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Disciplina
Língua Portuguesa Vocábulo
Coordenador da Disciplina
Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
7ª Edição
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Coordenador do Curso
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Coordenador de Tutoria
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Coordenador da Disciplina
Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
Autor da Disciplina
Prof. Paulo Mosânio Teixeira Duarte / Profª. Maria Claudete Lima
Setor Tecnologias Digitais - STD
Coordenador do Setor
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Centro de Produção I - (Material Didático)
Gerente: Nídia Maria Barone
Subgerente: Paulo André Lima / José André Loureiro
Transição Didática
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Gerentes
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Suporte: Paulo de Tarso Cavalcante
Sumário
Aula 01: Noções Básicas: Vocábulo, Morfema, Classe e Categoria ..................................................... 01
Tópico 01: A Noção de Vocábulo .......................................................................................................... 01
Tópico 02: A Noção de Morfema .......................................................................................................... 04
Tópico 03: As Noções de Classe e Categoria ........................................................................................ 06
Aula 02: O Vocábulo e seus Constituintes .............................................................................................. 08
Tópico 01: A estrutura do vocábulo: noções de raiz e afixo .................................................................. 08
Tópico 02: Processos morfológicos ....................................................................................................... 10
Aula 03: Os Vocábulos em Português ..................................................................................................... 13
Tópico 01: Introdução ............................................................................................................................ 13
Tópico 02: O Nome e o Verbo ............................................................................................................... 15
Tópico 03: O verbo e suas categorias ..................................................................................................... 19
Aula 04: Tipos de vocábulos ..................................................................................................................... 24
Tópico 01: Os pronomes e artigos.......................................................................................................... 24
Tópico 02: Os numerais ......................................................................................................................... 30
Tópico 03: Os advérbios ........................................................................................................................ 32
Tópico 04: Os conectivos ....................................................................................................................... 34
TÓPICO 01: A NOÇÃO DE VOCÁBULO
Toda área do conhecimento usa termos técnicos. A Linguística, por
exemplo, tem seu vocabulário próprio, embora algumas vezes se aproprie
de palavras de uso comum atribuindo a estas um sentido específico.
Na Morfologia, área relativa à disciplina abordada aqui, quatro termos
são básicos: vocábulo ou palavra, morfema, classe e categoria. Vamos
tratar de cada um deles em tópicos separados.
Antes de discutirmos a noção de vocábulo, cabe esclarecer que há
autores que usam apenas o termo palavra, em suas múltiplas acepções.
Outros preferem usar o termo vocábulo por ser mais técnico. Já outros usam
um e outro indiscriminadamente. Aqui adotamos esta terceira posição.
OLHANDO DE PERTO
Todos nós temos uma intuição do que é palavra, o que se evidencia
em várias circunstâncias de nossa vida. Ao escrevermos um resumo, por
exemplo, fazemos isto com um número limitado de palavras. Quando não
entendemos algo, às vezes, o problema resulta de não conhecermos
determinada palavra. Quando não sabemos o que dizer, dizemos que
ficamos sem palavras. E assim por diante.
Para definirmos palavra, pelo menos, numa de suas acepções, apoiamo-
nos no linguista americano Bloomfield [1] que distingue as formas em livres
e presas. As primeiras podem sozinhas constituir um enunciado, enquanto
as segundas sempre aparecem ligadas a outras. As primeiras correspondem a
palavras, as segundas aos morfemas, unidades menores constituintes das
palavras, sobre os quais falaremos no próximo tópico.
Assim, numa frase como amor com amor se paga, temos duas formas
livres amor e paga, porque sozinhas podem constituir enunciado.
COMO PROVAM AS RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS
- De que uma criança precisa?
- amor.
- Criança paga?
- paga.
Já as formas com e se seriam presas, porque, num discurso normal, elas
não podem aparecer como respostas.
VEJA OS EXEMPLOS
- Você saiu com alguém?
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 01: NOÇÕES BÁSICAS: VOCÁBULO, MORFEMA, CLASSE E CATEGORIA
1
- *com
- Ele feriu a quem?
- *se
Esta classificação em dois tipos de formas, contudo, se mostrou
insuficiente para dar conta de formas como as recém citadas, preposições e
pronomes clíticos, e também os artigos. Se tais formas não podem figurar
sozinhas num enunciado, por outro lado, gozam de certa liberdade, como a
mudança de posição e a intercalação.
Mattoso Camara Jr. [2], linguista brasileiro, dando-se conta desse
problema, propôs um terceiro tipo de forma: a forma dependente. Esta
abrange, em português, conectivos (preposições e conjunções), pronomes
oblíquos e artigos.
VAMOS AOS EXEMPLOS
ABA 1
1a. Pedro se feriu na briga. O pronome clítico se é forma
dependente porque embora não forme enunciado sozinho, pode ir
para depois do verbo, tem, portanto, a característica da mobilidade:
1b. Pedro feriu-se na briga.
ABA 2
2a. O rapaz chorava.
O artigo o é forma dependente porque, embora não forme enunciado
sozinho, é separável da forma livre rapaz com que se relaciona, ou
seja, possui a característica da separabilidade. Provamos isto
intercalando uma forma entre o artigo e o substantivo:
2b. O belo rapaz chorava.
ABA 3
Se as formas dependentes admitem uma das duas
características, as presas não admitem nenhuma, conforme vemos
nos exemplos a seguir. No exemplo (3b), vemos que as formas presas
–s e –m não possuem mobilidade. No exemplo (3c), vemos que as
mesmas formas não admitem inserção. Essas formas presas são um
tipo de morfema, sobre que falaremos no próximo tópico.
3a. Os bons meninos se feriram.
3b. Os bons *smenino se *mferira
3c. Os *meninobonss *ferirasem
Agora estamos em condições de falar sobre o termo vocábulo/palavra.
Para nós, vocábulos ou palavras são tanto as formas livres como as formas
dependentes.
2
Para evitar um grande número de palavras no dicionário, os estudiosos
convencionam uma forma abstrata para enunciar as palavras no dicionário.
Em português, estaspalavras abstratas se apresentam no masculino
singular, quando se trata de nomes.
FÓRUM
Pesquise em Mattoso Camara a diferença entre vocábulo e palavra.
Depois, comente o resultado de sua pesquisa com seus colegas. Agora
responda: a diferença se sustenta? DICA: cedinho, mas *hojinho,
*ontenzinho.
FONTES DAS IMAGENS
1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonard_Bloomfield
2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Mattoso_C%C3%A2mara_J%
C3%BAnior
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TÓPICO 02: A NOÇÃO DE MORFEMA
Além do vocábulo, outra unidade central na Morfologia é o morfema ( --
que é definido, em geral, como “unidade mínima significativa” (Gleason,
s/d)) que se manifesta por morfes, pois o morfe, como você sabe, é uma
classe de morfes. A forma –vel em lavável, por exemplo, é um morfema.
–Vel é uma unidade significativa: significa “que se pode”. –Vel é uma
unidade mínima que tem como alomorfes ve- de laváveis, e bil-, do adjetivo
lavabilíssimo não pode mais ser dividida sem que se destrua seu significado:
–ve e –l, nesse contexto, seriam formas desprovidas de sentido.
A preposição de também é uma unidade mínima significativa. Todavia,
só podemos entender o significado deste morfema de forma indireta,
suprimindo a preposição ou substituindo-a por outra, como nos exemplos:
4b. *Pedro gosta chocolate.
4c. *Pedro gosta por chocolate.
PARADA OBRIGATÓRIA
Reflita: O que aconteceu com a frase original? Podemos dizer que as
frases 4b e 4c são frases legítimas do português? Por quê?
Uma forma de compreender a noção de morfema é recorrer à relação
entre Plano da Expressão (mais ou menos equivalente ao significante) e
Plano do Conteúdo (mais ou menos equivalente ao significado). Estes planos
são solidários, isto é, PE pressupõe PC e PC pressupõe PE. Resumindo:
PRINCÍPIO BÁSICO DE IDENTIFICAÇÃO DE MORFEMAS
Cada diferença no Plano da Expressão deve corresponder a uma
diferença no Plano do Conteúdo. Cada identidade no Plano da Expressão
deve corresponder a uma identidade no Plano do Conteúdo.
