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Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 | ATENÇÃO À SAÚDE Abordagem a Problemas Hematológicos MÓDULO 19 Fo nt e: Q im on o. W ik im ed ia C om m on s. Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 | ATENÇÃO À SAÚDE Ministério da Saúde Universidade Federal do Maranhão (UFMA) 2022 Abordagem a Problemas Hematológicos MÓDULO 19 Instituições patrocinadoras: Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Diretoria de Tecnologias na Educação (DTED/UFMA) Universidade Aberta do SUS da Universidade Federal do Maranhão (UNA-SUS/UFMA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823a Brasil. Ministério da Saúde. Abordagem a problemas hematológicos [módulo 19] / Ministério da Saúde, Universidade Federal do Maranhão. Brasília: Fundação Oswaldo Cruz, 2022. Inclui referências. 67 p. : il., tabs., organogs., color. (Programa Médicos pelo Brasil. Atenção à saúde ; 4). ISBN: 978-65-84901-00-1. 1. Hematologia. 2. Atendimento clínico. 3. Sistema Único de Saúde.5. UNA- SUS. I. Título II. Universidade Federal do Maranhão. III. Série. CDU 610 Bibliotecário: Fhillipe de Freitas Campos | CRB1 3 Ficha Técnica © 2022. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Universidade Federal do Maranhão. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica MINISTÉRIO DA SAÚDE. UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO. Abordagem a problemas hematológicos. [módulo 19]. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Programa Médicos pelo Brasil. Eixo 4: atenção à saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 67 p. Ministério da Saúde Marcelo Antônio Cartaxo Queiroga Lopes | Ministro Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Raphael Câmara Medeiros Parente | Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Renata Maria de Oliveira Costa | Diretor Coordenação Geral de Provisão de Profissionais para Atenção Primária (CGPROP) Carlos Magno dos Reis Venturelli | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Nísia Trindade Lima | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA- SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Sybele Avelino Pereira Assessoria Pedagógica UNA-SUS Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Vânia Moreira Revisão Ministério da Saúde - Secretaria de Atenção Primária à Saúde Simone Almeida da Silva Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Pastor Alves Pereira Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Universidade Federal do Maranhão - UFMA Natalino Salgado Filho | Reitor Diretoria de Tecnologias na Educação – DTED/UFMA Ana Emilia Figueiredo de Oliveira | Diretora Coordenação da UNA-SUS/UFMA Ana Emilia Figueiredo de Oliveira | Coordenadora Geral Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Diretoria de Tecnologias na Educação – DTED/UFMA Universidade Aberta do SUS da Universidade Federal do Maranhão – UNA-SUS/UFMA Endereço: Avenida dos Portugueses, 1966, Bacanga. Cidade/Estado: São Luís - MA. CEP 65080-805 (98) 3272-9633 E-mail: atendimento.dted.ufma.br Site: https://www.unasus.ufma.br/ http://eadparavc.dted.ufma.br Créditos Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Ana Paula Borges Carrijo Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Rodrigo Pastor Alves Pereira Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck Apoio Técnico UNA-SUS Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiros de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedores de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Silva Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Coordenadora Geral DTED/UNA-SUS/UFMA Ana Emilia Figueiredo de Oliveira Gestão de Projetos UNA-SUS/UFMA Amanda Rocha Araujo Coordenador de Produção Pedagógica UNASUS/UFMA Paola Trindade Garcia Coordenação de Ofertas Educacionais UNASUS/UFMA Elza Bernardes Monier Coordenação de Tecnologia da Informação da UNA-SUS/UFMA Mário Antonio Meireles Teixeira Coordenação de Comunicação da UNA-SUS/ UFMA Ana Paula Silva de Sousa Dara de Sousa Santos Conteudistas Mannasses Araujo Costa Rosana Maria Paixão Castello Branco Edição Textual UNA-SUS/UFMA Talita Guimarães Santos Sousa Camila Cantanhede Vieira Designers Gráficos UNA-SUS/UFMA Priscila Penha Coelho Carlos Haide Sousa Santos Jackeline Mendes Pereira Agnes Milen Guerra Vital Amorim Vital Designers Instrucionais UNA-SUS/UFMA Mizraim Nunes Mesquita Luís Gustavo Sodré Sousa Cadidja Dayane Sousa do Carmo Deysianne Costa das Chagas Izabel Cristina Vieira de Oliveira Helen Maysa Belfort Sousa Samira Vasconcelos Gomes Steffi Greyce de Castro Lima Desenvolvedora de Moodle UNA-SUS/UFMA Thacyla Lima Engenheira de Software UNA-SUS/UFMA Rayanne Silveira Web Designer UNA-SUS/UFMA Jefferson de Almeida Paixão Apoio Técnico UNA-SUS/UFMA Catarina Barbosa Azevedo Paulo Anderson Câmara Ribeiro Thálya Maciel de Alencar Sumário Apresentação Unidade 1 – Doenças Hematológicas Introdução da unidade 1.1 Anemias 1.1.1 Definição 1.1.2 Sistema Eritrocitário nos Aspectos Morfológicos e Fisiológicos 1.1.3 Etiologia das Principais Anemias 1.1.4 Diagnóstico 1.1.5 Classificação das Anemias 1.1.6 Abordagem Terapêutica 1.1.7 Critérios de encaminhamento para outros níveis de atenção à saúde Fechamento da unidade Unidade 2 – Linfonodomegalias Introdução da unidade 2.1 Definição 2.2 Causas de Linfonodomegalias 2.2.1 Localizada 2.2.2 Generalizada 2.3 Anamnese e Exame Físico 2.4 Diagnóstico 2.4.1 Exames laboratoriais 2.4.2 Exames de imagem 2.4.3 Biópsia 2.5 Abordagem Terapêutica Medicamentosa 2.6 Critérios de encaminhamento para outros níveis de Atenção à Saúde Fechamento da unidade Encerramento Referências Biografia dos conteudistas 9 10 10 11 11 12 13 14 22 33 38 40 41 41 42 42 44 44 45 53 55 56 57 58 59 60 61 62 66 Apresentação Caro profissional estudante, seja bem-vindo ao módulo Abordagem a Problemas Hematológicos! O reconhecimento das alterações básicas dos elementos figurados do sangue e do tecido linfático nos ajudam na correlação de sinais e sintomas que se traduzem em patologias hematológicas e linfadenopatias. Por isso, neste módulo, buscamos estabelecer uma correlação entre os conteúdos relacionados aos problemas hematológicos e a prática profissional, visando ao manejo apropriado dos mais frequentes e relevantes, distinguindo aqueles menos frequentes e os que exigem encaminhamento para o especialista focal. A compreensão e a condução adequada dos problemas dos sistemas hematológico e linfático mais frequentes refletem na ampliação dos vínculos entre usuário e equipe de saúde, no aumento da resolutividade das demandas geradas na Atenção Primária à Saúde (APS), bem como na redução do quantitativo de usuários encaminhados para os demais níveis de atenção à saúde e dos recursos financeiros dispendidos, no âmbito da gestão em saúde. Dessa forma, esperamos que você tenha um bom estudo e que esta etapa do curso contribua para que, ao final, você seja capaz de empregar ações para a abordagem de problemas hematológicos mais frequentes e relevantes na APS, como as anemias, por exemplo, levando em consideração a realização de avaliação clínica, a profilaxia, o diagnóstico, o tratamento, assim como a distinção da necessidade de situações clínicas que exijam encaminhamento para outros níveis de atenção, de maior complexidade.físico são fundamentais para orientar a investigação inicial, de forma eficiente, diferenciando as poucas pessoas com doença grave, que se beneficiam de tratamento imediato em nível secundário ou terciário, das muitas pessoas que têm quadros claramente benignos e autolimitados (DUNCAN et al., 2013). 2.2 CAUSAS DE LINFONODOMEGALIAS São muitas as causas de linfonodomegalia, sendo útil, na investigação, diferenciar as de linfonodomegalia localizada (Quadro 12) ou generalizada (Quadro 13). 43 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Quadro 12. Causas de linfonodomegalia localizada LOCAL CAUSAS Auricular anterior, retroauricular ou suboccipital Infecções de couro cabeludo, conjuntivite, otite externa e infecções virais sistêmicas. Submandibular ou cervical Infecções bucais e dentárias, faringite, tumores de nasofaringe, tumores de tireoide, doença de Graves, infecções virais sistêmicas, dengue, tuberculose, paracoccidioidomicose e toxoplasmose. Supraclavicular esquerda ou direita Altamente sugestivo de malignidade. Tumor gastrintestinal, pulmonar, mediastinal, retroperitoneal, linfoma, infecções bacterianas ou fúngicas de caixa torácica ou retroperitônio. Axilar Neoplasia ou infecção mamária, infecção do membro superior, doença da arranhadura do gato. Epitroclear (região interna do cotovelo) Infecção da mão. Inguinal Infecção de membro inferior, micose interdigital, infecções sexualmente transmissíveis (sífilis primária, herpes genital, linfogranuloma venéreo, cancro mole), metástase de neoplasia (pélvica ou anal).. Adenopatia hilar Sarcoidose, infecções fúngicas, linfoma, carcinoma broncogênico e tuberculose. Mediastinal Sarcoidose, infecções fúngicas, linfoma, carcinoma de pulmão e de mama, tumores de células germinativas e tuberculose. Abdominal e retroperitoneal Tumores pélvicos e gastrintestinais, tuberculose, linfoma, tumores renais e infecções fúngicas. Qualquer região Doença da arranhadura do gato, linfoma, leucemia, câncer metastático, tuberculose, infecções fúngicas, tularemia e peste bubônica. Fonte: Adaptado de Ferrer (2017). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 44 Quadro 13. Causas de linfonodomegalia generalizada Infecções virais Mononucleose, HIV, citomegalovírus, rubéola, sarampo, hepatites virais agudas. Infecções bacterianas Brucelose e febre tifoide. Infecções por micobactérias Tuberculose miliar. Infecções por fungos Histoplasmose, coccidioidomicose e paracoccidioidomicose. Infecções por protozoários Toxoplasmose. Infecções por espiroquetas Sífilis secundária, leptospirose. Neoplasias Linfoma, leucemia, mieloma, macroglobulinemia de Waldenström, metástases de tumores sólidos. Imunológicas e reumatológicas Reação a fármacos, Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), artrite reumatoide, síndrome de Sjögren, doença de Still. Medicamentos Alopurinol, aspirina, atenolol, barbitúricos, captopril, carbamazepina, cefalosporinas, fenilbutazona, fenobarbital, fenitoína, hidralazina, isoniazida, ouro, penicilina, pirimetamina, primidona, quinidína, sulfonamidas, tetraciclina. Diversos Sarcoidose, amiloidose, doença de Kawasaki. Fonte: Adaptado de Duncan et al. (2013) e Ferrer (2017). 2.2.1 LOCALIZADA A linfadenopatia localizada costuma ocorrer devido a processos infecciosos focais, podendo frequentemente ser observada por um breve período, sejam eles no próprio linfonodo (linfadenite) ou em sua área de drenagem, indicando a necessidade do pronto e minucioso exame dessa área. 2.2.2 GENERALIZADA Considera-se linfonodomegalia generalizada (Quadro 13) quando esta acomete duas ou mais cadeias linfonodais não contíguas simultaneamente. A linfonodomegalia 45 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos generalizada ocorre devido a quadros sistêmicos e sempre deve ser investigada. Por se tratar de um processo sistêmico, o exame físico nessas pessoas deve enfatizar o acometimento de outros órgãos, como a busca por hepatoesplenomegalia, icterícia, anemia, febre ou outros sinais sistêmicos que possam levar à hipótese diagnóstica (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). 