Prévia do material em texto
1 A RT IG O T EM ÁT IC O Cien Saude Colet 2025; 30:e09432025 DOI: 10.1590/1413-812320253010.09432025 Ciência & Saúde Coletiva cienciaesaudecoletiva.com.br ISSN 1413-8123. v.30, n.10 Resumo Este estudo explora a relação entre variáveis socioeconômicas e geográficas dos municípios brasileiros e as mortes por queimaduras térmicas (QT) e elétricas (QE). Utilizando dados do Sistema de Informações de Morta- lidade e indicadores municipais do IBGE, investigou-se o impacto de diversos fatores na mortalidade por queima- duras. A análise revelou uma associação significativa entre a mortalidade e IDHM (QE: 2000-2009 - RR=1,4·10−3 (IC95%: 3,4·10−4-5,9·10−3), 2010-2019 - RR=1,53·10−3 (IC95%: 2,46·10−4-9,57·10−3); QT: 2000-2009 - RR=2,95·10−6 (IC95%: 7,63·10−7-1,14·10−5), 2010-2019 - RR=1,24·10−7 (IC95%: 1,79·10−8-8,68·10−7)), índice de Gini (QE: 2000- 2009 - RR=33,02 (IC95%: 18,43-59,03), 2010-2019 - RR=197,52 (IC95%: 111,2-350,14); QT: 2000-2009 - RR=25,77 (IC95%: 14,68-45,13), 2010-2019 - RR=431,24 (IC95%: 237,24-781,89)), e percentual da população em áreas urba- nas (QE: 2000-2009 - RR=1,644 (IC95%: 1,253-2,1689), e 2010-2019 - RR=1,55 (IC95%: 1,17-2,07); QT: 2000-2009 - RR=2,42 (IC95%: 1,8-3,26), 2010-2019 - RR=2,794 (IC95%: 1,98-3,96)). Os resultados sugerem que condições socioeconômicas inferiores estão correlacionadas com maiores riscos de mortes por queimaduras, indicando que representa um problema de saúde pública interligado às desigualdades sociais. Palavras-chave Queimaduras, Sistemas de Informação em Saúde, Fatores Socioeconômicos, Mortalidade Abstract This study explores the relationship between socioeconomic and geographic variables of Brazilian mu- nicipalities and deaths caused by thermal (TB) and electrical burns (EB). Using data from the Mortality Infor- mation System and municipal indicators from IBGE, the impact of several factors on burn mortality was investi- gated. The analysis revealed a significant association between mortality and HDI (EB: 2000-2009 - RR=1.4·10−³ (95%CI: 3.4·10−4-5.9·10−3), 2010-2019 - RR=1.53·10−3 (95%CI: 2.46·10−4-9.57·10−3); TB: 2000-2009 - RR=2.95·10−6 (95%CI: 7.63·10−7-1.14·10−5), 2010-2019 - RR=1.24·10−7 (95%CI: 1.79·10−8-8.68·10−7)), Gini index (EB: 2000-2009 - RR=33.02) (95%CI: 18.43-59.03), 2010-2019 - RR=197.52 (95%CI: 111.2-350.14); TB: 2000-2009 - RR=25.77 (95%CI: 14.68-45.13), 2010-2019 - RR=431.24 (95%CI: 237.24-781.89)), and percentage of the population living in urban areas (EB: 2000-2009 - RR=1.644) (95%CI: 1.253-2.1689), 2010-2019 - RR=1.55 (95%CI: 1.17-2.07); TB: 2000-2009 - RR=2.42 (95%CI: 1.8-3.26), 2010-2019 - RR=2.794 (95%CI: 1.98-3.96)). The results suggest that lower socioeconomic conditions are correlated with higher risks of death by burns, indicating that it is a public health issue linked to social inequalities. Key words Burns, Health Information Systems, Socioeconomic Factors, Mortality Resumen Este estudio explora la relación entre variables socioeconómicas y geográficas de los municipios brasileños y las muertes por quemaduras térmicas (QT) y eléctricas (QE). Utilizando datos del Sistema de Información de Mor- talidad e indicadores municipales del IBGE, se investigó el impacto de diversos factores en la mortalidad por quema- duras. El análisis reveló una asociación significativa entre la mortalidad y el IDHM (QE: 2000-2009 - RR=1,4·10−3 (IC95%: 3,4·10−4-5,9·10−3), 2010-2019 - RR=1,53·10−3 (IC95%: 2,46·10−4-9,57·10−3); QT: 2000-2009 - RR=2,95·10−6 (IC95%: 7,63·10−7-1,14·10−5), 2010-2019 - RR=1,24·10−7 (IC95%: 1,79·10−8-8,68·10−7)), el índice de Gini (QE: 2000- 2009 - RR=33,02 (IC95%: 18,43-59,03), 2010-2019 - RR=197,52 (IC95%: 111,2-350,14); QT: 2000-2009 - RR=25,77 (IC95%: 14,68-45,13), 2010-2019 - RR=431,24 (IC95%: 237,24-781,89)), y el porcentaje de la población en áreas urbanas (QE: 2000-2009 - RR=1,644 (IC95%: 1,253-2,1689), y 