Veja os exemplos
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 01: NOÇÕES BÁSICAS: VOCÁBULO, MORFEMA, CLASSE E CATEGORIA
4
DESAFIO
Com base no que você viu a respeito da preposição de, discuta por que
a preposição a é uma unidade significativa em Pedro começou a falar aos
dois anos.
FONTES DAS IMAGENS
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TÓPICO 03: AS NOÇÕES DE CLASSE E CATEGORIA
Outros termos relevantes para o estudo do vocábulo, além de morfema,
são classe e categoria:
CLASSE
Divisão dos vocábulos de uma língua na base dos seguintes princípios
diretores: 1) a natureza da significação (critério semântico); 2) a forma do
vocábulos quanto à possibilidade de flexão e ao tipo dela (critério mórfico);
3) a função na frase (critério funcional) (Camara Jr., 1968:s.v).
CATEGORIA
Aspectos do mundo biossocial que são levados em conta na
organização gramatical de uma língua e aí se simbolizam por meio de
morfemas, que multiplicaram as aplicações de uma palavra. (...) Em
sentido estrito [abrangem] as categorias gramaticais, que se expressam
pela flexão externa e interna como as categorias de gênero, número, casos,
tempo, aspecto, modo, voz etc. (Camara Jr., 1968:s.v).
Como vimos, são três os critérios de classificação vocabular. Cabe agora
comentá-los em pormenor.
Critérios de Classificação Vocabular
Critérios Definições
1. Critério Semântico
Baseia-se no significado
extralinguístico do vocábulo.
Estamos usando o critério semântico,
quando definimos, por exemplo,
“substantivo é a palavra que designa
os seres em geral”. Apelamos para o
sentido extralinguístico “designa os
seres”, que seria uma propriedade
comum a todos os substantivos.
2. Critério Mórfico ou formal
Baseia-se na flexão e derivação.
Assim, uma classificação que divide
os vocábulos em variáveis e
invariáveis, por exemplo, está usando
um critério formal, porque se
fundamenta na possibilidade ou não
de flexão. Do mesmo modo, quando
dizemos que “os adjetivos aceitam
sufixo – íssimo” também estamos
usando o critério formal, uma vez
que fazemos referências à
derivação.2
3. Critério funcional ou sintático Toma como base a função ou posição
da palavra. Se os outros dois critérios
podem ser aplicados ao vocábulo
isolado, este toma o vocábulo em sua
relação com os outros. É o critério
sintático que Cunha (1983) emprega,
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 01: NOÇÕES BÁSICAS: VOCÁBULO, MORFEMA, CLASSE E CATEGORIA
6
quando diz “os pronomes
desempenham na oração as funções
equivalentes às exercidas pelos
elementos nominais (...)”.
Uma outra noção relacionada com a de classe é a de categoria, que nasce
das relações no interior da frase, como o gênero e o número do adjetivo e do
artigo, o tempo e o modo do verbo nas orações subordinadas, como nos
exemplos:
Estes meninos preguiçosos querem que os pais façam tudo por eles.
Estes meninos preguiçosos queriam que os pais fizessem tudo por eles.
Como vemos, a forma plural do pronome e do adjetivo, nos exemplos, é
determinada pelo substantivo. Também as formas verbais do verbo fazer são
determinadas pelas formas do verbo querer da oração principal.
ATIVIDADE DE PORTFÓLIO
Identifique o(s) critério(s) de classificação vocabular (Visite a aula
online para realizar download deste arquivo.) usado(s) nas definições das
classes.
FÓRUM
Pesquise sobre os vários sentidos da palavra lexema. Apresente os
resultados obtidos na net ou em dicionários de linguística e comente cada
um dos sentidos
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TÓPICO 01: A ESTRUTURA DO VOCÁBULO: NOÇÕES DE RAIZ E AFIXO
Vimos que o termo vocábulo/palavra compreende as formas que
admitem mobilidade ou separabilidade. Para fins de análise, estas
características separam o vocábulo dos morfemas de que são constituídos. Os
vocábulos também são formas mínimas, mas na frase, pois se deixam dividir
em morfemas.
Assim, numa palavra como menina, uma de suas partes, que conserva o
significado básico, é chamada de raiz. A outra é chamada de sufixo, tipo de
afixo.
Raiz é um constituinte vocabular central, enquanto o afixo é periférico.
Ambos são morfemas segmentais, porque são constituídos de fones.
Conforme a posição,os afixos podem ser.
VERSÃO TEXTUAL
prefixos: Afixos colocados antes da raiz ou radical.
Ex: pré-romântico, pós-moderno, ante-sala.
Sufixos: Afixos pospostos à raiz.
Ex.: cinzeiro, livraria, tristeza, amar.
Estes últimos, em português, podem ser classificados ainda em
classificatórios, flexionais ou desinenciais e derivacionais ou lexicais.
Os classificatórios nada acrescentam ao significado do vocábulo, servem
para definir a conjugação verbal, são as vogais temáticas, expandem a raiz
em tema (raiz + vogal temática):
1ª conjugação: vogal temática A, como em AMA-R
2ª conjugação: vogal temática E, como em VENDE-R
3ª conjugação: vogal temática I, como em PARTI-R
Os dois outros se diferenciam do seguinte modo.
SUFIXOS FLEXIONAIS
1. não criam novas palavras: criamos e criávamos são apenas
variações do verbo criar, impostas pela concordância verbal.
2. são sistemáticos, aplicam-se a praticamente todas as palavras: os
verbos, por exemplo, recebem sufixos de tempo e modo, as desinências
modo-temporais.
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 02: O VOCÁBULO E SEUS CONSTITUINTES
8
3. são obrigatórios: não há recurso para evitar a flexão, imposta por
relações sintáticas: o verbo, por exemplo, concorda flexionalmente com o
sujeito.
4. são relações fechadas: não há possibilidade de se criar uma nova
desinência diversa da que já existe, a exemplo dos sufixos verbais.
5. sujeitam-se a vínculos de concordância: o sufixo – mos, por
exemplo, de nós amávamos, estabelece vínculo com osujeito.
SUFIXOS DERIVACIONAIS
1. produzem novas palavras: criação e criatura são novas palavras,
substantivos formados a partir do verbo criar.
2. não se aplicam a todas as palavras primitivas existentes na língua:
por exemplo, o sufixo – udo de barrigudo não se aplica a umbigo e
boca: *umbigudo, *bocudo.
3. são relações abertas: podem-se criar neologismos. Por exemplo, a
partir de dólar criou-se doleiro.
4. são facultativos: há recursos para evitá-los. Por exemplo, posso usar
mur ALHA ou muro ALTO para expressar conteúdo semelhante.
FONTES DAS IMAGENS
1. http://www.adobe.com/go/getflashplayer
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TÓPICO 02: PROCESSOS MORFOLÓGICOS
VERSÃO TEXTUAL
No tópico anterior, vimos que os dois constituintes básicos do
vocábulo são a raiz e os afixos. Desta tipologia, já podemos inferir o
processo morfológico mais comum em português: a adição de
segmentos fônicos, que se subdivide em prefixação e sufixação.
Além deste processo básico de adição, existem outros, conforme
descritos a seguir.
PROCESSO CONCEITUAÇÃO
1. ZERO
2. CUMULAÇÃO
3. ALOMORFIA
1. ZERO
CONCEITUANDO ZERO
Trata-se de uma ausência significativa. Na verdade, é um artifício para
tornar a descrição morfológica mais coerente e sistemática. Pode-se
recorrer ao zero quando não há marca para um significado linguístico.
