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Direitos Humanos e Sistema Prisional Escola Nacional de Serviços Penais Secretaria Nacional de Serviços Penais Ministério da Justiça e Segurança Pública Direitos Humanos e Sistema Prisional Apresentação Olá, cursista! Seja bem-vindo ao curso "Direitos Humanos e Sistema Prisional. Neste curso, você irá explorar os fundamentos dos direitos humanos, sua relação com o sistema prisional brasileiro e as peculiaridades dos grupos vulneráveis encarcerados. Com uma abordagem interdisciplinar, o curso visa fortalecer a atuação profissional de servidores do sistema penal, promovendo práticas mais humanizadas e alinhadas aos princípios de equidade e justiça social. O conteúdo está organizado em três módulos que abordam desde os conceitos básicos dos direitos humanos até sua aplicação no contexto prisional com foco em populações em situação de maior vulnerabilidade. 1 Ementa MÓDULO 1 – CONCEITO, CLASSIFICAÇÕES E HISTÓRIA DOS DIREITOS HUMANOS Neste módulo trabalharemos os fundamentos dos Direitos Humanos, explorando sua evolução histórica, características essenciais e classificações. Abordaremos a relação entre a ONU e a proteção desses direitos, além das diferentes gerações/dimensões que compõem o sistema internacional de direitos humanos, proporcionando uma base conceitual sólida para compreender sua aplicação no contexto prisional. MÓDULO 2 – DIREITOS HUMANOS NO CONTEXTO DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO Este módulo analisará criticamente a evolução das instituições penais no Brasil, desde as primeiras prisões até as reformas contemporâneas. Discutiremos a tensão entre punição e reabilitação, e examinaremos o reconhecimento pelo STF do Estado de Coisas Inconstitucional no sistema prisional brasileiro, destacando os desafios atuais na garantia de direitos fundamentais aos privados de liberdade. MÓDULO 3 – GRUPOS VULNERÁVEIS DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO Neste módulo, falaremos sobre as especificidades e proteções necessárias para grupos vulneráveis no cárcere, incluindo população LGBTQIA, mulheres, indígenas, pessoas com deficiência, idosos e estrangeiros. Abordaremos políticas como o nome social, direitos consulares e adaptações necessárias para garantir tratamento digno a essas populações, conforme estabelecido pela legislação nacional e internacional. Público-alvo Este curso é destinado aos servidores da execução penal (policiais penais e servidores que atuam com políticas), bem como para qualquer servidor interessado em aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto. 2 Carga horária O curso tem carga horária de 20 horas. Objetivos Capacitar profissionais do sistema prisional e áreas correlatas a compreender e aplicar os princípios dos Direitos Humanos no contexto carcerário, promovendo práticas institucionais alinhadas à dignidade humana, à justiça social e ao cumprimento efetivo da legislação nacional e internacional. Objetivos específicos ● Compreender os fundamentos históricos e conceituais dos Direitos Humanos e seu marco legal internacional e nacional. ● Analisar criticamente a evolução do sistema prisional brasileiro e seus desafios contemporâneos na garantia de direitos fundamentais. ● Identificar as violações de direitos humanos mais recorrentes no ambiente prisional brasileiro. ● Reconhecer as especificidades e necessidades dos grupos vulneráveis no sistema prisional LGBTQIA, mulheres, indígenas, pessoas com deficiência, idosos e estrangeiros). ● Aplicar os instrumentos normativos de proteção aos direitos humanos no cotidiano do sistema prisional. ● Desenvolver estratégias para implementação de políticas institucionais que garantam os direitos humanos na execução penal. ● Promover uma cultura organizacional alinhada aos princípios dos direitos humanos nas unidades prisionais. ● Estimular a reflexão crítica sobre o papel dos agentes penitenciários como garantidores de direitos fundamentais. 3 Metodologia Os três módulos do curso Direitos Humanos e Sistema Prisional são autoinstrucionais. Eles não contam com a presença de um tutor para acompanhamento e orientação dos estudos e das atividades, nem para tirar as dúvidas por meio de sala de bate-papo (chat) ou de fórum de discussão. A realização de todo o processo (leitura dos conteúdos e realização das atividades) se baseia na prática de estudo diário e contínuo da pessoa participante. É importante seguir a ordem dos módulos, pois eles são cumulativos e complementares. Critério de Avaliação Este curso é avaliativo e, para concluí-lo, você deverá estudar todos os slides, realizar as atividades e obter nota igual ou superior a 6.0, em cada módulo. Serão 3 tentativas de resolução das atividades propostas, a fim de alcançar a média. Após a conclusão dos módulos, incluindo a realização das atividades, sua situação no curso será alterada para “Aprovado .ˮ 4 Expediente GOVERNO FEDERAL Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Vice-Presidente da República Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho Ministro da Justiça e Segurança Pública Enrique Ricardo Lewandowski Secretário da Secretaria Nacional de Políticas Penais – SENAPPEN André de Albuquerque Garcia Diretora da Escola Nacional de Serviços Penais – ESPEN Stephane Silva de Araújo Equipe ESPEN Haynara Jocely Lima de Almeida Jorge Magno Alves Pinto Leonardo Conceição Cruz Pedro Henrique Chavier da Silva Robson de Farias Tânia Lopes Ferreira Silva UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG Coordenação Geral Gilson Oliveira Barreto Financeiro Aliene Nunes Ribeiro Arantes Mariana Pires da Silva Administrativo Radson de Souza Santos Supervisão Técnica de EAD Alexandre Mathias Pedro Coordenação de Produção Diego Mendonça Camargo Coordenação de AVA Adelaide da Silva Carvalho Brosig Revisão Textual Juliana Dias Erthal Ana Paula Carreiro Design Instrucional Supervisão: Diego Mendonça Camargo Ana Paula Carreiro Diego Mendonça Camargo Fernando Basílio Portero Simon Juliana Dias Erthal Design Gráfico Carlos Gustavo Martins Hoelzel Diego Mendonça Camargo Fernando Basílio Portero Simon Sergio Ferreira dos Santos Junior Weniskley Alves Santana Programação de Recursos Educacionais Supervisão: Dhiego Aprigio de Carles Dhiego Aprigio de Carles Elvia Nunes Ribeiro Rhandy Rafhael de Carvalho Ilustração Biagy de Oliveira Edição de vídeo Supervisão: Diego Mendonça Camargo Airton Murakami Uemura Animação Supervisão: Diego Mendonça Camargo Airton Murakami Uemura Giselle Santos Almeida Audiovisual Bruno Vieira Dato Sant Anna Rodrigo Flamarion Godinho Miranda Pesquisa Nicoly Rubia Bento dos Santos Pamela Monike Honorato Soares Ramon Ferreira Teles Samanta Silva do Nascimento Conteúdo Supervisão: Juliana Dias Erthal Bruna Roberta Wessner Longen 5 Sumário MÓDULO 1 - Conceito, classificações e história dos direitos humanos 7 1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo 8 1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? 10 1.3 Classificações de Direitos Humanos 13 1.4 Características dos Direitos Humanos 15 1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos 19 Considerações Finais 31 Referências 33 Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do Sistema Prisional Brasileiro 34 2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica 35 2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: Das Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas 39 2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? 48 2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal 56 Considerações Finais 60 Referências 62 Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema prisional brasileiroe a tortura visava não apenas revelar o horror do crime, mas também reafirmar o poder do soberano. No século XVIII, um grupo de reformadores, movido pelo humanismo, criticou a violência excessiva presente na tortura pública e propôs uma nova interpretação da punição. Eles clamaram pela abolição do ritual de atrocidade, afirmando que a tortura não era apenas uma manifestação de violência do soberano, mas também do povo, que consentia com tais práticas. 52 Segundo Foucault 1987, a principal motivação dos reformadores era evitar os excessos de violência tanto do rei quanto do povo, prevenindo possíveis confrontos com resultados trágicos. Além disso, existia uma solidariedade popular com criminosos que cometiam pequenos delitos, o que gerava um temor político nos soberanos diante do impacto desses rituais Prado, 2008. Superada a era do suplício, na qual a punição se direcionava ao corpo, o castigo começa a afetar a alma. A alma torna-se, então, um instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo. O protesto contra os suplícios tornou-se mais frequente na segunda metade do século XVIII, ecoando entre filósofos do direito, juristas, magistrados e parlamentares. Evidencia-se a necessidade de punir de outra forma. Nesse ponto, Foucault 1987 discorre: O afrouxamento da severidade penal no decorrer dos últimos séculos é um fenômeno bem conhecido dos historiadores do direito. Entretanto, foi visto, durante muito tempo, de forma geral, como se fosse fenômeno quantitativo: menos sofrimento, mais suavidade, mais respeito e “humanidade .ˮ Na verdade, tais modificações se fazem concomitantes ao deslocamento do objeto da ação punitiva. Redução de intensidade? Talvez. Mudança de objetivo, certamente. Se não é mais ao corpo que se dirige a punição, em suas formas mais duras, sobre o que, então, se exerce? A resposta dos teóricos — daqueles que abriram, por volta de 1780, o período que ainda não se encerrou — é simples, quase evidente. Dir-se-ia inscrita na própria indagação. Pois não é mais o corpo, é a alma. À expiação que tripudia sobre o corpo deve suceder um castigo que atue, profundamente, sobre o coração, o intelecto, a vontade, as disposições. 53 Ao longo da história, a busca incansável por respostas a um dos problemas sociais mais graves do Brasil revela que o modelo adotado pelo sistema jurídico brasileiro, em teoria, considera o infrator como um indivíduo sujeito às leis, que pode ou não as cumprir por uma série de razões multifatoriais, nem sempre compreendidas por todos. Esse modelo leva ao estudo das causas e fatores da criminalidade, buscando ir além do simples castigo pelo mal causado. O objetivo é identificar o ponto inicial do desvio de conduta, adotando a pena não apenas como punição, mas como uma ferramenta de recuperação e tratamento do criminoso – uma utopia, para muitos. Motta 2011 investigou a estratégia, o cálculo político e a forma de racionalidade implementada com a prisão quando o sistema penal brasileiro foi reformado. Seu estudo seguiu uma abordagem filosófica e histórica, baseada em uma genealogia e arqueologia da ética e moral punitiva, e uma crítica da razão punitiva no Brasil. Para refletir A reflexão central do autor se resume em uma indagação ética sobre a punição que nos traz uma reflexão para o final deste tópico: por que a prisão foi eleita como uma solução inevitável para a crise do Antigo Regime, considerando as críticas às masmorras da época? 54 De fato, à letra da lei, as penas privativas de liberdade no Brasil têm como finalidade principal a reintegração social dos(as) presos(as), bem como o controle e a prevenção da criminalidade. Esse princípio está claramente expresso no primeiro artigo da Lei de Execução Penal brasileira, promulgada em 1984 Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado. O estado de precarização generalizada enfrentado pelo sistema prisional brasileiro reflete uma realidade oposta ao que se idealiza legalmente. Qualquer medida a ser adotada para as prisões deve, em primeiro lugar, contemplar uma ampla reforma, tanto material — em termos físicos — quanto no pensamento punitivo e nas formas de punição, que, atualmente, estão claramente falidas. Na prática, as condições precárias do cárcere brasileiro funcionam como um fator propulsor para a “profissionalizaçãoˮ criminal dos internos, como evidenciado pelos elevados índices de reincidência no país. 55 2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal O Supremo Tribunal Federal STF reconheceu, em 4 de outubro de 2023, a violação massiva de direitos fundamentais no sistema prisional brasileiro. Com a conclusão do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental ADPF 347, o tribunal determinou que o governo federal passe a elaborar um plano de intervenção para resolver a situação, com diretrizes para reduzir a superlotação dos estabelecimentos penais, o número de presos provisórios e a permanência em regime mais severo ou por tempo superior ao da pena. Na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental ADPF 347, o autor, Partido Socialismo e Liberdade PSOL, apresentou uma série de pedidos visando enfrentar o Estado de Coisas Inconstitucional ECI no sistema prisional brasileiro. Entre os principais requerimentos, destacam-se: A determinação ao Governo Federal de elaborar e encaminhar ao Supremo Tribunal Federal STF um plano nacional, com prazo de três anos, para superar o quadro crítico do sistema penitenciário brasileiro; 56 Que esse plano incluísse propostas claras, metas objetivas, os recursos necessários para sua execução e um cronograma detalhado para a implementação das medidas; Que o plano fosse submetido à análise de órgãos como o Conselho Nacional de Justiça CNJ, Procuradoria-Geral da República PGR, Defensoria Pública da União DPU, Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil CFOAB, Conselho Nacional do Ministério Público CNMP, entre outros, além da sociedade civil; Que o STF deliberasse sobre o plano apresentado, com a possibilidade de homologá-lo ou impor providências complementares e alternativas, se necessário; Após a homologação do plano nacional, que os governos estaduais e do Distrito Federal apresentassem, no prazo de três meses, planos próprios alinhados às diretrizes do plano nacional, com metas e propostas específicas para cada região; Que o STF analisasse e deliberasse sobre cada plano estadual e distrital, homologando-os ou impondo ajustes, conforme necessário; 57 Por fim, que o STF monitorasse a implementação dos planos nacional, estaduais e distrital, com o apoio do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário DMF e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas do CNJ, garantindo que esse processo fosse público, transparente e aberto à participação da sociedade civil. Essa iniciativa refletiu a necessidade urgente de articulação e controle efetivo das ações governamentais para reverter a grave crise que atinge o sistema prisional brasileiro que, como visto no tópico anterior, há muito vem apresentando falhas incontestáveis, distanciando-se do seu objetivo. No contexto desse julgamento, o Ministro Edson Fachin 2015 afirmou que: Os estabelecimentos prisionais funcionam como instituições segregacionistas de grupos em situação de vulnerabilidade social. Encontram-se separados da sociedade os negros, as pessoas com deficiência, os analfabetos. E não hámostras de que essa segregação objetive – um dia – reintegrá-los à sociedade, mas sim, mantê-los indefinidamente apartados, a partir da contribuição que a precariedade dos estabelecimentos oferece à reincidência. Mais adiante, acresceu: Avista-se um estado em que os direitos fundamentais dos presos, definitivos ou provisórios, padecem de proteção efetiva por parte do Estado. 58 Após descrever a deplorável situação da população prisional no Brasil, o relator da ação, Ministro Marco Aurélio, confirmou que dela decorrem inúmeras violações de direitos humanos, bem como de preceitos básicos presentes na Lei de Execução Penal Lei n. 7.210/1984. Tais violações, de acordo com o Ministro, não impactariam, tão somente, situações subjetivas individuais, mas afetariam toda a sociedade. Portanto, concluiu que, no Brasil, cárceres não servem à ressocialização. Em suas palavras: No sistema prisional brasileiro, ocorre violação generalizada de direitos fundamentais dos presos no tocante à dignidade, higidez física e integridade psíquica. A superlotação carcerária e a precariedade das instalações das delegacias e presídios, mais do que inobservância, pelo Estado, da ordem jurídica correspondente, configuram tratamento degradante, ultrajante e indigno a pessoas que se encontram sob custódia. As penas privativas de liberdade aplicadas em nossos presídios convertem-se em penas cruéis e desumanas. Os presos tornam-se ‘lixo digno do pior tratamento possível ,̓ sendo-lhes negado todo e qualquer direito à existência minimamente segura e salubre. Daí o acerto do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na comparação com as ‘masmorras medievaisʼ Fachin, 2015. É importante mencionar que anos antes, em 2011, o Supremo Tribunal Federal do Brasil não utilizou formalmente a expressão "estado de coisas inconstitucional" como ocorreu em 2023, mas em caso relacionado reconheceu a inconstitucionalidade das condições de encarceramento no país, especialmente no que se referia à superlotação e à falta de infraestrutura nos presídios. Esse julgamento foi feito no contexto de uma ação movida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que questionava as condições das prisões no Estado. 59 Fato é que embora a tomada de decisão da mais alta corte do país tenha sido recebida com entusiasmo por alguns estudiosos Campos, 2015; Rodriguez, 2015, a medida foi amplamente criticada por outros Streck, 2015; Glezer; Machado, 2015, principalmente devido aos resultados modestos observados na prática, desde então. Um exemplo claro disso é a persistente superlotação carcerária, que não obteve a redução esperada até o presente momento, mesmo com novos calorosos debates no ano de 2023 e 2024. Considerações Finais Encerramos o segundo módulo do curso com uma reflexão essencial sobre os direitos humanos no contexto histórico do sistema prisional, analisando o surgimento das prisões até as contradições e desafios que ainda persistem. Discutimos como esse sistema, em muitos casos, se distancia de seus objetivos proclamados, perpetuando desigualdades generalizadas. Essa realidade coloca em xeque a legitimidade constitucional das práticas vigentes, evidenciando a urgência de repensar o papel das prisões em nossa sociedade. 60 Ao longo do módulo, exploramos como a prisão tem sido historicamente utilizada mais como uma forma de punição do que de ressocialização, contrariando os princípios básicos que deveriam nortear a execução penal brasileira. Este olhar crítico nos permite entender que a questão não se resume à segurança pública, envolvendo questões extremamente profundas e multidisciplinares. A mais alta corte do país reconhecer as falhas sistêmicas do sistema prisional certamente é o primeiro passo para promover as indiscutíveis mudanças que se fazem necessárias. Agora, seguimos para o terceiro e último módulo do curso, em que serão abordadas questões inerentes aos grupos mais vulneráveis do sistema prisional brasileiro. Este será um momento de aprofundarmos as discussões sobre a diversidade e a vulnerabilidade de determinadas populações encarceradas, considerando suas particularidades e os desafios específicos que enfrentam de forma acentuada quando privados de liberdade. Esse módulo final trará uma visão ainda mais ampla e sensível para consolidar o aprendizado e fomentar práticas mais justas e inclusivas dentro do sistema prisional. 61 Referências AGUIRRE, Carlos. O cárcere na América Latina, 18001940. In: MAIA, Clarissa Nunes et al História das prisões no Brasil. Rio de Janeiro, Rocco, 2009. BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Lei de Execução Penal. Diário Oficial da União, 1984. BRITO, Lemos. Evolução do sistema penitenciário brasileiro nos últimos 25 anos. Rio de Janeiro: 1946. p. 12 CAMPOS, J. 2015. Reflexões sobre o impacto da ADPF 347/2015 nas políticas penitenciárias. CANCELLI, Elizabeth. As prisões brasileiras e a Casa de Detenção de São Paulo: uma análise da realidade penitenciária. 