2010-2019 - RR=1,55 (IC95%: 1,17-2,07); QT: 2000- 2009 - RR=2,42 (IC95%: 1,8-3,26), 2010-2019 - RR=2,794 (IC95%: 1,98-3,96)). Los resultados sugieren que condi- ciones socioeconómicas desfavorables están correlacionadas con mayores riesgos de muerte por quemaduras, lo que indica que representa un problema de salud pública vinculado a las desigualdades sociales. Palabras clave Quemaduras, Sistemas de Información en Salud, Factores Socioeconómicos, Mortalidad Mortes por queimaduras no Brasil: uma questão social Burn deaths in Brazil: a social issue Muertes por quemaduras en Brasil: una cuestión social 1 Programa de Pós- Graduação em Saúde Coletiva, Universidade de Brasília. Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte. 70910- 900 Brasília DF Brasil. sergioesf001@gmail.com 2 Faculdade de Medicina, Escola Superior de Ciências da Saúde. Brasília DF Brasil. 3 Centro de Pesquisa Algoritmi, Departamento de Produção e Sistemas, Escola de Engenharia, Universidade do Minho. Guimarães Portugal. 4 Coordenação de Pesquisa e Comunicação Científica, Escola Superior de Ciências da Saúde. Brasília DF Brasil. 5 Coordenação de Cirurgia Plástica e Queimaduras, Hospital Santa Lúcia Sul. Brasília DF Brasil. 6 Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. São Paulo SP Brasil. Sérgio Eduardo Soares Fernandes https://orcid.org/0000-0002-2511-400X 1; Derek Chaves Lopes https://orcid.org/0000-0002-4382- 2528 2; Erik Teixeira Lopes https://orcid.org/0000-0001-5034-8433 3; Fábio Ferreira Amorim https://orcid.org/0000-0003-0929-5733 4; Jose Adorno https://orcid.org/0000-0002-4966-8859 5; Luiz Philipe Molina Vana https://orcid.org/0000-0002-7305-8399 6; Edgar Merchán-Haman https://orcid.org/0000-0001-6775-9466 1 2 Fe rn an de s S ES et a l. Introdução O Brasil é um país localizado na América do Sul e de dimensões continentais, caracterizado por acentuadas disparidades econômicas, sociais e culturais entre suas regiões. Tamanha diversida- de implica em desafios singulares para as polí- ticas de saúde, que precisam ser efetivas, inclu- sivas e abrangentes para uma população muito heterogênea1. A análise de indicadores socioe- conômicos e demográficos realça essas dispari- dades, evidenciadas, por exemplo, pela variação de indicadores como o índice de desenvolvi- mento humano municipal (IDHM) e o índice de Gini entre as diversas localidades. Os indica- dores construídos a partir do Censo Brasileiro de 2010 expõem cidades como São Caetano do Sul em São Paulo com IDHM de 0,862, seme- lhante ao de Hong Kong, Espanha e Dinamarca, no mesmo ano; e como o município de Melgaço, no Pará, com IDHM de 0,418, semelhante ao de Senegal, Uganda e Nigéria2. Indicadores como o IDHM e o índice de Gini, entre outros, estão disponíveis, construí- dos por fontes oficiais e podem ajudar a com- preender os mecanismos envolvidos manifesta- ção de problemas de saúde pública3. Entre os problemas de saúde que podem estar sujeitos a influência de fatores de desen- volvimento social no Brasil, as queimaduras constituem traumas de alta relevância, pois apresentam grandes implicações de morbidade e mortalidade na população4. Queimaduras são lesões complexas, que exigem alocação de diver- sos recursos e geram implicações em diferentes espectros temporais, muitas vezes com sequelas que podem dificultar a reinserção na sociedade4. Uma das dimensões que dão complexidade às queimaduras são os diferentes mecanismos de lesão envolvidos com suas características epi- demiológicas e clínicas4. Apesar da importância deste tema, a literatura Brasileira sobre queima- duras oferece uma grande predominância de estudos descritivos sobre pacientes internados e carece de estudos de base populacional para uma compreensão mais ampla do problema5,6. Desse modo, estudos com bases de dados oficiais apoiadas nas contagens populacionais podem contribuir com o entendimento neces- sário para