EXEMPLIFICANDO ZERO
Quando comparamos menino-s e menino, por exemplo, percebemos
que há, no primeiro, uma marca para a noção de plural - -s - mas nenhuma
marca para a noção de singular no segundo. Nesse caso, podemos marcar o
singular por zero, e representarmos essa ausência de qualquer marca por
:
/me’ninu-/ “ideia de menino” + /-S/ “noção de plural” =
meninos /me’ninu-/ “ideia de menino” + “noção de singular” = menino
2. CUMULAÇÃO
CONCEITUANDO CUMULAÇÃO
Trata-se do fato de um mesmo segmento fônico, indivisível,
manifestar mais de uma noção, mais de um morfema. Todas as
desinências verbais do português são cumulativas, porque todas
expressam sempre dois significados. As desinências número-pessoais,
como o próprio nome diz, expressam número e pessoa, e as modo-
temporais expressam modo e tempo. Assim, em cantamos, a desinência
–mos expressa cumulativamente os significados “1ª pessoa” e “plural”.
Não podemos precisar que parte significa pessoa e que parte indica
número, porque a forma é indivisível.
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 02: O VOCÁBULO E SEUS CONSTITUINTES
10
3. ALOMORFIA
CONCEITUANDO ALOMORFIA
Trata-se de um fenômeno em que:
• há dois segmentos fônicos diferentes, isto é, dois PE;
• cada segmento fônico corresponde a um mesmo significado, isto é, um
PC.
EXEMPLIFICANDO ALOMORFIA
Observe os exemplos.
PE
2a. infeliz /ĩ-fe’liz/
2b. ilegal /i-le’gaw/
PC
“não” + “feliz”
“não” + “legal”
Nos exemplos (2), dizemos que a relação entre os dois planos não é
biunívoca, pois há mais de uma forma de expressão que corresponde a
uma só unidade no plano de conteúdo. Vejamos mais exemplos com as
mesmas formas acima:
Ilícito /i-‘licitu/, irreal /i-re’aw/, irrecusável /i-rεcu’zavew/ Imberbe /
ĩ-‘bexbi/, impotente / ĩ-po’tẽti/ , insensato / ĩ-sẽ’satu/ ,
incrédutlo /ĩ-’crεdulu/, infiel /ĩ-fi’ew/
Cada uma dessas formas é alomorfe de um mesmo morfema. Deste
modo, / ĩ-/ e /i/ são alomorfes de {IN} (forma escolhida por ser a mais
frequente).
DESAFIO
Observe as ocorrências do morfema de negação nas formas acima e
tente identificar que fator contribui para que ora se empregue / ĩ/, ora se
empregue /i/.
ATIVIDADE DE PORTFÓLIO
Identifique os elementos mórficos das seguintes palavras:
a) sentimental
b) desfazer
c) anormal
d) cantávamos
e) meninas
f) marinheiro
g) amavelmente
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h) amasse
i) gatinha
j) belíssima
2) Retire os elementos mórficos das palavras acima como no exemplo:
lindíssima: lindíssim-a lind--.>íssim
3) Identifique os sufixos flexionais e os derivacionais na questão 1).
Justifique.
4) Use as expressões PE e PC para cada tipo de elemento mórfico na
questão 1).
Uma vez feita a análise vocabular , mostre que ela pode ser feita por
etapas, como: Sentimental sentimento senti sent.
FÓRUM
Mesmo os sufixos derivacionais não constituem uma classe
homogênea. Debata com seus colegas e com seu tutor as diferenças entre
os sufixos derivacionais.
FONTES DAS IMAGENS
1. http://www.adobe.com/go/getflashplayer
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TÓPICO 01: INTRODUÇÃO
VERSÃO TEXTUAL
Na Linguística, a classificação das unidades visa facilitar a
descrição e o estudo da língua, pois reduz consideravelmente o
número de unidades com que se deve lidar. Imagine, por exemplo,
descrever isoladamente todos os verbos de uma determinada língua.
Como podemos criar novos verbos todos os dias, a descrição se
tornaria impossível. Classificar, portanto, representa uma forma
prática de lidar com um número considerável de dados.
Vimos, no início do curso, que os vocábulos de uma língua podem ser
divididos em classes, na base de determinados critérios (você lembra quais
são? Se não, reveja o tópico 3 da aula 1). Assim, conforme o critério ou os
critérios que tomemos em consideração, podemos chegar a um variado
número e tipos de classes. Podemos, por exemplo, classificar os vocábulos
em português tomando como base apenas a função destes na frase, ou então,
o sentido e a função, ou ainda, a forma, o sentido e a função.
A classificação vocabular que hoje vigora nas gramáticas escolares se
pauta nos três critérios. Alguns tipos de vocábulos são definidos pela função,
outros pelo sentido e outros pela forma. Há também algumas classes
definidas por uma conjugação de critérios, binariamente ou ternariamente.
Tais classes foram definidas, oficialmente, a partir de 1959, através da
Portaria Ministerial nº 36 de 28/01/1959, que decretou uma uniformização
da nomenclatura gramatical, a chamada NGB [2] (Nomenclatura Gramatical
Brasileira).
São elas divididas em:
VERSÃO TEXTUAL
CLASSES VARIÁVEIS
• Substantivo
• Artigo
• Adjetivo
• Verbo
• Pronome
• Numeral
CLASSES INVARIÁVEIS
• Advérbio
• Preposição
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 03: OS VOCÁBULOS EM PORTUGUÊS
13
• Conjunção
• Interjeição
Desde sua instituição, a NGB vem sofrendo críticas, seja pela validade de
certas classes, que deviam ser banidas; seja pela validade da separação de
determinadas classes, que deviam ser unidas; seja pela ausência de
uniformidade no uso dos critérios de classificação.
Considerando:
1) que não há nenhuma classificação vocabular ideal;
2) que as classes propostas pela NGB, por ter força de lei, são as classes
ensinadas na escola, e
3) que este curso destina-se a formar professores de língua portuguesa,
apresentaremos, nos próximos tópicos, uma proposta, na medida do
possível, conciliadora com a NGB.
Reconhecemos as seguintes classes:
• Nome
• Verbo
• Pronome
• Artigo
• Numeral
• Advérbio
• Conectivos
DESAFIO
Observe as duas propostas de classificação: a da NGB e a que
apresentamos aqui. Compare e veja semelhanças e diferenças.
FONTES DAS IMAGENS
1. http://www.adobe.com/go/getflashplayer
2. http://www.portaldalinguaportuguesa.org/?action=ngbras
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TÓPICO 02: O NOME E O VERBO
Estudamos aqui estas duas classes, em conjunto, porque seus
elementos atuam como núcleos dos dois polos oracionais: o sujeito e o
predicado. Os pronomes não são contemplados aqui por razões que
apresentaremos quando estudarmos a classe pronominal.
O NOME
Agrupamos, aqui, sob o rótulo geral de nomes, substantivos e adjetivos,
porque compartilham o traço morfológico da flexão em gênero e número.
Sintaticamente, possuem em comum a possibilidade de serem predicativos, e
diferem pelo fatode o substantivo poder representar o núcleo de sujeito e
objeto direto, enquanto o adjetivo é adjunto adnominal.
EXEMPLO
o conhece suas
Os termos em destaque são nomes. Flexionam-se em gênero e/ou
número:
Pastor é um substantivo, pois é núcleo do sujeito da frase: o bom
pastor.
Ovelhas também é substantivo, pois é núcleo do objeto direto.
Bom, por outro lado, é um adjetivo, pois é adjunto adnominal.
Substantivos e adjetivos também se distinguem
derivacionalmente. Isso é especialmente útil quando nos deparamos
com funções sintáticas que podem ser exercidas pelos dois, como
ocorre com a função predicativo.