2.3 ANAMNESE E EXAME FÍSICO A identificação de linfonodos palpáveis pode estar presente em situações fisiológicas. Logo, é de fundamental importância conhecer as peculiaridades do exame dos linfonodos e a anatomia das cadeias ganglionares para adquirir o conhecimento necessário e conseguir diferenciar as reais situações que exigem uma abordagem mais investigativa (SILVA, 2019). A história deve ser minuciosa, tentando delimitar a extensão do problema e identificar sinais de alerta, porém dando ênfase aos seguintes aspectos (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019): Sintomas constitucionais Sintomas locais Tempo de evolução Idade Aumento linfonodal devido à infecção viral ou bacteriana torna-se menos provável após um período de observação de algumas semanas, ao passo que doenças neoplásicas ou inflamação granulomatosa (tuberculose, infecção fúngica, sarcoidose) tornam-se mais prováveis com o passar do tempo. Pessoas com idade avançada apresentam acometimento linfonodal devido à neoplasia muito mais frequentemente do que pessoas jovens. O câncer é identificado em 4% das pessoas com idade acima de 40 anos que apresentam linfadenopatia não explicada, e apenas 0,4% nas pessoas abaixo de 40 anos (GADDEY; RIEGEL, 2016). Febre, perda de peso, fadiga ou sudorese noturna podem sugerir doenças como tuberculose, linfoma, doenças autoimunes, neoplasia e alguns processos infecciosos. História de lesão ou trauma na área de drenagem da(s) cadeia(s) acometida(s), mesmo que pequenos, como os que ocorrem em atividades corriqueiras, como cortar unhas, picadas de insetos; dor de garganta, dor de ouvido ou secreção nos olhos; tosse ou dor torácica; dor abdominal ou outros sintomas digestivos etc. (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 46 Quadro 14. Características dos linfonodos ao exame físico CARACTERÍSTICAS INFLAMATÓRIAS CARACTERÍSTICAS NEOPLÁSICAS Evolução aguda Evolução crônica Doloroso com sinais flogísticos Costuma ser indolor Não aderido a planos profundos Aderido a planos profundos Consistência fibroelástica Consistência pétrea Fonte: Silva (2019). Deve ser dada ênfase aos seguintes aspectos (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019): • Características do linfonodo: primeiramente, verificar se se trata mesmo de um linfonodo, pois existem outras estruturas que podem ser confundidas com linfonodomegalia, como infecções ou cálculos nas glândulas salivares, cisto tireoglosso, cisto branquial, bócio ou nódulos de tireoide, hematomas, abscessos, hérnia inguinal, hemangiomas, lipomas, nódulos reumatoides, edema de partes moles por trauma, picadas de insetos e teratomas. O tamanho do linfonodo também é importante, pois quanto maior o linfonodo, maior a chance de se tratar de um processo neoplásico. Da mesma forma, linfonodos endurecidos e aderidos são sugestivos de processo neoplásico, ao passo que linfonodos fibroelásticos e dolorosos são mais comuns devido a processos infecciosos e inflamatórios (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). • Diferenciar linfonodomegalia localizada de generalizada: é útil para o estabelecimento do diagnóstico diferencial, sendo necessário palpar cuidadosamente todas as cadeias linfonodais para melhor definição. É importante lembrar que muitas vezes o paciente não saberá qualificar bem o linfonodo – tamanho, número e consistência. Então é extremamente importante um exame físico bem detalhado, bilateral, sempre comparando um lado com o outro e fazendo busca ativa de outras possíveis linfonodomegalias que o paciente não referiu (SILVA, 2019). Durante o exame físico, é fundamental também diferenciar os linfonodos reativos a um processo inflamatório de outro relacionado à malignidade que podem ser classificados de acordo com a forma de apresentação mais clássica (Quadro 14), como: 47 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicosFigura 8 – Localização e drenagem dos linfonodos cervicais (A). Fonte: Porto e Porto (2017). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 48 Figura 9 – Localização e drenagem dos linfonodos axilares (B). Fonte: Porto e Porto (2017). 49 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Figura 10 – Localização e drenagem dos linfonodos inguinais (C) e poplíteos (D). Fonte: Porto e Porto (2017). Verificar, na linfonodomegalia localizada, se existem sinais que sugiram infecção ou tumor com drenagem para o linfonodo acometido: sinais de infecção de vias aéreas superiores, faringite, otalgia, infecções bucais e infecções de couro cabeludo prontamente identificam a causa de uma linfonodomegalia cervical com características benignas. Da mesma forma, infecções na perna, cortes na pele, micose interdigital ou infecção sexualmente transmissível podem explicar uma linfonodomegalia inguinal de início recente. No entanto, nem sempre as linfonodomegalias localizadas são benignas. Há muitos tumores que podem levar a comprometimento linfonodal por meio da drenagem linfática da região acometida. Linfonodomegalia supraclavicular esquerda, por exemplo, frequentemente sinaliza neoplasia de trato gastrintestinal. Da mesma forma, linfonodomegalia cervical em pessoa com fatores de risco para neoplasia de cabeça e pescoço (idade avançada, etilismo e tabagismo) deve levar à suspeita da doença e a um exame minucioso da cavidade oral, possivelmente seguido de um exame subsidiário, como uma nasofibroscopia (endoscopia nasal), caso o exame de cavidade oral não seja diagnóstico (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). Encaminhe o paciente para o cirurgião de cabeça e pescoço para investigação diagnóstica e conduta. Alguns linfomas e doenças mieloproliferativas também podem se iniciar de forma localizada. Na avaliação de linfonodomegalia, são erros frequentes que você deve evitar: • Não diferenciar se a linfonodomegalia é generalizada ou localizada; • Não verificar se há infecção ou tumor drenando para a cadeia linfonodal acometida (no caso de linfonodomegalia localizada). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 50 Acompanhe agora o Quadro 15 que traz alguns dados de anamnese e exame físico que ajudam a diferenciar doenças benignas e autolimitadas de neoplasias e outras doenças de maior gravidade. Já o Quadro 16 traz alguns dados de anamnese e exame físico que podem sugerir alguns diagnósticos específicos. Quadro 15. Dados de história e exame físico que podem sugerir alguns diagnósticos etiológicos Dados de história e exame físico Possíveis diagnósticos Linfonodomegalia cervical aguda acompanhada de sintomas gerais variados, como febre, mal-estar e náuseas, ou locais como coriza e secreção nas vias aéreas superiores (maior parte dos casos) Gripe. Tabagismo, etilismo e idade avançada com linfonodomegalia cervical Sugestivo de neoplasia de cabeça e pescoço. Linfonodomegalia supraclavicular direita ou esquerda Altamente sugestivo de malignidade: tumor gastrintestinal, pulmonar, mediastinal, retroperitoneal, linfoma, infecções bacterianas ou fúngicas de caixa torácica ou retroperitônio. Linfonodomegalia axilar com nódulo mamário Neoplasia de mama. Linfonodomegalia localizada ou generalizada associada a sintomas constitucionais e hepatoesplenomegalia Linfoma. Linfonodomegalia generalizada (pode ser localizada), associada a sangramentos espontâneos, hematomas, infecções e anemia Leucemia. Linfonodomegalia generalizada aguda com febre (síndromes mono-like) Infecções virais sistêmicas (mononucleose, HIV, citomegalovírus, rubéola, hepatite B), toxoplasmose, sífilis secundária. Linfonodomegalia cervical aguda com febre, cefaleia, mialgia. Pode haver rash cutâneo. Ocorre em áreas endêmicas, principalmente no verão Dengue. Linfonodomegalia generalizada aguda com febre associada a comportamento sexual de risco, transfusões ou uso de drogas injetáveis HIV agudo, hepatite B, sífilis secundária. 51 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Linfonodomegalia generalizada associada a lesões eritematosas maculopapulares e contato sexual de risco Sífilis secundária. Linfonodomegalia localizada (principalmente axilar ou cervical) e contato com gatos Doença da arranhadura do gato. Linfonodomegalia generalizada (predomina em região cervical) e contato com gatos ou ingestão de carne malcozida Toxoplasmose. Linfonodomegalia generalizada associada a febre, artralgia, urticária e exposição a fármacos ou soro Doença do soro. Linfonodomegalia hilar, tosse, dispneia, infiltrado pulmonar difuso, eritema nodoso Sarcoidose, tuberculose ou infecções fúngicas. Linfonodomegalia hilar, tosse, dor torácica, infiltrado pulmonar difuso e contato com fezes de morcego ou ave Histoplasmose. Linfonodomegalia supurativa em região cervical Tuberculose, paracoccidioidomicose ou infecção bacteriana. Linfonodomegalia hilar, tosse produtiva, infiltrado pulmonar podendo cavitar Tuberculose ou paracoccidioidomicose. Linfonodos coalescidos e dolorosos em região inguinal (geralmente unilateral), febre e mal- estar associados a contato sexual de risco Linfogranuloma venéreo. Linfonodomegalia inguinal unilateral com úlcera dolorosa na genitália associada a contato sexual de risco Cancro mole. Linfonodomegalia inguinal unilateral com úlcera indolor na genitália associada a contato sexual de risco Sífilis primária. Linfonodomegalia inguinal (unilateral ou bilateral) associada a erosões, fissuras ou a vesículas agrupadas sobre base eritematosa. Pode ser recidivante Herpes genital. Linfonodomegalia generalizada associada a artrite, alterações cutâneas típicas, serosites, manifestações renais, hematológicas ou neurológicas Lúpus eritematoso sistêmico. Linfonodomegalia generalizada associada a artrite Artrite reumatoide. Linfonodomegalia generalizada, febre, rash cutâneo e artrite Doença de Still. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 52 Fonte: Adaptado de Duncan et al. (2013) e Ferrer (2017). Fonte: Adaptado de Ferrer (2017). Linfonodomegalia generalizada, hepatoesplenomegalia, febre intermitente, artralgias e cefaleia associada a contato ou ingestão de carne contaminada e laticínios não pasteurizados Brucelose. Linfonodomegalia generalizada (pouco frequente), dor abdominal, hepatoesplenomegalia, diarreia ou constipação, febre, rash, dissociação pulso- temperatura. Viagens com ingestão de alimentos ou água contaminados Febre tifoide. Quadro 16. Dados gerais de história e exame físico que ajudam a diferenciar doenças benignas de neoplasias Dados de história e exame físico Possíveis diagnósticos Sintomas agudos Doenças virais ou bacterianas. Sintomas crônicos Doenças neoplásicas, inflamatórias ou granulomatosas. Linfonodomegalia localizada Processo reacional devido à infecção ou tumor. Pessoa jovem Diminui a probabilidade de processo neoplásico e aumenta a de processo infeccioso ou inflamatório. Linfonodo 1 cm e, principalmente, se > 2,25cm Favorece processo neoplásico. Sintomas constitucionais (emagrecimento, febre, sudorese noturna) Favorece neoplasia, tuberculose, doenças granulomatosas e doenças do colágeno. Linfonodomegalia localizada associada a processo infeccioso local Linfonodomegalia reacional. No caso da linfonodomegalia localizada, é necessário verificar primeiramente o risco de neoplasia e qual região que drena para esse linfonodo. É provável que um tempo pequeno de espera permitida para observação de casos indiferenciados não altere sua evolução de forma negativa, mesmo que se trate de processo neoplásico. Observe abaixo sinais de alerta que aumentam a probabilidade de processo neoplásico (Silva, 2019; Simon et al., 2020). 53 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos • Sintomas crônicos; • Pessoas > 40 anos; • Linfonodos > 1cm (principalmente se > 2,25cm); linfonodosendurecidos e aderidos a planos profundos; • Linfonodomegalia cervical associada a fatores de risco para neoplasia de cabeça e pescoço (tabagismo, etilismo e idade avançada); • Linfonodomegalia supraclavicular ou linfadenopatia cervical persistente. 