Prévia do material em texto
58 | Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 & Construções Projeto e execução de obras de saneamento com tubos de concreto PEDRO JORGE CHAMA NETO – pres. exeC. | ABtc A tualmEntE, o tubo dE ConCrEto é o matErial maiS utilizado Em obraS dE drEnagEm dE águaS PluviaiS E ESgotoS SanitárioS, Em diâmEtroS SuPEriorES a 400 mm, funCionando Como Conduto livrE. nEStE artigo, abordam-SE oS aSPECtoS rElati- voS ao ProjEto E ExECução dE obraS Com tuboS dE ConCrEto dE SEção CirCular, Em Conformi- dadE Com a abnt nbr 8890:2020. EntrE- tanto, ExiStEm outraS SoluçõES Em ConCrEto QuE São utilizadaS Para drEnagEm E ESgotoS SanitárioS, ConformE SEguE: u tuboS dE ConCrEto dE SEção CirCular dES- tinadoS à Cravação (“PiPe Jacking”), Con- formE abnt nbr 15319, Para ExECução dE obraS PElo método não dEStrutivo – mnd; u galEriaS CElularES Em ConCrEto (aduElaS), ConformE a abnt nbr 15396, dE SEção Quadrada ou rEtangular, fECHada ou abEr- ta, aPliCadaS Para drEnagEm E Canaliza- çõES dE CórrEgoS; u PoçoS dE viSita E inSPEção Para SiStEmaS En- tErradoS, ConformE abnt nbr 16085. 1. INTRODUÇÃO O projeto e dimensionamento de tubos de concreto envolvem duas etapas princi- pais (ZAIDLER, 1983): u Projeto hidráulico; u Projeto estrutural. No projeto hidráulico são tomadas as decisões necessárias para garantir o bom desempenho do condutor e definidas suas características relativas à vazão, declividade da rede, diâmetro, locação em planta e corte, profundidades, entre outros, levando-se em conta todas as ações hidráulicas atuantes. No projeto estrutural, os conceitos e teo- rias que constituem a base do projeto de tu- bos de concreto se resumem à determinação dos carregamentos e ao dimensionamento. Em relação às cargas atuantes nos tu- bos, diversas teorias foram desenvolvidas e testadas, sendo o estudo mais conheci- do e consolidado o de Marston, publicado em 1930, “The Theory of External Loads on Closed Conduits in The Light of The Latest Experiments” (ACPA, 1980). Quanto ao dimensionamento, existem princípios básicos que regem o compor- tamento estrutural de tubos enterrados em geral, que são determinantes na fase de projeto e execução de obra, visto que o tipo de material do tubo influi de maneira decisiva no dimensionamento e nos cuida- dos a serem tomados na fase de instalação, conforme segue: u Tubos Rígidos: são aqueles que, quan- do submetidos à compressão diame- tral, podem sofrer deformações de até 0,1% no diâmetro sem apresentar fissu- ras prejudiciais (Ex: tubos de concreto e tubos cerâmicos); u Tubos Semirrígidos: são aqueles que, quando submetidos à compressão diame- tral, podem sofrer deformações no diâme- tro superiores a 0,1% e inferiores a 3%, sem apresentar fissuras prejudiciais (Ex: Tubos de ferro fundido e PRFV – Tubos de poli- éster reforçados com fibra de vidro); u Tubos Flexíveis: são aqueles que, quan- do submetidos à compressão diametral, podem sofrer deformações superiores a 3% no diâmetro, sem apresentar fissuras prejudiciais (Ex: tubos de PVC, tubos de polietileno e tubos de aço). Os tubos rígidos não se defletem, por- tanto, não precisam do solo de envolvi- mento lateral como apoio e sua capacida- de de carga depende apenas da resistência do próprio tubo e da base. Neste caso, o sucesso do empreendimento depende- rá da execução da base de assentamento exatamente como dimensionada. Os tubos flexíveis se defletem, portan- to, sua capacidade de carga não pode ser analisada considerando o tubo isolada- mente, mas sim o sistema tubo + solo. Nes- te caso, a importância do solo de envolvi- mento lateral é crucial. Quanto mais rígido ele for, melhor a capacidade de carga do tubo. Desta forma, o sucesso do empreen- dimento dependerá da qualidade do enve- lopamento do tubo (base, aterro lateral e aterro superior). A seguir apresentam-se os conceitos envolvidos no projeto e dimensionamento de tubos abordando aspectos do projeto hidráulico e, posteriormente, considera- ções mais detalhadas sobre o projeto es- trutural e a execução de obras. 