Em português, o predicativo tanto por ser preenchido por um
substantivo como por um adjetivo:
Pedro é bom o predicativo é um adjetivo (bom)
Ele é Pedro o predicativo é um substantivo (Pedro)
Como distingui-los nesse caso? Uma boa distinção é apelar para o
mecanismo derivacional. Tanto substantivos como adjetivos admitem
grau: menininho bonzinho. Mas há um sufixo de grau que é próprio do
adjetivo e é rejeitado pelo substantivo: -íssimo:
Boníssimo / *meniníssimo
DESAFIO
A gramática tradicional fala de pronome substantivo e pronome
adjetivo. Qual traço dos apresentados acima foi usado para essa separação
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 03: OS VOCÁBULOS EM PORTUGUÊS
15
dos pronomes? Pense. Discuta com seus colegas e seu tutor através da
ferramenta mensagens.
Lembre-se de que você não está sendo avaliado pelas tarefas dos
desafios. Aceite-os como incentivo à sua aprendizagem. Vale a pena.
CATEGORIAS NOMINAIS
Sabendo que o nome varia em gênero e número, cabe agora aprofundar
um pouco mais essas categorias.
Embora não haja correlação necessária entre forma e sentido, há, na
maioria das línguas, uma base natural semântica para a classificação dos
nomes em gênero, que pode ser o sexo, a dimensão, a cor, etc. Em português,
o critério predominante é o sexual, que divide os nomes em masculinos e
femininos.
Esse critério não é sistemático, pelas seguintes razões:
• aplica-se a seres inanimados, como mesa, livro que têm
gênero, mas não têm sexo.
• aplica-se a seres animados, como jacaré, testemunha,
criança entre outros, que são de gênero único.
Neste último caso, dizemos que o gênero gramatical pode conflitar com
o chamado “gênero natural”, uma vez que não há coincidência entre a
categoria gramatical e a categoria semântica. O termo (a) testemunha, por
exemplo, de gênero gramatical feminino, tanto pode se referir a um homem
como a uma mulher.
As gramáticas normativas tratam dessa questão dividindo as palavras
em sobrecomuns, comum de dois e epicenos, o que leva os alunos a mais
uma terminologia inútil. Interessa é saber como tal categoria se expressa em
português.
Partindo de Macambira (1978), podemos considerar as seguintes formas
de expressão da categoria de gênero:
Categoria de gênero
Categorias Conceituação
GÊNERO DESINENCIAL
GÊNERO DERIVACIONAL
GÊNERO SINTÁTICO
GÊNERO LEXICAL
GÊNERO DESINENCIAL
Conceituando gênero derivacional: a variação de gênero ocorre
concomitantemente com a adição de um sufixo derivacional próprio de
cada gênero
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GÊNERO DERIVACIONAL
Conceituando gênero derivacional: a variação de gênero ocorre
concomitantemente com a adição de um sufixo derivacional próprio de
cada gênero
GÊNERO SINTÁTICO
Conceituando gênero sintático: o gênero é expresso não na palavra em
si, que não varia formalmente, mas nos determinantes:
o estudante/a estudante
GÊNERO LEXICAL
Conceituando gênero lexical: como no caso anterior, a palavra
também não varia, mas, diferentemente daquele, a palavra tem gênero
único, marcado pelos determinantes. É o caso de todos os nomes que
designam seres inanimados e alguns que designam seres animados. Neste
último caso, as formas são chamadas de supletivas ou heteronímicas. Há
uma relação semântica entre os dois termos do par, mas nenhuma relação
formal, conforme ilustram os exemplos em (c).
a) (a) mesa, (o) livro
b) (o) boi/ (a) vaca, (o)homem / (a) mulher
Feitas essas considerações, resta apresentar as marcas morfológicas do
gênero em português. A descrição mais comum, inclusive nas gramáticas
tradicionais, é a que propõe Macambira (1978), segundo o qual o masculino é
marcado por zero em oposição a uma marca –a para o feminino. Exemplo
EXEMPLO
menino + (DG) > menino
menino + a (DG) > meninoa > menina.
Outra categoria nominal é o número que indica a quantificação. A
oposição em português é entre singular, indicando a unidade, e plural, que
indica “mais de um”. O singular é morfologicamente marcado por . E
nisto, há certa unanimidade entre linguistas portugueses e brasileiros.
Quanto ao plural, tipicamente, se expressa através da forma –s:
Gato / gatos, menino / meninos
No entanto, esta não é a única forma de marcá-lo, vez que há recurso ao
fenômeno da alomorfia por intermédio do –es e -is:
País / países, pilar / pilares, lençol / lençóis, pincel / pincéis
DESAFIO
Pense e responda:
1) que regras de formação do plural existem para as palavras
terminadas em –l?
17
2) que regras definem a ocorrência de cada um desses alomorfes
acima?
3) pesquise, numa gramática, exceções para as palavras terminadas
em –l.
A regularidade do plural se dá de maneira praticamente cabal. Os casos
de substantivos invariáveis são tão poucos, que se podem considerar como
desprezíveis para a análise linguística (ônibus / ônibus, tórax / tórax, atlas /
atlas etc.).
Acrescente-se também que o singular e o plural constituem uma lista
exaustiva e não está na vontade do falante introduzir um novo termo no
quadro existente.
Para terminarmos, convém destacar aqui que nem sempre se dá um
paralelismo entre forma e sentido no que diz respeito ao número. É o que
ocorre, por exemplo, com os coletivos, como dúzia, bando, que formalmente
são singular, mas semanticamente expressam plural. Por isto, o povo na fala
descuidada flexiona o verbo no plural, estabelecendo a chamada
concordância ideológica:
O pessoal saíram.
FONTES DAS IMAGENS
Responsável: Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
Universidade Federal do Ceará - Instituto UFC Virtual
18
TÓPICO 03: O VERBO E SUAS CATEGORIAS
VERBO
Sintaticamente, o verbo se caracteriza por ser o núcleo do predicado.
Porém, devido à extrema riqueza flexional, a classe é muito bem definida no
plano mórfico, como palavra que varia em tempo e em modo.
Além das desinências modo-temporais, o verbo é também
marcado por desinências número-pessoais referentes ao sujeito. Estas
marcas igualmente contribuem para a identificação do verbo, podendo,
inclusive, indicar o tempo e o modo cumulativamente, às vezes. É o que
ocorre no pretérito perfeito do indicativo. Não há desinência modo-temporal
específica desse tempo, mas a série de desinências número-pessoais que aí
aparecem são quase todas exclusivas desse tempo: -i, -ste, -u -, mos, stes, -m.
CATEGORIAS VERBAIS
Dissemos que o verbo se caracteriza, primordialmente, pela variação
temporal. Vamos agora aprofundar um pouco mais essa noção e tratar das
demais categorias verbais: modo, aspecto e voz. Há uma íntima relação entre
elas, em especial, entre tempo, aspecto e modo ( -- chamado na literatura
linguística de TAM ) o que nos levará, em alguns momentos, tratar de mais
de uma simultaneamente.
A categoria de tempo relaciona o tempo da ação, do acontecimento, do
estado referidos na frase ao momento do enunciado, que é o agora.
Jespersen (apud Lyons, 1979) apresenta as seguintes divisões do tempo:
Mas o tempo gramatical admite diversas categorizações. Por exemplo,
há línguas que opõem apenas passado X não-passado e outras que opõem
presente X não-presente. Em português, a oposição é entre passado X
presente X futuro.
Não há uma relação necessária entre o tempo gramatical ou formal,
marcado pelas desinências, e o tempo semântico, que depende do contexto,
conforme veremos a seguir.O PRESENTE DO INDICATIVO PODE EXPRESSAR:
1) fatos contemporâneos, como nas narrações de partidas de futebol:
Cacá passa para Romário.
2) fatos atemporais ou eternos, como no exemplo:
A Terra gira em torno do Sol.
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 03: OS VOCÁBULOS EM PORTUGUÊS
19
3) fatos futuros, como em:
Amanhã vou à praia
4) fatos passados, como no chamado presente histórico, em frases como:
E naquele momento, Jesus é crucificado.
A categoria de modo expressa a atitude do falante em relação ao status
factual do seu enunciado (certeza, dúvida, ordem etc.), ou seja, exprime a
forma como o falante encara aquilo que diz. Realiza-se pela flexão do verbo
ou por sua modificação através de auxiliares.
