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AULA 6 NEUROCIÊNCIA, GESTÃO ESTRATÉGICA E INOVAÇÃO Prof.ª Anelise Jensen 2 CONVERSA INICIAL O objetivo desta aula é apresentar uma avaliação atual do cenário que vivemos, analisando os elementos e a relação existente entre o fenômeno das redes sociais e os impactos dele decorrentes. Vamos conhecer também outras formas de pesquisa e observação de hábitos, como o coolhunting, a detecção de tendências de comportamento do consumidor, que tem auxiliado as organizações contribuindo no processo de criação de produtos inovadores, bem como na agregação de valor. TEMA 1 – REDES SOCIAIS E COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR A evolução das tecnologias e as transformações sociais alteraram (e muito) a forma de viver. Os impactos podem ser sentidos se analisarmos o modo como consumimos, os produtos que compramos e a forma como temos acesso à produtos e serviços hoje, quando comparados à antigamente. Uma das mudanças mais expressivas ocorreu com o advento das redes sociais, que se tornaram um ambiente para a troca de experiências e ideias. No campo dos negócios, as organizações vêm utilizando fortemente as redes sociais para difundir seus conceitos, ao mesmo tempo que buscam divulgar seus produtos e serviços (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Em um ambiente de alta competição as organizações têm percebido, na opinião de Frankenthal (2018), que “as redes sociais exercem impacto sobre a forma com que os consumidores se relacionam com as marcas”, sendo uma fonte potencial de informação. O fato de que as redes sociais são instrumentos de interação e relacionamento se conecta perfeitamente com a teoria da psicologia, que diz que o nosso cérebro é social. Segundo Vasconcelos (2017, p. 36), “[...] o cérebro não tem existência biológica em isolamento de relações humanas [...]”; aspecto que pode ser notado ao considerarmos que o nosso dia a dia é feito no contato com o outro. Assim, Luria e Vygotsky (citados por Pessoa, 2014, p. 35) observam que nosso cérebro “é um órgão dinâmico, plástico e produto de evolução sócio- histórica”, o que sinaliza que houve, por parte desse órgão, um processo de adaptação ao meio; processo este que se certamente aconteceu em relação às redes sociais. 3 Dessa maneira, se todos nós somos, por natureza, seres de interação, fica fácil de compreender a adesão em massa que houve à proposta das redes sociais. Uma vez associada com a comunicação e a promoção, as redes sociais foram rapidamente integradas ao conjunto de atividades gerenciadas pelo marketing (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). O uso massificado desses novos canais de comunicação e comercialização tornou-se uma fonte gigantesca de dados para as empresas. Fornecendo de modo expressivo informações sobre a clientela (tipos de produtos comprados, ocasiões de compra etc.), as redes sociais são também, segundo Rodrigues, Moreira e Vitorino (2013, p. 148), “uma fonte de feedback e de análise bastante úteis para as empresas”. A criação dos perfis comerciais das empresas e as comunidades de marcas ampliaram as possibilidades de estudo do comportamento do consumidor, dado que interações de consumo passaram a ser feitas com frequência por intermédio dessas plataformas. Um dos métodos que mais ganhou notoriedade em função dessa mudança foi a netnografia, que é um modelo recente de pesquisa do comportamento, adaptado para um mundo mediado por computadores (Kozinets, 2010). Tendo como fonte a antropologia, seu objetivo é, de acordo com Ribeiro e Coelho (2019), o de “analisar novas formas de relacionamento entre os usuários e seus hábitos de consumo, assuntos de interesse, percepção e formas de uso de produtos e serviços”. Figura 1 – Netnografia: uma forma de pesquisa com base nas redes Crédito: Andrei_R/Shutterstock. 4 É preciso levar em conta que, no meio digital, as pessoas se comportam de maneira diferente do habitual. Nesse canal, os consumidores tomam decisões mais rápidas e as relações são superficiais, mesmo com as grandes possibilidades de interação (Instituto PHD, 2015). Quando uma empresa procura analisar os “rastros” que deixamos no ambiente digital, ela consegue desenvolver ações mais assertivas, o que demonstra que a empresa está orientada para atender às necessidades do mercado e de seus clientes. Isso resume o conceito de consumer engagement, no qual o consumidor é o centro da atenção e, portanto, deve ter suas necessidades atendidas, a fim de que exista envolvimento do