2005. CANCELLI, Elizabeth. "Repressão e controle prisional no Brasil: prisões comparadas". 2005. DOTTI, René Ariel. Execução penal no Brasil: aspectos constitucionais e legais. Revista FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 1987. GLEZER, M.; MACHADO, R. 2015. Críticas ao Estado de Coisas Inconstitucional e os resultados insatisfatórios na prática. GOFFMAN, Erwing. Manicômios, Prisões e Conventos 1974, São Paulo, Ed. Perspectiva, 2012. HOFMEISTER, Carlos Freire. A pena privativa de liberdade e a inclusão social do preso na perspectiva dos direitos humanos. Florianópolis: 2002. HOFMEISTER, Silvio. A prisão e o tempo perdido: uma reflexão sobre a experiência penal. 2002. MAGALHÃES, A. 2018. Análise crítica da persistência das condições desumanas no sistema prisional brasileiro pós-ECI. 62 MAIA, José. História das penas e da criminalidade. 2009. MIRABETE, Júlio. Manual de direito penal. 21ª ed. São Paulo: Atlas, 2004. MOTTA, D. 2011. O cárcere e a política punitiva no Brasil: uma genealogia da prisão. São Paulo: Editora UNESP. MOURA, Thelma Maria de. Foucault e a Escola: Disciplinar, Examinar, Fabricar. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Mestrado em Educação da Universidade Federal de Goiás. Goiânia/GO, 2010. NOGUEIRA, Romero da Silva. Detenções em Pernambuco: Discursos sobre a reformulação do sistema prisional no Estado 1970 – 1980. Bahia, 2020. ONODERA, José. História das prisões no Brasil e violações de direitos humanos. 2005. PIMENTEL, Roberto. A penitência e a punição na Idade Média. 1989. PIMENTEL, Roberto. Punição e poder: a história das instituições penais no Brasil. 1989. PRADO, M. 2008. História do crime e do castigo: as origens da punição e a tortura no século XVIII. São Paulo: Edusp. RODRIGUEZ, L. 2015. Desafios da implementação do Estado de Coisas Inconstitucional no Brasil. SALLA, Fernando. As Prisões de São Paulo: 18221940. 1999. SILVA, A. 2015. A violência do poder: uma análise da tortura e suas implicações no controle social. Rio de Janeiro: FGV. STRECK, L. 2015. O impacto das decisões do STF no sistema penal brasileiro: uma visão crítica. Supremo Tribunal Federal STF. ADPF 347/2015 - Estado de Coisas Inconstitucional no Sistema Prisional Brasileiro. 2015. Supremo Tribunal Federal STF. Relatório da ADPF 347/2015, Relator: Ministro Marco Aurélio. Violações de Direitos Humanos no Sistema Prisional Brasileiro. 2015. 63 Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema prisional brasileiro Sejam bem-vindos ao terceiro e último módulo do curso Direitos Humanos e Sistema Prisional. Nesta etapa, mergulharemos em um tema de extrema relevância: os grupos mais vulneráveis que compõemo sistema prisional brasileiro. Esse módulo nos desafia a ampliar nosso olhar sobre a diversidade e subjetividades dentro das prisões, dispondo de orientações oficiais destinadas à custódia de pessoas LGBTQIA, mulheres, estrangeiros, indígenas, pessoas com deficiências e pessoas idosas. Entender as necessidades, vulnerabilidades e direitos desses grupos específicos é essencial para promover um sistema prisional mais justo e humanizado. Nesse sentido, é imperioso destacar que a qualificação profissional dentro desse contexto ganha ainda mais importância, pois permite que profissionais e gestores compreendam as questões específicas que afetam essas populações e possam ter maior assertividade. Cada um desses “gruposˮ enfrentam desafios únicos na sociedade, que se acentuam quando inseridas no sistema prisional, como a discriminação, invisibilidade e barreiras de acesso a direitos fundamentais. Compreender essas realidades é o primeiro passo para construir práticas que respeitem a dignidade humana e contribuam para uma execução penal mais justa e eficaz. 64 A SENAPPEN - Secretaria Nacional de Políticas Penais desenvolveu a Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional, buscando igualdade efetiva e a garantia de direitos, considerando as especificidades de pessoas idosas, estrangeiras, população LGBTQIA, indígenas e minorias étnico-raciais, pessoas com deficiência ou em sofrimento psíquico e mulheres. As cartilhas foram produzidas pela SENAPPEN, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, com vistas a estruturar um modelo de gestão democrático nas políticas penais. As notas técnicas da SENAPPEN fazem parte das atribuições do órgão, previstas no art.72 da Lei de Execução Penal LEP, de acompanhar a fiel aplicação das normas de execução penal em todo o Território Nacional, assistir e colaborar tecnicamente com as Unidades Federativas na implementação dos princípios, serviços e regras estabelecidas na LEP. Imagem 1 Coletânea Vulnerabilidade em Pauta – SENAPPEN 2023 Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas 65 https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas Ao longo deste módulo, exploraremos como as interseccionalidades – ou seja, a sobreposição de diferentes identidades e desigualdades – impactam diretamente as vivências no cárcere. Essa abordagem nos permitirá refletir sobre estratégias para enfrentar as disparidades e garantir que o sistema prisional não reproduza ou agrave tais vulnerabilidades. 3.1 População LGBTQIA Conjunto de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Intersexo e outras identidades que têm em comum o fato de estarem fora dos padrões da congeneridade e da heterossexualidade. Figura 1 - Bandeira LGBTQIAPN 66 Figura 2 Cores da Bandeira LGBTI A bandeira do orgulho LGBTI foi criada por Gilbert Baker San Francisco, 1978 e foi usada pela primeira vez na Gay and Lesbian Freedom Day March. Em seguida, foi adotada pela Pride Parade Committee e representa a diversidade humana. Suas cores significam, nos termos do que apresenta a 3ª edição do Manual de Advocacy, Litigância estratégica, Controle Social e Accountability LGBTI ,ˮ publicado pela Gay Latino e pela Aliança Nacional LGBTI no ano de 2021 O "Manual de Advocacy, Litigância Estratégica, Controle Social e Accountability LGBTI" é um documento importante que aborda a luta pelos direitos humanos da população LGBTI no Brasil, com foco nas práticas de advocacy e estratégias de litigância para garantir a inclusão, proteção e igualdade dessa comunidade. O manual destaca a necessidade de um controle social efetivo e mecanismos de accountability (responsabilização) para garantir que os direitos dos indivíduos LGBTI sejam respeitados, especialmente em contextos de vulnerabilidade, como o sistema prisional, onde essa população enfrenta desafios significativos, como a violência, discriminação e a falta de políticas adequadas de proteção. 67 3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual Em termos gerais, o sexo biológico é atribuído ao nascimento e refere-se às características biológicas presentes no momento do nascimento, como cromossomos, composição hormonal,características anatômicas, entre outras Oliveira, 2015; Cunha, 2012. A genitália, que se desenvolve visivelmente a partir do terceiro mês de gestação, é um dos principais indicadores desse sexo, podendo resultar na “classificaçãoˮ da pessoa como macho, fêmea ou intersexo Caderno, 2017. É importante destacar que o sexo biológico, por si só, não implica necessariamente em gênero, que é uma construção social e cultural distinta. O SEXO BIOLÓGICO, portanto, nada mais é que a designação de sexo de uma pessoa sob a perspectiva estritamente biológica, diz respeito à sua conformação física e anatômica, restringindo-se à verificação de fatores genéticos (cromossomos), gonadais (ovários ou testículos), genitais (pênis ou vagina) ou morfológicos (aspectos físicos externos gerais). Esse critério não define a identidade de gênero da pessoa, que veremos a seguir mas, antes, convém conceituar pessoas intersexo. Intersexualidade / Pessoas intersexo: é um termo guarda-chuva que descreve pessoas que nascem com anatomia reprodutiva ou sexual e/ou um padrão de cromossomos que não podem ser classificados como sendo tipicamente masculinos ou femininos Glaad, 2016. Ainda é comum a prescrição de terapia hormonal e a realização de cirurgia, destinadas a adequar aparência e funcionalidade da genitália, muitas vezes antes dos 24 meses de idade. 68 Contudo, algumas pessoas intersexo submetidas a este processo relatam que não se adaptaram e rejeitaram o sexo designado ao nascimento, respaldando uma conduta terapêutica que defende o adiamento da intervenção até que a/o jovem sujeito possa participar na tomada da decisão Santos; Araujo, 2004. Não se deve utilizar o termo hermafrodita para se referir a uma pessoa intersexo, é um termo desatualizado e depreciativo. Há várias formas de intersexualidade em razão das configurações dos cromossomos, a localização dos órgãos genitais e a coexistência de tecidos testiculares e de ovários. A intersexualidade refere-se a um conjunto amplo de variações dos corpos tidos como masculinos e femininos. São catalogadas na Medicina mais de 40 (quarenta) variações de intersexualidade. São designadas como pessoas intersexo. A IDENTIDADE DE GÊNERO, como dito, independe do sexo biológico. Identidade de gênero é uma experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos e outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta e modo de falar (expressões de gênero) Princípios, 2006. Refere-se às maneiras como o gênero é demonstrado socialmente, no uso de vestimentas, modo de falar e de estilo, de agir e de interagir. 69 É por essa razão que sexo é biológico, diferentemente de gênero, que é uma construção social, pois este decorre de papéis construídos a partir de interações humanas no âmbito da sociedade, que podem sofrer interferência histórica e cultural. A partir disso, tem-se: Cisgênero: termo utilizado para descrever pessoas que não são transgênero (mulheres trans, travestis e homens trans). “Cis-ˮ é um prefixo em latim que significa “no mesmo lado queˮ e, portanto, é oposto de “trans-ˮ Glaad, 2016. Refere-se ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o gênero atribuídoao nascer. Transgênero: terminologia utilizada para descrever pessoas que transitam entre os gêneros. São pessoas cuja identidade de gênero transcende as definições convencionais de sexualidade ABGLT, 2010. Segundo Letíci Lanz 2015, não faz sentido escrever “travestis, transexuais e transgêneros ,ˮ ou usar TTT na sigla LGBTI, uma vez que travestis e transexuais são transgênero por definição. É um termo "guarda-chuva", que pode ser desdobrado em: 70 ● MULHER TRANSEXUAL MULHER TRANS é a pessoa que apesar de ter sido designada com o sexo masculino no nascimento, identifica-se como pertencente ao gênero feminino. ● HOMEM TRANSEXUAL HOMEM TRANS é a pessoa que apesar de ter sido designada com o sexo feminino no nascimento, identifica-se como pertencente ao gênero masculino. ● TRAVESTI é uma identidade de gênero autônoma de uma pessoa que, apesar de ter sido designada como o sexo masculino no nascimento, identifica-se como travesti e deve ser tratada como pertencente ao gênero feminino. Identidade autônoma. Em 1º de março de 2018, em julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade ADI nº 4275, o Supremo Tribunal Federal determinou que a retificação do registro civil (alteração de nome) no tocante às pessoas trans e travestis deve se dar de modo desburocratizado – ou seja, sem demanda judicial, nos próprios cartórios, por meio de autodeclaração –, sem limite de idade (respeitando a maioridade civil e a representação dos responsáveis no caso das pessoas menores de idade), sendo desnecessária tanto a apresentação de laudos psicológicos e psiquiátricos quanto a cirurgia de readequação sexual. 71 Refere-se à forma como nos sentimos em relação à afetividade e à sexualidade, além de referir-se à capacidade que cada pessoa tem em sentir uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero, de mais de um gênero ou de nenhum gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas1. Sob este critério, tem-se: HETEROSSEXUALIDADE: Capacidade de sentir atração afetiva, emocional, e/ou sexual por pessoas do gênero oposto. As pessoas que se identificam com a heterossexualidade são chamadas de heterossexuais. HOMOSSEXUALIDADE: Capacidade de sentir atração afetiva, emocional e/ou sexual por pessoas do mesmo gênero. As pessoas que se identificam com a homossexualidade são chamadas de homossexuais. A homossexualidade pode ser: 1 Adaptada da definição contida nos Princípios de Yogyakarta: Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Yogyakarta, Indonésia, 2006, p. 7. 72 73 3.1.2 Política do Nome Social É assegurado à pessoa transexual, travesti e intersexos em situação de prisão o acesso à política nacional do nome social, através do Decreto Federal no 8.727/2016, garantindo-lhe o direito de ser chamada ou chamado por seu nome próprio autoidentificado, mesmo que em desacordo com o que está no seu registro civil. Imagem 1 – Novo documento de identidade brasileiro, contendo campo com nome social. O reconhecimento do nome social é uma conquista importante, especialmente para travestis e transexuais, que enfrentam o constrangimento de serem identificadas por nomes que remetem a um gênero com o qual não se identificam. Assim, quando uma pessoa se reconhece e se apresenta como pertencente a um gênero distinto de seu sexo biológico, manifestando publicamente o desejo de ser tratada dessa forma, esse direito deve ser respeitado e garantido. 74 Destaca-se que a mudança de nome e gênero nos documentos oficiais pode ser realizada sem a necessidade de ação judicial, simplificando o processo e fortalecendo a dignidade dessas pessoas. No entanto, para menores de 18 anos, a via judicial ainda é exigida, sendo imprescindível que os pais ou representantes legais ingressem com a ação solicitando a alteração da certidão de nascimento. A Corregedoria Nacional de Justiça restringe a alteração somente ao prenome e agnome – como Filho, Sobrinho ou Júnior. Não podem ser alterados os nomes de família (sobrenome). Na unidade prisional, a pessoa “Tˮ possui o direito à inclusão de seu nome social em todos os documentos oficiais, sendo assegurada a gratuidade na emissão de retificação de documentos civis, providência que pode ser adotada pelo serviço social de cada estabelecimento penal (art. 11, VII, “c ,ˮ da Resolução do CNJ nº. 348/2020. Observa-se que, diante de uma prisão, caso não conste da Guia de Recolhimento à Prisão o nome social da pessoa trans ou travesti, a informação deverá ser imediatamente providenciada e inclusa no sistema oficial do sistema prisional dos Estados e Distrito Federal. Assista, na sequência, um vídeo complementar sobre o assunto: Nome Social: Cidadania e Respeito (legendado) Acesso em 6 mai. 2025.) https://youtu.be/f4aphXF4Sn8 75 https://youtu.be/f4aphXF4Sn8 3.1.3 Crime de LGBT+fobia Em junho de 2019, em um julgamento histórico, o Supremo Tribunal Federal STF decidiu, por oito votos a três, a favor da criminalização da LGBTfobia. Na Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão ADO, relatada pelo ministro Celso de Mello, a Corte reconheceu a prática de condutas discriminatórias contra pessoas LGBTQIA como equiparação ao crime de racismo, determinando sua aplicação até que o Congresso Nacional elabore uma legislação específica sobre o tema. Portanto, a partir da decisão, quem ofender ou discriminar pessoas pertencentes ao público LGBTQIA está sujeito a punição de um a três anos de prisão, prevista na Lei no 7.716/89, crime inafiançável e imprescritível, demonstrando que condutas LGBTfóbicas são intoleráveis, como declarou o Ministro Celso de Mello em seu voto: "Direitos relativos à orientação sexual e à identidade de gênero são reconhecidos, hoje, nacional e internacionalmente, como essenciais para a dignidade e humanidade da pessoa humana, integrando o núcleo dos direitos à igualdade e à não-discriminação. Os referidos Princípios de Yogyakarta voltam-se a tutelar o indivíduo diante da violência, do assédio, da discriminação, da exclusão, da estigmatização e do preconceito dirigidos contra pessoas em todas as partes do mundo por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Esses grupos, por serem minoritários e, não raro, vítimas de preconceito e violência, demandam especial proteção do Estado. 76 Nesse sentido, a criminalização de condutas discriminatórias não é só um passo importante, mas também obrigatório, eis que a Constituição contém claro mandado de criminalização neste sentido: conforme o art. 5º, XLI, “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentaisˮ (grifo nosso). O relatório da Associação Nacional de Transexuais do Brasil, divulgado em janeiro de 2023, revelou um dado alarmante: em 2022, foram registrados 131 homicídios de pessoas transexuais no país. Pelo 14º ano consecutivo, o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, entre 80 países monitorados. Em números absolutos, Pernambuco foi o estado com o maior número de homicídios de pessoas trans em 2022, totalizando 13 casos. Em seguida, aparecem São Paulo e Ceará, com 11 mortes cada. Minas Gerais ocupa a quarta posição, com 9 assassinatos, e o Rio de Janeiro figura logo abaixo, com 8 casos. Dos 131 homicídios registrados, 130 foram de mulheres trans e apenas um de homem trans. A vítima mais jovem tinha apenas 15 anos de idade. Esse contexto reflete a dura realidade enfrentada pela população trans no Brasil, cuja expectativa de vida média é de apenas 32 anos. 77A violência contra a população LGBTQIAPN está estritamente relacionada à discriminação contra essa população, o que foi cunhado com o termo “LGBTfobia ,ˮ definido como “todo e qualquer tipo de conduta decorrente de uma aversão à identidade de gênero e/ou orientação sexual de alguém que possa gerar dano moral ou patrimonial, lesão ou qualquer tipo de sofrimento físico, psicológico e/ ou sexual ou morte .ˮ É qualquer crime cometido contra uma pessoa ou contra propriedade motivado por hostilidade ou preconceito com base em deficiência, raça, religião, identidade de gênero ou orientação sexual Crown Prosecution Service, 2012. No contexto LGBTI, a expressão é usada para descrever crimes motivados por sentimentos LGBTIfóbicos. É um termo utilizado para se referir à postura do Estado, por meio da legislação, da omissão ou de atos de seus servidores públicos ao promoverem discriminação ou incitarem o ódio, a hostilidade e reprovação das pessoas LGBTI em ambientes públicos. Alguns Estados brasileiros se destacam em suas jurisprudências condenando pessoas que cometem LGBTFOBIA, explicitando diferentes níveis de proteção. São eles: Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo Politize, 2024. 78 3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA nº 2, de 26 março de 2024, que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas LGBTQIA em privação de liberdade no Brasil Considerando que o artigo 2º da Resolução nº 348 do Conselho Nacional de Justiça CNJ visa assegurar o direito à vida, à integridade física e mental da população LGBTQIA, além de proteger sua integridade sexual, liberdade de expressão de identidade de gênero e orientação afetiva, emocional e/ou sexual, a norma também reforça o reconhecimento do direito à autodeterminação de gênero e sexualidade. Essa proteção se estende à garantia de acesso à educação, trabalho e demais direitos previstos em instrumentos legais e internacionais, especialmente no contexto de pessoas privadas de liberdade, submetidas a alternativas penais ou monitoramento eletrônico. Dessa forma, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP, em parceria com o Conselho Nacional LGBTQIA CNLGBTQIA, publicou em 26 de março de 2024 a Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA 2/2024, que estabelece diretrizes nacionais para o acolhimento e tratamento da população LGBTQIA no sistema penitenciário, promovendo maior equidade e proteção a essa população em um ambiente historicamente vulnerável. 