Prévia do material em texto
https://v3.camscanner.com/user/download SP3 - Tudo muda. PERGUNTAS P1: Métodos de diagnósticos e sinais. O diagnóstico de gravidez, é o primeiro passo da propedêutica obstétrica. O diagnóstico pode ser feito de forma clínica, hormonal e ultrassonográfica, e é fundamental para confirmar a gestação e estabelecer a idade gestacional. Diagnóstico Clínico Para o diagnóstico clínico, os sintomas da gravidez, são classificados de 3 maneiras: presunção, probabilidade e certeza. 1. Sinais de Presunção São sintomas e alterações subjetivas percebidas pela própria mulher ou mudanças gerais no corpo que sugerem gravidez, mas não são exclusivas dela, ou seja, podem ocorrer em outras condições hormonais, fisiológicas ou até emocionais. Eles são importantes para levantar a suspeita inicial. São eles: ➔ amenorreia ➔ náuseas e vômitos congestão ➔ aumento mamário ➔ pigmentação da aréola (aumento da progesterona, estrogênio e MSH leva à hiperpigmentação da aréola) ➔ aumento Tubérculos de Montgomery (glândulas sebáceas da aréola que aumentam de tamanho e se tornam mais proeminentes sob ação hormonal na gravidez, ajudando a lubrificar o mamilo e preparar para a amamentação) ➔ fadiga, sonolência e desejo alimentar alterado 2. Sinais de Probabilidade São alterações anatômicas e fisiológicas objetivas do trato genital e do organismo materno, observadas pelo examinador (através do toque bimanual e da inspeção), eles indicam alterações anatômicas e vasculares compatíveis com o início da gestação, mas ainda não são diagnósticos de certeza. Esses mesmos sinais podem ser causados por outras condições, como tumores uterinos, cistos ovarianos, etc. Alterações uterinas e cervicais: ➔ Sinal de Hegar: amolecimento do istmo uterino (6ª–8ª semana) ➔ Sinal de Piskacek: assimetria do útero no local da implantação ovular ➔ Sinal de Goodell: amolecimento do colo uterino ➔ Sinal de Nobile-Budin: útero projetado no fundo de saco vaginal posterior. Alterações vasculares e de coloração: ➔ Sinal de Osiander: pulso vaginal perceptível ➔ Sinal de Jacquemier/Chadwick: mucosa vaginal e vulvar violáceas ➔ Sinal de Kluge: colo uterino com coloração azulada Outras alterações: ➔ Aumento do volume uterino. ➔ Amolecimento e aumento do corpo uterino ao toque. 3. Sinais de Certeza São aqueles que comprovam a existência do concepto vivo dentro do útero, ou seja, confirmam definitivamente a gravidez. Isso inclui a visualização ultrassonográfica, os movimentos fetais e os batimentos cardíacos. Nessa fase, não há mais dúvida de gestação. Exemplos: Presença de batimentos cardíacos fetais (BCF): ➔ Detectados por Doppler a partir da 10ª–12ª semana ➔ Detectados por estetoscópio de Pinard por volta da 20ª semana Movimentos fetais ativos: ➔ Percebidos pela gestante a partir da 18ª semana (multípara pode sentir antes) ➔ Observados pelo examinador em fases mais tardias Visualização do embrião ou estruturas fetais pela ultrassonografia: ➔ Saco gestacional: 4–5 semanas ➔ Vesícula vitelina: 5 semanas ➔ Embrião e batimentos cardíacos: 6 semanas Sinal de Puzos: rechaço fetal (movimento de retorno do embrião ao toque bimanual, geralmente após a 14ª semana). Diagnóstico Hormonal O diagnóstico hormonal baseia-se na detecção do hormônio β-hCG (beta-gonadotrofina coriônica humana) no sangue ou na urina da mulher. Esse hormônio é produzido pelo trofoblasto (mais especificamente, pelo sinciciotrofoblasto) após a implantação do embrião no endométrio, cerca de 6 a 8 dias após a fecundação. A função do hCG é manter o corpo lúteo ativo nas primeiras semanas de gravidez, garantindo a produção de progesterona e estrogênio, fundamentais para manter o endométrio secretor e sustentar o embrião e estimular o desenvolvimento das gônadas fetais e da placenta. Cronologia e Níveis Hormonais ➔ O β-hCG começa a ser produzido cerca de 7 dias após a fecundação ➔ Pode ser detectado no sangue 8 a 11 dias após a concepção (ou seja, 1 semana antes do atraso menstrual) ➔ Os níveis duplicam a cada 48 a 72 horas durante o primeiro trimestre ➔ O pico ocorre por volta da 10ª semana de gestação, e depois os níveis caem e se estabilizam Tipos de Testes Hormonais 1- Teste de urina (qualitativo) ➔ Detecta apenas presença ou ausência do hormônio ➔ É o teste de farmácia, mais prático e acessível ➔ Geralmente positiva a partir do 1º dia de atraso menstrual ➔ Recomenda-se usar a primeira urina da manhã, pois é mais concentrada ➔ Pode dar falso negativo se feito muito cedo (antes da implantação) ou se a urina estiver diluída. ➔ Vantagens: simples, rápido e de baixo custo ➔ Limitações: menos sensível e sujeito a erro de coleta 2- Teste de sangue (quantitativo e qualitativo) ➔ Qualitativo: informa se há ou não β-hCG detectável ➔ Quantitativo: mede a concentração exata de β-hCG no sangue ➔ Detecta o hormônio de 8 a 11 dias após a fecundação, antes mesmo do atraso menstrual ➔ Vantagens: - Alta sensibilidade e especificidade - Detecta níveis mínimos (> 25 mUI/mL) - Permite acompanhar a evolução da gestação: o aumento esperado a cada 48 horas é sinal de gestação viável ➔ Limitações: Exame mais caro e necessita coleta laboratorial Interpretação Clínica: ➔ β-hCG positivo e crescente: indica gravidez evolutiva normal ➔ β-hCG positivo, mas com crescimento lento: pode indicar gestação ectópica ou abortamento em curso ➔ β-hCG positivo e muito elevado: pode sugerir gestação múltipla ou doença trofoblástica gestacional (ex: mola hidatiforme) ➔ β-hCG negativo: exclui gravidez, a menos que o teste tenha sido feito muito precocemente Diagnóstico Ultrassonográfica A ultrassonografia é o método de maior precisão, permitindo visualizar o saco gestacional e, nas semanas seguintes, o embrião e os batimentos cardíacos. Ela confirma a localização da gestação e descarta gravidez ectópica. Ela é fundamental para: ➔ Confirmar a gravidez intrauterina (e descartar ectópica) ➔ Identificar o número de embriões (gestação múltipla) ➔ Avaliar a vitalidade embrionária/fetal ➔ Estimar a idade gestacional (IG) e data provável do parto (DPP) com precisão ➔ Avaliar alterações anatômicas e o desenvolvimento inicial da placenta e saco gestacional Tipos de ultrassonografia 1- Ultrassonografia transvaginal: ➔ Ideal no 1º trimestre ➔ Detecta estruturas muito precoces (saco gestacional, vesícula vitelina, embrião) ➔ Alta resolução e sensibilidade 2- Ultrassonografia abdominal: ➔ Utilizada a partir do 2º trimestre ➔ Requer bexiga cheia nas primeiras semanas para melhor visualização P2: Data provável do parto e idade gestacional. A idade gestacional e a data provável do parto (DPP) são calculadas pela regra de Naegele, que usa a data da última menstruação. Esses cálculos são fundamentais para acompanhar o crescimento fetal e planejar o pré-natal. Data Provável do Parto (DPP) DPP = DUM + 7 dias − 3 meses (ou + 9 meses, se a DUM for entre janeiro e março) Idade Gestacional IG = (dias desde a DUM até o dia atual) ÷ 7 = resultado em semanas P3: Adaptações