2.4 DIAGNÓSTICO Diversas condições podem provocar doença linfonodal, dessa forma, é necessário realizar uma investigação adequada da alteração linfonodal com o objetivo de esclarecer a etiologia. Como não existe uma bateria de testes diagnósticos que possam ser utilizados de forma universal para o diagnóstico de linfonodomegalia, solicite os exames de forma individualizada, baseados nas hipóteses diagnósticas da patologia de base. Grande parte das causas de linfonodomegalia podem prontamente ser identificadas por história e exame físico detalhados, como é o caso, por exemplo, de uma conjuntivite, que leva à linfonodomegalia auricular anterior, ou de uma infecção de orofaringe, que causa linfonodomegalia submandibular ou cervical. Durante o exame físico e a anamnese, é importante avaliar a espera permitida para condução do caso. Um interlúdio de retorno de três dias a uma semana pode ajudar a delimitar melhor o processo sem prejuízo para a conduta, desde que seja pactuada a garantia de atendimento precoce se houver alteração do quadro ou a presença de sinais de alerta que devem ser previamente explicados e combinados com o paciente. Esse intervalo pode tornar a investigação mais dirigida e ganhar tempo em relação a possíveis exames desnecessários que poderiam ter sido solicitados quando o quadro estava mais indiferenciado. Dependendo do caso, pode-se iniciar com uma investigação geral, com exames que possam ser mais rápidos, como hemograma e, no primeiro retorno, solicitar exames mais dirigidos para evitar um tempo longo sem reavaliar a pessoa, o que muitas vezes ocorre quando se solicita muitos exames para quadros inespecíficos (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). Fique atento aos sinais de alerta que aumentam a probabilidade de um processo neoplásico e estabeleça qual o risco de neoplasia da pessoa no início da investigação. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 54 Figura 11 – Fluxograma da condução de paciente com aumento de linfonodo. Fonte: Cavalcanti (2010). 55 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 2.4.1 EXAMES LABORATORIAIS Entre os exames mais úteis na investigação de linfonodomegalia não explicada, destaca-se o hemograma, que pode fornecer várias pistas para o diagnóstico. Na condução de casos de linfonodomegalias na APS, deve-se fazer uso da espera permitida e da longitudinalidade, oferecendo retorno breve nos casos indiferenciados. Quadro 17. Alterações laboratoriais e possíveis etiologias * Linfócitos atípicos em uma pessoa jovem com linfonodomegalia generalizada. Fonte: Adaptado de GUSSO, LOPES e DIAS (2019). Hemograma completo Possíveis etiologias Linfocitose sem atipia. Infecções virais como influenza. Leucocitose com neutrofilia. Infecção bacteriana. Aumento no número de blastos. Leucemia aguda. Aumento no número de linfócitos. Leucemia linfoide crônica. Linfócitos atípicos*. Mononucleose. Eosinofilia. Reação a fármacos. Em alguns casos existem pistas importantes para o diagnóstico, mas estas precisam ser confirmadas. Um exemplo é uma pessoa jovem com febre, cefaleia, dor de garganta e linfonodomegalia generalizada com linfocitose e linfócitos atípicos no hemograma. O diagnóstico provável é uma mononucleose infecciosa, que precisa ser confirmada pelos anticorpos heterófilos ou sorologia (mais específica) para que não passem despercebidos outros diagnósticos diferenciais importantes, como HIV agudo, rubéola, citomegalovírus, hepatite B, toxoplasmose ou sífilis secundária. Dessa forma, caso não se confirme a mononucleose, deve-se proceder à investigação com sorologias para essas doenças (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019), aqui se incluem os testes rápidos disponíveis na APS. Outros exames que podem ser solicitados na investigação de linfadenopatias sem causa definida a partir da avaliação clínica inicial incluem a prova cutânea da tuberculina (reação de Mantoux) e fator antinuclear. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 56 REFLEXÃO Evite solicitar exames sem estabelecer uma estratégia de investigação ou cuja estratégia não tenha relação com os achados de anamnese e exame físico. Realizar múltiplos exames subsidiários tentando investigar a origem de uma linfonodomegalia inexplicada pode encarecer e atrasar o processo investigativo. Você sabe o tempo e os custos envolvidos na realização de exames no seu município ou para aqueles realizados apenas em municípios vizinhos? 2.4.2 EXAMES DE IMAGEM Assim como nos exames laboratoriais, os exames de imagem devem ser solicitados de maneira individualizada. Tomografia Ultrassonografia Radiografia de tórax A ultrassonografia pode auxiliar a diferenciar a linfadenopatia das outras condições que podem se apresentar de forma semelhante. Além disso, pode ser útil para estabelecer com maior precisão as características dos linfonodos acometidos (tamanho, limites, número e forma) e sua relação com as estruturas adjacentes, podendo ajudar a estabelecer a etiologia mais provável (DUNCAN et al., 2013), ao diferenciar se um nódulo palpável é realmente um linfonodo, além de descrever suas características – por exemplo, necrose central, que pode sugerir tuberculose (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). Pode, também, ser útil na avaliação de hepatoesplenomegalia e linfonodomegalia abdominal, que também podem ser vistas por um exame tomográfico. Outro exame frequentemente utilizado é a radiografia de tórax, que ajuda na investigação de linfonodomegalia hilar em casos de linfonodomegalia generalizada ou quando se suspeita de tuberculose ou neoplasia (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). A tomografia gera uma imagem com mais nitidez que a radiografia porque não sobrepõe as seções corporais em um único plano, é um exame de alto custo que pode ser realizado em duas etapas, uma inicial sem contraste e logo em seguida com contraste. A utilização de contraste está indicada quando há necessidade de se observar mais claramente detalhes de imagens, o que torna o diagnóstico mais preciso, além de ajudar a delimitar com maior precisão o posicionamento de uma agulha de biópsia em uma área suspeita de ter uma lesão cancerígena, por exemplo. 57 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 2.4.3 BIÓPSIA A biópsia de linfonodo é o método diagnóstico de escolha para linfonodomegalia localizada ou generalizada inexplicadas após investigação inicial, excetuando-se a linfonodomegalia cervical localizada com suspeita de tumor de cabeça e pescoço, em que o primeiro exame é a punção-biópsia por agulha fina (Punção Aspirativa por Agulha Fina - PAAF), pois a exérese do gânglio, nesse caso, pode mudar o estadiamento do tumor e piorar o prognóstico (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). Para a biópsia excisional, deve-se escolher o maior dos linfonodos e retirá-lo inteiro para análise. Se nenhum linfonodo predominar, a ordem decrescente de preferência para a escolha do linfonodo deve ser supraclavicular, cervical, axilar e inguinal, tanto pela maior probabilidade de malignidade dos primeiros, quanto pela maior incidência de complicações infecciosas e traumáticas nas biópsias de linfonodomegalia axilar e inguinal (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). A decisão do exame de punção por agulha mais adequado deve ser realizada mediante as particularidades de cada técnica. A PAAF tem uma técnica mais rápida de execução, apresenta elevadas sensibilidade e especificidade, além de ser menos invasiva; por outro lado, requer um citologista experiente, profissional disponível em poucas instituições. A biópsia por agulha grossa (core biopsy), embora de custo mais elevado, proporciona material para imuno-histoquímica, não é patologista dependente e tem sensibilidade maior em relação à PAAF (RAO et al., 2009). Uma vez decididopela biópsia, deve-se encaminhar o paciente para serviço especializado, se possível, deve ser feito contato com o patologista e informada a hipótese diagnóstica, de forma a se obterem todos os dados possíveis da amostra ou, na ausência da possibilidade deste contato, realizar a referência de maneira qualificada contendo os dados essenciais do caso. De maneira geral, quando se suspeita de processo infeccioso, deve ser feita cultura e pesquisa para bactérias, fungos e micobactérias, além do exame histológico habitual. Já quando a suspeita é de processo neoplásico, deve ser acrescentada à histologia habitual a imuno- histoquímica, para tentar determinar o sítio primário do tumor (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019). Para o esclarecimento e a discussão de casos clínicos, queixas ou alterações de exame físico, uma possibilidade importante e acessível é a Plataforma de Telessaúde RS, que provê um serviço nacional gratuito de discussão de casos, por meio do telefone 0800 644 6543 e por meio do link: . https://www.ufrgs.br/telessauders/ EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 58 Quadro 18. A abordagem da linfonodomegalia com base no tratamento da causa CAUSA BASE TRATAMENTO Quadro gripal Tratamento sintomático e observação ativa (dar possibilidade de retorno caso o quadro não melhore em uma semana ou piore). Infecções de pele e subcutâneo Em casos leves e localizados: cefalexina, 500mg, via oral (VO), de 6/6h, ou cefadroxila, 500mg a 1g, de 12/12h, por 7-10 dias. Faringite estreptocócica Amoxicilina, 500mg, VO, de 8/8h, por 7 dias, ou penicilina benzatina, 1.200.000UI, intramuscular (IM). Conjuntivite viral Tratamento sintomático com colírios lubrificantes e compressa com água fria. Conjuntivite bacteriana Colírio de antibióticos: tobramicina ou ciprofloxacino, 1 gota, de 4/4h, por 7 dias, associado a tratamento sintomático, se houver necessidade de instituição deste. Doença da arranhadura do gato Azitromicina por 5 dias, 500mg, 1x/dia no primeiro dia, seguido de 250mg 1x/ dia nos 4 dias subsequentes. Mononucleose, rubéola e citomegalovírus Tratamento sintomático. Paracoccidioidomicose Itraconazol, 100mg/dia, em dose única, por 6-12 meses. Toxoplasmose Pessoas imunocompetentes com doença leve devem receber apenas tratamento sintomático. Imunodeprimidos e pessoas com manifestações mais graves devem receber sulfadiazina, 1-1, 5g, de 6/6h, pirimetamina, 25-100mg/dia, e ácido folínico, 10-25mg/dia. Cancro mole Azitromicina, 1g, VO, em dose única. O tratamento sistêmico deve ser acompanhado de medidas locais de higiene. O tratamento das parcerias sexuais é recomendado, mesmo quando assintomáticas (BRASIL, 2020). 2.5 ABORDAGEM TERAPÊUTICA MEDICAMENTOSA Observe abaixo a relação de tratamento da linfonodomegalia com base na causa. 59 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Linfogranuloma venéreo Doxiciclina, 100mg, VO, de 12/12h, por 21 dias. As parcerias sexuais devem ser tratadas. Se a parceria for sintomática, o tratamento deve ser realizado com os mesmos medicamentos do caso- índice. Se a parceria for assintomática, recomenda-se um dos tratamentos: Azitromicina 500mg, 2 comprimidos, VO, dose única ou Doxiciclinab 100mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 7 dias (BRASIL, 2020). Herpes genital Primeiro episódio: Aciclovir 200mg, 2 comprimidos, VO, 3x/dia, por 7-10 dias. Recidiva Aciclovir 200mg, 2 comprimidos, VO, 3x/ dia, por 5 dias (BRASIL, 2020). Fonte: GUSSO; LOPES; DIAS, 2019. 