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HISTÓRIA DA ARQUITETURA E URBANISMO IV ORGANIZADORES BRUNO PEREIRA; SÍLVIA EIDT MONTEIRO História da Arquitetura e Urbanism o IV GRUPO SER EDUCACIONAL História da arquitetura e urbanismo IV é um livro direcionado para estu- dantes dos cursos da área de arquitetura e urbanismo. além de abordar assuntos triviais, o livro traz conteúdo sobre a história da arquitetura, o neoclassicismo e as cidades do século XIX, e o modernismo e as cidades do século XX. Após a leitura da obra, o leitor vai compreender os fundamentos da arquitetura neoclássica brasileira, como ocorreu a sua formação, de que maneira trouxe a noção de civilidade; aprender como eram as cidades no período da Revolução Industrial e como as cidades brasileiras se desen- volveram no século XIX; entender como a estrati�cação social do Brasil in�uenciou a arquitetura; conhecer algumas das mais importantes obras neoclássicas brasileiras; saber as principais características da arquitetura eclética no Brasil; compreender os processos de transformação social e urbana pelos quais o país passou a partir da segunda metade do século XIX; aprender a in�uência dos urbanistas europeus na formação das cidades brasileiras, saber sobre a formação da cidade de Brasília, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! HISTÓRIA DA ARQUITETURA E URBANISMO IV ORGANIZADORES BRUNO PEREIRA; SÍLVIA EIDT MONTEIRO gente criando futuro I SBN 9786555581799 9 786555 581799 > C M Y CM MY CY CMY K HISTÓRIA DA ARQUITETURA E URBANISMO IV Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Pereira, Bruno. História da arquitetura e urbanismo IV / Bruno Pereira; Sílvia Eidt Monteiro. – São Paulo: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9786555581799 1. Arquitetura e urbanismo 2. Monteiro, Sílvia Eidt. Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Bruno Pereira Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com estudos complementares na Universidad Nacional de La Plata, Argentina. Participou das primeiras fases do Archiprix 2017 e do 27° Opera Prima, concursos que reúnem os melhores trabalhos finais de graduação em arquitetura. Atualmente cursando Letras na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Sílvia Eidt Monteiro Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UniRitter/Mackenzie (2017), graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Maria (2010). Possui especialização em Auditoria, Avaliações e Perícias de Engenharia (2014) e especialização em Projetos de Arquitetura e Urbanismo em Áreas de Interesse Cultural (2019). SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - História da arquitetura ..............................................................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1 Fatos arquitetônicos e urbanos no Brasil ........................................................................................... 11 2 Breve revisão do neoclassicismo ........................................................................................................ 18 3 Introdução do neoclassicismo e seu significado ideológico no brasil ................................................20 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................30 UNIDADE 2 - Neoclassicismo e as cidades do século XIX .................................................................33 Introdução.............................................................................................................................................34 1 Neoclassicismo como sinônimo de civilização no Brasil ....................................................................35 2 As cidades brasileiras no século XIX ................................................................................................... 43 3 Introdução à arquitetura moderna .................................................................................................... 47 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................51 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................52 UNIDADE 3 - Ecletismo nacional ....................................................................................................55 Introdução.............................................................................................................................................56 1 O ecletismo no Brasil ......................................................................................................................... 57 2 A permanência do ecletismo no século XX ........................................................................................ 66 3 Substituições dos estilos coloniais ..................................................................................................... 76 4 Neocolonialismo ................................................................................................................................ 81 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................87 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................88 UNIDADE 4 - Modernismo e as cidades do século XX ......................................................................91 Introdução.............................................................................................................................................92 1 O modernismohistoriadores da arte, corresponde ao Neoclassicismo. A Revolução Industrial trouxe um crescimento desordenado das cidades industriais, com a alta migração do campo para a zona urbana. A economia industrial necessita de um novo aparelhamento de edifícios, como fábricas, lojas, depósitos e portos. Aumenta a população nas cidades, o que requer a construção de habitações, em números nunca antes vistos. O aumento das funções públicas traz a necessidade de edifícios públicos amplos. Cresce o desenvolvimento das vias de transporte por água e terra, são construídas estradas mais amplas, canais mais largos e profundos (BENEVOLO, 2009, p. 35). Além disso, a Revolução Industrial modifica a técnica de construir. Os materiais tradicionais, como pedra, tijolos e telhas, passam a ser produzidos de modo racional e a eles juntam-se novos materiais, como o ferro, o vidro e, mais tarde, o concreto. Os materiais passam a ser empregados de maneira mais conveniente, com estudos sobre sua resistência. Difunde-se o uso de máquinas para construir. Surgem escolas especializadas que fornecem profissionais treinados, bem como o desenvolvimento da geometria permite que se representem por desenhos, com maior precisão os elementos construtivos (BENEVOLO, 2009, p. 35). De acordo com Frampton (1997, p. 14-15), inúmeros problemas surgiram do crescimento FIQUE DE OLHO Como vimos, muitos são os exemplares de arquitetura Neoclássica no Brasil e não se restringem a somente as cidades de Rio de Janeiro e de São Paulo. Para conhecer mais, acesse o link nas referências bibliográficas. 44 das cidades. Os alojamentos rudimentares dos trabalhadores, amontoados em cortiços, não tinham condições adequadas de luz e ventilação, e mostravam carência em espaços abertos, além de péssimas instalações sanitárias e de despejo de lixo. Tal situação levou ao acumulo de excrementos e lixo e a inundações, o que provocou o primeiro surto de tuberculose, e, depois, os surtos de cólera na Inglaterra e na Europa Continental, entre 1830 e 1840. Essas epidemias precipitaram reformas sanitárias. Na Inglaterra, a Lei Pública de 1848, tornava as autoridades locais responsáveis pelo esgoto, lixo, fornecimento de água, vias públicas, inspeção de matadouros e enterros. Medidas semelhantes aconteceram na Paris de Haussmann. Embora a industrialização tenha iniciado nas cidades da Inglaterra, um destaque se deve a Paris do século XIX. As intervenções higienistas realizadas por Haussmann, que repercutiram no mundo todo. O barão Eugéne Haussmann foi o prefeito da cidade de 1853 a 1870 e, nos 17 anos de poder, as obras por ele executadas podem ser divididas em cinco, conforme Benevolo (2009, p.98-100): 1. Obras viárias Foram abertos 95 quilômetros de novas vias no centro e 70 quilômetros na periferia, ao custo de pesadas demolições e desapropriações. O núcleo medieval foi cortado maciçamente, sendo sobreposto por uma nova malha de ruas largas e retilíneas. Os monumentos mais importantes são mantidos e são adotados como ponto de fuga. 2. Construção de novos edifícios públicos nos bairros Escolas, hospitais, prisões, escritórios administrativos, bibliotecas etc. Ao Estado cabe a construção de edifícios militares e pontes. A questão da moradia popular começa a penetrar na prática administrativa, ainda que insuficiente para a necessidade. 3. Criação de parques público Destaque para o Bois de Vincennes e o Bois de Boulogne. 2.2 Brasil no século XIX O panorama das principais cidades brasileiras do início do século XIX é bem diferente da cidade estabelecida no final do mesmo século. Quatro cidades brasileiras acompanharam avidamente as fortes mudanças econômicas, político e sociais do século: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador. As demais cidades, processaram as mudanças de forma mais desacelerada. Veremos aqui o caso do Rio de Janeiro. 45 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Durante o século da Independência, do Império e da República, as transformações da paisagem urbana foram muitas. Aragão (2017) menciona como se dava a simplicidade da cidade tradicional, anterior às influências industriais europeias: A cidade brasileira do início do século XIX era ainda a cidade tradicional, com as construções erguidas lado a lado no alinhamento de ruas tortuosas, acompanhando o sobe-e-desce dos terrenos e da topografia do lugar. Era a cidade com ruas de terra ou de pedra, com pouca ou nenhuma iluminação pública, sem transporte coletivo, sem água encanada ou sistema de esgoto; a cidade das janelas de rótula e dos beirais que protegiam as paredes contra as águas da chuva; a cidade das procissões e do sagrado, dos adros das igrejas onde as pessoas se reuniam; a cidade onde os jardins públicos constituíam exceções, onde a vegetação ficava atrás dos muros e das casas; cidade das casas térreas de porta e janela e dos sobrados de dois, três, quatro, cinco pavimentos. (ARAGÃO, 2017, p. 37-38) Quanto à cidade do Rio de Janeiro, a vinda da corte portuguesa em 1808, transformando a capital colônia em sede do Império, mudou o comportamento dos habitantes e o aspecto físico da cidade. A intenção era construir uma espécie de Europa, com graus de civilização compatíveis, porém, acabou esbarrando em limites bem definidos. Neste período, aumentou significativamente o número de moradores, tanto emigrantes europeus, escravos vindos da África, como habitantes de outras cidades (BARRA, 2015, p. 791-792). Para o “sociólogo alemão Norbert Elias, o conceito de civilização resumiria tudo em que a sociedade ocidental, desde o século XVIII, se julgava superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas, porém mais primitivas”. (BARRA, 2015, p.793, apud ELIAS, 1993, p. 23), porém, a adequação à civilidade europeia encontraria entraves em solo carioca, conforme (BARRA, 2015, p.794): Um aspecto particular do cotidiano do Rio de Janeiro parecia querer macular esse projeto civilizatório de matriz europeia: a forte presença negra no espaço urbano da nova capital do Império português. Na primeira metade do século XIX a escravidão no Rio de Janeiro estava no seu auge. 46 O aumento do tráfico era impulsionado pelo aumento do movimento comercial pelo qual passava a cidade naquele momento, aliado à mentalidade escravista reinante na sociedade colonial, que desprezava toda forma de trabalho manual. O aumento da população branca aumentou a demanda por escravos para construir casas e edifícios públicos, assim como para trabalhar como criados domésticos. Dessa forma, a presença do negro escravizado no espaço urbano era, mais do que normal, vista como necessária. Segundo estimativa de Mary Karasch, entre 1808 e 1850, o Rio de Janeiro teve a maior população escrava urbana das Américas (2000, p. 28). Dessa forma, para além da vida na nova corte, havia uma forma de sociabilidade distinta. A condição dos negros, livres ou escravos, e demais setores subalternos da escala social, era um exemplo das permanências numa época de mudanças e dos limites daquele processo civilizador emanado da instalação da corte. Conforme Aragão (2017, p. 40), em 1821, a cidade do Rio de Janeiro possuía 112.695 habitantes, o que representa um crescimento superior a 100% em relação ao ano de 1799. Por este motivo, o governo intimou proprietários e moradores a desocuparem seus imóveis e cedê-los aos funcionários e fidalgos portugueses por meio do decreto da Aposentadoria Real. As inscrições P.R. (Príncipe Regente) eram escritas nas portas dos edifícios solicitados. Na segunda metade do século XIX, difundiram-se, na paisagem urbana do Rio de Janeiro, os palácios e os palacetes, construídos por arquitetos de formação, oriundos da Academia Imperial de Belas Artes. Até então, as casas eram erguidas por pedreiros e carpinteiros. Assim, a cidade que iniciou o século com sobrados tradicionais em ruas sem iluminação, arborização ou calçamento, ganhou palacetes com jardins, em ruas arborizadas, iluminadas, calçadas e com rede de esgotoe água. No entanto, ganhou também inúmeros cortiços e estalagens como habitação para antigos escravos e habitantes com baixa renda (ARAGÃO, 2017, p. 42-43). Advindas das ideias sanitaristas da Europa, duas melhorias merecem destaque, no século XIX, na cidade do Rio de Janeiro: a implantação da rede de esgoto, iniciada em 1862, e a implantação do sistema de água encanada, iniciado em 1876. Antes disto, os escravos é que transportavam os resíduos de esgoto em barris até as praias, deixando um rastro de sujeira pelo caminho. (ARAGÃO, 2017, p. 41-42) Quanto a isso, Santiago (2011, p. 3) comenta que a urbanística moderna no Brasil não difere da Europa, contudo, ocorre no final do século XIX e começo do século XX, e, assim, menciona o Benévolo (SANTIAGO, 2011, apud BENEVOLO. 1976, p. 135): Benévolo considera que por volta de 1830 e 1850, na Europa, são dados os primeiros passos da urbanística moderna com a experiência dos “defeitos” da cidade, direcionando suas ações para eliminação de determinados males: a insuficiência de esgotos, de água potável, a difusão das epidemias. Estas ações implicam em outras questões de ordenamento das ações urbanísticas, em que os técnicos e higienistas são os precursores das políticas e legislações urbanísticas contemporâneas. Já no final do século XIX, inicia-se a modernização das cidades brasileiras em prol do progresso da sociedade brasileira. Os engenheiros, então, adotam o discurso técnico a favor do 47 de desenvolvimento dos meios de transportes, em especial o de mercadorias, para o escoamento da produção. No Rio de Janeiro, surgem as ferrovias até os portos (SANTIAGO, 2011, apud Kropf in Herschmann, Kropf e Nunes, 1996, p.76). 3 INTRODUÇÃO À ARQUITETURA MODERNA As experiências com a arquitetura neoclássica de Andrea Palladio resultaram no I Quattro Libri dell’Architettura (tradução: Os quatro livros da arquitetura), um tratado de arquitetura escrito e ilustrado por ele mesmo. Mizoguchi e Machado (2006, p. 173) discorrem sobre a interpretação deste tratado: Foi na leitura acadêmica do tratado que os neoclássicos descobriram um ideal de perfeição plástica. No entanto, foi numa leitura antiacadêmica do ordenamento espacial palladiano que Le Corbusier desenvolveu a Villa Savoye uma lição de refinamento plástico neopalladiano em termos de arquitetura moderna. Obviamente, os estilos históricos de origem europeia não desapareceram de uma hora para a outra. A arquitetura moderna é resultado da evolução do pensamento de alguns grupos intelectuais brasileiros. Os primeiros sintomas de uma arquitetura brasileira original foram surgindo por 1920, quando o movimento neocolonial foi aparecendo. Porém, somente a partir de 1930 é que a reviravolta começa a acontecer. A Semana da Arte Moderna de 1922, uma manifestação no ano comemorativo do centenário da Independência do Brasil, trouxe ideias de uma ruptura com o passado e independência cultural frente à Europa. Pouco refletiu na arquitetura diretamente, porém encabeçou um clima de não aceitação dos valores pré-estabelecidos (BRUAND, 2018, p. 62). Le Corbusier, arquiteto francês, é um dos maiores nomes da arquitetura moderna e forte influenciador da arquitetura moderna brasileira. Da sua contribuição ao período podemos extrair três pontos principais (BRUAND, 2018, p. 89-91): O método de trabalho Adotava os cinco pontos da nova arquitetura: pilotis, terraço-jardim, planta livre, fachada livre e janelas na horizontal. Concepção de que a forma deriva da função, admitindo que uma correta solução dos problemas funcionais resultaria automaticamente numa boa arquitetura, fazendo o uso das mais avançadas técnicas. A preocupação com os problemas formais Adepto de formas simples e geométricas, clássicas por excelência, as preocupações assumiam um papel preponderante. Exaltava a pureza absoluta, através do jogo de volumes a luz. O emprego 48 do prisma estava subjugado à satisfação formal. A valorização dos elementos locais Seduzido pela natureza tropical, como as palmeiras imperiais e o emprego de espécies locais para os terraços do edifício Capanema. Emprego do granito cinza e rosa encontrado na cidade do Rio de Janeiro, para uso no piso e nas empenas, sendo contrário à importação generalizada de pedras sem necessidade. E emprego de azulejos vindo de Portugal e já utilizados no Brasil. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.1 Dos estilos classicizantes brasileiros ao modernismo Há quem conteste que os estilos classicizantes brasileiros - neoclassicismo e o ecletismo - não possuíam autenticidade e a arquitetura brasileira só passou a se reafirmar com a chegada do modernismo. Conforme Bruand (2018, p. 33): O panorama oferecido pela arquitetura brasileira por volta de 1900 nada tinha de animador. Nenhuma originalidade podia ser entrevista nos numerosos edifícios recém-construídos, que não passavam de imitações, em geral medíocres, de obras de maior ou menor prestígio pertencentes a um passado recente ou longínquo, quando não eram meras cópias da moda então em voga na Europa. Até 1930, não existia arquitetura “moderna” na Capital Federal, Rio de Janeiro. A Escola de Belas Artes ainda era dominada pelo estilo neocolonial. Em 1928, Lúcio Costa reconheceu ter dúvidas deste movimento: “o que chocava instintivamente no movimento moderno era seu caráter absolutista, intransigente e o aparente desprezo de seus teóricos por tudo que dizia respeito ao passado” (BRUANT, 2018, p. 72). Reconsiderando a questão, percebeu que existia um denominador comum entre as ideias modernistas e as suas, já que eles propunham um programa construtivo coerente, não 49 desrespeitando o passado como pensava. Esta constatação se deve a visita de Le Corbusier à Escola Nacional de Belas Artes, em dezembro de 1925, na qual proferiu uma conferência. Foi, então, que Lúcio Costa, impressionado pelas ideias racionalistas de Le Corbusier, viu ali possibilidades de expressão e renovação arquitetônica (BRUANT, 2018, p. 72). Em outubro de 1930 eclodiu uma Revolução no Brasil e Getúlio Vargas tomou o poder. Uma das primeiras medidas do novo regime foi a criação do Ministério da Educação e ficou incumbido a Lucio Costa a reforma do ensino da Escola de Belas Artes. Lucio Costa foi demitido em setembro de 1931, mas, antes disto, obteve sucesso total com os alunos para as novas disciplinas. Sua demissão se deu devido à rivalidade entre professores ali criada. A partir daí, tomou-se consciência de abandonar a cópia dos estilos do passado (BRUANT, 2018, p. 73-74). 3.2 O começo da Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro Para compreender a súbita eclosão do movimento moderno em 1936, é necessário compreender os anos anteriores, de 1931 a 1935, período de maturação de ideias e estudos de um grupo de jovens recém-saídos da Escola de Belas Artes, após a passagem frustrada pela reforma de Lúcio Costa. Passaram a estudar as realizações dos grandes mestres do racionalismo europeu: Gropius, Mies Van der Rohe e Le Corbusier e suas obras viraram uma espécie de livro sagrado (BRUANT, 2018, p. 74). O ano de 1936 foi um marco para a arquitetura brasileira. Houve a visita de Le Corbusier, a convite do Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, para assessorar a equipe de arquitetos encarregada do projeto do edifício do ministério, que foi concluído em 1943 e se tornou um marco na arquitetura modernista brasileira (BRUANT, 2018, p. 81). Conforme Lissovski e Moraes De Sà (2000, p. 50): O prédio que resulta dessa iniciativa, inaugurado em 3 de outubro de 1945, e que hoje leva o nome de Palácio Gustavo Capanema, tornou-se um marco na arquitetura brasileira. Sua importância pôde ser dimensionada ainda no decorrer da construção, e sua repercussão transpôs facilmente as fronteias do país. Podemos atribuir à equipe brasileira que participou do projeto (Lúcio Costa e equipe) as características de dinamismo, leveza e riqueza plástica da edificação. A opinião pública viu no Ministério uma expressãogenial nacional, apesar da intensa contribuição de Le Corbusier e do projeto ser desenvolvido em cima de um croqui seu. A equipe fez uso não só de arquitetos, como também do pintor Cândido Portinari, os escultores Bruno Giorgi, Antônio Celso e Jacques Lipchitz, e o arquiteto-paisagista Roberto Burle-Marx. Essa interação viria a ocorrer muitas outras vezes. A Niemeyer, atribui-se a concepção plástica da edificação de maneira preponderante. Algumas considerações são necessárias para melhor compreensão deste período como fato 50 de ter havido uma afirmação notável em profundidade de um novo movimento, o movimento moderno. Devemos destacar a evolução paralela de outras manifestações significativas, dos autores irmãos Roberto, Atílio Correa Lima e Oscar Niemeyer (BRUANT, 2018, p. 81). 