fisiológicas gerais e locais e as manifestações clínicas ao longo da gravidez. O organismo feminino sofre mudanças anatômicas e funcionais durante a gravidez, adaptando-se para a presença do feto em desenvolvimento. Essas alterações se dão nas esferas molecular, bioquímica, hormonal, celular e tecidual dos mais variados órgãos e sistemas. Já no início da gestação, a presença de células trofoblásticas no ambiente intrauterino altera a homeostase local e, em seguida, por meio da produção celular de hormônios e outras substâncias, o funcionamento de quase todos os sistemas maternos se adapta à nova condição. É possível observar alterações essenciais para a adaptação do organismo materno à gravidez, em especial relacionadas aos sistemas circulatório (hematológico e cardiovascular) e endócrino (abrangendo também o metabolismo). As manifestações dessas adaptações em outros órgãos e sistemas são consideradasmodificações do organismo materno à gestação e podem ser classificadas como locais (presentes nos órgãos genitais e/ou sexuais) ou gerais (que surgem nos sistemas digestório, urinário, respiratório, nervoso, esquelético e em pele e anexos). SISTEMA CIRCULATÓRIO = adaptações cardiovasculares + hematológicas ADAPTAÇÕES HEMATOLÓGICAS: Hipervolemia associada à gravidez; aumenta de 30 a 50% do volume sanguíneo. As variações relacionadas ao aumento da volemia se associam a diferenças individuais e à quantidade de tecido trofoblástico, sendo maior em gestações múltiplas e menor em gestações com predisposição a insuficiência placentária. O papel da hipervolemia no organismo materno está associado ao aumento das necessidades de suprimento sanguíneo nos órgãos genitais, especialmente em território uterino, cuja vascularização apresenta-se maior na gestação. Além disso, tem função protetora para gestante e feto em relação à redução do retorno venoso, comprometido com as posições supina e ereta, e para as perdas sanguíneas esperadas no processo de parturição. A fisiologia da hipervolemia materna parece se tratar do surgimento de novo equilíbrio entre fatores envolvidos na retenção e na excreção de sódio e água, resultantes da vasodilatação sistêmica e do aumento da capacitância dos vasos. O sistema renina-angiotensina-aldosterona tem maior atividade na gestação de forma a suplantar a ação de mecanismos excretores, como o aumento da filtração glomerular e do peptídeo atrial natriurético. Volume eritrocitário absoluto aumenta. Em média 450 mL a mais de eritrócitos, com maior incremento no terceiro trimestre. A produção de hemácias está acelerada, provavelmente, em função do aumento dos níveis plasmáticos de eritropoetina, o que é confirmado pela discreta elevação do número de reticulócitos apresentado pelas gestantes. A vida média dessas células é menor durante a gestação. A concentração de hemoglobina e hematócrito se encontra discretamente reduzida durante a gravidez pelo estado de hemodiluição que ocorre, com aumento da volemia e aumento de células vermelhas. Consequentemente reduz também a viscosidade do sangue. Aumento da produção da maioria dos elementos figurados do sangue na gravidez. A leucocitose pode estar presente na gravidez normal. Durante o parto e o puerpério imediato, os valores de leucócitos se elevam de modo significativo, achado possivelmente relacionado à atividade das adrenais no momento de estresse. O aumento dos níveis sanguíneos de leucócitos ocorre principalmente à custa de células polimorfonucleares. Apesar do maior número de neutrófilos, sua função se encontra deprimida, com diminuição de fenômenos quimiotáxicos e da expressão de moléculas de aderência. As proteínas inflamatórias da fase aguda apresentam aumento em todo o período gestacional. A proteína C reativa apresenta níveis plasmáticos mais elevados no momento próximo ao parto. Os níveis plaquetários estão discretamente reduzidos na gravidez normal. Parte desse evento ocorre pelo fenômeno da hemodiluição, mas o consumo de plaquetas também está envolvido nesse processo, e certo grau de coagulação intravascular no leito uteroplacentário pode ser uma justificativa para esse achado. Praticamente todos os fatores de coagulação apresentam-se elevados na gestação, com exceção dos fatores XI e XIII. Fibrinogênio e dímero D têm seus níveis elevados em até 50% com o decorrer da gravidez. A resistência à proteína C ativada e a diminuição dos níveis plasmáticos de proteína S estão entre os fatores que se somam ao incremento da coagulabilidade do organismo materno. Deficiência de ferro; o consumo e a perda de ferro que ocorrem nessa fase não permitem que a gestante mantenha os níveis de hemoglobina e os estoques desse elemento dentro do intervalo de normalidade. Uma série de eventos contribui para esse estado de deficiência de ferro: consumo pela unidade fetoplacentária, utilização para produção de hemoglobina e de mioglobina para aumento da massa eritrocitária e da musculatura uterina, e depleção por perdas sanguíneas e pelo aleitamento. Por esse motivo, a não ser que adequada, a maioria das gestantes apresentará anemia ferropriva. ADAPTAÇÕES HEMODINÂMICAS: Aumento da FC basal e elevação do VS (volume sistólico) = aumenta o DC (débito cardíaco). Esse processo se inicia por volta da quinta semana de gravidez, estabiliza-se por volta de 24 semanas e atinge seu ápice no pós-parto imediato, com incremento de 80% no débito cardíaco. Esse aumento final no pós-parto imediato possivelmente ocorre pelo aumento do retorno venoso e, portanto, da pré-carga, após a descompressão dos vasos pélvicos pelo útero, o que ocorre com o nascimento do concepto. O aumento relativo da produção de prostaciclina, em comparação à produção de tromboxano A2, ocasiona vasodilatação sistêmica. Em associação aos altos níveis de progesterona presentes no período gestacional, a prostaciclina não só gera, como também mantém a vasodilatação generalizada que se observa na gestante. A refratariedade vascular aos estímulos vasoconstritores de angiotensina II e de catecolaminas ocorre pela ação dessas substâncias. Além desses fatores, a produção endotelial de óxido nítrico apresenta aumento no período gestacional e colabora localmente para a vasodilatação periférica. Em adição a essa vasodilatação, o surgimento da circulação uteroplacentária, de baixa resistência, contribui para diminuir a resistência vascular periférica. A redução da resistência vascular periférica é tão acentuada que é capaz de reduzir a pressão arterial sistêmica, apesar do aumento do débito cardíaco. Essa redução acontece mais à custa da PA diastólica do que da pressão arterial sistólica. Durante as contrações uterinas do trabalho de parto, a PA se eleva, o que é desencadeado pelo aumento do DC e pela ação das catecolaminas liberadas pelo estímulo da dor. O aumento da pressão venosa nos membros inferiores é justificado pela compressão das veias pélvicas pelo útero volumoso. Por essa razão, há maior chance de a gestante apresentar hipotensão, edema, varizes