uma abordagem epidemiológica mais acurada sobre temas tão complexos de saúde pública como as queimaduras. Este estudo busca estabelecer relaçõesentre indicadores socioeconômicos e demográficos com queimaduras e seus desfechos fatais, abor- dagem de grande valor para a compreensão do problema dentro da complexidade dos municí- pios no Brasil e com potencial de subsidiar o de- senvolvimento de estratégias de enfrentamento interligadas às ações de desenvolvimento urba- no. Objetivos Estudar a relação entre variáveis socioeco- nômicas e geográficas dos municípios brasilei- ros e a morte por queimaduras térmicas e elétri- cas no período de 2000 a 2019. Método O sistema de dados oficiais do Ministério da Saúde, o DataSUS, dispõe de dados em acesso público sobre queimaduras. Essa plataforma utiliza a Classificação Internacional de Doen- ças (CID-10) e permite a realização de estudos epidemiológicos, especialmente nas bases do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA)7. Todavia, as bases assistenciais (SIM e SIA) são bases voltadas para registro de produção e não contém dados da a saúde suplementar, enquan- to o SIM, apesar do potencial de erros de regis- tro de códigos, cobre qualquer atendimento em que ocorreu o óbito8. Este trabalho foi desenhado como um es- tudo ecológico dos 5570 municípios brasileiros nas décadas que sucederam os censos de 2000 e 2010. O conjunto de dados foi construído a partir de duas fontes: o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do DataSUS7 e os indica- dores municipais dos censos produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)1. A partir do SIM foram obtidos os microda- dos da base de mortalidade e os arquivos anuais em formato ‘dbc’ foram convertidos em formato ‘csv’ utilizando o software Tabwin 4.15 do Mi- nistério da Saúde. Do conjunto de dados obtido foram extraídas as seguintes variáveis: dia, mês e ano do óbito; código do município de residên- cia; código da classificação internacional de do- enças com letra e dois dígitos da causa básica de morte; e acidente de trabalho. Desta base foram extraídos apenas os regis- tros cuja causa básica de morte continham os seguintes códigos: • Queimaduras térmicas: W35; W36; W38; W39; W40; W92; X00; X01; X02; X03; X04; X05; 3 C iência & Saúde C oletiva, 30(10):1-10, 2025 X06; X08; X09; X10; X11; X12; X13; X14; X15; X16; X17; X18; X19; X30; X75; X76; X77; X88; X96; X97; X98; Y25; Y26; e Y27 • Queimaduras elétricas: W85; W86; W87; e X33 • Queimaduras por outras causas (quími- ca, geladura, radiação): X86; W88; W89; W90; W91; X31; X32; e W93 Um novo campo foi criado para identificar a causa do óbito por queimadura em cada re- gistro. Um segundo conjunto de dados foi produzi- do a partir da base do IBGE para municípios e dos censos de 2000 e 2010, contendo as seguin- tes variáveis: • Variáveis Geográficas: Código e nome do município; unidade da federação; latitude; lon- gitude; altitude; Área do município em quilô- metros quadrados; • Variáveis Socioeconômicas: População em 2000 e 2010; índice de Gini em 2000 e 2010; taxa de atividade entre 18 anos de idade ou mais em 2000 e 2010; taxa de desocupação entre 18 anos de idade ou mais de idade em 2000 e 2010; per- centual de ocupados no setor agropecuário em 2000 e 2010; percentual de ocupados no setor extrativo mineral em 2000 e 2010; percentual dos ocupados na indústria de transformação em 2000 e 2010; percentual dos ocupados nos setores de serviços industriais de utilidade pú- blica em 2000 e 2010; percentual dos ocupados no setor de construção em 2000 e 2010; percen- tual de ocupados no setor comércio em 2000 e 2010; percentual dos ocupados no setor de serviços em 2000 e 2010; percentual da popu- lação residente em área urbana em 2000 e 2010; mortalidade infantil em 2000 e 2010; Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em 2000 e 2010; razão de dependência em 2000 