cliente com a empresa. Ao efetuar a compra de um produto todo ano, por exemplo (mesmo que seja sempre com a mesma empresa), não podemos afirmar que isso implica um vínculo entre as partes. Contudo, consumidores que estão satisfeitos e fidelizados (envolvidos), são, como afirmam Rodrigues, Moreira e Vitorino (2013, p.149), “mais predispostos a recomendar produtos através de blogs, redes sociais ou mesmo boca a boca, no sentido de se tornarem defensores da marca”. Essa conexão só é possível graças a atributos como a confiança e o compromisso das empresas, que devem buscar sempre a oferta de valor superior em suas entregas. É isso que proporcionará a geração de relacionamentos no longo prazo (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). O futuro reside no aprofundamento da análise comportamental dos consumidores, principalmente pelo fato que hoje podemos construir o ciclo midiático e de consumo, de acordo com os dados já coletados por diversos canais de contato e, por consequência, a mídia programática traz consigo esta realidade reforçado pelos avanços em modelos de análise preditiva do consumo (Tosi, 2015) Ao considerarmos que 54% dos consumidores seguem o perfil de suas marcas favoritas na internet, de acordo com estudo divulgado pela consultoria Mind Miners (Frankenthal, 2018), fica expresso que proporcionar informação e interação para os consumidores pode tanto contribuir para uma melhor percepção sobre as marcas quanto fornecer diferentes tipos de dados para análise do comportamento dos consumidores. Além disso, a autonomia e o empoderamento decorrentes do acesso à informação, quando em conjunto com práticas sérias e consistentes, vai não apenas melhorar a imagem da empresa diante do mercado como conquistar clientes mais satisfeitos e leais. 5 TEMA 2 – LIFESTYLE E FASHION REHEARSAL Muitas informações valiosas podem ser descobertas e conectadas via pesquisa de tendências e observação dos processos de comportamento do consumidor. Tendências podem ser observadas, descobertas e analisadas para os mais diversos ramos de negócios: gastronomia, turismo, imóveis etc. No entanto, quando os temas são moda e estilo de vida, é quase que natural falar em tendências, que, enquanto negócio, surgem na década de 1950 em Paris, França, justamente na indústria da moda (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Sua criação visava ajudar o setor, absorvendo as mudanças decorrentes dos pós-guerra. De acordo com Rodrigues, Moreira e Vitorino (2013, p. 230), “[...] eram pessoas muito viajadas, jornalistas de moda, ou influentes na sociedade, que procuravam melhorar o look e a qualidade dos produtos [...]”. Com o passar do tempo, as sugestões de alterações nas peças de roupas foram sendo valorizadas pelo mercado, tornando-se mais sofisticadas a ponto de justificar a criação de escritórios próprios para trabalhar na área (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Figura 2 – Lifestyle e Fashion rehearsal Crédito: Conrado/Shutterstock. Entender as tendências no que se refere a fashion rehearsal (ensaios de moda) e a lifestyle (estilo de vida) é extremante importante para as organizações dessa área, pois esses aspectos influenciam a vida de muita gente na atualidade, gerando milhares de empregos e renda em muitos países. Além dos aspectos econômicos,o entendimento sobre esses fatores ajuda as empresas a se 6 comunicarem com grupos bem específicos de consumidores (conhecidos como nichos), reconhecendo as mudanças no tempo e a existência de novas gerações. Vivemos em uma sociedade de consumo, em que, independentemente das características demográficas, culturais ou psicológicas, o indivíduo é continuamente estimulado a comprar. Com isso, Rodrigues, Moreira e Vitorino (2013, p. 221) avaliam que “a evolução e o desenvolvimento constituem um entrave à regularidade dos ciclos de vida dos produtos, fragilizando as vantagens concorrenciais e modificando o comportamento dos consumidores”. Isso significa que os processos de inovação estão ocorrendo de forma muito mais rápida, por meio da remodelagem de características dos produtos, que seguem as mudanças apontadas pelo consumidor (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). No que diz respeito à moda (fashion rehearsal), avaliemos de forma prática essa questão: se antes havia quatro coleções de roupas para uma marca em um ano (equivalentes às estações de primavera, verão, outono e inverno); hoje temos o chamado “fast fashion”, processo no qual as tendências são detectadas, as peças são