As gramáticas descrevem três modos gramaticais: indicativo, subjuntivo
e imperativo. Tradicionalmente atribui-se ao indicativo a modalidade da
certeza, ao subjuntivo, a modalidade do desejo ou da dúvida, e ao imperativo,
a modalidade da ordem.
No entanto, tal como na categoria de tempo, não há sempre relação
entre forma e sentido. Neste caso, a forma não-marcada é o modo indicativo,
que assume valores modais diversos.
VALORES MODAIS DO INDICATIVO:
1) Não sei se ele virá (dúvida marcada pela frase)
2) Exijo sua vinda (ordem marcada pelo radical do verbo)
3) Haverá quem faça isso. (possibilidade expressa pelo tempo verbal)
4) Honrarás pai e mãe (ordem expressa pelo tempo verbal)
Note que, nos dois últimos exemplos, a forma verbal é o futuro do
indicativo, forma em que as categorias de tempo e modo se encontram
misturadas.
A propósito, a futuridade, por expressar estados de coisas ainda por vir,
favorece a marcação do enunciado com noções modais, como a
probabilidade, a impossibilidade, a obrigação, a necessidade:
USO MODAL DO FUTURO:
1) probabilidade: conheci-a menina. Agora ela será uma bela mulher.
2) dúvida: de quem será aquela bolsa?
3) intenção: não trabalharei no fim de semana.
4) desejo: gostaria de saber notícias suas.
Dentre os modos, o subjuntivo é aquele cujo uso é mais discutível. A
gramática normativa apresenta o subjuntivo como o modo da dúvida e do
desejo, ou da irrealidade. Há alguns contextos, no entanto, em que o
20
emprego do subjuntivo não se apresenta como uma escolha livre do falante,
é, ao contrário, determinado sintaticamente, como em:
Embora ele seja funcionário exemplar, nunca ganhou um prêmio.
DESAFIO
Pesquise, em textos, exemplos de outros tempos verbais empregados
com valores semânticos não correspondentes à forma. Selecione 3 frases,
observe-as quanto ao tempo gramatical (a forma verbal, por exemplo,
perfeito do indicativo, imperfeito do subjuntivo, futuro do presente etc.) e
à noção temporal (passado, presente, futuro) que apresentam.
Uma outra categoria verbal, a de aspecto, diz respeito à duração e às
fases do processo.
A distinção aspectual mais comum é entre o chamado aspecto perfectivo
(noção de acabamento, completude) e o imperfectivo (noção de
incompletude) . Em português, tal distinção manifesta-se no uso do
PERFEITO X IMPERFEITO. Contudo, esta oposição nem sempre é clara no
uso da língua.
Tomemos a frase:
Li um livro
• Embora a forma verbal esteja no perfeito, seu significado tanto pode
ser perfectivo (ação completa: “li o livro todo.” ) quanto imperfectivo (ação
incompleta: “levei algum tempo lendo, mas não terminei de ler o livro
todo”.) .
OUTRAS NOÇÕES ASPECTUAIS SÃO, DENTRE OUTRAS:
PERMANSIVIDADE:
o processo começa no passado e se estende no presente.
INCEPTIVIDADE
o processo ainda está no início.
ITERATIVIDADE:
o processo é apresentado como repetitivo.
PONTUALIDADE
o processo é apresentado como momentâneo.
Resta falar da categoria de voz, que diz respeito à relação entre o sujeito
e o processo verbal. A proposta que vamos apresentar aqui é baseada em
Macambira (1986).
Este autor propõe cinco vozes para o português. ativa, passiva,
reflexiva, recíproca e média. Na busca de descrever cada uma formalmente,
apresenta esquemas estruturais. A ativa é descrita como apresentando a
estrutura:
21
A + C
O elemento A representa tudo que possa exercer a função de sujeito, C
representa o verbo conjugado nos tempos simples ou compostos com
TER/HAVER, e o sinal + indica que o traço é necessário, ou seja, podemos
ter orações na voz ativa sem o elemento A, mas não sem o elemento C.
COMO EXEMPLOS DE VOZ ATIVA, TEMOS:
(a) Eu corro.
(b) Convém lutar.
(c) Basta que te respeites.
Veja que, para identificar uma frase como sendo ativa, não se irá
observar se o sujeito “pratica a ação”, como, em geral, definem as gramáticas.
Importa é saber se a frase em questão se encaixa no esquema proposto.
DESAFIO
Como você classifica a frase o ladrão apanhou da polícia? Por quê?
A passiva é descrita em suas duas formas: participial e pronominal.
A participial apresenta o seguinte esquema:
B1 representa o verbo ser em qualquer forma de sua conjugação, C o
particípio do verbo principal e A o sujeito. Todos os elementos são
obrigatórios, como indica o sinal + antes das letras, exceto o elemento D, que
representa o agente da passiva.
DESAFIO
A frase Pedro era nascido pode ser classificada como passiva? Por
quê?
A passiva sintética apresenta o seguinte esquema:
O verbo, elemento C, é conjugado na forma ativa com o clítico se,
elemento B2. O sujeito, elemento A, é posposto ao verbo e só figura na
terceira pessoa do singular ou plural.
Trata-se de exemplos como vendem-se casas, fazem-se unhas. A
classificação destas frases como passivas sintéticas se deve apenas à
necessidade de seguir a nomenclatura tradicional, vez que, como já falamos,
este curso destina-se à formação de professores. Ressaltamos, todavia, que
vários autores, do presente e do passado, já negaram o caráter passivo a estas
frases, conforme você verá ao ler o texto complementar Helena Feres Hawad
(clique aqui para abrir) [1]
22
As três vozes restantes, reflexiva, recíproca e média, são descritas com
um esquema estrutural semelhante em que temos, como elementos
obrigatórios, um sujeito (A), um verbo conjugado na forma ativa (C) e um
clítico (B):
A diferença entre elas dá-se pela admissão ou não de elementos
opcionais:
• admissão de D, na reflexiva, que significa uma expressão como a mim
mesmo, a si mesmo etc., ou de E, na recíproca, que significa um ao outro ou
uns aos outros.
• inadmissão de D ou E, na média. Daí o sinal (-) no esquema.
VEJAMOS ALGUNS EXEMPLOS PARA FICAR MAIS CLARO:
1) reflexiva: O prisioneiro se matou / O prisioneiro (se) matou a
si mesmo
2) recíproca: Os homens se odeiam / Os homens (se) odeiam uns
aos outros.
3) média: Pedro aborreceu-se / * Pedro aborreceu a si mesmo.
Apresentamos, por fim, as categorias verbais em português. Como
vimos, nem sempre há relação entre forma e sentido no emprego dessas
categorias. Assim, em relação ao tempo, que pode ser um presente para
expressar um futuro ou um passado; assim, em relação ao modo, que pode
ser subjuntivo e indicar certeza; assim, em relação à voz, que pode ser ativa e
indicar passividade, como em O menino apanhou da madrasta.
Disso decorre a importância do contexto. Acreditamos que as formas
isoladas de significado contextual não permitem uma adequada
interpretação dessas categorias. Só o contexto pode dizer se uma forma
presente é presente, passado ou futuro, se um indicativo é certeza ou dúvida,
se uma situação X está sendo apresentada como completa ou incompleta;
enfim, se uma frase é reflexiva ou média.
ATIVIDADE DE PORTFÓLIO
Resolva as questões a seguir.
Exercícios (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.)
FONTES DAS IMAGENS
1. http://www.filologia.org.br/viicnlf/anais/caderno04-15.html
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TÓPICO 01: OS PRONOMES E ARTIGOS
O PRONOME
O pronome constitui uma classe que comporta membros muito
variados, daía classificação tradicional dos subtipos dos pronomes:
pessoais, possessivos, demonstrativos, indefinidos, interrogativos. Diante
dessa variedade de subtipos, é muito difícil eleger um traço comum a todos
os elementos abrigados na gramática tradicional sob o rótulo de pronome.