51 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer as características da arquitetura neoclássica europeia e a influência da arquitetura de Palladio na retomada dos princípios greco-romanos; • compreender os fundamentos da arquitetura neoclássica brasileira, como se deus sua formação no país, de que maneira trazia a noção de civilidade, e algumas edifi- cações representantes deste período; • aprender sobre as cidades do período da Revolução Industrial e como se desenvol- veram as cidades brasileiras do século XIX; • estudar sobre a substituição dos estilos clássicos pelas ideias racionalistas da arqui- tetura moderna; • conhecer a formação da arquitetura moderna brasileira, a influência de Le Corbu- sier, e o grande marco inicial arquitetônico deste período, a sede do Ministério da Educação e Saúde. PARA RESUMIR ARAGÃO, S. de. A cidade brasileira e a casa no século XIX. In: Ensaio sobre a Casa Brasileira do Século XIX. São Paulo: Blucher, 2017, p. 37 -78. BARRA, S. H. da S. A cidade corte: o Rio de Janeiro no início do século XIX. In: 1º Colóquio Internacional de História Cultural da Cidade Sandra Jatahy Pesavento, 2015, Porto Alegre. Anais do 1º Colóquio Internacional de História Cultural da Cidade - Sandra Jatahy Pesavento. Porto Alegre: Marca Visual, v. 1, p. 791-805, 2015. Disponível em: http:// www.ufrgs.br/gthistoriaculturalrs/55CDSergiohamiltondasilvaBarra.pdf. Acesso em: 02 abr. 2020. BENEVOLO, L. História da Arquitetura Moderna. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. BRUAND, Y. A Arquitetura Contemporânea no Brasil. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2018. FRAMPTON, K. História Crítica da Arquitetura Moderna. 1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. GOMES PEREIRA, S. A historiografia da arquitetura brasileira no século XIX e os conceitos de estilo e tipologia. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre, v. XXXI, n. 2, p.143-154, 2005. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=134618596009. Acesso em: 22 mar 2020. HOIRISCH, M.; RIBEIRO, R. T. M. Academia Imperial de Belas Artes: sua criação e seus arquitetos. Cadernos de Pós-Graduação Em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, v. 10, n. 1-2, p. 252-271, 2010. LAART. Arquitetura neoclássica no Brasil: história, características e obras famosas., 2019. Disponível em: https://laart.art.br/blog/arquitetura-neoclassica-no-brasil/. Acesso em 02 abr. 2020. LISSOVSKI, M.; MORAES DE SÀ, P. S. O novo em construção: o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde e a disputa do espaço arquiteturável nos anos 1930. In: Capanema: o ministro e seu ministério. GOMES, Ângela Maria de Castro. (Org.) 1ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000 MIZOGUCHI, I.; MACHADO, N. H. N. (Org.) Paládio e o Neoclassicismo. 1. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=n8Zk VfYjTTEC&pg=PA149&lpg=PA151&ots=IFjG2mcMhx&focus=viewport&dq=arquitetura+ neoclassicismo&lr=&hl=pt-BR#v=onepage&q=arquitetura%20neoclassicismo&f=false. Acesso em: 02 abr. 2020. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PESSÔA, J. S. B. Praça do Comércio do Rio de Janeiro. Patrimônio de Influência Portuguesa. 2020. Disponível em: https://www.hpip.org/pt/heritage/details/861. Acesso em: 02 abr. 2020. SANTIAGO, Z. M. P. As influências do neoclassicismo na arquitetura brasileira a partir da missão francesa. In: A Europa das nacionalidades. 2011, Aveiro. Anais... Aveiro: Universidade de Aveiro, 2011. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/ riufc/12994. Acesso em: 02 abr. 2020 UNIDADE 3 Ecletismo nacional Introdução Você está na unidade Ecletismo Nacional. Conheça aqui as principais características do ecletismo no Brasil. Saiba como ocorreu o processo de expansão urbana que se acelerou após a Proclamação da República. Entenda a importância dos imigrantes para a arquitetura que se produziu a partir da segunda metade do século XIX. Saiba como as reformas urbanas eram usadas para redefinir a fisionomia das cidades. Aprenda como eram as casas brasileiras daquele período. Conheça também alguns exemplares significativos da produção eclética nacional. Bons estudos! 57 1 O ECLETISMO NO BRASIL No tópico a seguir você irá estudar como a arquitetura eclética se manifestou no Brasil a partir da segunda metade do século XX. Para contextualizar o assunto, será apresentada uma breve revisão sobre o que é o estilo eclético. Na sequência, apresentaremos um panorama da sociedade brasileira que se desenvolvia durante a expansão urbana derivada da industrialização. 1.1 Revisão conceitual do ecletismo Vamos começar essa unidade definindo o que é o ecletismo. Ecletismo é uma palavra que deriva do idioma grego (eklektikos) e significa “seletivo”. De acordo com a Encyclopaedia Britannica, o ecletismo é a prática de selecionar doutrinas de diferentes sistemas de pensamento sem resolver as contradições entre eles, promovendo uma síntese filosófica. Nas artes, o ecletismo surgiu como uma reação à clareza formal e racionalismo promovidos pelo pensamento iluminista. A arquitetura eclética extrai elementos lexicais de todas as épocas, reinterpretando-os em novas composições e tipologias, promovendo uma fusão de linguagens (FABRIS, 1987; 1993). O ecletismo era uma espécie de conciliador entre os mais diferentes estilos históricos. Contudo, o ecletismo muitas vezes resultou em um pastiche arquitetônico, valendo-se de soluções espaciais e compositivas consideradas esdrúxulas. Cuidado para não se confundir: existe uma distinção entre ecletismo e revivalismo. O revivalismo foi um movimento de recuperação das técnicas e saberes utilizados no passado, marcado por rigorosa preocupação formal e um conhecimento histórico aprofundado. O estilo neoclássico, que você estudou na Unidade 01 deste capítulo, é um tipo de revivalismo. O estilo neogótico, com sua preocupação em explicitar as forças estruturais, também é um revivalismo. O ecletismo, por outro lado, buscava combinar diferentes estilos de diferentes épocas, promovendo uma síntese estilística, mas sem o compromisso de elaborar um estilo novo. É uma arquitetura historicista, pois recupera formas do passado, incluindo o neoclássico e o neogótico, mas apenas com um impulso decorativo. O ecletismo buscava uma interpretação dos sistemas compositivos do passado, de acordo com as novas possibilidades tecnológicas. O que levou ao ecletismo? Tudo começou com a disposição do Iluminismo em reavaliar o passado à luz do presente (FABRIS, 1993). A publicação de estudos sobre a arquitetura que se produzia no oriente, bem como a disseminação de histórias universais da arquitetura, ampliou o leque de referências dos arquitetos (BENEVOLO, 1998). De fato, as opções eram tão vastas que um único ateliê de arquitetura produzia, ao mesmo tempo, edifícios ao gosto neoclássico, neogótico, rural ou urbano, medieval ou renascentista. Os arquitetos sentiram-se livres para relativizar a tradição e os cânones em sua profissão. 58 Lembre-se também de que no século XIX o mundo vivia o entusiasmo com a Revolução Industrial. Realizavam-se exposições internacionais que disseminavam novas tecnologias e ocorriam em espaços de arquitetura efêmera, que geralmente estavamna vanguarda da tecnologia. Os exemplares mais importantes são o Palácio de Cristal, em Londres, um edifício de aço e vidro com mais de 500 metros de comprimento e a Torre Eiffel, em Paris, com seus 300 metros de altura. Esse tipo de arquitetura permitiria a exploração de novas possibilidades construtivas, derivadas da pré-fabricação. 1.2 Aspectos políticos e sociais do Brasil no século XIX Agora, vamos ver como era o nosso país na época do ecletismo. O Brasil do final do século XIX já tinha uma economia mais aberta, em comparação ao período colonial. Havia uma importante camada social formada por profissionais liberais, tais como médicos, engenheiros e advogados, nas grandes cidades. Surgia uma mentalidade liberal de fortalecimento da iniciativa privada. A busca por um futuro civilizado e otimista estava fincada no tripé positivista de urbanidade, progresso e industrialização (SCHWARCZ, 2011). Porém, o fim da Monarquia e sua substituição pela República não extinguiu o perfil oligárquico da sociedade, uma herança do período colonial. O Brasil, tal como agora, era repleto de ambiguidades e contradições. Era uma República cujas hierarquias sociais excluíam negros, mulheres e pobres da participação política. A vida social brasileira continuaria profundamente marcada pela escravidão, que condicionou aspectos culturais e urbanos e naturalizou a violência (SCHWARCZ; STARLING, 2015). A visão grandiosa que se tinha da nova república convivia com um panorama marcado pela repressão política e social, pelo trabalho ambulante e pela maquiagem da pobreza através do higienismo social. O desenvolvimento urbano nas cidades brasileiras continuou marcado pela sobreposição de camadas sociais, ao invés da esperada “marcha evolutiva” para o progresso FIQUE DE OLHO As transformações urbanas impostas pela Revolução Industrial levaram a acalorados debates sobre o futuro da cidade. Autores como Balzac e Dickens produziram uma extensa obra literária expondo as mazelas da cidade industrializada. A “grande cidade” se tornou sinônimo de desolação, repulsa e morbidez. Os artistas voltaram-se para uma natureza idealizada como contraponto à desolação da vida urbana, criando o Romantismo, movimento no qual o neogótico se inseriu. O neogótico surgiu como uma alternativa à rigidez formal do neoclássico, mas não teve grandes repercussões no Brasil. 59 civilizatório (SCHWARCZ, 2011). A Revolução Industrial, naquele momento, tinha apenas repercussões indiretas no Brasil, que continuava sendo um país agrário. A monocultura do café se tornava a nova base econômica, ditando os rumos da política e permitindo a ascensão de uma nova elite. O Brasil republicano nada mais era do que um ajuntamento de facções estaduais que disputavam o poder político e o controle da máquina governamental. Durante as décadas seguintes à proclamação da República, paulistas e mineiros se revezariam na presidência. Esse ciclo seria interrompido apenas em 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas. 1.3 Imigração A abolição da escravatura, em 1888, desorganizou a atividade econômica brasileira, dependente da mão-de-obra escrava. Para substituí-la, os governos divulgavam campanhas para atrair imigrantes poloneses, alemães, espanhóis, italianos, portugueses e, a partir do século XX, FIQUE DE OLHO Dicas de obras literárias em língua portuguesa que ajudarão você a ter uma visão mais abrangente dos hábitos e costumes entre 1889 e 1930: A cidade e as serras, de Eça de Queirós (1901): publicada postumamente, a obra satiriza a dicotomia campo X cidade, comparando a vida pacata no interior de Portugal com o agito de Paris, e mostrando como o deslumbramento pelo progresso tecnológico pode descambar para a futilidade. Os sertões, de Euclides da Cunha (1902): uma das grandes epopeias da língua portuguesa, escrita a partir do trabalho jornalístico do autor na Guerra de Canudos, faz um complexo retrato do violento choque entre a suposta civilização (representada pelo exército republicano) e o atraso rural (na figura de Antônio Conselheiro e seus seguidores). Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1911): através da trajetória do protagonista, um patriota excêntrico nos moldes de Dom Quixote, o autor faz uma crítica mordaz da sociedade brasileira após a proclamação da República, em 1889. Éramos seis, de Maria José Dupré (1943): a obra acompanha a trajetória de uma família de classe média da cidade de São Paulo tendo como pano de fundo as transformações políticas e culturais que ocorreram entre a Primeira Guerra Mundial e o fim do Estado Novo, na década de 1940. 60 japoneses. O continente americano, como um todo, recebeu milhões de imigrantes europeus, atraídos por oportunidades de trabalho remunerado e ascensão social em países que estavam em franca expansão econômica. Brasil, Estados Unidos, Canadá e Argentina receberam os maiores contingentes. Os imigrantes recriariam, nos trópicos, seus costumes, o que se estendeu da gastronomia à arquitetura, e fariam alterações importantes no perfil demográfico desses países (SCHWARCZ, 2011). No Brasil, a maioria dos imigrantes ficou concentrada na região centro-sul, devido ao auxílio econômico oferecido pelo governo. Os imigrantes que se estabeleceram no Sul começaram a cultivar a terra em pequenas propriedades rurais adquiridas a prazo. No Sudeste, eles foram absorvidos para o trabalho em grandes propriedades cafeeiras e, posteriormente, nas fábricas. Atraídos pela promessa de enriquecimento através do trabalho autônomo em propriedades agrícolas, esses imigrantes acabaram ludibriados por grandes proprietários rurais, que apenas queriam substituir a mão-de-obra escrava (FAUSTO, 2013). A abolição da escravidão e a chegada dos imigrantes representaram um salto qualitativo na arquitetura brasileira. Muitos desses imigrantes eram exímios construtores, e dominavam técnicas construtivas que não existiam no Brasil, contribuindo para diversificar a produção arquitetônica. 1.4 Pré-fabricação: a indústria chega à arquitetura A arquitetura brasileira do século XIX ampara-se em duas correntes de pensamento: o positivismo, que intencionava industrializar o país e apresentá-lo à modernidade; e o ecletismo, que conciliava os estilos anteriores com as novas tecnologias. Segundo Reis Filho (2000), o ecletismo foi um fenômeno formal que facilitou o avanço tecnológico do Brasil, substituindo o empirismo pela pré-fabricação. O canteiro de obras era substituído pelas escolas de nível superior como local de aprendizagem das técnicas construtivas. A pré-fabricação possibilitou que os arquitetos adquirissem uma ampla variedade de materiais por meio de catálogos, disponibilizados pelas indústrias norte-americanas e europeias. A pintura de paredes incorporaria moldes com desenhos padronizados. Varandas e escadas de ferro, além de artefatos de concreto, seriam largamente utilizadas nas construções. Esses elementos pré- fabricados seriam incorporados aos equipamentos urbanos, no calçamento dos passeios, em postes, quiosques e coretos, como você pode ver na imagem “Biblioteca Icoaraci em Belém do Pará”. A industrialização possibilitou que mesmo os mais complicados desenhos pudessem ser reproduzidos a um baixo custo, bastando um molde para produzir um número indefinido de peças com a mesma qualidade. A excelência formal já não dependia dos esforços artesanais de um ateliê de artistas. Além disso, duas características impregnam a arquitetura desse período: o desenho estrutural que não obedece ao desenho natural, sugerindo formas não reais; e o uso de revestimentos que imitam outros materiais. 61 Figura 1 - Biblioteca Icoaraci em Belém do Pará. Fonte: Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: vista frontal de uma construção eclética. O telhado é inclinado em duas águas e o acesso é feito por duas escadarias dos lados direito e esquerdo. Apesar desses avanços, até a década de 1940 a indústria brasileira não teria condições de atender todo o mercado nacional. A importaçãocontinuaria sendo cara e acessível aos mais ricos, e aqueles que não pudessem pagar por esses materiais continuariam a atualizar suas construções sobre as tradicionais estruturas de taipa de pilão (REIS FILHO, 2000). 1.5 Expansão urbana O poder burguês e a civilização industrial substituíram a nobreza como grande clientela dos escritórios de arquitetura. As elites emergentes queriam incorporar o gosto europeu aos palácios públicos e institucionais e às suas próprias residências. Buscava-se ambientar a estética dos edifícios produzidos na Europa à paisagem brasileira. Os espaços públicos eram vistos como vitrines do novo poder político e econômico. Ao mesmo tempo, as oportunidades profissionais na FIQUE DE OLHO As primeiras indústrias no Brasil surgiram na década de 1840, com a construção de linhas ferroviárias, e a, partir de 1860, passaram a se concentrar na região centro-sul, aumentando muito a partir da década de 1880. São Paulo consolidou sua vocação industrial, recebendo cada vez mais imigrantes, especialmente de origem italiana. E, por essa razão, a classe operária e os sindicatos ganharam protagonismo a partir de São Paulo. 62 indústria, no comércio e no funcionalismo público atraíam cada vez mais pessoas para as cidades (REIS FILHO, 2000). As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte definiriam o eixo político e econômico da república e seriam palco de grandes transformações urbanas. Se o Rio de Janeiro incorporou o estilo francês, São Paulo seria marcada pela influência italiana. São Paulo deixava de ser apenas um entreposto comercial para se tornar a metrópole do café com aspecto europeu. O tripé do desenvolvimento da cidade seria formado pela diversificação agrícola, urbanização e trabalho industrial (FAUSTO, 2000). A Avenida Paulista se tornou a vitrine do poder econômico dos chamados barões do café, com seus chalés e mansões de estilo afrancesado (a maioria deles demolidos e substituídos por edifícios de escritórios, quando a avenida se tornou o centro financeiro da cidade). Um dos principais articuladores entre o gosto europeu das elites paulistas e uma nova produção arquitetônica foi o engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo. Belo Horizonte foi a primeira capital planejada do país, como uma tentativa de unificar as oligarquias que disputavam o poder no Estado e evocar as utopias republicanas. A cidade apresenta um desenho cenográfico, com largas avenidas e praças que emolduravam os imponentes palácios governamentais. Havia uma hierarquia: de um lado, estações ferroviárias, comercio e hospitais; do outro, teatro, escolas e os edifícios do governo. A inspiração para o desenho urbano foi a capital dos Estados Unidos, Washington. Outras capitais brasileiras que, até meados do século XIX não tinham grande importância política, começaram a se modernizar com o ecletismo. Em Curitiba, o ciclo da erva mate possibilitou a construção de luxuosos palacetes, como o Palacete Leão Junior e o Solar do Barão. No norte do país, o eixo da borracha atraiu muitos imigrantes e contribuiu para a formação de núcleos urbanos prósperos. Em uma década, a população de Belém dobrou, passando de 50 mil para 96 mil habitantes. Segundo Fausto (2013), o ciclo da borracha estabeleceu um “sonho transitório de riqueza” no norte brasileiro. De fato, no seu apogeu a borracha, chegou a ocupar o segundo lugar nas exportações brasileiras. Essa pujança econômica serviu para modernizar alguns aspectos da vida na Amazônia, como a introdução de luz elétrica, telefone e água encanada e a construção de imponentes edifícios públicos, mas não foi capaz de debelar a pobreza nem contribuiu para diversificar a economia. 63 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.6 Casas ecléticas As novas concepções urbanísticas relativas ao saneamento ambiental contribuiriam para libertar as construções dos limites do lote. As ruas já não seriam mais definidas pelas casas, como ocorria durante o período colonial. A entrada da casa era transferida da frente para a lateral. As casas passaram a ser implantadas no centro do lote, dando protagonismo inédito a todas as elevações. Os espaços externos eram preenchidos com ajardinamento e incorporados ao espaço familiar, de modo que os jardins com edículas se tornavam extensões das casas (IMAGUIRE JUNIOR, 1999). Com isso, a altura dos porões diminuía para aproximar a casa do jardim. Essas transformações foram ocorrendo aos poucos. Três fatores contribuiriam para que as casas brasileiras progressivamente passassem a adotar esse novo tipo de implantação, REIS FILHO (2000): • A decadência do trabalho escravo; FIQUE DE OLHO O repúdio ao período colonial não foi uma característica exclusiva da arquitetura produzida no Brasil do século XIX. Na Argentina, Buenos Aires foi transformada numa das metrópoles mais elegantes do hemisfério sul, sendo eventualmente apelidada de “Paris da América do Sul”, em parte pela demolição de centenas de construções do período da colonização espanhola e sua substituição por palacetes inspirados no beaux-arts, no art nouveau e em diversos historicismos. Tal como no Brasil, os imigrantes desempenharam um papel fundamental no aprimoramento técnico da construção. 64 • o início da imigração europeia e o desenvolvimento do trabalho remunerado; • a expansão da malha ferroviária. • De que maneira eles se relacionam? Lembre-se de que os escravos formavam uma mão-de-obra precária, sem treinamento. A substituição dos escravos pelos imigrantes possibilitou a incorporação de uma mão-de-obra especializada e altamente qualificada que, em troca de remuneração, produziria uma arquitetura mais bem-acabada. Esses imigrantes também introduziram novos hábitos de morar que seriam copiados pelos brasileiros. Além disso, as novas funcionalidades como água e esgoto encanados facilitavam o trabalho doméstico, reduzindo a demanda pela mão-de-obra escrava. As estradas de ferro seriam as grandes responsáveis em disseminar as inovações tecnológicas para lugares mais distantes, seja por meio do transporte de novos maquinários para o interior, seja por meio das revistas, manuais e catálogos. Essas publicações conquistariam o público, trazendo “a última moda em Paris” ao alcance das mãos. Até mesmo a arquitetura rural assumiria feições urbanas, copiando o estilo dos palacetes burgueses das cidades (REIS FILHO, 2000). A planta das casas ecléticas costumava ser articulada por um corredor que ligava a sala da frente com os fundos. As demais dependências da casa, como quartos e cozinha, abriam para esse corredor. Nas casas das famílias mais ricas, essa articulação passaria a ser feita por um saguão. As novas residências incorporavam os confortos proporcionados pela indústria, como calefação, água encanada, luz elétrica e mobiliário refinado. As alcovas sufocantes e mal iluminadas seriam substituídas por quartos bem arejados, com aberturas que permitiam sua iluminação natural. A introdução dos banheiros contribuiria para melhorar a higiene das casas (REIS FILHO, 2000). Nas casas ecléticas, o alpendre é o grande articulador entre o espaço externo ajardinado e o interior da residência, como você pode ver na imagem “Casa em Petrópolis”. Como havia um desnível entre o solo e o pavimento principal, o alpendre era acessado por uma pequena escada e era contornado por um guarda-corpo de ferro bem ornamentado. Nos alpendres, se desenrolava parte importante da vida social das famílias (REIS FILHO, 2000). Os novos tipos de telhados, dispostos sobre armações do tipo tesoura, substituíam a telha capa e canal pela telha marselha, e eram resolvidos com a ajuda de calhas, condutores e manilhas (que também recebiam elementos decorativos). Esses novos telhados exigiam uma inclinação maior, dando um aspecto europeu à casa. Em alguns casos, os lambrequins, peças ornamentadas de madeira, enfeitavam os telhados e alpendres nas casas, que se inspiravam nos chalés europeus. Na maioria dos casos, os telhados eram arrematadospor platibandas com balaustradas ou platibandas cheias com elementos decorativos de massa. 