79 A Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA 2/2024 assegura às pessoas autodeclaradas mulheres e homens transexuais, travestis e pessoas não binárias o direito de optar por uma unidade prisional masculina ou feminina para cumprir a sentença, bem como a possibilidade de ser alocadas em alas ou celas específicas para a população LGBTQIA dentro da prisão escolhida. Entre os temas abordados pela Resolução, destacam-se: ● os conceitos fundamentais, ● a custódia, ● alocação, ● autodeclaração, ● as situações de fraude; ● as normas para busca ou revista pessoal, além de revistas em visitantes; e ● o direito à saúde, educação, assistência social e trabalho para essa população. A implementação dessa Resolução é de extrema importância, pois seu conteúdo é o mais abrangente já estabelecido no país, e deve ser rigorosamente seguido por toda a administração prisional, visando garantir os direitos e a segurança da população LGBTQIA no sistema carcerário. 80 3.2 Mulheres Conforme dados do 17º Ciclo do Relatório Nacional de Informações Penais SISDEPEN, referente ao segundo semestre de 2024 e publicado no primeiro semestre de 2025, o Brasil contabiliza um total de 29.137 (vinte e nove mil, cento e trinta e sete) mulheres privadas de liberdade. Ressalta-se que esse número segue em tendência de crescimento, apresentando variações significativas entre as unidades da Federação, incluindo os Estados e o Distrito Federal. Diante deste contexto, é importante citar que: Entre as vulnerabilidades a que você precisa estar atento, com relação às mulheres no sistema prisional, estão a dificuldade de acesso a cuidados de higiene adequados, a uma atenção ginecológica e obstétrica eficiente e humana, a prevenção e diagnóstico precoce de câncer de colo uterino e mama, a doenças sexualmente transmissíveis, bem como a doenças e agravos mais comuns nessa população em geral, com ênfase aos agravos psicossociais. Outra importante vulnerabilidade é a violência a que as mulheres podem estar expostas – tanto a institucional quanto entre elas próprias –, além do risco de ocorrer violência sexual UFSC, 2015, p. 11. 81 Acerca do encarceramento de mulheres no Brasil, o Ministério da Justiça e Segurança Pública destaca: Imagem 2 – Dados gerais sobre mulheres em privação de liberdade no Brasil. Fonte: Sisdepen, 2023. 3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas Segundo o Conselho Nacional de Justiça 2023, desde a regulamentação da audiência de custódia no Brasil, em 2015, foram realizadas mais de 1.200.000 audiências. Esse mecanismo, ao proporcionar uma avaliação judicial mais imediata da prisão, tem sido especialmente relevante para a população feminina, que apresenta um perfil de alta vulnerabilidade. 82 A audiência de custódia pode se configurar como um espaço fundamental para reverter o ciclo de reincidência, conhecido como o efeito da "porta giratória", ao possibilitar a construção de alternativas que interrompam o retorno das mulheres ao sistema prisional. Essa prática oferece, portanto, uma oportunidade de repensar o tratamento dado às mulheres no sistema penal e buscar soluções que priorizem a reintegração social e a garantia de seus direitos. A pesquisa "Dados Gerais de Prisões em Flagrante Durante a Pandemia Covid-19" do Conselho Nacional de Justiça CNJ destaca uma questão relevante: apesar de o Código de Processo Penal brasileiro garantir que mulheres grávidas ou mães de crianças menores de 12 anos estão protegidas contra o encarceramento, essa informação estava ausente em quase metade dos autos de prisão em flagrante analisados. Outro ponto discutido foi a utilização da monitoração eletrônica como alternativa ao encarceramento. De acordo com um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, que entrevistou mulheres em 10 Estados do Brasil, 85% das participantes relataram enfrentar dificuldades relacionadas ao preconceito, estigma social, barreiras para o acesso ao mercado de trabalho, sofrimento mental, além de problemas físicos, como alergias e ferimentos causados pelo uso das tornozeleiras eletrônicas. Esses desafios evidenciam a complexidade da implementação de alternativas penais, que, embora menos onerosas em relação ao encarceramento, podem apresentar impactos significativos na vida das mulheres. 83 É importante salientar os destaques de alguns pontos da Portaria Interministerial nº 210, de 16 de janeiro de 2014, que institui a Política Nacional de Atenção às Mulheres em Situação de Privação de Liberdade e Egressas do Sistema Prisional. Vejamos: Diretrizes: I – Prevenção de todos os tipos de violência contra mulheres em situação de privação de liberdade, em cumprimento aos instrumentos nacionais e internacionais ratificados pelo Estado Brasileiro relativos ao tema; IV Humanização das condições do cumprimento da pena, garantindo o direito à saúde, educação, alimentação, trabalho, segurança, proteção à maternidade e à infância, lazer, esportes, assistência jurídica, atendimento psicossocial e demaisdireitos humanos; V Fomento à adoção de normas e procedimentos adequados às especificidades das mulheres no que tange a gênero, idade, etnia, cor ou raça, sexualidade, orientação sexual, nacionalidade, escolaridade, maternidade, religiosidade, deficiências física e mental e outros aspectos relevantes; VII Incentivo à formação e capacitação de profissionais vinculados à justiça criminal e ao sistema prisional, por meio da inclusão da temática de gênero e encarceramento feminino na matriz curricular e cursos periódicos; 84 VIII Incentivo à construção e adaptação de unidades prisionais para o público feminino, exclusivas, regionalizadas e que observem o disposto na Resolução no 9, de 18 de novembro de 2011, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Objetivos destacados: I Fomentar a elaboração das políticas estaduais de atenção às mulheres privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, com base nesta Portaria; II Induzir para o aperfeiçoamento e humanização do sistema prisional feminino, especialmente no que concerne à arquitetura prisional e execução de atividades e rotinas carcerárias, com atenção às diversidades e capacitação periódica de servidores. Além da portaria mencionada, as Diretrizes para a Convivência Mãe-Filho/a no Sistema Prisional Brasileiro também desempenham um papel fundamental na promoção dos direitos das mulheres e crianças no contexto carcerário. De acordo com o documento, enquanto a prisão domiciliar não for concedida, "é obrigação da administração penitenciária promover a convivência e a manutenção dos vínculos entre mulheres e seus filhos/as". Essas diretrizes foram elaboradas em um evento realizado em Brasília nos dias 1 e 2 de março de 2016, com o objetivo de apresentar orientações específicas para o tratamento das mulheres gestantes e mães no sistema prisional. A iniciativa visa garantir a proteção e o bem-estar das mulheres, reconhecendo a importância dos vínculos familiares para o desenvolvimento das crianças e a dignidade das mães encarceradas. 85 As orientações discorrem sobre: ● O momento da prisão e ingresso na unidade prisional; ● O abrigamento de crianças no sistema prisional e convivência mãe-filho/a; ● A manutenção de vínculos e contato com o mundo exterior; ● A promoção da cidadania das mulheres privadas de liberdade e de seus/suas filhos/as – educação, saúde, trabalho e assistência social; ● Saúde: acompanhamento pré-natal, do parto e nascimento, do aleitamento materno e da atenção para a saúde da criança; ● Espaços de convivência mãe-filho/a e as regras diferenciadas de segurança para gestantes, parturientes e mães com filhos/as, bem como a prevenção da destituição do poder familiar. De acordo com a Resolução nº 04/2009 do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP, mulheres que ingressarem no sistema prisional como lactantes, gestantes que derem à luz durante o período de prisão, ou mães de crianças que necessitem de cuidados específicos, como no caso de deficiência, devem ter assegurado o direito de convivência com seus filhos/as até que a criança atinja um ano e meio de idade. 86 Esse período de convivência é considerado essencial para o desenvolvimento físico e psíquico das crianças, além de ser crucial para a formação do vínculo afetivo entre mãe e filho/a. O documento destaca que, quando possível, essa convivência deve ser garantida de maneira a promover a saúde e o bem-estar tanto da criança quanto da mãe, respeitando os direitos de ambas no contexto do encarceramento e: ● O prazo de um ano e meio de idade da criança deverá ser entendido como mínimo; ● A permanência da criança deverá ser fixada a partir de análise do caso individual, com a participação das equipes interdisciplinares, tendo em vista o melhor interesse da criança; ● O tempo de permanência independe do aleitamento materno e deve estar ancorado na promoção do desenvolvimento físico e psíquico das crianças, bem como na identificação e preparação de alternativas adequadas para a guarda da criança extramuro. O documento oficial deixa claro que não devem ser estabelecidos parâmetros rígidos para a duração da permanência de uma criança em um estabelecimento penal. A decisão sobre o tempo de convivência deve ser tomada com base no acompanhamento das equipes interdisciplinares, considerando a autonomia da mãe para iniciar o processo de separação. Em nenhum momento, conforme o documento, é aceitável a interrupção forçada do período de amamentação como forma de acelerar o afastamento entre mãe e filho/a. Isso reforça a importância de se buscar a solução mais adequada para a guarda da criança, com a disponibilidade de familiares para assumir os cuidados, a fim de proteger o desenvolvimento psíquico e afetivo da criança. 87 A separação da criança da mãe deve ser preparada e implementada de forma gradativa, com acompanhamento das equipes multidisciplinares do estabelecimento prisional em articulação com o Centro de Referência de Assistência Social CRAS. Assim, deve-se iniciar um período de transição que contemple a presença do novo responsável pela guarda junto da criança na unidade prisional durante maior tempo possível, somado à visita da criança ao novo lar. Neste ínterim, o período de tempo semanal equivalente de permanência no novo lar e junto à mãe, na prisão; e visitas da criança por período prolongado à mãe. A Secretaria Nacional de Políticas Penais e Penitenciárias SENAPPEN (antigo Departamento Penitenciário Nacional) publicou a Nota Técnica nº 17/2020/DIAMGE/CGCAP/DIRPP/DEPEN/M J, com orientações sobre os procedimentos que devem ser adotados no caso de mulheres com crianças ingressarem em unidades prisionais brasileiras, devido à sua especial vulnerabilidade. No caso de mulheres presas, a gestão prisional é responsável por observar a faixa etária, identidade de gênero, peso e se a pessoa possui algum tipo de deficiência física ou mental. Deve o estabelecimento penal: 88 Perguntar à mulher presa se ela possui filhos menores de idade, sendo resposta positiva, perguntar a localização dos filhos; Informar imediatamente sobre a condição de prisão da mãe e da necessidade de atenção aos menores de idade (descrevendo com clareza as informações ditas pela mãe sobre a criança), através de ofício, de e-mail e de telefone, à Vara da Infância e Juventude, Conselho Tutelar da localidade de residência informada pela mulher presa, Defensoria Pública do Estado e à Vara de Execuções Criminais ou Vara de Execuções Penais; Caso a mulher presa seja idosa e não possua documentação, considerar a priori a idade informada informalmente até confirmação oficial; Perguntar se a mulher presa (idosa ou não) possui alguma doença no pulmão, no coração, no rim e no fígado, tuberculose, distúrbio metabólico (incluindo diabetes mellitus), transtorno mental que possa afetar a função respiratória, necessidade de medicamentos para aumentar a imunidade, como câncer, HIV/AIDS e outros; 89 Perguntar se a mulher presa está grávida (ou suspeita que esteja) ou teve filho nas últimas 2 semanas; Caso haja suspeita de gravidez, antes de incluir a presa com as demais, providenciar teste; Se houver relato ou suspeita de mulher com doença crônica, parturiente ou de gestação, organizar de imediato a consulta médica para que seja examinada a saúde da pessoa presa; Passado tempo de triagem, alocar a pessoa idosa, gestante, obesa ou parturiente em espaço de vivência específico; e Registrar as informações por meio de formulários ou sistemas informatizados destinados a essa finalidade. 90Por fim, para nos subsidiar neste sentido, ainda temos a Resolução nº. 252 de 04/09/2018, que prevê a proibição do uso de algemas ou de outros meios de contenção em mulheres em trabalho de parto ou pós-parto, observando-se a Lei 13.434/2017, que também assegura a permanência da escolta, mesmo que feminina, do lado de fora da sala durante o trabalho de parto e a realização de exames e garante que o transporte da criança deverá ocorrer em companhia da mãe, pai ou pessoa por ela indicada, sem uso de algemas. 3.3 Pessoas Indígenas Em resposta à realidade de pessoas indígenas privadas de liberdade, o Conselho Nacional de Justiça CNJ aprovou, em junho de 2019, uma Resolução importante que estabelece procedimentos específicos para o tratamento de indígenas envolvidos no sistema de justiça penal. Essa resolução se baseia no Estatuto do Índio, na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho OIT sobre Povos Indígenas e Tribais, e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre outras normativas internacionais aplicáveis. 91 O principal objetivo da Resolução é garantir os direitos dos povos indígenas no sistema penal brasileiro. Entre as medidas previstas, destacam-se a disponibilização de intérpretes para aqueles que não falam português e a realização de perícias antropológicas para auxiliar na compreensão dos fatos. Além disso, a responsabilização de indígenas deve respeitar os mecanismos de justiça próprios das comunidades, promovendo um tratamento que considere suas especificidades culturais e jurídicas. A responsabilização de indígenas no sistema penal deve respeitar os mecanismos próprios de resolução de conflitos, permitindo a adoção ou homologação de práticas que estejam em conformidade com os costumes e normas dessas comunidades, conforme estipulado pelo Estatuto do Índio Lei 6.001/73. Para as mulheres indígenas, o tratamento penal deverá considerar a possibilidade de prisão domiciliar, preferencialmente cumprida na comunidade, e garantir o acompanhamento adequado das beneficiadas pela progressão de regime. Nesse contexto, a Secretaria Nacional de Políticas Penais publicou a Nota Técnica nº 53, que fornece orientações sobre a custódia de pessoas indígenas privadas de liberdade. O documento contém recomendações para os órgãos estaduais de administração penitenciária, com o objetivo de assegurar o tratamento adequado, alinhado aos preceitos nacionais e internacionais que envolvem essa temática. Entre os destaques da Nota, estão as medidas de acolhimento e respeito às especificidades culturais e jurídicas das populações indígenas no sistema penitenciário. 92 Destaca-se: DA PORTA DE ENTRADA 1º - Perguntar o nome completo da pessoa indígena; 2º - Caso a pessoa não fale/domine a língua portuguesa, demonstre incompreensão quanto aos procedimentos a que está sendo submetida ou quanto às regras de comportamento do estabelecimento prisional, deverá ser providenciada a presença de intérprete (preferencialmente membro da comunidade a que pertence a pessoa presa); 3º - Perguntar o nome do povo/etnia ao qual/a qual pertence, a língua que fala e onde vive (aldeia/terra indígena/comunidade); 4º - Perguntar se a pessoa possui alguma documentação; 5º - Informar imediatamente à FUNAI local, ou regional mais próxima, os dados da pessoa indígena presa para conhecimento e providências; 6º - Alocar a pessoa indígena em segurança. DO CADASTRO O cadastro das pessoas indígenas deve ser realizado segundo o princípio de identificação de pertencimento mediante autodeclaração étnica, conforme definido no artigo 1° da Convenção 169, promulgada pelo Decreto 5.051/04. 93 Vale destacar! Ainda é importante considerar que o fato de uma pessoa não se identificar como indígena no sistema prisional pode não ser uma escolha pessoal, mas sim uma estratégia de autopreservação. Isso ocorre devido ao medo da discriminação e da violência que as pessoas indígenas enfrentam dentro do cárcere, com relatos delas sendo alvo de agressões e até mesmo homicídios. Atenção! Em muitos casos, a pessoa indígena opta por não se autodeclarar para evitar que informações como o boletim de ocorrência, a autodeclaração anterior ou a comprovação de moradia em terras indígenas sejam usadas contra ela, resultando em violência por parte de outros internos. Nesse contexto, antes de questionarem sobre a identidade étnica de uma pessoa, os policiais penais devem informar claramente sobre a possibilidade de autodeclaração e as garantias legais associadas a essa escolha. Além disso, é fundamental que, ao realizar o cadastro de um indivíduo no sistema penal, seja feita a pergunta específica: "Você se considera indígena?", uma vez que muitos indígenas podem ter dificuldades em entender os critérios de classificação racial tradicionais, como os utilizados pelo IBGE. 94 Esse procedimento visa assegurar que a identidade indígena seja tratada com o devido respeito, evitando riscos de exclusão ou violência dentro do sistema prisional. Em caso positivo, deve-se, em seguida, perguntar: “Qual o seu povo/etnia? .ˮ Acrescenta-se: DA DOCUMENTAÇÃO A obtenção da documentação civil básica e a regularização da situação documental da pessoa indígena deve seguir o fluxo regular de todo cidadão. DA LINGUAGEM A língua indígena é parte integrante da identidade de um povo, sendo um direito dos povos indígenas manterem e se expressarem em sua língua. A proibição consiste em violação ao direito reconhecido pela Constituição Federal de 1988 em seu artigo 231 São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Para as pessoas indígenas privadas de liberdade que não possuem pleno domínio da língua portuguesa, é responsabilidade da administração penitenciária fornecer um serviço de intérprete, incluindo no momento do cadastro no estabelecimento prisional. Esse procedimento deve ser adotado sempre que a pessoa indígena demonstrar dificuldade em compreender os procedimentos aos quais está sendo submetida, bem como as regras de conduta do local. 