Devido a nosso objetivo ser essencialmente didático, vamos nos limitar a
comentar características de cada subtipo tradicional.
DICA
Pesquise na internet, usando o Google Acadêmico, artigos científicos
sobre o pronome. Você verá como o assunto é complexo. Se achar algum
texto mais interessante, compartilhe com seus colegas e tutor, enviando
mensagem com o link ou o texto.
PRONOMES PESSOAIS
Tradicionalmente, os pessoais se subdividem em retos ou oblíquos.
OS RETOS
São formas livres que funcionam como sujeito ou predicativo:
Eu (sujeito) cuido do meu filho. Afinal, a mãe sou eu (predicativo).
OS OBLÍQUOS
São formas dependentes e se dividem em átonos e tônicos. Os átonos
estão sempre ligados ao verbo, posicionados antes ( próclise) ou depois
( ênclise) deste e funcionam como objeto direto ou indireto.
Exemplos de objeto direto e indireto:
OBJETO DIRETO:
Pedro me ama.
OBJETO INDIRETO:
Pedro me deu o livro.
Os tônicos são sempre regidos por uma preposição, acidental ou
essencial, e funcionam como objeto indireto, agente da passiva ou adjunto
adverbial:
O professor deu o livro a MIM. ( OBJETO INDIRETO)
O professor saiu sem MIM. ( ADJUNTO ADVERBIAL)
O livro foi lido por MIM. ( AGENTE DA PASSIVA)
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 04: TIPOS DE VOCÁBULOS
24
Quanto às categorias, os pronomes pessoais apresentam gênero,
número, pessoa e caso. A primeira categoria é muito restrita, pois se
manifesta apenas nos de 3ª pessoa: ele/ela/o/a.
Já a categoria de número merece comentários porque nem sempre se
apresenta tal como nos nomes, marcando oposição: um versus mais de um.
Isto ocorre apenas com a 3ª pessoa: ele (uma 3ª pessoa) / eles (mais de uma
3ª pessoa). Na 2ª pessoa, o plural pode indicar “mais de uma 2ª pessoa”,
como em:
Vocês devem entregar o trabalho (um professor falando a uma turma
de alunos),
Nesse caso, se assemelha aos nomes, como ocorre na 3ª. Mas a 2ª
pessoa do plural pode indicar apenas que a 2ª pessoa se associa a uma 3ª:
Você e ele faltaram à prova. Vocês precisam trazer atestado.
Por fim, na 1ª pessoa do plural, nunca temos a noção de “mais de um
eu”. Sempre indica que o falante associa a si uma ou mais pessoas:
Eu (1ª do singular) e você (2ª do singular) nos (1ª do plural)
encontramos.
Eu (1ª do singular) e ele (3ª do singular) nos (1ª do plural)
encontramos.
Feitas estas observações sobre o número, podemos agora falar da
categoria de pessoa, que, nos pessoais, se encontra ligada à categoria de
número:
Sobre a categoria de pessoa
DESAFIO
Observe a relação eu / meu; tu/teu; nós/nosso e reflita: os pronomes
possessivos merecem ser tratados como subclasse à parte na gramática
tradicional?
A última categoria pronominal é a de caso.
Por essa categoria, as palavras mudam de forma conforme a função
sintática. Nos pessoais, únicos pronomes que possuem caso em português,
25
essa mudança não ocorre por meio de desinências, nem de maneira
sistemática. A manifestação do caso se dá por heteronímia ou supleção, ou
seja, os pronomes não se flexionam, não apresentam sufixos de caso, é o
vocábulo inteiro que manifesta um determinado caso.
EXEMPLO
1a. O professor louva a aluna
1b. Ele louva a aluna.
2a. A aluna louva o professor
2b.A aluna o louva.
Na frase (1b), a forma destacada é sujeito, por isso assume a forma
ele. Já em (2b), a forma destacada é objeto direto, por isso, assume a
forma o. Veja que o nome aluna não muda de forma em nenhuma das
frases, porque o nome, em português, não tem categoria de caso. Já o
pronome muda. Todavia, essa mudança é total: é o pronome todo que
varia, não apenas uma parte dele. Por isso, falamos em heteronímia
(hetero = outro, onímia = nome).
O caso, porém, não é um fenômeno sistemático. Em primeiro lugar,
devido ao desequilíbrio das formas átonas, na perspectiva da gramática
normativa. Por exemplo, a 3ª pessoa possui uma variedade de formas
átonas: uma para o objeto direto (o/a(s)), outra para o indireto (lhe). Por
outro lado, a 1ª e a 2ª do singular possuem uma única forma que funciona
tanto como objeto direto como indireto (me/te).
Em segundo lugar, devido a uma relativa desestruturação da categoria
de caso no uso da língua, em situações informais. Isto inclui: o uso de formas
retas em função de complemento e o de formas não contempladas na
gramática tradicional, como a gente (que concorre ou se alterna com nós),
você (concorre ou se alterna com tu) e vocês (que substitui o arcaico vós,
ainda contemplado nas gramáticas tradicionais).
FÓRUM
A gramática tradicional condena o uso do lhe e do ele como objeto
direto, porque o primeiro vem do dativo que é, em latim, a forma do objeto
indireto, e o segundo do nominativo, que é a forma do sujeito. Comente
sobre a validade desta norma, atentando para os seguintes aspectos: (a) a
correlação entre forma e função; (b) questões relativas à necessidade de
clareza na comunicação; (c) a natureza do argumento.
OS PRONOMES DEMONSTRATIVOS
Os demonstrativos são pronomes que podem indicar posição em relação
às pessoas do discurso. Alguns podem ser substantivos ou adjetivos:
Este é meu filho. (substantivo)
Este menino é meu filho. (adjetivo)
26
Outros são exclusivamente substantivos:
Isto é um péssimo sinal. (substantivo)
As formas exclusivamente substantivas apresentam gênero neutro,
referem-se a coisas ou a eventos globais:
O avião da TAM caiu no ano passado. Isto trouxe prejuízo à empresa.
Um fato a se destacar é que a oposição este/esse, isto/isso,
tradicionalmente descrita como próximo do falante/próxima do ouvinte,
não mais ocorre no uso da língua.
Outro fato a destacar é o uso desses pronomes relativamente ao que já
fora dito no enunciado, indicando proximidade ou distância.
EXEMPLO: João e Paulo são meus amigos, mas aquele (João) é mais
amigo do que este (Paulo).
A este fenômeno de referência, chamamos anáfora.
OS PRONOMES INDEFINIDOS
Os indefinidos se diferenciam dos outros acima por não se encontrarem
tão ligados às pessoas do discurso, justamente pela indefinitude que os
marca sempre.
Caracterizam-se por apresentar uma variedade de formas. Algumas delas se
opõem por heteronímia quanto aos traços:
• Personativo x não-personativo: alguém / algo
• Afirmativo x não-afirmativo: alguém / ninguém
• Substantivo x adjetivo: algo / algum; tudo/todo; outrem/outro
Outras formas se opõem ao adjetivo pela simples posição em relação ao
núcleo:
• diversos homens / homens diversos;
• certo homem/homem certo;
Por fim, resta falar que alguns indefinidos se assemelham aos numerais
quanto à noção de quantidade. Isto pode ser demonstrado nas respostas
possíveis à pergunta quanto deste bolo você quer?
• Nenhum (pedaço)
• Alguns (pedaços)
• Dois (pedaços)
• Diversos (pedaços)
• Um terço (do bolo)
• Nada
• O dobro (do bolo)
27
Por estas características, os pronomes indefinidos poderiam ser
dispersos em outras classes: alguns deles poderiam pertencer à classe dos
numerais, como os exemplos citados, e outros, à classe dos substantivos,
como alguém e ninguém.