65 Figura 2 - Casa em Petrópolis. Fonte: Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: casa elevada porão. O acesso é feito por uma escada. Na lateral esquerda, um alpendre cuja estrutura é de ferro forjado. A taipa de pilão era progressivamente substituída pela alvenaria de tijolos. As paredes externas recebiam elementos decorativos feitos com massa. Ambientes como cozinha e banheiro eram revestidos com ladrilho hidráulico; salas e dormitórios recebiam papel de parede. A padronização dos tijolos e, por consequência, da largura das paredes, levaria à padronização de portas (geralmente de duas folhas) e janelas, articulados por ferragens de boa qualidade. Os vidros eram ornamentados com motivos florais ou geométricos (REIS FILHO, 2000). O uso de assoalhos feitos de madeiras serradas com junção do tipo “macho e fêmea”, ou de um tipo mais refinado conhecido como parquet, que possibilitavam um acabamento superior, substituiu os antigos assoalhos de tábuas largas e imperfeitas, que demandavam uma manutenção semanal. Como consequência direta, começavam a ser utilizados tapetes e móveis de fino acabamento. Os forros, por sua vez, podiam ser de madeira estreita ou estuque, para os ambientes sociais da casa (REIS FILHO, 2000). Além de maior conforto e salubridade, as casas ecléticas distinguiam-se de estilos anteriores porque eram ‘densamente ornamentadas’, e esse aspecto cumulativo e não excludente é uma característica inerente ao ecletismo (IMAGUIRE JUNIOR, 1999). Louças, talheres, candelabros, tapeçaria e papéis de parede importados substituiriam a austeridade dos tempos coloniais. Elementos de ferro forjado e ferro fundido se multiplicavam pelas casas. Eram usados na estrutura das casas (vigas, colunas); no aparelhamento dos jardins (bancos de jardim, estufas); nas escadas e portões; e na ornamentação de janelas e alpendres. A qualidade desses elementos, 66 especialmente dos portões e grades, era um indicativo da posição social dos moradores da casa (REIS FILHO,2000). A arquitetura eclética era um meio de expressão da posição social de seu proprietário. Contudo, assim como ocorria com os palacetes neoclássicos, os palacetes burgueses ecléticos estabeleceram uma tendência estética, que foi incorporada pela população menos endinheirada. Seria uma produção eclética mais diluída e vernácula. Em uma cidade cada vez mais povoada por trabalhadores da indústria, também apareceram as casas enfileiradas ao longo de um terreno profundo, abertas para um pátio e com instalações sanitárias de uso comum (REIS FILHO, 2000). 2 A PERMANÊNCIA DO ECLETISMO NO SÉCULO XX No tópico a seguir, você irá ver como o ecletismo continuou a orientar a produção arquitetônica no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Primeiro, vamos ver como as reformas urbanas foram utilizadas pelo poder público para modernizar as cidades e as implicações sociais que elas tiveram. Na sequência, veremos como as casas continuaram a incorporar o vocabulário eclético. Por fim, trataremos do início do processo de verticalização das cidades brasileiras. 2.1 Reformas urbanas Entre 1880 e 1930, houve um acelerado processo de industrialização e urbanização do Brasil. A população crescia a uma taxa de 2,5% ao ano (SCHWARCZ; STARLING, 2015). A Primeira Guerra Mundial acelerou esse movimento pela necessidade de substituição de importações que se estabeleceu. As cidades brasileiras se atualizavam com tecnologias construtivas e um incremento populacional extraordinário sobre uma configuração urbana totalmente obsoleta. A Paris, que emergiu das reformas urbanas de Haussmann, seria a inspiração de outras grandes cidades, da outrora asteca Cidade do México às coloniais Buenos Aires e Rio de Janeiro, com a construção de bulevares, jardins públicos, teatros, cafés e lojas de departamento. Os parques urbanos e jardins públicos também incorporaram o ecletismo, reproduzindo modelos como o barroco francês. Contudo, as reformas urbanas eram meramente estéticas, apenas introduzindo alguns melhoramentos técnicos, e resultaram em cidades modernizadas pela metade. Por ser a capital federal, o Rio de Janeiro serviria de vitrine para os projetos governamentais de embelezamento e regeneração urbanos, tal como na época em que era a capital imperial. Três metas foram estabelecidas: modernizar o porto; sanear a cidade; e promover uma reforma urbana; projetos liderados por Lauro Müller, Oswaldo Cruz e Pereira Passos, respectivamente. A palavra regenerar nos faz deduzir que havia algo degenerado; e para as elites locais, influenciadas pela ciência determinista, os pobres, os escravos libertos e a herança colonial eram símbolos dessa degeneração, desse Brasil que eles consideravam execrável. Assim, o governo 67 expulsou essas populações que viviam no centro histórico e demoliu centenas de exemplares da arquitetura colonial. O projeto de reforma urbana incluía a demolição de cortiços e hotéis baratos; a expulsão dos pobres que viviam na região central para os subúrbios; e a construção de uma ampla avenida nos moldes da Champs Elysées em Paris. A palavra regenerar... ...nos faz deduzir que havia algo degenerado; e para as elites locais, influenciadas pela ciência determinista, os pobres, os escravos libertos e a herança colonial eram símbolos dessa degeneração, desse Brasil que eles consideravam execrável. Assim, o governo expulsou essas populações que viviam no centro histórico e demoliu centenas de exemplares da arquitetura colonial. O projeto de reforma urbana incluía a demolição de cortiços e hotéis baratos; a expulsão dos pobres que viviam na região central para os subúrbios; e a construção de uma ampla avenida nos moldes da Champs Elysées em Paris. Coordenado pelo prefeito Pereira Passos, esse projeto tinha, na abertura da Avenida Central, o espelho da modernidade almejada pelas elites brasileiras. Era uma avenida composta por edifícios ricamente ornamentados. As fachadas da recém-inaugurada Avenida Central eram uma declaração da vontade pública em modernizar a capital do país e fazer dela uma vitrine das aspirações nacionais. Apesar de essa avenida ter sido amplamente desfigurada ao longo do século XX, ainda existem alguns exemplares notáveis construídos naquela época, como a Câmara Municipal; o Teatro Municipal; e a Biblioteca Nacional. Um dos críticos mordazes desse progresso cenográfico foi o escritor Lima Barreto, que debochava do luxo e da ostentação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, que era celebrado pelas elites intelectuais, mas não despertava nenhum interesse nas camadas populares. O fortalecimento da imprensa contribuiria para explicitar essas mazelas que as elites tentavam disfarçar, através de reformas urbanas meramente cosméticas. FIQUE DE OLHO Vale lembrar que as reformas promovidas em Paris, por Haussmann, foram divididas em cinco eixos: obras viárias (urbanização das periferias e abertura de artérias); construção de edifícios públicos (escolas, hospitais, bibliotecas) utilizando o repertório eclético; criação de parques públicos; obras de estruturação sanitária, como aquedutos e redes de esgoto; e a modificação da sede administrativa da cidade, que incorpora comunas e descentraliza funções administrativas (BENEVOLO, 1998). 68 2.2 Teatros como símbolos de poder Se, no período colonial, ter sotaque lusitano era sinal de prestígio, no Brasil republicano, falar francês elevava o status social. Naquele final de século, conhecido como belle époque, Paris era considerada a capital do mundo, com seus bulevares, cafés e teatros. Essa influência era vista nos hábitos de comer, de se vestir e na própria arquitetura. Nossas elites admiravam a cultura francesa. Se o Palácio Garnier, sede da ópera de Paris, era considerado um símbolo da arquitetura e da civilização francesas, obviamente a construção de teatros substituiria as igrejas como símbolos máximos dessa era, seja em Manaus ouno Rio de Janeiro. No ecletismo, o teatro se tornou aquilo que as igrejas foram para o barroco: o palco de experimentações e inovações formais, construtivas e estilísticas. A integração do Brasil com o resto do mundo, iniciada em 1808, continuaria a todo vapor após a Proclamação da República, em 1889. As elites brasileiras viam no teatro uma síntese da civilização europeia, e acreditavam que, construindo uma arquitetura inspirada na belle époque francesa, contribuiriam para apresentar ao mundo um país supostamente mais civilizado. Como capital da República, o Rio de Janeiro seria palco de um vasto projeto de embelezamento urbano. Um dos slogans desse processo era “O Rio civiliza-se”. Isso mostra o desprezo que as novas elites tinham pelo passado colonial, considerado responsável pelo atraso. Um dos edifícios mais imponentes que resultaram dessas reformas urbanas era – e ainda é – o Teatro Municipal do Rio de Janeiro (que você pode ver na imagem “Theatro Municipal do Rio”). Sua tipologia arquitetônica é inspirada na Ópera de Paris e apresenta elementos clássicos e barrocos, como o frontão não triangular e uma profusão de adornos como gárgulas. A maioria dos materiais como mármore, ferro fundido e cobre foram importados da Europa. Os vitrais e mosaicos foram elaborados por artesãos europeus. Figura 3 - Theatro Municipal do Rio. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: vista frontal de um teatro com diversos elementos decorativos dourados. A fachada é composta por um pórtico sobre uma escadaria, com uma cúpula de cobre em cada extremidade. 69 Essa europeização rapidamente adentrou o território nacional. Durante muitos anos, São Paulo foi apenas um entreposto comercial, sem muita importância no interior do território brasileiro. A coroa portuguesa considerava aquela região pobre e habitada por pessoas sem cultura. A maioria das construções era de taipa de pilão. A arquitetura que se produzia ali não era imponente porque não havia uma base econômica que desse suporte a essa demanda (BASSANI; ZORZETE, 2014). Contudo, a expansão da economia cafeeira durante o século XIX enriqueceu as elites locais, que decidiram mostrar ao país que a antiga vila agora era uma metrópole cosmopolita e diversificada. Elas fizeram isso erguendo um imponente teatro num terreno de amplas perspectivas na região do Vale do Anhangabaú. Além de seu propósito de enobrecimento da cidade, a construção do teatro era vista como um excelente impulsionador da urbanização da região central. O Theatro Municipal de São Paulo mistura elementos do barroco, do neoclássico e da art nouveau, constituindo um perfeito exemplar do ecletismo brasileiro. Projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, também teve como inspiração a Ópera de Paris. A maioria dos elementos decorativos foram importados da Europa. Porém, é importante lembrar que nem todo o material utilizado na sua construção veio da Europa. Algumas peças e trabalhos artísticos foram elaborados na própria região de São Paulo, e por artistas locais. Figura 4 - Theatro Municipal de São Paulo. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: vista frontal de um teatro com diversos elementos decorativos dourados. As aberturas são arqueadas e obedecem a um ritmo constante. A foto foi tirada à noite, de modo que o edifício está bem iluminado. No Norte do Brasil, a emergência de uma elite econômica, que enriqueceu com o ciclo da borracha, permitiu o aprimoramento da vida urbana, como você já estudou nessa unidade. Tal como no Rio de Janeiro e em São Paulo, o teatro foi utilizado para representar a pujança econômica e o poder político locais. A imagem “Teatro Amazonas” mostra como essa riqueza se materializou na arquitetura. 70 Figura 5 - Teatro Amazonas. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: vista frontal de um teatro. Ele está sobre um pódio cujo acesso se dá por meio de duas escadarias laterais. O edifício apresenta um pórtico de frontão arqueado projetado da fachada. Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas apresenta decoração fitomórfica de inspiração art nouveau, mas sua concepção geral é de inspiração renascentista. Introduziu inovações técnicas como a estrutura de aço importada da Escócia e uma cúpula com mais de 36 mil peças importadas da França. Os elementos decorativos apresentam motivos que exaltam o progresso e a civilização, como a impressionante pintura de teto intitulada “A glorificação das Bellas Artes da Amazônia” e esculturas homenageando compositores europeus como Mozart e Verdi. 2.3 Casas ecléticas no século XX A crescente demanda por residências, que se expandiu vertiginosamente após a proclamação da República, criou um mercado imobiliário que transformaria a fisionomia das cidades. Bairros planejados começariam a ser construídos, inspirados nas garden cities inglesas. As classes mais ricas queriam se afastar do adensamento dos centros urbanos, mas sem abrir mão do conforto. Construídas em bairros do subúrbio, as casas ecléticas no início do século XX faziam uma síntese entre o estilo de morar das chácaras com as comodidades das residências urbanas (REIS FILHO, 2000). As fachadas dessas casas recebiam a ornamentação característica do art nouveau. Torreões ou lanternins eram muito comuns para indicar o domínio sobre a paisagem. Haveria um aperfeiçoamento cada vez maior de soluções que já vinham sendo adotadas aos poucos, desde a segunda metade do século XIX, como a implantação centralizada e os jardins. O jardim frontal e a implantação centralizada seriam definitivamente absorvidos pela arquitetura brasileira, como mostra a imagem “Palacete Leão Junior”, uma residência eclética de Curitiba. Contudo, segundo Reis Filho, as casas construídas no início do século XX se destacam mais pelo aperfeiçoamento construtivo do que por transformarem a fisionomia das cidades. 71 Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: um palacete com uma escadaria conduzindo à entrada principal. É um edifício ornamentado, na cor azul, arrematado por uma platibanda balaustrada. As aberturas são arqueadas e moduladas de acordo com as pilastras. A ascensão da burguesia inaugurou uma espécie de culto à privacidade. Imaguire Junior (1999) explica que, graças a setorização de ambientes, existiam três tipos de privacidade nas casas burguesas: • Espaços de sociabilidade (salões). • Espaços de inviolabilidade (quartos), que não apresentavam uma conotação sexual, pois eram usados pelos donos apenas para dormir e se reproduzir. • Espaços de intimidade relativa (gabinetes), uma invenção eclética, concebido como um ambiente para fumar, ler e receber alguns amigos mais íntimos. O banheiro também é uma inovação eclética. Ter um banheiro era um indicativo de posição social, pois exigia a aquisição de dutos, peças de louça e metal e esgotamento sanitário. As peças eram de louça e ferro esmaltados. O banheiro, além de ser um espaço dedicado para a nudez, foi concebido como um espaço para a limpeza e o embelezamento, derivados da preocupação burguesa com a reserva e o autocontrole (IMAGUIRE JUNIOR, 1999). Assim, até o final da Primeira Guerra Mundial, já estava estabelecido o modelo arquitetônico e urbanístico utilizado até hoje no Brasil. 72 2.4 Exemplos da arquitetura eclética brasileira A seguir listamos alguns importantes edifícios ecléticos: Estações de trem: • Estação da Luz (São Paulo, 1901) Trata-se de um edifício retangular constituído de dois corpos – administrativo e as plataformas – e uma torre de 50 metros de altura, distribuídos em sete mil metros quadrados que fazem uma mistura compositiva entre ferro e alvenaria. O setor administrativo é feito de alvenaria de tijolos aparentes e é marcado pelas pilastras, cornijas e torreões. As plataformas são cobertas por uma estrutura de aço que vence um vão de quase 40 metros e foi importada da Escócia. Outros elementos construtivos como as telhas cerâmicas e o madeiramento também foram importados. • Estação Júlio Prestes (1938) Construída para escoar a produção cafeeira que vinha do interiorde São Paulo, teve sua construção atrasada em quase uma década pela crise de 1929. A inspiração neobarroca da obra veio do ecletismo produzido nos Estados Unidos. Atualmente abriga uma das mais importantes salas de concertos do país, a Sala São Paulo. FIQUE DE OLHO O ecletismo também contribuiu para a formação de um novo tipo de sociabilidade, de forte inspiração francesa. Os salões ornamentados dos palacetes burgueses se tornaram locais de inserção social e demonstração de poder e prestígio, através das festas e jantares que ali eram promovidas. A hegemonia cultural da Europa tornava inevitável a incorporação dos costumes europeus na arquitetura, na moda e na alimentação. As hierarquias sociais passavam a ser estabelecidas pelo vestuário. As empregadas tinham um traje específico, que as diferenciava dos patrões. 73 Figura 6 - Estação da Luz. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: em primeiro plano, dois torreões de alvenaria com uma cobertura metálica logo atrás; sob essa cobertura estão estacionados dois trens urbanos. Mais ao fundo, no lado esquerdo, uma torre mais alta que todo o conjunto com um relógio. Edifícios institucionais: • Castelo Fiocruz (1905) Idealizado pelo médico e sanitarista Oswaldo Cruz para substituir as instalações do Instituto Soroterápico Federal, onde seriam produzidas as vacinas, remédios e pesquisas na área de saúde pública. Trata-se de um palacete em estilo neomourisco, projetado pelo engenheiro-arquiteto português Luiz Moraes Junior, no alto de uma colina, numa antiga fazenda na cidade do Rio de Janeiro. Utilizou como referências o Palácio de Montsouris, em Paris, o Castelo de Alhambra, na Espanha, e a Sinagoga de Berlim. Edifícios públicos: • Paço Municipal de Curitiba (1916) Construído em alvenaria de tijolos sobre uma base de cantaria, incorpora elementos decorativos de inspiração neoclássica e do art nouveau, como as formas curvilíneas das esquadrias de madeira, das marquises e do portão de ferro da entrada principal. É o único bem da cidade tombado pelo patrimônio nacional. No passado foi sede da prefeitura, e posteriormente de um museu. Atualmente abriga um centro cultural com salas de exposições e um café. 74 Figura 7 - Paço Municipal de Curitiba. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: edifício compacto ornamentado, com uma torre sobressaindo no meio da fachada. Em primeiro plano uma praça com calçamento de pedra portuguesa formando desenhos geométricos abstratos em preto e branco Edifícios comerciais: • Edifício Nicolau Ely (1922) Com quase oito mil metros quadrados, distribuídos em quatro andares, é uma das principais construções ecléticas de Porto Alegre. Foi projetado pelo arquiteto alemão Theodor Wiederspahn, por encomenda de um importante comerciante local, cujo nome batiza o edifício. Com elementos como cúpulas, janelas estreitas e uma rica ornamentação das fachadas, enquadra-se na vertente neorrenascentista do ecletismo brasileiro. Edifícios industriais: • Mercado Municipal de São Paulo (1933) Projetado por Ramos de Azevedo, é um edifício de concreto e alvenaria, com mais de 12 mil metros quadrados. Os torreões laterais, bem como as colunas, abóbodas e aberturas arqueadas preenchidas com vitrais mesclam elementos neoclássicos e neogóticos; 75 Figura 8 - Mercado Municipal de São Paulo. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: um amplo pavilhão com vários quiosques; o teto é nervurado e possui uma claraboia que ilumina o interior. Residências: • Palacete Conde de Sarzedas (1895) Também conhecido como o “Castelinho do Amor”, este imóvel foi inspirado nos castelos europeus da Idade Média. Localizado no topo de um morro, na época da construção permitia a visualização de todo o Vale do Tamanduateí. Atualmente abriga o Museu do Tribunal de Justiça de São Paulo. • Castelo do Batel Inspirado nos castelos do Vale do Loire, na França, foi projetado para ser a residência de um rico cafeicultor que viajava pela Europa. Apresenta os típicos elementos de um castelo renascentista: torreão cilíndrico, portais de arco pleno e mansardas. O trabalho de ornamentação foi feito por profissionais oriundos da Suíça e Alemanha, e os materiais foram importados da França e da Bélgica. Mais tarde, serviu como residência do governador do Paraná e também abrigou as instalações de um canal de televisão. Atualmente serve como um centro de eventos. 76 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3 SUBSTITUIÇÕES DOS ESTILOS COLONIAIS As apostas no progresso foram para o ralo com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, que mostrou o quanto o Brasil ainda era um país subserviente e isolado. Caberia ao Modernismo, a partir da Semana de 1922, catalisar mudanças mais profundas na cultura brasileira. Ao romper com as tradições, o modernismo condenaria ao opróbrio os estilos anteriores, apagando estratos da arquitetura em nome da reinvenção da sociedade. Contudo, o modernismo não foi uma ruptura repentina. Os estilos art nouveau e art deco seriam as primeiras expressões de ruptura contra a reprodução de modelos históricos, pois privilegiavam a liberdade e a fantasia individuais, contrapondo-se ao aos estilos tradicionais (BENEVOLO, 1998). A arquitetura industrial, produzida naquele período, também representaria a busca por uma arquitetura mais funcional e despojada, e a verticalização das cidades brasileiras representaria o triunfo do modernismo sobre os demais estilos. Veremos um pouco mais sobre esses aspectos na sequência. 3.1 Art nouveau O art nouveau foi um estilo de arquitetura inspirado nas formas da natureza, com o uso de curvas e sinuosidades. Além da arquitetura, influenciou a decoração de interiores, a tipografia e as artes visuais. Trata-se de um estilo que teve pouca representatividade no Brasil, sendo, na maioria das vezes, adaptado ao ecletismo vigente. Uma das principais obras nesse estilo é a Vila Penteado, encomendada ao arquiteto Carlos Eckman por uma família de cafeicultores de São Paulo. No Rio de Janeiro, as Casas Franklin impressionam pelas aberturas com desenho em forma de pavão, com uma águia arrematando o conjunto. Na região amazônica, o Mercado Ver-o-Peso de Belém apresenta uma estrutura metálica importada da França com desenho art nouveau; e em Manaus, o Teatro Amazonas apresenta elementos decorativos 77 claramente inspirados nesse estilo. No Sul do Brasil, o pórtico do Cais Mauá em Porto Alegre pode ser classificado como uma estrutura em estilo art nouveau. Em Curitiba, o Palácio Belvedere destaca-se no ponto mais alto do centro histórico da cidade, tanto pela sua posição centralizada em uma praça como pelo desenho dinâmico de suas portas, janelas e varandas e pelos ornamentos de madeira do telhado. 