rapidamente produzidas e em questão de poucas semanas já estão nas lojas. Microcoleções são lançadas a cada três meses, em alguns casos. Para fins de organização, tem-se como parâmetro que um ciclo tem a duração de dois anos e meio (para os pesquisadores de tendências na moda ou coolhunters). É esse ciclo que definirá o estilo para cada estação: temas, cartela de cores, formas, modos de usar, tipos de materiais e estampas, fontes de inspiração etc. (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Figura 3 – Fast fashion Crédito: Marisha/Shutterstock. Evoluindo um pouco nesse raciocínio, devemos nos ater ao fato de que, mesmo que exista inovação nos produtos e formas de promoção bem elaboradas, 7 se o consumidor estiver em um contexto que não seja propício para esse fim, as mensagens poderão se perder. Por esse motivo, é preciso compreender o estilo de vida (lifestyle) do consumidor. Um praticante de atividade física, por exemplo, tenderá a ser uma pessoa que consome roupas de ginástica, comidas saudáveis, tendo hábitos de alimentação e de vida regulares. Nesse sentido, o que a tecnologia por trás dos marketplaces (mercados virtuais) faz é entender esse estilo de vida, para oferecer todo um contexto de compra baseado nisso. As plataformas conseguem detectar nossos comportamentos de busca, entregando resultados direcionados, o que pode facilitar o processo de compra, inclusive de artigos relacionados. É importante notar que a existência de impactos no estilo de vida em função também do contexto de compra. Se um adulto vai com uma criança a um supermercado, é muito possível que efetue a compra de produtos que inicialmente não estavam previstos. Da mesma forma, se você está acompanhado, provavelmente seu processo de compras e de escolhas será diferente do que se estivesse sozinho. O aumento da expectativa de vida das pessoas, dos níveis de escolaridade, de renda e a fase da carreira profissional serão refletidos no estilo de vida das pessoas, que tendem a comprar produtos de acordo com essas demandas bem pontuais. Isso vai gerar também segmentações de estilos bem específicas, classificadas por Rodrigues, Moreira e Vitorino (2013, p. 227) em: • segmentação por atividades: inclui atividades de trabalho, hobbies, esportes, grupos culturais, tipo de férias e shopping; • segmentação por interesses: moda, alimentação, família, casa, realização pessoal e local; • segmentação por opiniões: política, sociedade, consumo, tecnologia, educação. Ao longo da vida, as configurações sociais em que estamos inseridos vão sendo alteradas, de onde se originam novas necessidades. Basta observar, por exemplo, o perfil de alguns apartamentos que são oferecidos hoje: espaços bem pequenos, para uma ou duas pessoas, com áreas de convivência e, muitas vezes, sem garagem. Nesse caso, o que as organizações precisam fazer é estar atentas aos movimentos que acontecem, aproximando-se do consumidor por meio de observação e pesquisas, a fim de compreender o tipo de produtos que estão 8 sendo demandados e atender aos diferentes estilos de vida. Organizações cientes disso terão melhores condições de acompanhar o consumidor ao longo de suas diferentes etapas, construindo condições para sua fidelização. TEMA 3 – COOL HUNTING & CONSUMER TRENDS A questão do consumo ocupa um espaço central em nossa atual sociedade. Trata-se de um fenômeno sociocultural complexo, que soma esforços da sociologia, etnografia, antropologia e marketing para identificar e compreender as mudanças nos padrões, cada mais inconstantes (IED, 2017). Interessante observarmos que, antes, praticamente tudo o que fosse produzido teria saída entre os consumidores, sem grandes apelos de venda. Os produtos eram produzidos e, em seguida, vendidos, simples assim; contudo o mundo mudou. Hoje, ainda, temos consumidores que são muito mais conscientes, bem informados; com necessidades diferentes das que tínhamos antigamente. Quem pensaria em comprar uma capinha para celular muitos anos atrás? Nesse contexto, emerge o coolhunting, uma técnica de observação do comportamento do consumidor voltada à identificação de tendências. Esse tipo de pesquisa expressa – na forma de produtos e serviços – as mudanças no comportamento dos consumidores, geradas com base na observação, interpretação e insights dos profissionais pesquisadores. Figura 4 – “Tendências são o resultado de uma mudança de comportamento social” (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013, p. 231) Crédito: Disobeyart/Shutterstock. Apesar de ser relativamente recente, esse modelo de estudo já tem sido adotado por muitas organizações no Brasil como meio para garantir que seus projetos figurem sempre na vanguarda das necessidades de mercado. 