e doença hemorroidária. A compressão uterina também pode ocorrer sobre vasos maiores, como a veia cava inferior, quando a gestante se encontra na posição supina a partir da segunda metade da gravidez. A redução da pré-carga nessas ocasiões provoca hipotensão seguida de bradicardia por reflexo vagal, podendo se manifestar com quadro de lipotimia (síndrome da hipotensão supina). As adaptações circulatórias se iniciam com 6 semanas de gestação e estão completamente instaladas entre o fim do primeiro trimestre e o início do segundo. CORAÇÃO: O diafragma se eleva pelo aumento do volume abdominal e altera a posição cardíaca, com o coração desviado para cima e para a esquerda, ligeiramente rodado para a face anterior do tórax. O volume do órgão está maior como um todo, pela hipervolemia e pela hipertrofia dos miócitos. Pequenas alterações do ritmo cardíaco são frequentes, em especial as extrassístoles ventriculares e taquicardias paroxísticas supraventriculares. O sopro cardíaco sistólico é comum em decorrência da redução da viscosidade sanguínea e do aumento do débito cardíaco. Muitas das bulhas cardíacas normais podem estar alteradas durante a gestação. São elas: ➔ Desdobramento exagerado da 1a bulha com aumento da intensidade de ambos os componentes ➔ Nenhuma alteração definida nos elementos aórtico e pulmonar da segunda bulha ➔ 3ª bulha evidente e facilmente audível SISTEMA ENDÓCRINO E METABOLISMO: Para manter o aporte nutricional e desenvolvimento saudável do feto, uma variedade de transformações funcionais das glândulas maternas coexistirá com a placenta; novo órgão que apresenta importante função endócrina. A produção placentária gera um novo equilíbrio dos eixos hipotálamo-hipófise-adrenal, hipotálamo-hipófise-ovário e hipotálamo-hipófise-tireóide. Da mesmaforma, sua produção hormonal própria, como a do hormônio lactogênico placentário, altera o metabolismo da gestante no decorrer da gravidez, adequando-o ao momento de desenvolvimento ou crescimento fetal. Assim, depara-se com duas fases distintas: ➔ 1ª etapa de anabolismo materno, que dura pouco mais da metade da gestação ➔ 2ª etapa de catabolismo materno e anabolismo fetal, que se inicia ao fim da primeira metade e segue até o término da gravidez HIPOTÁLAMO: as concentrações de diversos hormônios produzidos pelo hipotálamo têm aumento na circulação periférica na gestação, apesar de não serem tipicamente detectadas fora do período gestacional. Isso decorre da produção placentária de variantes idênticas aos hormônios hipotalâmicos, como hormônio liberador da gonadotrofina (GnRH), hormônio liberador da corticotrofina (CRH), hormônio hipotalâmico estimulador da tireotrofina (TRH), somatostatina e hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH). HIPÓFISE: aumenta de tamanho à custa de hipertrofia e hiperplasia da sua porção anterior, a adeno-hipófise, especialmente dos lactótrofos, promovidas pela ação estimulante do estrógeno. A expansão volumétrica pode, no entanto, acarretar falência da glândula quando ocorre sangramento profuso no período periparto e isquemia hipofisária (síndrome de Sheehan). Na adeno-hipófise = aumento considerável da produção de prolactina, que tem por finalidade preparar as glândulas mamárias para a produção de leite no pós-parto. Por causa desse aumento fisiológico, não se dosa a prolactina para o acompanhamento das doenças hipofisárias durante a gravidez. A produção e a secreção de hormônio do crescimento (GH), por sua vez, permanecem normais no primeiro trimestre, mas, com o aumento da secreção desse hormônio pelo sinciciotrofoblasto, os níveis séricos de GH aumentam ao longo da gestação. A fração alfa da gonadotrofina coriônica humana (hCG), por sua semelhança molecular com a fração alfa do hormônio estimulante da tireoide (TSH), estimula a função tireoidiana, o que, por meio de retroalimentação negativa, reduz a produção e a secreção hipofisária de TSH. Essas alterações são evidentes no primeiro trimestre da gravidez, com retorno a níveis normais de TSH no segundo e no terceiro trimestres. Os altos níveis de progesterona parecem aumentar a produção e a secreção do hormônio melanotrófico da hipófise (MSH). Os níveis de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) aumentam progressivamente em função da produção hipofisária e placentária. Por outro lado, a produção placentária de esteróides sexuais leva ao decréscimo da secreção de gonadotrofinas hipofisárias. Os hormônios produzidos pela neuro-hipófise são o hormônio antidiurético (ADH, que, na espécie humana, corresponde à arginina-vasopressina) e a ocitocina. Os níveis de ocitocina mantêm-se constantes durante a gestação, elevando-se na fase ativa e no período expulsivo do trabalho de parto. De acordo com a hemodiluição fisiológica da gravidez, a gestante experimenta nível de osmolaridade sanguínea mais baixo para desencadear a liberação de ADH pelo mecanismo de sede. No entanto, não há alteração dos níveis circulantes de ADH, apenas um novo equilíbrio do limiar determinante de sua liberação. TIREOIDE: alterada na gravidez em razão de três modificações do organismo materno: 1. Redução dos níveis séricos de iodo pelo aumento da taxa de filtração glomerular e pelo consumo periférico. 2. Aumento da produção e da glicosilação da globulina transportadora de hormônios tireoidianos (TBG) com consequente aumento das frações ligadas dos hormônios. 3. Estimulação direta dos receptores de TSH pelo hCG. Essas alterações provocam sobrecarga funcional da tireoide, mas não costumam causar aumento volumétrico acentuado da glândula, de forma que a presença de bócio merece investigação quando presente. O aumento da depuração renal de iodo associado à ingestão baixa ou limítrofe deste elemento pode ocasionar deficiência na produção hormonal materna e fetal. A glicosilação da TBG é estimulada pela crescente produção de estrógenos pela placenta, o que diminui sua metabolização hepática e, consequentemente, aumenta seus níveis circulantes. Isso faz com que as formas ligadas de tri-iodotironina (T3) e tiroxina (T4) tenham aumento fisiológico. PARATIREOIDES: ligada ao metabolismo do cálcio. A demanda de cálcio na gestação é maior em função da unidade fetoplacentária, que absorve cálcio e outros elementos do organismo materno. Na lactante, as demandas são ainda maiores, pelo alto teor de cálcio no leite materno, que deve suprir as necessidades do recém-nascido, exigindo um aporte materno de cálcio de 300 a 1.000 mg/dia durante a lactação. O aumento da filtração glomerular, por sua vez, contribui para maior excreção de cálcio urinário. A hemodiluição materna leva a um decréscimo na concentração de albumina, a qual se liga a aproximadamente 50% do cálcio total. Essas alterações fisiológicas levam a um decréscimo do nível sérico de cálcio total, sem alterar, contudo, os níveis de cálcio iônico e de cálcio corrigido pela albumina. Dessa forma, não se observa benefício na suplementação desse