2. PROJETO E DIMENSIONAMENTO 2.1 Projeto Hidráulico Para calcular o diâmetro do tubo a ser utilizado na rede de águas pluviais ou de esgoto, seja tubo de concreto ou qualquer outro material, é necessário conhecer a va- zão transportada. No caso de águas pluviais, é necessário determinar a área de contribuição da ba- cia, as declividades e as dimensões mais econômicas. Diretrizes auxiliares podem ser obtidas em Fendrich et al, 1997; Wilken, 1978; e Tucci et al, 1995. EntidadES da cadEIa FIGURA 1 Carga sobre tubos enterrados foNte: zaidler, 1983 & Construções Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 | 59 Os coletores de esgoto, interceptores e emissários são projetados para funcionar como condutos livres. Neste caso, devem ser obedecidas as recomendações prescri- tas nas ABNT NBR 9648, ABNT NBR 9649 e ABNT NBR 12207. Diretrizes auxiliares podem ser obtidas em Tsutiya e Sobrinho, 2ª edição – 2000. 2.2 Projeto Estrutural 2.2.1. Cargas Há dois tipos principais de cargas a serem consideradas no cálculo dos tu- bos: a carga de terra e as cargas móveis. A carga de terra é resultante do peso do prisma de solo situado diretamente acima da tubulação (ABCD), que é mo- dificado por forças de atrito geradas pelo movimento relativo entre esse e os prismas laterais adjacentes. A Figura 1 mostra o prisma de solo 1 acima da tu- bulação, os prismas laterais representa- dos pela força F e o solo de enchimento lateral 2. A carga de terra pode ser calculada pelas fórmulas de Marston e depende principalmente do tipo de tubo (rígido ou flexível), tipo de solo, profundidade e tipo de instalação, sendo que este último pode ser do tipo vala ou aterro, conforme Figura 2. Para tubos rígidos, das fórmulas de Marston temos: u Instalação em vala: Q1 = Cv . γ . B 2 u Instalação em aterro: Q1 = Ca . γ . D 2 Onde: Q1 = carga sobre o tubo, por unidade de comprimento; Cv = coeficiente de carga de Marston para tubos instalados em vala; Ca = coeficiente de carga de Marston para tubos instalados em aterro; γ = peso específico do solo de reaterro; B = largura da vala, no nível da geratriz su- perior do tubo conforme Fig. 2; D = diâmetro externo do tubo. As cargas móveis são resultantes do tráfego na superfície e podem ser calcu- ladas aplicando-se a teoria de Boussinesq, supondo o solo como um material elástico e isótropo. Uma abordagem que, em geral, atende a maioria dos casos práticos consiste em consi- derar que a pressão vertical, provenien- te de forças aplica- das na superfície, se propague com ângulo variando de 35º conforme a rigidez do solo (Fi- gura 3). Para sobrecar- gas provenientes do tráfego rodoviá- rio, pode-se adotar as mesmas forças empregadas nos projetos de pontes (NBR 7188), que di- vide as pontes ro- doviárias em duas classes: classe 450 (veí- culo-tipo de 450kN de peso total); e classe 240 (veículo-tipo de 240kN de peso total). Para obras em estradas vicinais municipais de uma faixa e obras particulares, a carga móvel rodoviária deve ser no mínimo igual ao tipo TB-240. A Tabela 1 apresenta o cálculo das so- brecargas provenientes do tráfego rodovi- ário para classe 450, com as respectivas cargas móveis em função do diâmetro da tubulação e da altura de terra sobre ela (H). A carga total atuante sobre a tubula- ção será a soma da carga de terra, da carga móvel e de outras que porventura existam, tais como fundações etc. [1] Onde: QT = carga total; Q1 = carga de terra; Q2 = carga móvel; Qn = outras cargas. 2.2.2 diMensionaMento O dimensionamento dos tubos de con- creto se resume ao cálculo de um tubo capaz de resistir a uma determinada car- ga num determinado ensaio de laborató- rio. Este processo é conhecido como de Spangler e Marston, sendo largamente aceito e aplicado no caso de tubos rígidos. O método de ensaio mais co- nhecido para determinar a classe de FIGURA 2 tipos de instalações para tubos enterrados foNte: zaidler, 1983 vAlAS Solo NAtivo Solode reAterro AterroS vAlAS SimPleS Projeção PoSitivA Projeção NegAtivA vAlA com SuB-vAlA vAlA com PAredeS iNcliNAdAS FIGURA 3 distribuição de pressões sobre o tubo deVido à Força q apliCada na superFíCie foNte: el debs, 2002 60 | Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 & Construções TABELA 1 Valores das Cargas rodoViárias – VeíCulo Classe 450 Cargas rodoviárias — veículo classe 450 (conforme NBR 7188) Valores das cargas móveis (KN/m) H (m) Diâmetros (mm) 300 400 500 600 700 800 900 1000 1100 1200 1300 1500 0,60 19,05 22,02 24,63 26,93 29,20 31,21 32,92 34,50 36,06 37,86 39,76 41,74 1,00 9,87 11,97 13,98 15,92 18,00 19,99 21,80 23,61 25,30 27,19 28,91 32,06 1,25 8,25 10,02 11,72 13,36 15,13 16,82 18,37 19,91 21,53 22,99 24,46 27,19 1,50 7,16 8,70 10,19 11,63 13,18 14,68 16,04 17,41 18,85 20,14 21,45 23,88 1,75 6,27 7,63 8,95 10,22 11,59 12,92 14,14 15,35 16,64 17,79 18,97 21,16 2,00 5,54 6,74 7,91 9,05 10,28 11,46 12,55 13,65 14,80 15,84 16,90 18,88 2,25 4,93 6,01 7,05 8,07 9,17 10,24 11,22 12,21 13,25 14,19 15,16 16,95 2,50 4,41 5,38 6,33 7,24 8,24 9,21 10,09 10,99 11,93 12,79 13,67 15,30 2,75 3,97 4,85 5,71 6,54 7,44 8,32 9,13 9,94 10,81 11,59 12,39 13,89 3,00 3,60 4,40 5,17 5,93 6,75 7,56 8,29 9,04 9,83 10,55 11,29 12,67 3,25 3,27 4,00 4,71 5,40 6,16 6,99 7,57 8,26 8,98 9,65 10,32 11,60 3,50 2,99 3,66 4,31 4,94 5,64 6,31 7,00 8,00 8,24 8,85 9,48 10,66 oBServAção: nota-se que as pressões no solo são eleVadas apenas para pequenas proFundidades de instalação, diminuindo à medida que a proFundidade aumenta. por isso, para eVitar deFormações exCessiVas, reComenda-se uma proFundidade mínima de instalação de 1,00 m, quando houVer Cargas móVeis. Caso isso não possa ser obedeCido, deVerão ser tomados os Cuidados neCessários para proteger a tubulação. resistência de um tubo é o de três cutelos (Figura 4). A relação entre a efetiva resistência do tubo e a carga fornecida pelo ensaio de três cutelos é dada por um fator de equivalência (fe). Este fator leva em con- sideração principalmente as condições de assentamento (condição de vala ou aterro) e a base de assentamento. Portanto, o êxito de uma obra não de- pende apenas da elaboração de um bom projeto, mas principalmente da boa obser- vância deste na fase da construção. Even- tuais aperfeiçoamentos da análise estru- tural podem ser anulados pelo emprego de processos construtivos inadequados. A carga atuante sobre a tubulação é calculada através da fórmula: [2] Onde: Q = carga atuante sobre a tubulação; QT = Q1 + Q2 + Q3 + Qn = cargas atuan- tes na tubulação (terra, carga móvel, e outras cargas); fe = fator de equivalência em função do tipo de assentamento da tubulação. Após este cálculo, deverá ser escolhida a classe de resistência do tubo que atende ao valor calculado, conforme o tipo de uso, consultando a NBR 8890/2020. Escolhida a classe do tubo, os tubos produzidos devem ser submetidos ao en- saio de compressão diametral pelo método dos três cutelos, para verificação do aten- dimento dos valores prescritos em Norma, sendo que: u Tubos de concreto simples Qo aterro lateral e camada de 30cm acima da tubulação) o perfei- to confinamento, evitando que haja uma FIGURA 10 apoio sobre lastro, laje e berço Contínuo FIGURA 11 Fundação FIGURA 12 base Com material granular Fino & Construções Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 | 63 deflexão diametral acima do limite tolera- do pelo material (Figura 13). Nestes casos, a não regularização da base e execução do aterro lateral com ma- terial granular (normalmente areia) impe- dem o perfeito confinamento do tubo, pro- vocando uma deflexão diametral acima do limite tolerado pelo material. Tal deflexão provocará uma inversão de curvatura e co- lapso da tubulação (Figura 14). 3.4 Reaterro (fechamento das valas) O reaterro deverá ser desenvolvido em paralelo com a remoção dos esco- ramentos, utilizando-se material de boa qualidade, proveniente da própria esca- vação ou importado. Nas valas sob leito carroçável, a camada de reaterro deverá ser compactada, com controle do grau de compactação, em camadas de 20 cm de espessura, até a superfície do terreno. No caso de tubos rígidos, o material de esca- vação da própria vala pode ser utilizado na base, nas laterais e na parte superior (Figura. 