e 2010; taxa de envelhecimento em 2000 e 2010; taxa de analfabetismo entre 15 anos de idade ou mais em 2000 e 2010; e percentual da população com 18 anos ou mais de idade com ensino fun- damental completo em 2000 e 20101. Após a organização dos dados, foi feita uma análise de correlação bivariada entre as variáveis coletadas em busca de colinearidade e foram excluídas da análise por falhas significativas de registro ou por colinearidade as variáveis: per- centual de ocupados no setor extrativo mineral em 2000 e 2010; percentual dos ocupados na indústria de transformação em 2000 e 2010; percentual dos ocupados nos setores de serviços industriais de utilidade pública em 2000 e 2010; percentual dos ocupados no setor de construção em 2000 e 2010; percentual de ocupados no se- tor comércio em 2000 e 2010; e percentual dos ocupados no setor de serviços em 2000 e 2010. Na sequência, o segundo conjunto de da- dos recebeu os campos calculados de: número de óbitos entre 2000 e 2009 e entre 2010 e 2019 para as mortes por queimaduras térmicas e elé- tricas. Após a verificação inicial dos pressupostos, os dados foram submetidos a uma regressão de Poisson de variância robusta para os desfechos de número de óbitos por queimaduras térmicas entre 2000 e 2009 e entre 2010 e 2019; e de nú- mero de óbitos por queimaduras elétricas entre 2000 e 2009 e entre 2010 e 2019, no software Ja- movi 2.3.26 e os resultados foram sumarizados em tabelas. As séries históricas foram realizadas em dois períodos para correlacionar com os Censos disponíveis de 2000 e 2010, e a força da associação não foi expressa de modo a permitir a comparabilidade entre as variáveis que estão em escala decimal. Este projeto não foi submetido à apreciação ética por ser baseado integralmente em dados de acesso público, conforme o parágrafo único do artigo primeiro da Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Todo o projeto foi financiado com recursos próprios dos autores e nenhum conflito de interesse esteve envolvido na produção do artigo. Resultados Durante o período de 2010 a 2019 ocorreram 3,53% (IC95%: 3,33%-3,74%) mais óbitos que os ocorridos entre 2000 e 2009 e as diferenças nas proporções entre óbitos por causas térmicas e elétricas foram reduzidas (Tabela 1). O aumento foi maior nas térmicas: 4,79% (IC95%: 4,47%- 5,11%) que nas elétricas: 2,13% (1,90%-2,36%). A diferença populacional entre os censos de 2000 e de 2010, entretanto, mostrou um cresci- mento de 12,2%. A regressão para óbitos por causas elétricas entre 2000 e 2009 mostrou um modelo capaz de explicar 61% dos dados, com significância esta- tística para todas as variáveis exceto a área do município. Três das variáveis mostraram uma força de associação mais consistente: índice de Gini; percentual da população vivendo em áreas urbanas e IDHM. As demais variáveis, apesar da significância estatística, produziram um efeito fraco no modelo de regressão (Tabela 2). O período entre 2010 e 2019 mostrou re- gressão para óbitos por causas elétricas capaz de explicar 58,9% dos dados, com significância 4 Fe rn an de s S ES et a l. estatística para todas as variáveis e novamente o índice de Gini, o percentual da população vi- vendo em áreas urbanas e o IDHM mostraram força de associação consistente em contraste com a associação mais fraca das demais variá- veis (Tabela 3). As mesmas três variáveis mostraram forte associação com as mortes por queimaduras tér- micas tanto no período de 2000 a 2009, quanto no de 2010 a 2019 com significância estatística, entretanto, também foi possível encontrar asso- ciação entre os óbitos por este mecanismo de queimaduras e o percentual da população com ensino fundamental completo (Tabelas 4 e 5). Em ambos os períodos, todas as variáveis apresentaram significância estatística exceto a taxa de envelhecimento e a taxa de analfabetismo para mortes por queimaduras térmicas (Tabelas 