elemento em gestações normais, mas deve-se considerá-la em situações como adolescência, gemelidade, intervalo entre partos curto e doenças intestinais disabsortivas. O paratormônio (PTH) apresenta redução dos níveis séricos no primeiro trimestre, que depois voltam a aumentar progressivamente ao longo da gestação. Os efeitos adaptativos que mantêm o equilíbrio do metabolismo do cálcio, a despeito da diminuição na produção de PTH pela paratireoide, estão relacionados, principalmente, à elevação do calcitriol (di-hidroxicolecalciferol ou vitamina D3 ativada), resultante da estimulação da atividade da 1-alfa-hidroxilase renal por estrógeno, hormônio lactogênico placentário e proteína relacionada ao paratormônio (PTH-rP), produzidos pela placenta. Consequentemente, com o aumento do calcitriol, ocorre maior absorção de cálcio pelo sistema digestório. ADRENAIS: aumento generalizado das atividades do eixo HHA (hipotálamo-hipófise-adrenal) e do SRAA faz da gravidez um período de hipercortisolismo e hiperaldosteronismo. O aumento do cortisol sérico decorre da redução de sua excreção e do aumento de sua meia-vida. Tem relação direta com a unidade fetoplacentária, que produz CRH e ACTH, e, no terceiro trimestre, os níveis de cortisol chegam a ser três vezes maiores que os níveis basais. O hiperaldosteronismo relativo, por sua vez, mantém o balanço eletrolítico de sódio, de acordo com as alterações do volume plasmático. Os níveis circulantes e excretados de andrógenos adrenais, como o sulfato de deidroepiandrosterona (DHEA-S), encontram-se reduzidos, possivelmente pelo consumo e pela metabolização em estrógeno placentário. Os níveis maternos de androstenediona e de testosterona, por sua vez, encontram-se maiores na gestação. PÂNCREAS: hipertrofia e hiperplasia das ilhotas pancreáticas, hiperinsulinismo e progressivo aumento da resistência à insulina pelas altas concentrações séricas maternas de estrógenos e progesterona que induzem maior atividade das células pancreáticas. Esses níveis aumentam progressivamente a partir do segundo trimestre. As concentrações dos estrógenos, da progesterona, do hormônio lactogênico placentário e dos corticosteróides aumentam e levam a maior resistência periférica à insulina por exercerem efeito sobre o número de receptores do hormônio pancreático. Sabe-se que o aumento da concentração sérica de insulina observado durante a gestação é resultado do aumento da secreção pancreática desse hormônio e não da redução em sua depuração metabólica, pois a meia-vida da insulina não se altera no período gestacional e, por ser destruída por potentes inulinases, também não atravessa a placenta. A produção pancreática de glucagon aumenta como estímulo dos aminoácidos e diminui após a ingestão de glicose, facilitando o anabolismo. As necessidades energéticas maternas são supridas pelo aumento crescente dos ácidos graxos, em decorrência da ação lipolítica do hormônio lactogênico placentário ou hormônio somatotrófico coriônico. OVÁRIOS: relacionada à produção de progesterona pelo corpo lúteo. A hCG produzida pelas células trofoblásticas do embrião inibe a luteólise, mantendo o corpo lúteo funcionante, enquanto a progesterona, principal hormônio sintetizado pelo corpo lúteo, é responsável pela manutenção da gestação. Com a evolução da gravidez, acredita-se que o corpo lúteo gravídico atinja seu desenvolvimento máximo no fim do primeiro trimestre. Da mesma forma, sabe-se que essa estrutura hormonal é indispensável para a manutenção da gestação durante as primeiras 8 semanas. A produção de outras substâncias como a relaxina se associa a mecanismos de relaxamento sistêmico das fibras de colágeno e musculares, responsáveis pela acomodação da gestação e pelo processo de parturição. A relaxina também está envolvida na fisiopatologia do parto pré-termo e das alterações da cérvix, mas não tem relação com o processo de embebição gravídica presente no sistema articular. A produção de andrógenos (androstenediona e testosterona) está elevada, mas não acarreta maiores repercussões, já que a placenta possui mecanismos de proteção fetal, convertendo esses hormônios em estradiol. ➔ ENDOCRINOLOGIA DA PLACENTA: derivadas do tecido trofoblástico sintetizam e secretam grande quantidade e diversidade de hormônios, com produção e secreção semelhantes às do hipotálamo, da hipófise, dos ovários, das adrenais e das paratireoides do indivíduo adulto, como GnRH, CRH e GHRH. Sabe-se que o tecido trofoblástico, além de sintetizar a hCG (similar ao LH) e o hormônio lactogênico placentário (similar à prolactina e ao GH hipofisários), produz também o ACTH coriônico (similar ao ACTH hipofisário), a proteína relacionada ao hormônio paratireoidiano (similar ao hormônio paratireoidiano hipofisário) e o hormônio tireotrófico coriônico (similar ao TSH). A placenta, como os ovários e as adrenais, produz esteroides em grande quantidade. São produzidos apenas estrógenos e progesterona, uma vez que a ausência das enzimas 21-hidroxilase, 17-hidroxilase e 17,20-desmolase no tecido trofoblástico inviabiliza a síntese de corticosteróides e andrógenos como DHEA, androstenediona e testosterona. Os hormônios placentários: ➔ Regulam o crescimento e a diferenciação do próprio trofoblasto ➔ Influenciam o crescimento e a homeostase fetal ➔ Modulam a reação imunológica materna diante do produto conceptual ➔ Regulam as alterações cardiovasculares e nutricionais maternas ➔ Protegem o feto de infecções ➔ Preparam o organismo materno para o parto e a lactação ADAPTAÇÕES METABÓLICAS: O ganho de peso materno decorre, em grande parte, do acúmulo de componente hídrico intra e extravascular, e em menor proporção, do acúmulo de componentes energéticos e estruturais (carboidratos, lípides e proteínas). O ganho de peso total se distribui de forma proporcionalmente diferente nos diversos segmentos do organismo, preferencialmente alocado no território uterino e fetoplacentário, nas mamas e nas estruturas vasculares. A necessidade calórica total durante a gravidez é estimada em aproximadamente 80.000 kcal. As demandas gestacionais não são constantes e diferem de acordo com os diversos trimestres e compartimentos, sendo maiores quanto mais avançada for a gravidez, de forma que o aporte calórico adicional é estimado em 85 kcal/dia, 285 kcal/dia e 475 kcal/dia, respectivamente, no primeiro, segundo e terceiro trimestres da gestação. Na primeira fase de anabolismo materno, que se estende da concepção até 24 a 26 semanas de gestação, o aporte energético é direcionado para reservas maternas. Na segunda fase, de catabolismo materno, tanto o aporte energético ingerido como as reservas maternas são direcionados ao crescimento do feto. O ganho de peso materno adequado varia conforme a classificação de peso da mulher no início da gestação de acordo com seu índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional. METABOLISMO DOS CARBOIDRATOS E LIPÍDEOS: ganham mais relevância no metabolismo energético