95 Idealmente, o intérprete será um indígena da mesma etnia e que também possua fluência na língua portuguesa. Caso não haja um indígena disponível com esse perfil no estabelecimento penal, a administração deverá contatar a Coordenação Regional da Funai para buscar um servidor ou indígena qualificado para atuar como intérprete. Além disso, a administração penitenciária pode recorrer à Secretaria Especial de Saúde Indígena, universidades, organizações indígenas e outros órgãos indigenistas estaduais e municipais para indicar intérpretes ou tradutores especializados. Esse procedimento visa garantir o direito de comunicação e compreensão das pessoas indígenas privadas de liberdade, respeitando suas especificidades culturais e linguísticas. Vê-se: DO ACESSO À SAÚDE Alguns dos segmentos indígenas são especialmente vulneráveis a doenças contagiosas e epidemias. A assistência à saúde para os/as indígenas deverá ser realizada pela Secretaria Especial de Saúde Indígena Sesai, órgão do Ministério da Saúde responsável pela coordenação e execução da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, assim como do processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena SasiSUS no Sistema Único de Saúde SUS. 96 A Lei nº 9.836/1999, de 23 de setembro de 1999, que acrescenta dispositivos à Lei n 8.080, de 19 de setembro de 1990, e que "dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamentodos serviços correspondentes e dá outras providências", instituindo o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, expressa: Art. 19F. Dever-se-á obrigatoriamente levar em consideração a realidade local e as especificidades da cultura dos povos indígenas e o modelo a ser adotado para a atenção à saúde indígena, que se deve pautar por uma abordagem diferenciada e global, contemplando os aspectos de assistência à saúde, saneamento básico, nutrição, habitação, meio ambiente, demarcação de terras, educação sanitária e integração institucional. BRASIL, 1990 A mesma lei faz saber, através do art. 19G, que: § 3º As populações indígenas devem ter acesso garantido ao SUS, em âmbito local, regional e de centros especializados, de acordo com suas necessidades, compreendendo a atenção primária, secundária e terciária à saúde. BRASIL, 1990 Portanto, o estabelecimento penal deverá encaminhar os/as indígenas para os postos de atendimento da Sesai mais próximos da unidade prisional ou firmar acordo para atendimentos na própria unidade prisional em que estão alocados. O contato com o serviço específico de saúde pode ser realizado com auxílio da FUNAI. 97 De outro norte, o Conselho Nacional de Justiça, através do Manual de Procedimentos Relativos a Pessoas Indígenas Acusadas, Rés, Condenadas ou Privadas de Liberdade Brasil, 2019, prevê que a administração prisional deve monitorar a situação de saúde da pessoa indígena presa no momento do seu ingresso no estabelecimento penal e identificar o mais rápido possível sinais de deterioração na saúde física ou mental. O referido manual reitera como dever da autoridade judicial acompanhar a execução da pena com atenção: a. a indícios de risco à integridade pessoal e à vida das pessoas indígenas presas, principalmente a risco de suicídio; b. ao impacto da manutenção da privação de liberdade em estabelecimento penal na deterioração das condições de saúde da pessoa indígena presa. DA RELIGIOSIDADE DAS PESSOAS INDÍGENAS A administração penitenciária deverá permitir e garantir a expressão religiosa dentro dos estabelecimentos penais segundo as matrizes indígenas, seja ela dada pelo xamã, pajé, rezador, ou qualquer denominação dada pelo povo indígena a que pertence. O Conselho Nacional de Justiça, através do Manual de Procedimentos Relativos a Pessoas Indígenas Acusadas, Rés, Condenadas ou Privadas de Liberdade BRASIL, 2019, ressalta que "deve ser autorizado acesso a todos os elementos materiais relacionados às práticas religiosas, como adereços, objetos de culto, materiais de pintura, alimentos de caráter religioso, entre outros". 98 DO CORTE DE CABELO DA PESSOA INDÍGENA No caso dos povos indígenas, a obrigação de cortar os cabelos viola as normativas internacionais que lhes garantem o direito de viverem conforme os seus costumes e destrói a sua personalidade. Dessa forma, a administração penitenciária deverá garantir ao indígena preso o uso de seu cabelo, o qual é parte inerente de sua identidade e sua cultura. Atenção! A temática dos direitos das pessoas indígenas privadas de liberdade é de extrema importância, pois envolve não apenas a garantia de direitos fundamentais, mas também o respeito à diversidade cultural e linguística de um dos grupos mais vulneráveis do país. O tratamento adequado das pessoas indígenas no sistema prisional, incluindo a oferta de intérpretes, o respeito à sua identidade étnica e a adoção de procedimentos específicos, é essencial para garantir que essas pessoas não sejam duplamente marginalizadas: pela exclusão do sistema de justiça e pela discriminação no interior do sistema prisional. 99 Essa abordagem, apoiada por normativas como a Resolução nº 09/2019 do Conselho Nacional de Justiça CNJ e a atuação da Funai, reforça a importância de um tratamento humanitário, que leve em consideração as especificidades culturais e linguísticas de cada grupo indígena, contribuindo para a efetivação de seus direitos e para a redução de injustiças dentro do sistema penal. 3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência reconhece a dignidade, o valor inerente e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana como o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. Reafirma, ainda, a universalidade, a indivisibilidade, a interdependência e a inter-relação de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, bem como a necessidade de garantir que todas as pessoas com deficiência de natureza física, mental, intelectual ou sensorial tenham como garantidos, de forma integral, os seus direitos, sem discriminação. 100 Ademais, a convenção ressalta o propósito de promover, proteger e assegurar o exercício pleno e igualitário dos direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência, além do respeito pela sua dignidade. O Relatório Nacional de Informações Penais 17º Ciclo SISDEPEN – 2º semestre de 2024, divulgado no primeiro semestre de 2025, aponta que a população carcerária brasileira composta por pessoas com deficiência totaliza 9.090 (nove mil e noventa) indivíduos, dos quais 8.572 (oito mil, quinhentos e setenta e dois) são homens e 518 (quinhentas e dezoito) são mulheres. Dentre esses, 2.532 (duas mil, quinhentas e trinta e duas) apresentam algum tipo de deficiência intelectual; 3.895 (três mil, oitocentas e noventa e cinco) possuem deficiência física; 634 (seiscentas e trinta e quatro), deficiência auditiva; 1.361 (mil, trezentas e sessenta e uma), deficiência visual; e 674 (seiscentas e setenta e quatro) apresentam deficiências múltiplas. Esse número evidencia a necessidade urgente de atenção especializada no sistema prisional, com foco na prevenção, tratamento e cuidados médicos adequados, além de garantir a proteção contra qualquer tipo de violência. A SENAPPEN em consonância com normativas nacionais e internacionais, orienta as administrações estaduais para garantir o atendimento adequado a essas pessoas, com base na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência Lei nº 13.146/2015, que serve como principal referência para assegurar os direitos das pessoas com deficiência no sistema penal. 101 Com isso, merecem destaque as seguintes regras aplicadas às pessoas com deficiência privadas de liberdade: As administrações prisionais devem fazer todos os ajustes possíveis para garantir que as pessoas privadas de liberdade com deficiência física, intelectual ou outra incapacidade tenham acesso às assistências legalmente constituídas, em base de igualdade. A determinação de confinamento solitário será proibida no caso de pessoas privadas de liberdade com deficiência intelectual ou física quando essas condições puderem ser agravadas por tal medida. Os profissionais de saúde devem ter a autoridade para rever e recomendar alterações na separação involuntária de uma pessoa privada de liberdade, com vistas a assegurar que tal separação não agrave as condições médicas ou a deficiência física ou intelectual do indivíduo. Pessoas privadas de liberdade com deficiências sensoriais devem receber as informações (legislação, regulamentos, direitos e obrigações) de maneira apropriada às suas necessidades. 102 Por sua vez, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP, pela Resolução nº 2, de 1º de junho de 2012, que dispõe sobre o transporte de pessoas presas, instrui que “devem ser destinados cuidados especiais à pessoa presa ou internada idosa, gestante, com deficiência, acometida de doença ou que necessite de tratamento médico,ˮ destacando no parágrafo único que “deve ser garantido o transporte sanitário por meio de veículo adaptado para pessoas com deficiência e gestantes em tempo real, com o objetivo de transportá-las aos postos de atenção da Rede de Atenção à Saúde .ˮ Ainda, a Resolução nº 02/2012 reforça o entendimento no sentido de que haja “cela destinada a Pessoa com Deficiência PCD, bem como sanitários e demais requisitos de acessibilidade .ˮ Conceitos do Estatuto: Aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial, a qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. 103 Aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança de colo e obeso. Possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida. Abrange as línguas faladas e de sinais, bem como outras formas de comunicação não falada. Significa qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, civil ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação, inclusive a recusa de adaptação razoável. 104 Adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais. Significa a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico. O “desenho universal” não excluirá as ajudas técnicas para grupos específicos de pessoas com deficiência, quando necessárias. Com relação aos procedimentos dispensados às pessoas com deficiência privadas de liberdade, vale lembrar que a determinação não vem da Lei de Execução Penal LEP, e sim da Regra 5, item 2, princípios básicos, das Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos Regras de Nelson Mandela): “As administrações prisionais devem fazer todos os ajustes possíveis para garantir que os presos portadores de deficiência física, intelectual ou incapacidade tenham acesso completo e efetivo à vida prisional em base de igualdade.ˮ 105 Considerando a arquitetura de cada unidade prisional e observadas as regras de segurança, é necessário assegurar às pessoas portadoras de deficiência a alocação em celas com acessibilidade ou adaptação razoável. Nos termos da Nota Técnica da SENAPPEN 2023, é essencial que a alocação da pessoa com deficiência tenha as seguintes características, demonstradas na Figura 3 Figura 3 Condições de alocação para pessoas com deficiência no sistema prisional brasileiro SENAPPEN. 106 A temática da população carcerária com deficiência é de extrema importância, pois reflete uma questão de direitos humanos e justiça social. A falta de acessibilidade e a negligência das necessidades específicas dessas pessoas no sistema prisional podem agravar a marginalização e exclusão social a que já estão submetidas. A Lei Brasileira de Inclusão Lei nº 13.146/2015 e normativas internacionais, como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, fornecem a base legal necessária para garantir que os direitos dessas pessoas sejam respeitados, incluindo o direito à saúde, educação, segurança e uma custódia compatível com suas condições. O descumprimento desses direitos pode resultar em agravos à saúde e, em muitos casos, em violações graves da dignidade humana, o que compromete o princípio da humanidade e o processo de ressocialização no sistema prisional. 107 3.5 Pessoas Idosas Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE, o Brasil possuía, em 2022, uma população estimada em 203.062.512 (duzentos e três milhões, sessenta e dois mil e quinhentos e doze) pessoas (https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/). A parcela das pessoas idosas (sessenta anos ou mais), corresponde aproximadamente a 30.662.4392 (trinta milhões, seiscentos e sessenta e dois mil e quatrocentos e trinta e nove), 15,1% da população. O Estatuto da Pessoa Idosa é um dos alicerces de todo o conjunto de estratégias e ações empreendidas em atenção à pessoa idosa presa, isso porque ele é “destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.ˮ 2 https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102004_informativo.pdf Acesso em 07 mai. 2025. 108 https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/ https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102004_informativo.pdf Embora o Estatuto do Idoso Lei nº 10.741/2003 não mencione explicitamente as pessoas idosas no contexto prisional, a Nota Técnica da SENAPPEN estabelece procedimentos claros para a gestão da saúde e das condições de custódia de pessoas presas com 60 anos ou mais. Entre as orientações, destaca-se a importância de um atendimento médico especializado na chegada do(a) idoso(a) ao sistema prisional, enfatizando questionamentos sobre doenças crônicas e eventual necessidade de medicamentos específicos. Além disso, é fundamental garantir ambientes adequados para esses indivíduos, com boa ventilação, iluminação e fácil acesso ao setor de saúde, além de adaptar procedimentos de segurança que levem em consideração as limitações físicas e de saúde dos idosos. A temática do tratamento das pessoas idosas no sistema prisional é de extrema importância, pois envolve não apenas o reconhecimento da dignidade humana, mas também a efetivação de políticas públicas que garantam os direitos dessa população vulnerável. Observando a arquitetura de cada unidade prisional e asseguradas as regras de segurança da unidade, é necessário garantir às pessoas idosas um espaço específico, considerando as condições físicas e de saúde comuns às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. É essencial que a alocação da pessoa idosa tenha: 109 Figura 4 Condições de alocação para pessoas idosas no sistema prisional brasileiro SENAPPEN No que tange aos procedimentos operacionais de segurança, a SENAPPEN destaca a eficiência do uso de aparelhos de scanner corporal em substituição às revistas íntimas, evitando-se eventuais constrangimentos às pessoas presas e aos servidores. Recomenda, no que tange às pessoas idosas, que: seja organizado procedimento alternativo ao “sentado – enfileirado - encaixado um ao outro - com as mãos na cabeça ;ˮ evite-se o uso de espargidores de pimenta e afins em locais onde pessoas idosas estejam presentes; 110 sejam consideradas as possíveis condições de surdez, doenças neurológicas e demais dificuldades das pessoas idosas presas em atender rapidamente aos comandosde voz. Sobre o transporte de pessoas presas, a Resolução nº 2, de 1º de junho de 2012, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP, dispõe que devem ser destinados cuidados especiais à pessoa presa idosa. Além disso, é crucial que as políticas públicas voltadas para a população idosa no sistema prisional sejam constantemente aprimoradas e acompanhadas, uma vez que a idade avançada acarreta uma série de desafios relacionados à saúde e à mobilidade. A falta de infraestrutura específica e o desconhecimento das necessidades dos(as) presos(as) idosos(as) podem agravar ainda mais a sua situação de vulnerabilidade. Vale destacar! Por isso, é fundamental que a sociedade e os gestores públicos invistam em treinamento e capacitação das equipes prisionais, além de promover a conscientização sobre os direitos e necessidades dessa parcela da população. A discussão sobre a justiça social que envolve a igualdade de tratamento e o respeito aos direitos humanos, deve sempre incluir a questão do encarceramento de pessoas idosas, garantindo que, independentemente da situação, todos tenham suas necessidades atendidas de forma digna e adequada. 111 3.6 Pessoas Estrangeiras 3.6.1 Regularização Documental Segundo o último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias 2023, os dados sobre pessoas estrangeiras privadas de liberdade no Brasil contam com o total de 2.316 pessoas, sendo 2.048 homens e 268 mulheres. Deste total, em sua maioria, estão os pertencentes aos países da América Latina. A regularização migratória é uma das previsões dos Princípios Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas as Pessoas Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do Tráfico de Pessoas 2019 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. De acordo com o documento, os Estados devem incentivar a regularização migratória, evitando as consequências da situação migratória irregular. A Lei nº 13.445/2017, da mesma forma, tem como um de seus princípios basilares a promoção de entrada regular e de regularização documental. 112 É a partir do acesso à regularização e à documentação como o Registro Nacional Migratório, o Cadastro da Pessoa Física CPF, e a Carteira de Trabalho e Emprego CTPS, por exemplo, que a pessoa migrante poderá exercer direitos como o acesso a políticas públicas de moradia, saúde, assistência social, entre outras. A documentação civil também viabiliza a inclusão social, educacional e laboral da pessoa migrante em privação de liberdade e egressa dos sistemas prisional e socioeducativo. Atenção! Nesse sentido, conforme assegurado pela Constituição Federal do Brasil, os serviços públicos de caráter universal, como o Sistema Único de Saúde e o Sistema Único de Assistência Social devem prover atendimento a todas as pessoas, independentemente de eventual situação de irregularidade documental no país; ou seja, a ausência de documentação, segundo os preceitos constitucionais, não pode representar justificativa para a negativa de acesso aos direitos fundamentais. Vale lembrar! Reforça-se que a regularização migratória é imprescindível para que a pessoa migrante alcance acesso integral aos direitos em todas as instâncias no sistema prisional, assim como viabiliza maior segurança do Poder Judiciário para a aplicação de medidas não privativas ou restritivas de liberdade. 113 3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular O direito à assistência consular, considerado pelo Supremo Tribunal Federal STF como cláusula que integra o devido processo legal, inclusive no âmbito do tratamento jurídico-penal, é de plena relevância. O posicionamento do STF segue o entendimento da Corte Interamericana de Direitos Humanos, expresso na Opinião Consultiva nº 16/1999, quanto ao direito à informação e à assistência consular no marco das garantias do devido processo legal. O direito à assistência consular de pessoas em privação de liberdade já encontrava correspondência nas Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos Regras de Mandela). Na mesma linha, o art. 36 da Convenção de Viena sobre Relações Consulares, datada de 1967, dispõe acerca do dever do Estado em comunicar às repartições consulares a detenção da pessoa nacional e prevê o direito dos/as funcionários/as consulares de visitar e comunicar-se com a pessoa privada de liberdade. O princípio da garantia à assistência consular na Resolução CNJ nº 405/2021 aplica-se tanto às representações consulares presentes no Brasil, como aos casos em que não houver representação, em que os/as magistrados/as são orientados/as a reportar à representação diplomática e, em sua ausência, ao Ministério de Relações Exteriores MRE. 114 Importante ressaltar que esse princípio se desdobra em orientações gerais para atuação do Poder Judiciário nesse âmbito, como por meio da manutenção de cadastros de autoridades consulares, embaixadas e missões diplomáticas e da verificação prática da não aplicabilidade desse direito em casos concretos, a partir da escuta da pessoa migrante. Denota-se que o princípio da garantia à assistência consular deve observar a vontade da pessoa custodiada. Após ser informada desse direito, a pessoa poderá escolher entre contatar ou não a representação de seu país de origem, especialmente tendo em vista casos de pessoas solicitantes de refúgio ou refugiadas, que podem ter sofrido ou ainda sofrer perseguição em seu país. 3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar A garantia do direito à reunião familiar é prevista na Lei nº 13.445/2017, assim como a igualdade de tratamento e de oportunidade à pessoa migrante e a seus familiares. Pela lei, é assegurado às pessoas migrantes nos sistemas penal e socioeducativo o direito à reunião familiar com cônjuge ou companheiro/a e seus filhos/as, familiares e dependentes. 