4 e 5). O modelo matemático de predição pare- ceu explicar a variável dependente ligeiramente melhor no segundo período que no primeiro para ambos os mecanismos (Tabelas2 a 5). Finalmente, ao analisar as mortalidades médias mensais por 1 milhão de habitantes por queimaduras para cada estado do Brasil de 2010 a 2019, Rio de Janeiro (1,8: 1,617-1,983) e Ma- ranhão (1,775: 1,483-2,058) ficaram acima da média nacional, enquanto Minas Gerais (1,058: Tabela 1. Regressão de Poisson de variância robusta para número de mortes por queimaduras de causa elétrica no período de janeiro de 2000 a dezembro de 2009. 2000 a 2019 N – Intervalo de Confiança 95% 2000 a 2009 N – Intervalo de Confiança 95% 2010 a 2019 N – Intervalo de Confiança 95% Térmica 35.429 – 54,0% (53,6% a 54,3%) 17.300 – 53,6% (53,1% a 54,2%) 18.129 – 54,3% (53,7% a 54,8%) Elétrica 29.790 – 45,4% (45,0% a 45,8%) 14.738 – 45,7% (45,1% a 46,2%) 15.052 – 45,1% (44,5% a 45,6%) Outras 435 – 0,7% (0,6% a 0,7%) 219 – 0,7% (0,6% a 0,8%) 216 – 0,6% (0,6% a 0,7%) Total 65.654 (100%) 32.257 (100%) 33.397 (100%) Fonte: Autores. Tabela 2. Regressão de Poisson de variância robusta para número de mortes por queimaduras de causa elétrica no período de janeiro de 2000 a dezembro de 2009. Estimativa SE Intervalo de Confiança 95% Exp(B) Z p exp(B) Baixo Alto Constante 0,217 2,47·10−2 1,242 1,183 1,303 8,79descartar a hipótese de que o ensino fundamental completo abre acesso a ocupações de maior risco. Por fim, pode-se analisar as médias men- sais de mortalidades para as queimaduras por milhão de habitantes de ambas as causas por região. Nesse contexto, a região Sudeste cha- mou a atenção em relação as demais (Térmicas: 54,4 IC95%: 53,5-55,2; Elétricas: 22,9 IC95%: 22,4-23,5), seguida pelo Nordeste (Térmicas: 17,1 IC95%: 16,7-17,5; Elétricas: 25,2 IC95%: 24,7-25,6), Sul (Térmicas: 7,5 IC95%: 7,3-7,7; Elétricas: 4,7 IC95%: 4,6-4,8), Norte (Térmi- cas: 1,1 IC95%: 1,0-1,2; Elétricas: 2,5 IC95%: 2,4-2,6) e Centro-Oeste (Térmicas: 1,5 IC95%: 1,4-1,6; Elétricas: 1,9 IC95%: 1,9-2,0), conside- rando ambas as décadas agregadas. Isso indica oportunidades de pesquisas futuras explorando regionalmente os dados discutidos (dados não mostrados em tabela). Este estudo tem como principal limitação o objeto ter sido definido pelo óbito, o que não permite inferências mais seguras aos eventos de queimaduras. Todavia, outras limitações devem ser consideradas como: o resultado dos modelos de regressão, que explicavam de 58,9% a 70,4% dos dados, sugerindo haver outras variáveis não utilizadas que podem apresentar influência sig- nificativa sobre os efeitos estudados, incluindo variáveis de confundimento. Há também limi- tações relacionadas às ações de verificação e re- gistro do óbito e qualificação dos registros pelas secretarias estaduais de saúde, que podem inse- rir diferentes tipos de viés de aferição na base de dados utilizada. Nesse sentido, erros de preen- chimento com consistência em relação a outras informações podem passar despercebidos pela consolidação dos dados e enviesar os resultados. A despeito destas possibilidades serem relevan- tes, a consistência dos achados em duas déca- das diferentes com plausibilidade científica da maior parte deles, parece sugerir que os achados podem ser considerados válidos com razoável segurança. Considerações finais A partir do exposto pode-se concluir que este estudo oferece evidências verossímeis para re- conhecer as queimaduras no Brasil como um dos muitos problemas complexos que envolvem dimensões socioeconômicas e subsidiar estu- dos futuros capazes de apontar estratégias de enfrentamento deste problema saúde pública dentro da estrutura do Sistema Único de Saúde. Os resultados nas análises relacionando óbitos por queimaduras e o IDHM, Índice Gini e Taxa de urbanização reforçam os impactos de carac- terísticas socioeconômicos nas queimaduras. Logo, é possível