durante o período gestacional. Observa-se redução da glicemia em jejum e da glicemia basal materna em favor do armazenamento de gordura, glicogênese hepática e transferência de glicose para o feto. Essas alterações são observadas na fase anabólica da gestação e são desencadeadas pelos hormônios sexuais placentários (estrógeno e progesterona). A partir da segunda metade da gravidez, inicia-se o período catabólico, com lipólise, neoglicogênese e resistência periférica à insulina, a qual é secundária à produção placentária de hormônios diabetogênicos, como GH, CRH, progesterona e, especialmente, hormônio lactogênico placentário (hLP), também chamado de somatomamotropina coriônica. É a partir de 30 semanas gestacionais que a mulher começa a mobilizar suas reservas energéticas para se adequar ao crescimento fetal. Para garantir o aporte de glicose necessário visando o crescimento e o desenvolvimento do produto conceptual, ocorre aumento da resistência periférica à insulina, criando um ambiente de hiperglicemia pós-prandial e consequente hiperinsulinemia, resultante da hipertrofia e da hiperplasia das células beta pancreáticas mediadas pela prolactina e pelo hLP. A hiperglicemia visa satisfazer a maior necessidade energética do feto no terceiro trimestre, favorecendo o transporte de glicose pela placenta, que ocorre por difusão facilitada. Para manter o desvio de glicose para o produto conceptual, o metabolismo da gestante passa a utilizar mais lípides como fonte energética. Em jejum, especialmente quando muito prolongado, as concentrações plasmáticas de ácidos graxos, triglicérides e colesterol aumentam, podendo causar cetonemia mais facilmente. Diz-se, portanto, que a gestante apresenta um estado de jejum acelerado. A redução da sensibilidade à insulina é um fenômeno materno observado de forma mais evidente a partir de 26 semanas de gestação, período em que há aumento progressivo do nível de hLP. É nesse momento, portanto, que qualquer desequilíbrio no metabolismo de carboidratos pode gerar quadro de diabetes mellitus gestacional, em especial se a oferta de glicose no sangue materno ultrapassar a capacidade pancreática de produção de insulina. Entre outras substâncias, além do hLP, participam desse processo fisiológico a prolactina, o fator de necrose tumoral, a leptina e a adiponectina. Na gravidez, ocorre aumento dos níveis de colesterol total e suas frações, além dos triglicérides. O tecido adiposo produz uma família de proteínas chamadas adipocinas, dentre as quais se destacam a leptina e a adiponectina. Na gravidez normal, existe um aumento da leptina, com pico no segundo trimestre. Apesar disso, o apetite e a ingestão alimentar são maiores na gravidez porque as gestantes desenvolvem resistência relativa à leptina no centro de saciedade do sistema nervoso central. Já os níveis de adiponectina se encontram menores durante a gestação, o que contribui para a diminuição da sensibilidade à insulina. METABOLISMO PROTEICO: aumento do balanço nitrogenado materno total com acúmulo de aproximadamente 1.000 g de proteína no termo da gestação. Metade desse acúmulo é direcionada ao feto e a seus anexos, sendo a outra metade destinada a suprir as necessidades da musculatura uterina hipertrofiada, do desenvolvimento mamário, da hipervolemia plasmática e da hiperplasia dos eritrócitos. Com relação às proteínas plasmáticas, observam-se aumento da albumina total e redução de sua concentração plasmática. Os níveis circulantes de gamaglobulina também estão maiores, mas em pequena proporção, o que aumenta a relaçãoalbumina-globulina. Outras proteínas como fibrinogênio e alfa e beta-globulinas também apresentam níveis aumentados. PELE E ANEXOS: A produção placentária de estrógenos leva à proliferação da microvasculatura de todo o tegumento (angiogênese). Associado ao estado hiperprogestogênico, ocorre vasodilatação de toda a periferia do organismo. Observam-se, assim, eventos vasculares da pele e dos anexos, como eritema palmar, telangiectasias, hipertricose e aumento de secreção sebácea e da sudorese. As telangiectasias são mais comuns ao redor dos olhos e ocorrem quase exclusivamente em áreas drenadas pela veia cava superior: pescoço, face, parte superior do tórax, braços e mãos. 90% das lesões regridem em torno de 3 meses após o parto. A hiperpigmentação da pele da gestante também está relacionada aos altos níveis de progesterona, que parecem aumentar a produção e a secreção do hormônio melanotrófico da hipófise que induz a produção excessiva de melanina, o que provoca máculas hipercrômicas denominadas cloasmas ou melasmas. É identificados três padrões clínicos: ➔ Centro-facial ➔ Malar ➔ Mandibular Entre os locais de maior incidência estão face, fronte, projeção cutânea da linha alba (que passa a ser denominada linha nigra), aréola mamária e regiões de dobras. Podem piorar com a exposição solar e costumam desaparecer após a gravidez. O sinal de Hunter nada mais é que a pigmentação periareolar que determina o surgimento da aréola secundária nas gestantes. As estrias são mais frequentes no período gestacional. Como não há alteração da qualidade das fibras colágenas nem da constituição da epiderme, atribui-se sua ocorrência à hiperfunção das glândulas adrenais, portanto, ao hipercortisolismo típico da gravidez. Os fatores de risco para o desenvolvimento de estria são história familiar e, marcadamente, ganho de peso excessivo na gestação. A distensão da pele do abdome, das mamas e do quadril pode provocar o aparecimento de estrias nessas regiões e até o momento não há comprovação de tratamentos eficazes. SISTEMA ESQUELÉTICO As articulações sofrem processo de relaxamento durante a gravidez, com acúmulo de líquido também denominado embebição gravídica. Nos membros inferiores pode predispor a gestante a dores crônicas, entorses, luxações e até fraturas. Durante a gravidez, observa-se que as articulações da bacia óssea (sínfise púbica, sacrococcígea e sinostoses sacroilíacas) se apresentam com maior elasticidade, aumentando a capacidade pélvica e modificando a postura e a deambulação da gestante, o que prepara o organismo para a parturição, associadas à ação da relaxina. Em geral, os ligamentos estão mais frouxos e são mais complacentes à movimentação. Tais modificações são imprescindíveis para o fenômeno de expulsão fetal, pois elas permitem o aumento dos diâmetros e estreitos da pelve materna. O aumento do volume abdominal e das mamas desvia anteriormente o centro de gravidade materno. Por instinto, a gestante direciona o corpo todo posteriormente, de forma a compensar e encontrar novo eixo de equilíbrio que permita que ela se mantenha ereta. Por essa razão, surgem hiperlordose e hipercifose da coluna vertebral, aumento da base de sustentação, com afastamento dos pés e diminuição da amplitude dos passos durante a deambulação (marcha anserina). A queixa da dor lombar se acentua com a progressão da gestação e se resolve após o parto. Também, principalmente