115 Os Princípios Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas as Pessoas Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do Tráfico de Pessoas preveem a proteção da família, da unidade e da reunificação familiar. Para tal, dispõem que a família migrante tem direito à proteção por parte da sociedade e do Estado, atentando para a inexistência de um modelo único de família, garantida a não discriminação Princípio 32. Especificamente no Princípio 33, consagra-se que os Estados devem garantir a reunificação familiar e prevenir a separação das famílias. O dispositivo prevê expressamente o dever de garantia do melhor interesse de crianças e adolescentes, que devem estar livres de qualquer privação de liberdade, que a separação familiar não pode ser utilizada para coagir nenhum dos/as membros/as familiares, e que, na determinação da custódia dos/as filhos/as de migrantes, a situação migratória não poderá ser mobilizada como motivo para rescindir a custódia ou os direitos parentais. 3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação Dispõe sobre direitos e obrigações da pessoa migrante, incluídos os que decorram da sua condição de custodiada, acusada, ré, condenada, privada de liberdade, em cumprimento de alternativas penais, monitoração eletrônica e medidas socioeducativas privativas ou restritivas de liberdade. 116 Conforme a Lei nº 13.445/2017, é garantido à pessoa migrante o direito de acesso à informação, sendo previsto expressamente o direito de a pessoa ser informada sobre as garantias que lhe são asseguradas para fins de regularização migratória. É necessário que o direito à informação seja assegurado desde o momento da prisão ou apreensão da pessoa migrante, afigurando-se como imprescindível a compreensão mínima acerca do funcionamento64 3.1 População LGBTQIA 66 3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual 68 3.1.2 Política do Nome Social 74 3.1.3 Crime de LGBT+fobia 76 3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA nº 2, de 26 março de 2024, que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas LGBTQIA em privação de liberdade no Brasil 79 3.2 Mulheres 81 3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas 82 3.3 Pessoas Indígenas 91 3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial 100 3.5 Pessoas Idosas 108 3.6 Pessoas Estrangeiras 112 3.6.1 Regularização Documental 112 3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular 114 3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar 115 3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação 116 3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de Referência, Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério de Relações Exteriores (MRE) 120 Considerações Finais 125 Referências 128 6 Módulo 1 - Conceito, classificações e história dos direitos humanos Seja bem-vindo(a) ao módulo 1 do nosso curso de Direitos Humanos e Sistema Prisional! Neste módulo, vamos explorar os conceitos fundamentais que formam a base dos Direitos Humanos e a importância de seu constante estudo, um campo essencial para promover o respeito, a dignidade e a igualdade em diversas esferas da sociedade. Nossa jornada começa com a compreensão do que são os Direitos Humanos e como eles estão presentes nas relações pessoais, profissionais e sociais ao nosso redor. Vamos começar? Para compreender plenamente a importância dos Direitos Humanos, precisamos conhecer suas classificações e categorias. Ao longo deste módulo, discutiremos as divisões entre direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, compreendendo como essas categorias se aplicam e como os direitos são distribuídos e protegidos em diferentes contextos. Esses conceitos serão fundamentais para entender as múltiplas dimensões dos Direitos Humanos e como eles contribuem para uma sociedade mais justa e equitativa. 7 A história dos Direitos Humanos é outro ponto central deste módulo. Vamos revisar momentos históricos e documentos fundamentais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que representou um marco significativo para a promoção dos direitos e liberdades fundamentais em todo o mundo. Conhecer esse percurso histórico permitirá uma visão mais crítica e contextualizada sobre como os Direitos Humanos evoluíram, quais foram suas principais conquistas e desafios, e como continuam a moldar nossa sociedade. Ao concluir este módulo, você terá uma compreensão sólida e atualizada sobre o conceito, as classificações e a história dos Direitos Humanos, elementos essenciais para aplicar esses conhecimentos na sua prática profissional. Esperamos que este aprendizado contribua para o desenvolvimento de uma consciência crítica e comprometida com a dignidade e o respeito aos direitos fundamentais de todos os indivíduos. 1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo Os Direitos Humanos são normas fundamentais que reconhecem e protegem a dignidade inerente a todos os seres humanos. Esses direitos regulam tanto a forma como os indivíduos vivem em sociedade e interagem uns com os outros quanto às relações entre o indivíduo e o Estado. 8 Segundo a Organização das Nações Unidas ONU, os Direitos Humanos garantem que cada pessoa seja tratada com respeito e igualdade, estabelecendo obrigações que o Estado deve cumprir para assegurar essas garantias em sua plenitude. Eles formam a base para um ambiente em que as liberdades fundamentais, a segurança e o bem-estar de cada ser humano são priorizados e protegidos. Além disso, os Direitos Humanos podem ser compreendidos como um conjunto de direitos e garantias que têm como objetivo essencial o respeito à dignidade humana, proporcionando condições mínimas e fundamentais de vida que permitam o desenvolvimento pleno da personalidade e da autonomia de cada indivíduo Piovesan, 2013. Essa visão complementar enfatiza que os Direitos Humanos buscam assegurar não apenas a sobrevivência, mas também a possibilidade de uma vida digna e plena para cada pessoa, criando um alicerce de justiça social e igualdade nas mais variadas esferas da vida em sociedade. A atualização contínua é essencial para professores de Direitos Humanos, dada a complexidade e evolução constante desse campo, influenciada por mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Novos desafios globais, como as questões ambientais, o avanço tecnológico e as crises humanitárias, impactam diretamente a compreensão e aplicação dos direitos fundamentais. Dessa forma, os educadores precisam acompanhar essas transformações para oferecer uma visão atualizada e contextualizada aos seus alunos, fortalecendo o papel da educação em Direitos Humanos na formação de cidadãos críticos e conscientes. Como Flávia Piovesan 2013 ressalta, os direitos humanos são "inevitavelmente dinâmicos e expansivos", e essa natureza implica que a formação dos professores também seja contínua e renovada. 9 Além disso, o ensino de Direitos Humanos exige uma abordagem que vá além da teoria jurídica, integrando práticas e experiências que sejam adaptadas às realidades locais e globais. Professores que buscam se atualizar podem inspirar mudanças e ampliar o impacto positivo no contexto educacional e social, promovendo uma cultura de paz, respeito e justiça. Atualizar-se permite que os educadores lidem de forma mais eficaz com questões emergentes, como a inclusão e a diversidade, e fortaleçam os valores fundamentais da dignidade humana. Isso reforça a responsabilidade dos professores de serem modelos de aprendizado e adaptabilidade para seus alunos, e contribui para uma educação em Direitos Humanos mais engajada e efetiva. Cursista, assista, logo abaixo, a um vídeo complementar sobre o que acabamos de ler. https://www.youtube.com/watch?v=hGKAaVoDlSs 1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? A Organização das Nações Unidas ONU foi criada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de evitar futuros conflitos e promover a paz e segurança internacionais. Reunindo, atualmente, 193 países, a ONU é um dos principais organismos globais voltados à resolução de crises, promoção da cooperação e 10 https://www.youtube.com/watch?v=hGKAaVoDlSs desenvolvimento sustentável, e defesa dos direitos humanos em todo o mundo. Além do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral, a ONU conta com agências especializadas como a Organização Mundial da Saúde OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESCO, que colaboram em iniciativas que vão da saúde e educação ao combate à pobreza e assistência humanitária. A promoção dos direitos humanos é uma das missões centrais da ONU, destacando-se como um dos pilares fundamentais ao lado da paz, segurança e desenvolvimento. Esse compromisso é guiado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que estabelece normas para o respeito à dignidade e liberdade individual, influenciando tratados internacionais e o trabalho de diversas entidades e conselhos da ONU. Por meio de seus programas, a ONU busca criar uma base global de direitos que assegure justiça, equidade e respeito mútuo entre as nações e seus cidadãos. A relação entre a ONU e os direitos humanos se manifesta principalmente por meio da criação e adoção de tratados e convenções internacionais que estabelecem normas, padrões e obrigações aos seus Estados-membros para promover e proteger os direitos humanos. Entre os documentos mais significativos, destaca-se a Declaração Universale dos procedimentos adotados pelas instituições da justiça criminal e juvenil, respectivamente, desde o início. Ainda, reforça-se que o direito de informação deverá refletir as informações relativas ao processo criminal e de execução penal, ao processo de apuração de cometimento de ato infracional e de execução de medidas socioeducativas, quanto os procedimentos administrativos a que a pessoa migrante for submetida, de modo a igualmente considerar que essas informações sejam prestadas por intermédio de intérprete e/ou entregues de forma devidamente traduzida, sempre que a pessoa não tiver domínio ou fluência na língua portuguesa. O direito à informação prestada na língua materna estende-se às pessoas migrantes adolescentes, principalmente quando desacompanhadas ou separadas no Brasil. 117 Ainda, deve-se atentar à gestão prisional sobre: A sistematização de contatos para fins de assistência consular; O mapeamento e estabelecimento de rede socioassistencial; A implementação de mecanismos telefônicos e virtuais que viabilizem o contato da pessoa migrante presa ou apreendida por ato infracional com seu núcleo familiar e/ou círculo afetivo A identificação expressa da localização do passaporte ou documento pessoal nos autos judiciais; e A promoção de cursos e capacitações nas temáticas atreladas à migração e justiça criminal e juvenil. Cadastramento de intérpretes para atuação nos atos judiciais e tradução de decisões judiciais, inclusive de forma virtual. 118 É importante que o cadastro de intérpretes e tradutores/as seja elaborado de acordo com as necessidades locais dos tribunais, o que deve implicar um mapeamento inicial das demandas mais presentes. Nesse caminho, é louvável que o primeiro mapeamento leve em consideração uma série histórica de pelo menos cinco anos anteriores, no que tange às principais nacionalidades e idiomas das pessoas migrantes que já foram processadas na localidade, não se excluindo a possibilidade de colaboração entre tribunais e instâncias para um melhor acesso a esses/as profissionais, especialmente no que concerne a idiomas e/ou nacionalidades pouco frequentes. Ainda que a pessoa migrante seja fluente em português ou em outra segunda língua como inglês ou espanhol, o art. 4º da Resolução CNJ nº 405/2021 traz a previsão de que a pessoa tenha acesso a intérprete ou tradutor na língua de sua efetiva compreensão. Referida disposição baseia-se em diversos regramentos internacionais de direitos humanos, como os Princípios Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas as Pessoas Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do Tráfico de Pessoas Princípio 50, a Convenção Interamericana de Direitos Humanos (art. 8º, 2, a) e as Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos Regra 41. 119 3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de Referência, Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério de Relações Exteriores MRE A sistematização de contatos consulares de referência, embaixadas, representações diplomáticas ou do Ministério das Relações Exteriores, prevista no art. 7º da Resolução, é recomendada com o objetivo de garantir o direito à assistência consular da pessoa migrante nos sistemas penal e socioeducativo de forma célere e eficaz. É importante ressaltar que a presença e os locais de atuação das representações de outros países no Brasil podem variar, ou seja, há representações de países que auxiliam seus cidadãos e cidadãs privadas ou em restrição de liberdade por meio de consulados que se localizam próximos às unidades prisionais e socioeducativas, enquanto outros contam apenas com as embaixadas ou missões pontuais. 120 A sistematização desses contatos poderá ser realizada acessando-se as informações disponibilizadas pelo MRE, de modo que se sugere que sejam compiladas informações fundamentais, como endereço físico e eletrônico e o telefone, entre outros dados essenciais. Caso não haja informações disponíveis, sugere-se oficiar o MRE com o intuito de solucionar eventuais dúvidas acerca da representação diplomática de determinado país. Vale lembrar! Cumpre salientar que o MRE também é o órgão responsável pelo envio de informações sobre atos administrativos ou processuais diante da ausência no Brasil de representação diplomática do país de origem de uma pessoa migrante (art. 1º do Decreto nº 9.683/2019. Observa-se que a sistematização desses contatos poderá viabilizar, quando solicitado, a presença e o acompanhamento dos/as representantes consulares e diplomáticos/as durante os atos judiciais, em especial nas audiências de custódia, desde que com a concordância da pessoa migrante, e que poderão igualmente apoiar os/as magistrados/as nos encaminhamentos necessários após a conclusão do ato judicial. Por fim, destaca-se que há exceção na aplicação do princípio da garantia à assistência consular quando a pessoa migrante for também solicitante de refúgio ou refugiada reconhecida pelo Brasil. Nesse contexto, as autoridades consulares ou diplomáticas serão acionadas somente mediante a manifestação expressa da pessoa custodiada. 121 A sistematização de contatos consulares de referência, embaixadas, representações diplomáticas ou do Ministério das Relações Exteriores, prevista no art. 7º da Resolução, é recomendada com o objetivo de garantir o direito à assistência consular da pessoa migrante nos sistemas penal e socioeducativo de forma célere e eficaz. Também é importante lembrarmos que a presença e os locais de atuação das representações de outros países no Brasil podem variar, ou seja, há representações de países que auxiliam seus cidadãos e cidadãs privados ou em restrição de liberdade por meio de consulados que se localizam próximos às unidades prisionais e socioeducativas, enquanto outros contam apenas com as embaixadas ou missões pontuais. A sistematização desses contatos poderá ser realizada acessando-se as informações disponibilizadas pelo MRE, de modo que se sugere que sejam compiladas informações fundamentais, como endereço físico e eletrônico e o telefone, entre outros dados essenciais. Caso não haja informações disponíveis, sugere-se oficiar o MRE com o intuito de solucionar eventuais dúvidas acerca da representação diplomática de determinado país. Cumpre salientar que o MRE também é o órgão responsável pelo envio de informações sobre atos administrativos ou processuais diante da ausência no Brasil de representação diplomática do país de origem de uma pessoa migrante (art. 1º do Decreto nº 9.683/2019. 122 Observa-se que a sistematização desses contatos poderá viabilizar, quando solicitado, a presença e o acompanhamento dos/as representantes consulares e diplomáticos/as durante os atos judiciais, em especial nas audiências de custódia, desde que com a concordância da pessoa migrante, e que poderão igualmente apoiar os/as magistrados/as nos encaminhamentos necessários após a conclusão do ato judicial. Por fim, destaca-se que há exceção na aplicação do princípio da garantia à assistência consular quando a pessoa migrante for também solicitante de refúgio ou refugiada reconhecida pelo Brasil. Nesse contexto, as autoridades consulares ou diplomáticas serão acionadas somente mediante a manifestação expressa da pessoa custodiada. A consolidação de um protocolo local de atuação nessas situações pode viabilizar a saída dessas pessoas da privação de liberdade, em especial após a audiência de custódia ou de apresentação, e o encaminhamento à rede de proteção social, incluindo os centros de acolhida ou abrigos públicos e/ou de iniciativas de organizações religiosas ou da sociedade civil,cujo público-alvo seja populações em situação de vulnerabilidade, englobada a população migrante. 123 Incentiva-se, ainda, a criação de comitês, grupos de trabalho interinstitucionais ou espaços similares que promovam trocas de experiências entre as instituições e os equipamentos envolvidos, com o intuito de construir fluxos e um protocolo de atendimento integrado, levando-se em consideração os contextos locais. O mapeamento e a articulação dessa rede poderão ser realizados a partir da atuação das equipes multidisciplinares presentes nos tribunais em conjugação de esforços com os serviços penais. Orientações Gerais da Coordenadoria de Promoção Social do Departamento de Polícia Penal: ● Implementação da Resolução CNJ nº 405/2021, ora disponíveis e estruturados com o apoio do Programa Fazendo Justiça – Serviço de Atendimento à Pessoa Custodiada Apec)4 , Central Integrada de Alternativas Penais; ● Tratativas com a Central de Monitoração Eletrônica e os Escritórios Sociais–, serviços públicos municipais, estaduais e federais que atuem na localidade, em especial aqueles que se dediquem ao atendimento da pessoa migrante; ● Mapeamento e trabalho de articulação com organizações da sociedade civil, inclusive instâncias já consolidadas que lidem com temáticas afetas à Resolução CNJ nº 405/2021, tais como os Comitês Estaduais para Migrantes e Refugiados, Comitês Estaduais de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, Comitês Estaduais de Enfrentamento ao Trabalho Escravo, centros de defesa dos direitos da criança e do adolescente, centros de acolhida especiais para migrantes, entre outros; 124 ● Recomenda-se que os contatos sejam iniciados diretamente com as redes municipais, estaduais e federais em atuação na localidade, considerando que, de modo geral, elas possuem um funcionamento por região e áreas de atuação predefinidas. Por fim, observa-se que a realização do mapeamento enquanto prática continuada contribuirá para a solidificação dessas redes de forma mais perene, tornando-se estruturas de apoio permanentes. Considerações Finais Ao concluir este terceiro módulo, é fundamental refletir sobre a relevância dos temas abordados ao longo da análise das populações mais vulnerabilizadas no sistema de justiça penal brasileiro. As complexas intersecções entre gênero, deficiência e etnia no contexto da prisão não apenas revelam as desigualdades sistêmicas no tratamento aos diferentes grupos, mas também destacam a necessidade urgente de reformas. 125 Garantir que indivíduos vulnerabilizados, como pessoas LGBTQIA, mulheres, indígenas, estrangeiros e aquelas com deficiência, sejam tratadas com dignidade e respeito dentro do sistema prisional é uma questão central dos direitos humanos. Esses grupos enfrentam desafios únicos, incluindo discriminação, atendimento médico inadequado e negligência quanto às suas necessidades específicas, o que exige mudanças tanto legislativas quanto estruturais no sistema prisional. Neste módulo, analisamos como diversas políticas públicas e resoluções têm sido implementadas no Brasil para enfrentar essas desigualdades. Exemplos como as ações da Secretaria Nacional de Políticas Penais, recomendações do Conselho Nacional de Justiça e as diretrizes do Sistema Nacional de Proteção de Pessoas Vulneráveis mostram passos demasiadamente importantes para garantir que os direitos das pessoas privadas de liberdade sejam respeitados. No entanto, apesar desses esforços significativos, ainda existe uma lacuna crucial na implementação e na adesão consistente dessas diretrizes nas prisões de todo o país. É imprescindível que o sistema prisional incorpore essas orientações de forma eficaz, proporcionando melhores cuidados e proteção às populações vulneráveis, evitando a continuidade de situações de violência e discriminação. O papel dos Estados é essencial para garantir que as pessoas presas recebam assistência adequada em áreas como saúde, educação e serviços sociais, especialmente aqueles que enfrentam camadas múltiplas de vulnerabilidade. Por exemplo, pessoas idosas, que frequentemente enfrentam desafios significativos de saúde, requerem cuidados especializados. 126 Da mesma forma, pessoas indígenas, que podem enfrentar barreiras linguísticas, necessitam de acesso a intérpretes e apoio cultural apropriado. É necessário que esses sistemas não apenas existam, mas que sejam continuamente aprimorados para refletir as necessidades em constante dessas pessoas, levando em conta suas histórias pessoais, contextos culturais e condições de saúde. Isso exige um compromisso a longo prazo dos formuladores de políticas públicas para garantir que as mudanças sejam sustentáveis e efetivas. Em resumo, a reflexão sobre as condições das populações vulnerabilizadas no sistema prisional é crucial para uma verdadeira transformação da justiça penal no Brasil. Para alcançar um sistema penal mais justo, é essencial que se invista na capacitação dos profissionais da área, no aprimoramento das políticas públicas e na observância de tratados internacionais que busquem garantir o respeito aos direitos humanos. A atuação dos Estados e do Distrito Federal, em todos os níveis, é determinante para que as reformas necessárias realmente impactem positivamente as condições de vida e o tratamento das pessoas privadas de liberdade, criando um ambiente que de fato caminhe em busca de um processo de ressocialização, inclusão e respeito aos direitos fundamentais. 127 Referências Aliança Nacional LGBTI e Rede GayLatino. Manual de Advocacy, Litigância Estratégica, Controle Social e Accountability LGBTI. Enciclopédia LGBTI, nº 11. Curitiba: Grupo Dignidade, 2021. Disponível em: https://cedoc.grupodignidade.org.br. Acesso em: 8 dez. 2024. BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas com Deficiência. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso em: 7 dez. 2024. BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Estrangeiras. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso em: 7 dez. 2024. BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Idosas. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso em: 7 dez. 2024. BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Indígenas. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso em: 7 dez. 2024. BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas LGBTQIA. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso em: 7 dez. 2024. 128 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADO 26 - Voto do Ministro Marco Aurélio Mello. Disponível em: https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADO26votoMCM.pdf. Acesso em: 5 dez. 2024. Acesso em: 4 dez. 2024. DANILIAUSKAS, Marcelo. De “temas polêmicosˮ a “sujeitos de direitos :ˮ LGBT nas políticas públicas de Direitos Humanos e de Educação 19962010. Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 2010. Disponível em: RQUIVO_DETEMASPOLEMICOSASUJEITOSDEDIREITOSLGBTNASPOLITICASPUBLI CASDEDIREITOSHUMANOSEDEEDUCACAO_BRASIL,19962010_-final.pdf>. Acesso em: 2 dez. 2024. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA. Senado discute situação de mulheres encarceradas no contexto de drogas no Brasil. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/senad-discute-situacao-de-mulhere s-encarceradas-no-contexto-de-drogas-no-brasil. Acesso em: 5 dez. 2024. MOREIRA, Adilson José. O que é discriminação?. Belo Horizonte: Letramento, 2017. Disponível em: . Acesso em: 2 dez. 2024. PEREIRA, Cleyton. Notas sobre a trajetória das políticas públicas de direitos humanos LGBT no Brasil. Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos, Bauru, vol. 4, n. 1, p. 115137, 2016. POLITIZE. Os direitos LGBT no Brasil. Disponível em: https://www.politize.com.br/equidade/os-direitos-lgbt-no-brasil/. Acesso em: 5 dez. 2024. RIOS, Roger Raupp. Direito da antidiscriminação, sexo, sexualidade e gênero: a compreensão da proibição constitucional de discriminação por motivo de sexo. In: SARMENTO, Daniel; IKAWA, Daniela; PIOVESAN, Flávia (coords.). Igualdade, Diferença e Direitos Humanos. São Paulo: Editora Saraiva, 2008. p. 705717. SILVA JUNIOR, Jonas Alves da. Uma explosão de cores: sexo, sexualidade, gênero e diversidade. In: VIEIRA, Tereza Rodrigues (org.). Minorias Sexuais – Direitos e Preconceitos. Brasília: Consulex, 2012. p. 1214. 129 Módulo 1 - Conceito, classificações e história dos direitos humanos 1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo 1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? 1.3 Classificações de Direitos Humanos 1.4 Características dos Direitos Humanos 1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos Considerações Finais Referências Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do Sistema Prisional Brasileiro 2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica 2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: Das Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas 2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? 2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal Considerações Finais Referências Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema prisional brasileiro 3.1 População LGBTQIA+ 3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual 3.1.2 Política do Nome Social 3.1.3 Crime de LGBT+fobia 3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA+ nº 2, de 26 março de 2024, que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas LGBTQIA+ em privação de liberdade no Brasil 3.2 Mulheres 3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas 3.3 Pessoas Indígenas 3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial 3.5 Pessoas Idosas 3.6 Pessoas Estrangeiras 3.6.1 Regularização Documental 3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular 3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar 3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação 3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de Referência, Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério de Relações Exteriores (MRE) Considerações Finais Referênciasdos Direitos Humanos, adotada em 1948, composta por trinta artigos que sintetizam os direitos e as liberdades essenciais para todos os indivíduos, sem distinção. Essa Declaração serve como referência central e inspira legislações e políticas públicas em todo o mundo, reafirmando o compromisso global com a dignidade e o respeito pela vida humana. 11 A ONU realiza um papel fundamental no monitoramento e fiscalização do cumprimento dos tratados internacionais de direitos humanos assinados por seus Estados-membros. Para garantir que esses compromissos sejam mantidos, a ONU estruturou uma série de órgãos e mecanismos especializados, como o Conselho de Direitos Humanos, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos e diversos comitês, que analisam relatórios e denúncias sobre possíveis violações. Esses órgãos são responsáveis por acompanhar a implementação dos tratados, fornecer recomendações e, em alguns casos, ouvir queixas individuais ou coletivas sobre abusos, promovendo maior transparência e responsabilidade. Os Estados-membros, nesse ínterim, são regularmente convocados a enviar relatórios detalhados sobre suas ações e políticas em prol dos direitos humanos, os quais são avaliados e discutidos em sessões específicas. Esse processo permite que a ONU sugira melhorias e oriente mudanças, assegurando que os países não apenas cumpram suas obrigações internacionais, mas também promovam avanços constantes na defesa dos direitos fundamentais. A fiscalização contínua e os sistemas de denúncias promovem um ambiente de cooperação internacional, onde os países são encorajados a evoluir suas práticas em consonância com os padrões globais de direitos humanos. De outro norte, a ONU realiza conferências, fóruns, campanhas e programas de capacitação que incentivam a conscientização e promovem ações concretas em prol dos direitos humanos. Esses eventos reúnem governos, sociedade civil e especialistas para debater importantes desafios, compartilhar boas práticas e elaborar políticas e estratégias para enfrentar violações e fortalecer o respeito aos direitos humanos em todo o mundo. 12 1.3 Classificações de Direitos Humanos A classificação é uma ferramenta didática fundamental, pois permite organizar e compreender melhor um tema a partir de categorias e grupos, proporcionando uma visão mais abrangente e estruturada do assunto. No estudo dos Direitos Humanos, a classificação é essencial para compreender de forma objetiva e direta como esses direitos foram aplicados e interpretados ao longo do tempo. Ao organizar os Direitos Humanos em categorias específicas, conseguimos visualizar melhor sua evolução histórica e entender como diferentes aspectos desses direitos se adaptaram a contextos e necessidades distintas. A classificação dos Direitos Humanos reflete, portanto, uma análise histórica e conceitual, permitindo observar o desenvolvimento e a consolidação de tais direitos ao longo dos séculos. Esse estudo é especialmente relevante para compreender três conceitos principais: os direitos dos homens, os direitos fundamentais e os direitos humanos, que, embora inter-relacionados, apresentam distinções importantes. Vejamos cada um deles: Os "Direitos dos Homens" remetem à ideia de direitos naturais, que são entendidos como direitos inerentes à condição humana e universal, independente de leis ou de reconhecimento formal Bobbio, 2004. Eles independem de normas específicas, de culturas 13 ou de costumes para serem reconhecidos, são entendidos como universais e inalienáveis. Um exemplo clássico é o direito à vida, que se acredita ser intrínseco a todo ser humano, independentemente de qualquer legislação ou contexto cultural. John Locke 1994, um dos principais pensadores jusnaturalistas da história, argumenta que os direitos naturais, incluindo o direito à vida, liberdade e propriedade, são inalienáveis e fazem parte da natureza humana, sendo independentes de qualquer ordenamento jurídico formal. Locke sustenta que esses direitos são inerentes a todo ser humano e que o papel do Estado é protegê-los, não criá-los, pois já são direitos naturais. Canotilho 2003 e Moraes 2010 definem os direitos fundamentais como direitos humanos reconhecidos e incorporados à ordem jurídica interna, assumindo um papel estruturante nas constituições modernas. Ele afirma que, ao serem formalizados, esses direitos se tornam essenciais para garantir a dignidade e a proteção dos indivíduos. Assim, os direitos fundamentais correspondem aos direitos humanos que foram formalizados e integrados à ordem jurídica interna de cada país. São aqueles que, ao serem reconhecidos em constituições e outras leis nacionais, assumem um papel essencial na estrutura jurídica e social de uma nação. 14 São os direitos fundamentais que foram incorporados a normas e tratados internacionais, também chamados de ordem jurídica externa. Piovesan 2013 descreve os direitos humanos como normas de proteção à dignidade humana que são integradas à ordem jurídica internacional por meio de tratados e convenções, como o Pacto de São José da Costa Rica. Os direitos humanos são promovidos e defendidos por meio de convenções e pactos globais, reforçando um compromisso internacional de respeito e proteção dos direitos básicos de cada indivíduo. Um exemplo é o direito à vida, que está positivado no Pacto de São José da Costa Rica Convenção Americana de Direitos Humanos, 1969, abrangendo os países signatários dessa convenção. 1.4 Características dos Direitos Humanos As características dos Direitos Humanos são atributos essenciais que ajudam a entender sua natureza e abrangência. Esses direitos, fundamentais para a dignidade humana e a construção de uma sociedade justa, possuem características específicas que refletem sua universalidade, perenidade e aplicabilidade. 15 Historicidade Os Direitos Humanos são resultado das demandas e conquistas sociais de cada época, refletindo as transformações históricas e culturais da sociedade Bobbio, 2004. Canotilho 2003, por sua vez, ao explorar a noção de historicidade dos Direitos Humanos, destaca que eles são históricos e complementares, evoluindo com o tempo em resposta às mudanças culturais e políticas. Para o autor, essa capacidade de adaptação é essencial para a sobrevivência e relevância contínua dos Direitos Humanos. Universalidade Essa característica assegura que os Direitos Humanos se apliquem a todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, cor, religião, orientação sexual, ou ideologia política, entre outras diferenças Piovesan, 2013. A universalidade significa que esses direitos pertencem a todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação, e têm abrangência territorial mundial, valendo em todos os lugares e protegendo a dignidade humana em nível global. Inexauribilidade Os Direitos Humanos são inesgotáveis, pois continuamente surgem novas necessidades e reivindicações para sua proteção. À medida que a sociedade evolui, novos direitos emergem para acompanhar o progresso humano, como o direito à privacidade digital, à internet, fatores impensáveis no início do século XX. 16 Piovesan 2013 explora justamente essa noção de que os direitos humanos estão em constante processo de ampliação e adaptação, acompanhando o progresso da sociedade e incorporando novas garantias, como o direito à privacidade digital. Para a autora, essa característica reforça sua relevância frente às transformações sociais e culturais. Essencialidade Essa característica reforça que os direitos humanos são indispensáveis, essenciais para uma vida digna e de qualidade. Bonavides 2001 aborda o caráter essencial dos direitos humanosafirmando que eles representam valores fundamentais para a dignidade da pessoa humana, destacando como esses direitos ocupam uma posição normativa superior nas legislações e constituem um núcleo essencial para a proteção do ser humano. Imprescritibilidade A exigibilidade dos direitos humanos não se esgota com o tempo, podendo ser reivindicada a qualquer momento. Em outras palavras, o passar dos anos não extingue o direito ao respeito e à proteção dos direitos humanos. Esses direitos podem ser demandados a qualquer tempo, mesmo, inclusive, em casos de violações históricas. 17 Indisponibilidade/Inalienabilidade Os Direitos Humanos são inalienáveis, o que significa que não podem ser transferidos, vendidos, renunciados ou destruídos. Bonavides 2016 afirma que a inalienabilidade dos direitos humanos significa que esses direitos não podem ser transferidos, renunciados ou retirados, mesmo com o consentimento do próprio titular. Ele explica que essa característica protege a dignidade humana e garante a autodeterminação e liberdade individual. Essa característica é essencial para assegurar que os direitos fundamentais não possam ser negados, mesmo com o consentimento de seu titular. Irrenunciabilidade Essa característica reforça que os direitos humanos não podem ser renunciados ou abdicados, levantando importantes debates sobre temas como o direito à vida e questões como a eutanásia, o suicídio assistido e o aborto. 18 1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos A teoria da classificação dos direitos fundamentais em gerações (também conhecida por alguns doutrinadores como dimensões ou famílias) foi inicialmente proposta por Karel Vasak, que a apresentou em uma conferência no Instituto Internacional de Direitos Humanos em Estrasburgo, em 1979. Inspirado pelo lema da Revolução Francesa — liberdade, igualdade e fraternidade —, Vasak fundamentou sua ideia em um processo histórico de institucionalização dos direitos. Os direitos de primeira geração surgiram no contexto de resistência aos poderes dos monarcas absolutistas, impulsionados pela luta da burguesia por garantias de direitos individuais fundamentais, como o direito à vida, à liberdade e à propriedade. 19 Lenza 2023 discute como os direitos de primeira geração, voltados para a proteção da liberdade individual contra o poder do Estado, emergiram principalmente das lutas burguesas contra o absolutismo. O autor explora a influência dos movimentos sociais e documentos históricos, como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão 1789, na formulação desses direitos fundamentais, que incluíam o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Nessa época, a classe burguesa ganha relevância política graças à sua ascensão econômica, o que contribui para a formação do Estado Moderno, caracterizado pela centralização do poder político. Por sua vez, Bonavides 2016 analisa o surgimento dos direitos fundamentais no contexto do Estado Moderno, enfatizando o papel da burguesia na luta por direitos individuais contra a concentração de poder nos monarcas. Ele ressalta como as conquistas da burguesia impulsionaram a formação dos direitos civis e políticos, consolidando princípios como liberdade e igualdade. Dessa forma, o conteúdo dos direitos fundamentais dessa época concentra-se nos direitos individuais relacionados à liberdade e à igualdade, tendo como base o direito à propriedade privada, que é considerado absoluto e inviolável. Em resumo, os direitos de primeira geração, que têm como marco histórico as revoluções liberais do século XVIII, constituem os direitos de liberdade em sentido amplo e são os primeiros a serem incorporados nos textos constitucionais, abarcando os direitos civis e políticos. Também conhecidos como “direitos de defesa ,ˮ esses direitos visam proteger o indivíduo de intervenções indevidas do Estado (dever de abstenção). Entre eles, destacam-se os direitos à liberdade, à vida, à igualdade perante a lei, à propriedade e à intimidade Ramos, 2019. 20 São exemplos de documentos oficiais da 1ª geração: Brasil: Constituição do Império, de 1824, a primeira e única constituição do Brasil Imperial, bem como a primeira constituição a reger o território brasileiro; Constituição da República, de 1891, que teve como principal característica a instituição do regime republicano presidencialista e a separação entre o Estado e a Igreja. EUA Declaração do Bom Povo da Virgínia, de 1776, que precede a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. Inglaterra: Bill Of Rights, de 1689, a declaração de direitos que foi o primeiro documento oficial que garantiu a participação popular, por meio de representantes parlamentares, na criação e cobrança de tributos, sob pena de ilegalidade, vedando, ainda, a instituição de impostos excessivos e de punições cruéis e incomuns. França: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, documento culminante da Revolução Francesa, que definiu os direitos individuais e coletivos dos homens como universais. 21 Palavras-chave da 1ª geração: liberdade; direitos civis; direitos políticos. A segunda geração de direitos humanos surgiu a partir das lutas sociais que buscavam assegurar as condições essenciais para o desenvolvimento pleno da sociedade. Esses direitos foram impulsionados principalmente pelas reivindicações das classes operárias, formadas com o avanço da industrialização na Europa. Embora a classe operária tivesse garantias formais dos direitos de primeira geração, seus integrantes ainda enfrentavam condições de exploração pelos detentores de capital e viviam em contextos carentes de saneamento básico, educação, atendimento médico e proteção jurídica adequada, sobretudo em face das precárias condições de trabalho, imersos em uma realidade de baixos salários, longas jornadas de trabalho e falta de proteção social e jurídica, especialmente no contexto da industrialização Gomes, 2012. A segunda geração está vinculada ao conceito de igualdade, priorizando o direito de exigir do Estado a efetiva garantia dos direitos sociais, econômicos e culturais, fundamentais para a dignidade da pessoa humana. Esses direitos se expressam na forma de direitos fundamentais, impondo ao Estado um conjunto de obrigações que se concretizam por meio de normas constitucionais, políticas públicas, programas sociais e ações afirmativas. O Estado é, assim, responsável por garantir tais direitos, podendo ser penalizado em caso de descumprimento. 22 Atualmente, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal STF reforça a importância de efetivar os direitos de 2ª geração. Conforme entendimento da Corte, a função do STF na garantia dos direitos econômicos, sociais e culturais de segunda geração é essencial para a manutenção da integridade e eficácia da Constituição Federal. A omissão do Estado no cumprimento dessas obrigações positivas comprometeria a efetividade do estatuto constitucional e a proteção das liberdades concretas dos cidadãos, como afirmou o ministro Celso de Mello, no julgamento RTJ 164/158161 Se assim não for, restarão comprometidas a integridade e a eficácia da própria Constituição, por efeito de violação negativa do estatuto constitucional motivada por inaceitável inércia governamental no adimplemento de prestações positivas impostas ao poder público. São exemplos de documentos oficiais da 2ª geração: Brasil: Constituição, de 1934, redigida para organizar um regime democrático, que assegurasse à nação a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico, conforme prevê seu próprio preâmbulo. México: Constituição Mexicana, de 1917, atual lei supremada federação mexicana. 23 Alemanha: Constituição de Weimar, de 1919. Sua estrutura é dualista, a primeira parte tem como objetivo a organização do Estado, enquanto a segunda apresenta a declaração dos direitos e deveres fundamentais, acrescentando às clássicas liberdades individuais os novos direitos de conteúdo social. Palavras-chave da 2ª geração: igualdade; direitos sociais, econômicos e culturais. Este período é marcante no estudo dos direitos humanos, pois simboliza o fim da Segunda Guerra Mundial 1945 e a necessidade de uma nova forma de agir e pensar, baseada em ideais de fraternidade e solidariedade de forma global e horizontalizada. A proteção de toda a humanidade passa a depender da promoção da solidariedade e do compromisso com o bem comum. A concretização dos chamados direitos difusos torna-se uma responsabilidade compartilhada de toda a sociedade humana, sendo a expressão mais tangível da solidariedade. Esse conceito substitui a fraternidade, que, segundo alguns, possui uma conotação estritamente religiosa. Assim, a solidariedade surge como o “novo nomeˮ da fraternidade Fortes, 2015. 24 Os direitos de terceira geração, conhecidos também como direitos da comunidade, destinam-se ao conjunto de toda a humanidade e incluem os direitos difusos e coletivos, fundamentados na solidariedade. Entre eles, destacam-se o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, o direito ao desenvolvimento, o direito ao patrimônio comum da humanidade e o direito à paz (este último com alguma divergência, conforme será abordado posteriormente). Em síntese conclusiva, nas palavras do Ministro Celso de Mello: Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) – que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade MS 22.164, rel. min. Celso de Mello, j. 30101995, P, DJ de 17111995.). 25 São exemplos de documentos oficiais da 2ª geração: Brasil: Constituição da República, de 1946. Exemplos da importância desta Constituição são: a igualdade de todos perante a lei; a liberdade de manifestação do pensamento, sem censura, a não ser em espetáculos e diversões públicas; a inviolabilidade do sigilo de correspondência; a liberdade de consciência, de crença e de exercício de cultos religiosos; e a atual Constituição Federal de 1988 (também chamada de Constituição Cidadã – tida como uma das mais avançadas do mundo no âmbito das garantias individuais). Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 delineia os direitos humanos básicos, sendo adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra origem nacional ou social, fortuna ou nascimento. 26 Palavras-chave da 3ª geração: solidariedade; direitos difusos e coletivos. Além das três gerações inicialmente propostas por Karel Vasak, muitos doutrinadores expandiram os conceitos com as transformações históricas no campo dos direitos humanos, desenvolvendo as ideias de quarta, quinta e até sexta geração. O jurista brasileiro Paulo Bonavides, renomado nacional e internacionalmente como um dos principais constitucionalistas do país, propõe que os direitos fundamentais de quarta geração são aqueles decorrentes da globalização. Entre eles estão o direito à democracia, à informação e ao pluralismo, além da bioética, segundo o entendimento de alguns teóricos, como Norberto Bobbio. O direito à democracia, em particular, destaca-se por adquirir uma dimensão mais ativa e presente em diversas áreas normativas. A participação direta dos cidadãos, inclusive com poderes de fiscalização, é vista como um direito fundamental, cuja concretização fortalece a atuação ética e eficiente do Estado. Esse direito, ao se consolidar, qualifica o espaço público, superando o modelo de uma democracia meramente formal. 27 Abrange os direitos à democracia, à informação e ao pluralismo, além de novos direitos introduzidos no campo jurídico pela globalização política. Esses direitos também estão ligados aos avanços na engenharia genética, ampliando as fronteiras da proteção jurídica na era global, visando garantir a construção de uma sociedade aberta para o futuro, com maior universalidade, que se reflete nos novos direitos criados à medida que as necessidades e os desafios sociais e tecnológicos evoluem . Exemplo de documento oficial da 4ª geração: Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos, de 1997 redigido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESCO, contempla em suas linhas que “com cada um dos países signatários assumindo o compromisso de divulgar seu conteúdo e pugnar pela busca de soluções que conciliam desenvolvimento tecnológico e respeito aos direitos do homem .ˮ Paulo Bonavides propôs, ainda, a existência de uma Quinta geração de direitos humanos, acrescentando o direito à paz como uma norma jurídica autônoma, separada das demais gerações tradicionais. Ele argumenta que o direito à paz não deve ser apenas entendido dentro dos direitos de terceira geração, que envolvem os direitos coletivos e de solidariedade, mas como um direito fundamental independente que exige proteção jurídica específica. Bonavides respeitosamente critica a classificação de Karel Vasak, que, na sua concepção original, inseriu o direito à paz na terceira geração, considerando-o um direito coletivo mais ligado aos movimentos sociais e ao avanço global, em vez de reconhecê-lo como um direito autônomo essencial para a convivência humana. 28 Essa ideia de Bonavides reflete uma evolução da compreensão dos direitos humanos, ampliando a noção de paz de uma meta de convivência entre nações para um direito legalmente reconhecido e protegido dentro do ordenamento jurídico internacional. A paz, nesse sentido, não seria apenas uma consequência das relações políticas internacionais, mas um direito fundamental que deve ser respeitado e garantido por normas jurídicas universais. A sexta geração de direitos humanos destaca o acesso à água potável como um direito fundamental. Com o agravamento das questões ambientais, como a escassez de água devido ao aquecimento global e a desertificação, esse direito tornou-se crucial para garantir uma vida saudável tanto para as atuais quanto para as futuras gerações. A água, sendo um recurso essencial à vida, deve ser protegida juridicamente para evitar sua escassez e garantir que todas as pessoas tenham acesso a esse bem vital. 29 A ONU, em resoluções como a Resolução 64/292 da Assembleia Geral das Nações Unidas de 2010, reconhece explicitamente o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos, destacando a água como recurso vital que precisa ser protegido e acessível para todos. Para finalizarmos o primeiro módulo, é possível identificar três conclusões centrais no contexto das gerações, dimensões ou famílias de direitos humanos:Atualmente, muitos autores preferem o termo “dimensõesˮ em vez de “geraçõesˮ ao se referirem aos direitos humanos, a fim de evitar a interpretação de que uma categoria de direitos anula ou substitui outra anterior. As dimensões somam-se ao conjunto de direitos fundamentais já existentes, ampliando seu alcance e abrangência. Todos os direitos fundamentais compartilham uma proteção indivisível e se complementam para promover a dignidade humana. A indivisibilidade e interdependência desses direitos indicam que eles interagem para atender às necessidades essenciais de cada indivíduo. 30 Com o surgimento de novas dimensões, há também uma reinterpretação dos direitos já consolidados. Por exemplo, o direito à propriedade deve ser interpretado em conformidade com os direitos sociais, refletindo sua função social. Com o reconhecimento do direito ao meio ambiente equilibrado, o direito de propriedade passa a incluir o respeito às normas ambientais, visando o uso sustentável dos recursos. Considerações Finais Concluímos o Módulo 1 com uma compreensão ampla dos conceitos, características e dimensões dos direitos humanos, uma área fundamental de revisitação de docentes da matéria, haja vista suas constantes transformações. Compreendemos como os direitos humanos se desenvolveram historicamente em dimensões, inicialmente, direitos civis e políticos; depois, direitos sociais, econômicos e culturais; seguidos por direitos coletivos e de solidariedade, e mais recentemente, direitos que abarcam a globalização e a proteção de recursos essenciais, como a água potável. Referido conhecimento ajuda os profissionais a embasarem seu papel na promoção e respeito aos direitos fundamentais, reconhecendo a importância da interdisciplinaridade e da atualização constante sobre o tema. 31 Exploramos também as características dos direitos humanos, como a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência. Essas características reforçam que os direitos humanos são aplicáveis a todos, de forma integral. Para os educadores, compreender essas características é essencial, pois permite uma abordagem de ensino que promova o respeito à diversidade e à dignidade, valores essenciais na construção de uma sociedade justa e inclusiva. Reiterar esses princípios na prática docente amplia a capacidade de influenciar positivamente o ambiente educacional e, por consequência, o social. É importante enfatizar que o estudo dos direitos humanos é um campo inesgotável e em constante transformação. As novas demandas da sociedade e os avanços tecnológicos trazem à tona questões e necessidades que requerem reinterpretações e ampliação desses direitos, que devem ser incansavelmente estudados e debatidos, como o direito à privacidade digital e ao meio ambiente equilibrado. Para os docentes da área, isso significa a necessidade de se manterem atualizados e abertos a novas perspectivas, adaptando-se à prática pedagógica para melhor atender às exigências contemporâneas e às necessidades dos alunos, formando cidadãos conscientes e críticos. Por fim, ao avançarmos para o próximo módulo, daremos continuidade a essa discussão, focalizando os direitos humanos no contexto prisional brasileiro. Esse tema ampliará nossa visão sobre a aplicação prática dos direitos humanos em um ambiente desafiador e nos permitirá refletir sobre a necessidade da busca pela garantia desses direitos a todos os indivíduos, independentemente de sua situação, como os que se encontram em contextos de privação de liberdade. A qualificação para abordar essa realidade será essencial para aqueles que desejam contribuir ativamente para uma sociedade mais justa e igualitária. Até breve! 32 Referências BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. BONAVIDES, Paulo. A quinta geração de direitos fundamentais. Revista Brasileira de Direitos Fundamentais & Justiça, 23, 8293, 2008. BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2016. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003. GOMES, Sérgio Pinto. O Direito do Trabalho e as Transformações Sociais. São Paulo: LTr, 2012. LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil. São Paulo: Martins Fontes, 1994. MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: RT, 2011. MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. São Paulo: Atlas, 2010. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução A/RES/64/292, de 28 de julho de 2010. O direito humano à água e ao saneamento. Assembleia Geral das Nações Unidas, 2010. Disponível em: https://undocs.org/A/RES/64/292. Acesso em: 10 out. 2024. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Saraiva, 2013. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 35. ed. São Paulo: Malheiros, 2012. VASAK, Karel. Human Rights: A Thirty-Year Struggle: the Sustained Efforts to give Force of law to the Universal Declaration of Human Rights. UNESCO Courier, 1977. 33 Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do Sistema Prisional Brasileiro Cursista, neste módulo 2, exploraremos um tema essencial para a construção de uma sociedade mais justa e para o aprimoramento das práticas profissionais no sistema prisional: Direitos Humanos no contexto do sistema prisional brasileiro. A realidade prisional no Brasil desafia constantemente nossa capacidade enquanto sociedade de assegurar os direitos básicos às pessoas privadas de liberdade, por isso este é um momento de grande aprendizado e reflexão sobre o papel de cada profissional em promover a dignidade humana, mesmo nos contextos mais adversos. A atualização constante dos professores e profissionais que trabalham com direitos humanos é crucial neste cenário. As transformações sociais, jurídicas e institucionais exigem um conhecimento profundo das normas nacionais e internacionais aplicáveis ao tema, bem como das práticas que contribuem para a garantia dos direitos de pessoas em privação de liberdade. Professores(as) atualizados estão aptos a transmitir o conhecimento necessário para formar agentes capazes de atuar de maneira ética e eficiente, respeitando os valores humanos e contribuindo para a ressignificação do sistema prisional brasileiro, hoje ainda distante dos seus objetivos precípuos. 34 Neste módulo, exploraremos os desafios enfrentados no contexto prisional brasileiro. Para isso, começaremos com uma análise do histórico das prisões, revisitando sua gênese e evolução, com o objetivo de compreender as raízes e os fundamentos desse sistema. Essa perspectiva histórica é essencial para refletir criticamente sobre as estruturas e práticas atuais. Além disso, mais do que um compromisso ético/profissional, a garantia dos direitos humanos no ambiente prisional é uma missão social que reafirma a busca por uma sociedade que valoriza a dignidade, a igualdade e o respeito a todos. Deste modo, o módulo 2 propõe a análise de conteúdos enriquecedores para atividade de docência, que fortalecerão sua capacidade de promover mudanças efetivas e de atuar como agente na construção de uma realidade prisional mais humana e justa. 2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica Ao longo da história da humanidade, transgressões sempre foram uma constante nas sociedades que estabeleceram regras para organizar seu convívio. Consequentemente, a questão sobre como lidar com os que violam essas normas atravessa os tempos como um desafio crucial. 35 A história desempenha um papel essencialpara compreender as origens e a evolução das instituições penais. Gramsci, citado por Löwy 1987, p. 129, enfatiza que “toda visão de mundo é histórica, toda verdade pretensamente eterna e absoluta tem uma origem prática histórica .ˮ Esse enfoque histórico possibilita analisar a transformação das instituições de controle social e refletir sobre os caminhos percorridos para lidar com a transgressão ao longo dos séculos. Os primórdios da pena remontam à Idade Média, particularmente nos mosteiros, onde se associava punição ao isolamento do indivíduo. Nesse contexto, monges ou clérigos que cometiam “pecadosˮ eram confinados em ambientes destinados ao silêncio, meditação e arrependimento como forma de reconciliação espiritual com Deus Pimentel, 1989. Para a igreja católica, desde suas origens, penitência e punição estavam intimamente ligadas, e o isolamento era visto como um meio moral e espiritual de transformação. Segundo Mirabete 2004, p. 249, essa concepção inspirou a construção da primeira prisão para criminosos, a House of Correction Casa de Correção), edificada em Londres entre 1550 e 1552. Durante o reinado de Elizabeth I, a Casa de Correção representou uma mudança significativa: ao substituir castigos corporais por encarceramento e trabalho forçado, buscava-se a reforma moral e social dos prisioneiros, em períodos geralmente inferiores a dois anos. No entanto, até o século XVIII, o encarceramento não era amplamente reconhecido como uma forma de pena propriamente dita. Sua função primária era conter os infratores ou “corpos indesejados ,ˮ retirando-os de circulação, sem foco em reabilitação para retorno à sociedade. Nesse período, a prisão passou a ser vista como um mecanismo de punição estruturada. 36 Historicamente, instituições denominadas “prisõesˮ existiam, sobretudo, para controlar corpos e garantir que os detidos permanecessem à disposição da justiça até receberem uma sentença. Essas punições incluíam morte, tortura ou escravidão, e o encarceramento era apenas um meio para viabilizar tais medidas Nogueira, 2020. Foi na idade moderna, durante o século XVIII, que a pena de privação de liberdade consolidou-se como forma central de punição. Reformas penais transformaram a prisão em um elemento-chave para lidar com transgressores, racionalizando o uso da privação de liberdade como um tipo de resposta proporcional ao crime. Como aponta Maia 2009, a pena passou a ser vista como um direito da sociedade de proteger-se contra os criminosos, utilizando o tempo de encarceramento para disciplinar o corpo e a mente. Michel Foucault 1987 contribui para essa análise ao destacar como instituições como orfanatos, conventos, hospitais e fábricas serviram de protótipos para as prisões modernas. Essas estruturas disciplinavam os indivíduos por meio de vigilância constante e controle hierárquico. Moura 2010 complementa ao ressaltar que técnicas de observação desenvolvidas inicialmente em quartéis militares foram incorporadas à organização prisional, consolidando a disciplina e o controle social nas sociedades contemporâneas. 37 A trajetória das instituições penais reflete não apenas mudanças nas práticas de punição, mas também nas concepções de justiça e busca por reabilitação do sujeito criminoso, demonstrando que o encarceramento é um fenômeno moldado por contextos históricos, sociais e políticos em constante transformação. Nesta esteira, como muito bem pontuado por Carlos Aguirre 2009, as prisões são muitas coisas ao mesmo tempo: “[...] Instituições que representam o poder e a autoridade do Estado; arenas de conflito, negociação e resistência; espaços para a criação de formas subalternas de socialização e cultura; poderosos símbolos de modernidade (ou de ausência dela); artefatos culturais que representam as contradições e tensões que afetam as sociedades, empresas econômicas que buscam manufaturar tanto bens de consumo como eficientes trabalhadores; centros para a produção de distintos conhecimentos sobre as classes populares; e, finalmente, espaços onde amplos segmentos da população vivem parte de suas vidas, formam suas visões de mundo, entrando em negociações e interação com outros indivíduos e com autoridades do Estado .ˮ Para a pessoa presa, o cumprimento da pena privativa de liberdade frequentemente é percebido como um período de tempo essencialmente perdido Hofmeister, 2002. Essa percepção, conforme argumenta Goffman 1999, não decorre apenas das condições precárias das instituições prisionais, mas também das perdas sociais e pessoais associadas ao isolamento. Para ambos os autores, durante a reclusão, o indivíduo é privado de recursos e experiências fundamentais para sua vida fora da prisão, como bens materiais, relações afetivas e oportunidades educacionais, o que reforça a sensação de que o tempo vivido no cárcere é um "tempo morto". 38 Embora séculos tenham se passado desde as primeiras concepções de prisão, a lógica do isolamento contínuo permanece como pilar do sistema penal. No entanto, vê-se que sua função original foi gradativamente distorcida, assumindo um papel centrado no controle social e distanciando-se de objetivos como reabilitação ou ressocialização. Esse modelo perpetua a exclusão social e o sentimento de inutilidade, transformando o encarceramento em um ciclo que frequentemente dificulta o retorno do indivíduo à sociedade de modo que não reincida no contexto criminoso. 2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: Das Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas Após a proclamação da independência do Brasil, a Constituição de 25 de março de 1824, conhecida como Carta Política Imperial, representou um marco jurídico significativo para a época. 39 Isso porque, em seu artigo 179, garantiu a inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos, fundamentados nos princípios de liberdade, segurança individual e propriedade. Além disso, estabeleceu a necessidade urgente de organização de um código criminal (art. 179, §18, refletindo a preocupação com a estruturação de um sistema jurídico nacional. Inspirada no constitucionalismo inglês, a Carta Política Imperial destacava-se por focar nas disposições relativas aos poderes do Estado e aos direitos individuais. Vigente por 65 anos, foi a constituição de maior duração no Brasil, sendo revogada apenas com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Durante esse período, consolidou-se como a segunda constituição escrita mais antiga do mundo, superada apenas pela Constituição dos Estados Unidos, o que ressalta sua relevância histórica e influência na organização política e jurídica do Brasil. No campo das punições, o Código Criminal do Império trouxe a pena de prisão sob duas modalidades principais: a prisão com trabalho (art. 46, que obrigava o condenado a trabalhar enquanto cumpria sua pena, e a prisão simples (art. 47, aplicada em estabelecimentos sem trabalho, conforto ou segurança. Essa legislação marcou a transição das penas corporais, características do período colonial, para a privação de liberdade, como destaca Foucault 1987 “O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos .ˮ 40 A aplicação do sistema de penas previsto no Código Penal do Império enfrentou desafios. Embora a prisão com trabalho estivesse contemplada na legislação, sua implementação foi restrita a poucas localidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e, a partir da década de 1880, Ceará. Essa limitação evidenciava a dificuldade de uniformizar as práticas penais em um país de dimensões sabidamente amplas e complexas. O Código Penal de 1839 representou um marco na consolidação de um sistema punitivonacional, introduzindo medidas como a prisão em celas, o banimento, a suspensão de direitos e a perda de funções públicas. Nesse período, as prisões funcionavam principalmente como locais preventivos, destinadas a evitar fugas antes do julgamento, ou como meio coercitivo para garantir o pagamento de penas pecuniárias, raramente assumindo um caráter repressivo Dotti, 1998; Hofmeister, 2002. Após cinquenta anos, com o Código Penal de 1890, a privação de liberdade foi reformulada em quatro modalidades: prisão em celas, com isolamento e obrigação de trabalho; reclusão, cumprida em instalações militares; prisão com trabalho obrigatório, em prisões agrícolas ou presídios militares; e prisão disciplinar, destinada a jovens menores de 21 anos em estabelecimentos industriais especiais. 41 Foi somente em 1940, com mais uma edição do Código Penal, que consolidaram-se penas principais e acessórias, limitando a privação de liberdade a um máximo de 30 anos (sendo alterado para 40 anos, no ano de 2024 e introduzindo medidas como perda de funções públicas e interdição de direitos. Posteriormente, em 1984, a parte geral do Código foi reformulada, estabelecendo a progressão de regime (regimes fechado, semiaberto e aberto), que permanecem até hoje como pilares do cumprimento progressivo de pena no sistema penal brasileiro. Apesar dessas evoluções legislativas, o sistema prisional do Brasil continua marcado por contradições e acentuadas falhas estruturais. Como aponta Maia et al. 2009, a história das prisões no Brasil é permeada por reformas inacabadas e desafios persistentes, refletindo um sistema que frequentemente marginaliza, em vez de reintegrar. Goffman 1999 descreve as prisões brasileiras como instituições totalitárias, onde o isolamento do indivíduo é reforçado por barreiras físicas e sociais, transformando a reintegração em um desafio monumental. No Brasil, compreender a trajetória da punição e do encarceramento é fundamental para enfrentar as desigualdades e contradições do sistema democrático. Como observado por Olavo Bilac, em 1902, o cenário prisional brasileiro, com suas fragilidades e disfunções, ecoa até os dias atuais, refletindo um problema estrutural que segue exigindo soluções urgentes: 42 Que vai fazer agora o governo? Vai demitir o administrador da Casa de Detenção? Daqui a pouco será obrigado a demitir o cidadão que o substituir, e as coisas continuarão no mesmo pé – porque a causa dos abusos não reside na incapacidade de um funcionário, mas num vício essencial do sistema, num defeito orgânico do aparelho penitenciário. E não há de ser a demissão de um administrador que há de consertar o que já nasceu torto e quebrado. Ressalta-se que o início do sistema prisional brasileiro remonta à Carta Régia de 8 de julho de 1796, que determinava a construção da Casa de Correção da Corte, posteriormente conhecida como Complexo Frei Caneca, também implodido, em 2010. Durante o período de construção da Casa de Correção, entre 1834 e 1850, o local já abrigava detentos condenados a trabalhos forçados, além de africanos apreendidos após a promulgação da primeira lei de proibição do tráfico de escravizados em 1831. Nesse período, não havia regulamentação para definir a administração ou a rotina do cárcere. 43 Somente em 6 de julho de 1850 foi instituído o primeiro regulamento da prisão. Esse documento detalhava a necessidade de divisão dos internos de acordo com os crimes por eles praticados, estabelecia normas disciplinares e penalidades para faltas disciplinares, além de tratar de aspectos como vestuário, alimentação, trabalho nas oficinas e práticas religiosas. Esse regulamento marcou um passo inicial na organização interna das prisões brasileiras. A Casa de Correção da Corte nasceu do desejo de um grupo político que pretendia, além de inserir o Brasil no grupo das nações consideradas civilizadas, garantir o controle das classes subalternas, transformando homens e mulheres em nos ditos “cidadãos laboriosos .ˮ Durante a sua construção, a prisão recebeu todos os tipos sociais que precisavam ser controlados naquele momento: escravos, libertos, pobres, imigrantes e africanos livres. Ao longo de sua história, o Complexo Prisional da Frei Caneca serviu a sociedade, contendo atrás de suas muralhas criminosos, na tentativa de manter a ordem pública. Uma das principais obras sobre a história das prisões brasileiras é o livro do sociólogo Fernando Salla, As Prisões de São Paulo: 18221940 1999, que analisa a Penitenciária de São Paulo como objeto de estudo até a década de 1940. Outra contribuição de destaque é a pesquisa de Elizabeth Cancelli 2005, que realizou importantes estudos sobre as prisões brasileiras, com especial foco na Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, inaugurada em 21 de abril de 1920. 44 Na época, a orientação do sistema prisional era a dita “regeneração do indivíduo .ˮ No entanto, tanto o Carandiru quanto outras prisões brasileiras apresentavam um cenário contraditório em relação ao tratamento das pessoas presas Cancelli, 2005. Cancelli 2005 aponta que, embora o Carandiru se destacasse por princípios penais alinhados à Escola Positiva de Direito, organização, limpeza, condições de habitabilidade, sistema celular e modernidade, também era um espaço de opressão e sofrimento. Seu projeto arquitetônico, inspirado no modelo de Frenes, na França, ia além de uma simples prisão. Não modesto em sua concepção, o complexo foi planejado para abrigar mais de mil detentos e representava um marco da engenharia penal, mas não voltado às lógicas de ressocialização do indivíduo. A construção do Carandiru custou cerca de quatorze mil contos de réis, um valor significativamente superior ao de uma penitenciária convencional da época, que poderia ser edificada por apenas mil contos de réis Brito, 1946. Esse investimento reflete o caráter monumental e ambicioso do projeto. FIGURA 1 – ESTRUTURA CASA DE DETENÇÃO DE SÃO PAULO – “CARANDIRUˮ FONTE Prefeitura de São Paulo / Divulgação / CP Memória 45 FIGURA 2 - CASA DE DETENÇÃO DE SÃO PAULO – “CARANDIRUˮ FONTE Revista Veja 2018 Elizabeth Cancelli 2005, em seu artigo “Repressão e controle prisional no Brasil: prisões comparadas ,ˮ narra fragmentos da rotina percebida por ela no Carandiru: Foi assim que a vida do prisioneiro no Carandiru se caracterizou por uma rotina monótona e sem perspectivas, na qual o tempo dispensado aos esforços físicos, principalmente os dedicados ao trabalho, tinham um papel fundamental. A solidão coletiva, aquela imposta pela obrigatoriedade do silêncio permanente, embora existisse o trabalho em grupo, e acolhimento às celas individuais, também eram fatores importantes para o acerbamento da monotonia prisional e da despersonalização dos prisioneiros, daí a ocorrência de grande quantidade de suicídios ou de tentativas de suicídios. O Carandiru possuía tal sistema de controle, que manifestações que pudessem expressar valores pessoais nesse sistema implantado deveriam ser sempre reprimidas. Nem tatuagens, nem grafites, nem escolha de qualquer coisa que fugisse ao controle total da administração presidiária. Corpo e mente deveriam ser sempre objeto 46 de atenção, fiscalização e comando, inspirados no pressuposto de isolamento de cada um dos prisioneiros. Sem lideranças, sem contracultura específica para o interior da prisão. O sistema de celas individuais, com isolamento e com janelas que permitiam aos guardas ter controle constante sobre os atos dos prisioneiros, desencorajavam qualquer possibilidade de burla ao duro regulamento de punições e recompensas estipulado. Nesse sentido, a própria arquiteturado prédio era concebida para a eliminação dos vícios que historicamente o controle penitenciário vinha observando e definindo como tal nas prisões. Os presos não tinham direito à intimidade, já que ficavam expostos à vigilância constante feita através das aberturas existentes nas portas das celas. O sistema prisional brasileiro, historicamente, tem sido símbolo das arbitrariedades governamentais, frequentemente pressionado por entidades internacionais a tomar providências sobre questões críticas, destacando-se a superlotação. Para apagar memórias das violações cometidas, Onodera 2005 afirma que o Brasil, por vezes, recorreu à destruição de seus arquivos históricos. Um exemplo marcante foi o destino do Carandiru, implodido em 8 de dezembro de 2002, após o massacre que lá ocorreu. Vê-se, portanto, que não raras vezes o Brasil foi cenário de graves violações de direitos, submetendo os indivíduos em privação de liberdade a condições desumanas. Essas violações incluem a ausência de instalações adequadas, falta de assistência jurídica, psicossocial e à saúde, bem como a restrição ao acesso à educação e ao trabalho como direitos fundamentais. Além disso, práticas como tortura, agressões físicas e psicológicas, violência contra familiares e fome são frequentes nesse contexto, segundo os relatórios anuais divulgados por essas entidades e pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. 47 Essa realidade, longe de ser nova, reflete um problema estrutural e persistente. Em setembro de 2015, o Supremo Tribunal Federal STF reconheceu oficialmente um Estado de Coisas Inconstitucional ECI no sistema prisional brasileiro, por meio da ADPF 347/2015, destacando as generalizadas violações de direitos fundamentais dos encarcerados, agravadas pela reiterada inércia do Estado em enfrentar e solucionar essas questões, sabidamente desafiadoras. 2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? Foucault 1987 diferencia a sociedade moderna das mais antigas pela forma disciplinar de controle sobre os corpos. Para ele, para criar corpos dóceis, a sociedade moderna desenvolveu uma tecnologia disciplinar que atua sobre o corpo do indivíduo, dividindo-o (em sentido metafórico) em partes (como pernas, braços), analisando-o e treinando-o para controlar tanto as partes quanto o todo. A pena, ao longo do tempo, evoluiu para uma forma mais discreta. Em vez da condenação corporal pública, surgiram celas afastadas dos olhos do público. A punição deixou de se concentrar no corpo e passou a atingir a mente e a autonomia do indivíduo, mudando o foco da vingança do soberano para um discurso de regeneração, criando os chamados "corpos dóceis". 48 Na busca por transformar criminosos em "corpos dóceis", os detentores do poder acreditavam que a disciplina por meio do trabalho seria a solução para os males sociais. No século XIX, as unidades prisionais começaram a se proliferar mundialmente. Segundo Prado 2008, o discurso iluminista, que inicialmente via a prisão como um local para a transformação dos corpos, não resistiu à prática, pois o cárcere surgiu e se consolidou devido às necessidades dos ideais capitalistas. A divisão do espaço e do tempo também faz parte, segundo Foucault 1987, do processo de construção desse poder disciplinar. Para entender a dinâmica do sistema prisional, a pesquisadora seguiu os caminhos traçados por Foucault, analisando as relações de poder dentro das prisões e a forma como elas se desenvolvem. Um dos grandes dilemas da humanidade é como responder àqueles que transgridem as normas impostas pela sociedade. Foucault 1987 narra a história da legislação penal e dos métodos punitivos, demonstrando como o poder, por séculos, regulamentou e instituiu sistemas de repressão ao crime, desde o suplício dos corpos até as modernas instituições correcionais. O que é um suplício? Foucault 1987 questiona e ele mesmo responde: uma pena corporal, dolorosa e, muitas vezes, atroz; um fenômeno que revela a incrível capacidade humana para a barbárie e a crueldade. Acrescenta: 49 O suplício é uma técnica e não deve ser equiparado aos extremos de uma raiva sem lei. Uma pena, para ser um suplício, deve obedecer a três critérios principais: em primeiro lugar, produzir uma certa quantidade de sofrimento que se possa, se não medir exatamente, ao menos apreciar, comparar e hierarquizar; a morte é um suplício na medida em que ela não é simplesmente privação do direito de viver, mas a ocasião e o termo final de uma graduação calculada de sofrimentos: desde a decapitação — que reduz todos os sofrimentos a um só gesto e num só instante: o grau zero do suplício — até o esquartejamento que os leva quase ao infinito, através do enforcamento, da fogueira e da roda, na qual se agoniza muito tempo; a morte suplício é a arte de reter a vida no sofrimento, subdividindo-a em “mil mortesˮ e obtendo, antes de cessar a existência, the most exquisite agonies. O suplício repousa na arte quantitativa do sofrimento. Mas não é só: esta produção é regulada Foucault, 1987, p. 36. Foucault 1987 explica a existência de um "código jurídico da dor", no qual a pena, quando é supliciante, não recai sobre o corpo de forma aleatória ou imprecisa; ela é meticulosamente calculada, de acordo com regras detalhadas: o número de golpes de açoite, o local onde o ferrete em brasa será aplicado, o tempo de agonia na fogueira ou na roda (o tribunal decide se é necessário estrangular a vítima imediatamente ou deixá-la morrer aos poucos, e estabelece o momento em que essa intervenção, por piedade, deve ocorrer), além do tipo de mutilação a ser imposta (como a decepação de mãos ou a perfuração de lábios ou língua). Em sua obra "Vigiar e Punir" 1987, Foucault oferece reflexões profundas sobre a evolução histórica dos sistemas penais ocidentais, analisando os mecanismos sociais e teóricos que impulsionaram essas transformações. Ele dedica-se a investigar como o poder exerce vigilância e punição sobre aqueles que são classificados como criminosos. 50 No início, a punição era marcada pela pena de morte. Foucault descreve minuciosamente, também em "Vigiar e Punir", o processo de execução de Robert Damiens. Em 2 de março de 1757, Damiens foi condenado a pedir perdão publicamente na porta principal da igreja de Paris, exemplificando a brutalidade e o aparato punitivo da época. (...) levado e acompanhado numa carroça, nu, carregando uma tocha de cera acesa e, sobre a guilhotina fora erguido, torturado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que fora torturado foram aplicados chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente e, a seguir, seu corpo fora puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros consumidos pelo fogo, reduzidos a cinzas lançadas ao vento Foucault, 1987, p. 9. FIGURA 3 - EXECUÇÃO DE ROBERT FRANÇOIS DAMIENS PARIS, 28 DE MARÇO DE 1757 51 A partir do século XVIII, surgiram movimentos de resistência contra as formas de punição baseadas em suplícios físicos. Foucault 1987 descreve três etapas progressivas de punição: a tortura pública do condenado, a reforma humanista que visa modificar as punições corporais e públicas, e o confinamento nas prisões. Cada uma dessas formas de punição possui suas características próprias. A tortura pública, por exemplo, era um espetáculo, um ritual político e público, no qual o soberano exercia poder absoluto sobre o corpo do condenado. O crime era visto como um ataque ao rei, e a violação da lei, uma afronta ao soberano. Para Silva 2015, a reação do poder real precisava ser dirigida ao corpo do criminoso,