3.2 Arquitetura industrial A arquitetura industrial começou a despontar na paisagem urbana brasileira no final do século XIX, na transição do Império para a República, quando o Brasil ainda era um país predominantemente rural, e se disseminou a partir da Primeira Guerra Mundial, com a redução da entrada de capital estrangeiro. As fábricas destacam-se na paisagem de muitas cidades com sua arquitetura arrojada, geralmente estruturas metálicas envelopadas por uma alvenaria de tijolos enegrecidos pela fuligem. Diferentemente das estações de trens, ricamente ornamentadas, as instalações industriais tendiam a ser mais simples e austeras, para reduzir custos e compensar a falta de mão de obra especializada. Seu programa respondia a uma natureza de uso claramente funcional (KÜHL, 2008). Contudo, obedeciam ao esquema colonial, sendo construídas até os limites das vias públicas, com janelas alteadas e telhados ocultos por platibandas (REIS FILHO, 2000). Em tempos recentes, antigas estruturas industriais têm sido reconfiguradas para novos usos, como é o caso do antigo Matadouro Municipal de São Paulo (que você pode ver na imagem “Matadouro”). Após um processo de restauro, os galpões passaram a sediar a Cinemateca Brasileira. Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: galpõesindustriais em tijolo aparente. Uma das figuras proeminentes do capitalismo industrial no Brasil foi o empresário Francesco Matarazzo. Imigrante italiano, fundou as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM), um complexo que chegou a empregar mais de 30 mil pessoas na produção de alimentos, tecidos e óleos. Algumas das mais impressionantes instalações fabris já construídas no Brasil pertenciam às IRFM. 78 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.3 Arranha-céus: a verticalização eclética No início do século XX, as possibilidades estruturais do concreto armado começam a ser exploradas mais amplamente. Com o aumento populacional, as cidades começaram a ser verticalizadas. Além disso, com a crescente separação entre local de moradia e trabalho, começam a pipocar pela paisagem das cidades brasileiras os edifícios comerciais, que abrigavam bancos, jornais e repartições públicas. Esses edifícios seguiam as características dos sobrados coloniais com a incorporação de alguns confortos tecnológicos da arquitetura residencial. E, assim como ocorreu com as residências e as fábricas, os novos edifícios eram implantados sobre os mesmos esquemas urbanos rígidos e obsoletos do período colonial (REIS FILHO, 2000). Os avanços tecnológicos proporcionados pelo concreto armado permitiriam a construção dos primeiros arranha-céus brasileiros, a maioria deles em São Paulo. Contudo, os primeiros exemplares dessa nova tipologia eram concebidos como palacetes, “envelopados” com elementos decorativos que de certo modo disfarçavam as ousadias estruturais, como você pode ver na imagem “Edifício Martinelli”. Como exemplares do ecletismo aplicado a essa tipologia arquitetônica, estão o Palacete Riachuelo, o Edifício Sampaio Moreira e o Edifício Martinelli, todos inaugurados até o início da década de 1930. 79 Figura 9 - Edifício Martinelli. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: coroamento de um edifício com o uso de mansardas. O Edifício Sampaio Moreira (1924) é considerado o primeiro arranha-céu da capital paulista, com doze pavimentos e cerca de 50 metros de altura. Sua fachada, em estilo neobarroco, foi inspirada nos edifícios norte-americanos. O Palacete Riachuelo (1928) pode ser classificado como de inspiração neogótica, mesclado com elementos inspirados nas construções medievais inglesas. O Edifício Martinelli (1929), um dos maiores edifícios da América do Sul até a década de 1930, apresenta embasamento em granito avermelhado e coroamento em mansarda. O edifício é ornamentado com espelhos e papéis de parede belga e possui 40 quilômetros de molduras de gesso em arabesco. Além desses luxuosos acabamentos, apresenta portas de pinho-de-riga, escadas de mármore de Carrara, louça inglesa e elevadores suíços (BASSANI; ZORZETE, 2014). Somente a partir da década de 1930 que estes edifícios começariam a ser despojados de qualquer frivolidade ornamental. O trabalho de arquitetos como Gregori Warchavchik e Flávio de Carvalho foi pioneiro em dar uma nova orientação à arquitetura de concreto armado no Brasil. A partir dos anos 1930, o concreto armado se tornaria protagonista das obras de arquitetura, e o Brasil seria uma referência mundial em seu uso. 3.4 Art déco O art déco é o estilo que melhor representa o entusiasmo com as inovações e possibilidades da tecnologia. Apesar de ter sua origem na Europa, os arranha-céus de Nova York, como os edifícios Chrysler e o Empire State, são as obras máximas desse estilo. Assim como o art nouveau, influenciou o design de interiores, as artes plásticas e as artes gráficas. Os navios seriam uma das principais fontes de inspiração para o estilo art déco. No Brasil, o art déco foi difundido a partir da obra de artistas como Victor Brecheret e do decorador 80 suíço John Graz. Em termos cronológicos, o apogeu do art déco no Brasil ocorreu nos anos 1930, mas continuou se manifestando até os anos 1950. Em comparação com o art nouveau, o art déco tem uma presença muito mais robusta na paisagem urbana brasileira (CORREIA, 2008). A arquitetura art déco é mais despojada de ornamentos em comparação aos estilos anteriores, exibindo elementos decorativos mais disciplinados e simplificados. A composição art déco é mais geométrica e hierarquizada, e revela uma preocupação maior com a volumetria do que com a fachada, promovendo uma setorização do edifício em base, corpo e coroamento, elementos geralmente escalonados. Os edifícios art déco eram projetados para abrigar usos mistos, com o térreo utilizado para fins comerciais e os demais pavimentos destinados a apartamentos (CORREIA, 2008). O despojamento ornamental do art déco foi um fator determinante para a sua grande aceitação no Brasil, pois barateava o custo da construção. Isso explica por que é um estilo presente nos mais diferentes programas arquitetônicos, como residências, edifícios de uso misto e estruturas fabris, além de monumentos. O Rio de Janeiro é considerada a capital art déco na arquitetura brasileira. Alguns exemplares interessantes são a Estação Central do Brasil, que você pode ver na imagem abaixo, e os edifícios A Noite e Serrador. A estátua do Cristo Redentor, no morro do Corcovado, é um dos símbolos da cidade e do estilo art déco no Brasil. Figura 10 - Central do Brasil. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: uma torre branca com um relógio no alto. Em primeiro plano existe um amplo gramado com uma palmeira do lado direito. Em outras cidades brasileiras, o art déco também tem exemplares significativos, como o Edifício Moreira Garcez, em Curitiba; e o Edifício Sulacap, em Salvador. Contudo, nem só de grandes edifícios se fazia art déco no Brasil. A Biblioteca Mário de Andrade, o Estádio do Pacaembu 81 e o Viaduto do Chá, todos em São Paulo; e o Cine Brasil, em Belo Horizonte, são exemplares fundamentais da linguagem art déco aplicada em outros programas urbanos. 3.5 Legado do ecletismo A maioria das críticas ao ecletismo partem de dois fatores: a falta de cultura artística das burguesias que enriqueciam ao longo do século XIX; e a pré-fabricação que permitiu que os arquitetos apenas copiassem elementos a partir de catálogos de firmas especializadas. Conforme explica Benevolo (1998), durante o auge dos estilos neoclássico e neogótico, a adesão dos arquitetos ao cânone academicista era convicta; no ecletismo, essa adesão era “incerta e duvidosa”. É importante dizer que o ecletismo brasileiro é atípico porque homenageia um passado que não existiu aqui. A arquitetura eclética brasileira é um espelho da matriz europeia. Não houve uma Antiguidade Clássica, um Renascimento e um gótico brasileiros, de modo que qualquer referência a esses modelos é importada da cultura europeia. O Brasil republicano tinha como lemas o progresso, indústria, capital e modernização, de modo que não se pode dizer que a substituição da herança colonial por uma miríade de referências europeias seria apenas um “complexo de inferioridade” das elites brasileiras (FABRIS, 1993). Era um anseio de integrar o país aos avanços da civilização industrial, tendo os Estados Unidos como modelo político e a Europa como modelo cultural. Os críticos do ecletismo consideram-no um estilo repleto de penduricalhos ornamentais, altamente personalista, mas desprovido de alma. Contudo, muitos dos arquitetos do ecletismo também reprovavam a mera reprodução, desejando a liberdade de usar novos materiais construtivos e interpretar os estilos do passado segundo seus próprios critérios. Além disso, naquela época ressurgiu a preocupação com a formação cientifica dos arquitetos, treinando-os não apenas para o desenho, mas para a construção. E talvez o maior mérito desse estilo tenha sido introduzir inovações tecnológicas que seriam assimiladas pela cultura brasileira. O ecletismo é um estilo de legado ambíguo. Celebra a diversidade e a multiplicidade, e não vê com simpatia as ideias de unidade e do absoluto. Seria uma inequívoca manifestação das possibilidades da civilização industrial ou apenas umpastiche para agradar uma burguesia inculta que era facilmente impressionável? 4 NEOCOLONIALISMO O neocolonial foi um estilo arquitetônico e uma das primeiras manifestações de ganho de consciência por parte dos brasileiros de que o país possuía originalidade e identidade própria na sua arquitetura - a tal legitimidade tão perseguida pelos nacionalistas. Este fenômeno foi 82 de fundamental importância para a posterior instalação do modernismo no país, que, como visto anteriormente, adquiriu, como um dos seus três elementos principais, a valorização dos elementos locais. Conforme Bruand (2018, p. 58) alguns dos pioneiros da nova arquitetura brasileira, como os arquitetos Lucio Costa, Attílio Correa Lima, Paulo Antunes Ribeiro e Raphael Galvão, passaram pela fase neocolonial antes de se tornarem discípulos de Le Corbusier. Sem isto, certas particularidades do movimento racionalista brasileiro não poderiam ser explicadas. Até mesmo o arquiteto Oscar Niemeyer, que não utilizou formas do passado, admitia a influência da arte colonial. 4 1 A retomada do colonialismo brasileiro A retomada de elementos coloniais brasileiros nasceu de um debate sobre os rumos que a arquitetura brasileira tomou com o estilo neoclássico e, posteriormente, com o ecletismo. Estilos estes que marcaram os principais edifícios públicos, hospitais, escolas e palacetes da época do império à primeira republica – meados do século XIX e início do século XX. Sobre este tema, o arquiteto Lúcio Costa observou: (...) a controvérsia entre o “falso colonial” e o “ecletismo dos falsos estilos europeus” (que chegou ao seu ponto crítico logo após 1920) pode hoje parecer uma discussão infantil sobre o sexo dos anjos. Os partidários das duas teorias não percebiam as profundas modificações que a revolução industrial havia causado na vida contemporânea, nem os novos problemas que os arquitetos seriam chamados a resolver, a fim de dar uma resposta adequada às necessidades do homem. Ora, a arquitetura jamais foi e jamais será uma arte pela arte; ela está intimamente ligada às necessidades materiais da civilização que a faz nascer e da qual é um dos signos mais evidentes; ela não pode ignorar essas necessidades, sob pena de perder toda a sua autenticidade e qualquer valor duradouro. Por conseguinte, o debate puramente formal que tinha sido instaurado era totalmente acadêmico, e não abria qualquer perspectiva nova. (BRUAND, 2018, p. 52) Entre 1900 e 1930, a arquitetura do Brasil passou por uma fase em que os estilos se justapuseram, principalmente os estilos classicizantes, o neoclássico e o ecletismo, e, em menor escala, os estilos medievais e art nouveau. Já na segunda república – que teve início com a Revolução de 1930, instaurando a Era Vargas – houve uma notável retomada, ou valorização, da arquitetura luso-brasileira e uma crescente busca por uma arquitetura que representasse os pensamentos do período. Uma das grandes contribuições deste período foi o amplo estudo dado a arquitetura colonial, colaborando na conservação do patrimônio artístico. Sobre este retorno no tempo e sobre o comentário de “falso colonial” de Bruand (2018, p. 58) conclui-se que o neocolonialismo foi essencialmente um retorno nostálgico ao passado. Empregou, de modo diferente, os elementos antigos e suas variantes, porém não foi considerado um estilo criativo, independente, pois as tendências arqueológicas predominaram. Sobretudo, critica-se que havia um desconhecimento dos princípios básicos e da diversidade da arquitetura 83 luso-brasileira dos séculos XVII e XVIII. Houve, ainda, uma mistura de gêneros, não se diferenciando a arquitetura laica da religiosa, nem foram consideradas as diferenças regionais existentes. Houve um uso excessivo da forma decorativa e uma mistura do repertório utilizado nas construções ricamente ornamentadas. Um exemplo são os ornamentos das igrejas da Bahia e do Pernambuco, do período colonial, que se observam replicados em edifícios de finalidade totalmente diversa. (BRUAND, 2018, p. 58) Uma inevitável artificialidade surgiu nessa confusão e uma fuga do propósito de trazer soluções a problemas contemporâneos. Compreende-se que foram construídas em estilo neocolonial as igrejas, as casas e palácios, no entanto, edificações com novas funções na cidade industrial, como os prédios de escritórios, ou de apartamento, as fábricas e outros edifícios de cunho industrial ganharam a mesma ornamentação, quando seria muito mais autêntico receberem novas soluções e não caírem em um simples capricho estético de natureza erudita. (BRUAND, 2018, p. 58). Ainda assim, o neocolonialismo produziu obras de grande valor estético e existentes até hoje, como a edificação do atual Museu Histórico Nacional, dos arquitetos Memória e Cuchet, e o Instituto de Educação de Bruhns e Cortez, ambos no Rio de Janeiro. 4.2 Arquiteto do neocolonialismo Os percursores do estilo neocolonial foram dois estrangeiros que moravam em São Paulo, Ricardo Severo e Victor Dubugras, respectivamente de origem portuguesa e francesa. Ricardo Severo, nascido em 1869, em Lisboa, mas criado na cidade do Porto, veio para o Brasil após uma conspiração para derrubar a monarquia em Portugal. Aqui, tornou-se sócio e sucessor de Ramos de Azevedo. Possuía grande cultura e era muito ligado à arquitetura tradicional portuguesa, principalmente a do norte. Portanto, para ele, buscar inspiração nos modelos da sua terra natal era algo natural. De acordo com Kessel (2002, p 114-115), Ricardo Severo participava de uma série de conferências que ocorriam em 1914 e, em uma de suas participações, proclamou um discurso que é considerado o marco inicial da arquitetura neocolonial no Brasil. Ocorreu na conferência intitulada “A arte tradicional no Brasil: a casa e o templo”, lida em 20 de julho de 1914 na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, cujo sumário expressa a intenção didática e militante do autor: De como deve compreender-se a arte tradicional. Quais as manifestações da arquitetura tradicional no Brasil. Seus fundamentos étnicos e históricos; a arte portuguesa; meio de formação, características, estilo. A arquitetura no Brasil durante os séculos XVIII e XIX. Formas típicas: a villa, a casa urbana, o palácio e o templo. Arquitetura externa: telhados, portas, janelas- gelosias e rótulas. Arquitetura interna: plantas e detalhes. Valor estético destes elementos arquitetônicos nacionais. Necessidade de promover o renascimento das fórmulas tradicionais para constituição de uma ARTE BRASILEIRA. 84 Além do discurso, ele deu o exemplo, construindo para si próprio e para alguns clientes, casas no estilo neocolonial, todas já demolidas nos dias de hoje. As mais notáveis foram duas casas do próprio arquiteto, uma em São Paulo e outra no litoral, em Guarujá (1922), e a residência Numa de Oliveira, localizada na Av. Paulista. (BRUAND, 2018, p. 52) Os elementos de origem portuguesa observados nessas residências são as varandas sustentadas por colunas toscanas, telhados planos com largos beirais, feitos de telha canal e com uma telha em forma de pluma virada para cima no vértice, além de rótulas e muxarabis de origem muçulmana. Porém, essas casas não possuíam o costumeiro esquema simples e volumétrico que se encontrava nos séculos anteriores. Estas jogavam com os volumes, com recuos progressivos nos pavimentos acima. Na época colonial, não era visto o grau de refinamento aqui alcançado e, por isso, suas obras eram consideradas modernas, mas evocavam intensamente uma arquitetura do passado (BRUAND, 2018, p. 53). Victor Dubugras, por sua vez, atuava de maneira diferente, devido sua origem francesa. Era notado que não conhecia em detalhes a arquitetura luso-brasileira. Seu espírito eclético e inovador fazia com que utilizasse várias fontes de inspiração. Ele não se preocupava em utilizar os exatos materiais da época colonial ou de reproduzir, de maneira sistemática, um repertório decorativo e fiel. Limitava-se a certo parentescono Brasil .................................................................................................................... 93 2 As cidades brasileiras no século II ...................................................................................................... 97 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................103 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................104 O livro História da arquitetura e urbanismo IV traz ao leitor, além de informações básicas da área, o conteúdo parcialmente descrito a seguir em suas quatro unidades. Dando início, a primeira unidade apresenta o desenvolvimento da morfologia urbana das cidades brasileiras a partir do século XIX e a arquitetura resultante dela. O leitor terá conhecimento dos aspectos sociais, econômicos e culturais que se cruzaram na formação urbana, sobre como o neoclassicismo chegou ao Brasil, e algumas das principais obras arquitetônicas produzidas nesse movimento. A segunda unidade trata do contexto e da história dos fatos arquitetônicos e urbanos no Brasil durante o século XIX. A origem da arquitetura neoclássica, como ela foi inserida no Brasil, os arquitetos, o desenvolvimento das cidades do século XIX, as influências, e o início da modernização na arquitetura e no urbanismo também são retratados aqui. Na sequência, a terceira unidade aborda as características do ecletismo no Brasil. Serão explicados no texto fatores como o processo de expansão urbana após a Proclamação da República, a importância dos imigrantes para a arquitetura, as reformas urbanas, as casas brasileiras daquele período, e alguns exemplares significativos da produção eclética nacional. Concluindo a obra, a quarta e última unidade trata do contexto e dos fatos arquitetônicos e urbanos no Brasil durante o século XX. A arquitetura neocolonial, alguns dos arquitetos que se destacaram no período, as cidades brasileiras, as influências da vanguarda europeia, e a cidade de Brasília também são assuntos abordados nesta unidade. A leitura na íntegra deste livro faz que o leitor compreenda de forma simples os principais fundamentos da história da arquitetura e urbanismo. Agora é com você! Sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 História da arquitetura Olá, Você está na unidade História da Arquitetura e Urbanismo IV. Conheça aqui como se desenvolveu a complexa morfologia urbana das cidades brasileiras a partir do século XIX e a arquitetura que se produziu. Serão analisados como os aspectos sociais, econômicos e culturais se interseccionam na formação urbana, para que você possa ter uma clara compreensão do significado da produção arquitetônica neoclássica para o Brasil e sua relação com as produções posteriores. Descubra como o neoclassicismo chegou ao nosso país, seu significado ideológico e como ele influenciou o estilo das construções. Conheça também algumas das principais obras arquitetônicas produzidas nesse movimento. Bons estudos! Introdução 11 1 FATOS ARQUITETÔNICOS E URBANOS NO BRASIL No tópico a seguir, você terá a oportunidade de estudar como as cidades brasileiras se desenvolveram ao longo do século XIX. Será feito um apanhado geral das principais transformações sociais e urbanas em nosso país e a arquitetura que resultou dessas mudanças. Essas transformações serão analisadas ao longo das próximas unidades desta disciplina. 1.1 Brasil colônia O século XIX marca a expansão da arquitetura civil no Brasil. Até então, a maioria das encomendas eram de edifícios religiosos, que seguiam as linhas do barroco e do rococó. Outras obras de destaque eram aquedutos, fontes públicas e as chamadas casas de câmara e cadeia. Um estilo particular, conhecido como arquitetura bandeirante, se desenvolveu durante o século XVIII em regiões mais interioranas, mas sem grandes repercussões. A maioria da população vivia próxima ao litoral, e o imenso interior era escassamente povoado. O clima quente e a falta de uma estruturação sanitária adequada facilitavam a proliferação de doenças nas cidades. Embora o Brasil fosse uma colônia autossuficiente, não havia indústrias e manufaturas e a economia era dependente da exportação (SCHWARCZ, 2011). Apesar de uma relativa unidade geográfica, não havia o compartilhamento sistemático de informações dentro do território, em parte, devido à precária comunicação, mas, também, porque Portugal considerava a circulação de ideias uma ameaça ao seu poder sobre a colônia. No início do século XIX, Portugal não era mais o império poderoso que impulsionou as Grandes Navegações. Enfraquecida economicamente e subordinada à influência do governo britânico, que, por sua vez, estava em guerra com a França, Portugal acabou invadida por Napoleão Bonaparte, obrigando a sua nobreza a fugir para o Brasil, sua colônia no continente americano. Na condição de colônia, o Brasil não tinha autonomia para diversificar sua economia e desenvolver o ensino superior, que fomentaria uma produção cientifica para dar suporte a um aparato industrial. 