em decorrência das alterações mecânicas, as gestantes podem apresentar dor pélvica, que inclui dor na sínfise púbica, dor na articulação sacroilíaca uni ou bilateralmente e síndrome da dor da cintura pélvica, quando há acometimento das três articulações. Da mesma forma, a dor pélvica usualmente regride após o parto. SISTEMA DIGESTÓRIO A resistência à ação da leptina e as alterações da secreção de ADH, em nível de osmolaridade distinto da não grávida, parecem ser as explicações para aumento de apetite e sede. Mudanças nas preferências alimentares são comuns e podem chegar a configurar verdadeiras perversões do paladar, com desejos de ingerir terra, sabão, carvão, entre outros, situação denominada pica (picassismo) ou malacia. Náuseas e vômitos são ocorrências muito prevalentes no primeiro trimestre e desaparecem ao longo da gravidez. Se associam a altos níveis de hCG circulante e alterações laboratoriais da função tireoidiana. Os aspectos emocionais e psíquicos da paciente também exercem efeito no quadro clínico. As adaptações vasculares orais decorrentes dos altos níveis de esteroides sexuais circulantes causam hipertrofia e hipervascularização gengival. Tal fato resulta em gengiva edemaciada e facilmente sangrante. A hipertrofia gengival acentuada com proliferação das papilas intermediárias e dos vasos locais pode eventualmente formar pseudotumores ou granulomas, os quais são denominados epúlides gravídicos. Sabe-se que a progesterona é um potente relaxante de fibras musculares lisas. O estrógeno, por sua vez, age como indutor dos efeitos progestogênios no organismo materno. Esses efeitos levam a relaxamento do esfíncter esofágico inferior e redução de seu peristaltismo com aumento da incidência de refluxo gastroesofágico. A pirose é, portanto, queixa comum da gestante. A contratilidade da musculatura lisa dos intestinos também se encontra reduzida, causando obstipação. A função hepática permanece igual à da não grávida, com exceção do transporte intraductal de sais biliares, que se apresenta parcialmente inibido, efeito secundário às ações do estrógeno e da progesterona. As concentrações séricas de fosfatase alcalina são significativamente mais elevadas (até duas a quatro vezes o normal) no terceiro trimestre, principalmente devido à síntese placentária de fosfatase alcalina. Com o aumento do volume uterino, ocorrem alterações anatômicas que desviam o estômago e o apêndice para cima e para a direita de sua localização habitual, e os intestinos para a esquerda. Por vezes, o apêndice cecal ocupa o flanco direto, dificultando o diagnóstico clínico de apendicite na gravidez. SISTEMA RESPIRATÓRIO Ocorrem ingurgitamento e edema da mucosa nasal, que acarretam maior frequência de obstrução, sangramento e rinite durante a gravidez. O edema da mucosa também acomete a laringe e a faringe, diminuindo o lúmen dessas vias. Observam-se elevação diafragmática de aproximadamente 4 cm e maior capacidade de excursão desse músculo, que aumenta em cerca de 2 cm. A amplitude de movimento do diafragma se reduz ao longo da gravidez devido ao aumento do volume abdominal que ocorre com o crescimento uterino. A caixa torácica apresenta aumento de 5 a 7 cm em sua circunferência e 2 cm em seu diâmetro anteroposterior, com consequente ampliação dos ângulos costofrênicos (de até 35°). Presencia-se aumento do volume corrente com redução da reserva expiratória e preservação da reserva inspiratória. A elevação do volume corrente pretende suprir as demandas de oxigênio, que sofrem aumento por conta da maior massa eritrócitária e da quantidade total de hemoglobina circulante. O oxigênio que participa das trocas pulmonares excede em 20 a 30% as novas necessidades. A hemodiluição e a queda da hemoglobina induzem o aumento do volume corrente para compensar o fato de que a frequência respiratória em si não se altera, mas as necessidades de oxigênio estão maiores, e esse aumento do volume corrente também determina aumento do volume-minuto. Durante a gestação, ocorre acréscimo na capacidade inspiratória e redução da capacidade residual funcional (reserva expiratória + volume residual). A capacidade pulmonar total está reduzida na gravidez em aproximadamente 200 mL em razão da elevação do diafragma à custa da redução do volume residual. O aumento de volume corrente estabelece situação de hiperventilação. Consequentemente, ocorre queda da pressão parcial de dióxido de carbono (pCO2), o que gera um gradiente entre gestantee feto, facilitando a excreção fetal. Ao mesmo tempo, o aumento do pH desvia a curva de dissociação de oxigênio para a esquerda, o que dificulta a liberação de oxigênio para os tecidos maternos. A discreta alcalose respiratória crônica é compensada pelo aumento da excreção renal de bicarbonato, com redução de seus níveis circulantes e pela produção de 2,3-difosfoglicerato, que retorna a curva de dissociação de oxigênio para a direita, garantindo liberação suficiente de oxigênio para o feto. Todo esse mecanismo favorece a condução aérea pulmonar e reduz as resistências aérea e vascular. A facilidade da movimentação do ar nas estruturas brônquicas e alveolares é resultado de ação da progesterona, que tem efeito direto na musculatura lisa dos brônquios, além do centro respiratório, diminuindo o limiar de estímulo desse centro pelo dióxido de carbono e aumentando a ventilação. Essas alterações do sistema respiratório causa à gestante sensação de dispneia, queixa comum que pode estar associada somente à conscientização da respiração. SISTEMA URINÁRIO Rins aumentam de cerca de 1 cm em seus diâmetros durante a gestação. Modificações vasculares das arteríolas renais são fruto das adaptações circulatórias maternas descritas previamente. Assim, o aumento da volemia + redução da resistência vascular periférica = elevação do fluxo plasmático glomerular = aceleração do ritmo de filtração glomerular. A osmolaridade plasmática também se modifica na gravidez por conta da ativação do SRAA e da redução do limiar para secreção de ADH. Esses fatos denotam menor capacidade renal de concentrar urina. As grávidas, em geral, filtram maiores quantidades de sódio e água no glomérulo, o que é compensado por maior reabsorção tubular desses elementos, resultado da ação da aldosterona e do ADH. Pela influência da posição materna, observa-se depuração renal até 20% menor em posição supina que em decúbito lateral. O padrão de excreção urinária é maior à noite (noctúria) em função do repouso em decúbito, com maior mobilização dos fluidos extravasculares e menor capacidade de reabsorção de água livre. Essas alterações se apresenta particularmente maior nas ocasiões em que a gestante se encontra em decúbito lateral esquerdo, principalmente no terceiro trimestre. A relaxina, por sua vez, é produzida pelo corpo lúteo e age na osmolaridade plasmática, aumentando o ritmo de filtração glomerular. Alguns achados anormais fora do período gestacional, como glicosúria e