Além dos indefinidos, outra subclasse à margem é a dos interrogativos,
que apresentam oposições similares às dos indefinidos, a exemplo de
quem/o que. Isto sem falar em outros que não apresentam oposição alguma,
como qual e quantos.
Uma última subclasse de pronomes, ainda mais complexa, é a dos
relativos, que ficam na fronteira entre pronomes e conjunções. Preferimos
falar deles quando nos referirmos aos conectivos.
O ARTIGO
O artigo, em português, é uma forma dependente que funciona
exclusivamente como adjunto adnominal em primeira posição no sintagma
nominal (SN). Há outros vocábulosque podem exercer essa função, mas
nenhum a tem como exclusiva. Essa propriedade leva alguns estudiosos a
considerá-lo um marcador por excelência do substantivo, de tal maneira que
qualquer palavra pode se substantivar através do artigo.
Na prática, a identificação do artigo não é tão difícil, uma vez que
comporta apenas uma forma com suas variações de gênero e número: o, com
as variações a, os, as. Veja que estamos excluindo o chamado artigo
indefinido, que consideramos pronome indefinido.
Morficamente, o artigo se flexiona em gênero e número, concordando
com o substantivo com que se relaciona e nisso se assemelha a outras formas
que podem funcionar como determinantes, como os pronomes e nomes
adjetivos. Contudo, não admite nenhum tipo de derivação.
Semanticamente, o artigo possui o traço [+definido] que é considerado
um dos traços caracterizadores dad êixis
D ÊIXIS
Faculdade que tem a linguagem de designar mostrando, em vez de
conceituar. A designação dêitica, ou mostrativa, figura assim ao lado da
designação simbólica ou conceptual em qualquer sistema linguístico.
Podemos dizer que o signo linguístico apresenta-se em dois tipos - o
símbolo, em que um conjunto sônico representa ou simboliza, e o sinal,
em que o conjunto sônico indica ou mostra (v. símbolo). O pronome (v.)
é justamente o vocábulo que se refere aos seres por dêixis em vez de o
fazer por simbolização como os nomes (v.). Essa dêixis se baseia no
esquema linguístico das 3 pessoas gramaticais que norteia o discurso: a
que fala, a que ouve e todos os mais seres situados fora do eixo falante-
ouvinte.
CAMARA JR., J. Mattoso. DICIONÁRIO DE FILOLOLOGIA E
GRAMÁTICA. São Paulo: Iozon, Vozes, 1968. s,v. DÊIXIS.
28
EXEMPLO
PARA ENTENDER MELHOR, VAMOS TOMAR UM EXEMPLO BEM
SIMPLES:
1. Olha, o professor acaba de chegar.
2. Olha, um professor acaba de chegar.
No primeiro exemplo, trata-se de um professor já conhecido pelos
interlocutores, o que difere do segundo exemplo, em que se refere a um
professor desconhecido de um e outro participante do discurso. Este
comportamento aproxima o artigo do pronome demonstrativo, mas aquele
é forma dependente e este último é sempre forma livre.
FONTES DAS IMAGENS
Responsável: Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
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29
TÓPICO 02: OS NUMERAIS
OS NUMERAIS
O numeral é uma classe eminentemente semântica: é nome de número.
Mas não há relação biunívoca entre numeral e número. Os números são
infinitos, os numerais, não o são. Por mais extensa que seja a lista de
numerais em português, eles não cobrem a infinidade dos números em
Matemática. Além disto, em Matemática, há números não correspondentes
na linguagem quotidiana a numerais, a exemplo dos irracionais, que você
certamente estudou no Ensino Médio. Não se diz numeral irracional, pois a
classe cobre, na gramática tradicional, os cardinais, os ordinais, os
multiplicativos e os fracionários. Semanticamente, o numeral é uma classe
bem heterogênea como você poderá depreender da tipologia abaixo.
CARDINAIS
Estes são os típicos representantes da classe. São os nomes de número
por excelência: um, dois, três, etc. A flexão de número, em termos genéricos,
é semântica: um é a forma singular de todo o restante dos cardinais. Há
formas esporádicas de feminino: duas, duzentas, trezentas etc.
Alguns podem formar derivados como os substantivos. O interessante é
que significativa parte dos derivados listados conservam o sentido numeral.
quinze > quinzena;
vinte > vintena;
quarenta > quarentena;
cento > centena;
mil > milênio;
milhão > milionário.
DESAFIO
Pense em outros derivados dos cardinais.
ORDINAIS
Os ordinais podem ser vistos semanticamente como número sob a
perspectiva da ordem, a exemplo de primeiro, segundo, terceiro. A flexão é
semelhante à dos nomes: há gênero e número. Esporadicamente, aparece o
grau em uma forma como primeiro: primeiríssimo. Todavia, isto não
constitui motivo para colocar esta subclasse entre os adjetivos.
FRACIONÁRIOS
Os fracionários correspondem aos números sob a perspectiva linguística
da fração: um terço, dois quartos, três sextos. Semanticamente constituem
um todo, embora formalmente nada impeça que reconheçamos dois
elementos: um cardinal propriamente dito seguido do fracionário. Possuem
uma relação com a quantidade, embora menos visível que os cardinais.
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 04: TIPOS DE VOCÁBULOS
30
MULTIPLICATIVOS
São o número sob o ângulo do múltiplo: desta forma, duplo é duas
vezes. A maior parte deles é do registro culto da língua e de pouca circulação:
dobro/duplo, triplo, quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo etc. Têm gênero e
número. Sua relação com a noção de quantidade é a menos observável
provavelmente por serem uma subclasse limitada e de circulação bem
restrita.
Como estudiosos, poderíamos estudar a possibilidade de fragmentar as
subclasses dos numerais em classes autônomas com bases nos traços
morfológicos, sintáticos e semânticos que apresentam. Resta ver se isto
traria vantagens na teoria e na prática em sala de aula.
FONTES DAS IMAGENS
Responsável: Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
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31
TÓPICO 03: OS ADVÉRBIOS
A classe adverbial é uma classe basicamente funcional, segundo a
gramática tradicional, que a define como palavra invariável, modificadora
do verbo, do adjetivo e mesmo de outro advérbio:
O garoto correu muito durante as olimpíadas
O garoto comia só carnes desde muito jovem
O garoto acordou muito cedo para estudar
Como você pode perceber pelos exemplos acima, a mesma forma muito
pode modificar um verbo, correu, um adjetivo, jovem, ou outro advérbio,
cedo.
Existem autores como Macambira (1987), que vão, em parte, além da
proposta oficial e reconhecem que os advérbios podem modificar outras
classes: o substantivo, a preposição, a conjunção e até uma oração inteira:
O então rei de Portugal fugiu das tropas de Napoleão
A ave voava exatamente sobre o ninho
O rei nada temia mesmo porque o povo o apoiava
Felizmente os problemas acabam por se resolver
O que há de comum é que todas as formas são identificáveis
sintaticamente e são invariáveis. Porém, os contextos de ocorrência são bem
diferentes.
Se alguns advérbios não se submetem à flexão, podemos recorrer, em parte à
derivação para caracterizá-lo, no caso, através do sufixo –mente:
claramente, estupidamente, sabiamente etc., mas não é o critério formal
mais marcante.
Outra marca citada pelas gramáticas é o grau, mas se deve ter cuidado com
ela.
Vamos começar com o superlativo.
Advérbios em –mente só têm a forma sintática deste grau:
morfologicamente ele pertence ao adjetivo. Num advérbio como
clarissimamente, a marca –issim é de claro. Assim, o advérbio claramente
só tem o grau sintático: muito claramente. O superlativo é, portanto,
esporádico em advérbios, como cedo e perto: cedíssimo, pertíssimo. O
comparativo, quando existe, é basicamente sintático:
João acordou mais cedo que Maria
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 04: TIPOS DE VOCÁBULOS
32
Vejo hoje as coisas mais claramente que ontem
As definições semânticas do advérbio são falhas. Uma delas o define
como palavra que indica circunstância. Resta saber o que é circunstância.