9 Porém, traduzir a complexidade do nosso mundo, transformando isso em soluções de negócios, nem sempre é uma tarefa simples. Isso porque os pesquisadores precisam considerar o chamado zeitgeist, que representa o “espírito do tempo”. Fah Maioli, analista de tendências, explica que esse termo “simboliza as características gerais de um período de tempo” (Comunidade Sebrae, 2018). Ao investigar a mentalidade que emerge de uma determinada época, os profissionais vão em busca daquilo que é cool. Comportamentos que seriam caracterizados por serem “atrativos, inspiradores e com potencial de crescimento” (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013, p. 231). Figura 5 – Comportamento e tendências Fonte: Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013, p. 231. Crédito: R.Classen/Shutterstock. Nesse sentido, para Hernandéz (2004, citado por Ferreira Jr.; Rieping (2014, p. 182) a pesquisa pelo que é cool “visa descobrir o que está acontecendo na cultura jovem e o que será mais importante no futuro, no sentido de constituírem tendências com alta probabilidade de consumo”. As tendências constituem movimentos que não são estáveis, ou seja, não há uma uniformidade de comportamento do início até o fim do ciclo de vida: são inclinações que começam de forma tímida, mas geram impactos significativos. Por esses aspectos, podemos notar que as tendências se diferenciam de outros dois movimentos: as ondas (que tem grande impacto desde o começo, mas acabam rapidamente) e a moda (que é consciente, mas dura pouco tempo e tem impacto bem pequeno) (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Enquanto metodologia de pesquisa, o coolhunting precisa atender a seguinte sequência. atrativos, inspiradores & com potencial de crescimento 10 Figura 6 – Coolhunting: processo básico Fonte: Adaptado de Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013, p. 235-236. Na pesquisa de tendências, é preciso ter disciplina tanto nomomento de observação quanto de reprodução do que foi coletado, respeitando cinco princípios fundamentais na formatação dos dados coletados (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). 1. Observação: apresenta os dados observados. 2. Categorização: direciona as observações de acordo com quem se encaixa nos diferentes perfis. 3. Descrição: resume o movimento observado, validando-a (ou não) enquanto possível tendência. 4. Sinais de mudança: analisa a tendência em relação ao passado e evoluções de comportamento vistas durante o período de observação. 5. Potencial: avalia as áreas nas quais é possível aplicar a tendência e se há potencial de crescimento. Todos os comportamentos observados refletem, de alguma forma, projeções sobre o futuro, podendo ser analisados tanto de forma quantitativa como qualitativa, embora nem sempre tendências em potencial possam ser quantificadas (Frankenthal, 2018). Cabe ressaltar que a interpretação dos dados é um ponto muito importante, na medida em que isso ajuda a distinguir as diferentes formas pelas quais as tendências podem se apresentar: se são comportamentais, atitudinais, micro ou macrotendências, tendências nacionais ou internacionais. Buscar projeções sobre o futuro nada mais é do que localizar padrões, que, para serem encontrados, devem ter como ponto de partida entender qual é (os são) o(s) objetivo(s) solicitados pelo demandante da pesquisa, o cliente. Podem ser verificados os seguintes tipos de padrões, de acordo com a classificação proposta pela consultoria Mind Miners (Frankenthal, 2018): • padrão de constância: quando o fator analisado apresenta estabilidade ao longo do período de observação, na média; IDENTIFICAÇÃO INTERPRETAÇÃO IMPLEMENTAÇÃO 11 • padrão linear: quando o fator analisado apresenta crescimento ou queda constante ao longo do período observado; • padrão exponencial: quando o fator analisado apresenta aumento expressivo, com taxas de crescimento aceleradas; • padrão polinomial: quando o fator analisado oscila entre crescimento, estagnação e queda durante o período observado. A compreensão do consumidor, seus anseios e necessidades será um desafio constante para as empresas. Impressões pessoais ou achismos não terão vez, em um momento no qual as inovações devem ser suportadas por dados consistentes e embasadas em observações detalhadas. O coolhunting é, nesse sentido, a técnica que