2.6 CRITÉRIOS DE ENCAMINHAMENTO PARA OUTROS NÍVEIS DE ATENÇÃO À SAÚDE Sugere-se referenciar para serviços de onco-hematologia ou hematologia as pessoas com maior risco de neoplasia, que são aquelas com sintomas crônicos, com mais de 40 anos (se for fator de risco isolado, pode-se iniciar a investigação no serviço de Atenção Primária à Saúde), com linfonodos de tamanho muito aumentado (principalmente se > 2,25cm), com linfonodos endurecidos e aderidos a planos profundos, linfonodomegalia cervical associada a fatores de risco para neoplasia de cabeça e pescoço (tabagismo, etilismo e idade avançada) e linfonodomegalia supraclavicular. Sugere-se, também, referenciar para especialidades diversas (radiologia intervencionista ou cirurgião geral/oncológico), conforme principal suspeita clínica e disponibilidade de referência na rede de saúde (TELESSAUDE RS-UFRGS, 2016) aquelas pessoas com linfonodomegalia inexplicada após investigação inicial, quando estiver sendo proposta a realização de biópsia (GUSSO; LOPES; DIAS, 2019): • linfonodomegalia supraclavicular; ou • linfonodomegalia com características de malignidade (indolor, aderido a tecidos profundos, endurecido, massa de linfonodos fusionados); ou • linfonodomegalia (> 2cm) persistente sem causa definida. Pacientes com suspeita de linfoma: linfonodomegalias/esplenomegalia com alterações hematológicas sem indicação de emergência; linfonodomegalia em pessoas com sintomas B (perda de peso involuntária, sudorese noturna, febre); linfonodomegalia e esplenomegalia sem associação com quadro infeccioso) devem ser encaminhados para serviços especializados de hematologia ou onco-hematologia para avaliação breve (TELESSAUDE RS-UFRGS, 2016). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 60 Devem ser encaminhados para emergência, preferencialmente com hematologista, os pacientes com suspeita de lise tumoral (sintomas como náusea, vômito, diarreia, letargia, câimbras, arritmia – geralmente em pessoas com massas grandes) ou sintomas compressivos (como dispneia, síndrome da veia cava superior, síndrome de Horner). Pacientes com citopenias associadas à linfonodomegalia e esplenomegalia, não explicadas por quadro infeccioso agudo, também têm indicação de encaminhamento para urgência/emergência (preferencialmente com hematologista) (TELESSAUDE RS-UFRGS, 2016). FECHAMENTO DA UNIDADE Como descrito, a linfonodomegalia é um achado frequente na APS. Em virtude das diversas etiologias, fazer o diagnóstico diferencial, baseado em anamnese, exame físico e raciocínio diagnóstico bem estruturados, é fundamental para orientar a investigação inicial de forma eficiente, diferenciando os pacientes com quadros claramente benignos e autolimitados, cuja condução do caso e a oferta de serviços disponíveis se encontra no primeiro nível de atenção da rede de saúde, das poucas pessoas com doença grave, que se beneficiam de tratamento imediato em nível secundário ou terciário. 61 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Encerramento Como você observou, é possível diagnosticar e tratar na APS as doenças que afetam os elementos figurados do sangue e tecido linfático, reconhecer as principais causas de anemia e linfonodomegalias, identificar os poucos casos que se beneficiam de atendimento em outros níveis de saúde daqueles que podem ser conduzidos na Atenção Primária à Saúde. A correta avaliação pelo médico do serviço de APS agiliza casos urgentes, evita procedimentos iatrogênicos, atrasos de condução de caso e encaminhamentos desnecessários. E é aí que reside a importância do estudo continuado e da vontade de ser cada vez mais resolutivo nas suas ações assistenciais. Esperamos que essa etapa do curso tenha contribuído para um cuidado cada vez melhor para a população do seu território. Agradecemos a sua participação e mantenha-se motivado para os próximos módulos! EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 62 Referências UNIDADE 1 ANDREOLI, Thomas et al. Distúrbios das hemácias. In: ANDREOLI, Thomas et al. Cecil: medicina interna básica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. p.368-383. 1997. ÁGUAS, Fernanda et al. Tratamento da Anemia ferropénica: Recomendações da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Acta Obstétrica e Ginecológica Portuguesa, v. 13, n. 1, p. 56-61, 2019. BORTOLINI, Gisele A.; FISBERG, Mauro. Orientação nutricional do paciente com deficiência de ferro. Revista Brasileira de Hematologiae Hemoterapia, v. 32, p. 105-113, 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Hematologia [recurso eletrônico]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. 33 p.: il. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada; v. 8) BRASIL. Ministério da Saúde. NutriSUS: caderno de orientações: estratégia de fortificação da alimentação infantil com micronutrientes (vitaminas e minerais) em pó. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015. 23 p.: il. BRASIL. Lei n.º 11.346, de 15 de setembro de 2006. Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional. Dispõe sobre a Criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional–SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências. Diário Oficial da União, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. 24 p.: il. BRASIL. Ministério da Saúde. Unicef. Cadernos de Atenção Básica: Carências de Micronutrientes. Bethsáida de Abreu Soares Schmitz. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2007. 60 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos) BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas: volume 3. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. 604 p.: il. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra: uma política para o SUS. 3. ed. Brasília, DF: Editora do Ministério da Saúde, 2017. 44 p. 63 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos CAPPELLINI, M.D.; MUSALLAM, K.M.; TAHER, A.T. Iron deficiency anaemia revisited. J Intern Med. 2020. CAVALCANTI, Juliana Manzoni; MAIO, Marcos Chor. Entre negros e miscigenados: a anemia e o traço falciforme no Brasil nas décadas de 1930 e 1940. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 2, p. 377-406, 2011. DELOUGHERY, T.G. Iron Deficiency Anemia. Med Clin North Am. 2017. DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J.; DUNCAN, M. S.; GIUGLIANI, C. (Orgs.). Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. 73p. FISBERG, M. et al. Consenso Sobre Anemia Ferropriva: mais que uma doença, uma urgência médica. Sociedade Brasileira de Pediatria, p. 1-13, 2018. GARCIA, M. N.; MARTINEZ-TORRES, C.; LEETS, I. et al. Heat tratament on heme iron and iron-containing proteins in meat: Iron absorption in humans from diets containing cooked meat fractions. Nutritional Biochemistry, v. 7, n.1, p. 49-54, 1996. GUSSO, Gustavo; LOPES, José M. C. DIAS, Lêda C. (Orgs.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. Porto Alegre: ARTMED, 2019, 2388 p. LAFFER, H.; RASTETTER, J.; HAFERLACH, T. (Orgs.). Atlas of Clinical Hematology. 6 ed. Springer: 2004. LOPES, Ana Jorge de Oliveira Cardoso. Anemia da doença crônica. 2011. 85 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Medicina, Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2011. MEDEIROS, Humberto. Pesquisa de Anticorpos de Heinz e agregados de hemoglobina H. Análises clínicas, hematologia e laboratório teste, 2019. MILLER, Otto; GONÇALVES, R. Reis. Laboratório para o clínico. 8. ed. São Paulo: Atheneu, 2001. 618 p. IBGE. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Pesquisa nacional de saúde: 2019 - Informações sobre domicílios, acesso e utilização dos serviços de saúde: Brasil, grandes regiões e unidades da federação. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. 85p. ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD (OMS). Documento final de la Segunda Conferencia Internacional sobre Nutrición: Declaracion de Roma sobre la Nutrición. Roma: OMS, 2014. SILVA, Dolores. Apostila de Anatomia e Fisiologia humana. Série hematológica. São Paulo, 2016. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 64 SIMON, Chantel; EVERITT, Hazel; VAN DORP, Francoise; HUSSAIN, Nazia; NASH, Emma; PEET, Danielle. Oxford Handbook of General Practice. 5 ed. Oxford: Oxford University Press, 2020. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Abordagem terapêutica: Anemia Ferropriva. 2012. UNIDADE 2 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2020. CAVALCANTI, E. F. A. Linfonodomegalia. Medicinanet. Publicado em: 30 de maio de 2010. Disponível em: . Acesso em: 30 mar. 2021. DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J.; DUNCAN, M. S.; GIUGLIANI, C. (Orgs.). Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. 73p. FERRER, R. L. Evaluation of peripheral lymphadenopathy in adults. Waltham (MA): UpToDate, 2017. Disponível em: . Acesso em: 08 nov. 2020. GADDEY, H. L.; RIEGEL, A. M. Unexplained Lymphadenopathy: Evaluation and Differential Diagnosis. Am Fam Physician. 2016 Dec 1; 94(11): 896-903. Disponível em: . Acesso em: 21 out. 2020. GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. (Orgs.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. Porto Alegre: ARTMED, 2019, 2388 p. PORTO, C. C.; PORTO, A. L. Exame clínico. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. RAO, R.; LILLEY, L.; ANDREWS, V.; RADFORD, L.; ULISSEY, M. Axillary staging by percutaneous biopsy: sensitivity of fine-needle aspiration versus core needle biopsy. Ann Surg Oncol. 2009 May;16(5):1170-5. doi: 10.1245/s10434-009-0421-9. Epub 2009 Mar 5. PMID: 19263171. SILVA, R. A. B. Semiologia em checklists [recurso eletrônico]: abordando casos clínicos. Ponta Grossa, PR: Atena Editora, 2019. SIMON, C.; EVERITT, H.; VAN DORP, F.; HUSSAIN, N.; NASH, E.; PEET, D. Oxford Handbook of General Practice. 5 ed. Oxford: Oxford University Press, 2020. 65 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos TELESSAÚDE RS-UFRGS. RegulaSUS: protocolos de encaminhamento para hematologia adulto [Internet]. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2016. Disponível em: . Acesso em: 05 nov. 2020. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 66 Biografia dos conteudistas Mannasses Araujo Costa Médico de família e comunidade e especialista em Medicina de Tráfego, mestre em Saúde da Família pela ABRASCO e Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Maranhão. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9681393156046742 Rosana Maria Paixão Castello Branco Médica de Família e Comunidade. Possui graduação em Medicina e Enfermagem pela Universidade Federal do Maranhão (2000). Atua principalmente nos seguin- tes temas: saúde, obesidade, escola, cirurgia e tabagismo. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9504035632199550 http://lattes.cnpq.br/9681393156046742 http://lattes.cnpq.br/9504035632199550 67 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 | ATENÇÃO À SAÚDE REALIZAÇÃO Ministério da Saúde. Universidade Federal do Maranhão. 2022. Abordagem a Problemas Hematológicos MÓDULO 19Ao final deste módulo, você deverá ser capaz de: • Avaliar os principais tipos de anemia e suas implicações clínicas, identificando sua etiologia e tratando, bem como reconhecendo os casos que necessitam de encaminhamento para outros níveis de atenção à saúde; • Realizar a investigação dos quadros de linfonodomegalia, diagnosticando e conduzindo adequadamente no contexto da APS e reconhecendo as situações com indicação de encaminhamento para outros níveis de atenção. Para estudar e apreender todas as informações e conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 15 horas para este módulo. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 10 Doenças hematológicas INTRODUÇÃO DA UNIDADE As doenças hematológicas constituem grupos de afecções com sintomatologia clínica muito comuns na Atenção Primária à Saúde. Elas geralmente correspondem a uma comorbidade preexistente ou a situações de carência nutricional que levam a distúrbios crônicos ou agudos, os quais necessitam de intervenções leves ou de maior complexidade, como mostraremos a seguir. A maioria dos distúrbios hematológicos que chegam às unidades primárias de saúde são de caráter benigno, cujo tratamento pode ser adquirido na própria farmácia da unidade de saúde. Isto facilita o acesso à obtenção do tratamento, quando este for necessário e instituído, bem como contribui para uma melhor aderência, por garantia de oferta dos recursos e insumos adequados ao plano de abordagem pactuado. Muitos pacientes são assintomáticos e têm seu diagnóstico durante a avaliação laboratorial de acompanhamento de outras patologias. Alguns manifestam sintomas leves e raramente existem os casos de maior gravidade, que exigem encaminhamento para especialistas focais ou serviços de pronto atendimento e acompanhamento conjunto. A APS (Atenção Primária à Saúde) é a porta de entrada preferencial dos usuários do sistema de saúde, sendo de grande importância garantir a maior acessibilidade ao atendimento e ao tratamento, assim como proporcionar uma assistência com vistas UNIDADE 01 11 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos à integralidade, longitudinalidade, participação ativa na terapêutica estabelecida, buscando a educação em saúde e a promoção do autocuidado. Dessa forma, ofertas ampliadas, a contextualização com o diagnóstico situacional e a resolutividade dos serviços de Atenção Primária à Saúde proporcionam resultados positivos no que tange à prevenção, promoção da saúde, ao diagnóstico e tratamento precoce, garantindo uma melhor qualidade de assistência à saúde. Nesta unidade, você estudará sobre os seguintes tópicos: etiologia dos principais tipos de anemia; diagnóstico da anemia a partir dos sinais, sintomas e/ou por meio do hemograma completo, disponibilizado pela rede pública de saúde; abordagem terapêutica baseada na etiologia da anemia, bem como na gravidade das formas de apresentação clínica. O estudo desses assuntos está relacionado ao alcance dos seguintes objetivos específicos de aprendizagem: • Identificar a etiologia dos principais tipos de anemia; • Diagnosticar a anemia a partir dos sinais, sintomas e/ou por meio do hemograma completo, disponibilizado pela rede pública de saúde; • Executar a abordagem terapêutica baseada na etiologia da anemia, bem como na gravidade das formas de apresentação clínica. Assim, espera-se que ao final deste módulo você seja capaz de avaliar os principais tipos de anemia e suas implicações clínicas, identificando sua etiologia e tratando, bem como reconhecendo os casos que necessitam de encaminhamento para outros níveis de atenção à saúde. 1.1 ANEMIAS 1.1.1 DEFINIÇÃO A anemia é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 2014) como a condição na qual o conteúdo de hemoglobina (Hb) no sangue está abaixo do normal, como resultado da carência de um ou mais nutrientes essenciais. Este conceito está em consonância com o Ministério da Saúde, que define a anemia com alguns parâmetros estabelecidos por faixa etária, descritos no quadro abaixo. Quadro 1. Distribuição de grupos populacionais e níveis de hemoglobina GRUPO NÍVEL DE HEMOGLOBINA Mulheresmantém homogeneamente distribuída nas proximidades da membrana plasmática, facilitando a hematose. A hemoglobina é um pigmento avermelhado encontrado no interior das hemácias, responsável por levar oxigênio aos tecidos e remover gás carbônico das células para ser eliminado. Para uma produção normal de eritrócitos, a medula óssea requer ferro, vitamina B12, ácido fólico, vitamina B6 (piridoxina) e outros fatores, cuja deficiência durante a eritropoiese resulta na diminuição da produção de hemácias e consequentemente o surgimento das anemias. 1.1.3 ETIOLOGIA DAS PRINCIPAIS ANEMIAS Segundo Bortolini e Fisberg (2010), a Organização Mundial de Saúde relata que, quando a prevalência da anemia é alta (acima de 40%), a causa mais comum é a deficiência de ferro dietético (anemia ferropriva). Isto pode ocorrer devido ao baixo consumo de alimentos fontes desse micronutriente ou à alta ingestão de inibidores da absorção do ferro (cálcio, leite, alumínio), possivelmente explicado Figura 1 – Hemácias. Fonte: Crystal Blair. Pixabay. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 14 REFLEXÃO A anemia causada por deficiência de ferro pode ser diagnosticada e tratada na Atenção Primária à Saúde. Você, enquanto médico de família e comunidade, tem um papel importante para que isso aconteça. Junto com sua equipe de saúde, precisa ter um olhar amplo para as questões que levam seus pacientes a esse quadro. Por exemplo, que tipo de condições socioeconômicas eles vivenciam que os levam ao baixo consumo de alimentos fontes de ferro ou à alta ingestão de inibidores da absorção do ferro? É importante ter esse olhar para planejar formas para ajudar e para mobilizar as redes de atenção à saúde e de assistência social de um modo que faça sentido para a realidade dessas pessoas. O olhar puramente clínico pode deixar passarem despercebidos aspectos cruciais para o desenvolvimento de doenças. 1.1.4 DIAGNÓSTICO De acordo com Gusso, Lopes e Dias (2019), a avaliação inicial do paciente com anemia inclui anamnese e exame físico minuciosos, além de exames laboratoriais. Os sintomas relacionados à anemia dependem da idade, da capacidade física, do grau de anemia e do tempo de evolução. Pacientes com evolução aguda apresentam sintomas com valores mais altos de hemoglobina, enquanto os de evolução crônica pelas difíceis condições socioeconômicas, que podem ter como consequências doenças carenciais, tanto em adultos quanto em crianças. Existem outras condições que contribuem para a instalação da anemia ferropriva, como: • Algumas doenças genéticas que dificultam absorção de nutrientes (atransferrinemia hereditária, aceruloplasminemia congênita, mutação no transportador divalente de metal [DMT-1/Nramp2]); • Mutação na serina-protease ligada à membrana tipo 6; • Hipotransferrinemia congênita; • Síndromes mielodisplásicas que prejudicam a maturação celular; • Sangramentos agudos e crônicos; • Alguns medicamentos, com destaque para os imunossupressores (metotrexato, azatioprina). Além da anemia ferropriva, existem outros tipos de anemia de causas nutricionais, em virtude de alterações genéticas que alteram a morfologia das hemácias, levando a quadros severos e outras causadas por síndromes absortivas e autoimunes. Os principais tipos que buscam os profissionais da APS serão estudados nesta unidade. 15 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos exibem valores mais baixos. Por isso a comunicação clínica e o vínculo com os usuários tornam-se de suma importância nestes casos. A investigação laboratorial inicial (quando se inicia investigação da anemia em paciente com sintomas) consiste na realização dos seguintes exames: • Hematócrito, hemoglobina e contagem de eritrócitos para avaliar o grau de anemia. • Índices hematimétricos (VCM, HCM e CHCM) para determinar se oseritrócitos são, em média, normocíticos, macrocíticos (VCM > 100) ou microcíticos (VCM . 1.1.4.2 EXAMES COMPLEMENTARES Depois da anamnese e do exame físico, solicitar exames complementares para avaliação laboratorial e possível diagnóstico dos tipos de anemia. Observe o quadro abaixo com as principais abordagens diagnósticas para complemento clínico. Quadro 2. Demonstrativo com principais abordagens laboratoriais Abordagem com suspeita de Anemia ferropriva Nutrientes que colaboram com a instalação da Anemia e favorecem outras causas carenciais Anemias Hemolíticas e autoimune Anemias de doenças crônicas com suspeitas de neoplasias Ferro Sérico Folatos Eletroforese de hemoglobina Hemograma completo com frações e morfologia Ferritina Vitamina B12 Falcização Mielograma Hematócrito Vitamina C Reticulócitos Biópsia de medula VCM Esfregaço periférico Folatos, vitamina B12 CMMC Esfregaço de Medula Coagulograma e função hepática Fonte: Elaborado pelo conteudista. A contagem de reticulócitos mostra como a medula óssea reage à anemia. Testes subsequentes são selecionados com base nesses resultados e na apresentação clínica. O reconhecimento dos padrões diagnósticos gerais pode agilizar o diagnóstico. Outros exames para a avaliação da anemia • A dosagem sérica de bilirrubina e desidrogenase lática (DHL) pode, algumas vezes, ajudar a diferenciar a hemólise da perda de sangue; ambas estão aumentadas na hemólise e normais na perda de sangue. Outros exames, como os níveis de vitamina B12 e folato, ferro e capacidade de fixação do ferro, https://psbe.ufrn.br 17 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Segundo Fisberg et al. (2018), a anemia não é um diagnóstico, é a manifestação de um distúrbio de base. Sendo assim, mesmo que moderada, aanemia assintomática deve ser investigada para que o problema primário possa ser diagnosticado e tratado. Lembre-se! 1.1.4.3 INTERPRETAÇÃO DO HEMOGRAMA De acordo com Miller e Gonçalves (2001), o hemograma é basicamente o conjunto de avaliações das células sanguíneas que, juntamente a outros dados clínicos, permitem o diagnóstico e prognóstico de diferentes doenças e processos patológicos. É um dos mais requisitados em laboratórios clínicos, pois apresenta grande importância na avaliação do estado de saúde geral do paciente, auxiliando no diagnóstico de diferentes patologias além de permitir o acompanhamento do tratamento de diversas doenças. Dentre as principais alterações que podem ser observadas no exame estão as anemias por déficit nutricional, anemias associadas a doenças crônicas, quadros de infecções e também suspeitas de doenças linfoproliferativas. Podemos dividi-lo para melhor análise em: • Eritrograma (onde avaliamos a série vermelha); • Leucograma (para a avaliação dos glóbulos brancos); • Plaquetograma, que analisa as plaquetas. O eritrograma pode avaliar diferentes parâmetros na quantidade e qualidade das hemácias que estão sendo produzidas, bem como a hemoglobina presente na célula. Quadro 3. Interpretação clínico-laboratorial das alterações na série vermelha do sistema hematopoiético PARÂMETROS SIGNIFICADO VALORES ALTERADOS Hemoglobina (Hb) Proteína responsável pelo transporte de oxigênio para o pulmão e outros tecidos. Alto: Esforço físico extremo, tabagismo, residir em altitudes elevadas. Baixo: Pode indicar principalmente quadros de anemia, anemia por deficiência de ferro e outras causas nutricionais, hemorragias, leucemia ou insuficiência renal. são feitos dependendo da suspeita da anemia. Outros exames são discutidos em anemias específicas e distúrbios de coagulação. O diagnóstico diferencial pode, então, ser definido de acordo com os resultados dos exames. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 18 Hematócrito (Ht/ Hct) Percentual de hemácias presentes na amostra de sangue. Alto: Insuficiência cardíaca ou respiratória, policitemia vera (tipo de câncer), dengue. Baixo: Anemias, perda excessiva de sangue (hemorragia), ou hemólise elevada (quebra de hemácias), hipermenorreia e gravidez. Hemácias Número total de hemácias na amostra (expresso em milhões). Alto: Policitemia, altitudes elevadas, desidratação, choque. Baixo: Hemorragia, anemias por deficiência nutricional, gravidez e hipermenorreia, quadros de hemólise. Volume Corpuscular Médio (VCM) ou Volume Globular Médio (VGM) Volume da hemácia, ou seja, seu tamanho. Alto: Indica hemácias grandes (macrocíticas) relacionadas a anemias macrocíticas, hipotireoidismo ou consumo de álcool em excesso. Baixo: Tamanho reduzido da hemácia (microcíticas) relacionadas a anemias microcíticas como anemias por déficit de ferro. Hemoglobina Corpuscular Média (HCM) ou Hemoglobina Globular Média (HGM) Peso de hemoglobina presente no interior da hemácia. Alto: Hemácias com bastante hemoglobina (hipercrômica) estão presentes em doenças hepáticas, consumo de álcool, anemias megaloblásticas (por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico). Baixo: Hemácias com pouca hemoglobina (hipocrômica) estão presentes principalmente em anemias hereditárias ou por déficit de ferro. Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM) Avalia a concentração de hemoglobina presente nas hemácias. Alto: Pode estar elevado em pessoas com consumo elevado de álcool, problemas na tireoide. Baixo: Indicativo de algumas anemias, insuficiência cardíaca, hipotireoidismo e alguns medicamentos que podem levar a essas alterações. 