proteinúria, justificadas tanto pelo aumento do ritmo de filtração glomerular como pela redução da reabsorção tubular, podem ser considerados fisiológicos na gestação. Fatores hormonais como a progesterona provocam hipotonia da musculatura dos ureteres e da bexiga, causando discreta hidronefrose e aumento do volume residual vesical. Fatores mecânicos, como aumento do plexo vascular ovariano direito, dextrorrotação e compressão extrínseca uterina, predispõem à acentuação da hidronefrose do lado direito e à redução da capacidade vesical, demonstrada por meio de polaciúria fisiológica da gravidez. A bexiga se encontra mais elevada ao longo da gestação, com retificação do trígono vesical, provocando refluxo vesicoureteral. Incontinência urinária é queixa comum. Durante o trabalho de parto, a compressão da apresentação fetal sobre a bexiga acarreta edema e microtraumas na mucosa, aumentando as chances de hematúria e infecção. SISTEMA NERVOSO CENTRAL Discretas alterações de memória e de concentração, geralmente no último trimestre, e sonolência. Acredita-se que a sonolência esteja associada aos altos níveis de progesterona, hormônio conhecidamente depressor do SNC e à alcalose respiratória causada pela hiperventilação. A lentificação geral do SNC é comum e progressiva, podendo corresponder a alterações vasculares das artérias cerebrais média e posterior. As modificações do padrão e da qualidade do sono aumentam a fadiga e colaboram para quadros psíquicos de blues puerperal ou até de depressão. Apesar de os episódios de apneia do sono serem menos frequentes, a posição supina piora a oxigenação da gestante, o que gera episódios de dispneia paroxística noturna. Manifestações como hiperêmese gravídica, enxaquecas e alguns distúrbios psiquiátricos possivelmente se relacionam com alterações vasculares e hormonais exclusivas da gravidez. IMUNOLOGIA A gestante deve desenvolver tolerância imunológica ao tecido fetal, que expressa genes maternos e paternos, visando propiciar ao feto um ambiente imunologicamente seguro. A prevenção para que não ocorra rejeição imunológica fetal requer alterações imunológicas e anatômicas no organismo materno, resultando em um estado adaptativo no qual as respostas imunológicas estão diminuídas ou mesmo suprimidas. Por outro lado, a imunidade inata (natural) permanece inalterada. O mecanismo de aceitação imunológica não está completamente esclarecido e é motivo de pesquisas médicas há décadas. ALOIMUNIDADE E AUTOIMUNIDADE: células trofoblásticas geram resposta inflamatória na parede uterina durante a primeira fase de implantação embrionária, que será benéfica à gestação quando ocorrer produção de citocinas favoráveis ao crescimento e ao desenvolvimento do concepto. Esse tipo de resposta inflamatória é do tipo TH2. Para isso faz-se necessário o reconhecimento de antígenos paternos presentes no embrião, especialmente os antígenos de histocompatibilidade leucocitária (antígeno leucocitário humano – HLA). As células trofoblásticas humanas expressam antígenos do sistema HLA de classe I, dentre os quais se destaca o HLA-G. A regulação da expressão de moléculas HLA de classe I específicas em subpopulações de células trofoblásticas protege o feto contra células imunológicas maternas programadas para atacar células que expressem antígenos do sistema HLA de classe I estranhos (paternos). Todas essas funções, determinadas em parte pelo HLA, possibilitam que a placenta seja órgão privilegiado e resistente a ataques imunológicos envolvendo linfócitos, anticorpos citotóxicos e complexos antígeno-anticorpo. A placenta é, entretanto, permeável aos anticorpos do tipo imunoglobulina G (IgG), que podem se ligar a receptores placentários chamados Fc e ser transportados para o embrião desde estágios iniciais da gestação. O HLA-G e o HLA-E deprimem a resposta imunológica pela interação com os receptores de inibição leucocitária das células natural killer uterinas e dos macrófagos, e com o receptor das células CD8+. As consequências dessas interações incluem a ativação de canais nas células natural killer e macrófagos que interferem nas funções letais dessas células. Normalmente, a presença das células trofoblásticas junto à decídua uterina faz com que diversos linfócitos migrem para esse local, resultando em adequado suporte para o crescimento celular. Essas células inflamatórias liberam substâncias que suprimem a atividade citotóxica e produzem hormônios esteroides e proteínas com ação imunossupressora. Essas proteínas têm a capacidade de regular a expressão gênica do trofoblasto, induzindo o sistema imunológico materno a produzir anticorpos direcionados contra antígenos paternos. Esses anticorpos suprimem as células natural killer e sua atividade citotóxica. Portanto, a resposta imunológica que acontecerá na decídua com a presença do trofoblasto depende das células inflamatórias presentes, podendo gerar 2 tipos de resposta: 1. Resposta tipo TH1, citotóxica, que não é favorável ao desenvolvimento da placenta 2. Resposta tipo TH2, supressora, que possibilita o crescimento do tecido trofoblástico e o posterior desenvolvimento da gestação Sabe-se que a resposta aloimune materna é dirigida contra antígenos do sistema HLA do feto de origem paterna. O antígeno do sistema HLA é encontrado no trofoblasto extraviloso e nos linfócitos periféricos T e B. A produção do HLA é uma etapa importante na diferenciação docitotrofoblasto e no sucesso da invasão desse tecido no útero materno. Parece que o HLA atua como molécula protetora contra o ataque das células natural killer deciduais, permitindo a sobrevivência fetal no tecido materno. As proteínas TJ6 são proteínas imunomoduladoras que têm importante papel na indução da tolerância imunológica materna ao embrião. Essas moléculas estão presentes no útero e nos linfonodos durante a gestação. Apresentam-se na membrana celular dos linfócitos B na gravidez normal e, quando essa expressão se faz nas células natural killer, há associação com resultado gestacional desfavorável. Acredita-se que a progesterona produzida em altas concentrações no início da gestação estimule a produção dessas proteínas. Em suma, pode-se dizer que, do ponto de vista imunológico, a gestação em humanos teve que desenvolver a capacidade de lidar com as células natural killer citotóxicas, inativando-as localmente. Em gestações que terminam em abortamento, essas células são observadas em maior número, com atividade citotóxica exacerbada, e induzem necrose da decídua que está em contato com as células trofoblásticas. MODIFICAÇÕES LOCAIS: confinadas ao sistema genital feminino P4: Mudanças psicológicas. A gravidez representa uma das fases mais marcantes e transformadoras da vida feminina, envolvendo profundas alterações biológicas, sociais e, sobretudo, psicológicas. Trata-se de um processo de transição que demanda da mulher a construção de uma nova identidade (a de mãe) e a reestruturação de seus vínculos afetivos, de seus papéis sociais