permitirá trazer esses insights da rua para dentro das organizações, por meio, segundo Pompeu (2017), de “[...] uma visão híbrida, complexa e profunda sobre o consumidor contemporâneo [...]”, que traduzirá em produtos as tendências de consumo do agora, apresentando a inovação que coloca as empresas em alinhamento com o mercado e mais próximas do consumidor. TEMA 4 – CONSUMIDOR E EMPRESA COOPERANDO NA INOVAÇÃO O processo de globalização e o consequente aumento da concorrência obrigaram as empresas a investir em processos mais estruturados de inovação, incluindo entre os departamentos tradicionais setores específicos para a pesquisa e desenvolvimento desse tema. Sem poder escapar à essa necessidade, que se faz urgente nesse panorama de competição, a inovação passa a caminhar lado a lado com o marketing, desenvolvendo não apenas novidades, como também melhorias em produtos e serviços já oferecidos ao mercado. Nesse sentido, Caldeira et al. (citado por MDIC, 2012) afirmam que o “acelerado crescimento desenvolvimento tecnológico, acrescido da competição global e da diminuição do ciclo de vida dos produtos, força as empresas a inovarem mais rápido e a desenvolverem produtos e serviços mais eficientes”. É importante lembrar que, na perspectiva do marketing, o processo de inovação não se restringe ao lançamento de novos produtos, mas também pode se apresentar por meio de outras possibilidades, por exemplo: • programas de relacionamento com clientes mais atrativos; 12 • melhoria no desempenho de produtos (como velocidade ou potência); • abertura de novos canais de comercialização; • formas de precificação que tornam o produto acessível para o consumidor; • alterações em rótulos, formas de apresentação, cores e embalagens. Figura 7 – Inovação Crédito: Hand Idea/Shutterstock. Desse modo, podemos perceber que a inovação no marketing se relaciona com os famosos 4 Ps, em que empresas e consumidores interagem para cooperar na criação de produtos, elaboração de políticas de preços, de comunicação e de distribuição. Nessa perspectiva, Kim e Mauborgne (citados por Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013) explicam que essas inovações podem ocorrer em três níveis: nível do produto (relacionado ao produto físico); nível do serviço (relacionado aos serviços de apoio e suporte das operações) e nível da entrega (relacionado à logística e canais). Dentre tantos outros, esses aspectos contribuem para qualificar o padrão de desempenho e de performance de uma organização, estabelecendo, mais adiante, a diferença entre empresas que terão grande ou pequeno crescimento (Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013). Organizações que atendem à essas premissas se destacam justamente por desenvolver a capacidade de inovar por meio do estabelecimento de parcerias. Assim, Caldeira et al. (2012, p. 2) evidenciam que “as estratégias de colaboração podem contribuir para a obtenção de inovação, além de gerar um diferencial competitivo [...]”. Os consumidores conseguem perceber esses diferenciais. Por meio da performance e do desempenho das organizações, é possível notar quais são as 13 empresas mais ou menos propensas e aderentes à inovação, sendo que as mais propensas serão aquelas que (para o consumidor e para o mercado) agregarão valor superior. Tendo as tecnologias como aliadas, cabe então ao marketing, nas palavras de Waars (citado por Rodrigues; Moreira; Vitorino, 2013, p. 245) estabelecer “novos padrões e novos modos de satisfação do mercado alvo”, processo que, certamente com a colaboração dos consumidores, será facilitado. Por meio da combinação de recursos estruturais das empresas com a capacidade criativa e a prática vivenciada pelos consumidores, a cooperação se torna ferramenta útil no intuito de desenvolver produtos singulares e de difícil cópia no mercado (Hitt; Ireland; Hoskisson, citado por Caldeira et al., 2012). É, portanto, uma possibilidade de interação e aprendizagem recíprocas, na qual se tem um consumidor que é beneficamente envolvido nos processos e o trabalho coletivo como agente do conhecimento e da inovação de valor. TEMA 5 – COCRIAÇÃO DE VALOR DO CONSUMIDOR É certo dizer que hoje percebemos uma forma diferente de relação entre marcas e consumidores, em que o exercício de “ouvir” as demandas do consumidor para atendê-lo satisfatoriamente se tornou prática comum. Nem poderia ser diferente, considerando que o consumidor está muito mais envolvido no processo de compra da atualidade: faz pesquisas, avalia opções e detecta prós e