19 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Fonte: Adaptado de Miller e Gonçalves (2001). Amplitude de distribuição das hemácias (RDW) Avalia a diferença de tamanho entre as hemácias. Alto: Demonstra que a população de hemácias está com diversos tamanhos, não seguindo um padrão. Sugestivo de quadros de anemia, doenças hepáticas, além de alguns medicamentos podem ocasionar isso. Baixo: Possui pouco significado clínico, porém, se avaliado em conjunto com o VCM pode indicar anemias causadas por doenças crônicas ou hereditárias, doenças hepáticas, além de algumas neoplasias. O leucograma pode avaliar diferentes tipos de leucócitos, os quais são principalmente responsáveis por nosso sistema imunológico, além de atuarem no processo da resposta a processos inflamatórios, infecciosos e também de algumas neoplasias. Quadro 4. Interpretação clínico-laboratorial da série branca do sistema hematopoiético PARÂMETROS SIGNIFICADO VALORES ALTERADOS Neutrófilos Representam a primeira linha de defesa contra a invasão de microrganismos. Alto (Neutrocitose): Pode estar elevado em infecções bacterianas agudas, com desvios para esquerda, inflamações, utilização de corticoide, leucemias. Em algumas infecções virais de caráter agudo (como HIV, CMMV) e algumas fases de infecção bacterianas em períodos de agudização, com desvios à esquerda (sífilis, tuberculose). Baixo (Neutropenia): Os valores podem estar diminuídos devido a infecções virais ou por parasitas, devido à utilização de alguns antibióticos e ao consumo excessivo de álcool. Bastonetes São neutrófilos imaturos, liberados na circulação sanguínea. Alto: Podem indicar principalmente quadros de infecção bacteriana e virais de caráter agudo. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 20 Fonte: Adaptado de Miller e Gonçalves (2001). Com relação ao plaquetograma, compreende-se que quando um tecido é lesado, rapidamente são encaminhadas plaquetas ao local da lesão. As plaquetas se agrupam e formam um trombo (coágulo), uma espécie de “tampa” que imediatamente reduz o sangramento. Diferentes fatores podem alterar a produção de plaquetas, dessa forma, a dosagem do número de plaquetas, bem como a avaliação da qualidade delas, é de extrema importância no diagnóstico de diferentes doenças e alterações no organismo. O aumento do número de plaquetas, também conhecido como trombocitose, ocorre principalmente em decorrência da perda de grandes quantidades de sangue, após cirurgias, em alguns casos de anemias, doenças linfoproliferativas, doenças autoimunes e inflamações crônicas ou agudas. A queda no número de plaquetas é conhecida como trombocitopenia e acontece principalmente em decorrência de doenças que afetam a medula óssea, como neoplasias, arboviroses, doenças autoimunes, alguns casos de anemias, infecções pelo HIV, além da utilização de alguns medicamentos que reduzem a agregação plaquetária. Segue abaixo a avaliação de dois tipos de hemograma, o primeiro considerado dentro da normalidade para um paciente do sexo feminino de 24 anos; o segundo, para um paciente do sexo masculino de 32 anos, demonstrando algumas alterações em algumas séries, que você pode analisar utilizando o quadro referente às alterações específicas de cada elemento. Eosinófilos Atua na defesa do organismo contra alguns parasitas, além de modular as reações de hipersensibilidade. Alto: Pode estar elevado em casos de alergias, infecções por parasitas e algumas doenças cutâneas (pele). Baixo: Estresse, traumas, inflamações e a utilização de corticoides. Monócitos Célula de defesa contra vírus e bactérias, além de remover partículas estranhas ou restos celulares. Alto: Elevado em algumas fases de infecções virais (convalescença) e infecções bacterianas como sífilis e tuberculose, infecções fúngicas, além de casos de inflamação crônica. Linfócitos Atuam principalmente na resposta imune contra vírus e células tumorais. Alto (Linfocitose): Infecções virais, leucemia linfoide e em alguns outros tipos de cânceres. Baixo (Linfopenia): Insuficiência renal, AIDS (fases finais), exposição à radiação e alcoolismo. 21 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Quadro 5. Análisede Hemograma normal SERIE VERMELHA VALORES DE REFERÊNCIA Eritrocitos: 4,20 milhões/mm³ 3,90 a 4,80 Hemoglobina: 13,2 g/dL 12,0 a 16,0 Hematócrito: 39,4% 35,0 a 46,0 V.C.M.: 93,8 fL 80,0 a 100,0 H.C.M.: 31,4 pg 27,0 a 33,0 C.H.C.M.: 33,5 g/dL 32,0 a 36,0 RDW SD: 40,6 fL 36,4 a 46,3 RDW CV: 12,0% 11,7 a 14,4 Coloração e aspecto das emácias: N.D.N. SERIE BRANCA VALORES DE REFERÊNCIA Leucocitos 4700/mm³ 4500 a 11000 Outras celulas: 0,0% 0/mm³ 0% a 0% 0 a 0 Mielocitos: 0,0% 0/mm³ 0% a 0% 0 a 0 Metamielocitos 0,0% 0/mm³ 0% a 0% 0 a 0 Bastonetes: 0,0% 0/mm³ 0% a 6% 0 a 660 Segmentados: 68,0% 3196/mm³ 45% a 65% 2025 a 7150 Linfocitos: 21,0% 987/mm³ 20% a 40% 900 a 4400 Monocitos: 9,0% 423/mm³ 1% a 13% 45 a 1430 Eosinofilos 2,0% 94/mm³ 0,1% a 6,0% 4,6 a 660 Basofilos 0,0% 0/mm³ 0% a 2% 0 a 220 Total de células: 100,0 Linfócitos atípicos: N.D.N. Granulações tóxicas: N.D.N. VALORES DE REFERÊNCIA Plaquetas: 213000/mm³ 100000 a 400000/mm³ VPM: 9.8 fL 8,0 a 13,0 fL Fonte: Adaptado de Miller (2001). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 22 Quadro 6. Análise de Hemograma com alterações PARÂMETRO 1ª AVALIAÇÃO 2ª AVALIAÇÃO VALORES DE REFERÊNCIA Hemácias 4,44 4,05 5.5 - 8.5 (x 106/μl)ª Hemoglobina 10,5 10,1 12 - 18 (g/dl)ª Hematócrito 32 29 37 - 55 (%)ª VCM* 72,1 71,6 60 - 77 (fl)ª CHCM** 32,8 34,8 32 - 36 (%)ª PPT*** 10,4 9,8 6,0 - 8,0g/dLª Leucócitos totais 5.400 9.300 6.000 - 17.000/μLª Neutrófilos 4.212 2.604 3.000 - 11.500/μLª Linfócitos 540 5.580 1.000 - 4.800/μLª Monócitos 648 372 150 - 1250/μLª Eosinófilos 0 744 150 - 1.250/μLª Plaquetas - 103.500 200 - 500x103ª Fonte: Miller (2001). Entre as alterações que podem ser observadas, estão: Anemia normocítica plaquetopenia* (hemoglobina) baixa, hematócrito baixo, VCM normal, plaquetas baixas). 1.1.5 CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS De acordo com Miller e Gonçalves (2001), as síndromes anêmicas podem ser classificadas quanto à proliferação (pelo índice de reticulócitos) e quanto à morfologia (pela ectoscopia da hemácia ou valores de VCM e HCM). Estas avaliações são de grande interesse clínico para a classificação das anemias. Analisaremos os principais tipos de anemia, de acordo com sua etiologia e as características morfológicas. Como já foi visto anteriormente, a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2014), define anemia como o estado onde a concentração de hemoglobina está anormalmente baixa como consequência da deficiência ou da produção ou absorção de um ou mais nutrientes essenciais, qualquer que seja a origem da carência, porém, além da hemoglobina, existem outros parâmetros morfológicos que ajudam em uma melhor classificação. Abaixo teremos uma breve abordagem de alguns elementos presentes em quadros anêmicos, com suas respectivas descrições: 23 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos ANEMIA FERROPRIVA Anemia ferropriva é o tipo de anemia decorrente da privação, deficiência ou baixa absorção de ferro dentro do organismo levando à uma diminuição da produção, do tamanho e teor de hemoglobina dos glóbulos vermelhos e das hemácias. O ferro é essencial para a produção dos glóbulos vermelhos e seus níveis baixos no sangue comprometem toda cascata de produção das hemácias. Dentro dos glóbulos vermelhos existe uma proteína chamada hemoglobina que tem na sua estrutura bioquímica a presença de moléculas de ferro e de cobalto (este último está presente na vitamina B12). Em geral, o ferro sérico normal é 75 a 150 μg/dL (13 a 27 mmol/L) para homens e 60 a 140 μg/dL (11 a 25 mmol/L) para mulheres; a capacidade total de ligação do ferro é 250 a 450 μg/dL (45 a 81 mmol/L) e a saturação da transferrina é de 20 a 50%. O ferro é considerado alto quando os valores ultrapassam 150mug para homens e acima de 140 para mulheres e três vezes mais nas doenças genéticas, como hemocromatose, cujo sintomas são: cansaço, fraqueza, queda de cabelo e alteração do ciclo menstrual. A anemia pode ser classificada como grave ou muito grave de acordo com o valor de hemoglobina (BRASIL, 2007): Figura 2 – Causas de anemia e sua classificação de acordo com a contagem de reticulócitos e com a mor- fologia das hemácias. Fonte: UFRJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Protocolo de Anemias para Obstetrícia. Disponível em: . Acesso em: 01 dez 2021. Anemia Valor de Hemoglobina (g/dL) GravePEDIATRIA. Anemia carencial ferropriva. 2007. O tratamento preventivo com a utilização de estratégias que visem ao adequado controle e à prevenção da carência de ferro é de fundamental importância. Essa problemática deve ser uma das prioridades na área de alimentação e nutrição, com ações e intervenções a curto, a médio e a longo prazos (BRASIL, 2007). A alimentação é um fator muito importante na prevenção da anemia ferropriva Alterações qualitativas e quantitativas no consumo podem ser uma alternativa bem sucedida, em que por meio do conhecimento dos fatores estimuladores e inibidores da absorção do ferro se pode contribuir para o melhor aproveitamento do ferro dietético e biodisponibilidade da alimentação (BRASIL, 2007). A presença do ferro varia de acordo com o tipo de alimento, conheça abaixo alguns alimentos e sua biodisponibilidade: Quadro 8. Exames laboratoriais empregados na avaliação das diferentes fases de deficiência de ferro Quadro 9. Conteúdo de ferro e sua biodisponibilidade em alimentos Alimento Teor de ferro (mg/100 g) Biodisponibilidade Carnes Bovina Suína Peixes Aves 3,2 2,9 2,5 1,3 Alta Alta Alta Alta Vísceras Fígado bovino Miúdos de galinha Coração Língua 8,2 4,3 3,7 1,9 Alta Alta Alta Alta EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 26 Algumas outras estratégias preventivas incluem (BRASIL, 2007): • Educação nutricional; • Fortificação de alimentos; • Suplementação medicamentosa; • Fortificação obrigatória da farinha de trigo com ferro e ácido fólico; • Suplementação medicamentosa universal de ferro para grupos vulneráveis; Fonte: SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Anemia carencial ferropriva. 2007. Ovo Gema Inteiro Clara 5,5 3,2 0,4 Baixa Baixa Baixa Leite Humano Vaca 0,5 0,3 Alta Baixa Leguminosas Lentilha Soja Feijão Ervilha 8,6 8,5 7,0 5,8 Baixa Baixa Baixa Baixa Cereais Cereais matinais Farinha láctea Aveia (farinha) Aveia (flocos) 12,5 4,0 4,5 3,4 Alta Alta Baixa Baixa Hortaliças Nabo Brócolis Couve Batata Cenoura Espinafre Beterraba 2,4 1,1 2,2 1,0 0,4 3,3 0,8 Alta Alta Média Média Média Baixa Baixa Frutas Suco de limão Laranja Banana Manga Abacate 0,6 0,2 2,2 0,7 0,7 Alta Alta Média Média Baixa Outros Açúcar mascavo Rapadura 4,2 4,2 Alta Alta 27 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 1ª FASE Correção da anemia 2ª FASE Reposição dos estoques de ferro Possui duração de 1 a 2 meses, objetiva o desaparecimento dos sintomas e aumento maior que 2g/dl de Hb. Possui duração de 2 a 6 meses, objetiva uma ferritina maior que 30ng/ml. Para saber mais sobre as formas de tratamento e suplementação de ferro, você pode acessar o artigo Tratamento da anemia ferropriva com ferro por via oral, de autoria do Rodolfo Cançado, Clarisse Lobo e João Ricardo Friedrich, publicado em 2010 na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. SAIBA MAIS • Orientação nutricional e alimentar; • Aleitamento materno de forma exclusiva até 6 meses e complementado até dois anos ou mais; • Contra-indicação do uso de leite de vaca integral na alimentação de crianças menores de um ano e consumo de no máximo 700ml/dia para os maiores de um ano; • Utilização de carne na alimentação complementar desde o início (70 a 100g/ dia) por ser excelente fonte de ferro de elevada biodisponibilidade; • Suplementação profilática de ferro diária no lugar da semanal. Para o tratamento medicamentoso, a escolha da preparação de ferro vai depender da gravidade da doença e da tolerância do paciente ao ferro oral. O tratamento