afirmar que as queimaduras e as suas sequelas devem ser entendidas como mais uma das consequências cruéis e complexas das desigualdades do Brasil moderno. Apesar das limitações citadas anteriormen- te, os resultados trazem discussões relevantes e indicam novas oportunidades de pesquisa. Estu- dos futuros podem explorar as relações de mor- talidade por região geográfica do país, exploran- do a homogeneidade de características também por estados com maior número de municípios, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Adicionalmente, outras análises comparando mortalidade por queimaduras e indicadores ge- ográficos e socioeconômicos podem ser desen- volvidas utilizando o mesmo método. 9 C iência & Saúde C oletiva, 30(10):1-10, 2025 Colaboradores SES Fernandes: conceptualização, curadoria dos dados, análise formal, metodologia, redação – revisão e edição. DC Lopes: redação do ras- cunho original, redação – revisão e edição. ET Lopes: redação do rascunho original, redação – revisão e edição. FF Amorim, J Adorno e LPM Vana: redação – revisão e edição. E Merchán- -Haman: conceptualização, redação – revisão e edição. Declaração de disponibilidade de dados As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo. Referências 1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico [Internet]. 2022 [acessado 2024 fev 21]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/es- tatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demogra- fico-2022.html. 2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sinopse do Censo Demográfico 2010 [In- ternet]. 2010 [acessado 2024 fev 21]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/censo2010/apps/sinopse/ index.php?dados=10. 3. Sobral A, Freitas CM. Modelo de organização de in- dicadores para operacionalização dos determinantes socioambientais da saúde. Saude Soc 2010; 19(1):35- 47. 4. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Secretaria de Vi- gilância em Saúde. Monitoramento dos casos de ar- boviroses até a semana epidemiológica 50 de 2022. Boletim Epidemiológico 47. Brasília: MS; 2022. 5. Cruz BF, Cordovil PBL, Batista KNM. Perfil epide- miológico de pacientes que sofreram queimaduras no Brasil: revisão de literatura. Rev Bras Queimadu- ras 2012; 11(4):246-250. 6. Souza CO. Caracterização do Perfil Epidemiológico dos Queimados do Brasil: Revisão Sistemática da Li- teratura. Salvador: Universidade Federal da Bahia; 2016. 7. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Tabnet DataSUS [Internet]. [acessado 2024 fev 21]. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/informacoes-de-saude- -tabnet/ 8. Drumond EF, Machado CJ, Vasconcelos MR, França E. Utilização de dados secundários do SIM, Sinasc e SIH na produção científica brasileira de 1990 a 2006. Rev Bras Estud Popul 2009; 26(1):7-19. 9. Lopes DC, Ferreira ILG, Adorno J. Manual de Quei- maduras Para Estudantes. Vol 1. Goiânia: Sociedade Brasileira de Queimaduras; 2021. 10. Vendrusculo TM, Balieiro CRB, Echevarría-Guanilo ME, Farina Junior JA, Rossi LA. Queimaduras em ambiente doméstico: características e circunstâncias do acidente. Rev Latino Am Enferm 2010; 18(3):157- 164. 11. Smolle C, Cambiaso-Daniel J, Forbes AA, Wurzer P, Hundeshagen G, Branski LK, Huss F, Kamolz LP. Recent trends in burn epidemiology worldwide: A systematic review. Burns 2017; 43(2):249-257. 12. Nthumba PM. Burns in sub-Saharan Africa: A re- view. Burns 2016; 42(2):258-266. 13. Dokter J, Vloemans AF, Beerthuizen GIJM, van der Vlies CH, Boxma H, Breederveld R, Tuinebreijer WE, Middelkoop E, van Baar ME; Dutch Burn Re- pository Group. Epidemiology and trends in severe burns in the Netherlands. Burns 2014; 40(7):1406- 1414. 14. Saeman MR, Hodgman EI, Burris A, Wolf SE, Ar- noldo BD, Kowalske KJ, Phelan HA. Epidemiology and outcomes of pediatric burns over 35 years at Parkland Hospital. Burns 2016; 42(1):202-208. 