contras de marcas e produtos. Foi este um dos principais motivos pelos quais algumas organizações passaram a convidar consumidores a participar de seus processos de desenvolvimento. É o caso de grandes corporações como Nike, Fiat, Amazon e Lego. Conceitualmente, essa forma de trabalho é conhecida como cocriação, atividade na qual, por meio das interações entre empresas e clientes podem ser geradas novas oportunidades de mercado. A proposta central aqui é “colaborar com a resolução de problemas” (Aldeia, 2019). No entanto, se prestarmos atenção, veremos que essa ideia não está limitada ao ambiente das empresas, pois na sociedade moderna é possível notar formas de cooperação, por exemplo, em plataformas de agregação do conhecimento como o Wikipedia, na formatação de documentos em conjunto do Google Docs, ou ainda, na campanha do novo sabor da batata Ruffles. 14 Figura 8 – CocriaçãoCrédito: Minimallista/Shutterstock. Favorecida em função da expansão da conectividade e da interação entre pessoas e empresas, a cocriação, na opinião de Prahalad e Ramaswamy (2004, citados por Vitorino; Alves, 2013, p. 256), faz com que os consumidores exerçam “uma maior influência no sistema de negócios da empresa”, sendo uma forma de inovação aberta (ou open innovation), na qual há participação de agentes externos à empresa na busca de soluções de negócios. É importante dizer que esses agentes tanto podem ser consumidores quanto concorrentes, que unem esforços para promover processos de melhoria em parceira (ESPM, 2019). Diante das transformações que o mercado tem sofrido, para estabelecer o processo de cocriação, as organizações precisam atender a quatro pilares, segundo a Bianchi (2018). 1. Clareza na definição dos objetivos a serem alcançados. 2. Acesso mútuo a informações e recursos. 3. Entendimento dos benefícios e riscos da cocriação. 4. Transparência nas informações. Seguindo os preceitos do modelo de cocriação, uma evolução desse conceito pode ser encontrada na figura dos presumers, que são aqueles consumidores com alto grau de envolvimento com a marca que consomem. Relacionados com as estratégias de crowdsourcing, esses consumidores colaboram com suas marcas preferidas, que utilizam tal perfil de cliente apaixonado como cocriador no processo de desenvolvimento de produtos (Muniz, 2012). 15 Esse formato permite às empresas a obtenção de alguns benefícios, como a redução dos custos com pesquisa e produção, a geração de diversas ideias em um período de tempo que é relativamente curto (isso porque esse tipo de cliente já conhece os produtos e a marca em maior profundidade), a divulgação espontânea que a marca pode ter entre os clientes, além da oferta de produtos e serviços mais criativos e alinhados à realidade do consumidor. Saiba mais Seguindo essa tendência, no espaço virtual Cocriando Natura, a empresa convida os consumidores para colaborar com novas ideias Vejam mais em: . De acordo com Tiroli (2016), para a empresa, essa proposta é “[...] uma ferramenta bastante poderosa, porque traz as pessoas para o centro do processo”. Com isso, aproxima empresa de consumidores, ampliando o potencial de engajamento com a marca. A Coca-Cola, produtora de refrigerantes e bebidas, criou o Coca-Cola Open Up, plataforma de cocriação que possui dois canais: o Abra Ideias, que busca ideias de alto valor para o cliente por meio de desafios on-line, e o Abra Oportunidades, que visa atrair startups do setor socioambiental para acelerá-las, na linguagem do meio (Levin, 2015). Felizmente, essa prática tem se tornado comum, e podemos encontrar exemplos dela nos mais diferentes segmentos, como imobiliário, automotivo etc. Essa é uma, sem dúvida, uma tendência que foi adotada em definitivo pelo mercado como prática de valor, contribuindo para a boa reputação da empresa, o reconhecimento da marca e a construção de relacionamentos no longo prazo (Doorn et al., 2010, citado por Vitorino; Alves, 2013). Em última análise, o potencial da cocriação se revela não apenas na ampliação da relação entre empresas e consumidores, mas na possibilidade de encontrar novas formas de solução para questões que também são de ordem social, na qual novos comportamentos, a inovação, o conhecimento e a criatividade conversarão entre si na geração de valor. 16 REFERÊNCIAS BROTTO, J. G. Como o coolhunting e a análise de tendências podem ajudar sua empresa a inovar. Comunidade Sebrae, 31 out. [2018?]. Disponível em: . Acesso em: 27 ago. 2019. CALDEIRA, A. et al. 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