para correção da anemia pode ser dividido em duas fases (DELOUGHERY, 2017): ANEMIA MEGALOBLÁSTICA A anemia megaloblástica é caracterizada pela diminuição de glóbulos vermelhos, que se tornam grandes, imaturos e disfuncionais (megaloblastos) na medula óssea, e também por neutrófilos hipersegmentados. Essas alterações resultam da inibição da síntese do DNA na produção dos glóbulos vermelhos. Em resumo, na anemia megaloblástica os glóbulos vermelhos são maiores que o normal e há pouca quantidade de glóbulos brancos e de plaquetas. Pode ser causada por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, que ocorre por baixa ingestão (deficiência de folato) ou por impacto na absorção, como é o caso da anemia perniciosa (deficiência de vitamina B12). Fonte: Deloughery (2017). Quadro 10. Fases do tratamento para correção da anemia https://www.scielo.br/j/rbhh/a/BmJ9B3sJ7mGMV7PSCh4GZSw/abstract/?lang=pt EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 28 A deficiência de vitamina B12 pode cursar com pancitopenia (diminuição de todas as células do sangue, ou seja, é a diminuição no número de hemácias, leucócitos e plaquetas). A investigação inicia-se pela dosagem de ácido fólico e vitamina B12. As dosagens séricas de ácido metilmalônico e homocisteína são usadas para confirmação diagnóstica. TALASSEMIA É uma doença hereditária resultante de um defeito genético na síntese de uma ou mais cadeias globínicas da hemoglobina. Há dois principais tipos de talassemia - alfa e beta - que podem se manifestar como minor (ou traço talassêmico), intermédia ou major. O diagnóstico laboratorial das talassemias é feito por hemograma e eletroforese de hemoglobina. Também é possível estudar a mutação genética específica. As cadeias produzidas em excesso formam precipitados na hemácia, lesam a membrana e provocam destruição prematura. Apresenta Hemograma com microcitose, hipocromia e reticulócitos aumentados. A eletroforese de hemoglobina apresenta elevação da hemoglobina A2 nas beta-talassemias. Figura 3 – Análise microscópica da Anemia megaloblástica. Fonte: Laffer, Rastetter e Haferlach (2004). O diagnóstico é feito através de hemograma completo, dosagem de ácido fólico e dosagem de vitamina B12. A morfologia no hemograma é descrita da seguinte forma: • Macrocítica VCM > 90; • Neutrófilos plurissegmentados no sangue periférico; • Dosagem de vitamina B12 e ácido fólico. Observe abaixo uma ilustração de hemácias macrocísticas presentes na anemia megaloblástica. 29 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos ANEMIA FALCIFORME É uma doença hereditária (passa dos pais para os filhos) caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue, tornando-os parecidos com uma foice, daí o nome falciforme. Essas células têm sua membrana alterada e rompem-se mais facilmente, causando anemia. O termo doença falciforme é utilizado para nomear síndromes causadas por uma alteração particular na molécula de hemoglobina que transporta oxigênio e é uma das mais predominantes na composição das hemácias. Andreoli et al. (1997) e Cavalcanti e Maio (2011, p. 379) explicam ainda que: A alteração genética se traduz na substituição de um aminoácido por outro em uma das cadeias proteicas que formam a hemoglobina (substituição do glutamato por valina, na posição ß6 - Hb S), o que causa mudança na estrutura da molécula. Tal mudança acarreta menor afinidade com a molécula de oxigênio e a formação de longas cadeias de hemoglobinas que acabam por formar feixes intracelulares concentrados nas extremidades da hemácia e fazem com que ela adquira a forma de foice. Ocorre por mutação que substitui o ácido glutâmico por valina na posição 6 da cadeia ß da globina. A hemácia com a globina mutante, quando desoxigenada torna a clássica forma de foice, perdendo a flexibilidade necessária para atravessar os pequenos capilares. Os heterozigotos para a mutação apresentam uma entidade benigna (traço falciforme), sem ocorrência de anemia ou obstrução vascular. Figura 4 – Análise microscópica da Talassemia. Fonte: Laffer, Rastetter e Haferlach (2004). EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 30 ANEMIAS HEMOLÍTICAS É uma anemia causada pela ruptura das hemácias (hemólise) antes da sua vida normal de 120 dias. Essa ruptura anormal de hemácias pode ocorrer nos vasos sanguíneos (hemólise intravascular) ou em outro lugar do corpo (extravascular). Algo que você deve observaré que a anemia falciforme é uma das doenças hereditárias com maior prevalência na população negra. O gene recessivo causador pode ser encontrado “de 2% a 6% na população brasileira em geral, e de 6% a 10% na população negra” (BRASIL, 2017, p. 10). Ela é decorrente de uma mutação genética de milhares de anos atrás no continente africano e que veio para o Brasil pelo tráfico de escravos (CAVALCANTI; MAIO, 2011; BRASIL, 2017). Por isso, o que se espera é que o médico de família e comunidade na APS, durante seus atendimentos, tenha um olhar mais atento a essa população, a fim de prestar a assistência adequada e suficiente considerando essa e outras particularidades desse grupo. O diagnóstico dessa hemoglobinopatia é bastante complexo, os exames mais utilizados para a determinação dessa patologia são: hemograma, teste de falcização, teste de solubilidade, eletroforeses. Hemograma, falcização e eletroforese de hemoglobina são exames disponíveis na rede pública de saúde, sendo acessíveis na Atenção Primária à Saúde. Também podem ser solicitados outros exames em ambientes de maior complexidade como: Focalização Isoelétrica, Imunoensaio, Diagnóstico em Neonatos, dosagem de Hemoglobina Fetal e Hemoglobina A2. Figura 5 – Análise microscópica da Anemia Falciforme. Fonte: Laffer, Rastetter e Haferlach (2004). 31 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos • Deficiência de Glicose 6 Fosfato Desidrogenase (G6PD) Representa a anormalidade mais comum do metabolismo da hemácia. É uma desordem genética ligada ao cromossomo X, a deficiência desta enzima diminui a capacidade da hemácia de manter-se íntegra frente aos agentes oxidantes. Algumas infecções, alterações metabólicas e exposição a alguns fármacos provocam episódio hemolítico agudo com hemólise intravascular. O diagnóstico pode ser confirmado pela presença do Corpúsculo de Heinz no esfregaço de sangue periférico que revela microesferócitos, hemácias “mordidas” e eritroblastos. O teste da antiglobulina direta (Coombs direto) é caracteristicamente positivo. É uma condição capaz de causar crises hemolíticas, devido à deficiência em desidrogenase de glicose-6-fosfato (G6PD) é um defeito enzimático ligado ao cromossomo X que afeta aproximadamente 400 milhões de pessoas no mundo, principalmente a população de etnia negra. Nos casos refratários pode ser realizada esplenectomia ou terapia com imunossupressores. A transfusão deverá ser reservada para pacientes com sinais de falência circulatória. Figura 6 – Análise microscópica da esferocitose hereditária. Fonte: Laffer, Rastetter e Haferlach (2004). • Esferocitose Hereditária Representa a mais comum desordem congênita da membrana eritroide. É caracterizada por disfunção de uma ou mais proteínas de membrana, gerando alteração na flexibilidade da hemácia com destruição periférica precoce. Clinicamente varia desde anemia discreta compensada até grave Anemia Hemolítica. Segue abaixo figura microscópica dos esferócitos: Segue abaixo alguns dos principais tipos de anemia hemolítica. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 32 • Anemia Hemolítica Microangiopática De acordo com Brasil (2007), é caracterizada por hemólise microvascular causada por fragmentação de eritrócitos normais passando por vasos anormais. A síndrome hemolítico-urêmica e a púrpura trombocitopênica trombótica são causas primárias, enquanto, entre as secundárias, encontramos as complicações da gravidez como: o DPP, pré-eclâmpsia, eclâmpsia e a síndrome HELPP. Clinicamente constata-se a tríade clássica: anemia microangiopática, plaquetopenia e insuficiência renal aguda. O tratamento consiste em plasmaférese (técnica utilizada para fazer a separação entre o plasma e os outros elementos do sangue e para remover do plasma os elementos que possam estar sendo responsáveis pela doença do paciente). A indicação mais comum da plasmaférese é a remoção de anticorpos e complexos autoimunes que estejam atacando órgãos do próprio corpo, observando-se que a transfusão de plaquetas é contraindicada por resultar em agravamento da trombose microvascular. Figura 7 – Esquematização de corpos de Heinz. Fonte: Medeiros (2019). 33 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos ANEMIA DE DOENÇAS CRÔNICAS Segundo Lopes (2011), as anemias provenientes de doenças crônicas geralmente cursam com anemia normocítica e normocrômica, geralmente leve a moderada. Sua causa é multifatorial e as doenças infecciosas, autoimunes, neoplasias e insuficiência renal crônica são condições associadas. Os exames laboratoriais demonstram ferritina normal ou alta, com ferro sérico baixo, em decorrência de desordem no metabolismo do ferro. O tratamento da doença de base deve ser realizado sempre que possível. O tratamento de suporte pode ser realizado com reposição de eritropoetina para os casos em que há deficiência e administração de ferro por via parenteral, enquanto a transfusão de concentrados de hemácias deverá ser reservada para os pacientes sintomáticos. ANEMIA POR PERDA AGUDA DE SANGUE É causa comum de anemia hiperproliferativa. Perdas de até 15% do volume sanguíneo são normalmente toleradas por mecanismos compensatórios. Perdas maiores levam a hipotensão e choque. No choque hipovolêmico ocorre perda sanguínea global de tal forma que os valores hematimétricos podem permanecer normais e não refletem imediatamente a extensão da perda sanguínea. Quando se perde sangue, o corpo absorve rapidamente água dos tecidos para a corrente sanguínea, em uma tentativa de manter os vasos sanguíneos preenchidos. Consequentemente, o sangue fica diluído e o hematócrito (porcentagem de glóbulos vermelhos presentes na quantidade total do sangue, ou volume de sangue) é reduzido. Por fim, elevação da produção de glóbulos vermelhos pela medula óssea pode corrigir a anemia. Com o passar do tempo, contudo, a hemorragia reduz a quantidade de ferro no corpo, de maneira que a medula óssea não consegue aumentar a produção de novos glóbulos vermelhos para substituir os perdidos. 1.1.6 ABORDAGEM TERAPÊUTICA De acordo com o protocolo de distúrbios carenciais do Ministério da Saúde (BRASIL, 2014) o tratamento das anemias é muito variado, depende da causa etiológica e da correção dos fatores que precipitam o quadro, constituindo-se principalmente em abordagem nutricional e terapêutica medicamentosa, como você poderá observar a seguir. 1.1.6.1 ABORDAGEM NUTRICIONAL Segundo Brasil (2015), o aconselhamento nutricional faz parte das medidas gerais a adotar no tratamento de uma anemia ferropênica. O aporte diário de ferro recomendado para a mulher é de 18mg/dia. Na dieta encontram-se duas formas de ferro, o ferro heme, cuja fonte é de origem animal, e o ferro não heme, cujas fontes são os cereais e os vegetais. O primeiro é de duas a três vezes mais bem absorvido no intestino do que o segundo. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 34 1.1.6.2 ABORDAGEM MEDICAMENTOSA ANEMIA FERROPRIVA Segundo Brasil (2014), independentemente da sintomatologia, todos os pacientes com anemia ferropênica ou ferropriva devem ser tratados, uma vez que, com a progressão da anemia, existe o risco de isquemia e de lesões orgânicas. Alimentos ricos em ferro não heme • Presente nos alimentos de origem vegetal, ovos, alimentos fortificados; • Taxa de absorção: 2 a 20%; • Favorece a absorção: vitamina C; • Diminuem alguns alimentos e medicamentos que podem alterar a absorção do ferro, como fitatos (aveia, trigo, lentilha), taninos (café, chá, chocolate), ovos, leite, antiácidos, inibidores bomba protões, tetraciclinas. O ferro é um micronutriente essencial para a vida e atua principalmente na síntese de células vermelhas do sangue (hemácias) e no transporte do oxigênio no organismo. Algumas literaturas avaliam o efeito das proteínas sobre a absorção do ferro não heme ser diferenciado de acordo com a fonte alimentar, tendo as proteínas de carnes, aves e peixes efeito estimulador,e as proteínas de leite e ovos, efeito inibidor, ou ainda, estas não têm demonstrado efeito interferente sobre a absorção do ferro de alimentos vegetais (GARCIA et al., 1996). Como o ferro não heme possui baixa biodisponibilidade, recomenda-se a ingestão na mesma refeição de alimentos que melhoram a absorção desse tipo de ferro, por exemplo, os ricos em vitamina C, disponível em frutas cítricas (como: laranja, acerola, limão e caju), os ricos em vitamina A, disponível em frutas (como: mamão e manga) e as hortaliças (como: abóbora e cenoura). Em contrapartida, existem alguns alimentos que interferem na absorção do ferro, como leite e derivados de leite, cálcio, alumínio. Lembre-se! Alimentos ricos em ferro heme • Carne e produtos à base de sangue; • Complexo ferro-porfirina, não sofre influência dos componentes dietéticos; • Taxa de absorção: 15 a 35%. 35 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos O suplemento de Ferro oral é o mais recomendado, pelo baixo custo e melhor acessibilidade, devendo ser suplementado conforme ciclos de vida. As necessidades de ferro durante os primeiros anos de vida e durante a gestação são muito elevadas, por isso recomenda-se a adoção de medidas complementares ao estímulo à alimentação saudável, com o intuito de oferecer ferro adicional de forma preventiva. A prevenção da anemia por deficiência de ferro deve ser planejada com a priorização da suplementação de ferro medicamentosa em doses profiláticas; com ações de educação alimentar e nutricional para alimentação adequada e saudável; com a fortificação de alimentos; com o controle de infecções e parasitoses; e com o acesso à água e esgoto sanitariamente adequado. As ações de prevenção da anemia devem priorizar intervenções que contribuam para o enfrentamento dos seus principais determinantes. O esquema abaixo apresenta as janelas de oportunidades de prevenção e controle da anemia nos diferentes ciclos de vida. Sulfato ferroso: • Crianças: 1mg/kg/dia de ferro elementar. • Gestantes: 60 a 200mg/dia de ferro elementar associadas a 400mcg/dia de ácido fólico. • Puérperas e pós-abortamento: 40mg de ferro elementar por três eses. • Adultos: 120mg/dia de ferro elementar. • Idosos: 15mg/dia de ferro elementar. Até o momento, Brasil (2015) recomenda para crianças entre 6 e 24 meses de vida a suplementação de ferro na dose de 1mg de ferro elementar/Kg/dia. Se a criança não estiver em aleitamento materno exclusivo, a suplementação poderá ser realizada a partir dos 4 meses de idade. Não há recomendação para a suplementação profilática de ácido fólico em crianças. A suplementação de recém- nascidos, segue uma abordagem diferenciada, obedecendo as condições absortivas deles, sendo estudada posteriormente. Na gestação, deve-se sustentar dose de manutenção da 20ª semana de gravidez até três meses após o parto; nas demais faixas etárias, manter critérios conforme avaliação laboratorial. EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 36 SUPLEMENTAÇÃO DE FERRO ENDOVENOSO Segundo Águas et al. (2019), a reposição endovenosa de ferro é uma alternativa de tratamento da ferropenia quando houver: • Intolerância ao tratamento com ferro por via oral; • Falha de tratamento com ferro por via oral, geralmente por má absorção; • Gastrectomia; • Gastroplastia redutora; • Doença celíaca; • Gastrite atrófica; • Doença inflamatória intestinal; • Infecção por Helicobacter pylori; • Anemia ferropriva intensa (Hbtipo de anemia acomete pacientes com doenças inflamatórias crônicas, como tuberculose, doença de Crohn, pneumonias, doença renal crônica e doenças malignas como carcinomas e linfomas. O tratamento é feito com o controle da doença basal. A eritropoetina pode ser considerada em casos graves com anemia intensa. • Eritropoetina: dose inicial de 100U/Kg,, via subcutânea, dividida em três doses semanais por um período de 8 a 12 semanas. Se não houver resposta terapêutica esperada, recomenda-se aumentar a dose para 150U/Kg até 300U/Kg. ANEMIA POR PERDA AGUDA DE SANGUE O tratamento inicial deve ser feito com reposição de cristaloides para manutenção do volume plasmático. Para a perda moderada e de curta duração, a infusão de solução cristaloide costuma ser suficiente. A indicação de transfusão de hemocomponentes deve ser avaliada individualmente. Se a perda sanguínea for maior que 1500ml ou maior que 30% do volume plasmático haverá necessidade de reposição de concentrados de hemácias. 1.1.7 CRITÉRIOS DE ENCAMINHAMENTO PARA OUTROS NÍVEIS DE ATENÇÃO À SAÚDE De acordo com Brasil (2016), o protocolo de Hematologia foi publicado ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014. As informações solicitadas nos protocolos são de presença obrigatória. Têm como objetivo determinar se o paciente necessita do encaminhamento para o especialista focal e definir a prioridade do encaminhamento. Ressalta-se que outras situações clínicas, ou mesmo achados na história e no exame físico dos pacientes, podem justificar a necessidade de encaminhamento e podem não estar contempladas nos protocolos. Solicita-se que todas as informações consideradas relevantes sejam relatadas. 39 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Condições clínicas que indicam a necessidade de encaminhamento para hematologia: Os encaminhamentos para especialistas devem ser direcionados nos casos de falha terapêutica, diagnósticos obscuros, inconclusivos ou quando o diagnóstico necessita de abordagem especializada no início do tratamento, como: • Síndromes hemolíticas ou doenças linfoproliferativas; • Suspeita ou diagnóstico de doença falciforme; • Suspeita ou diagnóstico de talassemia; • Suspeita ou diagnóstico de outras anemias hemolíticas; • Anemia por causa desconhecida após investigação inconclusiva na APS. • Conteúdo descritivo mínimo que o encaminhamento deve ter: • Sinais e sintomas; • Resultado de hemograma completo (descrever hematoscopia, se presente) e número de plaquetas, com data; • Se suspeita ou diagnóstico de hemoglobinopatias, descreva resultado de eletroforese de hemoglobina; • Exames complementares realizados na investigação de anemia conforme VCM; • Tratamento prévio e atual para anemia (medicamento com dose e posologia); • Presença de comorbidades (como doença renal crônica, hepatopatias, HIV, hepatite C) que cursem com citopenias (sim ou não). Se sim, quais. REFLEXÃO Observando agora as condições que efetivamente demandam o cuidado compartilhado com especialistas em outros níveis de atenção à saúde, reflita sobre a sua realidade enquanto profissional e sobre as condições da sua equipe de trabalho e da unidade de saúde em que atua: os encaminhamentos estão sendo feitos apenas quando realmente é necessário? E quando eles acontecem, é possível de fato promover a conduta de cuidado compartilhado? EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 40 FECHAMENTO DA UNIDADE A anemia é um problema muito frequente nos ambulatórios de APS, principalmente aquelas de origem carenciais, onde a alimentação deve ser primeiramente orientada e se necessária associada a terapêutica medicamentosa. Desta forma, é de grande importância uma avaliação do contexto clínico e epidemiológico detalhado, com investigação etiológica e de outras possíveis comorbidades associadas. A anemia é, frequentemente, uma manifestação de uma doença de base, que terá seu tratamento eficaz se os fatores desencadeantes forem tratados e as medidas terapêuticas e profiláticas forem implementadas adequadamente, conforme suas singularidades. As doenças hematológicas, devem seguir critérios de acompanhamento em APS (longitudinalidade da atenção) por serem afecções que necessitam de monitoramento periódico durante toda a terapêutica instituída, com vistas a avaliar o contexto clínico e ambulatorial e a eficácia do tratamento. Na próxima unidade serão abordadas outras afecções relacionadas ao grupo de doenças de linhagem hematológica, que são as linfadenomegalias, que assim como as anemias são doenças muito comuns na APS e apresentam uma grande importância clínica, necessitando de investigação clínica e epidemiológica adequadas para um diagnóstico preciso e um bom resultado terapêutico. Esperamos que você tenha um bom aproveitamento no estudo! 41 EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos Linfonodomegalias UNIDADE 02 INTRODUÇÃO DA UNIDADE O linfonodo aumentado é um achado comum na prática clínica em Atenção Primária à Saúde. Na maioria das pessoas, representa apenas uma resposta adaptativa normal a um estímulo imunológico, independente da linfadenopatia ser localizada ou generalizada. No entanto, também pode significar uma doença inflamatória ou neoplásica grave, por isso há necessidade da abordagem diagnóstica baseada na anamnese, no exame físico e, se necessário, em exames complementares individualizados para cada caso. Enquanto profissional de saúde da APS, você precisa conhecer as indicações de solicitação de exames complementares e interpretar seus achados a fim de indicar uma abordagem diagnóstica e terapêutica que respeite o tempo de demora (espera) permitido ou a observação assistida (do termo em inglês watchful waiting). Essa estratégia é usada pelos médicos generalistas ou de família e consiste em monitorar os indivíduos que apresentam sintomas e sinais inespecíficos por várias semanas, assim se pode descartar sinais de alerta. Além disso, no período de observação assistida, é praticado o princípio da longitudinalidade e da prevenção quaternária, a fim de evitar uma investigação desprovida de estratégia, que pode ser iatrogênica por expor a pessoa a intervenções desnecessárias e, possivelmente, deletérias ou não direcionadas ao agente etiológico, EIXO 04 | MÓDULO 19 Abordagem a problemas hematológicos 42 o que implicaria em atraso na resolução do agravo de saúde. Logo, o desafio na avaliação diagnóstica das linfadenopatias é diferenciar de forma eficiente os poucos pacientes com doença grave dos muitos pacientes com doença leve e autolimitada. Esta unidade abordará os tópicos necessários para que, ao final, você seja capaz de: • Identificar as linfadenopatias quanto à localização de acometimento clínico • Conduzir a abordagem diagnóstica com base na anamnese, no exame físico e em exames complementares disponíveis; • Conhecer as indicações de solicitação de exames complementares; • Interpretar os principais achados dos exames complementares; • Indicar a abordagem terapêutica de acordo com o diagnóstico etiológico. Aproveite a oportunidade para aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto, de modo que, ao receber indivíduos com aumento de linfonodos, você se sinta preparado para conduzir de maneira mais oportuna a avaliação de cada caso. Ao final do estudo da unidade, você deve ser capaz de realizar a investigação dos quadros de linfonodomegalia, diagnosticando e conduzindo adequadamente no contexto da APS e reconhecendo as situações com indicação de encaminhamento para outros níveis de atenção. O compartilhamento do cuidado desses pacientes com os demais profissionais da sua equipe fortalece vínculos e arranjos centrados no usuário. 2.1 DEFINIÇÃO A linfonodomegalia consiste no aumento dos gânglios linfáticos em qualquer parte do corpo. Trata-se de um achado frequente na Atenção Primária à Saúde (APS) (GADDEY; RIEGEL, 2016). Há diversas causas para linfonodomegalias e, portanto, as características clínicas e o exame