15. Hwee J, Song C, Tan KC, Tan BK, Chong SJ. The trends of burns epidemiology in a tropical regional burns centre. Burns 2016; 42(3):682-686. 16. Frank A. Farris. The Gini Index and Measures of Inequality. Am Mathematical Monthly 2010; 117(10):851. 10 Fe rn an de s S ES et a l. 17. Weichert MA. Violência sistemática e persegui- ção social no Brasil. Rev Bras Segur Publica 2017; 11(2):106-128. 18. Mattei TF, Bezerra FM, Mello GR. Despesas públi- cas e o nível de desenvolvimento humano dos esta- dos brasileiros: uma análise do IDHM 2000 e 2010. RACE 2018; 17(1):29-54. 19. Lavrentieva A. Socioeconomic factors and burn. The challenges of poverty and social gradient in our tu- multuous world. Burns 2016; 42(5):1022-1023. 20. Mistry RM, Pasisi L, Chong S, Stewart J, She RBW. Socioeconomic deprivation and burns. Burns 2010; 36(3):403-408. 21. Romanowski KS, Zhou Y, Ten Eyck P, Baldea A, Gallagher JJ, Galet C, Liu YM. Racial And Socioeco- nomic Differences Affect Outcomes in Elderly Burn Patients. Burns 2021; 47(5):1177-1182. 22. Yin B, He Y, Zhang Z, Cheng X, Bao W, Li S, Wang W, Jia C. Global burden of burns and its association with socio-economic development status, 1990- 2019. Burns 2024; 50(2):321-374. 23. Mohammadi AA, Hoghoughi MA, Karoobi M, Ran- jbar K, Shahriarirad R, Erfani A, Modarresi MS, Zar- dosht M. Socioeconomic Features of Burn Injuries in Southern Iran: A Cross-sectional Study. J Burn Care Res 2022; 43(4):936-941. 24. ABRACOPEL. Anuário Estatístico ABRACOPEL: Acidentes de Origem Elétrica.2018. 25. Cloake T, Haigh T, Cheshire J, Walker D. The impact of patient demographics and comorbidities upon burns admitted to Tygerberg Hospital Burns Unit, Western Cape, South Africa. Burns 2017; 43(2):411- 416. Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative CommonsBYCC 26. André SB, Carvalho FM, Daltro C, Pena P. Epide- miologia dos acidentes em uma comunidade de baixa renda de Salvador, Bahia. Rev Baiana Saude Publica 2014; 38(3):585-597. 27. Pereira NCS, Paixão GM. Características de pacien- tes internados no centro de tratamento de queima- dos no estado do Pará. Rev Bras Queimaduras 2017; 16(2):106-110. 28. Queiroz PR, Lima KC, Alcântara IC. Prevalência e fatores associados a queimaduras de terceiro grau no município de Natal, RN - Brasil. Rev Bras Queima- duras 2013; 12(3):169-176. 29. Santos GP, Freitas NA, Bastos VD, Carvalho FF. Perfil epidemiológico do adulto internado em um centro de referência em tratamento de queimaduras. Rev Bras Queimaduras 2017; 16(2):81-86. Artigo apresentado em 15/03/2024 Aprovado em 22/05/2025 Versão final apresentada em 24/05/2025 Editores-chefes: Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vânia de Matos Fonseca2018. 25. Cloake T, Haigh T, Cheshire J, Walker D. The impact of patient demographics and comorbidities upon burns admitted to Tygerberg Hospital Burns Unit, Western Cape, South Africa. Burns 2017; 43(2):411- 416. Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative CommonsBYCC 26. André SB, Carvalho FM, Daltro C, Pena P. Epide- miologia dos acidentes em uma comunidade de baixa renda de Salvador, Bahia. Rev Baiana Saude Publica 2014; 38(3):585-597. 27. Pereira NCS, Paixão GM. Características de pacien- tes internados no centro de tratamento de queima- dos no estado do Pará. Rev Bras Queimaduras 2017; 16(2):106-110. 28. Queiroz PR, Lima KC, Alcântara IC. Prevalência e fatores associados a queimaduras de terceiro grau no município de Natal, RN - Brasil. Rev Bras Queima- duras 2013; 12(3):169-176. 29. Santos GP, Freitas NA, Bastos VD, Carvalho FF. Perfil epidemiológico do adulto internado em um centro de referência em tratamento de queimaduras. Rev Bras Queimaduras 2017; 16(2):81-86. Artigo apresentado em 15/03/2024 Aprovado em 22/05/2025 Versão final apresentada em 24/05/2025 Editores-chefes: Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vânia de Matos Fonseca