Outra, mais precisa, acrescenta que a circunstância pode ser de lugar,
tempo, modo, companhia, finalidade etc. A definição teria que trazer uma
lista exaustiva. Mesmo com o elenco das noções semânticas, perguntamos se
palavras, como Londres, hora, amável, são advérbios.
O que denominamos advérbio, como você pôde perceber, é uma classe
bem heterogênea. Semanticamente, parte deles guarda semelhança com os
pronomes e outra, com os nomes substantivos. A parte que se assemelha
com os pronomes depende altamente do contexto extralinguístico, a exemplo
dos de tempo e dos de lugar: hoje, amanhã; aqui, ali, lá.Estes advérbios
podem exercer sintaticamente função de pronomes substantivos.
Lá é um bom lugar para se viver (sujeito)
Eu me referia a hoje (objeto indireto)
A parte que se relaciona semanticamente a nomes substantivos admite,
em geral, expandir-se em preposição + substantivo: claramente = com
clareza. Observe a identidade das raízes. Noutros exemplos, a relação é só
semântica, pois não há identidade de raízes: sempre = com frequência.
Poderíamos, para cada contexto de ocorrência do advérbio, criar uma
classe diferente. Mas isto seria objeto de muita discussão. Além disto, o custo
seria muito alto tanto para uma descrição quanto para finalidades
pedagógicas.
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TÓPICO 04: OS CONECTIVOS
Os conectivos são vocábulos gramaticais invariáveis que marcam as
relações de sentido e de função na frase. Como essas relações podem ser de
subordinação ou coordenação, dividem-se em subordinativos e
coordenativos.
Os conectivos subordinativos expressam uma relação de dependência
entre dois termos ou duas orações. Subdividem-se em preposições e
conjunções subordinativas.
As primeiras caracterizam-se por poderem figurar no contexto ____ mim:
PARADA OBRIGATÓRIA
Há poucas exceções a essa propriedade. Exceto e com, por exemplo,
não figuram neste contexto. A primeira é usada com a forma reta do
pronome exceto eu e a segunda é usada com o alomorfe pronominal:
comigo.
Outra propriedade das preposições, em geral, a única citada pelas
gramáticas, é o fato de ligar termos oracionais, não orações. Para sermos
mais exatos, acrescentaremos que as preposições também podem ligar
orações, desde que com verbo no infinitivo, o que se justifica por estas
orações funcionarem como verdadeiros termos:
João gosta DEMaria, POR considerá-la leal.
As conjunções subordinativas caracterizam-se por figurarem em orações
desenvolvidas que funcionam como termos de um verbo. Podem ser:
INTEGRANTES
ADVERBIAIS
INTEGRANTES
LÍNGUA PORTUGUESA VOCÁBULO
AULA 04: TIPOS DE VOCÁBULOS
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São vazias semanticamente e servem apenas para permitir que uma
oração inteira funcione como um termo exigido pelo verbo, ou seja, como
sujeito, predicativo ou complemento verbal.
Por exemplo, o verbo desejar exige sujeito e objeto direto. O objeto
direto pode ser representado por uma oração. Nesse caso, o que permitirá
isso será uma conjunção integrante:
Maria deseja delicadeza.
Maria deseja que a tratem com delicadeza.
ADVERBIAIS
Além de permitirem que uma oração inteira funcione como termo, no
caso, um termo circunstancial, possuem significado. Explicitam assim
relações semânticas entre orações, como, por exemplo:
- TEMPO: Anoiteceu. Ela saiu. / Quando anoiteceu, ela saiu.
- CAUSA: Ele ficou cansado. Ele correu muito./ Ele ficou cansado
PORQUE correu muito.
INTEGRANTES
INTEGRANTES:
são vazias semanticamente e servem apenas para permitir que uma
oração inteira funcione como um termo exigido pelo verbo, ou seja, como
sujeito, predicativo ou complemento verbal.
Por exemplo, o verbo desejar exige sujeito e objeto direto. O objeto
direto pode ser representado por uma oração. Nesse caso, o que permitirá
isso será uma conjunção integrante:
Maria deseja delicadeza. Maria deseja que a tratem com delicadeza.
ADVERBIAIS
ADVERBIAIS:
além de permitirem que uma oração inteira funcione como termo, no
caso, um termo circunstancial, possuem significado. Explicitam assim
relações semânticas entre orações, como, por exemplo:
TEMPO:
Anoiteceu. Ela saiu. / Quando anoiteceu, ela saiu.
CAUSA:
Ele ficou cansado. Ele correu muito./ Ele ficou cansado PORQUE
correu muito.
Os conectivos coordenativos não estabelecem funções sintáticas na
frase, nem relações de hierarquia. Os constituintes coordenados, quer sejam
termos quer sejam orações, são sintaticamente independentes, o que não
quer dizer que sejam semanticamente independentes. Desta forma, em:
Maria foi à praia, mas não tomou banho.
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As duas orações Maria foi à praia e mas não tomou banho são
sintaticamente independentes, porém, semanticamente, a segunda
pressupõe a primeira.
Os conectivos coordenativos, quer liguem termos ou orações, são chamados
sempre de conjunções coordenativas e se classificam em aditivas,
adversativas, explicativas, conclusivas, alternativas.
EXEMPLO
João e Pedro foram à praia e tomaram banho (aditiva)
A princesa é bela, mas é triste (adversativa)
João ou Pedro irá ao mercado (alternativa)
Por último, resta falar de uma forma que atua como conectivo e ao
mesmo tempo como pronome. Trata-se de uma forma mista: o pronome
relativo. Como os pronomes, ele tem referência anafórica na oração e exerce
funções que são próprias dos nomes: sujeito, objeto etc. Como conectivo, ele
relaciona uma oração, chamada subordinada adjetiva, a um nome. Atua,
assim, à semelhança das demais conjunções subordinativas: permite que
uma oração funcione como termo, nesse caso, um termo que exerce função
de determinante de um nome:
Vi a estrela QUE o menino apontou.
O pronome relativo que, como pronome, se refere à estrela e funciona
como objeto direto do verbo apontar; como conectivo subordinativo,
permite que uma oração o menino apontou uma estrela funcione como
termo adjunto de estrela: não vi qualquer estrela, mas aquela que o menino
apontou:
Vi a estrela / o menino apontou a estrela (=que).
EXERCITANDO
RECAPITULAÇÃO:
Estude os tipos de conjunção, adverbiais e substantivas. Verifique que
há conectivos duplos como pronome relativo e pronome interrogativo
(pronome e conectivo).
ATIVIDADE DE PORTFÓLIO
1. Mostre que na frase "Fiado só amanhã", usada em bares, o advérbio
tem valor ligado à situação.
2. Por que o advérbio na frase acima se comporta como pronome?
3. Na frase: "O homem que passou é meu conhecido" a forma que é
pronome e conectivo. Comente.
4. Mostre que há semelhanças entre as formas ALGUM/ALGUNS e os
numerais cardinais.
5. Que diferença você percebe entre as mesmas formas acima e a flexão
de número dos cardinais?Por exemplo: dois, três, quatro, cinco/um.
6. O pronome ELE se refere só a seres humanos? Faça frases e veja o
comportamento dele e compare com as formas EU/TU.
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7. Faça frases com o advérbio HOJE e mostre que ele pode se comportar
como substantivo, adjetivo e modificador de verbo.
8. Comente: o advérbio modifica substantivos, adjetivos, verbos,
advérbios ou até uma frase inteira. Exemplifique.
9. Comente: conjunções aditivas não ligam só orações.
10. Comente com seu orientador: as conjunções subordinativas diferem
das coordenadas porque geram funções.
FONTES DAS IMAGENS
Responsável: Profº. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
Universidade Federal do Ceará - Instituto UFC Virtual
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LLPT Capa_Creditos_Sumario.pdf
combinas e numerar_20146282540.pdf
01.pdf
02.pdf
03.pdf
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04.pdf
LLPT Contracapa.pdf