaixo de uma tênue camada de terra de aluvião, que uma estacada sustentava, encontrei lixo. Retirei 0 lixo, para preparar terreno e para evitar que um monturo banhado por água que logo entrava em um riacho de serventia pública. Quase todos trabalhadores adoe- ceram. Estou fazendo dois muros de alvenaria, extensos, espêssos e altos, para suportar atêrro. Dei à estrada nove metros de largura. Os trabalhos vão adiantados. Durante meses mataram-me 0 bicho do ouvido com reclamações de tôda a ordem contra abandono que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de réis, dizem.162 KIL H. DANIEL F. DE BONIS E MARCELO R. Custarão alguns, Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. que a Prefeitura arrecada basta para que nos não resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros. Até agora as despesas com os serviços da Lagoa sobem a Covenho em que dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outros menos incompetentes do que eu; em todo caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se distribuisse com os meus parentes, que necessitam, coitados. (Os gastos com a estrada de Palmeira de Fora e com terrapleno estão, naturalmente, incluídos nos 25:111$152 já mencionados.) Dinheiro Existente Deduzindo-se da receita a despesa e acrescentando-se 105$858 que a admi- nistração passada me deixou, verifica-se um saldo de 11: 40$897 estão em caixa e 11:0045050 depositados no Banco Popular e Agri- cola de Palmeira. Conselho autorizou-me a fazer depósito. Devo dizer que não pertenço ao banco nem tenho lá interêsse de nenhuma espécie. A Prefeitura ganhou: livrou-se de um tesoureiro, que apenas serviria para assinar as fôlhas e embolsar ordenado, pois no interior os tesoureiros não fazem outra coisa, e teve: 615$050 de juros. Os 40$897 estão em poder do secretário, que guarda 0 dinheiro até que êle seja colocado naquele estabelecimento de crédito. Leis Municipais Em janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite. Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, con- venci-me de que código era uma espécie de lobisomem. Afinal, em fevereiro, 0 secretário descobriu-o entre papéis do Império. Era um delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de fôlhas sôltas, com aparência de primeiro livro de leitura do Abílio Borges. Um furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigidas, e muito sêbo. Com elas e com outras que nos dá a Divina Providência consegui aguentar- me, até que Conselho, em agôsto, votou código atual. Conclusão Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis. Evitei emaranhar-me em teias de aranha.INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO 163 Certos não sei porque, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não impostos. me entendi com esses. Há quem ache ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a maroteirazinha, a abençoada canalhi- preciosa para quem as pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como ce, assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento da idéia de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas. Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram de inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por êstes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e Palmeira dos 10 de janeiro de 1929 Graciliano Ramos 1. Após a leitura desse relatório, identifique os diferentes subsistemas da localidade descrita por Graciliano Ramos. De que forma esses subsistemas podem interagir uns com outros? 2. Estruture graficamente sistema relatado, de modo a evidenciar todas as suas propriedades (homcostase, inputs e outputs, feedback etc.). 6.8. Subsídios para Discussão Estes são alguns filmes que permitem uma discussão das questões huma- nas/organizacionais sob enfoque sistêmico: 1. A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, EUA, 1958) Direção: Orson Welles. Atores principais: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Dis- Marlene Dietrich, Akim Tamiroff, Dennis Weaver. Preto-e-branco. tribuidora: CIC. Duração: 93 minutos. Um policial mexicano em lua-de- lado mel numa cidade de fronteira se envolve em trama com policiais do americano. filme permite um debate sobre como um elemento estra- nho ao sistema pode provocar uma quebra do mecanismo de feedback 2. positivo. TERRA EM TRANSE (Brasil, 1967) Direção: Gláuber Rocha. Atores principais: Jardel Filho, Paulo Autran, Glauce Rocha, José Lewgoy,164 DANIEL F DE MARCELO ASUD Paulo Hugo Carvana, Jofre Soares, Paulo César lene Maurício do Valle. Preto-e-branco. Distribuidora: Globa Duração: 115 minutos. país de Eldorado é palco de conflitos internos numa luta pelo A partir da história, é analisar como os susbsistemas podem não entrar em gerando entropia. 6.9. Referências Bibliográficas 1. Ludwig von. "Teoria geral dos sistemas: aplicação à em dos Rio de Janeiro: FGV, 1976, Série 2. BETHLEM. Ogricola "A visão sistêmica da in e gia de empresas. Rio de Janeiro: Guanabara, 3. KAST, Fremont E. & ROSENZWEIG, James E. Organização e enfoque São Paulo: Pioneira, ed., 1980. 4. Stephen W. Fundamentos Rio de Janeiro: 5 RICE. A.K. Productivity and Social Organization: the Tavistock Pub, 6. TRIST, K.W. "Some social and psychological conse- quences the Longwall Method of coal-getting", in Human Relations

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