1.2 De colônia à reino e depois Império A transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 é o catalisador das transformações que o Brasil sofreu a partir do século XIX. O Brasil encontrado pela corte portuguesa era majoritariamente pobre, analfabeto e vivia em condições precárias. A base econômica dependia da exploração da natureza e da agricultura de exportação. O trabalho escravo estava profundamente enraizado na sociedade, dos grandes latifúndios às cidades, contaminando-a com o patrimonialismo e o autoritarismo, características marcantes da sociedade brasileira e ainda presentes em nossos dias (SCHWARCZ, 2011). Após se beneficiar do isolamento político e econômico a que submeteu o Brasil por três 12 séculos, a coroa portuguesa seria forçada a iniciar na nova sede do reino àquilo que alguns estudiosos chamam de processo civilizatório (ELIAS, 1993). Em 1815 a colônia é elevada à condição de reino e os hábitos e costumes da corte portuguesa começaram a ser copiados pelas famílias que viviam aqui. Essa influência se estendeu ao modo de se vestir, à alimentação e à própria arquitetura. A abertura dos portos, em 1808, promovida por D. João VI, deu início a um longo processo de integração do Brasil ao resto do mundo, permitindo a expansão das técnicas e saberes que chegavam da Europa com mais facilidade e rapidez. A construção de estradas e ferrovias e a implantação de linhas fluviais para escoar a matéria-prima extraída no interior contribuiria para integrar o próprio território nacional. Além disso, pela primeira vez, o governo autorizava a instalação de algumas manufaturas (ferro, tecido etc.). Em 1822, então, o Brasil declara sua independência de Portugal, e é instalado o regime imperial. A monarquia constitucional, estabelecida após a independência, permitiu que o Brasil vivesse um período longo de estabilidade política e econômica. O imperador D. Pedro II era um entusiasta das artes, mantendo contato com pesquisadores estrangeiros, patrocinando instituições culturais e oferecendo bolsas de estudo no exterior para estudantes da Escola de Belas Artes (SCHWARCZ, 2011). Em geral, durante o século XIX, a expansão urbana das cidades brasileiras acontecia a partir do loteamento de antigas chácaras e matagais, sem um planejamento criterioso. Por exemplo, até a primeira metade do século XIX, São Paulo era apenas um vilarejo inexpressivo por onde passavam importantes rotas para o escoamento de matérias-primas em direção ao litoral. Apenas a partir da primeira metade do século XX, com a industrialização e o intenso fluxo migratório, a cidade experimentaria um crescimento vertiginoso, passando de apenas seis mil habitantes na década de 1820 para mais de 200 mil na virada do século (BASSANI; ZORZETE, 2014). 1.3 Missão artística francesa e o neoclassicismoformal, sem jamais se ater ao respeito de princípios absolutos (BRUAND, 2018, p. 53), Dubugras passou a adotar o novo estilo a partir de 1915, após o discurso de Ricardo Severo e sua campanha a favor do neocolonial. Era visto também como uma oportunidade de sucesso, mas não estava disposto a romper com o estilo adotado anteriormente. São dele os projetos da escadaria da Ladeira da Memória, no centro da cidade de São Paulo, e o conjunto de monumentos comemorativos do centenário da Independência, na antiga estrada que vai para Santos, construídos em 1922. A primeira foi executada quando Washington Luís era prefeito de São Paulo e o segundo quando era governador do Estado (BRUAND, 2018, p. 53). Dubugras, ainda, reformou o Largo da Ladeira da Memória, introduzindo um novo chafariz, um pórtico com azulejos, escadarias e bancos circulares. Com estilo neocolonial, o projeto valorizou o obelisco de 1814. 85 Figura 11 - Escadaria da Ladeira da Memória, São Paulo. Projeto de Victor Dubugras Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, uma escadaria em formato orgânico, tons pastéis, revestida de pedra, com chafariz desligado ao meio e obelisco. Pode-se observar edifício alto do outro lado da rua, pedestre passando na calçada em frente a escadaria, arvores ao fundo e céu azul. Nos dois monumentos ele usou azulejos desenhados por Wasth Rodrigues, desenhista e grande conhecedor da arquitetura colonial, e retomou elementos clássicos da arquitetura luso-brasileira, como as varandas, os balcões, os telhados planos de telhas-canal com largos beirais, os lintéis nas janelas e os frontões com pináculos, este último herdados da arquitetura religiosa. Somado a isto, acrescentou formas que já utilizava antes, como os arcos-plenos de coloração romana, curvas nos degraus das escadas ou das muretas das varandas, as quais lembram o art nouveau. Utilizava a pedra bruta e escura, de modo irregular, conferindo um aspecto pesado, com grande contraste à cor clara do reboco usado na arquitetura portuguesa (BRUAND, 2018, p. 53). É visível a mistura de estilos, preconizada por Dubugras que, junto a Ricardo Severo, foi um dos pioneiros em utilizar elementos da arquitetura luso-brasileira no Brasil. Esta volta ao período colonial não agradou tanto a cidade de São Paulo, já que somente alcançou prosperidade muito depois, com a exploração do café no século XIX e não carregava boas lembranças do período colonial. Embora tenha iniciado em São Paulo, foi no Rio de Janeiro que o estilo neocolonial deixou mais marcas, já que esta, sim, se orgulhava deste passado. Bastou a elite intelectual da Capital Federal tomar ciência do movimento iniciado por Ricardo Severo e tomar consciência do valor da arquitetura luso-brasileira que se iniciou o cenário perfeito para sua instalação. José Mariano Filho, um crítico de arte e teórico, foi o grande influenciador do período no Rio de Janeiro. Sua paixão pelo tema e sua fortuna pessoal fizeram com quem ele elaborasse um concurso público, a ser julgado pelo Instituto Brasileiro dos Arquitetos em 1921, e que foi exposto no Salão 86 Anual da Escola de Belas Artes, “destinado a incrementar os estudos preliminares, visando a criação de um tipo de arquitetura nacional, inspirada diretamente no estilo das construções arquitetônicas sacras e civis feitas no Brasil durante o período colonial” (BRUAND, 2018, p. 55 apud Architectura no Brasil, 1921, p. 38-39 45-46). O concurso teve grande repercussão entre os arquitetos e público em geral e se afirmou na Exposição Internacional do Centenário da Independência, inaugurada em 1922. A maioria dos pavilhões brasileiros adotaram o novo estilo e foram considerados a emancipação artística do país cem anos após a emancipação política. Contrastavam com o ecletismo da maioria dos pavilhões estrangeiros (BRUAND, 2018, p. 56). O único pavilhão neocolonial que existe até hoje era o Palácio das Grandes Indústrias, que atualmente é o Museu Histórico Nacional, obra de Memória e Cuchet. A princípio era uma restauração da antiga fortaleza, de 1603, e do calabouço, de 1693, a qual acabou por praticamente reconstruir a edificação. Hoje compreende um conjunto de edifícios de diferentes épocas e estilos arquitetônicos interligados entre si. Elementos neocoloniais se sobressaem em suas fachadas externas e internas, com os muxarabis, painéis de azulejos, beirais com ladrilhos e telhas envernizadas no avesso no beiral. O sucesso da exposição internacional de 1922 obteve clamor nacional e internacional, com seu exotismo e entusiasmo. Em 1926, o Ministério da Agricultura fez um concurso para escolher o pavilhão do Brasil na Exposição de Filadélfia e a primeira condição do concurso era a adoção do estilo colonial. O vencedor foi o jovem Lucio Costa (BRUAND, 2018, p. 56). Um importante projeto em estilo neocolonial, se não um dos que merece mais destaque, é obra do arquiteto Ângelo Bruhns e do português José Cortez. Foi a Escola Normal do Rio de Janeiro, hoje Instituto de Educação, construída entre 1926 e 1930. Bruand (2018, p. 56-57) descreve a edificação: (..) Nela, percebe-se mais uma vez a inspiração da arquitetura monástica, tanto na parte externa quanto internamente. O pátio, com sua fila tripla de galerias superpostas, faz lembrar os antigos colégios jesuítas, enquanto o corpo central da fachada se assemelha aos frontispícios de algumas igrejas de conventos da região de Pernambuco. Contudo, o cunho clássico, está presente tanto na simetria absoluta do conjunto, quanto nas ranhuras que ressaltam a austeridade do térreo, austeridade essa que contrasta com uma certa exuberância decorativa dos demais andares.(..) (BRUAND, 2018, p. 56-57) O neocolonial também se manifestou na arquitetura residencial, onde se destacou Lucio Costa e seu sócio, Fernando Valentim, que produziram uma série de casas em estilo neocolonial. Merece destaque a casa de Raul Pedrosa, em 1925, com elementos decorativos nas fachadas que remetem totalmente ao passado, porém com uma lógica em planta e volumétrica, com hierarquia bem marcada e uma complexidade que em nada remete ao colonial e, sim, ao período em que se insere e as profundas transformações que estavam por vir. 87 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • revisar os conceitos básicos sobre o ecletismo; • aprender sobre as principais características da arquitetura eclética no Brasil; • compreender os processos de transformação social e urbana pelos quais o Brasil passou a partir da segunda metade do século XIX; • analisar as características das casas ecléticas no Brasil; • conhecer alguns dos edifícios ecléticos mais representativos do Brasil; • conhecer os estilos que substituíram a arquitetura colonial e precederam o moder- nismo, como o art nouveau e o art déco. • conhecer os principais arquitetos do período moderno brasileiro e suas principais obras; PARA RESUMIR BASSANI, Jorge; ZORZETE, Francisco. São Paulo: cidade e arquitetura, um guia. São Paulo: Editor Francisco Maximiano Zorzete, 2014. 1. ed. 292 p. BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 1998. 3. ed. 816 p. BICCA, Briane Elizabeth Panitz (org.); BICCA, Paulo Renato Silveira (org.). Arquitetura na formação do Brasil. Brasil: UNESCO, 2006. 294 p. BRANT, Júlia. Características e diferenças de 12 estilos arquitetônicos. Archdaily, 2020. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/898742/caracteristicas-e-diferencas- de-12-estilos-arquitetonicos. Acesso em: 03 mar. 2020. BRUAND, Y. A Arquitetura Contemporânea no Brasil. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2018. Castelo da Fundação Oswaldo Cruz completa 100 anos. Fiocruz, 2018. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/castelo-da-fundacao-oswaldo-cruz-completa-100- anos. Acesso em: 03 mar. 2020. Castelo do Batel. Secretaria da Comunicação Social e da Cultura do Paraná, 2020. 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UNIDADE 4 Modernismo e as cidades do século XX Você está na unidade Modernismo e as Cidades do Século XX. Conheça aqui a história dos fatos arquitetônicos e urbanos no Brasil durante o século XX e o contexto mundial em que se inserem. Aprenda sobre a arquitetura neocolonial e como o desejo de uma identidade e de uma cultura nacionalista culminou na arquitetura moderna brasileira. Descubra alguns dos arquitetos que se destacaram nesse período, desde o estilo neocolonial até o estilo moderno. Entenda ainda, como se desenvolveram as cidades brasileiras durante o século XX, das influências da vanguarda europeia com ideários socialistas utopistas, até a formação da cidade moderna. Conheça também, como se deu a formação da nova capital do país, a cidade de Brasília. Bons estudos! Introdução 93 1 O MODERNISMO NO BRASIL A trajetória do neocolonial e do modernismo se confundem, se mesclam, e uma não existem uma sem a outra, pois originam da mesma premissa nacionalista da busca de uma identidade própria brasileira. Passa-se a ser questionado como encontrar essa identidade num país com tantas influências, de diversos povos que colonizaram essa terra, como portugueses, franceses, alemães, italianos, holandeses, poloneses, entre outros. Neste momento, a cultura indígena, que seria uma das grandes marcas do solo brasileiro, segue pouco valorizada, ainda que citada pelo Movimento Antropofágico de 1928, devido sua desconexão com os grandes centros urbanos que se formam. A resposta parece ser: • Assumir as diferenças regionais no vasto território brasileiro e as diversas marcas deixa- das na passagem das diferentes culturas; • a experiência do passado como forma de melhor compreensão de qual parte dessa he- rança funcionou e qual falhou; • valorização do que aqui existe, em detrimento do produto importado; • retomada ao pensamento do período colonial, onde os portugueses perceberam que aqui era uma terra rica em matéria prima e, agora, novamente, se tem essa clara percepção. Ao conectar os acontecimentos de 1922, ano comemorativo do centenário da Independência do Brasil, com a Exposição Internacional do Centenário da Independência e a Semana de Arte Moderna, Kessel (2002, p. 121) questiona: Um exame dos episódios que marcaram o ano de 1922 mostra que a estatura por ele adquirida na história política e cultural do Brasil não é exagerada. O levante do Forte de Copacabana, a Semana de Arte Moderna e a Exposição Comemorativa do Centenário da Independência, além de marcos consagrados pela historiografia, tiveram inegável repercussão entre os contemporâneos e mobilizaram participantes e espectadores em torno de questões diversas, que partilhavam um espaço comum de reflexão centrado em duas dúvidas. Que país era o Brasil? Que país deveria ser o Brasil? (KESSEL, 2002, p. 121) Os movimentos de vanguarda europeus no final do século XIX e início do século XX só tiveram repercussão no Brasil por volta de 1912, quando o poeta tomou conhecimento, em Paris, do Manifesto Futurista do italiano Felippo Tomaso Marinetti, que divulgava princípios futuristas, e passou a rejeitar os valores do passado e exigiam uma pintura nacional, inspirada na vida e nas paisagens brasileiras (BRUAND, 2018, p. 61). O denominador comum era sobretudo a natureza negativista e demolidora: a ruptura com o passado e a independência cultural frente à Europa – especialmente Portugal e França, países que haviam marcado de modo mais profundo a literatura e as artes brasileiras – eram os dois pontos fundamentais, de uma clareza por sinal ilusória. (BRUAND, 2018, p. 62) Os organizadores eram formados por um grande número de literatos, quatro pintores (Anita 94 Mafaltti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro e o suíço John Graz), um escultor (Becheret) e um compositor (Villa Lobos). Quanto à seção de arquitetura da Semana de Arte Moderna de 1922, se resumiu à exposição dos trabalhos de dois arquitetos estrangeiros: o espanhol Antonio Garcia Moya e o polonês Georg Przyrembel, que apresentou um projeto de residência praiana de inspiração neocolonial. Não havia, portanto, contradição entre este estilo e o desafio estético lançado na Semana contra o já estabelecido na academia e visto na pintura, na poesia, na música, na esculturae na literatura (KESSEL, 2002, p. 112). Em 1928, surge o Movimento Antropofágico, liderado por Oswald de Andrade como uma resposta às questões colocadas pela Semana de Arte Moderna de 1922. Para ele, a renovação da arte nasceria a partir da retomada dos valores indígenas, a fim de estruturar uma cultura nacional. Embora a Semana de Arte Moderna não tenha produzido, de um ponto de vista objetivo, uma influência direta na arquitetura, não significa que seu papel tenha sido nulo. Revelou um papel de luta contra os princípios pré-estabelecidos e gerou um clima de mudança e de aceitação ao novo, iniciado nos campos das artes, da literatura e da música. 1.2 A arquitetura moderna brasileira Vimos anteriormente, numa breve introdução à arquitetura moderna no Brasil, como instalaram-se aqui as ideias do franco-suíço Le Corbusier, principalmente após sua visita à Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em dezembro de 1925. Estudamos também sua influência sobre os jovens arquitetos da época, o amadurecimento e conflito dessas ideias dentro Escola de Belas Artes e como culminou na edificação reconhecida como o grande marco do período moderno no país, o Palácio Capanema, construção finalizada em 1943. Antes disto, é creditado ao arquiteto nascido em Odessa, na Rússia, e com formação na Itália, Gregori Warchavchik, a primeira casa moderna em São Paulo, em 1927 e 1928. Ele chegou da Europa um ano após a Semana de Arte Moderna e encontrou aqui um local propício para instalar sua preocupação com a verdade, com a simplicidade e a rejeição do ornamento supérfluo. Demonstrado numa arquitetura que não esconde a estrutura do edifício, utiliza volumes e linhas puras que correspondem a função, sem ornamento excessivo. Gregori Warchavchik Tinha conhecimento dos escritos – realizados entre 1920 e 1925 - por Le Corbusier, em forma artigos publicados na revista L’Esprit nouveau e seu livro Vers une architecture. Daí, foram extraídos os argumentos para a publicação do primeiro manifesto de arquitetura modernista no país, no ano de 1925, O Manifesto da Arquitetura Funcional, de Warchavchik. 95 A reviravolta decisiva no movimento moderno brasileiro coincide com a Revolução de 1930 e o início da Era Vargas no país. “A classe política que agora sobe ao poder sai do mesmo ambiente em que se apoiam os artistas de vanguarda, os quais, de agora em diante, não são mais confinados à oposição, mas passam a fazer parte da elite dirigente” (BENEVOLO, 2009, p. 712). Em 1935 foi instituído o concurso para o Ministério da Educação e Saúde, que, sem sucesso, acabou tendo a edificação confiada a Lúcio Costa, que convidou C. Leão, J. M. Moureira e Afonso Reidy para integrar a equipe, e, mais tardiamente, Oscar Niemeyer. Em 1937 fica pronto o projeto definitivo, baseado em sugestões do Le Corbusier. A partir de 1936 surgiram diversas edificações modernistas. Os irmãos Roberto, de nome Marcelo e Milton, venceram o concurso para a sede da Associação Brasileira de Imprensa e do aeroporto Santos Dumond. Correa Lima projetou a estação de hidroaviões no Rio e Lúcio Costa e Oscar Niemeyer projetaram o pavilhão brasileiro construído na Exposição de Nova York de 1939. Veja mais sobre estes projetos emblemáticos da arquitetura moderna brasileira a seguir. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Em 1943 é publicado o livro Brazil builds: architecture new and old, 1652-1942, do crítico americano Philip Lippincott Goodwin com fotografias de E. Kidder-Smith, colocando a arquitetura brasileira, desde meados do século XVII até 1942, no cenário internacional. FIQUE DE OLHO Você pode saber mais sobre o Manifesto da Arquitetura Funcionalista, de Gregori Warchavchik, no artigo de Renato Fiore, de título ‘Warchavchik e o Manifesto de 1925’, disponível no link presente nas referências bibliográficas. 96 Oscar Niemeyer tornou-se famoso pelos edifícios construídos na Pampulha entre 1942 e 1943, como igreja, cassino e iate clube. Realizou, em 1946, o Banco Boa Vista do Rio e, em 1947, o Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos, além do conjunto do parque Ibirapuera em São Paulo e alguns edifícios residenciais em Belo Horizonta, São Paulo e Rio de Janeiro, de 1951 em diante. Conheça mais sobre as obras de Niemeyer. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Uma das carências mais evidentes deste período, até o ano de 1950, se refere às cidades. O caótico ambiente que se adensa nas principais cidades contrasta com as novas edificações modernas isoladas. Algumas são exceção, como os conjuntos de Affonso Eduardo Reidy, o novo Centro Cívico de Santo Antônio, de projeto de 1948, e o conjunto Residencial Pedregulho no Rio de Janeiro, de 1950, onde edifícios, serviços e espaços externos estão em perfeita harmonia. A Bienal de São Paulo, de 1953, recebeu críticos de diversas nacionalidades. Walter Gropius, arquiteto e crítico alemão, deixou a sua declaração para a Architectural Review (BENEVOLO, 2009, p. 714 apud GROPIUS, 1953): Gropius com sua habitual atitude compreensiva, se compraz com a originalidade do movimento moderno brasileiro, pela adaptação das contribuições internacionais ao clima e aos hábitos do meio e valoriza sobretudo as obras cujo projeto arquitetônico se relaciona equilibradamente com o entorno urbano, tal como o Pedregulho, de Reidy. FIQUE DE OLHO O MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) disponibilizou para download “Brazil Builds”: o livro que apresentou a arquitetura brasileira para o mundo. Você pode acessá-lo pelo link disponível nas referências bibliográficas. 97 Ainda conforme Benevolo, (2009, p. 714) Max Bill, arquiteto e designer suíço, critica duramente o conjunto modernista brasileiro, juntamente com a arquitetura de Niemeyer. Acusando-os de utilizarem a curtain wall, o brise-soleil e os pilotis como uma fórmula convencional, tal quanto as colunas e os frontões para os neoclássicos. Argumentou, ainda, que não resolvem as necessidades locais e são utilizados como uma poética pré-concebida, com exceção ao pedregulho, o qual julga recomendável em todos os sentidos. 2 AS CIDADES BRASILEIRAS NO SÉCULO II O vertiginoso crescimento urbano, verificado nas cidades brasileiras do século XIX, se estendeu durante o século XX. Se durante o século XIX houve a forte influência dos sanitaristas, como visto na Paris de Haussmann, o século XX brasileiro é influenciado pelos movimentos de vanguarda europeu, os quais cabem até hoje como crítica às cidades que aqui também surgiram no período dito moderno. 2.1 A influência dos movimentos urbanísticos europeus Como vimos anteriormente, os movimentos de vanguarda europeu só tiverem reflexos no Brasil, mais especificamente na arte e na literatura, de por volta de 1912. Porém, também existiram movimentos de vanguarda europeus nas experiências urbanísticas de 1890 a 1914, como o progresso das leis e das experiências urbanísticas, os ensinamentos de Camillo Sitte, o movimento das cidades-jardim, a cidade linear de Arturo Soria y Mata e a atividade urbanística de Berlage. Essas experiências refletiram nas cidades brasileiras do século XX. Camilo Sitte, arquiteto austríaco (1843-1903), revela os inconvenientes da cidade moderna: monotonia, regularidade excessiva, simetria a qualquer custo, espaços inarticulados e desproporcionais à arquitetura. Em contraponto aos méritos das cidades medievais, com ambientes pitorescos articulados segundo suas funções, com composições assimétricas, com hierarquia de espaços (BENEVOLO, 2009, p. 352). Sitte chegou a propor soluções aos problemas modernos: os espaços inarticulados ou muito grandes podem ser subdivididos com novas construções, a simetria pode ser suavizada com uma assimetria parcial, os monumentos podem ser deslocados do centro geométrico das praças para locais mais distanciados (BENEVOLO, 2009, p. 352). Suas principais colaborações foram: despertar o interesse pelos ambientes das cidades antigas (antepondo-se à demolição indiscriminada praticadapor Haussmann) e suas sugestões formais simplistas de intervenção em ambientes existentes (BENEVOLO, 2009, p. 352). O movimento das cidades-jardim de Hebenezer Howard (1850 1928), urbanista inglês, é uma utopia de uma cidade autossustentável, rodeada por um cinturão agrícola, conforme descreve 98 Maria Souza de Andrade (2003): A visão utópica de Howard foi uma tentativa de resolver os problemas de insalubridade, pobreza e poluição nas cidades por meio de desenho de novas cidades que tivessem uma estreita relação com o campo. Ele apostava nesse casamento cidade-campo como forma de assegurar uma combinação perfeita com todas as vantagens de uma vida urbana cheia de oportunidades e entretenimento juntamente com a beleza e os prazeres do campo Cidade linear de Arturo Soria y Mata (1844-1920) O engenheiro espanhol, impressionado pelo congestionamento da cidade tradicional, concêntrica, propõe uma rua central, com uma faixa larga percorrida por um ou mais ferrovias ao longo do seu eixo. Soria projeta uma cidade linear em forma de ferradura em torno de Madrid, que acabou não se realizando. Sua ideia foi desenvolvida efetivamente pela geração seguinte e parcialmente aplicados na Rússia e na cidade linear industrial de Le Corbusier (BENEVOLO, 2009, p. 364). Atividade urbanística de Berlage (1856-1934) É de extrema importância e se baseia na aplicação de uma lei geral, a holandesa, de 1901, que distingue as escalas de projetar: plano geral, plano particularizado e projeto arquitetônico. Os trabalhos de Berlage fazem parte da administração de várias cidades holandesas e rapidamente são adotadas por outros países, como a Alemanha. Ele desenvolve o plano de ampliação de Amsterdã Sul, entre 1902 e 1917 (BENEVOLO, 2009, p. 364). 2.2 A cidade moderna brasileira Vimos anteriormente a crítica de Max Bill, durante a Bienal de São Paulo de 1953, ao formalismo adotado pela arquitetura moderna, que parece obedecer bem às necessidades do nosso jovem capitalismo em ascensão e exige uma representação simbólica apropriada, encontrando, na arquitetura moderna, uma âncora. Porém, se distancia dos preceitos modernistas europeus nas “relações entre forma geométrica e escala, pois cada motivo formal particular contém um significado emocional que lhe permite sobressair isoladamente; a composição torna- se, assim, elementar, abreviada, (...)” (BENEVOLO, 2009, p. 716). Essa composição não se integra com o ambiente urbano, comprometendo sua unidade, mas pode ser resolvida com iniciativas urbanísticas em escala adequada. Juscelino Kubitschek, até então governador de Minas Gerais, é eleito presidente em 1955 e dá novo impulso ao planejamento urbano, possibilitando aos arquitetos a atuação em uma nova escala, com experiências nunca antes realizadas (BENEVOLO, 2009, p. 716). Iniciam-se, neste período, obras importantes, previstas no Plano Diretor do Rio de Janeiro, como o Aterro do Flamengo, proposto em 1961, o qual é fruto de um lento processo de maturação: 99 Estas idéias fundamentais para o urbanismo do Rio de Janeiro vinham sendo maturadas desde o Plano Agache (1927-1930). Nas diferentes soluções urbanísticas elaboradas pelo Departamento de Urbanismo para a cidade do Rio, o arquiteto Affonso Eduardo Reidy teve um papel fundamental, atuando desde 1929, como estudante assistente de Agache e depois como Diretor do Departamento a partir de 1947 e mais efetivamente ao retomar suas propostas de urbanização do Aterro a partir de 1961. (OLIVEIRA, 2006) Com paisagismo do renomado arquiteto Roberto Burle-Marx, o Aterro do Flamengo “é antes de tudo uma importante experiência no contexto brasileiro em termos de utilização de um parque como instrumento específico de planejamento urbano (..)” (OLIVEIRA, 2006). Figura 1 - Aterro do Flamengo, com paisagismo de Roberto Burle Marx. Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, península sinuosa formando um parque verde, com pista de caminhada, à beira da baia de Guanabara, esta com água em tom azul escuro. Ao fundo é possível ver o morro da Urca com sua pedra saliente em um dia de céu claro e poucas nuvens. Porém, o maior empreendimento de Kubitschek é a construção de Brasília, a nova capital do país que surge no interior. A transferência da sede política é indispensável para dar início a um vasto programa de transferência do litoral para o interior de uma parte da população e das iniciativas econômicas (BENEVOLO, 2009, p. 716). 2.3 A experiência de Brasília Brasília foi uma experiência única no mundo. Foi criada, a partir do zero, uma nova cidade. Para isto, o presidente Juscelino Kubitschek nomeou uma comissão para a escolha do local, a firma americana D. J. Belcher & Ass, que propôs cinco localizações possíveis. A escolhida é um planalto levemente ondulado no Estado de Goiás. Niemeyer foi nomeado diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Para o plano 100 urbanístico, recomendou um concurso de projetos, em setembro de 1956, com prazo de seis meses. Os elementos de entrega serão somente dois: um traçado básico em escala 1:25000 e um relatório justificativo. O projeto vencedor, de Lúcio Costa, foi apresentado em cinco laudas, com desenhos todos feitos a mão livre. Ele descreve a proposta da seguinte maneira: Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz. Procurou-se depois a adaptação a topografia local, ao escoamento natural das águas, à melhor orientação, arqueando-se a um dos eixos a fim de contê-lo no triângulo equilátero que define a urbanizada. (BENEVOLO, 2009, p. 716 apud HOLFORD, p.399) Ambos os eixos se desenvolvem em torno de uma ampla avenida. No eixo Norte-Sul são dispostos os setores residenciais com eixos de interseção dotados de plataformas e setores recreativos. O eixo Leste-Oeste forma o eixo monumental do novo centro político, com os principais edifícios em torno de uma praça triangular, a praça dos Três Poderes: o Palácio do Governo, do Supremo Tribunal e do Congresso. (BENEVOLO, 2009, p. 718). Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, vista aérea em perspectiva da edificação do Congresso Legislativo, a qual repousa ao centro em uma praça ampla, verde, cercada por duas avenidas. Edificação em cores brancas, se desenvolve maneira linear sobre pilotis. Possui rampa de acesso ao pavimento superior passando sobre espelho d’água. Sobre ela repousam dois outros volumes, um em cada lado, um côncavo e outro convexo. Ao fundo duas torres altas e esguias. Ao fundo, pôr do sol no horizonte. As zonas residenciais são articuladas em blocos muito amplos, a superquadra e as edificações são baixas e representam o homem no nível individual de sua existência: As superquadras foram implantadas no sentido da curvatura das curvas de nível, com o gabarito máximo de seis pavimentos, permitindo que as copas das árvores e as coberturas dos edifícios estivessem, invariavelmente, em uma altura relativamente próxima umas das outras. A superquadra é uma das faces humanas da cidade as quais os críticos mais contumazes, por uma capacidade limitada 101 ao intransitivo, não conseguem vislumbrar. (LAUANDE, 2007) A Catedral Metropolitana de Brasília, obra de Oscar Niemeyer de 1958, está situada em local afastado para valorizar sua monumentalidade. Niemeyer optou por subverter o usual dos edifícios religiosos e fica evidente a sua liberdade, sem angústias e inquietudes éticas com a religião, fatores limitantes aos europeus. Conforme Barnabé (2007) “O partido geral define-se pela contraposição entre a intensa luminosidade externa tropical e uma luminosidade interna resultante da transposição da luz natural através das peles duplas do envoltório da cúpula da catedral (..)”. Fonte: Schutterstock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, edificação ao centro com pilares em concreto branco em forma de bumerang e interseção entre eles em vidro, formando uma planta circular. No topo, uma delgada cruzbranca. Benevolo (2009, p. 720) compara o projeto de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer às críticas de Haussmann em sua época: (...) Até mesmo a discussão sobre Brasília assemelha-se à que era feita há um século sobre Paris: existe uma polêmica imediata sobre a natureza dos instrumentos adotados, indubitavelmente artificiosos, e existe uma expectativa sobre os resultados obtidos ao se aplicar esses instrumentos em circunstâncias de fato novas, antecipando-se em muitos aspectos aos problemas das cidades futuras. (BENEVOLO, 2009, p. 720) Sobre a influência dos urbanistas de vanguarda europeus, Torelly (2016) comenta: Um olhar cuidadoso, percebe além dos onipresentes princípios do urbanismo modernista, contidos na Carta de Atenas, elaborada em 1933, pelo Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. A presença do ideário dos socialistas utópicos do século XIX, da Cidade Jardim, do inglês Hebenezer Howard, da Cidade Linear, do espanhol Arturo Soria y Mata e da Cidade Industrial do francês Tony Garnier, se manifestam na estrutura viária, em sua relação com os edifícios e com o verde que a tudo emoldura. (TORELLY, 2016) 102 Brasília recebe duras críticas até os dias de hoje, com sua divisão extrema da cidade em setores, o que aumenta o deslocamento em veículos e cria cidades dormitórios, inseguras, com o esvaziamento das zonas residenciais durante o dia. Porém, para muitos, Lúcio Costa “(...) nos deixou como legado está, na realidade, muito além de sua produção, que estendida às suas reflexões, pode ser convertida em ensinamentos atemporais com utilidade em qualquer lugar” (LUANDRE, 2007). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 103 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • promover a compreensão da evolução histórica da arquitetura e do urbanismo no Brasil durante o século XX; • entender o processo de sobreposição dos estilos neocolonial e moderno e como eles se relacionam com as ideias racionalistas e nacionalistas; • conhecer os principais arquitetos do período moderno brasileiro e suas principais obras; • aprender a influência dos urbanistas europeus na formação das cidades brasileiras; PARA RESUMIR BENEVOLO, L. História da Arquitetura Moderna. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. BARNABÉ, P M. M. A luz natural como diretriz de projeto. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 084.01, maio, 2007. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ arquitextos/07.084/244. Acesso em: 08 abr. 2020.20. BRUAND, Y. A Arquitetura Contemporânea no Brasil. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2018. FIORE, R. H. Warchavchik e o manifesto de 1925. Arqtexto. Porto Alegre, n. 2, p.76- 87, 2002. Disponível em: https://www.ufrgs.br/propar/publicacoes/ARQtextos/PDFs_ revista_2/2_Renato%20Fiore.pdf. Acesso em 08 abr. 2020. GOODWIN, P. L. Construção brasileira: arquitetura moderna e antiga 1652-1942. Nova Iorque, 1943. Disponível em: https://www.moma.org/documents/moma_ catalogue_2304_300061982.pdf. Acesso em: 08 abr. 2020 KESSEL, C. Vanguarda efêmera: arquitetura neocolonial na Semana de Arte Moderna de 1922. Estudos Históricos (Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, v. 2, n.30, p. 110-128, 2002. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/ view/2177/1316. Acesso em: 08 abr 2020. L., Francisco. O projeto para o Plano-piloto e o pensamento de Lúcio Costa. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 087.08, ago. 2007. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/ revistas/read/arquitextos/08.087/223. Acesso em: 08 abr 2020. MARIA SOUZA DE ANDRADE, L. O conceito de Cidades-Jardins: uma adaptação para as cidades sustentáveis. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 042.02, nov. 2003. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.042/637. Acesso em: 08 abr. 2020. OLIVEIRA, Ana Rosa de. Parque do Flamengo:. Instrumento de planificação e resistência. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 079.05, dez, 2006. Disponível em: https://www. vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.079/288 Acesso em: 08 abr 2020. TORELLY, L. P. Brasília. 50 anos da realização do Plano Piloto. Drops, São Paulo, ano 07, n. 017.03, dez. 2006. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ drops/07.017/1703. Acesso em: 08 abr 2020. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS História da arquitetura e urbanismo IV é um livro direcionado para estudantes dos cursos da área de arquitetura e urbanismo.além de abordar assuntos triviais, o livro traz conteúdo sobre a história da arquitetura, o neoclassicismo e as cidades do século XIX, e o modernismo e as cidades do século XX, Após a leitura da obra, o leitor vai compreender os fundamentos da arquitetura neoclássica brasileira, como ocorreu a sua formação, de que maneira trouxe a noção de civilidade; aprender como eram as cidades no período da Revolução Industrial e como as cidades brasileiras se desenvolveram no século XIX; entender como a estratificação social do Brasil influenciou a arquitetura; conhecer algumas das mais importantes obras neoclássicas brasileiras; saber as principais características da arquitetura eclética no Brasil; compreender os processos de transformação social e urbana pelos quais o país passou a partir da segunda metade do século XIX; aprender a influência dos urbanistas europeus na formação das cidades brasileiras, saber sobre a formação da cidade de Brasília, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! Capa E-Book_História da Arquitetura e Urbanismo IV_CENGAGE E-Book Completo_História da Arquitetura e Urbanismo IV_CENGAGEPara sistematizar o ensino de artes e integrar o país à produção artística que se fazia na Europa, a corte trouxe ao Brasil a Missão Artística Francesa em 1816. Coube, então, ao arquiteto Grandjean de Montigny criar o primeiro curso de arquitetura no Brasil, que passaria a ensinar história, desenho e construção. Influenciadas pela presença da corte e em estreito contato com a cultura europeia, as elites locais passaram a encomendar palacetes de inspiração francesa para servirem de residência e escolas, teatros e bibliotecas entraram no repertorio da produção arquitetônica brasileira. Para além das novas construções, muitas vezes, edifícios coloniais eram inteiramente reformados de acordo com a estética neoclássica (PEREIRA DOS SANTOS, 2014). O Rio de Janeiro, que já tinha uma importância estratégica desde o século XVI, devido a sua 13 condição geográfica privilegiada, seria o centro irradiador dessa produção, o que contribuiu para que se tornasse uma cidade mais organizada, além de cosmopolita e diversificada. Em 1817 foi inaugurado o edifício da Associação Comercial da Bahia, um dos primeiros em estilo neoclássico no Brasil. Em 1826, foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o edifício da Academia Imperial, do qual permanece, em nossos dias, apenas o portal (transferido para o Jardim Botânico). No Recife, foram construídas obras neoclássicas relevantes como o Teatro Santa Isabel (1850), o Hospital Pedro II (1861) e o Ginásio Pernambucano (1866). A partir daí, diversas obras foram construídas, ampliadas ou reformadas de acordo com as diretrizes estilísticas do neoclassicismo e a maioria delas no Rio de Janeiro, como a Quinta da Boa Vista (atual Museu Nacional, ampliado na década de 1850); a Santa Casa de Misericórdia (1852) e o Palácio Imperial (atual Museu Imperial, em Petrópolis, 1862). O estilo neoclássico também foi utilizado para a qualificação de espaços públicos, como o Passeio Público do Rio de Janeiro, completamente redesenhado em 1864 pelo paisagista francês Auguste Glaziou, a pedido do imperador D. Pedro II. Apesar de uma produção acadêmica relevante, a Missão Artística Francesa deixou um legado construído escasso. Contudo, sua influência pode ser reconhecida na extensa produção daqueles que estudaram e conviveram na Academia Imperial com os mestres franceses. O predomínio do neoclassicismo se estendeu às outras artes como música, pintura e literatura. As óperas de Carlos Gomes e as pinturas de Taunay e Debret destacam-se como algumas das produções mais significativas desse período, incorporando os clichês mitológicos típicos desse estilo (SCHWARCZ, 2011). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.4 Arquitetura do ferro no Brasil O desenvolvimento industrial inaugurou novas técnicas estruturais e tipologias arquitetônicas, 14 como fábricas, armazéns e estações de trem. Os materiais utilizados para essas construções foram o ferro forjado, o ferro fundido e o aço, devido à sua alta resistência, leveza compositiva e capacidade de vencer grandes vãos (BENEVOLO, 1998). A inauguração da Torre Eiffel, em 1889, foi responsável pela popularização do uso do ferro nas construções civis em todo o mundo. Na segunda metade do século XIX, o romantismo surge como uma resposta à racionalidade econômica e ao embrutecimento das cidades, consequentes da Revolução Industrial. O romantismo se expressou nas mais diferentes artes, apresentando a dicotomia entre o esplendor da natureza (idealizada) e a miséria urbana e social da cidade industrial. Ele abriu caminho para a popularização de outros dois estilos, o revivalismo e o ecletismo, que recuperavam influências menosprezadas pelo ideário iluminista, produzindo uma arquitetura historicista que utilizava materiais construtivos modernos. Em 1865, foi inaugurada a primeira estrada de ferro em São Paulo, ligando dois bairros da capital. Contudo, a partir da década de 1880, a produção industrial permitiu a expansão das ferrovias e a criação de linhas de bonde, e, com isso, as cidades passaram a se integrar cada vez mais (BASSANI; ZORZETE, 2014). Em 1885, por exemplo, é inaugurada a Estrada de Ferro Curitiba- Paranaguá, com quase 110 quilômetros de extensão, ao longo dos quais foram erguidas algumas das mais impressionantes obras de engenharia da história do Brasil. Devido à característica eminentemente agrária e exportadora da economia brasileira, a maioria das peças eram fabricadas na Europa e importadas. Uma das obras mais significativas que utilizam esse material é o Viaduto Santa Ifigênia, uma estrutura de 300 metros de comprimento sobre o Vale do Anhangabaú em São Paulo (BASSANI; ZORZETE, 2014). A adaptabilidade do ferro permitiu seu uso nas mais diferentes obras de arquitetura civil, como mercados, teatros, bibliotecas, hotéis e residências. A maioria dessas obras de arquitetura exploraria tanto as possibilidades plásticas do ferro, utilizando-o como elemento decorativo, quanto seu potencial como elemento estrutural (BENEVOLO, 1998). O ferro também seria muito utilizado na produção eclética. Alguns dos exemplares mais significativos no Brasil são o Mercado Municipal Adolpho Lisboa (1883), em Manaus; a Estação Ferroviária do Bananal (1888), em São Paulo; o Mercado Ver-o-Peso (1901), em Belém; e o Teatro José de Alencar (1910), em Fortaleza. Apesar da composição eclética de sua fachada e dos seus interiores, a Estação da Luz (1901) em São Paulo também é um exemplar notável da arquitetura do ferro. 1.5 Imigração: uma nova configuração da sociedade brasileira A abolição da escravatura, em 1888, permitiu que o Brasil recebesse grandes contingentes de imigrantes, oriundos principalmente da França, Inglaterra, Itália e da Alemanha. Em troca de salário, uma novidade na sociedade brasileira profundamente ligada à escravidão, esses imigrantes trariam um aporte de conhecimento técnico, que contribuiria para redefinir a estética 15 e a fisionomia das cidades brasileiras. Além da sua contribuição técnica, os imigrantes alteraram a própria configuração demográfica brasileira, que até o século XIX era constituída majoritariamente por portugueses, índios e escravos africanos e seus descendentes (CAVALCANTI, 200-?). A abertura proporcionada pela industrialização e os fluxos migratórios permitiu a construção de novos tipos de arquitetura, como edifícios comerciais, vilas de operários e casas com jardins (REIS FILHO, 2000). Através da utilização de sua perícia construtiva, os imigrantes contribuiriam tanto para introduzir novas técnicas como para dar uma nova fisionomia às cidades brasileiras. 1.6 Ecletismo no Brasil república Em 1889, com a Proclamação da República, as elites econômicas e intelectuais passaram a rejeitar a herança cultural portuguesa, buscando inspiração e influências em outras partes da Europa. Devido ao historicismo e ao aporte dos imigrantes, o revivalismo e o ecletismo passam a ser disseminados, utilizando e, até mesmo, combinando estilos do passado em uma mesma edificação. A Academia Imperial é rebatizada como Escola Nacional de Belas-Artes, e são introduzidos cursos de pintura, escultura e gravura. O ensino de ornatos, composição arquitetônica e pintura decorativa é mantido (PESSOA DOS SANTOS, 2014). A afirmação do Brasil como uma república refletia no luxo e na escala monumental dos novos projetos urbanos, como a reurbanização do Rio de Janeiro, promovida pelo prefeito Pereira Passos (que ordenou a demolição de inúmeras edificações coloniais para a abertura de avenidas e a construção de grandes edifícios públicos em estilo eclético afrancesado), e a construção do Museu de História Natural em São Paulo (atual Museu Paulista). O arquiteto Ramos de Azevedo se tornaria uma das figuras mais importantes da produção eclética nacional. O ciclo do café, que se estendeu do início do século XIX até a primeira metade da década de 1930, estabeleceu uma nova e pujante elite econômica em São Paulo, que patrocinou a construção de obras monumentais como a Estação da Luze a Estação Júlio Prestes (BASSANI; ZORZETE, 2014). A inspiração deixaria de ser apenas europeia e passaria a vir dos Estados Unidos, que se afirmava como uma potência econômica e produzia uma arquitetura que testava os limites e possibilidades de materiais construtivos, como aço e ferro, especialmente em cidades como Nova York e Chicago. No norte do Brasil, a partir da década de 1890, o ciclo da borracha permitiria o surgimento de uma elite interessada em reproduzir o estilo da chamada belle époque francesa. Essa elite patrocinaria a construção de obras até então inimagináveis para aquela região, como o Teatro Amazonas, inaugurado em Manaus em 1896, e o Mercado de São Brás, inaugurado em Belém em 1911. De modo geral, assinala Reis Filho (2000), as edificações passaram a incorporar as recomendações 16 de urbanistas, afastando-se dos limites dos lotes e das vias públicas, incorporando jardins e recebendo instalações elétricas e hidráulicas, que mecanizavam o trabalho. Houve a mecanização da produção de materiais de construção, contribuindo para seu barateamento, maior acessibilidade e melhoria do acabamento das edificações. Sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto, por tanto tempo ignorados pelo poder público, foram incorporados ao planejamento urbano, mas não foram universalizados. Surgiram, também, os bairros planejados, promovendo um afastamento das áreas mais centrais, que começariam a ser vistas como insalubres e perigosas. Em síntese, a arquitetura brasileira do século XIX e início do século XX, seguindo o panorama internacional, apresenta três estilos predominantes: neoclássico, revivalismo e ecletismo (PESSOA DOS SANTOS, 2014). Contudo, nem a utilização de materiais industrializados foi capaz de substituir totalmente as técnicas construtivas consagradas durante o período colonial (REIS FILHO, 2000). Alguns edifícios significativos desse período no Brasil são o Palácio Guanabara (Rio de Janeiro, 1864), a Catedral Basílica de Curitiba (1893), a Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro, 1910) e os Palacetes Prates (São Paulo, 1911). 