15). No caso de tubos flexíveis (PVC, Po- lietileno), obrigatoriamente deverá ser feito o confinamento do tubo com mate- rial granular (base, aterro lateral e aterro até 30 cm acima da geratriz superior do tubo), conforme Figura 16. No reaterro, após 30 cm acima da geratriz superior do tubo, pode ser utilizado o próprio ma- terial escavado. Entretanto, o que vemos na prática é a execução feita de forma inadequada como tentativa de ganhar produtivida- de, comprometendo irreversivelmente a qualidade e vida útil da obra. Como visto FIGURA 13 base Com material granular Fino (tubos FlexíVeis) FIGURA 14 base não regularizada, uso de material inadequado e tubulação Colapsada foNte: aCpa, 2011 FIGURA 15 reaterro de tubos de ConCreto (rígido) 64 | Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 & Construções anteriormente, uma má execução anula e compromete todas as premissas e cuida- dos adotados no cálculo e causa sinistros (Figura 17). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O sucesso de um empreendimento depende fundamentalmente de um bom projeto e da obediência dele na fase de execução, assim como da aplicação de materiais que atendam às Normas Téc- nicas Brasileiras. Os problemas e sinistros que geral- mente ocorrem nas obras de galerias de águas pluviais e esgoto sanitário estão relacionados com: falhas no levantamen- to topográfico; falta de levantamento das interferências no local da obra; man- ter valas abertas por longos períodos; aplicar materiais inadequados ou que não atendem às normas e especifica- ções; falta de escoramento das valas; e execução da base, aterros laterais e rea- terro superior de forma inadequada. FIGURA 16 reaterro de tubos de polietileno (FlexíVel) FIGURA 17 reaterro sem CompaCtação, reaterro Com material inadequado e sem CompaCtação e reaterro Com material inadequado e CompaCtação errada (uso de equipamento sobre o tubo) & Construções Ed. 110 | Abr – Jun | 2023 | 65 A Figura 18 mostra alguns absur- dos cometidos como: falhas no assen- tamento, tubo subdimensionado, sinis- tro devido falta de confinamento do tubo flexível e assentamento aéreo de tubo flexível. FIGURA 18 erros na exeCução de obra (aCpa) [1] AMERICAN CONCRETE PIPE ASSOCIATION. Concrete Pipe Handbook. Vienna, Virginia, USA, 1980. [2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS FABRICANTES DE TUBOS DE CONCRETO. Manual Técnico de drenagem e esgoto sanitário: Tubos e aduelas de concreto – Projetos, Especificações e controle de qualidade. ABTC, São Paulo, 2008. [3] ABNT NBR 8890:2020, Tubo de concreto de seção circular para água pluvial e esgoto – Requisitos e métodos de ensaios. [4] ABNT NBR 7188-2013, Carga móvel rodoviária e de pedestres em pontes, viadutos, passarelas e outras estruturas [5] ABNT NBR 9648:86, Estudo de Concepção de Sistemas de Esgoto Sanitário [6] ABNT NBR 9649:1986, Projeto de Redes Coletoras Esgoto Sanitário. [7] ABNT NBR 12207:2016, Projeto de Interceptores Esgoto Sanitário. [8] ABNT NBR 17015:2022, Execução de obras lineares para transporte de água bruta e tratada, esgoto sanitário e drenagem urbana, utilizando tubos rígidos, semirrígidos e flexíveis. [9] El DEBS, MOUNIR KHALIL. Projeto Estrutural de Tubos Circulares de Concreto Armado, IBTS, São Paulo, 2002. [10] FENDRICH, ROBERTO; OBLADEN, NICOLAU L.; AISSE, MIGUEL M.; GARCIAS, CARLOS M.; ZENY, ANA SYLVIA. Drenagem e Controle da Erosão Urbana. Editora Universitária Champagnat, Curitiba – PR, 1997. [11] TSUTIYA, MILTON TOMOYUKI; SOBRINHO, PEDRO ALEM. Coleta e Transporte de Esgoto Sanitário – 2ª ed. - Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária, Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, São Paulo, S.P, 2000. [12] TUCCI, CARLOS E. M.; PORTO, RUBEM LA LAINA; BARROS, MÁRIO T. DE. Drenagem Urbana. Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre – RS, 1995. 428p. [13] ZAIDLER, WALDEMAR. Projetos estruturais de tubos enterrados. PINI Editora, São Paulo, S.P., 1983. [14] WILKEN, PAULO SAMPAIO. Engenharia de Drenagem Superficial. São Paulo, Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, 1978. 478p. u REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS