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Direitos Humanos e
Sistema Prisional 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Escola Nacional de Serviços Penais 
Secretaria Nacional de Serviços Penais 
Ministério da Justiça e Segurança Pública 
 
 
 
Direitos Humanos e Sistema Prisional 
 
 
 
Apresentação 
Olá, cursista! Seja bem-vindo ao curso "Direitos Humanos e Sistema Prisional. 
Neste curso, você irá explorar os fundamentos dos direitos humanos, sua 
relação com o sistema prisional brasileiro e as peculiaridades dos grupos 
vulneráveis encarcerados. Com uma abordagem interdisciplinar, o curso visa 
fortalecer a atuação profissional de servidores do sistema penal, promovendo 
práticas mais humanizadas e alinhadas aos princípios de equidade e justiça 
social. O conteúdo está organizado em três módulos que abordam desde os 
conceitos básicos dos direitos humanos até sua aplicação no contexto prisional 
com foco em populações em situação de maior vulnerabilidade.
 
 
 
 
 
1 
 
 
 
 
Ementa 
 
MÓDULO 1 – CONCEITO, CLASSIFICAÇÕES E HISTÓRIA DOS DIREITOS 
HUMANOS 
Neste módulo trabalharemos os fundamentos dos Direitos Humanos, 
explorando sua evolução histórica, características essenciais e 
classificações. Abordaremos a relação entre a ONU e a proteção 
desses direitos, além das diferentes gerações/dimensões que 
compõem o sistema internacional de direitos humanos, proporcionando 
uma base conceitual sólida para compreender sua aplicação no 
contexto prisional. 
 
MÓDULO 2 – DIREITOS HUMANOS NO CONTEXTO DO SISTEMA 
PRISIONAL BRASILEIRO 
Este módulo analisará criticamente a evolução das instituições penais 
no Brasil, desde as primeiras prisões até as reformas contemporâneas. 
Discutiremos a tensão entre punição e reabilitação, e examinaremos o 
reconhecimento pelo STF do Estado de Coisas Inconstitucional no 
sistema prisional brasileiro, destacando os desafios atuais na garantia 
de direitos fundamentais aos privados de liberdade. 
 
MÓDULO 3 – GRUPOS VULNERÁVEIS DO SISTEMA PRISIONAL 
BRASILEIRO 
Neste módulo, falaremos sobre as especificidades e proteções 
necessárias para grupos vulneráveis no cárcere, incluindo população 
LGBTQIA, mulheres, indígenas, pessoas com deficiência, idosos e 
estrangeiros. Abordaremos políticas como o nome social, direitos 
consulares e adaptações necessárias para garantir tratamento digno a 
essas populações, conforme estabelecido pela legislação nacional e 
internacional. 
 
 
 
 
Público-alvo 
 
 
Este curso é destinado aos servidores da execução penal (policiais 
penais e servidores que atuam com políticas), bem como para 
qualquer servidor interessado em aprofundar seus conhecimentos 
sobre o assunto. 
 
2 
 
 
 
Carga horária 
 
O curso tem carga horária de 20 horas. 
 
 
 
 
 
Objetivos 
 
Capacitar profissionais do sistema prisional e áreas correlatas a 
compreender e aplicar os princípios dos Direitos Humanos no 
contexto carcerário, promovendo práticas institucionais alinhadas à 
dignidade humana, à justiça social e ao cumprimento efetivo da 
legislação nacional e internacional. 
 
Objetivos específicos 
 
● Compreender os fundamentos históricos e conceituais dos Direitos 
Humanos e seu marco legal internacional e nacional. 
● Analisar criticamente a evolução do sistema prisional brasileiro e 
seus desafios contemporâneos na garantia de direitos 
fundamentais. 
● Identificar as violações de direitos humanos mais recorrentes no 
ambiente prisional brasileiro. 
● Reconhecer as especificidades e necessidades dos grupos 
vulneráveis no sistema prisional LGBTQIA, mulheres, indígenas, 
pessoas com deficiência, idosos e estrangeiros). 
● Aplicar os instrumentos normativos de proteção aos direitos 
humanos no cotidiano do sistema prisional. 
● Desenvolver estratégias para implementação de políticas 
institucionais que garantam os direitos humanos na execução penal. 
● Promover uma cultura organizacional alinhada aos princípios dos 
direitos humanos nas unidades prisionais. 
● Estimular a reflexão crítica sobre o papel dos agentes penitenciários 
como garantidores de direitos fundamentais. 
 
 
 
 
3 
 
 
 
Metodologia 
 
Os três módulos do curso Direitos Humanos e Sistema Prisional são 
autoinstrucionais. Eles não contam com a presença de um tutor para 
acompanhamento e orientação dos estudos e das atividades, nem 
para tirar as dúvidas por meio de sala de bate-papo (chat) ou de 
fórum de discussão. 
 
A realização de todo o processo (leitura dos conteúdos e realização 
das atividades) se baseia na prática de estudo diário e contínuo da 
pessoa participante. É importante seguir a ordem dos módulos, pois 
eles são cumulativos e complementares. 
 
 
 
 
Critério de Avaliação 
 
Este curso é avaliativo e, para concluí-lo, você deverá estudar todos 
os slides, realizar as atividades e obter nota igual ou superior a 6.0, 
em cada módulo. Serão 3 tentativas de resolução das atividades 
propostas, a fim de alcançar a média. Após a conclusão dos 
módulos, incluindo a realização das atividades, sua situação no curso 
será alterada para “Aprovado .ˮ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
Expediente 
 
GOVERNO FEDERAL 
 
Presidente da República 
Luiz Inácio Lula da Silva 
 
Vice-Presidente da República 
Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho 
 
Ministro da Justiça e Segurança Pública 
Enrique Ricardo Lewandowski 
 
Secretário da Secretaria Nacional de 
Políticas Penais – SENAPPEN 
André de Albuquerque Garcia 
 
Diretora da Escola Nacional de Serviços 
Penais – ESPEN 
Stephane Silva de Araújo 
 
Equipe ESPEN 
Haynara Jocely Lima de Almeida 
Jorge Magno Alves Pinto
Leonardo Conceição Cruz
Pedro Henrique Chavier da Silva
Robson de Farias 
Tânia Lopes Ferreira Silva
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG 
 
Coordenação Geral 
Gilson Oliveira Barreto 
 
Financeiro 
Aliene Nunes Ribeiro Arantes 
Mariana Pires da Silva 
 
Administrativo 
Radson de Souza Santos 
 
Supervisão Técnica de EAD 
Alexandre Mathias Pedro 
 
Coordenação de Produção 
Diego Mendonça Camargo 
 
Coordenação de AVA 
Adelaide da Silva Carvalho Brosig 
 
Revisão Textual 
Juliana Dias Erthal 
Ana Paula Carreiro 
Design Instrucional 
Supervisão: Diego Mendonça Camargo 
Ana Paula Carreiro 
Diego Mendonça Camargo 
Fernando Basílio Portero Simon 
Juliana Dias Erthal 
 
Design Gráfico 
Carlos Gustavo Martins Hoelzel 
Diego Mendonça Camargo 
Fernando Basílio Portero Simon 
Sergio Ferreira dos Santos Junior 
Weniskley Alves Santana 
 
Programação de Recursos Educacionais 
Supervisão: Dhiego Aprigio de Carles 
Dhiego Aprigio de Carles 
Elvia Nunes Ribeiro 
Rhandy Rafhael de Carvalho 
 
Ilustração 
Biagy de Oliveira 
 
Edição de vídeo 
Supervisão: Diego Mendonça Camargo 
Airton Murakami Uemura 
 
Animação 
Supervisão: Diego Mendonça Camargo 
Airton Murakami Uemura 
Giselle Santos Almeida 
 
Audiovisual 
Bruno Vieira Dato Sant Anna 
Rodrigo Flamarion Godinho Miranda 
 
Pesquisa 
Nicoly Rubia Bento dos Santos 
Pamela Monike Honorato Soares 
Ramon Ferreira Teles 
Samanta Silva do Nascimento 
 
Conteúdo 
Supervisão: Juliana Dias Erthal 
Bruna Roberta Wessner Longen 
 
 
5 
 
 
Sumário 
 
MÓDULO 1 - Conceito, classificações e história dos direitos humanos 7 
1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo 8 
1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? 10 
1.3 Classificações de Direitos Humanos 13 
1.4 Características dos Direitos Humanos 15 
1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos 19 
Considerações Finais 31 
Referências 33 
Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do Sistema Prisional Brasileiro 34 
2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica 35 
2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: Das 
Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas 39 
2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? 48 
2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do Estado de 
Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal 56 
Considerações Finais 60 
Referências 62 
Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema prisional brasileiroe a tortura visava não apenas revelar o 
horror do crime, mas também reafirmar o poder do soberano. 
 
 
 
 
 
 
 
No século XVIII, um grupo de reformadores, movido pelo 
humanismo, criticou a violência excessiva presente na tortura 
pública e propôs uma nova interpretação da punição. Eles 
clamaram pela abolição do ritual de atrocidade, afirmando que a 
tortura não era apenas uma manifestação de violência do 
soberano, mas também do povo, que consentia com tais 
práticas. 
 
 
52 
 
 
Segundo Foucault 1987, a principal motivação dos reformadores era evitar os 
excessos de violência tanto do rei quanto do povo, prevenindo possíveis 
confrontos com resultados trágicos. Além disso, existia uma solidariedade 
popular com criminosos que cometiam pequenos delitos, o que gerava um 
temor político nos soberanos diante do impacto desses rituais Prado, 2008. 
 
 
 
 
Superada a era do suplício, na qual a punição se direcionava ao 
corpo, o castigo começa a afetar a alma. A alma torna-se, então, 
um instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do 
corpo. O protesto contra os suplícios tornou-se mais frequente 
na segunda metade do século XVIII, ecoando entre filósofos do 
direito, juristas, magistrados e parlamentares. Evidencia-se a 
necessidade de punir de outra forma. 
 
 
 
 
Nesse ponto, Foucault 1987 discorre: 
 
 
 
O afrouxamento da severidade penal no decorrer dos últimos séculos é 
um fenômeno bem conhecido dos historiadores do direito. Entretanto, 
foi visto, durante muito tempo, de forma geral, como se fosse fenômeno 
quantitativo: menos sofrimento, mais suavidade, mais respeito e 
“humanidade .ˮ Na verdade, tais modificações se fazem concomitantes 
ao deslocamento do objeto da ação punitiva. Redução de intensidade? 
Talvez. Mudança de objetivo, certamente. 
 
Se não é mais ao corpo que se dirige a punição, em suas formas mais 
duras, sobre o que, então, se exerce? A resposta dos teóricos — 
daqueles que abriram, por volta de 1780, o período que ainda não se 
encerrou — é simples, quase evidente. Dir-se-ia inscrita na própria 
indagação. Pois não é mais o corpo, é a alma. À expiação que tripudia 
sobre o corpo deve suceder um castigo que atue, profundamente, sobre 
o coração, o intelecto, a vontade, as disposições. 
 
 
 
 
53 
 
 
 
 
Ao longo da história, a busca incansável por respostas a um dos 
problemas sociais mais graves do Brasil revela que o modelo 
adotado pelo sistema jurídico brasileiro, em teoria, considera o 
infrator como um indivíduo sujeito às leis, que pode ou não as 
cumprir por uma série de razões multifatoriais, nem sempre 
compreendidas por todos. Esse modelo leva ao estudo das 
causas e fatores da criminalidade, buscando ir além do simples 
castigo pelo mal causado. 
 
 
 
 
O objetivo é identificar o ponto inicial do desvio de conduta, 
adotando a pena não apenas como punição, mas como uma 
ferramenta de recuperação e tratamento do criminoso – uma 
utopia, para muitos. 
 
 
 
Motta 2011 investigou a estratégia, o cálculo político e a forma de 
racionalidade implementada com a prisão quando o sistema penal brasileiro foi 
reformado. Seu estudo seguiu uma abordagem filosófica e histórica, baseada 
em uma genealogia e arqueologia da ética e moral punitiva, e uma crítica da 
razão punitiva no Brasil. 
 
 
 
Para refletir 
 
A reflexão central do autor se resume em 
uma indagação ética sobre a punição que 
nos traz uma reflexão para o final deste 
tópico: por que a prisão foi eleita como uma 
solução inevitável para a crise do Antigo 
Regime, considerando as críticas às 
masmorras da época? 
 
 
54 
 
 
De fato, à letra da lei, as penas privativas de liberdade no Brasil têm como 
finalidade principal a reintegração social dos(as) presos(as), bem como o 
controle e a prevenção da criminalidade. Esse princípio está claramente 
expresso no primeiro artigo da Lei de Execução Penal brasileira, promulgada 
em 1984 
 
 
 
Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de 
sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a 
harmônica integração social do condenado e do internado. 
 
 
 
 
O estado de precarização generalizada enfrentado pelo sistema 
prisional brasileiro reflete uma realidade oposta ao que se 
idealiza legalmente. Qualquer medida a ser adotada para as 
prisões deve, em primeiro lugar, contemplar uma ampla reforma, 
tanto material — em termos físicos — quanto no pensamento 
punitivo e nas formas de punição, que, atualmente, estão 
claramente falidas. 
 
 
 
Na prática, as condições precárias do cárcere brasileiro 
funcionam como um fator propulsor para a “profissionalizaçãoˮ 
criminal dos internos, como evidenciado pelos elevados índices 
de reincidência no país. 
 
 
55 
 
 
 
2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do 
Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal 
 
 
 
O Supremo Tribunal Federal 
STF reconheceu, em 4 de 
outubro de 2023, a violação 
massiva de direitos 
fundamentais no sistema 
prisional brasileiro. Com a 
conclusão do julgamento da 
Arguição de Descumprimento 
de Preceito Fundamental 
ADPF 347, o tribunal 
determinou que o governo federal passe a elaborar um plano de intervenção 
para resolver a situação, com diretrizes para reduzir a superlotação dos 
estabelecimentos penais, o número de presos provisórios e a permanência em 
regime mais severo ou por tempo superior ao da pena. 
 
 
Na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 
ADPF 347, o autor, Partido Socialismo e Liberdade PSOL, 
apresentou uma série de pedidos visando enfrentar o Estado de 
Coisas Inconstitucional ECI no sistema prisional brasileiro. 
Entre os principais requerimentos, destacam-se: 
 
 
 
A determinação ao Governo Federal de elaborar e 
encaminhar ao Supremo Tribunal Federal STF um plano 
nacional, com prazo de três anos, para superar o quadro 
crítico do sistema penitenciário brasileiro; 
 
 
 
56 
 
 
 
Que esse plano incluísse propostas claras, metas 
objetivas, os recursos necessários para sua execução e 
um cronograma detalhado para a implementação das 
medidas; 
 
 
 
 
Que o plano fosse submetido à análise de órgãos como o 
Conselho Nacional de Justiça CNJ, Procuradoria-Geral 
da República PGR, Defensoria Pública da União DPU, 
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil 
CFOAB, Conselho Nacional do Ministério Público 
CNMP, entre outros, além da sociedade civil; 
 
 
 
 
Que o STF deliberasse sobre o plano apresentado, com 
a possibilidade de homologá-lo ou impor providências 
complementares e alternativas, se necessário; 
 
 
 
 
Após a homologação do plano nacional, que os governos 
estaduais e do Distrito Federal apresentassem, no prazo 
de três meses, planos próprios alinhados às diretrizes do 
plano nacional, com metas e propostas específicas para 
cada região; 
 
 
 
 
Que o STF analisasse e deliberasse sobre cada plano 
estadual e distrital, homologando-os ou impondo ajustes, 
conforme necessário; 
 
 
57 
 
 
 
Por fim, que o STF monitorasse a implementação dos 
planos nacional, estaduais e distrital, com o apoio do 
Departamento de Monitoramento e Fiscalização do 
Sistema Carcerário DMF e do Sistema de Execução de 
Medidas Socioeducativas do CNJ, garantindo que esse 
processo fosse público, transparente e aberto à 
participação da sociedade civil. 
 
 
 
Essa iniciativa refletiu a necessidade urgente de articulação e 
controle efetivo das ações governamentais para reverter a grave 
crise que atinge o sistema prisional brasileiro que, como visto no 
tópico anterior, há muito vem apresentando falhas 
incontestáveis, distanciando-se do seu objetivo. 
 
 
No contexto desse julgamento, o Ministro Edson Fachin 2015 afirmou que: 
 
 
Os estabelecimentos prisionais funcionam como instituições 
segregacionistas de grupos em situação de vulnerabilidade social. 
Encontram-se separados da sociedade os negros, as pessoas com 
deficiência, os analfabetos. E não hámostras de que essa segregação 
objetive – um dia – reintegrá-los à sociedade, mas sim, mantê-los 
indefinidamente apartados, a partir da contribuição que a precariedade 
dos estabelecimentos oferece à reincidência. 
 
 
Mais adiante, acresceu: 
 
 
Avista-se um estado em que os direitos fundamentais dos presos, 
definitivos ou provisórios, padecem de proteção efetiva por parte do 
Estado. 
 
 
58 
 
 
 
Após descrever a deplorável situação da população prisional no 
Brasil, o relator da ação, Ministro Marco Aurélio, confirmou que 
dela decorrem inúmeras violações de direitos humanos, bem 
como de preceitos básicos presentes na Lei de Execução Penal 
Lei n. 7.210/1984. Tais violações, de acordo com o Ministro, 
não impactariam, tão somente, situações subjetivas individuais, 
mas afetariam toda a sociedade. 
 
 
 
Portanto, concluiu que, no Brasil, cárceres não servem à ressocialização. Em 
suas palavras: 
 
 
 
No sistema prisional brasileiro, ocorre violação generalizada de direitos 
fundamentais dos presos no tocante à dignidade, higidez física e 
integridade psíquica. A superlotação carcerária e a precariedade das 
instalações das delegacias e presídios, mais do que inobservância, pelo 
Estado, da ordem jurídica correspondente, configuram tratamento 
degradante, ultrajante e indigno a pessoas que se encontram sob 
custódia. As penas privativas de liberdade aplicadas em nossos 
presídios convertem-se em penas cruéis e desumanas. Os presos 
tornam-se ‘lixo digno do pior tratamento possível ,̓ sendo-lhes negado 
todo e qualquer direito à existência minimamente segura e salubre. Daí o 
acerto do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na comparação 
com as ‘masmorras medievaisʼ Fachin, 2015. 
 
 
 
 
É importante mencionar que anos antes, em 2011, o Supremo 
Tribunal Federal do Brasil não utilizou formalmente a expressão 
"estado de coisas inconstitucional" como ocorreu em 2023, mas 
em caso relacionado reconheceu a inconstitucionalidade das 
condições de encarceramento no país, especialmente no que se 
referia à superlotação e à falta de infraestrutura nos presídios. 
Esse julgamento foi feito no contexto de uma ação movida pela 
Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que questionava as 
condições das prisões no Estado. 
 
 
59 
 
 
 
 
Fato é que embora a tomada de decisão da mais alta corte do 
país tenha sido recebida com entusiasmo por alguns estudiosos 
Campos, 2015; Rodriguez, 2015, a medida foi amplamente 
criticada por outros Streck, 2015; Glezer; Machado, 2015, 
principalmente devido aos resultados modestos observados na 
prática, desde então. Um exemplo claro disso é a persistente 
superlotação carcerária, que não obteve a redução esperada até 
o presente momento, mesmo com novos calorosos debates no 
ano de 2023 e 2024. 
 
 
 
 
Considerações Finais 
 
 
 
Encerramos o segundo módulo do curso 
com uma reflexão essencial sobre os 
direitos humanos no contexto histórico 
do sistema prisional, analisando o 
surgimento das prisões até as 
contradições e desafios que ainda 
persistem. 
 
 
 
 
 
 
 
Discutimos como esse sistema, em muitos casos, se distancia de seus 
objetivos proclamados, perpetuando desigualdades generalizadas. Essa 
realidade coloca em xeque a legitimidade constitucional das práticas vigentes, 
evidenciando a urgência de repensar o papel das prisões em nossa sociedade. 
 
 
60 
 
 
 
Ao longo do módulo, exploramos como a prisão tem sido historicamente 
utilizada mais como uma forma de punição do que de ressocialização, 
contrariando os princípios básicos que deveriam nortear a execução 
penal brasileira. 
 
 
 
Este olhar crítico nos permite 
entender que a questão não se 
resume à segurança pública, 
envolvendo questões extremamente 
profundas e multidisciplinares. A 
mais alta corte do país reconhecer 
as falhas sistêmicas do sistema 
prisional certamente é o primeiro 
passo para promover as 
indiscutíveis mudanças que se 
fazem necessárias. 
 
 
 
 
Agora, seguimos para o terceiro e último módulo do curso, em 
que serão abordadas questões inerentes aos grupos mais 
vulneráveis do sistema prisional brasileiro. 
 
 
 
 
Este será um momento de aprofundarmos as discussões sobre a 
diversidade e a vulnerabilidade de determinadas populações 
encarceradas, considerando suas particularidades e os desafios 
específicos que enfrentam de forma acentuada quando privados 
de liberdade. Esse módulo final trará uma visão ainda mais 
ampla e sensível para consolidar o aprendizado e fomentar 
práticas mais justas e inclusivas dentro do sistema prisional. 
 
 
 
 
 
61 
 
 
 
Referências 
 
 
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Nunes et al História das prisões no Brasil. Rio de Janeiro, Rocco, 2009. 
 
BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Lei de Execução Penal. Diário 
Oficial da União, 1984. 
 
BRITO, Lemos. Evolução do sistema penitenciário brasileiro nos últimos 25 
anos. Rio de Janeiro: 1946. p. 12 
 
CAMPOS, J. 2015. Reflexões sobre o impacto da ADPF 347/2015 nas 
políticas penitenciárias. 
 
CANCELLI, Elizabeth. As prisões brasileiras e a Casa de Detenção de São 
Paulo: uma análise da realidade penitenciária. 2005. 
 
CANCELLI, Elizabeth. "Repressão e controle prisional no Brasil: prisões 
comparadas". 2005. 
 
DOTTI, René Ariel. Execução penal no Brasil: aspectos constitucionais e legais. 
Revista 
 
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 1987. 
 
GLEZER, M.; MACHADO, R. 2015. Críticas ao Estado de Coisas 
Inconstitucional e os resultados insatisfatórios na prática. 
 
GOFFMAN, Erwing. Manicômios, Prisões e Conventos 1974, São Paulo, Ed. 
Perspectiva, 2012. 
 
HOFMEISTER, Carlos Freire. A pena privativa de liberdade e a inclusão social 
do preso na perspectiva dos direitos humanos. Florianópolis: 2002. 
 
HOFMEISTER, Silvio. A prisão e o tempo perdido: uma reflexão sobre a 
experiência penal. 2002. 
 
MAGALHÃES, A. 2018. Análise crítica da persistência das condições 
desumanas no sistema prisional brasileiro pós-ECI. 
 
62 
 
 
 
MAIA, José. História das penas e da criminalidade. 2009. 
 
MIRABETE, Júlio. Manual de direito penal. 21ª ed. São Paulo: Atlas, 2004. 
 
MOTTA, D. 2011. O cárcere e a política punitiva no Brasil: uma genealogia da 
prisão. São Paulo: Editora UNESP. 
 
MOURA, Thelma Maria de. Foucault e a Escola: Disciplinar, Examinar, Fabricar. 
Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Mestrado em Educação 
da Universidade Federal de Goiás. Goiânia/GO, 2010. 
 
NOGUEIRA, Romero da Silva. Detenções em Pernambuco: Discursos sobre a 
reformulação do sistema prisional no Estado 1970 – 1980. Bahia, 2020. 
 
ONODERA, José. História das prisões no Brasil e violações de direitos 
humanos. 2005. 
 
PIMENTEL, Roberto. A penitência e a punição na Idade Média. 1989. 
 
PIMENTEL, Roberto. Punição e poder: a história das instituições penais no 
Brasil. 1989. 
 
PRADO, M. 2008. História do crime e do castigo: as origens da punição e a 
tortura no século XVIII. São Paulo: Edusp. 
 
RODRIGUEZ, L. 2015. Desafios da implementação do Estado de Coisas 
Inconstitucional no Brasil. 
 
SALLA, Fernando. As Prisões de São Paulo: 18221940. 1999. 
 
SILVA, A. 2015. A violência do poder: uma análise da tortura e suas 
implicações no controle social. Rio de Janeiro: FGV. 
 
STRECK, L. 2015. O impacto das decisões do STF no sistema penal 
brasileiro: uma visão crítica. 
 
Supremo Tribunal Federal STF. ADPF 347/2015 - Estado de Coisas 
Inconstitucional no Sistema Prisional Brasileiro. 2015. 
 
Supremo Tribunal Federal STF. Relatório da ADPF 347/2015, Relator: Ministro 
Marco Aurélio. Violações de Direitos Humanos no Sistema Prisional Brasileiro. 
2015. 
 
63 
 
 
Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema 
prisional brasileiro 
 
 
Sejam bem-vindos ao terceiro e último módulo do curso Direitos 
Humanos e Sistema Prisional. Nesta etapa, mergulharemos em 
um tema de extrema relevância: os grupos mais vulneráveis que 
compõemo sistema prisional brasileiro. Esse módulo nos 
desafia a ampliar nosso olhar sobre a diversidade e 
subjetividades dentro das prisões, dispondo de orientações 
oficiais destinadas à custódia de pessoas LGBTQIA, mulheres, 
estrangeiros, indígenas, pessoas com deficiências e pessoas 
idosas. Entender as necessidades, vulnerabilidades e direitos 
desses grupos específicos é essencial para promover um 
sistema prisional mais justo e humanizado. 
 
 
 
 
Nesse sentido, é imperioso destacar que a qualificação profissional dentro 
desse contexto ganha ainda mais importância, pois permite que profissionais e 
gestores compreendam as questões específicas que afetam essas populações 
e possam ter maior assertividade. 
 
 
 
 
Cada um desses “gruposˮ enfrentam desafios únicos na 
sociedade, que se acentuam quando inseridas no sistema 
prisional, como a discriminação, invisibilidade e barreiras de 
acesso a direitos fundamentais. Compreender essas realidades 
é o primeiro passo para construir práticas que respeitem a 
dignidade humana e contribuam para uma execução penal mais 
justa e eficaz. 
 
 
64 
 
 
 
A SENAPPEN - Secretaria Nacional de Políticas Penais desenvolveu a 
Política Nacional de Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema 
Prisional, buscando igualdade efetiva e a garantia de direitos, 
considerando as especificidades de pessoas idosas, estrangeiras, 
população LGBTQIA, indígenas e minorias étnico-raciais, pessoas 
com deficiência ou em sofrimento psíquico e mulheres. As cartilhas 
foram produzidas pela SENAPPEN, em parceria com o Programa das 
Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, com vistas a estruturar 
um modelo de gestão democrático nas políticas penais. 
 
 
 
As notas técnicas da SENAPPEN fazem parte das atribuições do 
órgão, previstas no art.72 da Lei de Execução Penal LEP, de 
acompanhar a fiel aplicação das normas de execução penal em 
todo o Território Nacional, assistir e colaborar tecnicamente com 
as Unidades Federativas na implementação dos princípios, 
serviços e regras estabelecidas na LEP. 
 
 
 
 
Imagem 1 Coletânea Vulnerabilidade em Pauta – SENAPPEN 2023 
Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas
 
65 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas
 
 
 
Ao longo deste módulo, exploraremos como as interseccionalidades – 
ou seja, a sobreposição de diferentes identidades e desigualdades – 
impactam diretamente as vivências no cárcere. Essa abordagem nos 
permitirá refletir sobre estratégias para enfrentar as disparidades e 
garantir que o sistema prisional não reproduza ou agrave tais 
vulnerabilidades. 
 
 
 
 
 
3.1 População LGBTQIA 
 
 
 
 
 
 
Conjunto de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, 
Travestis, Intersexo e outras identidades que têm em comum o 
fato de estarem fora dos padrões da congeneridade e da 
heterossexualidade. 
 
 
 
Figura 1 - Bandeira LGBTQIAPN 
 
 
66 
 
 
 
 
Figura 2 Cores da Bandeira 
LGBTI 
 
 
A bandeira do orgulho LGBTI foi 
criada por Gilbert Baker San 
Francisco, 1978 e foi usada pela 
primeira vez na Gay and Lesbian 
Freedom Day March. Em seguida, 
foi adotada pela Pride Parade 
Committee e representa a 
diversidade humana. Suas cores 
significam, nos termos do que 
apresenta a 3ª edição do Manual de 
Advocacy, Litigância estratégica, 
Controle Social e Accountability 
LGBTI ,ˮ publicado pela Gay Latino 
e pela Aliança Nacional LGBTI no 
ano de 2021 
 
 
 
O "Manual de Advocacy, Litigância Estratégica, Controle Social 
e Accountability LGBTI" é um documento importante que 
aborda a luta pelos direitos humanos da população LGBTI no 
Brasil, com foco nas práticas de advocacy e estratégias de 
litigância para garantir a inclusão, proteção e igualdade dessa 
comunidade. 
 
 
 
 
O manual destaca a necessidade de um controle social efetivo e 
mecanismos de accountability (responsabilização) para garantir 
que os direitos dos indivíduos LGBTI sejam respeitados, 
especialmente em contextos de vulnerabilidade, como o sistema 
prisional, onde essa população enfrenta desafios significativos, 
como a violência, discriminação e a falta de políticas adequadas 
de proteção. 
 
 
67 
 
 
3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual 
 
 
Em termos gerais, o sexo biológico é atribuído ao nascimento e refere-se às 
características biológicas presentes no momento do nascimento, como 
cromossomos, composição hormonal,características anatômicas, entre outras 
Oliveira, 2015; Cunha, 2012. A genitália, que se desenvolve visivelmente a 
partir do terceiro mês de gestação, é um dos principais indicadores desse 
sexo, podendo resultar na “classificaçãoˮ da pessoa como macho, fêmea ou 
intersexo Caderno, 2017. É importante destacar que o sexo biológico, por si 
só, não implica necessariamente em gênero, que é uma construção social e 
cultural distinta. 
 
 
 
 
O SEXO BIOLÓGICO, portanto, nada mais é que a designação de 
sexo de uma pessoa sob a perspectiva estritamente biológica, 
diz respeito à sua conformação física e anatômica, 
restringindo-se à verificação de fatores genéticos 
(cromossomos), gonadais (ovários ou testículos), genitais (pênis 
ou vagina) ou morfológicos (aspectos físicos externos gerais). 
 
 
 
Esse critério não define a identidade de gênero da pessoa, que veremos a 
seguir mas, antes, convém conceituar pessoas intersexo. 
 
 
 
Intersexualidade / Pessoas intersexo: é um termo guarda-chuva que 
descreve pessoas que nascem com anatomia reprodutiva ou sexual 
e/ou um padrão de cromossomos que não podem ser classificados 
como sendo tipicamente masculinos ou femininos Glaad, 2016. Ainda é 
comum a prescrição de terapia hormonal e a realização de cirurgia, 
destinadas a adequar aparência e funcionalidade da genitália, muitas 
vezes antes dos 24 meses de idade. 
 
 
68 
 
 
Contudo, algumas pessoas intersexo submetidas a este processo relatam que 
não se adaptaram e rejeitaram o sexo designado ao nascimento, respaldando 
uma conduta terapêutica que defende o adiamento da intervenção até que a/o 
jovem sujeito possa participar na tomada da decisão Santos; Araujo, 2004. 
Não se deve utilizar o termo hermafrodita para se referir a uma pessoa 
intersexo, é um termo desatualizado e depreciativo. 
 
 
Há várias formas de intersexualidade em razão das 
configurações dos cromossomos, a localização dos órgãos 
genitais e a coexistência de tecidos testiculares e de ovários. A 
intersexualidade refere-se a um conjunto amplo de variações 
dos corpos tidos como masculinos e femininos. São catalogadas 
na Medicina mais de 40 (quarenta) variações de 
intersexualidade. São designadas como pessoas intersexo. 
 
 
 
 
 
 
A IDENTIDADE DE GÊNERO, como dito, independe do sexo 
biológico. Identidade de gênero é uma experiência interna e 
individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não 
corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o 
senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, 
modificação da aparência ou função corporal por meios 
médicos, cirúrgicos e outros) e outras expressões de gênero, 
inclusive vestimenta e modo de falar (expressões de gênero) 
Princípios, 2006. 
 
 
 
 
 
 
 
Refere-se às maneiras como o gênero é demonstrado socialmente, 
no uso de vestimentas, modo de falar e de estilo, de agir e de 
interagir. 
 
 
69 
 
 
 
É por essa razão que sexo é 
biológico, diferentemente de 
gênero, que é uma construção 
social, pois este decorre de papéis 
construídos a partir de interações 
humanas no âmbito da sociedade, 
que podem sofrer interferência 
histórica e cultural. 
 
 
 
 
A partir disso, tem-se: 
 
 
 
Cisgênero: termo utilizado para descrever pessoas que 
não são transgênero (mulheres trans, travestis e homens 
trans). “Cis-ˮ é um prefixo em latim que significa “no 
mesmo lado queˮ e, portanto, é oposto de “trans-ˮ 
Glaad, 2016. Refere-se ao indivíduo que se identifica, 
em todos os aspectos, com o gênero atribuídoao 
nascer. 
 
 
 
 
Transgênero: terminologia utilizada para descrever 
pessoas que transitam entre os gêneros. São pessoas 
cuja identidade de gênero transcende as definições 
convencionais de sexualidade ABGLT, 2010. Segundo 
Letíci Lanz 2015, não faz sentido escrever “travestis, 
transexuais e transgêneros ,ˮ ou usar TTT na sigla 
LGBTI, uma vez que travestis e transexuais são 
transgênero por definição. É um termo "guarda-chuva", 
que pode ser desdobrado em: 
 
 
70 
 
 
 
 
● MULHER TRANSEXUAL MULHER TRANS é a 
pessoa que apesar de ter sido designada com o sexo 
masculino no nascimento, identifica-se como 
pertencente ao gênero feminino. 
 
● HOMEM TRANSEXUAL HOMEM TRANS é a pessoa 
que apesar de ter sido designada com o sexo 
feminino no nascimento, identifica-se como 
pertencente ao gênero masculino. 
 
● TRAVESTI é uma identidade de gênero autônoma de 
uma pessoa que, apesar de ter sido designada como 
o sexo masculino no nascimento, identifica-se como 
travesti e deve ser tratada como pertencente ao 
gênero feminino. Identidade autônoma. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em 1º de março de 2018, em julgamento da Ação Direta de 
Inconstitucionalidade ADI nº 4275, o Supremo Tribunal Federal 
determinou que a retificação do registro civil (alteração de nome) no 
tocante às pessoas trans e travestis deve se dar de modo 
desburocratizado – ou seja, sem demanda judicial, nos próprios 
cartórios, por meio de autodeclaração –, sem limite de idade 
(respeitando a maioridade civil e a representação dos responsáveis 
no caso das pessoas menores de idade), sendo desnecessária tanto 
a apresentação de laudos psicológicos e psiquiátricos quanto a 
cirurgia de readequação sexual. 
 
 
 
71 
 
 
 
 
 
 
Refere-se à forma como nos sentimos em relação à afetividade e à 
sexualidade, além de referir-se à capacidade que cada pessoa tem 
em sentir uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por 
indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero, de mais de um 
gênero ou de nenhum gênero, assim como ter relações íntimas e 
sexuais com essas pessoas1. 
 
 
Sob este critério, tem-se: 
 
 
 
 
HETEROSSEXUALIDADE: Capacidade de sentir atração afetiva, 
emocional, e/ou sexual por pessoas do gênero oposto. As 
pessoas que se identificam com a heterossexualidade são 
chamadas de heterossexuais. 
 
HOMOSSEXUALIDADE: Capacidade de sentir atração afetiva, 
emocional e/ou sexual por pessoas do mesmo gênero. As 
pessoas que se identificam com a homossexualidade são 
chamadas de homossexuais. 
 
 
 
A homossexualidade pode ser: 
 
1 Adaptada da definição contida nos Princípios de Yogyakarta: Princípios sobre a aplicação 
da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade 
de gênero. Yogyakarta, Indonésia, 2006, p. 7. 
 
72 
 
 
 
 
 
73 
 
 
3.1.2 Política do Nome Social 
 
 
 
É assegurado à pessoa transexual, travesti e intersexos em 
situação de prisão o acesso à política nacional do nome social, 
através do Decreto Federal no 8.727/2016, garantindo-lhe o 
direito de ser chamada ou chamado por seu nome próprio 
autoidentificado, mesmo que em desacordo com o que está no 
seu registro civil. 
 
 
 
Imagem 1 – Novo documento de identidade brasileiro, contendo campo com 
nome social. 
 
 
 
 
O reconhecimento do nome social é uma conquista importante, 
especialmente para travestis e transexuais, que enfrentam o 
constrangimento de serem identificadas por nomes que 
remetem a um gênero com o qual não se identificam. Assim, 
quando uma pessoa se reconhece e se apresenta como 
pertencente a um gênero distinto de seu sexo biológico, 
manifestando publicamente o desejo de ser tratada dessa 
forma, esse direito deve ser respeitado e garantido. 
 
 
74 
 
 
 
Destaca-se que a mudança de nome e gênero nos documentos 
oficiais pode ser realizada sem a necessidade de ação judicial, 
simplificando o processo e fortalecendo a dignidade dessas 
pessoas. No entanto, para menores de 18 anos, a via judicial 
ainda é exigida, sendo imprescindível que os pais ou 
representantes legais ingressem com a ação solicitando a 
alteração da certidão de nascimento. 
 
 
 
A Corregedoria Nacional de Justiça restringe a alteração somente ao prenome 
e agnome – como Filho, Sobrinho ou Júnior. Não podem ser alterados os 
nomes de família (sobrenome). 
 
 
Na unidade prisional, a pessoa “Tˮ possui o direito à inclusão de 
seu nome social em todos os documentos oficiais, sendo 
assegurada a gratuidade na emissão de retificação de 
documentos civis, providência que pode ser adotada pelo 
serviço social de cada estabelecimento penal (art. 11, VII, “c ,ˮ da 
Resolução do CNJ nº. 348/2020. 
 
 
 
Observa-se que, diante de uma prisão, caso não conste da Guia de 
Recolhimento à Prisão o nome social da pessoa trans ou travesti, a 
informação deverá ser imediatamente providenciada e inclusa no 
sistema oficial do sistema prisional dos Estados e Distrito Federal. 
 
 
 
 
 
Assista, na sequência, um vídeo complementar 
sobre o assunto: 
Nome Social: Cidadania e Respeito (legendado) 
Acesso em 6 mai. 2025.) 
https://youtu.be/f4aphXF4Sn8 
 
 
75 
https://youtu.be/f4aphXF4Sn8
 
 
3.1.3 Crime de LGBT+fobia 
 
 
Em junho de 2019, em um julgamento 
histórico, o Supremo Tribunal Federal 
STF decidiu, por oito votos a três, a 
favor da criminalização da LGBTfobia. Na 
Ação Direta de Inconstitucionalidade por 
Omissão ADO, relatada pelo ministro 
Celso de Mello, a Corte reconheceu a 
prática de condutas discriminatórias 
contra pessoas LGBTQIA como 
equiparação ao crime de racismo, 
determinando sua aplicação até que o 
Congresso Nacional elabore uma 
legislação específica sobre o tema. 
 
 
 
Portanto, a partir da decisão, quem ofender ou discriminar pessoas 
pertencentes ao público LGBTQIA está sujeito a punição de um a três anos de 
prisão, prevista na Lei no 7.716/89, crime inafiançável e imprescritível, 
demonstrando que condutas LGBTfóbicas são intoleráveis, como declarou o 
Ministro Celso de Mello em seu voto: 
 
 
"Direitos relativos à orientação sexual e à identidade de gênero são 
reconhecidos, hoje, nacional e internacionalmente, como essenciais 
para a dignidade e humanidade da pessoa humana, integrando o núcleo 
dos direitos à igualdade e à não-discriminação. 
 
Os referidos Princípios de Yogyakarta voltam-se a tutelar o indivíduo 
diante da violência, do assédio, da discriminação, da exclusão, da 
estigmatização e do preconceito dirigidos contra pessoas em todas as 
partes do mundo por causa de sua orientação sexual ou identidade de 
gênero. 
 
Esses grupos, por serem minoritários e, não raro, vítimas de preconceito 
e violência, demandam especial proteção do Estado. 
 
 
76 
 
 
Nesse sentido, a criminalização de condutas discriminatórias não é só 
um passo importante, mas também obrigatório, eis que a 
Constituição contém claro mandado de criminalização neste sentido: 
conforme o art. 5º, XLI, “a lei punirá qualquer discriminação 
atentatória dos direitos e liberdades fundamentaisˮ (grifo nosso). 
 
 
 
 
 
O relatório da Associação Nacional 
de Transexuais do Brasil, divulgado 
em janeiro de 2023, revelou um 
dado alarmante: em 2022, foram 
registrados 131 homicídios de 
pessoas transexuais no país. Pelo 
14º ano consecutivo, o Brasil lidera o 
ranking mundial de assassinatos de 
pessoas trans, entre 80 países 
monitorados. 
 
 
 
 
 
Em números absolutos, Pernambuco foi o estado com o maior número de 
homicídios de pessoas trans em 2022, totalizando 13 casos. Em seguida, 
aparecem São Paulo e Ceará, com 11 mortes cada. Minas Gerais ocupa a quarta 
posição, com 9 assassinatos, e o Rio de Janeiro figura logo abaixo, com 8 
casos. 
 
 
Dos 131 homicídios registrados, 130 foram de mulheres trans e 
apenas um de homem trans. A vítima mais jovem tinha apenas 
15 anos de idade. Esse contexto reflete a dura realidade 
enfrentada pela população trans no Brasil, cuja expectativa de 
vida média é de apenas 32 anos. 
 
 
77A violência contra a população LGBTQIAPN está estritamente 
relacionada à discriminação contra essa população, o que foi 
cunhado com o termo “LGBTfobia ,ˮ definido como “todo e 
qualquer tipo de conduta decorrente de uma aversão à 
identidade de gênero e/ou orientação sexual de alguém que 
possa gerar dano moral ou patrimonial, lesão ou qualquer tipo 
de sofrimento físico, psicológico e/ ou sexual ou morte .ˮ 
 
 
 
 
 
 
 
É qualquer crime cometido contra uma pessoa ou contra propriedade 
motivado por hostilidade ou preconceito com base em deficiência, 
raça, religião, identidade de gênero ou orientação sexual Crown 
Prosecution Service, 2012. No contexto LGBTI, a expressão é 
usada para descrever crimes motivados por sentimentos 
LGBTIfóbicos. 
 
 
 
 
 
 
É um termo utilizado para se referir à postura do Estado, por meio da 
legislação, da omissão ou de atos de seus servidores públicos ao 
promoverem discriminação ou incitarem o ódio, a hostilidade e 
reprovação das pessoas LGBTI em ambientes públicos. 
 
 
 
 
 
Alguns Estados brasileiros se destacam em suas jurisprudências 
condenando pessoas que cometem LGBTFOBIA, explicitando 
diferentes níveis de proteção. São eles: Amazonas, Distrito 
Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas 
Gerais, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, 
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo Politize, 2024. 
 
78 
 
 
3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA nº 2, de 26 março de 
2024, que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas 
LGBTQIA em privação de liberdade no Brasil 
 
 
 
 
 
Considerando que o artigo 2º da Resolução nº 348 do 
Conselho Nacional de Justiça CNJ visa assegurar o 
direito à vida, à integridade física e mental da população 
LGBTQIA, além de proteger sua integridade sexual, 
liberdade de expressão de identidade de gênero e 
orientação afetiva, emocional e/ou sexual, a norma também 
reforça o reconhecimento do direito à autodeterminação de 
gênero e sexualidade. Essa proteção se estende à garantia 
de acesso à educação, trabalho e demais direitos previstos 
em instrumentos legais e internacionais, especialmente no 
contexto de pessoas privadas de liberdade, submetidas a 
alternativas penais ou monitoramento eletrônico. 
 
 
 
 
 
 
 
Dessa forma, o Conselho Nacional de Política Criminal e 
Penitenciária CNPCP, em parceria com o Conselho Nacional 
LGBTQIA CNLGBTQIA, publicou em 26 de março de 2024 a 
Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA 2/2024, que 
estabelece diretrizes nacionais para o acolhimento e tratamento 
da população LGBTQIA no sistema penitenciário, promovendo 
maior equidade e proteção a essa população em um ambiente 
historicamente vulnerável. 
 
79 
 
 
 
A Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA 2/2024 assegura às 
pessoas autodeclaradas mulheres e homens transexuais, 
travestis e pessoas não binárias o direito de optar por uma 
unidade prisional masculina ou feminina para cumprir a 
sentença, bem como a possibilidade de ser alocadas em alas ou 
celas específicas para a população LGBTQIA dentro da prisão 
escolhida. 
 
 
 
Entre os temas abordados pela Resolução, destacam-se: 
 
 
 
● os conceitos fundamentais, 
● a custódia, 
● alocação, 
● autodeclaração, 
● as situações de fraude; 
● as normas para busca ou revista pessoal, além de revistas em 
visitantes; e 
● o direito à saúde, educação, assistência social e trabalho para 
essa população. 
 
 
 
 
A implementação dessa Resolução é de extrema importância, pois seu 
conteúdo é o mais abrangente já estabelecido no país, e deve ser 
rigorosamente seguido por toda a administração prisional, visando 
garantir os direitos e a segurança da população LGBTQIA no sistema 
carcerário. 
 
 
80 
 
 
 
3.2 Mulheres 
 
 
 
Conforme dados do 17º Ciclo do Relatório Nacional de 
Informações Penais SISDEPEN, referente ao segundo semestre 
de 2024 e publicado no primeiro semestre de 2025, o Brasil 
contabiliza um total de 29.137 (vinte e nove mil, cento e trinta e 
sete) mulheres privadas de liberdade. Ressalta-se que esse 
número segue em tendência de crescimento, apresentando 
variações significativas entre as unidades da Federação, 
incluindo os Estados e o Distrito Federal. 
 
 
 
 
 
Diante deste contexto, é importante citar que: 
 
 
 
Entre as vulnerabilidades a que você precisa estar atento, com relação 
às mulheres no sistema prisional, estão a dificuldade de acesso a 
cuidados de higiene adequados, a uma atenção ginecológica e 
obstétrica eficiente e humana, a prevenção e diagnóstico precoce de 
câncer de colo uterino e mama, a doenças sexualmente transmissíveis, 
bem como a doenças e agravos mais comuns nessa população em 
geral, com ênfase aos agravos psicossociais. Outra importante 
vulnerabilidade é a violência a que as mulheres podem estar expostas – 
tanto a institucional quanto entre elas próprias –, além do risco de 
ocorrer violência sexual UFSC, 2015, p. 11. 
 
81 
 
 
 
Acerca do encarceramento de mulheres no Brasil, o Ministério 
da Justiça e Segurança Pública destaca: 
 
 
 
Imagem 2 – Dados gerais sobre mulheres em privação de liberdade no Brasil. 
 
 
 
Fonte: Sisdepen, 2023. 
 
 
 
3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas 
 
Segundo o Conselho Nacional de Justiça 2023, desde a regulamentação da 
audiência de custódia no Brasil, em 2015, foram realizadas mais de 1.200.000 
audiências. Esse mecanismo, ao proporcionar uma avaliação judicial mais 
imediata da prisão, tem sido especialmente relevante para a população 
feminina, que apresenta um perfil de alta vulnerabilidade. 
 
82 
 
 
 
 
A audiência de custódia pode se configurar como um espaço 
fundamental para reverter o ciclo de reincidência, conhecido 
como o efeito da "porta giratória", ao possibilitar a construção 
de alternativas que interrompam o retorno das mulheres ao 
sistema prisional. Essa prática oferece, portanto, uma 
oportunidade de repensar o tratamento dado às mulheres no 
sistema penal e buscar soluções que priorizem a reintegração 
social e a garantia de seus direitos. 
 
 
 
A pesquisa "Dados Gerais de Prisões em Flagrante Durante a 
Pandemia Covid-19" do Conselho Nacional de Justiça CNJ 
destaca uma questão relevante: apesar de o Código de 
Processo Penal brasileiro garantir que mulheres grávidas ou 
mães de crianças menores de 12 anos estão protegidas contra o 
encarceramento, essa informação estava ausente em quase 
metade dos autos de prisão em flagrante analisados. 
 
 
 
 
Outro ponto discutido foi a utilização da monitoração eletrônica 
como alternativa ao encarceramento. De acordo com um estudo 
realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, que entrevistou 
mulheres em 10 Estados do Brasil, 85% das participantes 
relataram enfrentar dificuldades relacionadas ao preconceito, 
estigma social, barreiras para o acesso ao mercado de trabalho, 
sofrimento mental, além de problemas físicos, como alergias e 
ferimentos causados pelo uso das tornozeleiras eletrônicas. 
 
 
 
 
Esses desafios evidenciam a complexidade da implementação 
de alternativas penais, que, embora menos onerosas em relação 
ao encarceramento, podem apresentar impactos significativos 
na vida das mulheres. 
 
83 
 
 
 
 
 
 
É importante salientar os destaques de alguns pontos da 
Portaria Interministerial nº 210, de 16 de janeiro de 2014, 
que institui a Política Nacional de Atenção às Mulheres em 
Situação de Privação de Liberdade e Egressas do Sistema 
Prisional. Vejamos: 
 
 
 
 
 
 
 
Diretrizes: 
 
 I – Prevenção de todos os tipos de violência contra mulheres em 
situação de privação de liberdade, em cumprimento aos instrumentos 
nacionais e internacionais ratificados pelo Estado Brasileiro relativos ao 
tema; 
 
IV Humanização das condições do cumprimento da pena, garantindo 
o direito à saúde, educação, alimentação, trabalho, segurança, proteção 
à maternidade e à infância, lazer, esportes, assistência jurídica, 
atendimento psicossocial e demaisdireitos humanos; 
 
V Fomento à adoção de normas e procedimentos adequados às 
especificidades das mulheres no que tange a gênero, idade, etnia, cor 
ou raça, sexualidade, orientação sexual, nacionalidade, escolaridade, 
maternidade, religiosidade, deficiências física e mental e outros 
aspectos relevantes; 
 
VII Incentivo à formação e capacitação de profissionais vinculados à 
justiça criminal e ao sistema prisional, por meio da inclusão da 
temática de gênero e encarceramento feminino na matriz curricular e 
cursos periódicos; 
 
 
 
84 
 
 
 
VIII Incentivo à construção e adaptação de unidades prisionais para o 
público feminino, exclusivas, regionalizadas e que observem o disposto 
na Resolução no 9, de 18 de novembro de 2011, do Conselho Nacional 
de Política Criminal e Penitenciária. 
 
Objetivos destacados: 
 
I Fomentar a elaboração das políticas estaduais de atenção às 
mulheres privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, com 
base nesta Portaria; 
 
II Induzir para o aperfeiçoamento e humanização do sistema 
prisional feminino, especialmente no que concerne à arquitetura 
prisional e execução de atividades e rotinas carcerárias, com atenção 
às diversidades e capacitação periódica de servidores. 
 
 
 
 
Além da portaria mencionada, as Diretrizes para a Convivência 
Mãe-Filho/a no Sistema Prisional Brasileiro também 
desempenham um papel fundamental na promoção dos direitos 
das mulheres e crianças no contexto carcerário. De acordo com 
o documento, enquanto a prisão domiciliar não for concedida, 
"é obrigação da administração penitenciária promover a 
convivência e a manutenção dos vínculos entre mulheres e 
seus filhos/as". 
 
 
 
Essas diretrizes foram elaboradas em um evento realizado em Brasília nos dias 
1 e 2 de março de 2016, com o objetivo de apresentar orientações específicas 
para o tratamento das mulheres gestantes e mães no sistema prisional. A 
iniciativa visa garantir a proteção e o bem-estar das mulheres, reconhecendo a 
importância dos vínculos familiares para o desenvolvimento das crianças e a 
dignidade das mães encarceradas. 
 
 
 
85 
 
 
As orientações discorrem sobre: 
 
 
 
● O momento da prisão e ingresso na unidade prisional; 
● O abrigamento de crianças no sistema prisional e convivência 
mãe-filho/a; 
● A manutenção de vínculos e contato com o mundo exterior; 
● A promoção da cidadania das mulheres privadas de liberdade 
e de seus/suas filhos/as – educação, saúde, trabalho e 
assistência social; 
● Saúde: acompanhamento pré-natal, do parto e nascimento, 
do aleitamento materno e da atenção para a saúde da 
criança; 
● Espaços de convivência mãe-filho/a e as regras diferenciadas 
de segurança para gestantes, parturientes e mães com 
filhos/as, bem como a prevenção da destituição do poder 
familiar. 
 
 
 
 
De acordo com a Resolução 
nº 04/2009 do Conselho 
Nacional de Política Criminal 
e Penitenciária CNPCP, 
mulheres que ingressarem no 
sistema prisional como 
lactantes, gestantes que 
derem à luz durante o período 
de prisão, ou mães de 
crianças que necessitem de 
cuidados específicos, como 
no caso de deficiência, 
devem ter assegurado o 
direito de convivência com 
seus filhos/as até que a 
criança atinja um ano e meio 
de idade. 
 
 
86 
 
 
 
Esse período de convivência é considerado essencial para o 
desenvolvimento físico e psíquico das crianças, além de ser 
crucial para a formação do vínculo afetivo entre mãe e filho/a. O 
documento destaca que, quando possível, essa convivência 
deve ser garantida de maneira a promover a saúde e o 
bem-estar tanto da criança quanto da mãe, respeitando os 
direitos de ambas no contexto do encarceramento e: 
 
 
 
 
 
● O prazo de um ano e meio de idade da criança deverá ser 
entendido como mínimo; 
● A permanência da criança deverá ser fixada a partir de 
análise do caso individual, com a participação das equipes 
interdisciplinares, tendo em vista o melhor interesse da 
criança; 
● O tempo de permanência independe do aleitamento materno 
e deve estar ancorado na promoção do desenvolvimento 
físico e psíquico das crianças, bem como na identificação e 
preparação de alternativas adequadas para a guarda da 
criança extramuro. 
 
 
 
O documento oficial deixa claro que não devem ser estabelecidos parâmetros 
rígidos para a duração da permanência de uma criança em um estabelecimento 
penal. A decisão sobre o tempo de convivência deve ser tomada com base no 
acompanhamento das equipes interdisciplinares, considerando a autonomia da 
mãe para iniciar o processo de separação. 
 
 
 
Em nenhum momento, conforme o documento, é aceitável a 
interrupção forçada do período de amamentação como forma de 
acelerar o afastamento entre mãe e filho/a. Isso reforça a importância 
de se buscar a solução mais adequada para a guarda da criança, com a 
disponibilidade de familiares para assumir os cuidados, a fim de 
proteger o desenvolvimento psíquico e afetivo da criança. 
 
 
87 
 
 
 
A separação da criança da mãe deve ser preparada e 
implementada de forma gradativa, com acompanhamento das 
equipes multidisciplinares do estabelecimento prisional em 
articulação com o Centro de Referência de Assistência Social 
CRAS. 
 
 
 
Assim, deve-se iniciar um período de transição que contemple a 
presença do novo responsável pela guarda junto da criança na 
unidade prisional durante maior tempo possível, somado à visita 
da criança ao novo lar. Neste ínterim, o período de tempo 
semanal equivalente de permanência no novo lar e junto à mãe, 
na prisão; e visitas da criança por período prolongado à mãe. 
 
 
 
 
A Secretaria Nacional de Políticas Penais e 
Penitenciárias SENAPPEN (antigo 
Departamento Penitenciário Nacional) 
publicou a Nota Técnica nº 
17/2020/DIAMGE/CGCAP/DIRPP/DEPEN/M
J, com orientações sobre os 
procedimentos que devem ser adotados no 
caso de mulheres com crianças 
ingressarem em unidades prisionais 
brasileiras, devido à sua especial 
vulnerabilidade. 
 
 
 
 
No caso de mulheres presas, a gestão prisional é responsável 
por observar a faixa etária, identidade de gênero, peso e se a 
pessoa possui algum tipo de deficiência física ou mental. Deve o 
estabelecimento penal: 
 
 
88 
 
 
 
 
 
Perguntar à mulher presa se ela possui filhos menores de idade, 
sendo resposta positiva, perguntar a localização dos filhos; 
 
 
 
 
 
Informar imediatamente sobre a condição de prisão da mãe e da 
necessidade de atenção aos menores de idade (descrevendo 
com clareza as informações ditas pela mãe sobre a criança), 
através de ofício, de e-mail e de telefone, à Vara da Infância e 
Juventude, Conselho Tutelar da localidade de residência 
informada pela mulher presa, Defensoria Pública do Estado e à 
Vara de Execuções Criminais ou Vara de Execuções Penais; 
 
 
 
 
 
Caso a mulher presa seja idosa e não possua documentação, 
considerar a priori a idade informada informalmente até 
confirmação oficial; 
 
 
 
 
 
Perguntar se a mulher presa (idosa ou não) possui alguma 
doença no pulmão, no coração, no rim e no fígado, tuberculose, 
distúrbio metabólico (incluindo diabetes mellitus), transtorno 
mental que possa afetar a função respiratória, necessidade de 
medicamentos para aumentar a imunidade, como câncer, 
HIV/AIDS e outros; 
 
 
 
89 
 
 
 
 
 
Perguntar se a mulher presa está grávida (ou suspeita que 
esteja) ou teve filho nas últimas 2 semanas; 
 
 
 
 
 
Caso haja suspeita de gravidez, antes de incluir a presa com as 
demais, providenciar teste; 
 
 
 
 
 
Se houver relato ou suspeita de mulher com doença crônica, 
parturiente ou de gestação, organizar de imediato a consulta 
médica para que seja examinada a saúde da pessoa presa; 
 
 
 
 
 
Passado tempo de triagem, alocar a pessoa idosa, gestante, 
obesa ou parturiente em espaço de vivência específico; e 
 
 
 
 
 
 
Registrar as informações por meio de formulários ou sistemas 
informatizados destinados a essa finalidade. 
 
 
 
 
90Por fim, para nos subsidiar neste sentido, ainda temos a 
Resolução nº. 252 de 04/09/2018, que prevê a proibição do uso 
de algemas ou de outros meios de contenção em mulheres em 
trabalho de parto ou pós-parto, observando-se a Lei 
13.434/2017, que também assegura a permanência da escolta, 
mesmo que feminina, do lado de fora da sala durante o trabalho 
de parto e a realização de exames e garante que o transporte da 
criança deverá ocorrer em companhia da mãe, pai ou pessoa 
por ela indicada, sem uso de algemas. 
 
 
 
 
 
3.3 Pessoas Indígenas 
 
 
 
Em resposta à realidade de pessoas 
indígenas privadas de liberdade, o 
Conselho Nacional de Justiça CNJ 
aprovou, em junho de 2019, uma 
Resolução importante que estabelece 
procedimentos específicos para o 
tratamento de indígenas envolvidos no 
sistema de justiça penal. Essa resolução 
se baseia no Estatuto do Índio, na 
Convenção nº 169 da Organização 
Internacional do Trabalho OIT sobre 
Povos Indígenas e Tribais, e na 
Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, entre outras normativas 
internacionais aplicáveis. 
 
 
91 
 
 
O principal objetivo da Resolução é 
garantir os direitos dos povos indígenas 
no sistema penal brasileiro. Entre as 
medidas previstas, destacam-se a 
disponibilização de intérpretes para 
aqueles que não falam português e a 
realização de perícias antropológicas 
para auxiliar na compreensão dos fatos. 
Além disso, a responsabilização de 
indígenas deve respeitar os mecanismos 
de justiça próprios das comunidades, 
promovendo um tratamento que 
considere suas especificidades culturais 
e jurídicas. 
 
 
A responsabilização de indígenas no sistema penal deve 
respeitar os mecanismos próprios de resolução de conflitos, 
permitindo a adoção ou homologação de práticas que estejam 
em conformidade com os costumes e normas dessas 
comunidades, conforme estipulado pelo Estatuto do Índio Lei 
6.001/73. Para as mulheres indígenas, o tratamento penal 
deverá considerar a possibilidade de prisão domiciliar, 
preferencialmente cumprida na comunidade, e garantir o 
acompanhamento adequado das beneficiadas pela progressão 
de regime. 
 
 
 
 
 
Nesse contexto, a Secretaria Nacional de Políticas Penais 
publicou a Nota Técnica nº 53, que fornece orientações sobre a 
custódia de pessoas indígenas privadas de liberdade. O 
documento contém recomendações para os órgãos estaduais 
de administração penitenciária, com o objetivo de assegurar o 
tratamento adequado, alinhado aos preceitos nacionais e 
internacionais que envolvem essa temática. Entre os destaques 
da Nota, estão as medidas de acolhimento e respeito às 
especificidades culturais e jurídicas das populações indígenas 
no sistema penitenciário. 
 
92 
 
 
Destaca-se: 
 
 
 
 
 
DA PORTA DE ENTRADA 
1º - Perguntar o nome completo da pessoa indígena; 
2º - Caso a pessoa não fale/domine a língua portuguesa, 
demonstre incompreensão quanto aos procedimentos a 
que está sendo submetida ou quanto às regras de 
comportamento do estabelecimento prisional, deverá ser 
providenciada a presença de intérprete (preferencialmente 
membro da comunidade a que pertence a pessoa presa); 
3º - Perguntar o nome do povo/etnia ao qual/a qual 
pertence, a língua que fala e onde vive (aldeia/terra 
indígena/comunidade); 
4º - Perguntar se a pessoa possui alguma documentação; 
5º - Informar imediatamente à FUNAI local, ou regional 
mais próxima, os dados da pessoa indígena presa para 
conhecimento e providências; 
6º - Alocar a pessoa indígena em segurança. 
 
DO CADASTRO 
O cadastro das pessoas indígenas deve ser realizado 
segundo o princípio de identificação de pertencimento 
mediante autodeclaração étnica, conforme definido no 
artigo 1° da Convenção 169, promulgada pelo Decreto 
5.051/04. 
 
 
 
 
93 
 
 
 
 
 
 
Vale destacar! 
 
 
Ainda é importante considerar que o fato de uma pessoa não se 
identificar como indígena no sistema prisional pode não ser uma 
escolha pessoal, mas sim uma estratégia de autopreservação. 
Isso ocorre devido ao medo da discriminação e da violência que 
as pessoas indígenas enfrentam dentro do cárcere, com relatos 
delas sendo alvo de agressões e até mesmo homicídios. 
 
 
 
 
 
 
Atenção! 
 
 
Em muitos casos, a pessoa indígena opta por não se 
autodeclarar para evitar que informações como o boletim de 
ocorrência, a autodeclaração anterior ou a comprovação de 
moradia em terras indígenas sejam usadas contra ela, 
resultando em violência por parte de outros internos. 
 
 
 
 
 
Nesse contexto, antes de questionarem sobre a identidade étnica de uma 
pessoa, os policiais penais devem informar claramente sobre a possibilidade de 
autodeclaração e as garantias legais associadas a essa escolha. Além disso, é 
fundamental que, ao realizar o cadastro de um indivíduo no sistema penal, seja 
feita a pergunta específica: "Você se considera indígena?", uma vez que muitos 
indígenas podem ter dificuldades em entender os critérios de classificação 
racial tradicionais, como os utilizados pelo IBGE. 
 
 
94 
 
 
Esse procedimento visa assegurar que a identidade indígena 
seja tratada com o devido respeito, evitando riscos de exclusão 
ou violência dentro do sistema prisional. Em caso positivo, 
deve-se, em seguida, perguntar: “Qual o seu povo/etnia? .ˮ 
 
 
Acrescenta-se: 
 
 
 
DA DOCUMENTAÇÃO 
A obtenção da documentação civil básica e a regularização da situação 
documental da pessoa indígena deve seguir o fluxo regular de todo 
cidadão. 
 
DA LINGUAGEM 
A língua indígena é parte integrante da identidade de um povo, sendo 
um direito dos povos indígenas manterem e se expressarem em sua 
língua. A proibição consiste em violação ao direito reconhecido pela 
Constituição Federal de 1988 em seu artigo 231 
 
São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, 
crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que 
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e 
fazer respeitar todos os seus bens. 
 
 
 
 
Para as pessoas indígenas privadas de liberdade que não 
possuem pleno domínio da língua portuguesa, é 
responsabilidade da administração penitenciária fornecer um 
serviço de intérprete, incluindo no momento do cadastro no 
estabelecimento prisional. Esse procedimento deve ser adotado 
sempre que a pessoa indígena demonstrar dificuldade em 
compreender os procedimentos aos quais está sendo 
submetida, bem como as regras de conduta do local. 
 
 
95 
 
 
 
Idealmente, o intérprete será um indígena da mesma etnia e que 
também possua fluência na língua portuguesa. Caso não haja 
um indígena disponível com esse perfil no estabelecimento 
penal, a administração deverá contatar a Coordenação Regional 
da Funai para buscar um servidor ou indígena qualificado para 
atuar como intérprete. Além disso, a administração penitenciária 
pode recorrer à Secretaria Especial de Saúde Indígena, 
universidades, organizações indígenas e outros órgãos 
indigenistas estaduais e municipais para indicar intérpretes ou 
tradutores especializados. 
 
 
 
Esse procedimento visa garantir o direito de comunicação e compreensão das 
pessoas indígenas privadas de liberdade, respeitando suas especificidades 
culturais e linguísticas. Vê-se: 
 
 
 
DO ACESSO À SAÚDE 
Alguns dos segmentos indígenas são especialmente vulneráveis 
a doenças contagiosas e epidemias. A assistência à saúde para 
os/as indígenas deverá ser realizada pela Secretaria Especial de 
Saúde Indígena Sesai, órgão do Ministério da Saúde 
responsável pela coordenação e execução da Política Nacional 
de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, assim como do 
processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde 
Indígena SasiSUS no Sistema Único de Saúde SUS. 
 
 
 
96 
 
 
A Lei nº 9.836/1999, de 23 de setembro de 1999, que acrescenta dispositivos à 
Lei n 8.080, de 19 de setembro de 1990, e que "dispõe sobre as condições para 
a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o 
funcionamentodos serviços correspondentes e dá outras providências", 
instituindo o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, expressa: 
 
 
 
 
 
 
Art. 19F. Dever-se-á obrigatoriamente levar em 
consideração a realidade local e as especificidades da 
cultura dos povos indígenas e o modelo a ser adotado para 
a atenção à saúde indígena, que se deve pautar por uma 
abordagem diferenciada e global, contemplando os 
aspectos de assistência à saúde, saneamento básico, 
nutrição, habitação, meio ambiente, demarcação de terras, 
educação sanitária e integração institucional. BRASIL, 
1990 
 
A mesma lei faz saber, através do art. 19G, que: 
 
§ 3º As populações indígenas devem ter acesso garantido 
ao SUS, em âmbito local, regional e de centros 
especializados, de acordo com suas necessidades, 
compreendendo a atenção primária, secundária e terciária 
à saúde. BRASIL, 1990 
 
 
 
 
 
 
Portanto, o estabelecimento penal deverá encaminhar os/as 
indígenas para os postos de atendimento da Sesai mais 
próximos da unidade prisional ou firmar acordo para 
atendimentos na própria unidade prisional em que estão 
alocados. O contato com o serviço específico de saúde pode 
ser realizado com auxílio da FUNAI. 
 
97 
 
 
 
De outro norte, o Conselho Nacional de Justiça, através do 
Manual de Procedimentos Relativos a Pessoas Indígenas 
Acusadas, Rés, Condenadas ou Privadas de Liberdade Brasil, 
2019, prevê que a administração prisional deve monitorar a 
situação de saúde da pessoa indígena presa no momento do 
seu ingresso no estabelecimento penal e identificar o mais 
rápido possível sinais de deterioração na saúde física ou mental. 
 
 
 
O referido manual reitera como dever da autoridade judicial acompanhar a 
execução da pena com atenção: 
 
 
 
 
a. a indícios de risco à integridade pessoal e à vida das 
pessoas indígenas presas, principalmente a risco de 
suicídio; 
b. ao impacto da manutenção da privação de liberdade em 
estabelecimento penal na deterioração das condições 
de saúde da pessoa indígena presa. 
 
DA RELIGIOSIDADE DAS PESSOAS INDÍGENAS 
A administração penitenciária deverá permitir e garantir a 
expressão religiosa dentro dos estabelecimentos penais 
segundo as matrizes indígenas, seja ela dada pelo xamã, 
pajé, rezador, ou qualquer denominação dada pelo povo 
indígena a que pertence. 
 
O Conselho Nacional de Justiça, através do Manual de 
Procedimentos Relativos a Pessoas Indígenas Acusadas, 
Rés, Condenadas ou Privadas de Liberdade BRASIL, 2019, 
ressalta que "deve ser autorizado acesso a todos os 
elementos materiais relacionados às práticas religiosas, 
como adereços, objetos de culto, materiais de pintura, 
alimentos de caráter religioso, entre outros". 
 
 
 
 
98 
 
 
 
 
 
DO CORTE DE CABELO DA PESSOA INDÍGENA 
No caso dos povos indígenas, a obrigação de cortar os 
cabelos viola as normativas internacionais que lhes 
garantem o direito de viverem conforme os seus costumes 
e destrói a sua personalidade. 
 
Dessa forma, a administração penitenciária deverá garantir 
ao indígena preso o uso de seu cabelo, o qual é parte 
inerente de sua identidade e sua cultura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Atenção! 
 
 
A temática dos direitos das pessoas indígenas privadas de 
liberdade é de extrema importância, pois envolve não apenas a 
garantia de direitos fundamentais, mas também o respeito à 
diversidade cultural e linguística de um dos grupos mais 
vulneráveis do país. 
 
 
 
 
 
O tratamento adequado das pessoas indígenas no sistema prisional, 
incluindo a oferta de intérpretes, o respeito à sua identidade étnica e a 
adoção de procedimentos específicos, é essencial para garantir que 
essas pessoas não sejam duplamente marginalizadas: pela exclusão do 
sistema de justiça e pela discriminação no interior do sistema prisional. 
 
 
99 
 
 
 
 
Essa abordagem, apoiada por normativas como a Resolução nº 
09/2019 do Conselho Nacional de Justiça CNJ e a atuação da 
Funai, reforça a importância de um tratamento humanitário, que 
leve em consideração as especificidades culturais e linguísticas 
de cada grupo indígena, contribuindo para a efetivação de seus 
direitos e para a redução de injustiças dentro do sistema penal. 
 
 
 
 
 
 
3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, 
intelectual ou sensorial 
 
 
 
 
A Convenção Internacional sobre os 
Direitos das Pessoas com Deficiência 
reconhece a dignidade, o valor inerente e 
os direitos iguais e inalienáveis de todos 
os membros da família humana como o 
fundamento da liberdade, da justiça e da 
paz no mundo. Reafirma, ainda, a 
universalidade, a indivisibilidade, a 
interdependência e a inter-relação de 
todos os direitos humanos e liberdades 
fundamentais, bem como a necessidade 
de garantir que todas as pessoas com 
deficiência de natureza física, mental, 
intelectual ou sensorial tenham como 
garantidos, de forma integral, os seus 
direitos, sem discriminação. 
 
 
100 
 
 
Ademais, a convenção ressalta o propósito de promover, proteger e assegurar 
o exercício pleno e igualitário dos direitos humanos e liberdades fundamentais 
por todas as pessoas com deficiência, além do respeito pela sua dignidade. 
 
 
O Relatório Nacional de 
Informações Penais 17º Ciclo 
SISDEPEN – 2º semestre de 
2024, divulgado no primeiro 
semestre de 2025, aponta que a 
população carcerária brasileira 
composta por pessoas com 
deficiência totaliza 9.090 (nove 
mil e noventa) indivíduos, dos 
quais 8.572 (oito mil, quinhentos 
e setenta e dois) são homens e 518 (quinhentas e dezoito) são mulheres. 
Dentre esses, 2.532 (duas mil, quinhentas e trinta e duas) apresentam algum 
tipo de deficiência intelectual; 3.895 (três mil, oitocentas e noventa e cinco) 
possuem deficiência física; 634 (seiscentas e trinta e quatro), deficiência 
auditiva; 1.361 (mil, trezentas e sessenta e uma), deficiência visual; e 674 
(seiscentas e setenta e quatro) apresentam deficiências múltiplas. 
 
 
 
Esse número evidencia a necessidade urgente de atenção 
especializada no sistema prisional, com foco na prevenção, 
tratamento e cuidados médicos adequados, além de garantir a 
proteção contra qualquer tipo de violência. 
 
 
 
 
 
A SENAPPEN em consonância com normativas nacionais e 
internacionais, orienta as administrações estaduais para garantir 
o atendimento adequado a essas pessoas, com base na Lei 
Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência Lei nº 
13.146/2015, que serve como principal referência para 
assegurar os direitos das pessoas com deficiência no sistema 
penal. 
 
 
101 
 
 
Com isso, merecem destaque as seguintes regras aplicadas às pessoas com 
deficiência privadas de liberdade: 
 
 
 
 
As administrações prisionais devem fazer todos os ajustes 
possíveis para garantir que as pessoas privadas de liberdade 
com deficiência física, intelectual ou outra incapacidade tenham 
acesso às assistências legalmente constituídas, em base de 
igualdade. 
 
 
 
 
 
A determinação de confinamento solitário será proibida no caso 
de pessoas privadas de liberdade com deficiência intelectual ou 
física quando essas condições puderem ser agravadas por tal 
medida. 
 
 
 
 
 
Os profissionais de saúde devem ter a autoridade para rever e 
recomendar alterações na separação involuntária de uma 
pessoa privada de liberdade, com vistas a assegurar que tal 
separação não agrave as condições médicas ou a deficiência 
física ou intelectual do indivíduo. 
 
 
 
 
 
Pessoas privadas de liberdade com deficiências sensoriais 
devem receber as informações (legislação, regulamentos, 
direitos e obrigações) de maneira apropriada às suas 
necessidades. 
 
 
102 
 
 
 
Por sua vez, o Conselho Nacional de Política Criminal e 
Penitenciária CNPCP, pela Resolução nº 2, de 1º de junho de 
2012, que dispõe sobre o transporte de pessoas presas, instrui 
que “devem ser destinados cuidados especiais à pessoa presa 
ou internada idosa, gestante, com deficiência, acometida de 
doença ou que necessite de tratamento médico,ˮ destacando no 
parágrafo único que “deve ser garantido o transporte sanitário 
por meio de veículo adaptado para pessoas com deficiência e 
gestantes em tempo real, com o objetivo de transportá-las aos 
postos de atenção da Rede de Atenção à Saúde .ˮ 
 
 
 
 
 
 
 
Ainda, a Resolução nº 02/2012 reforça o entendimento no 
sentido de que haja “cela destinada a Pessoa com 
Deficiência PCD, bem como sanitários e demais 
requisitos de acessibilidade .ˮ 
 
 
 
 
 
 
 
 
Conceitos do Estatuto: 
 
 
 
 
 
 
Aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, 
intelectual ou sensorial, a qual, em interação com uma ou mais barreiras, 
pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade 
de condições com as demais pessoas. 
 
 
103 
 
 
 
 
 
 
Aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, 
permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da 
flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, 
gestante, lactante, pessoa com criança de colo e obeso. 
 
 
 
 
 
 
Possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e 
autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, 
transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e 
tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao 
público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana 
como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida. 
 
 
 
 
 
 
Abrange as línguas faladas e de sinais, bem como outras formas de 
comunicação não falada. 
 
 
 
 
 
 
Significa qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em 
deficiência com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o 
reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de 
oportunidades com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e 
liberdades fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, 
civil ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação, 
inclusive a recusa de adaptação razoável. 
 
 
104 
 
 
 
 
 
 
Adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não 
acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada 
caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou 
exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais 
pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais. 
 
 
 
 
 
 
Significa a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a 
serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem 
necessidade de adaptação ou projeto específico. O “desenho universal” 
não excluirá as ajudas técnicas para grupos específicos de pessoas com 
deficiência, quando necessárias. 
 
 
 
 
Com relação aos procedimentos dispensados às pessoas com 
deficiência privadas de liberdade, vale lembrar que a 
determinação não vem da Lei de Execução Penal LEP, e sim da 
Regra 5, item 2, princípios básicos, das Regras Mínimas das 
Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos Regras de 
Nelson Mandela): 
 
 
 
 
“As administrações prisionais devem fazer todos os ajustes possíveis 
para garantir que os presos portadores de deficiência física, 
intelectual ou incapacidade tenham acesso completo e efetivo à vida 
prisional em base de igualdade.ˮ 
 
 
105 
 
 
Considerando a arquitetura de cada unidade prisional e observadas as regras 
de segurança, é necessário assegurar às pessoas portadoras de deficiência a 
alocação em celas com acessibilidade ou adaptação razoável. 
 
 
Nos termos da Nota Técnica da SENAPPEN 2023, é essencial 
que a alocação da pessoa com deficiência tenha as seguintes 
características, demonstradas na Figura 3 
 
 
Figura 3 Condições de alocação para pessoas com deficiência 
no sistema prisional brasileiro SENAPPEN. 
 
 
 
 
106 
 
 
 
 
A temática da população carcerária com deficiência é de 
extrema importância, pois reflete uma questão de direitos 
humanos e justiça social. A falta de acessibilidade e a 
negligência das necessidades específicas dessas pessoas no 
sistema prisional podem agravar a marginalização e exclusão 
social a que já estão submetidas. 
 
 
 
 
 
 
A Lei Brasileira de Inclusão Lei nº 13.146/2015 e 
normativas internacionais, como a Convenção sobre os 
Direitos das Pessoas com Deficiência, fornecem a base 
legal necessária para garantir que os direitos dessas 
pessoas sejam respeitados, incluindo o direito à saúde, 
educação, segurança e uma custódia compatível com suas 
condições. O descumprimento desses direitos pode 
resultar em agravos à saúde e, em muitos casos, em 
violações graves da dignidade humana, o que compromete 
o princípio da humanidade e o processo de ressocialização 
no sistema prisional. 
 
 
107 
 
 
 
3.5 Pessoas Idosas 
 
 
 
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE, 
o Brasil possuía, em 2022, uma população estimada em 
203.062.512 (duzentos e três milhões, sessenta e dois mil e 
quinhentos e doze) pessoas 
(https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/). A parcela das 
pessoas idosas (sessenta anos ou mais), corresponde 
aproximadamente a 30.662.4392 (trinta milhões, seiscentos e 
sessenta e dois mil e quatrocentos e trinta e nove), 15,1% da 
população. 
 
 
 
 
 
 
O Estatuto da Pessoa Idosa é um dos alicerces de todo o conjunto de 
estratégias e ações empreendidas em atenção à pessoa idosa presa, 
isso porque ele é “destinado a regular os direitos assegurados às 
pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.ˮ 
 
 
 
2 https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102004_informativo.pdf Acesso em 07 
mai. 2025. 
 
108 
https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102004_informativo.pdf
 
 
 
Embora o Estatuto do Idoso Lei nº 10.741/2003 não mencione 
explicitamente as pessoas idosas no contexto prisional, a Nota 
Técnica da SENAPPEN estabelece procedimentos claros para a 
gestão da saúde e das condições de custódia de pessoas 
presas com 60 anos ou mais. Entre as orientações, destaca-se a 
importância de um atendimento médico especializado na 
chegada do(a) idoso(a) ao sistema prisional, enfatizando 
questionamentos sobre doenças crônicas e eventual 
necessidade de medicamentos específicos. 
 
 
 
 
Além disso, é fundamental garantir ambientes adequados para 
esses indivíduos, com boa ventilação, iluminação e fácil acesso 
ao setor de saúde, além de adaptar procedimentos de 
segurança que levem em consideração as limitações físicas e 
de saúde dos idosos. 
 
 
 
A temática do tratamento das pessoas idosas no sistema prisional é de extrema 
importância, pois envolve não apenas o reconhecimento da dignidade humana, 
mas também a efetivação de políticas públicas que garantam os direitos dessa 
população vulnerável. 
 
 
Observando a arquitetura de cada unidade prisional e 
asseguradas as regras de segurança da unidade, é necessário 
garantir às pessoas idosas um espaço específico, considerando 
as condições físicas e de saúde comuns às pessoas com idade 
igual ou superior a 60 anos. É essencial que a alocação da 
pessoa idosa tenha: 
 
 
109 
 
 
Figura 4 Condições de alocação para pessoas idosas no sistema prisional 
brasileiro SENAPPEN 
 
 
 
 
No que tange aos procedimentos operacionais de segurança, a SENAPPEN 
destaca a eficiência do uso de aparelhos de scanner corporal em substituição 
às revistas íntimas, evitando-se eventuais constrangimentos às pessoas presas 
e aos servidores. Recomenda, no que tange às pessoas idosas, que: 
 
 
 
seja organizado procedimento alternativo ao “sentado – 
enfileirado - encaixado um ao outro - com as mãos na 
cabeça ;ˮ 
 
 
 
 
evite-se o uso de espargidores de pimenta e afins em 
locais onde pessoas idosas estejam presentes; 
 
 
110 
 
 
 
sejam consideradas as possíveis condições de surdez, 
doenças neurológicas e demais dificuldades das 
pessoas idosas presas em atender rapidamente aos 
comandosde voz. 
 
 
 
 
 
Sobre o transporte de pessoas presas, a Resolução nº 2, de 1º 
de junho de 2012, do Conselho Nacional de Política Criminal e 
Penitenciária CNPCP, dispõe que devem ser destinados 
cuidados especiais à pessoa presa idosa. 
 
 
 
 
Além disso, é crucial que as políticas públicas voltadas para a 
população idosa no sistema prisional sejam constantemente 
aprimoradas e acompanhadas, uma vez que a idade avançada 
acarreta uma série de desafios relacionados à saúde e à 
mobilidade. A falta de infraestrutura específica e o 
desconhecimento das necessidades dos(as) presos(as) 
idosos(as) podem agravar ainda mais a sua situação de 
vulnerabilidade. 
 
 
 
 
 
 
Vale destacar! 
 
 
Por isso, é fundamental que a sociedade e os gestores públicos 
invistam em treinamento e capacitação das equipes prisionais, além 
de promover a conscientização sobre os direitos e necessidades 
dessa parcela da população. A discussão sobre a justiça social que 
envolve a igualdade de tratamento e o respeito aos direitos humanos, 
deve sempre incluir a questão do encarceramento de pessoas 
idosas, garantindo que, independentemente da situação, todos 
tenham suas necessidades atendidas de forma digna e adequada. 
 
111 
 
 
 
3.6 Pessoas Estrangeiras 
 
 
3.6.1 Regularização Documental 
 
 
 
Segundo o último 
Levantamento Nacional de 
Informações Penitenciárias 
2023, os dados sobre 
pessoas estrangeiras 
privadas de liberdade no 
Brasil contam com o total 
de 2.316 pessoas, sendo 
2.048 homens e 268 
mulheres. Deste total, em 
sua maioria, estão os 
pertencentes aos países 
da América Latina. 
 
 
 
 
 
A regularização migratória é uma das previsões dos Princípios 
Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas as Pessoas 
Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do Tráfico de Pessoas 
2019 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 
 
 
 
 
De acordo com o documento, os Estados devem incentivar a 
regularização migratória, evitando as consequências da 
situação migratória irregular. A Lei nº 13.445/2017, da mesma 
forma, tem como um de seus princípios basilares a promoção de 
entrada regular e de regularização documental. 
 
 
112 
 
 
É a partir do acesso à regularização e à documentação como o Registro 
Nacional Migratório, o Cadastro da Pessoa Física CPF, e a Carteira de 
Trabalho e Emprego CTPS, por exemplo, que a pessoa migrante poderá 
exercer direitos como o acesso a políticas públicas de moradia, saúde, 
assistência social, entre outras. 
 
 
A documentação civil também viabiliza a inclusão social, 
educacional e laboral da pessoa migrante em privação de 
liberdade e egressa dos sistemas prisional e socioeducativo. 
 
 
 
 
Atenção! 
 
 
Nesse sentido, conforme assegurado pela Constituição Federal 
do Brasil, os serviços públicos de caráter universal, como o 
Sistema Único de Saúde e o Sistema Único de Assistência 
Social devem prover atendimento a todas as pessoas, 
independentemente de eventual situação de irregularidade 
documental no país; ou seja, a ausência de documentação, 
segundo os preceitos constitucionais, não pode representar 
justificativa para a negativa de acesso aos direitos 
fundamentais. 
 
 
 
 
 
 
 
Vale lembrar! 
 
 
Reforça-se que a regularização migratória é imprescindível para que 
a pessoa migrante alcance acesso integral aos direitos em todas as 
instâncias no sistema prisional, assim como viabiliza maior segurança 
do Poder Judiciário para a aplicação de medidas não privativas ou 
restritivas de liberdade. 
 
113 
 
 
3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular 
 
 
 
 
O direito à assistência consular, 
considerado pelo Supremo Tribunal 
Federal STF como cláusula que integra 
o devido processo legal, inclusive no 
âmbito do tratamento jurídico-penal, é de 
plena relevância. 
 
 
 
 
 
 
O posicionamento do STF segue o entendimento da Corte Interamericana de 
Direitos Humanos, expresso na Opinião Consultiva nº 16/1999, quanto ao direito 
à informação e à assistência consular no marco das garantias do devido 
processo legal. O direito à assistência consular de pessoas em privação de 
liberdade já encontrava correspondência nas Regras Mínimas das Nações 
Unidas para o Tratamento de Presos Regras de Mandela). 
 
 
Na mesma linha, o art. 36 da Convenção de Viena sobre 
Relações Consulares, datada de 1967, dispõe acerca do dever 
do Estado em comunicar às repartições consulares a detenção 
da pessoa nacional e prevê o direito dos/as funcionários/as 
consulares de visitar e comunicar-se com a pessoa privada de 
liberdade. 
 
 
 
O princípio da garantia à assistência consular na Resolução CNJ 
nº 405/2021 aplica-se tanto às representações consulares 
presentes no Brasil, como aos casos em que não houver 
representação, em que os/as magistrados/as são orientados/as 
a reportar à representação diplomática e, em sua ausência, ao 
Ministério de Relações Exteriores MRE. 
 
 
114 
 
 
 
Importante ressaltar que esse princípio se desdobra em orientações 
gerais para atuação do Poder Judiciário nesse âmbito, como por meio 
da manutenção de cadastros de autoridades consulares, embaixadas e 
missões diplomáticas e da verificação prática da não aplicabilidade 
desse direito em casos concretos, a partir da escuta da pessoa 
migrante. 
 
 
 
 
Denota-se que o princípio da garantia à assistência consular 
deve observar a vontade da pessoa custodiada. Após ser 
informada desse direito, a pessoa poderá escolher entre 
contatar ou não a representação de seu país de origem, 
especialmente tendo em vista casos de pessoas solicitantes de 
refúgio ou refugiadas, que podem ter sofrido ou ainda sofrer 
perseguição em seu país. 
 
 
 
 
3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar 
 
 
A garantia do direito à reunião familiar é prevista na Lei nº 13.445/2017, assim 
como a igualdade de tratamento e de oportunidade à pessoa migrante e a seus 
familiares. 
 
 
 
 
Pela lei, é assegurado às pessoas 
migrantes nos sistemas penal e 
socioeducativo o direito à reunião 
familiar com cônjuge ou 
companheiro/a e seus filhos/as, 
familiares e dependentes. 
 
 
115 
 
 
 
Os Princípios Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas as 
Pessoas Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do Tráfico de 
Pessoas preveem a proteção da família, da unidade e da reunificação 
familiar. Para tal, dispõem que a família migrante tem direito à proteção 
por parte da sociedade e do Estado, atentando para a inexistência de 
um modelo único de família, garantida a não discriminação Princípio 
32. 
 
 
 
Especificamente no Princípio 33, consagra-se que os Estados devem garantir a 
reunificação familiar e prevenir a separação das famílias. 
 
 
 
 
O dispositivo prevê expressamente o dever de garantia do 
melhor interesse de crianças e adolescentes, que devem estar 
livres de qualquer privação de liberdade, que a separação 
familiar não pode ser utilizada para coagir nenhum dos/as 
membros/as familiares, e que, na determinação da custódia 
dos/as filhos/as de migrantes, a situação migratória não poderá 
ser mobilizada como motivo para rescindir a custódia ou os 
direitos parentais. 
 
 
 
 
 
3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação 
 
 
 
 
Dispõe sobre direitos e obrigações da pessoa migrante, 
incluídos os que decorram da sua condição de custodiada, 
acusada, ré, condenada, privada de liberdade, em cumprimento 
de alternativas penais, monitoração eletrônica e medidas 
socioeducativas privativas ou restritivas de liberdade. 
 
 
116 
 
 
 
 
 
 
Conforme a Lei nº 13.445/2017, é garantido à pessoa 
migrante o direito de acesso à informação, sendo previsto 
expressamente o direito de a pessoa ser informada sobre 
as garantias que lhe são asseguradas para fins de 
regularização migratória. 
 
 
 
 
 
 
É necessário que o direito à informação seja assegurado desde 
o momento da prisão ou apreensão da pessoa migrante, 
afigurando-se como imprescindível a compreensão mínima 
acerca do funcionamento64 
3.1 População LGBTQIA 66 
3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual 68 
3.1.2 Política do Nome Social 74 
3.1.3 Crime de LGBT+fobia 76 
3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA nº 2, de 26 março de 2024, 
que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas LGBTQIA em 
privação de liberdade no Brasil 79 
3.2 Mulheres 81 
3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas 82 
3.3 Pessoas Indígenas 91 
3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, intelectual ou 
sensorial 100 
3.5 Pessoas Idosas 108 
3.6 Pessoas Estrangeiras 112 
3.6.1 Regularização Documental 112 
3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular 114 
3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar 115 
3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação 116 
3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de Referência, 
Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério de Relações 
Exteriores (MRE) 120 
Considerações Finais 125 
Referências 128 
 
6 
 
 
Módulo 1 - Conceito, classificações e história 
dos direitos humanos 
 
 
Seja bem-vindo(a) ao módulo 1 do nosso curso de Direitos 
Humanos e Sistema Prisional! Neste módulo, vamos explorar os 
conceitos fundamentais que formam a base dos Direitos 
Humanos e a importância de seu constante estudo, um campo 
essencial para promover o respeito, a dignidade e a igualdade 
em diversas esferas da sociedade. Nossa jornada começa com a 
compreensão do que são os Direitos Humanos e como eles 
estão presentes nas relações pessoais, profissionais e sociais ao 
nosso redor. Vamos começar? 
 
 
 
 
Para compreender plenamente a 
importância dos Direitos Humanos, 
precisamos conhecer suas classificações 
e categorias. Ao longo deste módulo, 
discutiremos as divisões entre direitos 
civis, políticos, econômicos, sociais e 
culturais, compreendendo como essas 
categorias se aplicam e como os direitos 
são distribuídos e protegidos em 
diferentes contextos. Esses conceitos 
serão fundamentais para entender as 
múltiplas dimensões dos Direitos 
Humanos e como eles contribuem para 
uma sociedade mais justa e equitativa. 
 
 
 
 
 
7 
 
 
A história dos Direitos Humanos é outro ponto central deste módulo. Vamos 
revisar momentos históricos e documentos fundamentais, como a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos, que representou um marco significativo para a 
promoção dos direitos e liberdades fundamentais em todo o mundo. 
 
Conhecer esse percurso histórico permitirá uma visão mais 
crítica e contextualizada sobre como os Direitos Humanos 
evoluíram, quais foram suas principais conquistas e desafios, e 
como continuam a moldar nossa sociedade. 
 
 
 
Ao concluir este módulo, você terá uma compreensão sólida e 
atualizada sobre o conceito, as classificações e a história dos Direitos 
Humanos, elementos essenciais para aplicar esses conhecimentos na 
sua prática profissional. 
 
 
 
 
 
Esperamos que este aprendizado contribua para o 
desenvolvimento de uma consciência crítica e comprometida 
com a dignidade e o respeito aos direitos fundamentais de todos 
os indivíduos. 
 
 
 
 
 
 
1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo 
 
 
 
 
Os Direitos Humanos são normas fundamentais que reconhecem e 
protegem a dignidade inerente a todos os seres humanos. Esses 
direitos regulam tanto a forma como os indivíduos vivem em sociedade 
e interagem uns com os outros quanto às relações entre o indivíduo e o 
Estado. 
 
8 
 
 
 
 
Segundo a Organização das Nações Unidas ONU, os Direitos 
Humanos garantem que cada pessoa seja tratada com respeito e 
igualdade, estabelecendo obrigações que o Estado deve cumprir 
para assegurar essas garantias em sua plenitude. Eles formam a 
base para um ambiente em que as liberdades fundamentais, a 
segurança e o bem-estar de cada ser humano são priorizados e 
protegidos. 
 
 
 
Além disso, os Direitos Humanos podem ser compreendidos como um conjunto 
de direitos e garantias que têm como objetivo essencial o respeito à dignidade 
humana, proporcionando condições mínimas e fundamentais de vida que 
permitam o desenvolvimento pleno da personalidade e da autonomia de cada 
indivíduo Piovesan, 2013. Essa visão complementar enfatiza que os Direitos 
Humanos buscam assegurar não apenas a sobrevivência, mas também a 
possibilidade de uma vida digna e plena para cada pessoa, criando um alicerce 
de justiça social e igualdade nas mais variadas esferas da vida em sociedade. 
 
 
 
A atualização contínua é essencial para professores de Direitos 
Humanos, dada a complexidade e evolução constante desse 
campo, influenciada por mudanças sociais, políticas e 
tecnológicas. Novos desafios globais, como as questões 
ambientais, o avanço tecnológico e as crises humanitárias, 
impactam diretamente a compreensão e aplicação dos direitos 
fundamentais. Dessa forma, os educadores precisam 
acompanhar essas transformações para oferecer uma visão 
atualizada e contextualizada aos seus alunos, fortalecendo o 
papel da educação em Direitos Humanos na formação de 
cidadãos críticos e conscientes. Como Flávia Piovesan 2013 
ressalta, os direitos humanos são "inevitavelmente dinâmicos e 
expansivos", e essa natureza implica que a formação dos 
professores também seja contínua e renovada. 
 
 
9 
 
 
 
 
Além disso, o ensino de Direitos Humanos exige uma 
abordagem que vá além da teoria jurídica, integrando práticas e 
experiências que sejam adaptadas às realidades locais e 
globais. Professores que buscam se atualizar podem inspirar 
mudanças e ampliar o impacto positivo no contexto educacional 
e social, promovendo uma cultura de paz, respeito e justiça. 
Atualizar-se permite que os educadores lidem de forma mais 
eficaz com questões emergentes, como a inclusão e a 
diversidade, e fortaleçam os valores fundamentais da dignidade 
humana. Isso reforça a responsabilidade dos professores de 
serem modelos de aprendizado e adaptabilidade para seus 
alunos, e contribui para uma educação em Direitos Humanos 
mais engajada e efetiva. 
 
 
 
 
Cursista, assista, logo abaixo, a um vídeo complementar sobre o que acabamos 
de ler. 
 
 
 
https://www.youtube.com/watch?v=hGKAaVoDlSs 
 
 
 
 
 
1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? 
 
 
 
A Organização das Nações Unidas ONU foi 
criada em 1945 após a Segunda Guerra 
Mundial com o objetivo de evitar futuros 
conflitos e promover a paz e segurança 
internacionais. Reunindo, atualmente, 193 
países, a ONU é um dos principais 
organismos globais voltados à resolução de 
crises, promoção da cooperação e 
 
10 
https://www.youtube.com/watch?v=hGKAaVoDlSs
 
desenvolvimento sustentável, e defesa dos direitos humanos em todo o mundo. 
Além do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral, a ONU conta com 
agências especializadas como a Organização Mundial da Saúde OMS, o 
Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF e a Organização das 
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESCO, que 
colaboram em iniciativas que vão da saúde e educação ao combate à pobreza 
e assistência humanitária. 
 
 
 
A promoção dos direitos humanos é uma das missões centrais da 
ONU, destacando-se como um dos pilares fundamentais ao lado da 
paz, segurança e desenvolvimento. Esse compromisso é guiado pela 
Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que estabelece 
normas para o respeito à dignidade e liberdade individual, 
influenciando tratados internacionais e o trabalho de diversas 
entidades e conselhos da ONU. Por meio de seus programas, a ONU 
busca criar uma base global de direitos que assegure justiça, 
equidade e respeito mútuo entre as nações e seus cidadãos. 
 
 
 
 
 
 
 
A relação entre a ONU e os direitos 
humanos se manifesta principalmente por 
meio da criação e adoção de tratados e 
convenções internacionais que 
estabelecem normas, padrões e 
obrigações aos seus Estados-membros 
para promover e proteger os direitos 
humanos. Entre os documentos mais 
significativos, destaca-se a Declaração 
Universale dos procedimentos adotados pelas 
instituições da justiça criminal e juvenil, respectivamente, desde 
o início. 
 
 
Ainda, reforça-se que o direito de informação deverá refletir as informações 
relativas ao processo criminal e de execução penal, ao processo de apuração 
de cometimento de ato infracional e de execução de medidas socioeducativas, 
quanto os procedimentos administrativos a que a pessoa migrante for 
submetida, de modo a igualmente considerar que essas informações sejam 
prestadas por intermédio de intérprete e/ou entregues de forma devidamente 
traduzida, sempre que a pessoa não tiver domínio ou fluência na língua 
portuguesa. 
 
 
 
O direito à informação prestada na língua materna estende-se às 
pessoas migrantes adolescentes, principalmente quando 
desacompanhadas ou separadas no Brasil. 
 
 
117 
 
 
Ainda, deve-se atentar à gestão prisional sobre: 
 
 
A sistematização de contatos para fins de assistência 
consular; 
 
 
 
 
O mapeamento e estabelecimento de rede 
socioassistencial; 
 
 
 
 
A implementação de mecanismos telefônicos e virtuais 
que viabilizem o contato da pessoa migrante presa ou 
apreendida por ato infracional com seu núcleo familiar 
e/ou círculo afetivo 
 
 
 
A identificação expressa da localização do passaporte 
ou documento pessoal nos autos judiciais; e 
 
 
 
 
A promoção de cursos e capacitações nas temáticas 
atreladas à migração e justiça criminal e juvenil. 
 
 
 
 
Cadastramento de intérpretes para atuação nos atos 
judiciais e tradução de decisões judiciais, inclusive de 
forma virtual. 
 
 
118 
 
 
 
 
É importante que o cadastro de intérpretes e tradutores/as seja 
elaborado de acordo com as necessidades locais dos tribunais, 
o que deve implicar um mapeamento inicial das demandas mais 
presentes. 
 
 
 
 
 
 
 
Nesse caminho, é louvável que o primeiro 
mapeamento leve em consideração uma 
série histórica de pelo menos cinco anos 
anteriores, no que tange às principais 
nacionalidades e idiomas das pessoas 
migrantes que já foram processadas na 
localidade, não se excluindo a 
possibilidade de colaboração entre 
tribunais e instâncias para um melhor 
acesso a esses/as profissionais, 
especialmente no que concerne a idiomas 
e/ou nacionalidades pouco frequentes. 
 
 
 
 
 
Ainda que a pessoa migrante seja fluente em português ou em 
outra segunda língua como inglês ou espanhol, o art. 4º da 
Resolução CNJ nº 405/2021 traz a previsão de que a pessoa 
tenha acesso a intérprete ou tradutor na língua de sua efetiva 
compreensão. Referida disposição baseia-se em diversos 
regramentos internacionais de direitos humanos, como os 
Princípios Interamericanos sobre os Direitos Humanos de todas 
as Pessoas Migrantes, Refugiadas, Apátridas e Vítimas do 
Tráfico de Pessoas Princípio 50, a Convenção Interamericana 
de Direitos Humanos (art. 8º, 2, a) e as Regras Mínimas das 
Nações Unidas para o Tratamento de Presos Regra 41. 
 
 
119 
 
 
3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de 
Referência, Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério 
de Relações Exteriores MRE 
 
 
 
 
A sistematização de contatos 
consulares de referência, 
embaixadas, representações 
diplomáticas ou do Ministério 
das Relações Exteriores, 
prevista no art. 7º da 
Resolução, é recomendada 
com o objetivo de garantir o 
direito à assistência consular 
da pessoa migrante nos 
sistemas penal e 
socioeducativo de forma 
célere e eficaz. 
 
 
 
 
 
É importante ressaltar que a presença e os locais de atuação das 
representações de outros países no Brasil podem variar, ou seja, há 
representações de países que auxiliam seus cidadãos e cidadãs 
privadas ou em restrição de liberdade por meio de consulados que se 
localizam próximos às unidades prisionais e socioeducativas, enquanto 
outros contam apenas com as embaixadas ou missões pontuais. 
 
 
120 
 
 
 
 
A sistematização desses contatos poderá ser realizada 
acessando-se as informações disponibilizadas pelo MRE, de 
modo que se sugere que sejam compiladas informações 
fundamentais, como endereço físico e eletrônico e o telefone, 
entre outros dados essenciais. Caso não haja informações 
disponíveis, sugere-se oficiar o MRE com o intuito de solucionar 
eventuais dúvidas acerca da representação diplomática de 
determinado país. 
 
 
 
 
 
 
Vale lembrar! 
 
 
Cumpre salientar que o MRE também é o órgão responsável pelo 
envio de informações sobre atos administrativos ou processuais 
diante da ausência no Brasil de representação diplomática do país de 
origem de uma pessoa migrante (art. 1º do Decreto nº 9.683/2019. 
 
 
 
 
Observa-se que a sistematização desses contatos poderá 
viabilizar, quando solicitado, a presença e o acompanhamento 
dos/as representantes consulares e diplomáticos/as durante os 
atos judiciais, em especial nas audiências de custódia, desde 
que com a concordância da pessoa migrante, e que poderão 
igualmente apoiar os/as magistrados/as nos encaminhamentos 
necessários após a conclusão do ato judicial. 
 
 
 
Por fim, destaca-se que há exceção na aplicação do princípio da garantia à 
assistência consular quando a pessoa migrante for também solicitante de 
refúgio ou refugiada reconhecida pelo Brasil. Nesse contexto, as autoridades 
consulares ou diplomáticas serão acionadas somente mediante a manifestação 
expressa da pessoa custodiada. 
 
121 
 
 
A sistematização de contatos consulares de referência, 
embaixadas, representações diplomáticas ou do Ministério das 
Relações Exteriores, prevista no art. 7º da Resolução, é 
recomendada com o objetivo de garantir o direito à assistência 
consular da pessoa migrante nos sistemas penal e 
socioeducativo de forma célere e eficaz. 
 
 
 
Também é importante lembrarmos que a presença e os locais de 
atuação das representações de outros países no Brasil podem variar, ou 
seja, há representações de países que auxiliam seus cidadãos e 
cidadãs privados ou em restrição de liberdade por meio de consulados 
que se localizam próximos às unidades prisionais e socioeducativas, 
enquanto outros contam apenas com as embaixadas ou missões 
pontuais. 
 
 
 
 
A sistematização desses contatos poderá ser realizada 
acessando-se as informações disponibilizadas pelo MRE, de 
modo que se sugere que sejam compiladas informações 
fundamentais, como endereço físico e eletrônico e o telefone, 
entre outros dados essenciais. Caso não haja informações 
disponíveis, sugere-se oficiar o MRE com o intuito de solucionar 
eventuais dúvidas acerca da representação diplomática de 
determinado país. Cumpre salientar que o MRE também é o 
órgão responsável pelo envio de informações sobre atos 
administrativos ou processuais diante da ausência no Brasil de 
representação diplomática do país de origem de uma pessoa 
migrante (art. 1º do Decreto nº 9.683/2019. 
 
 
122 
 
 
 
 
Observa-se que a sistematização desses 
contatos poderá viabilizar, quando 
solicitado, a presença e o 
acompanhamento dos/as representantes 
consulares e diplomáticos/as durante os 
atos judiciais, em especial nas audiências 
de custódia, desde que com a 
concordância da pessoa migrante, e que 
poderão igualmente apoiar os/as 
magistrados/as nos encaminhamentos 
necessários após a conclusão do ato 
judicial. 
 
 
 
Por fim, destaca-se que há exceção 
na aplicação do princípio da 
garantia à assistência consular 
quando a pessoa migrante for 
também solicitante de refúgio ou 
refugiada reconhecida pelo Brasil. 
Nesse contexto, as autoridades 
consulares ou diplomáticas serão 
acionadas somente mediante a 
manifestação expressa da pessoa 
custodiada. 
 
 
 
 
A consolidação de um protocolo local de atuação nessas 
situações pode viabilizar a saída dessas pessoas da privação de 
liberdade, em especial após a audiência de custódia ou de 
apresentação, e o encaminhamento à rede de proteção social, 
incluindo os centros de acolhida ou abrigos públicos e/ou de 
iniciativas de organizações religiosas ou da sociedade civil,cujo 
público-alvo seja populações em situação de vulnerabilidade, 
englobada a população migrante. 
 
 
123 
 
 
 
Incentiva-se, ainda, a criação de comitês, grupos de trabalho 
interinstitucionais ou espaços similares que promovam trocas de 
experiências entre as instituições e os equipamentos envolvidos, com o 
intuito de construir fluxos e um protocolo de atendimento integrado, 
levando-se em consideração os contextos locais. 
 
 
 
O mapeamento e a articulação dessa rede poderão ser realizados a partir da 
atuação das equipes multidisciplinares presentes nos tribunais em conjugação 
de esforços com os serviços penais. 
 
 
Orientações Gerais da Coordenadoria de Promoção Social do 
Departamento de Polícia Penal: 
 
 
 
 
● Implementação da Resolução CNJ nº 405/2021, ora 
disponíveis e estruturados com o apoio do Programa Fazendo 
Justiça – Serviço de Atendimento à Pessoa Custodiada 
Apec)4 , Central Integrada de Alternativas Penais; 
 
● Tratativas com a Central de Monitoração Eletrônica e os 
Escritórios Sociais–, serviços públicos municipais, estaduais e 
federais que atuem na localidade, em especial aqueles que se 
dediquem ao atendimento da pessoa migrante; 
 
● Mapeamento e trabalho de articulação com organizações da 
sociedade civil, inclusive instâncias já consolidadas que lidem 
com temáticas afetas à Resolução CNJ nº 405/2021, tais 
como os Comitês Estaduais para Migrantes e Refugiados, 
Comitês Estaduais de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, 
Comitês Estaduais de Enfrentamento ao Trabalho Escravo, 
centros de defesa dos direitos da criança e do adolescente, 
centros de acolhida especiais para migrantes, entre outros; 
 
 
 
 
124 
 
 
 
 
● Recomenda-se que os contatos sejam iniciados diretamente 
com as redes municipais, estaduais e federais em atuação na 
localidade, considerando que, de modo geral, elas possuem 
um funcionamento por região e áreas de atuação 
predefinidas. 
 
 
 
 
Por fim, observa-se que a realização do mapeamento enquanto 
prática continuada contribuirá para a solidificação dessas redes 
de forma mais perene, tornando-se estruturas de apoio 
permanentes. 
 
 
 
Considerações Finais 
 
 
 
Ao concluir este terceiro módulo, é 
fundamental refletir sobre a relevância 
dos temas abordados ao longo da análise 
das populações mais vulnerabilizadas no 
sistema de justiça penal brasileiro. As 
complexas intersecções entre gênero, 
deficiência e etnia no contexto da prisão 
não apenas revelam as desigualdades 
sistêmicas no tratamento aos diferentes 
grupos, mas também destacam a 
necessidade urgente de reformas. 
 
 
 
 
125 
 
 
 
Garantir que indivíduos vulnerabilizados, como pessoas LGBTQIA, 
mulheres, indígenas, estrangeiros e aquelas com deficiência, sejam 
tratadas com dignidade e respeito dentro do sistema prisional é uma 
questão central dos direitos humanos. Esses grupos enfrentam desafios 
únicos, incluindo discriminação, atendimento médico inadequado e 
negligência quanto às suas necessidades específicas, o que exige 
mudanças tanto legislativas quanto estruturais no sistema prisional. 
 
 
 
Neste módulo, analisamos como diversas políticas públicas e resoluções têm 
sido implementadas no Brasil para enfrentar essas desigualdades. Exemplos 
como as ações da Secretaria Nacional de Políticas Penais, recomendações do 
Conselho Nacional de Justiça e as diretrizes do Sistema Nacional de Proteção 
de Pessoas Vulneráveis mostram passos demasiadamente importantes para 
garantir que os direitos das pessoas privadas de liberdade sejam respeitados. 
 
 
No entanto, apesar desses esforços significativos, ainda existe 
uma lacuna crucial na implementação e na adesão consistente 
dessas diretrizes nas prisões de todo o país. 
 
 
 
 
É imprescindível que o sistema prisional incorpore essas 
orientações de forma eficaz, proporcionando melhores cuidados 
e proteção às populações vulneráveis, evitando a continuidade 
de situações de violência e discriminação. 
 
 
 
 
O papel dos Estados é essencial para garantir que as pessoas 
presas recebam assistência adequada em áreas como saúde, 
educação e serviços sociais, especialmente aqueles que 
enfrentam camadas múltiplas de vulnerabilidade. Por exemplo, 
pessoas idosas, que frequentemente enfrentam desafios 
significativos de saúde, requerem cuidados especializados. 
 
126 
 
 
Da mesma forma, pessoas indígenas, que podem enfrentar barreiras 
linguísticas, necessitam de acesso a intérpretes e apoio cultural apropriado. 
 
 
É necessário que esses 
sistemas não apenas existam, 
mas que sejam continuamente 
aprimorados para refletir as 
necessidades em constante 
dessas pessoas, levando em 
conta suas histórias pessoais, 
contextos culturais e condições 
de saúde. Isso exige um 
compromisso a longo prazo dos 
formuladores de políticas 
públicas para garantir que as 
mudanças sejam sustentáveis e 
efetivas. 
 
 
 
Em resumo, a reflexão sobre as condições das populações 
vulnerabilizadas no sistema prisional é crucial para uma verdadeira 
transformação da justiça penal no Brasil. Para alcançar um sistema 
penal mais justo, é essencial que se invista na capacitação dos 
profissionais da área, no aprimoramento das políticas públicas e na 
observância de tratados internacionais que busquem garantir o respeito 
aos direitos humanos. 
 
 
 
 
A atuação dos Estados e do Distrito Federal, em todos os níveis, 
é determinante para que as reformas necessárias realmente 
impactem positivamente as condições de vida e o tratamento 
das pessoas privadas de liberdade, criando um ambiente que de 
fato caminhe em busca de um processo de ressocialização, 
inclusão e respeito aos direitos fundamentais. 
 
 
 
127 
 
 
 
Referências 
 
 
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Estratégica, Controle Social e Accountability LGBTI. Enciclopédia LGBTI, nº 11. 
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https://cedoc.grupodignidade.org.br. Acesso em: 8 dez. 2024. 
 
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Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas com 
Deficiência. Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso 
em: 7 dez. 2024. 
 
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Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Estrangeiras. 
Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso 
em: 7 dez. 2024. 
 
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Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Idosas. Brasília: 
SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso 
em: 7 dez. 2024. 
 
BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de 
Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas Indígenas. 
Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso 
em: 7 dez. 2024. 
 
BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais SENAPPEN. Política Nacional de 
Atenção aos Grupos Vulneráveis no Sistema Prisional – Pessoas LGBTQIA. 
Brasília: SENAPPEN/PNUD, 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/senappen/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas. Acesso 
em: 7 dez. 2024. 
 
 
 
128 
 
 
 
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADO 26 - Voto do Ministro Marco Aurélio 
Mello. Disponível em: 
https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADO26votoMCM.pdf. 
Acesso em: 5 dez. 2024. Acesso em: 4 dez. 2024. 
 
DANILIAUSKAS, Marcelo. De “temas polêmicosˮ a “sujeitos de direitos :ˮ LGBT nas 
políticas públicas de Direitos Humanos e de Educação 19962010. Fazendo 
Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 2010. Disponível em: 
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CASDEDIREITOSHUMANOSEDEEDUCACAO_BRASIL,19962010_-final.pdf>. Acesso 
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mulheres encarceradas no contexto de drogas no Brasil. 2023. Disponível em: 
https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/senad-discute-situacao-de-mulhere
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https://www.politize.com.br/equidade/os-direitos-lgbt-no-brasil/. Acesso em: 5 
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RIOS, Roger Raupp. Direito da antidiscriminação, sexo, sexualidade e gênero: a 
compreensão da proibição constitucional de discriminação por motivo de sexo. In: 
SARMENTO, Daniel; IKAWA, Daniela; PIOVESAN, Flávia (coords.). Igualdade, 
Diferença e Direitos Humanos. São Paulo: Editora Saraiva, 2008. p. 705717. 
 
SILVA JUNIOR, Jonas Alves da. Uma explosão de cores: sexo, sexualidade, gênero 
e diversidade. In: VIEIRA, Tereza Rodrigues (org.). Minorias Sexuais – Direitos e 
Preconceitos. Brasília: Consulex, 2012. p. 1214. 
 
129 
	 
	Módulo 1 - Conceito, classificações e história dos direitos humanos 
	 
	1.1 Direitos Humanos e a importância do seu constante estudo 
	 
	 
	1.2 Como a ONU e os Direitos Humanos se relacionam? 
	 
	 
	1.3 Classificações de Direitos Humanos 
	 
	 
	1.4 Características dos Direitos Humanos 
	 
	 
	 
	1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos 
	 
	 
	Considerações Finais 
	 
	Referências 
	Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do Sistema Prisional Brasileiro 
	 
	2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica 
	 
	2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: Das Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas 
	 
	2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? 
	 
	 
	2.3 Status do sistema prisional brasileiro: O reconhecimento do Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal 
	Considerações Finais 
	Referências 
	Módulo 3 - Grupos vulneráveis do sistema prisional brasileiro 
	 
	3.1 População LGBTQIA+ 
	 
	 
	3.1.1 Sexo Biológico, Identidade de Gênero e Orientação Sexual 
	3.1.2 Política do Nome Social 
	3.1.3 Crime de LGBT+fobia 
	 
	3.1.4 Resolução Conjunta CNPCP/CNLGBTQIA+ nº 2, de 26 março de 2024, que estabelece parâmetros para o acolhimento de pessoas LGBTQIA+ em privação de liberdade no Brasil 
	 
	3.2 Mulheres 
	 
	3.2.1 Audiência de Custódia de mulheres presas 
	 
	 
	3.3 Pessoas Indígenas 
	 
	 
	3.4 Pessoas com deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial 
	 
	 
	 
	 
	3.5 Pessoas Idosas 
	 
	 
	3.6 Pessoas Estrangeiras 
	 
	3.6.1 Regularização Documental 
	 
	3.6.2 Garantia do Direito à Assistência Consular 
	3.6.3 Garantia do Direito à Reunião Familiar 
	 
	3.6.4 Promoção do Direito de Acesso à Informação 
	3.6.5 Promoção e Sistematização de Contatos Consulares de Referência, Embaixadas, Representações Diplomáticas e do Ministério de Relações Exteriores (MRE) 
	Considerações Finais 
	 
	Referênciasdos Direitos Humanos, adotada 
em 1948, composta por trinta artigos que 
sintetizam os direitos e as liberdades 
essenciais para todos os indivíduos, sem 
distinção. Essa Declaração serve como 
referência central e inspira legislações e 
políticas públicas em todo o mundo, 
reafirmando o compromisso global com a 
dignidade e o respeito pela vida humana. 
 
11 
 
 
 
 
A ONU realiza um papel fundamental no monitoramento e 
fiscalização do cumprimento dos tratados internacionais de 
direitos humanos assinados por seus Estados-membros. Para 
garantir que esses compromissos sejam mantidos, a ONU 
estruturou uma série de órgãos e mecanismos especializados, 
como o Conselho de Direitos Humanos, o Alto Comissariado 
para os Direitos Humanos e diversos comitês, que analisam 
relatórios e denúncias sobre possíveis violações. Esses órgãos 
são responsáveis por acompanhar a implementação dos 
tratados, fornecer recomendações e, em alguns casos, ouvir 
queixas individuais ou coletivas sobre abusos, promovendo 
maior transparência e responsabilidade. 
 
 
 
 
Os Estados-membros, nesse ínterim, são regularmente 
convocados a enviar relatórios detalhados sobre suas ações e 
políticas em prol dos direitos humanos, os quais são avaliados e 
discutidos em sessões específicas. Esse processo permite que 
a ONU sugira melhorias e oriente mudanças, assegurando que 
os países não apenas cumpram suas obrigações internacionais, 
mas também promovam avanços constantes na defesa dos 
direitos fundamentais. A fiscalização contínua e os sistemas de 
denúncias promovem um ambiente de cooperação internacional, 
onde os países são encorajados a evoluir suas práticas em 
consonância com os padrões globais de direitos humanos. 
 
 
 
 
 
De outro norte, a ONU realiza conferências, fóruns, campanhas e 
programas de capacitação que incentivam a conscientização e 
promovem ações concretas em prol dos direitos humanos. Esses 
eventos reúnem governos, sociedade civil e especialistas para 
debater importantes desafios, compartilhar boas práticas e 
elaborar políticas e estratégias para enfrentar violações e 
fortalecer o respeito aos direitos humanos em todo o mundo. 
 
 
12 
 
 
 
1.3 Classificações de Direitos Humanos 
 
 
 
 
 
A classificação é uma ferramenta didática fundamental, pois 
permite organizar e compreender melhor um tema a partir de 
categorias e grupos, proporcionando uma visão mais 
abrangente e estruturada do assunto. No estudo dos Direitos 
Humanos, a classificação é essencial para compreender de 
forma objetiva e direta como esses direitos foram aplicados e 
interpretados ao longo do tempo. Ao organizar os Direitos 
Humanos em categorias específicas, conseguimos visualizar 
melhor sua evolução histórica e entender como diferentes 
aspectos desses direitos se adaptaram a contextos e 
necessidades distintas. 
 
 
 
 
 
A classificação dos Direitos Humanos reflete, portanto, uma 
análise histórica e conceitual, permitindo observar o 
desenvolvimento e a consolidação de tais direitos ao longo dos 
séculos. Esse estudo é especialmente relevante para 
compreender três conceitos principais: os direitos dos homens, 
os direitos fundamentais e os direitos humanos, que, embora 
inter-relacionados, apresentam distinções importantes. 
Vejamos cada um deles: 
 
 
 
 
 
 
 
Os "Direitos dos Homens" remetem à ideia de direitos naturais, que 
são entendidos como direitos inerentes à condição humana e 
universal, independente de leis ou de reconhecimento formal 
Bobbio, 2004. Eles independem de normas específicas, de culturas 
 
 
13 
 
 
 
ou de costumes para serem reconhecidos, são entendidos como 
universais e inalienáveis. Um exemplo clássico é o direito à vida, que 
se acredita ser intrínseco a todo ser humano, independentemente de 
qualquer legislação ou contexto cultural. John Locke 1994, um dos 
principais pensadores jusnaturalistas da história, argumenta que os 
direitos naturais, incluindo o direito à vida, liberdade e propriedade, 
são inalienáveis e fazem parte da natureza humana, sendo 
independentes de qualquer ordenamento jurídico formal. Locke 
sustenta que esses direitos são inerentes a todo ser humano e que o 
papel do Estado é protegê-los, não criá-los, pois já são direitos 
naturais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Canotilho 2003 e Moraes 2010 definem os direitos fundamentais 
como direitos humanos reconhecidos e incorporados à ordem 
jurídica interna, assumindo um papel estruturante nas constituições 
modernas. Ele afirma que, ao serem formalizados, esses direitos se 
tornam essenciais para garantir a dignidade e a proteção dos 
indivíduos. Assim, os direitos fundamentais correspondem aos 
direitos humanos que foram formalizados e integrados à ordem 
jurídica interna de cada país. São aqueles que, ao serem 
reconhecidos em constituições e outras leis nacionais, assumem um 
papel essencial na estrutura jurídica e social de uma nação. 
 
 
14 
 
 
 
 
 
 
São os direitos fundamentais que foram incorporados a normas e 
tratados internacionais, também chamados de ordem jurídica 
externa. Piovesan 2013 descreve os direitos humanos como normas 
de proteção à dignidade humana que são integradas à ordem jurídica 
internacional por meio de tratados e convenções, como o Pacto de 
São José da Costa Rica. Os direitos humanos são promovidos e 
defendidos por meio de convenções e pactos globais, reforçando um 
compromisso internacional de respeito e proteção dos direitos 
básicos de cada indivíduo. Um exemplo é o direito à vida, que está 
positivado no Pacto de São José da Costa Rica Convenção 
Americana de Direitos Humanos, 1969, abrangendo os países 
signatários dessa convenção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1.4 Características dos Direitos Humanos 
 
 
As características dos Direitos Humanos são atributos essenciais que ajudam a 
entender sua natureza e abrangência. Esses direitos, fundamentais para a 
dignidade humana e a construção de uma sociedade justa, possuem 
características específicas que refletem sua universalidade, perenidade e 
aplicabilidade. 
 
15 
 
 
 
Historicidade 
 
Os Direitos Humanos são resultado das demandas e conquistas sociais 
de cada época, refletindo as transformações históricas e culturais da 
sociedade Bobbio, 2004. 
 
 
 
 
Canotilho 2003, por sua vez, ao explorar a noção de historicidade dos 
Direitos Humanos, destaca que eles são históricos e complementares, 
evoluindo com o tempo em resposta às mudanças culturais e políticas. 
Para o autor, essa capacidade de adaptação é essencial para a 
sobrevivência e relevância contínua dos Direitos Humanos. 
 
 
 
 
Universalidade 
 
Essa característica assegura que os Direitos Humanos se apliquem a 
todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, cor, 
religião, orientação sexual, ou ideologia política, entre outras diferenças 
Piovesan, 2013. A universalidade significa que esses direitos 
pertencem a todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação, e 
têm abrangência territorial mundial, valendo em todos os lugares e 
protegendo a dignidade humana em nível global. 
 
 
 
 
Inexauribilidade 
 
Os Direitos Humanos são inesgotáveis, pois continuamente surgem 
novas necessidades e reivindicações para sua proteção. À medida que 
a sociedade evolui, novos direitos emergem para acompanhar o 
progresso humano, como o direito à privacidade digital, à internet, 
fatores impensáveis no início do século XX. 
 
 
16 
 
 
 
Piovesan 2013 explora justamente essa noção de que os direitos 
humanos estão em constante processo de ampliação e adaptação, 
acompanhando o progresso da sociedade e incorporando novas 
garantias, como o direito à privacidade digital. Para a autora, essa 
característica reforça sua relevância frente às transformações sociais e 
culturais. 
 
 
 
 
Essencialidade 
 
Essa característica reforça que os direitos humanos são indispensáveis, 
essenciais para uma vida digna e de qualidade. Bonavides 2001 
aborda o caráter essencial dos direitos humanosafirmando que eles 
representam valores fundamentais para a dignidade da pessoa humana, 
destacando como esses direitos ocupam uma posição normativa 
superior nas legislações e constituem um núcleo essencial para a 
proteção do ser humano. 
 
 
 
 
Imprescritibilidade 
 
A exigibilidade dos direitos humanos não se esgota com o tempo, 
podendo ser reivindicada a qualquer momento. Em outras palavras, o 
passar dos anos não extingue o direito ao respeito e à proteção dos 
direitos humanos. Esses direitos podem ser demandados a qualquer 
tempo, mesmo, inclusive, em casos de violações históricas. 
 
 
 
17 
 
 
 
Indisponibilidade/Inalienabilidade 
 
Os Direitos Humanos são inalienáveis, o que significa que não podem 
ser transferidos, vendidos, renunciados ou destruídos. Bonavides 
2016 afirma que a inalienabilidade dos direitos humanos significa que 
esses direitos não podem ser transferidos, renunciados ou retirados, 
mesmo com o consentimento do próprio titular. Ele explica que essa 
característica protege a dignidade humana e garante a 
autodeterminação e liberdade individual. Essa característica é essencial 
para assegurar que os direitos fundamentais não possam ser negados, 
mesmo com o consentimento de seu titular. 
 
 
 
Irrenunciabilidade 
 
Essa característica reforça que os direitos humanos não podem ser 
renunciados ou abdicados, levantando importantes debates sobre 
temas como o direito à vida e questões como a eutanásia, o suicídio 
assistido e o aborto. 
 
 
 
 
 
18 
 
 
 
1.5 Gerações / Dimensões / Famílias de Direitos Humanos 
 
 
 
A teoria da classificação dos direitos 
fundamentais em gerações (também 
conhecida por alguns doutrinadores 
como dimensões ou famílias) foi 
inicialmente proposta por Karel Vasak, 
que a apresentou em uma conferência no 
Instituto Internacional de Direitos 
Humanos em Estrasburgo, em 1979. 
 
Inspirado pelo lema da Revolução 
Francesa — liberdade, igualdade e 
fraternidade —, Vasak fundamentou sua 
ideia em um processo histórico de 
institucionalização dos direitos. 
 
 
 
 
 
 
Os direitos de primeira geração surgiram no contexto de resistência 
aos poderes dos monarcas absolutistas, impulsionados pela luta da 
burguesia por garantias de direitos individuais fundamentais, como o 
direito à vida, à liberdade e à propriedade. 
 
 
 
19 
 
 
Lenza 2023 discute como os direitos de primeira geração, voltados para a 
proteção da liberdade individual contra o poder do Estado, emergiram 
principalmente das lutas burguesas contra o absolutismo. O autor explora a 
influência dos movimentos sociais e documentos históricos, como a 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão 1789, na formulação desses 
direitos fundamentais, que incluíam o direito à vida, à liberdade e à 
propriedade. 
 
Nessa época, a classe burguesa ganha relevância política 
graças à sua ascensão econômica, o que contribui para a 
formação do Estado Moderno, caracterizado pela centralização 
do poder político. 
 
 
 
Por sua vez, Bonavides 2016 analisa o surgimento dos direitos 
fundamentais no contexto do Estado Moderno, enfatizando o 
papel da burguesia na luta por direitos individuais contra a 
concentração de poder nos monarcas. Ele ressalta como as 
conquistas da burguesia impulsionaram a formação dos direitos 
civis e políticos, consolidando princípios como liberdade e 
igualdade. 
 
 
 
 
Dessa forma, o conteúdo dos direitos fundamentais dessa época 
concentra-se nos direitos individuais relacionados à liberdade e 
à igualdade, tendo como base o direito à propriedade privada, 
que é considerado absoluto e inviolável. 
 
 
 
 
Em resumo, os direitos de primeira geração, que têm como marco 
histórico as revoluções liberais do século XVIII, constituem os direitos de 
liberdade em sentido amplo e são os primeiros a serem incorporados 
nos textos constitucionais, abarcando os direitos civis e políticos. 
Também conhecidos como “direitos de defesa ,ˮ esses direitos visam 
proteger o indivíduo de intervenções indevidas do Estado (dever de 
abstenção). Entre eles, destacam-se os direitos à liberdade, à vida, à 
igualdade perante a lei, à propriedade e à intimidade Ramos, 2019. 
 
20 
 
 
São exemplos de documentos oficiais da 1ª geração: 
 
 
 
Brasil: Constituição do Império, de 1824, a primeira e 
única constituição do Brasil Imperial, bem como a 
primeira constituição a reger o território brasileiro; 
Constituição da República, de 1891, que teve como 
principal característica a instituição do regime 
republicano presidencialista e a separação entre o 
Estado e a Igreja. 
 
 
 
 
EUA Declaração do Bom Povo da Virgínia, de 1776, que 
precede a Declaração de Independência dos Estados 
Unidos da América. 
 
 
 
 
Inglaterra: Bill Of Rights, de 1689, a declaração de 
direitos que foi o primeiro documento oficial que garantiu 
a participação popular, por meio de representantes 
parlamentares, na criação e cobrança de tributos, sob 
pena de ilegalidade, vedando, ainda, a instituição de 
impostos excessivos e de punições cruéis e incomuns. 
 
 
 
 
França: Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão, de 1789, documento culminante da Revolução 
Francesa, que definiu os direitos individuais e coletivos 
dos homens como universais. 
 
 
21 
 
 
 
Palavras-chave da 1ª geração: liberdade; direitos civis; direitos 
políticos. 
 
 
 
 
 
 
A segunda geração de direitos humanos surgiu a partir das lutas 
sociais que buscavam assegurar as condições essenciais para o 
desenvolvimento pleno da sociedade. Esses direitos foram 
impulsionados principalmente pelas reivindicações das classes 
operárias, formadas com o avanço da industrialização na Europa. 
 
 
 
Embora a classe operária tivesse garantias formais dos direitos de primeira 
geração, seus integrantes ainda enfrentavam condições de exploração pelos 
detentores de capital e viviam em contextos carentes de saneamento básico, 
educação, atendimento médico e proteção jurídica adequada, sobretudo em 
face das precárias condições de trabalho, imersos em uma realidade de baixos 
salários, longas jornadas de trabalho e falta de proteção social e jurídica, 
especialmente no contexto da industrialização Gomes, 2012. 
 
 
A segunda geração está vinculada 
ao conceito de igualdade, 
priorizando o direito de exigir do 
Estado a efetiva garantia dos 
direitos sociais, econômicos e 
culturais, fundamentais para a 
dignidade da pessoa humana. 
Esses direitos se expressam na 
forma de direitos fundamentais, 
impondo ao Estado um conjunto de obrigações que se concretizam por meio 
de normas constitucionais, políticas públicas, programas sociais e ações 
afirmativas. O Estado é, assim, responsável por garantir tais direitos, podendo 
ser penalizado em caso de descumprimento. 
 
22 
 
 
 
 
Atualmente, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal STF 
reforça a importância de efetivar os direitos de 2ª geração. 
Conforme entendimento da Corte, a função do STF na garantia 
dos direitos econômicos, sociais e culturais de segunda geração 
é essencial para a manutenção da integridade e eficácia da 
Constituição Federal. A omissão do Estado no cumprimento 
dessas obrigações positivas comprometeria a efetividade do 
estatuto constitucional e a proteção das liberdades concretas 
dos cidadãos, como afirmou o ministro Celso de Mello, no 
julgamento RTJ 164/158161 
 
 
 
 
Se assim não for, restarão comprometidas a integridade e a eficácia da 
própria Constituição, por efeito de violação negativa do estatuto 
constitucional motivada por inaceitável inércia governamental no 
adimplemento de prestações positivas impostas ao poder público. 
 
 
 
São exemplos de documentos oficiais da 2ª geração: 
 
 
 
Brasil: Constituição, de 1934, redigida para organizar um 
regime democrático, que assegurasse à nação a 
unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e 
econômico, conforme prevê seu próprio preâmbulo. 
 
 
 
 
México: Constituição Mexicana, de 1917, atual lei 
supremada federação mexicana. 
 
 
23 
 
 
 
Alemanha: Constituição de Weimar, de 1919. Sua 
estrutura é dualista, a primeira parte tem como objetivo a 
organização do Estado, enquanto a segunda apresenta a 
declaração dos direitos e deveres fundamentais, 
acrescentando às clássicas liberdades individuais os 
novos direitos de conteúdo social. 
 
 
 
 
Palavras-chave da 2ª geração: igualdade; direitos sociais, 
econômicos e culturais. 
 
 
 
 
 
 
Este período é marcante no estudo dos direitos humanos, pois 
simboliza o fim da Segunda Guerra Mundial 1945 e a 
necessidade de uma nova forma de agir e pensar, baseada em 
ideais de fraternidade e solidariedade de forma global e 
horizontalizada. 
 
 
 
 
A proteção de toda a humanidade passa a depender da 
promoção da solidariedade e do compromisso com o bem 
comum. A concretização dos chamados direitos difusos 
torna-se uma responsabilidade compartilhada de toda a 
sociedade humana, sendo a expressão mais tangível da 
solidariedade. Esse conceito substitui a fraternidade, que, 
segundo alguns, possui uma conotação estritamente religiosa. 
Assim, a solidariedade surge como o “novo nomeˮ da 
fraternidade Fortes, 2015. 
 
 
24 
 
 
 
 
Os direitos de terceira geração, conhecidos também como 
direitos da comunidade, destinam-se ao conjunto de toda a 
humanidade e incluem os direitos difusos e coletivos, 
fundamentados na solidariedade. Entre eles, destacam-se o 
direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, o direito 
ao desenvolvimento, o direito ao patrimônio comum da 
humanidade e o direito à paz (este último com alguma 
divergência, conforme será abordado posteriormente). 
 
 
 
Em síntese conclusiva, nas palavras do Ministro Celso de Mello: 
 
 
 
 
Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – 
que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – 
realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração 
(direitos econômicos, sociais e culturais) – que se identificam com as 
liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da 
igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de 
titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações 
sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um 
momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e 
reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto 
valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial 
inexauribilidade MS 22.164, rel. min. Celso de Mello, j. 30101995, P, 
DJ de 17111995.). 
 
 
 
 
 
25 
 
 
São exemplos de documentos oficiais da 2ª geração: 
 
 
 
Brasil: Constituição da República, de 1946. Exemplos da 
importância desta Constituição são: a igualdade de 
todos perante a lei; a liberdade de manifestação do 
pensamento, sem censura, a não ser em espetáculos e 
diversões públicas; a inviolabilidade do sigilo de 
correspondência; a liberdade de consciência, de crença 
e de exercício de cultos religiosos; e a atual Constituição 
Federal de 1988 (também chamada de Constituição 
Cidadã – tida como uma das mais avançadas do mundo 
no âmbito das garantias individuais). 
 
 
 
 
Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 
delineia os direitos humanos básicos, sendo adotada 
pela Organização das Nações Unidas em 10 de 
dezembro de 1948 todos os seres humanos podem 
invocar os direitos e as liberdades proclamados na 
presente Declaração, sem distinção alguma, 
nomeadamente de raça, cor, sexo, língua, religião, 
opinião política ou outra origem nacional ou social, 
fortuna ou nascimento. 
 
 
 
 
 
26 
 
 
 
Palavras-chave da 3ª geração: solidariedade; direitos difusos e 
coletivos. 
 
 
 
Além das três gerações inicialmente propostas por Karel Vasak, muitos 
doutrinadores expandiram os conceitos com as transformações históricas no 
campo dos direitos humanos, desenvolvendo as ideias de quarta, quinta e até 
sexta geração. 
 
 
 
O jurista brasileiro Paulo Bonavides, renomado nacional e 
internacionalmente como um dos principais constitucionalistas 
do país, propõe que os direitos fundamentais de quarta geração 
são aqueles decorrentes da globalização. Entre eles estão o 
direito à democracia, à informação e ao pluralismo, além da 
bioética, segundo o entendimento de alguns teóricos, como 
Norberto Bobbio. 
 
 
 
 
 
O direito à democracia, em particular, destaca-se por adquirir 
uma dimensão mais ativa e presente em diversas áreas 
normativas. A participação direta dos cidadãos, inclusive com 
poderes de fiscalização, é vista como um direito fundamental, 
cuja concretização fortalece a atuação ética e eficiente do 
Estado. Esse direito, ao se consolidar, qualifica o espaço público, 
superando o modelo de uma democracia meramente formal. 
 
 
 
 
27 
 
 
 
 
 
Abrange os direitos à democracia, à informação e ao pluralismo, além 
de novos direitos introduzidos no campo jurídico pela globalização 
política. Esses direitos também estão ligados aos avanços na 
engenharia genética, ampliando as fronteiras da proteção jurídica na 
era global, visando garantir a construção de uma sociedade aberta 
para o futuro, com maior universalidade, que se reflete nos novos 
direitos criados à medida que as necessidades e os desafios sociais 
e tecnológicos evoluem . 
 
 
 
 
Exemplo de documento oficial da 4ª geração: 
 
 
 
Declaração Universal do Genoma Humano e dos 
Direitos Humanos, de 1997 redigido pela Organização 
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a 
Cultura UNESCO, contempla em suas linhas que “com 
cada um dos países signatários assumindo o 
compromisso de divulgar seu conteúdo e pugnar pela 
busca de soluções que conciliam desenvolvimento 
tecnológico e respeito aos direitos do homem .ˮ 
 
 
 
 
Paulo Bonavides propôs, ainda, a existência de uma Quinta geração 
de direitos humanos, acrescentando o direito à paz como uma norma 
jurídica autônoma, separada das demais gerações tradicionais. Ele 
argumenta que o direito à paz não deve ser apenas entendido dentro 
dos direitos de terceira geração, que envolvem os direitos coletivos e 
de solidariedade, mas como um direito fundamental independente 
que exige proteção jurídica específica. Bonavides respeitosamente 
critica a classificação de Karel Vasak, que, na sua concepção 
original, inseriu o direito à paz na terceira geração, considerando-o 
um direito coletivo mais ligado aos movimentos sociais e ao avanço 
global, em vez de reconhecê-lo como um direito autônomo essencial 
para a convivência humana. 
 
 
28 
 
 
 
 
Essa ideia de Bonavides reflete uma evolução da compreensão 
dos direitos humanos, ampliando a noção de paz de uma meta 
de convivência entre nações para um direito legalmente 
reconhecido e protegido dentro do ordenamento jurídico 
internacional. A paz, nesse sentido, não seria apenas uma 
consequência das relações políticas internacionais, mas um 
direito fundamental que deve ser respeitado e garantido por 
normas jurídicas universais. 
 
 
 
 
 
 
 
A sexta geração de direitos humanos destaca o acesso à água 
potável como um direito fundamental. Com o agravamento das 
questões ambientais, como a escassez de água devido ao 
aquecimento global e a desertificação, esse direito tornou-se crucial 
para garantir uma vida saudável tanto para as atuais quanto para as 
futuras gerações. A água, sendo um recurso essencial à vida, deve 
ser protegida juridicamente para evitar sua escassez e garantir que 
todas as pessoas tenham acesso a esse bem vital. 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
 
 
A ONU, em resoluções como a Resolução 64/292 da Assembleia 
Geral das Nações Unidas de 2010, reconhece explicitamente o 
acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos, 
destacando a água como recurso vital que precisa ser protegido 
e acessível para todos. 
 
 
 
Para finalizarmos o primeiro módulo, é possível identificar três conclusões 
centrais no contexto das gerações, dimensões ou famílias de direitos humanos:Atualmente, muitos autores preferem o termo “dimensõesˮ em 
vez de “geraçõesˮ ao se referirem aos direitos humanos, a fim 
de evitar a interpretação de que uma categoria de direitos anula 
ou substitui outra anterior. As dimensões somam-se ao conjunto 
de direitos fundamentais já existentes, ampliando seu alcance 
e abrangência. 
 
 
 
 
 
 
Todos os direitos fundamentais compartilham uma proteção 
indivisível e se complementam para promover a dignidade 
humana. A indivisibilidade e interdependência desses direitos 
indicam que eles interagem para atender às necessidades 
essenciais de cada indivíduo. 
 
 
 
30 
 
 
 
 
Com o surgimento de novas dimensões, há também uma 
reinterpretação dos direitos já consolidados. Por exemplo, o 
direito à propriedade deve ser interpretado em conformidade 
com os direitos sociais, refletindo sua função social. Com o 
reconhecimento do direito ao meio ambiente equilibrado, o 
direito de propriedade passa a incluir o respeito às normas 
ambientais, visando o uso sustentável dos recursos. 
 
 
 
 
Considerações Finais 
 
 
 
Concluímos o Módulo 1 com uma compreensão ampla dos 
conceitos, características e dimensões dos direitos humanos, 
uma área fundamental de revisitação de docentes da matéria, 
haja vista suas constantes transformações. Compreendemos 
como os direitos humanos se desenvolveram historicamente em 
dimensões, inicialmente, direitos civis e 
políticos; depois, direitos sociais, 
econômicos e culturais; seguidos por 
direitos coletivos e de solidariedade, e 
mais recentemente, direitos que abarcam 
a globalização e a proteção de recursos 
essenciais, como a água potável. 
Referido conhecimento ajuda os 
profissionais a embasarem seu papel na 
promoção e respeito aos direitos 
fundamentais, reconhecendo a 
importância da interdisciplinaridade e da 
atualização constante sobre o tema. 
 
 
31 
 
 
 
Exploramos também as características dos direitos humanos, 
como a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência. 
Essas características reforçam que os direitos humanos são 
aplicáveis a todos, de forma integral. Para os educadores, 
compreender essas características é essencial, pois permite 
uma abordagem de ensino que promova o respeito à 
diversidade e à dignidade, valores essenciais na construção de 
uma sociedade justa e inclusiva. Reiterar esses princípios na 
prática docente amplia a capacidade de influenciar 
positivamente o ambiente educacional e, por consequência, o 
social. 
 
 
 
É importante enfatizar que o estudo dos direitos humanos é um campo 
inesgotável e em constante transformação. As novas demandas da 
sociedade e os avanços tecnológicos trazem à tona questões e 
necessidades que requerem reinterpretações e ampliação desses 
direitos, que devem ser incansavelmente estudados e debatidos, como 
o direito à privacidade digital e ao meio ambiente equilibrado. Para os 
docentes da área, isso significa a necessidade de se manterem 
atualizados e abertos a novas perspectivas, adaptando-se à prática 
pedagógica para melhor atender às exigências contemporâneas e às 
necessidades dos alunos, formando cidadãos conscientes e críticos. 
 
 
 
 
Por fim, ao avançarmos para o próximo módulo, daremos 
continuidade a essa discussão, focalizando os direitos humanos 
no contexto prisional brasileiro. Esse tema ampliará nossa visão 
sobre a aplicação prática dos direitos humanos em um ambiente 
desafiador e nos permitirá refletir sobre a necessidade da busca 
pela garantia desses direitos a todos os indivíduos, 
independentemente de sua situação, como os que se encontram 
em contextos de privação de liberdade. A qualificação para 
abordar essa realidade será essencial para aqueles que desejam 
contribuir ativamente para uma sociedade mais justa e 
igualitária. 
 
 
Até breve! 
 
32 
 
 
 
Referências 
 
 
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. 
 
BONAVIDES, Paulo. A quinta geração de direitos fundamentais. Revista 
Brasileira de Direitos Fundamentais & Justiça, 23, 8293, 2008. 
 
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 16. ed. São Paulo: 
Malheiros, 2016. 
 
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da 
Constituição. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003. 
 
GOMES, Sérgio Pinto. O Direito do Trabalho e as Transformações Sociais. São 
Paulo: LTr, 2012. 
 
LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 27. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2023. 
 
LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil. São Paulo: Martins 
Fontes, 1994. 
 
MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de Direito Internacional dos Direitos 
Humanos. São Paulo: RT, 2011. 
 
MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. São Paulo: Atlas, 
2010. 
 
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução A/RES/64/292, de 28 de 
julho de 2010. O direito humano à água e ao saneamento. Assembleia Geral 
das Nações Unidas, 2010. Disponível em: https://undocs.org/A/RES/64/292. 
Acesso em: 10 out. 2024. 
 
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 
São Paulo: Saraiva, 2013. 
 
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 35. ed. São 
Paulo: Malheiros, 2012. 
 
VASAK, Karel. Human Rights: A Thirty-Year Struggle: the Sustained Efforts to 
give Force of law to the Universal Declaration of Human Rights. UNESCO 
Courier, 1977. 
 
33 
 
 
Módulo 2 - Direitos Humanos no contexto do 
Sistema Prisional Brasileiro 
 
 
Cursista, neste módulo 2, exploraremos um tema essencial para 
a construção de uma sociedade mais justa e para o 
aprimoramento das práticas profissionais no sistema prisional: 
Direitos Humanos no contexto do sistema prisional brasileiro. 
 
 
 
 
A realidade prisional no Brasil desafia 
constantemente nossa capacidade 
enquanto sociedade de assegurar os 
direitos básicos às pessoas privadas de 
liberdade, por isso este é um momento 
de grande aprendizado e reflexão sobre o 
papel de cada profissional em promover 
a dignidade humana, mesmo nos 
contextos mais adversos. 
 
 
 
 
A atualização constante dos professores e profissionais que trabalham com 
direitos humanos é crucial neste cenário. As transformações sociais, jurídicas e 
institucionais exigem um conhecimento profundo das normas nacionais e 
internacionais aplicáveis ao tema, bem como das práticas que contribuem para 
a garantia dos direitos de pessoas em privação de liberdade. Professores(as) 
atualizados estão aptos a transmitir o conhecimento necessário para formar 
agentes capazes de atuar de maneira ética e eficiente, respeitando os valores 
humanos e contribuindo para a ressignificação do sistema prisional brasileiro, 
hoje ainda distante dos seus objetivos precípuos. 
 
 
34 
 
 
 
 
Neste módulo, exploraremos os desafios enfrentados no 
contexto prisional brasileiro. Para isso, começaremos com uma 
análise do histórico das prisões, revisitando sua gênese e 
evolução, com o objetivo de compreender as raízes e os 
fundamentos desse sistema. Essa perspectiva histórica é 
essencial para refletir criticamente sobre as estruturas e 
práticas atuais. 
 
 
 
 
Além disso, mais do que um compromisso ético/profissional, a 
garantia dos direitos humanos no ambiente prisional é uma 
missão social que reafirma a busca por uma sociedade que 
valoriza a dignidade, a igualdade e o respeito a todos. 
 
 
 
 
 
Deste modo, o módulo 2 propõe a análise de conteúdos 
enriquecedores para atividade de docência, que fortalecerão 
sua capacidade de promover mudanças efetivas e de atuar 
como agente na construção de uma realidade prisional mais 
humana e justa. 
 
 
 
 
 
 
2.1 A Evolução das Instituições Penais: Uma Análise Histórica 
 
 
 
Ao longo da história da humanidade, transgressões sempre 
foram uma constante nas sociedades que estabeleceram regras 
para organizar seu convívio. Consequentemente, a questão 
sobre como lidar com os que violam essas normas atravessa os 
tempos como um desafio crucial. 
 
 
35 
 
 
 
A história desempenha um papel essencialpara compreender as 
origens e a evolução das instituições penais. Gramsci, citado por Löwy 
1987, p. 129, enfatiza que “toda visão de mundo é histórica, toda 
verdade pretensamente eterna e absoluta tem uma origem prática 
histórica .ˮ Esse enfoque histórico possibilita analisar a transformação 
das instituições de controle social e refletir sobre os caminhos 
percorridos para lidar com a transgressão ao longo dos séculos. 
 
 
 
Os primórdios da pena remontam à 
Idade Média, particularmente nos 
mosteiros, onde se associava punição 
ao isolamento do indivíduo. Nesse 
contexto, monges ou clérigos que 
cometiam “pecadosˮ eram confinados 
em ambientes destinados ao silêncio, 
meditação e arrependimento como 
forma de reconciliação espiritual com 
Deus Pimentel, 1989. Para a igreja católica, desde suas origens, penitência e 
punição estavam intimamente ligadas, e o isolamento era visto como um meio 
moral e espiritual de transformação. 
 
 
Segundo Mirabete 2004, p. 249, essa concepção inspirou a construção da 
primeira prisão para criminosos, a House of Correction Casa de Correção), 
edificada em Londres entre 1550 e 1552. Durante o reinado de Elizabeth I, a 
Casa de Correção representou uma mudança significativa: ao substituir 
castigos corporais por encarceramento e trabalho forçado, buscava-se a 
reforma moral e social dos prisioneiros, em períodos geralmente inferiores a 
dois anos. 
 
 
 
No entanto, até o século XVIII, o encarceramento não era 
amplamente reconhecido como uma forma de pena 
propriamente dita. Sua função primária era conter os infratores 
ou “corpos indesejados ,ˮ retirando-os de circulação, sem foco 
em reabilitação para retorno à sociedade. Nesse período, a 
prisão passou a ser vista como um mecanismo de punição 
estruturada. 
 
 
36 
 
 
 
 
Historicamente, instituições denominadas “prisõesˮ existiam, 
sobretudo, para controlar corpos e garantir que os detidos 
permanecessem à disposição da justiça até receberem uma 
sentença. Essas punições incluíam morte, tortura ou 
escravidão, e o encarceramento era apenas um meio para 
viabilizar tais medidas Nogueira, 2020. 
 
 
 
 
Foi na idade moderna, durante o século XVIII, que a pena de 
privação de liberdade consolidou-se como forma central de 
punição. Reformas penais transformaram a prisão em um 
elemento-chave para lidar com transgressores, racionalizando o 
uso da privação de liberdade como um tipo de resposta 
proporcional ao crime. Como aponta Maia 2009, a pena 
passou a ser vista como um direito da sociedade de proteger-se 
contra os criminosos, utilizando o tempo de encarceramento 
para disciplinar o corpo e a mente. 
 
 
 
 
Michel Foucault 1987 contribui para 
essa análise ao destacar como 
instituições como orfanatos, conventos, 
hospitais e fábricas serviram de 
protótipos para as prisões modernas. 
Essas estruturas disciplinavam os 
indivíduos por meio de vigilância 
constante e controle hierárquico. Moura 
2010 complementa ao ressaltar que 
técnicas de observação desenvolvidas 
inicialmente em quartéis militares foram 
incorporadas à organização prisional, 
consolidando a disciplina e o controle 
social nas sociedades contemporâneas. 
 
 
37 
 
 
A trajetória das instituições penais reflete não apenas mudanças nas práticas 
de punição, mas também nas concepções de justiça e busca por reabilitação 
do sujeito criminoso, demonstrando que o encarceramento é um fenômeno 
moldado por contextos históricos, sociais e políticos em constante 
transformação. 
 
 
Nesta esteira, como muito bem pontuado por Carlos Aguirre 
2009, as prisões são muitas coisas ao mesmo tempo: 
 
 
 
“[...] Instituições que representam o poder e a autoridade do Estado; 
arenas de conflito, negociação e resistência; espaços para a criação de 
formas subalternas de socialização e cultura; poderosos símbolos de 
modernidade (ou de ausência dela); artefatos culturais que representam 
as contradições e tensões que afetam as sociedades, empresas 
econômicas que buscam manufaturar tanto bens de consumo como 
eficientes trabalhadores; centros para a produção de distintos 
conhecimentos sobre as classes populares; e, finalmente, espaços onde 
amplos segmentos da população vivem parte de suas vidas, formam 
suas visões de mundo, entrando em negociações e interação com 
outros indivíduos e com autoridades do Estado .ˮ 
 
 
 
 
Para a pessoa presa, o cumprimento da pena privativa de 
liberdade frequentemente é percebido como um período de 
tempo essencialmente perdido Hofmeister, 2002. Essa 
percepção, conforme argumenta Goffman 1999, não decorre 
apenas das condições precárias das instituições prisionais, mas 
também das perdas sociais e pessoais associadas ao 
isolamento. 
 
 
 
Para ambos os autores, durante a reclusão, o indivíduo é privado de recursos e 
experiências fundamentais para sua vida fora da prisão, como bens materiais, 
relações afetivas e oportunidades educacionais, o que reforça a sensação de 
que o tempo vivido no cárcere é um "tempo morto". 
 
38 
 
 
 
 
Embora séculos tenham se passado desde as primeiras 
concepções de prisão, a lógica do isolamento contínuo 
permanece como pilar do sistema penal. No entanto, vê-se que 
sua função original foi gradativamente distorcida, assumindo um 
papel centrado no controle social e distanciando-se de objetivos 
como reabilitação ou ressocialização. Esse modelo perpetua a 
exclusão social e o sentimento de inutilidade, transformando o 
encarceramento em um ciclo que frequentemente dificulta o 
retorno do indivíduo à sociedade de modo que não reincida no 
contexto criminoso. 
 
 
 
 
2.1.1 Histórico e Avanços da Legislação de Execução Penal no Brasil: 
Das Primeiras Prisões às Reformas Contemporâneas 
 
 
 
Após a proclamação da independência do Brasil, a Constituição 
de 25 de março de 1824, conhecida como Carta Política 
Imperial, representou um marco jurídico significativo para a 
época. 
 
 
 
39 
 
 
 
Isso porque, em seu artigo 179, garantiu a inviolabilidade dos 
direitos civis e políticos dos cidadãos, fundamentados nos 
princípios de liberdade, segurança individual e propriedade. 
Além disso, estabeleceu a necessidade urgente de organização 
de um código criminal (art. 179, §18, refletindo a preocupação 
com a estruturação de um sistema jurídico nacional. 
 
 
 
 
 
Inspirada no constitucionalismo inglês, a Carta Política Imperial 
destacava-se por focar nas disposições relativas aos poderes 
do Estado e aos direitos individuais. Vigente por 65 anos, foi a 
constituição de maior duração no Brasil, sendo revogada apenas 
com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. 
Durante esse período, consolidou-se como a segunda 
constituição escrita mais antiga do mundo, superada apenas 
pela Constituição dos Estados Unidos, o que ressalta sua 
relevância histórica e influência na organização política e 
jurídica do Brasil. 
 
 
 
 
No campo das punições, o Código Criminal do Império trouxe a pena de 
prisão sob duas modalidades principais: a prisão com trabalho (art. 46, 
que obrigava o condenado a trabalhar enquanto cumpria sua pena, e a 
prisão simples (art. 47, aplicada em estabelecimentos sem trabalho, 
conforto ou segurança. Essa legislação marcou a transição das penas 
corporais, características do período colonial, para a privação de 
liberdade, como destaca Foucault 1987 “O castigo passou de uma 
arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos 
suspensos .ˮ 
 
 
40 
 
 
 
 
A aplicação do sistema de penas previsto no Código Penal do 
Império enfrentou desafios. Embora a prisão com trabalho 
estivesse contemplada na legislação, sua implementação foi 
restrita a poucas localidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, 
Recife e, a partir da década de 1880, Ceará. Essa limitação 
evidenciava a dificuldade de uniformizar as práticas penais em 
um país de dimensões sabidamente amplas e complexas. 
 
 
 
 
 
O Código Penal de 1839 representou um 
marco na consolidação de um sistema 
punitivonacional, introduzindo medidas 
como a prisão em celas, o banimento, a 
suspensão de direitos e a perda de 
funções públicas. Nesse período, as 
prisões funcionavam principalmente como 
locais preventivos, destinadas a evitar 
fugas antes do julgamento, ou como meio 
coercitivo para garantir o pagamento de 
penas pecuniárias, raramente assumindo 
um caráter repressivo Dotti, 1998; 
Hofmeister, 2002. 
 
 
 
 
Após cinquenta anos, com o Código Penal de 1890, a privação 
de liberdade foi reformulada em quatro modalidades: prisão em 
celas, com isolamento e obrigação de trabalho; reclusão, 
cumprida em instalações militares; prisão com trabalho 
obrigatório, em prisões agrícolas ou presídios militares; e prisão 
disciplinar, destinada a jovens menores de 21 anos em 
estabelecimentos industriais especiais. 
 
 
41 
 
 
Foi somente em 1940, com mais uma edição do Código Penal, que 
consolidaram-se penas principais e acessórias, limitando a privação de 
liberdade a um máximo de 30 anos (sendo alterado para 40 anos, no ano de 
2024 e introduzindo medidas como perda de funções públicas e interdição de 
direitos. 
 
 
 
 
Posteriormente, em 1984, a parte geral do Código foi 
reformulada, estabelecendo a progressão de regime (regimes 
fechado, semiaberto e aberto), que permanecem até hoje como 
pilares do cumprimento progressivo de pena no sistema penal 
brasileiro. 
 
 
 
 
 
Apesar dessas evoluções legislativas, o sistema prisional do 
Brasil continua marcado por contradições e acentuadas falhas 
estruturais. Como aponta Maia et al. 2009, a história das 
prisões no Brasil é permeada por reformas inacabadas e 
desafios persistentes, refletindo um sistema que 
frequentemente marginaliza, em vez de reintegrar. 
 
 
 
Goffman 1999 descreve as prisões brasileiras como instituições totalitárias, 
onde o isolamento do indivíduo é reforçado por barreiras físicas e sociais, 
transformando a reintegração em um desafio monumental. 
 
 
 
No Brasil, compreender a trajetória da punição e do 
encarceramento é fundamental para enfrentar as desigualdades 
e contradições do sistema democrático. Como observado por 
Olavo Bilac, em 1902, o cenário prisional brasileiro, com suas 
fragilidades e disfunções, ecoa até os dias atuais, refletindo um 
problema estrutural que segue exigindo soluções urgentes: 
 
 
42 
 
 
 
Que vai fazer agora o governo? Vai demitir o administrador da Casa de 
Detenção? Daqui a pouco será obrigado a demitir o cidadão que o 
substituir, e as coisas continuarão no mesmo pé – porque a causa dos 
abusos não reside na incapacidade de um funcionário, mas num vício 
essencial do sistema, num defeito orgânico do aparelho penitenciário. E 
não há de ser a demissão de um administrador que há de consertar o 
que já nasceu torto e quebrado. 
 
 
 
 
 
Ressalta-se que o início do sistema prisional brasileiro remonta à 
Carta Régia de 8 de julho de 1796, que determinava a 
construção da Casa de Correção da Corte, posteriormente 
conhecida como Complexo Frei Caneca, também implodido, em 
2010. 
 
 
 
 
Durante o período de construção da Casa de Correção, entre 
1834 e 1850, o local já abrigava detentos condenados a 
trabalhos forçados, além de africanos apreendidos após a 
promulgação da primeira lei de proibição do tráfico de 
escravizados em 1831. Nesse período, não havia 
regulamentação para definir a administração ou a rotina do 
cárcere. 
 
 
 
43 
 
 
 
 
Somente em 6 de julho de 1850 foi instituído o primeiro 
regulamento da prisão. Esse documento detalhava a 
necessidade de divisão dos internos de acordo com os crimes 
por eles praticados, estabelecia normas disciplinares e 
penalidades para faltas disciplinares, além de tratar de aspectos 
como vestuário, alimentação, trabalho nas oficinas e práticas 
religiosas. Esse regulamento marcou um passo inicial na 
organização interna das prisões brasileiras. 
 
 
 
 
A Casa de Correção da Corte nasceu do desejo de um grupo 
político que pretendia, além de inserir o Brasil no grupo das 
nações consideradas civilizadas, garantir o controle das classes 
subalternas, transformando homens e mulheres em nos ditos 
“cidadãos laboriosos .ˮ 
 
 
 
 
Durante a sua construção, a prisão recebeu todos os tipos sociais que 
precisavam ser controlados naquele momento: escravos, libertos, 
pobres, imigrantes e africanos livres. Ao longo de sua história, o 
Complexo Prisional da Frei Caneca serviu a sociedade, contendo atrás 
de suas muralhas criminosos, na tentativa de manter a ordem pública. 
 
 
 
 
Uma das principais obras sobre a história das prisões brasileiras 
é o livro do sociólogo Fernando Salla, As Prisões de São Paulo: 
18221940 1999, que analisa a Penitenciária de São Paulo 
como objeto de estudo até a década de 1940. 
 
 
 
Outra contribuição de destaque é a pesquisa de Elizabeth Cancelli 2005, que 
realizou importantes estudos sobre as prisões brasileiras, com especial foco na 
Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, 
inaugurada em 21 de abril de 1920. 
 
44 
 
Na época, a orientação do sistema prisional era a dita 
“regeneração do indivíduo .ˮ No entanto, tanto o Carandiru 
quanto outras prisões brasileiras apresentavam um cenário 
contraditório em relação ao tratamento das pessoas presas 
Cancelli, 2005. 
 
 
 
Cancelli 2005 aponta que, embora o Carandiru se destacasse 
por princípios penais alinhados à Escola Positiva de Direito, 
organização, limpeza, condições de habitabilidade, sistema 
celular e modernidade, também era um espaço de opressão e 
sofrimento. Seu projeto arquitetônico, inspirado no modelo de 
Frenes, na França, ia além de uma simples prisão. Não modesto 
em sua concepção, o complexo foi planejado para abrigar mais 
de mil detentos e representava um marco da engenharia penal, 
mas não voltado às lógicas de ressocialização do indivíduo. 
 
 
 
 
A construção do Carandiru custou cerca de quatorze mil contos 
de réis, um valor significativamente superior ao de uma 
penitenciária convencional da época, que poderia ser edificada 
por apenas mil contos de réis Brito, 1946. Esse investimento 
reflete o caráter monumental e ambicioso do projeto. 
 
 
 
FIGURA 1 – ESTRUTURA CASA DE DETENÇÃO DE SÃO PAULO – “CARANDIRUˮ 
 
 
 
FONTE Prefeitura de São Paulo / Divulgação / CP Memória 
 
45 
 
 
FIGURA 2 - CASA DE DETENÇÃO DE SÃO PAULO – “CARANDIRUˮ 
 
 
 
FONTE Revista Veja 2018 
 
 
 
Elizabeth Cancelli 2005, em seu artigo “Repressão e controle 
prisional no Brasil: prisões comparadas ,ˮ narra fragmentos da 
rotina percebida por ela no Carandiru: 
 
 
 
 
Foi assim que a vida do prisioneiro no Carandiru se caracterizou por 
uma rotina monótona e sem perspectivas, na qual o tempo dispensado 
aos esforços físicos, principalmente os dedicados ao trabalho, tinham 
um papel fundamental. A solidão coletiva, aquela imposta pela 
obrigatoriedade do silêncio permanente, embora existisse o trabalho em 
grupo, e acolhimento às celas individuais, também eram fatores 
importantes para o acerbamento da monotonia prisional e da 
despersonalização dos prisioneiros, daí a ocorrência de grande 
quantidade de suicídios ou de tentativas de suicídios. 
 
O Carandiru possuía tal sistema de controle, que manifestações que 
pudessem expressar valores pessoais nesse sistema implantado 
deveriam ser sempre reprimidas. Nem tatuagens, nem grafites, nem 
escolha de qualquer coisa que fugisse ao controle total da 
administração presidiária. Corpo e mente deveriam ser sempre objeto 
 
46 
 
 
 
de atenção, fiscalização e comando, inspirados no pressuposto de 
isolamento de cada um dos prisioneiros. Sem lideranças, sem 
contracultura específica para o interior da prisão. 
 
O sistema de celas individuais, com isolamento e com janelas que 
permitiam aos guardas ter controle constante sobre os atos dos 
prisioneiros, desencorajavam qualquer possibilidade de burla ao duro 
regulamento de punições e recompensas estipulado. Nesse sentido, a 
própria arquiteturado prédio era concebida para a eliminação dos vícios 
que historicamente o controle penitenciário vinha observando e 
definindo como tal nas prisões. Os presos não tinham direito à 
intimidade, já que ficavam expostos à vigilância constante feita através 
das aberturas existentes nas portas das celas. 
 
 
 
 
 
O sistema prisional brasileiro, historicamente, tem sido símbolo 
das arbitrariedades governamentais, frequentemente 
pressionado por entidades internacionais a tomar providências 
sobre questões críticas, destacando-se a superlotação. 
 
 
 
Para apagar memórias das violações cometidas, Onodera 2005 afirma que o 
Brasil, por vezes, recorreu à destruição de seus arquivos históricos. Um 
exemplo marcante foi o destino do Carandiru, implodido em 8 de dezembro de 
2002, após o massacre que lá ocorreu. 
 
 
 
Vê-se, portanto, que não raras vezes o Brasil foi cenário de 
graves violações de direitos, submetendo os indivíduos em 
privação de liberdade a condições desumanas. Essas violações 
incluem a ausência de instalações adequadas, falta de 
assistência jurídica, psicossocial e à saúde, bem como a 
restrição ao acesso à educação e ao trabalho como direitos 
fundamentais. Além disso, práticas como tortura, agressões 
físicas e psicológicas, violência contra familiares e fome são 
frequentes nesse contexto, segundo os relatórios anuais 
divulgados por essas entidades e pelo Mecanismo Nacional de 
Prevenção e Combate à Tortura. 
 
47 
 
 
 
 
 
Essa realidade, longe de ser nova, reflete um problema 
estrutural e persistente. Em setembro de 2015, o Supremo 
Tribunal Federal STF reconheceu oficialmente um Estado de 
Coisas Inconstitucional ECI no sistema prisional brasileiro, por 
meio da ADPF 347/2015, destacando as generalizadas violações 
de direitos fundamentais dos encarcerados, agravadas pela 
reiterada inércia do Estado em enfrentar e solucionar essas 
questões, sabidamente desafiadoras. 
 
 
 
 
 
2.2 Prisão: Punição ou Reabilitação? 
 
 
 
 
Foucault 1987 diferencia a sociedade moderna 
das mais antigas pela forma disciplinar de 
controle sobre os corpos. Para ele, para criar 
corpos dóceis, a sociedade moderna 
desenvolveu uma tecnologia disciplinar que atua 
sobre o corpo do indivíduo, dividindo-o (em 
sentido metafórico) em partes (como pernas, 
braços), analisando-o e treinando-o para 
controlar tanto as partes quanto o todo. 
 
 
 
 
A pena, ao longo do tempo, evoluiu para uma forma mais 
discreta. Em vez da condenação corporal pública, surgiram 
celas afastadas dos olhos do público. A punição deixou de se 
concentrar no corpo e passou a atingir a mente e a autonomia 
do indivíduo, mudando o foco da vingança do soberano para um 
discurso de regeneração, criando os chamados "corpos dóceis". 
 
 
48 
 
 
Na busca por transformar criminosos em "corpos dóceis", os detentores do 
poder acreditavam que a disciplina por meio do trabalho seria a solução para 
os males sociais. No século XIX, as unidades prisionais começaram a se 
proliferar mundialmente. Segundo Prado 2008, o discurso iluminista, que 
inicialmente via a prisão como um local para a transformação dos corpos, não 
resistiu à prática, pois o cárcere surgiu e se consolidou devido às necessidades 
dos ideais capitalistas. 
 
 
A divisão do espaço e do tempo também faz parte, segundo 
Foucault 1987, do processo de construção desse poder 
disciplinar. Para entender a dinâmica do sistema prisional, a 
pesquisadora seguiu os caminhos traçados por Foucault, 
analisando as relações de poder dentro das prisões e a forma 
como elas se desenvolvem. 
 
 
 
 
Um dos grandes dilemas da humanidade é como responder 
àqueles que transgridem as normas impostas pela sociedade. 
Foucault 1987 narra a história da legislação penal e dos 
métodos punitivos, demonstrando como o poder, por séculos, 
regulamentou e instituiu sistemas de repressão ao crime, desde 
o suplício dos corpos até as modernas instituições correcionais. 
 
 
 
 
 
O que é um suplício? Foucault 1987 
questiona e ele mesmo responde: uma 
pena corporal, dolorosa e, muitas vezes, 
atroz; um fenômeno que revela a incrível 
capacidade humana para a barbárie e a 
crueldade. Acrescenta: 
 
 
49 
 
 
 
O suplício é uma técnica e não deve ser equiparado aos extremos de 
uma raiva sem lei. Uma pena, para ser um suplício, deve obedecer a 
três critérios principais: em primeiro lugar, produzir uma certa 
quantidade de sofrimento que se possa, se não medir exatamente, ao 
menos apreciar, comparar e hierarquizar; a morte é um suplício na 
medida em que ela não é simplesmente privação do direito de viver, 
mas a ocasião e o termo final de uma graduação calculada de 
sofrimentos: desde a decapitação — que reduz todos os sofrimentos a 
um só gesto e num só instante: o grau zero do suplício — até o 
esquartejamento que os leva quase ao infinito, através do 
enforcamento, da fogueira e da roda, na qual se agoniza muito tempo; a 
morte suplício é a arte de reter a vida no sofrimento, subdividindo-a em 
“mil mortesˮ e obtendo, antes de cessar a existência, the most exquisite 
agonies. O suplício repousa na arte quantitativa do sofrimento. Mas não 
é só: esta produção é regulada Foucault, 1987, p. 36. 
 
 
 
 
 
Foucault 1987 explica a existência de um "código jurídico da 
dor", no qual a pena, quando é supliciante, não recai sobre o 
corpo de forma aleatória ou imprecisa; ela é meticulosamente 
calculada, de acordo com regras detalhadas: o número de 
golpes de açoite, o local onde o ferrete em brasa será aplicado, 
o tempo de agonia na fogueira ou na roda (o tribunal decide se é 
necessário estrangular a vítima imediatamente ou deixá-la 
morrer aos poucos, e estabelece o momento em que essa 
intervenção, por piedade, deve ocorrer), além do tipo de 
mutilação a ser imposta (como a decepação de mãos ou a 
perfuração de lábios ou língua). 
 
 
 
 
 
Em sua obra "Vigiar e Punir" 1987, Foucault oferece reflexões 
profundas sobre a evolução histórica dos sistemas penais 
ocidentais, analisando os mecanismos sociais e teóricos que 
impulsionaram essas transformações. Ele dedica-se a investigar 
como o poder exerce vigilância e punição sobre aqueles que 
são classificados como criminosos. 
 
50 
 
 
 
No início, a punição era marcada pela pena de morte. Foucault 
descreve minuciosamente, também em "Vigiar e Punir", o 
processo de execução de Robert Damiens. Em 2 de março de 
1757, Damiens foi condenado a pedir perdão publicamente na 
porta principal da igreja de Paris, exemplificando a brutalidade e 
o aparato punitivo da época. 
 
 
 
 
(...) levado e acompanhado numa carroça, nu, carregando uma tocha de 
cera acesa e, sobre a guilhotina fora erguido, torturado nos mamilos, 
braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca 
com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às 
partes em que fora torturado foram aplicados chumbo derretido, óleo 
fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente e, a 
seguir, seu corpo fora puxado e desmembrado por quatro cavalos e 
seus membros consumidos pelo fogo, reduzidos a cinzas lançadas ao 
vento Foucault, 1987, p. 9. 
 
 
 
FIGURA 3 - EXECUÇÃO DE ROBERT FRANÇOIS DAMIENS 
PARIS, 28 DE MARÇO DE 1757 
 
 
51 
 
 
A partir do século XVIII, surgiram movimentos de resistência contra as formas 
de punição baseadas em suplícios físicos. Foucault 1987 descreve três etapas 
progressivas de punição: a tortura pública do condenado, a reforma humanista 
que visa modificar as punições corporais e públicas, e o confinamento nas 
prisões. 
 
 
 
Cada uma dessas formas de punição possui suas características 
próprias. A tortura pública, por exemplo, era um espetáculo, um 
ritual político e público, no qual o soberano exercia poder 
absoluto sobre o corpo do condenado. O crime era visto como 
um ataque ao rei, e a violação da lei, uma afronta ao soberano. 
Para Silva 2015, a reação do poder real precisava ser dirigida 
ao corpo do criminoso,

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