1.7 Brasil moderno A ascensão de Getúlio Vargas ao poder, na década de 1930, representou o fim da supremacia agrícola e dos ciclos econômicos e o favorecimento da industrialização. Assim, o Brasil começava a deixar de ser um país rural para se tornar urbano. Essa mudança do eixo de poder e a reorientação política que se seguiu beneficiou uma nova vanguarda artística e intelectual: o modernismo. Especialmente a partir da inauguração do edifício-sede do Ministério da Educação (atual Palácio Gustavo Capanema), na década de 1940, um projeto de Lucio Costa, o modernismo assumiria o protagonismo na configuração urbana das cidades brasileiras. Interessados em recuperar a herança colonial, que consideravam a única legitimamente brasileira, os modernistas rejeitaram a produção eclética, que foi sistematicamente demolida para a construção de imponentes edifícios de vidro e concreto armado. O despojamento de ornamentos e as linhas retas são características marcantes da arquitetura produzida a partir dessa época. FIQUE DE OLHO No século XX, a Escola Nacional de Belas-Artes (outrora Academia Imperial) seria incorporada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, responsável pela formação de mestres do modernismo, como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Assim como o neoclássico rompeu com o barroco e o rococó, o modernismo romperia com o academismo dos estilos precedentes. 17 Nos anos 1950, a afirmação do Brasil como uma potência abriu caminho para profundas mudanças sociais e culturais que repercutiriam em todo o mundo. Houve uma inédita confluência de interesses entre a elite política, empresários, artistas e intelectuais progressistas. Grandes nomes do modernismo como Walter Gropius e Le Corbusier visitaram o país. O domínio da produção arquitetônica carioca começaria a ser rivalizado pelos arquitetos da chamada Escola Paulista, como Vilanova Artigas (BASSANI; ZORZETE, 2014). Além disso, de acordo com Reis Filho (2000), pela primeira vez haveria uma reorganização da relação entre lote e edificação, permitindo alterações estruturais, e não apenas estéticas, das cidades brasileiras. A construção de Brasília (1956-1960) seria a expressão máxima das ideias do modernismo no Brasil, tanto em termos de arquitetura quanto de planejamento urbano. O modernismo só começaria a ser questionado a partir dos anos 1970, com a fragmentação do ambiente construído em zonas desconexas e desarticuladas (Cullen, 2002), em parte devido à segmentação do espaço urbano em unidades funcionais. Todos esses temas serão analisados e discutidos nesta e nas próximas unidades da disciplina História da Arquitetura e Urbanismo IV. FIQUE DE OLHO Para entender alguns aspectos pitorescos da evolução política e social do Brasil durante os séculos XIX e XX, consulte os livros indicados a seguir. Embora não sejam escritos por historiadores profissionais, apresentam uma linguagem acessível e uma bibliografia confiável. 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes (Globo Livros); 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram dom Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado, de Laurentino Gomes (Globo Livros); 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil, de Laurentino Gomes (Globo Livros); A capital da solidão: Uma história de São Paulo das origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo (Editora Objetiva); A capital da vertigem: Uma história de São Paulo de 1900 a 1954, de Roberto Pompeu de Toledo (Editora Objetiva). 18 2 BREVE REVISÃO DO NEOCLASSICISMO Neste tópico, você terá a oportunidade de revisar os processos que tornaram possível o surgimento do neoclassicismo. Além de uma contextualização dos aspectos históricos envolvidos, você poderá rever as principais características que definem o estilo neoclássico. 2.1 Contexto histórico No século XVIII, devido à Revolução Industrial, uma nova e pujante elite burguesa começava a assumir o protagonismo na Europa e as monarquias absolutistas começavam a entrar em declínio. Essa burguesia exigia maior liberdade política e econômica e essas ideias eram defendidas por um movimento filosófico conhecido como Iluminismo. Os iluministas assimilaram os ideais estéticos de racionalismo e equilíbrio da Antiguidade clássica e do Renascimento como a inspiração para suas ideias acerca de ciência, educação e democracia. O progresso científico passou a exigir um novo aparelhamento de edifícios e instalações, dando um novo significado à arquitetura (BENEVOLO, 1998). O neoclassicismo é a expressão artística das ideias difundidas pelo Iluminismo. A palavra “neo” significa “novo”. Assim, o neoclássico foi um movimento artístico que buscava recuperar a herança cultural da Antiguidade clássica e do Renascimento, com seu ideal de beleza estática e abstrata, em oposição à extravagância e frivolidade do barroco e do rococó. Apesar do apuro técnico derivado do conhecimento científico e a ruptura com os excessos anteriores, alguns críticos definem o neoclassicismo como sendo apenas uma imitação dos modelos greco-romanos e renascentistas (PROENÇA, 2007). O próprio termo neoclássico parece ter surgido como uma definição pejorativa para esse estilo empenhado em reproduzir modelos com esmero e virtuosismo. Benevolo (1998) apresenta duas correntes de pensamento dentro do neoclassicismo, a saber: Neoclassicismo ideológico Entendimento da arquitetura como uma arte com profissão de fé política e que admite um valor cultural e sentimental. Neoclassicismo empírico Busca pela resolução técnica de problemas construtivos, sem levar em conta os aspectos sentimentais. 19 Além do pensamento iluminista, o neoclassicismotambém foi influenciado pelas , tradicionais expedições turísticas e arqueológicas de estudantes europeus promovidas ao longo do século XVIII nos territórios da Grécia antiga e do Império Romano. Essas expedições foram essenciais para consolidar o gosto pela estética clássica, além de fomentar o desenvolvimento de um novo campo de estudos, o restauro de edifícios e monumentos históricos. Apesar de uma matriz comum, o neoclassicismo teve as mais diferentes expressões de acordo com o país onde foi incorporado. 2.2 Características do neoclassicismo Proença (2007) explica que os artistas neoclássicos acreditavam que “Uma obra de arte só seria perfeitamente bela na medida em que imitasse não as formas da natureza, mas o que os artistas clássicos gregos e os renascentistas já haviam criado”. Assim, as escolas de arte passaram a se dedicar no ensino dessas técnicas e convenções da arte clássica, o que está na raiz da palavra academismo, que é uma outra definição para a arte neoclássica. Os edifícios neoclássicos deveriam ilustrar a dignidade e o poder das funções que abrigariam. A arquitetura neoclássica pode ser identificada a partir de algumas características essenciais, elencadas a seguir (PROENÇA, 2007): • Valorização das artes e arquiteturas greco-romanas e renascentistas; • materiais construtivos de mármore, granito e madeira para fachadas e salões nobres, e materiais funcionais de baixo custo, produzidos em larga escala, como ferro fundido e ladrilho cerâmico; • pórtico de colunas com capitéis, arrematado por um frontispício triangular, projetados com maior ou menor intensidade da fachada; • pintura e ornamento de fachadas, em geral, brancos ou em tons pastéis; • uso de ornamentos esculpidos, como frisos, folhagens e festões; FIQUE DE OLHO O Iluminismo recupera um dos aspectos mais interessantes do Renascimento: o artista polímata, capaz de transitar por diversas áreas do conhecimento. Leonardo da Vinci é a expressão máxima desse tipo de personagem. Nos Estados Unidos do final do século XVIII surgiram figuras que também atuavam em diferentes especialidades como Benjamin Franklin (filósofo e inventor) e Thomas Jefferson (arquiteto, inventor, fazendeiro e terceiro presidente daquele país), ambos signatários da Declaração de Independência em 1776. 20 • uso de cúpulas, rotundas e abóbadas de berço para coroar os edifícios; • Composição simétrica e equilibrada (espelhada) das fachadas; • valorização do espaço urbano, para ressaltar e valorizar a monumentalidade das edifica- ções e permitir sua contemplação integral; • valorização do projeto arquitetônico e do desenho funcional de inspiração palladiana (arquiteto renascentista Andrea Palladio). 3 INTRODUÇÃO DO NEOCLASSICISMO E SEU SIGNIFICADO IDEOLÓGICO NO BRASIL A seguir, você irá estudar os processos históricos que trouxeram o neoclassicismo ao Brasil. Na sequência, você vai aprender sobre a importância da Missão Francesa na difusão do estilo neoclássico. Depois, você poderá analisar algumas das características neoclássicas aplicadas na arquitetura brasileira. Por fim, você vai conhecer alguns dos mais significativos edifícios neoclássicos do Brasil. 3.1 Chegada do neoclassicismo ao Brasil Até o século XVIII, o barroco era a linguagem arquitetônica predominante das construções brasileiras. A maior parte das encomendas vinha da Igreja Católica, de modo que os edifícios mais suntuosos eram igrejas, colégios confessionais e conventos, ao passo que as casas e edifícios públicos eram mais discretos. Não havia um reconhecimento do artista como um profissional com formação específica, e o trabalho escravo era usado em larga escala. As cidades históricas de Minas Gerais são a expressão máxima dessa tradição colonial aqui, que inclusive produziu uma variação ímpar, o barroco mineiro, cujo representante maior é o escultor e arquiteto Aleijadinho. FIQUE DE OLHO Os edifícios neoclássicos apresentam cores sóbrias (brancos ou em tons pastéis) porque os arquitetos acreditavam que as construções da Antiguidade clássica eram monocromáticas. Isso se deve a uma interpretação equivocada da composição pictórica a partir das descobertas arqueológicas realizadas a partir do século XVIII. Como as ruinas estavam desprovidas de camadas de cor, acreditava-se que originalmente eram mantidas na cor dos materiais construtivos, predominantemente mármore e pedra. Porém, descobertas posteriores comprovaram que esses edifícios recebiam uma composição policromática, que desapareceu com o passar do tempo. 21 Contudo, ainda existem alguns exemplos pontuais de arquitetura barroca em diferentes partes do território nacional. As primeiras obras de estilo neoclássico aparecem no Brasil em meados do século XVIII, quando o Marquês de Pombal, um entusiasta das ideias iluministas, assume o cargo de primeiro- ministro de Portugal. Ele foi o responsável pela reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755, e as obras foram custeadas com o ouro extraído da capitania de Minas Gerais. Para facilitar o transporte do ouro para Portugal, ele transferiu a capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, o posto marítimo mais próximo das zonas extrativistas de Minas Gerais. Alguns dos edifícios em estilo neoclássico, construídos nessa época, foram a Casa de Câmara e Cadeia de Ouro Preto e a Igreja da Candelária no Rio de Janeiro. O neoclassicismo se difundiu pelo Brasil a partir da chegada da Missão Cultural Francesa no Rio de Janeiro em 1816, quase uma década após a instalação da família real portuguesa no país. A Missão Cultural Francesa era um grupo de artistas heterogêneos, entre os quais podemos destacar Joachim Lebreton, professor, artista e líder da missão; Nicolas-Antoine Taunay, pintor de paisagem; Jean Baptiste Debret, pintor e desenhista e Grandjean de Montigny, arquiteto. Essa missão também é conhecida como Missão Artística Francesa. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.2 Academia Imperial A Missão Cultural Francesa foi responsável por fundar a Academia Imperial de Belas-Artes, cujo objetivo era sistematizar o ensino de arte e arquitetura no Brasil. Foi a primeira instituição de ensino superior do país e, pela primeira vez, seria ensinado história, desenho, geometria e técnicas construtivas. Os alunos deveriam fazer reproduções fiéis dos cânones da arquitetura clássica para, depois, adaptá-las às necessidades e parâmetros modernos (PESSOA DOS SANTOS; PEREIRA; KOPPKE, 2018). 22 A Academia ambicionava uma europeização da nova sede do Reino de Portugal, mas muitos de seus projetos não saíram do papel devido alguns fatores como: • Forte tradição barroca, que resistia às transformações. • A escassez de mão de obra qualificada. • A necessidade de importar a maioria dos materiais construtivos. Os artistas da Missão Francesa viam uma mescla de empirismo, religiosidade, misticismo e extravagância no barroco, que não coadunava com suas aspirações. Essa europeização também não aconteceu plenamente porque a Academia acabou sendo influenciada pela própria exuberância da paisagem brasileira, que deu contornos locais indisfarçáveis à produção artística e arquitetônica daquela época. 3.3 Neoclassicismo oficial X neoclassicismo provinciano Antes da Academia, a produção artística brasileira era dependente de tradições locais e do trabalho artesanal e utilizava largamente a mão-de-obra escrava, que obviamente tinha um treinamento bastante precário. Não havia um registro documentado do conhecimento construtivo, pois a experimentação e o improviso eram comuns. A demanda dos nobres portugueses por edifícios mais refinados, em oposição à simplicidade e primitivismo das soluções coloniais, seria atendida pela Academia Imperial, que seguia o cânone neoclássico (REIS FILHO, 2000). Além de arquitetos, a Academia formaria vários profissionais especializados na ornamentação de edifícios. Essa busca por maior refinamento técnico era consoante com as transformações decorrentes da condição do Rio de Janeirocomo nova capital do Reino de Portugal. Por essa razão, a opção pelo estilo neoclássico se tornou uma forma de exibir o poder político, econômico e social, ficando restrito às cortes e classes mais abastadas. O fato de a produção neoclássica brasileira atender uma camada mais endinheirada não impedia que as classes menos abastadas adotassem algumas soluções neoclássicas em suas propriedades, mas com menor apuro técnico. Essa diferença acabou por gerar duas vertentes do neoclassicismo no Brasil, a saber: Ao longo do século XIX, à medida que os avanços técnicos da indústria permitiam a introdução de elementos produzidos em série, a ornamentação foi se tornando mais acessível para as demais camadas sociais. Elementos construtivos como ferro forjado, vidros coloridos e azulejos decorados se tornariam generalizados na prática arquitetônica (PEREIRA DOS SANTOS, 2014). Além disso, o enriquecimento proporcionado pela produção cafeeira permitiu que muitos proprietários rurais tivessem maior acesso ao que era produzido na Europa, dando início a um ciclo econômico que provocaria mudanças importantes na configuração da sociedade brasileira. 23 Neoclassicismo oficial Encomendas da nobreza e das classes mais abastadas, com tecnologia e materiais importados, como tijolos, ferro fundido e vitrais coloridos. Neoclassicismo provinciano Adaptações e simplificações feitas pela mão-de-obra escrava, em geral, sobre estruturas de taipa de pilão pré existentes. 3.4 Moradias neoclássicas Até o início do século XIX, as casas brasileiras eram térreas ou assobradadas, voltadas para a rua, avançando sobre os limites laterais e o alinhamento das ruas (testadas). Esse padrão construtivo, apesar de sua rudeza e vigor, garantia uma certa uniformidade morfológica aos edifícios e, por consequência, maior unidade urbana. Reis Filho (2000) explica que, apesar da introdução de certos confortos, o estilo neoclássico não promoveu uma ruptura com o estilo colonial de arranjo espacial das moradias. As fachadas eram arrematadas por platibandas cheias ou com balaustradas, que escondiam o telhado. Na prumada das pilastras locadas, na periferia do edifício, sobre essas platibandas, eram colocados vasos ou pequenas esculturas de diferentes significados (REIS FILHO, 2000). Elementos como calhas, vidros coloridos e telhados com quatro ou mais águas começaram a ser largamente utilizados nas novas construções. Com o neoclassicismo, as casas deixaram de ser térreas e incorporaram um porão, elevando o plano do andar principal, cujo acesso passou a ser feito por meio de uma pequena escada. O porão era utilizado como depósito ou área de serviço. Embora a separação entre as áreas íntima e de serviços fosse comum nas moradias desde o período colonial, a introdução de uma diferença de cota trouxe maior privacidade à vida doméstica (REIS FILHO, 2000). Em arquitetura, muitas vezes, altura equivale a privilégio (Cullen, 2002), de modo que a mudança de nível corresponderia a um tratamento diferenciado, em termos de elementos decorativos (cor, escala, qualidade dos materiais construtivos etc.). Além disso, esse zoneamento do arranjo residencial exacerbou a hierarquia entre a família do proprietário e os seus empregados. A segregação entre dominantes e dominados é um ranço colonial que se tornou uma das características permanentes da sociedade brasileira. Embora houvesse uma setorização funcional entre as áreas social, de serviços e a área íntima, as moradias neoclássicas mantiveram o arranjo colonial de estabelecer uma permeabilidade entre as alcovas. Assim, a privacidade era apenas entre moradores e visitantes, e não entre os próprios moradores (PESSOA DOS SANTOS; PEREIRA; KOPPKE, 2018). Do ponto de vista da sociologia, essa setorização servia como um meio de definir claramente os papéis 24 sociais, fortalecendo o poder patriarcal. Algumas das residências neoclássicas mais significativas ainda existentes são o Palácio Imperial, em Petrópolis; o Solar da Gávea, no Rio de Janeiro; e a Casa da Marquesa de Santos, na capital paulista. 3.5 Decoração de interiores neoclássica A clareza e rigor formal das fachadas neoclássicas contrastam com a rica ornamentação dos espaços interiores. As paredes recebiam uma rica policromia em tons pastéis, contrastando com as paredes exteriores revestidas com mármore ou estuque (PESSOA DOS SANTOS; PEREIRA; KOPPKE, 2018). As casas brasileiras neoclássicas buscavam reproduzir o estilo adotado pela burguesia francesa do século XIX. Contavam com amplos salões de luxuosa decoração e uma série de antecâmaras, que garantiam maior privacidade aos ambientes mais íntimos (PESSOA DOS SANTOS; PEREIRA; KOPPKE, 2018). Os salões principais das casas, destinados às recepções familiares, recebiam pintura e estuque ou eram decorados com papéis de parede. Utilizava-se mobiliário fino. As aberturas eram ornamentadas com pedra ou granito e eram voltadas para a rua. Essas aberturas podiam ser janelas de balcão, com peitoris de ferro e bandeiras de vidro (REIS FILHO, 2000). 3.6 Urbanismo neoclássico O estilo neoclássico também influenciou a morfologia urbana, com a abertura de novas ruas e a inclusão de passeios junto às casas. A preocupação dos arquitetos com as fachadas, eixos de simetria e a escala monumental dos edifícios implicava na alteração da configuração urbana, através da abertura de vias públicas que dessem projeção visual aos edifícios. A introdução de projetos paisagísticos permitiu a construção de jardins públicos com vegetação exuberante. O Passeio Público do Rio de Janeiro é o exemplo mais significativo ainda existente no Brasil. Com o passar do tempo, os lotes urbanos passaram a ter uma parcela reservada para um jardim, que deveria fazer a transição entre o passeio e a casa, entre o público e o privado. Essas mudanças vinham do paulatino entendimento, por parte de médicos e urbanistas, da necessidade de garantir maior arejamento nas edificações, para evitar a proliferação de doenças e conter o risco da propagação de incêndios. Códigos de posturas, que orientavam o ordenamento urbano, passaram a ser incorporados à legislação das cidades. O cuidado com o desenho urbano também aumentou a demanda por edifícios públicos de maior qualidade tectônica. Escolas, hospitais, teatros e mercados municipais começaram a ser erguidos nas principais cidades brasileiras, obedecendo ao rigor formal do estilo neoclássico. 25 Apesar de ser um estilo mais presente nos grandes centros urbanos, o neoclassicismo também foi utilizado em projetos de grandes propriedades rurais, especialmente aquelas que produziam café, como a Fazenda do Secretário, em Vassouras, no Estado do Rio de Janeiro. Contudo, o neoclassicismo não ofereceu qualquer solução para as demandas por habitação e saneamento que surgiriam com a industrialização do Brasil e o crescimento urbano desordenado. Apesar de algumas obras de estruturação sanitária (até então os dejetos das casas eram lançados diretamente nas sarjetas), as reformas urbanas eram em sua maioria inócuas, pois preocupavam- se meramente com os aspectos estéticos das cidades. 3.7 Legado do neoclassicismo Em linhas gerais, embora não seja uma definição hermética, podemos enquadrar o neoclassicismo como um estilo arquitetônico que, no Brasil, esteve presente da segunda metade do século XVIII até a primeira metade do século XX. Contudo, como você já viu, o neoclassicismo não provocou mudanças significativas na vida brasileira. Por que isso aconteceu? Lembre-se de que, durante trezentos anos, o Brasil foi apenas uma primitiva colônia de exploração, dependente do trabalho escravo. Portugal era uma monarquia absolutista bastante atrasada em relação a outras regiões europeias, de modo que as ideias de liberdade política e econômica do Iluminismo não eram defendidas com o entusiasmo que se observava na França, por exemplo. Além disso, a independência brasileira foi um processo sui generis, se comparado às revoluções que ocorreramnos Estados Unidos e em alguns países da América Latina. Não houve uma ruptura estrutural com o passado, na medida em que a escravidão e a monarquia foram mantidas e a economia continuou voltada para a exportação (SCHWARCZ, 2011). Assim, do ponto de vista ideológico, a arquitetura neoclássica acaba sendo uma experiência truncada no Brasil. Se nos Estados Unidos a sobriedade e rigor do estilo neoclássico se adaptavam bem aos ideais democráticos da jovem república, no Brasil, toda essa produção, era utilizada para explicitar e manter as rígidas hierarquias sociais. A sua inevitável incorporação pelas camadas populares, que a adaptavam a partir do seu escasso conhecimento técnico, dá um aspecto pitoresco ao neoclássico brasileiro. Embora a produção arquitetônica neoclássica no Brasil não seja tão vasta, nem tenha promovido mudanças estruturais no arranjo das cidades, os exemplares disponíveis devem ser preservados como memória da evolução urbana das cidades brasileiras. Muitos deles não são mais utilizados para seus fins originais (residencial ou governamental), abrigando atualmente museus e centros culturais. 26 3.8 Exemplos do neoclássico no Brasil Região Nordeste: Palácio dos Leões (São Luis – MA): localizado no centro histórico da capital maranhense, atualmente abriga a sede do governo estadual. Apresenta dois pavimentos, cujo caráter linear é acentuado pela sua implantação frente ao mar. Possui telhado oculto por platibanda, balaústres e aberturas arqueadas com padieiras (arremate das aberturas através de arcos ou triângulos). Região Norte: Theatro da Paz (Belém – PA): edifício que se projeta de maneira majestosa sobre a praça circundante. Apresenta no térreo aberturas arrematadas com arcos de inspiração renascentista, e um pórtico com colunas coríntias, arrematado por um frontão triangular, dentro do qual se desenvolve um tímpano ornamentado. Apresenta materiais como mármore italiano, pedras portuguesas e ferro fundido importado da Inglaterra. Figura 1 - Theatro da Paz. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Um edifício na cor salmão com pórtico formado por seis colunas pintadas de branco. Região Sudeste: Palácio do Itamaraty (Rio de Janeiro – RJ): edifício simétrico que apresenta um pórtico com colunas com capitéis jônicos, arrematado por um frontão triangular. A fluência rítmica das palmeiras que contornam o espelho d’água rompem a horizontalidade da composição, bem como evidenciam uma tentativa de dar à monumentalidade neoclássica do conjunto um sabor local. 27 Arquivo Nacional (Rio de Janeiro – RJ): fachada simétrica, apresentando pórtico com colunas jônicas, arrematado por um frontão triangular. Uso de materiais nobres como granito, mármore e vitrais coloridos. Pinacoteca (São Paulo – SP): exemplo do estilo neorrenascentista, é um edifício simétrico e regular com fachada de tijolos à vista, pode ser contemplado na totalidade a partir do jardim que o envolve. Figura 2 - Pinacoteca. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Um edifício simétrico de tijolos aparentes. Região Sul: Prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (Curitiba – PR): exemplo do que podemos chamar de um neoclássico tardio, pois foi completada em meados da década de 1940, após reformas da fachada original de 1912. Apresenta escadaria monumental que o eleva em relação à praça nivelada, frontões, colunata com capitéis coríntios, platibanda e arcos romanos. Atualmente, a percepção da monumentalidade do edifício está comprometida pela proximidade de diversos arranha-céus no entorno. 28 Figura 3 - Prédio histórico da UFPR. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Edifício simétrico pintado de branco, com um pórtico de seis colunas centralizado arrematado por um frontão triangular. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 29 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer um pouco mais sobre as características da sociedade brasileira na primeira metade do século XIX; • conhecer os processos históricos, sociais e culturais envolvidos na disseminação do estilo neoclássico no Brasil; • aprender sobre a importância da Missão Francesa na disseminação do neoclassicismo no Brasil; • entender como a estratificação social do Brasil influenciou a arquitetura; • conhecer algumas das mais importantes obras neoclássicas brasileiras. PARA RESUMIR BASSANI, J.; ZORZETE, F. São Paulo: cidade e arquitetura, um guia. 1 ed. São Paulo: Editor Francisco Maximiano Zorzete, 2014. 292 p. BENEVOLO, L. História da Arquitetura Moderna. 3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. 816 p. BENEVOLO, L. História da Cidade. 7 ed. São Paulo: Perspectiva, 2019. 864 p. BUARQUE DE HOLANDA, S. Raízes do Brasil. 26 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. CAVALCANTI, N. Arquitetura no Brasil. Biblioteca Nacional Digital. Disponível em: http:// bndigital.bn.gov.br/dossies/rede-da-memoria-virtual-brasileira/arquitetura-e-urbanis- mo/arquitetura-no-brasil/. Acesso em: 18 mar. 2020. CULLEN, G. Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 2002. 374 p. ELIAS, N. O processo civilizador. Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. 308 p. ELIAS, N. O processo civilizador. Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. 264 p. Itaú Cultural. Neoclassicismo. 2017. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org. br/termo361/neoclassicismo. Acesso em: 02 mar. 2020. LAART. Arquitetura neoclássica no Brasil: história, características e obras famosas., 2019. Disponível em: https://laart.art.br/blog/arquitetura-neoclassica-no-brasil/. Acesso em 02 abr. 2020. LORDELLO, E. A urbanidade brasileira sob as óticas de cosmopolitismo e tradição em “Raízes do Brasil”, 2005. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ar- quitextos/05.060/464. Acesso em: 01 abr. 2020. PESSOA DOS SANTOS, A. M.; PEREIRA, M. da S. (Org.); KOPPKE, K (Org.). Gosto neoclás- sico: atores e práticas artísticas no Brasil no século XIX. 1 ed. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2018. v.1. 350 p. PEREIRA, S. G. A historiografia da arquitetura brasileira no século XIX e os conceitos de estilo e tipologia. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre, v. XXXI, n. 2. p. 143-154, 2005. Disponível em: https://europe-nations.estudosculturais.com/pdf/0083.pdf. Acesso em: 02 abr. 2020. PESSOA DOS SANTOS, A M. As Artes Decorativas no Rio de Janeiro do Séc. XIX: um pa- norama, 2014. Disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/arquivos/file/artigos/ as_Artes_Decorativas_no_Rio_de_Janeiro_do_Sec_XIX.pdf. Acesso em: 02 abr. 2020. PROENÇA, G. História da Arte. 17 ed. 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Conheça alguns arquitetos que se distinguiram nesse período e formaram a concepção deste estilo arquitetônico, com características bem definidas. Entenda, ainda, como se desenvolveram as cidades do século XIX, as influências europeias advindas das cidades industriais, como a Paris de Haussmann, até às cidades de Rio de Janeiro e de São Paulo. Entenda também, como se dá o início da modernização na arquitetura e no urbanismo. Bons estudos! Introdução 35 1 NEOCLASSICISMO COMO SINÔNIMO DE CIVILIZAÇÃO NO BRASIL O neoclassicismo,no Brasil, surgiu de uma influência europeia, onde já era cultivado desde o século XVIII, e de uma necessidade de um partido formal que representasse as novas ideias advindas do mundo antigo. O novo estilo arquitetônico foi implantado após a chegada da Missão Artística Francesa no país, durante o Império, no século XIX, opondo-se aos estilos predominantes da época: o barroco e o rococó. Gomes Pereira (2005, p. 143), comenta sobre a tendência da historiografia em dividir rigidamente os estilos arquitetônicos: Grande parte da historiografia sobre a arquitetura brasileira do século XIX apresenta tendência dominante de trabalhar com divisões rígidas entre estilos, enfatizando a oposição entre barroco/ rococó e neoclassicismo no início do século e, depois, entre neoclassicismo e ecletismo no final do século XIX/início do XX. Essa postura decorre de uma outra noção generalizada na literatura sobre arte brasileira: a ideia (sic) de que há uma correspondência “natural” entre linguagens artísticas e períodos históricos; assim o barroco predominaria na Colônia, o neoclassicismo no Império e o ecletismo na Primeira República. Ainda assim, a divisão da história da arquitetura em estilos facilita a compreensão dos fatos. Porém, é notório que há momentos em que os estilos se sobrepõem. Além disso, se adaptam às condições climáticas, político-culturais, disponibilidade de mão de obra e materiais de cada povo. O estudo do neoclassicismo se faz necessário pois marcou fortemente a história da arquitetura e do urbanismo no mundo e possui um conjunto de características possíveis de agrupar. 1.1 Neoclassicismo europeu A arquitetura do neoclassicismo surgiu de duas evoluções diferentes, porém inter- relacionadas. A primeira foi o aumento da capacidade do ser humano de exercer controle sobre a natureza. A segunda foi uma mudança cultural devido as transformações que aconteciam na sociedade, com a aristocracia decadente e a burguesia ascendente (FRAMPTON, 2003, p. 3). Para os historiadores de economia, o período de 1760 a 1830 corresponde à Revolução Industrial. Já para os historiadores da arte, corresponde ao Neoclassicismo. O espírito iluminista da época, associado à tradição renascentista, adotam os modelos da arquitetura antiga - grega e romana -, juntamente com formas racionais de elementos construtivos como, por exemplo (BENEVOLO, 2009, p. 62): 36 • Colunas de sustentação vertical; • travejamento de sustentação horizontal; • cornijas nos cimos dos telhados; • tímpanos nos encontros entre dois planos de cobertura. Este espírito iluminista do século XVIII traz curiosidade a todas as aplicações técnicas e à industrialização dos processos de produção, e o emprego dos materiais tradicionais muda. Passam, então, a ser produzidos industrialmente, e com melhor qualidade, os produtos de olaria e madeiramento. Passam, também, a utilizar o vidro para janelas, no lugar do papel, e a ardósia ou a telha nas coberturas, em lugar de palha. Empregam largamente o ferro, nas cercas, nas ferragens para fechamentos, nas balaústras e por vezes nas estruturas de sustentação. (BENEVOLO, 2009, p. 56) Anterior a este período, a retomada do estilo clássico, realizada pelo arquiteto renascentista Andrea Palladio (1508-1580), foi uma das maiores influências ao neoclassicismo. Ele foi um dos primeiros a utilizar o frontão, característico dos templos gregos, como a cobertura de um pórtico. Um dos projetos mais conhecidos de Palladio é a Villa Capra em Veneza, 1567. Figura 1 - Villa La Rotonda, conhecida como Villa Capra, em Veneza, Itália. Projeto de Palladio em 1567. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, temos a fachada principal da edificação Villa Capra, constituída de frontão, em formato triangular, sustentado por seis colunas, formando um pórtico coberto de acesso. Para chegar ao pórtico, há uma extensa escadaria, formando um acesso monumental. Observa-se a existência do mesmo pórtico nas fachadas laterais. Após o pórtico, há o bloco principal, de forma retangular e marcado por uma cúpula central. Predominam os tons pastéis na edificação de planta simétrica. A Villa Capra está em um terreno com gramado verde, de ares bucólicos. 37 A Villa Capra possui planta baixa em forma de cruz, simétrica, com um corpo principal formando um quadrilátero, centralizado, com alas secundárias nas laterais e cúpula central. O pórtico monumental de entrada, com frontão, se repete em todas as fachadas. Figura 2 - Planta baixa e fachada da Villa Capra, em Veneza, Itália. Projeto de Palladio em 1567. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, temos o desenho da planta baixa e da fachada principal da edificação Villa Capra. Observa-se que o projeto possui quatro fachadas idênticas e combina duas formas simples, o cubo e a esfera. O cubo como edificação principal e a esfera como cúpula central. O arquiteto italiano, conforme citado por Mizoguchi e Machado (apud James Ackerman, in Palladio, Edizione Piccola Biblioteca Einaudi, 2006, p. 11), “(...) foi o mais largamente imitado e é possível que sozinho tenha influenciado o desenvolvimento da arquitetura inglesa e americana, mais do que todos os outros mestres renascentistas no seu conjunto”. 1.2 Missão Artística Francesa no Brasil No Brasil, o século XIX caracterizou-se por uma abertura à cultura europeia, francesa em particular, o que é facilmente explicável, uma vez que, no Rio de Janeiro, a população de cultura mediana sabia falar a língua francesa e convivia no cotidiano com a cultura francesa, tanto através do teatro como da literatura. Neste período, a elite brasileira, de um modo geral, aspira aos valores culturais europeus e às noções vigentes de modernidade e de civilização, manifestadas nos costumes, nas artes e na moda, com destaque para a arquitetura (SANTIAGO, 2011, p. 5). Sobre os estilos classicizantes, vigentes nesse período, BRUAND (2018, p.33) comenta sobre o que é neoclássico e salienta as diferenças regionais entre os dois grandes centros brasileiro: 38 No Brasil, costuma-se englobar sob o rótulo “neoclássico” todos os edifícios onde se pode notar o emprego de um vocabulário arquetetônico (sic) cuja origem distante remonta à Antiguidade greco- romana. Portanto, o que se convencionou chamar de neoclassicismo, na realidade, não passa de uma forma de ecletismo, onde é possível encontrar justapostos todos os estilos que utilizam colunas, cornijas e frontões, da Renascença italiana ao Segundo Império francês, passando pelo classicismo, pelo barroco e pelo verdadeiro neoclássico de fins do século XVIII e primeira metade do XIX. Assim, nessa categoria de obras não existe qualquer unidade profunda, mas apenas um certo parentesco, devido ao espírito acadêmico que marca as diversas construções desse tipo. Existem, contudo, diferenças regionais, que colocam em oposição principalmente os dois grandes centros, Rio de Janeiro, a capital federal, e São Paulo, a metrópole rival, de crescimento espantoso devido ao poderio econômico originado da comercialização do café. O neoclassicismo foi introduzido no Rio de Janeiro com a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816, a convite de D. João VI. O arquiteto Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny fundou, em 1822, a Escola/Academia de Belas Artes do Rio, da qual foi professor titular e introduziu o neoclassicismo puro, dando uma formação rígida, baseados nos princípios franceses na época da Revolução e do Império (BRUAND, 2018, p. 34). A arquitetura introduzida por Grandjean de Montigny, com o compromisso de estabelecer uma nova imagem à sede do Império, alterou a aparência de tradição lusa da cidade do Rio de Janeiro, dividindo a cidade com construções existentes de origem portuguesa mais populares, e as de influência francesa. Para muitos, o estilo neoclassicista surgiu para trazer a ideia de civilidade, uma renovação no comportamento social, mais adequados a corte portuguesa chegada em 1808 no nosso país, ou ainda, conforme Hoirisch e Ribeiro (2010,p. 266): Alguns autores referem a independência de Portugal, em 1822, como um dos motivos que fizeram o Brasil romper com a tradição arquitetônica lusitana. Com a Academia Imperial de Belas Artes, nossa arquitetura adotou uma linguagem internacional norteada pela Beaux-Arts de Paris. Assim, construções populares passaram a contrastar com obras civis plenas de significados, erguidas em moldes neoclássicos. A adoção de platibandas e outros elementos construtivos das ordens greco- romanas contrastavam fortemente com a grande unidade arquitetônica vigente. Em São Paulo, a capital do café, a tradição neoclássica, solidamente implantada no Rio de Janeiro, surgiu com atraso. Até 1880 a cidade tinha aspecto de um burgo colonial e não mais que algumas residências dos plantadores de café se inspiravam nos modelos já vigentes no Rio de Janeiro. A ruptura da tradição local ocorreu em 1878, com o Grand Hotel, do alemão Puttkamer e, posteriormente, com o monumento comemorativo da Independência, o atual Museu Paulista, projetado pelo italiano Tommazio Bezzi, com construção finalizada em 1885 (BRUAND, 2018, p. 38). . 39 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.3 Exemplares da arquitetura neoclássica brasileira O mais importante edifício neoclássico concluído no Brasil foi o da própria Academia Imperial de Belas Artes, do arquiteto Grandjean de Montigny, concluído em 1826. Infelizmente, hoje resta somente o pórtico da edificação, que foi demolida em 1930, no atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Grandjean difundia uma arquitetura que mesclava seu aprendizado na Beaux-Arts de Paris com o da Academia Francesa de Belas Artes em Roma. Figura 3 - Pórtico de acesso a AIBA, hoje no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Projeto de Grandjean de Montigny em 1826 Fonte: Shutterstock, 2020 40 #ParaCegoVer: Na imagem, temos um pórtico com passagem em arco no primeiro andar, colunas no segundo e frontão em cima. O caminho que direciona a este pórtico possui palmeiras em ambos os lados. Outro projeto de Montigny é a antiga Praça do Comércio do Rio de Janeiro localizada no centro da cidade, hoje é a atual Casa França-Brasil. No passado também foi sede da antiga Alfândega. Construído entre 1819 e 1820, foi projetado por encomenda de D. João VI. É o primeiro edifício construído pelo arquiteto da missão francesa no Brasil. Conforme PESSÔA (2020) descreve: Conhecemos bastante sobre o projeto de Grandjean de Montigny graças aos desenhos originais do arquiteto, que são conservados no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Por eles, sabemos que, na fachada da entrada principal, ao invés dos atuais óculos, havia grandes janelas, como as ainda existentes nas outras fachadas, e que foram parcialmente fechadas para a instalação da Alfândega, que necessitava de maior proteção. O tratamento das fachadas é bastante simples, com um corpo central levemente ressaltado e elevado, que é arrematado por frontão triangular. Na elevação central, vão em meio círculo, característico dos prédios públicos da Roma antiga. Uma recente obra de conservação da fachada deixou à mostra o embasamento de cantaria em arenito de Ipanema do corpo central. Inspirado pelo seu uso original nas antigas basílicas romanas, o espaço interno é um amplo salão aberto em cruz composto pela associação de quatro abóbadas de berço e cúpula central iluminada através de um lanternim, expediente muito empregado pelos romanos em suas termas e basílicas. As colunas dóricas, que sustentam a cobertura do salão, são revestidas de madeira com pintura marmorizada. Figura 4 - Interior da Casa França-Brasil, Rio de Janeiro. Projeto de Grandjean de Montigny em 1820. Fonte: Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, vista do sentido piso-teto do interior da Casa França-Brasil. É possível visualizar o encontro da coluna com elemento vertical, bem como, arco e cúpula central. Discípulos de Montigny, José Maria Jacinto Rebello e Joaquim Cândido Guillobel, projetaram e construíram, com Domingos Monteiro, dois paradigmáticos monumentos neoclássicos: o 41 Palácio Universitário, antigo Hospício de Pedro II, situado na Praia Vermelha e a Santa Casa de Misericórdia, no Centro. Hoirisch e Ribeiro (2010, p. 269) comparam as obras: Os dois prédios se parecem, ostentando grandes fachadas caiadas de branco, com um pórtico no centro, formando uma espécie de templo de gnaisse bege, com dupla colunata, arrematado por frontão triangular, de onde a escadaria principal em pedra conduz ao vestíbulo. A distribuição de ambos em alas em torno de pátios internos com grandes galerias permite a entrada de farta luz e ventilação naturais, recomendadas à salubridade hospitalar. Figura 5 - Palácio Universitário, Rio de Janeiro. Projeto de Rebello e Guillobel. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, vista aérea da edificação monumental do atual Palácio Universitário. Edificação inserida na malha urbana, contrastando suas características neoclássicas com o entorno contemporâneo. O atual Museu Paulista, no bairro Ipiranga em São Paulo, foi concebido como monumento comemorativo da Independência. Projetado pelo italiano Tommazio Bezzi, constitui uma vasta construção com arcada coríntia. Foi executado pelo também italiano Luigi Pucci, entre 1882 e 1885 (BRUAND, 2018, p.38). 42 Figura 6 - Museu Paulista, São Paulo. Projeto de Tommazio Bezzi, concluída em 1885. Fonte: iStock, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, fachada principal e monumental do atual Museu Paulista com jardim em frente e espelho d’água. É possível visualizar uma edificação de três pavimentos, com pórtico de entrada marcante, marcado por frontão, logo abaixo colunas, e mais abaixo arcos. A edificação principal, logo atrás do pórtico coberto, se desenvolve de maneira longitudinal e simétrica. Observa-se que a arquitetura neoclássica se restringiu às camadas mais abastadas. Devido a sua monumentalidade, dependia de grandes volumes de recursos financeiros e materiais importados. Além da já comentada inspiração greco-romana, caracterizou-se pelo uso de formas geométricas simples, planta simétrica de simplicidade formal e espacial. Utiliza materiais nobres, como pedra, mármore e granito. Apresenta amplo uso de frontões triangulares, colunas, abóbadas e cúpulas, além de edificações elevadas, com uso de escadaria. Há, ainda, o predomínio de cores claras e suaves. Conforme Santiago (2011, p. 7, apud SOUSA, 1994): Sousa argumenta ainda que em outras cidades brasileiras a influência de mestres do neoclassicismo acontece por meio das mais diversas origens, é o que apresentam os trabalhos de pesquisadores em vários estados que, de acordo com suas pesquisas locais, a influência francesa não teve origem na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em Belém, por exemplo, o trabalho da pesquisadora Jussara Derenji, segundo Sousa, aponta que a missão Francesa teria pouca influência naquela região; no Rio Grande do Sul, segundo Günter Weimer, receberam mestres do neoclassicismo de outro contexto europeu – a Alemanha. 43 A corrente neoclássica brasileira só começou a se degenerar depois de 1860, quando outros estilos históricos passaram a se sobrepor. Após essa breve explanação sobre arquitetura neoclássica brasileira e seu contexto temporal, é possível aprofundarmos o conhecimento sobre o meio urbano em que se inserem: as cidades do século XIX. 2 AS CIDADES BRASILEIRAS NO SÉCULO XIX O panorama das principais cidades europeias e brasileiras no século XIX é bastante diferente. Já no início do século, na Europa, são dados os primeiros passos em direção ao urbanismo moderno a partir da Revolução Industrial. No Brasil, isto só ocorre no final do mesmo século. Muitas das características das cidades do século XIX são incorporadas nas cidades contemporâneas e, por este motivo, merecem especial atenção. 2.1 A cidade industrial Como vimos anteriormente, para os historiadores de economia, o período de 1760 a 1830 corresponde à Revolução Industrial e, para os