e de sua autoimagem. Como afirmam Vieira e Parizotto (2013), o período gestacional é permeado por mudanças intensas que exigem novas adaptações emocionais e psíquicas, podendo tanto favorecer o amadurecimento emocional quanto gerar vulnerabilidade a conflitos e crises internas. Durante a gestação, as flutuações hormonais (como o aumento de progesterona e estrogênio) influenciam o humor e o comportamento, podendo provocar sintomas como irritabilidade, ansiedade, hipersensibilidade emocional, fadiga e alterações no sono e no apetite. Esses fatores, aliados à expectativa do parto e à responsabilidade pela nova vida, podem desencadear quadros de instabilidade emocional. Sarmento e Setúbal (2003) destacam que, especialmente no primeiro trimestre, a mulher vivencia o impacto do diagnóstico da gravidez, um momento de choque e ambivalência emocional, em que convivem sentimentos de alegria e medo, desejo e insegurança. No segundo trimestre, tende a ocorrer uma maior adaptação à gestação. A mulher, já habituada às transformações físicas e emocionais, começa a desenvolver um vínculo mais intenso com o feto, favorecendo a aceitação e a elaboração da identidade materna. Esse período costuma ser descrito como o mais estável psicologicamente, pois há uma diminuição das náuseas e dos desconfortos físicos e uma maior integração entre corpo e mente. No entanto, mesmo nessa fase, podem persistir preocupações com o futuro, com a relação conjugal e com as condições socioeconômicas, que impactam diretamente o bem-estar emocional. No terceiro trimestre, ocorre uma intensificação das ansiedades relacionadas ao parto e à maternidade iminente. É comum o surgimento de medos quanto à dor do parto, à saúde do bebê e à própria capacidade de cuidar. Segundo Vieira e Parizotto (2013), essa etapa é marcada por sentimentos ambivalentes: ao mesmo tempo em que a mulher deseja o nascimento do filho, pode sentir medo da separação física e do novo papel social que assumirá. Trata-se de um momento de grande sensibilidade e introspecção, no qual o suporte familiar e conjugal exerce papel determinante na manutenção da saúde mental da gestante. A literatura enfatiza que o apoio emocional é um dos fatores protetores mais importantes. Vieira e Parizotto (2013) demonstraram que a ausência de suporte familiar e social está fortemente associada à maior incidência de alterações psicológicas, como tristeza, irritabilidade, ansiedade e, em casos mais graves, ideação suicida. O apoio do parceiro, da família e dos profissionais de saúde contribui para que a mulher vivencie o processo gestacional de forma mais segura, confiante e saudável. Além disso, Sarmento e Setúbal (2003) ressaltam que a abordagem psicológica durante o pré-natal deve considerar a singularidade da vivência de cada gestante, oferecendo espaço para expressão de medos, dúvidas e expectativas. Grupos de apoio e intervenções psicoterapêuticas multidisciplinares têm se mostrado eficazes na redução da ansiedade e na promoção do vínculo mãe-bebê. Portanto, as mudanças psicológicas ao longo da gravidez são naturais e fazem parte de um processo de adaptação à maternidade. Variam de mulher para mulher, conforme fatores biológicos, emocionais, relacionais e socioculturais. O acompanhamento empático e humanizado é essencial para favorecer uma gestação mais tranquila e prevenir o desenvolvimento de transtornos emocionais, como depressão perinatal e ansiedade gestacional. P5: Como é o pré-natal realizado pelo Ministério da Saúde? Cite sua importância e periodicidade. O pré-natal é um conjunto de ações voltadas à promoção da saúde da gestante e do bebê, à prevenção de complicações e ao diagnóstico precoce de intercorrências durante a gravidez. No Sistema Único de Saúde (SUS), o pré-natal é ofertado de forma universal, gratuita e humanizada, conforme preconiza o Ministério da Saúde (MS), integrando a Rede Cegonha e a Atenção Primária à Saúde (APS). Segundo o Manual Técnico de Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco (MS, 2012; atualizado em 2023), o pré-natal deve garantir acompanhamento contínuo, integral e multiprofissional, envolvendo médicos, enfermeiros, dentistas e assistentes sociais. O atendimento deve contemplar aspectos biológicos, psicológicos e sociais, fortalecendo o vínculo entre gestante e equipe de saúde e assegurando a continuidade do cuidado até o puerpério. Realização Durante as consultas de pré-natal, são realizadas: ➔ Avaliações clínicas e obstétricas periódicas (anamnese, aferição de pressão arterial, altura uterina, ausculta fetal, peso e IMC) ➔ Solicitação e acompanhamento de exames laboratoriais (como hemograma, glicemia, VDRL, HIV, hepatite B e C, toxoplasmose, urina tipo I) ➔ Vacinação atualizada (como dT, influenza e COVID-19) ➔ Orientações educativas sobre alimentação, atividade física, aleitamento materno, sexualidade, sinais de risco e direitos da gestante ➔ Atenção à saúde mental e à situação social e familiar da mulher, com encaminhamento quando necessário ➔ Planejamento do parto e visita à maternidade de referência, garantindo acolhimento e segurança no nascimento Periodicidade O Ministério da Saúde recomenda no mínimo seis consultas de pré-natal, distribuídas da seguinte forma: ➔ 1ª consulta: o mais precocemente possível, preferencialmente até 12 semanas de gestação ➔ 2ª e 3ª consultas: entre o segundo trimestre (até 28 semanas) ➔ 4ª, 5ª e 6ª consultas: no terceiro trimestre, com intervalo máximo de 4 a 6 semanas entre elas ➔ É recomendado ainda um retorno puerperal até 42 dias após o parto, garantindo continuidade do cuidado Entretanto, gestantes com fatores de risco (como hipertensão, diabetes, anemia grave, gestação múltipla, entre outros) devem ter um número maior de consultas, com acompanhamento conjunto em unidades de referência. Importância O pré-natal é essencial para: ➔ Promover a saúde materno-fetal, prevenindo agravos e complicações ➔ Detectar precocemente doenças como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e infecções ➔ Reduzir a morbimortalidade materna e infantil, meta prioritária das políticas públicas de saúde ➔ Fortalecer o vínculo afetivo entre mãe, bebê e equipe de saúde, contribuindo para uma gestação mais segura e humanizada ➔ Preparar a mulher e a família para o parto, o puerpérioe o aleitamento materno ➔ Favorecer o acolhimento psicológico, considerando as transformações emocionais e sociais que marcam o ciclo gravídico-puerperal Ações realizadas em todas as consultas ➔ Acolhimento e escuta qualificada, valorizando dúvidas, medos e expectativas da gestante ➔ Aferição da pressão arterial, verificação do peso e altura, e cálculo do IMC ➔ Avaliação obstétrica: medida da altura uterina, ausculta dos batimentos cardíacos fetais, e observação de sinais de risco (edema, sangramentos, dor abdominal, contrações, etc.) ➔ Exame físico geral (mamas, abdome, mucosas) ➔ Orientações sobre hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, prática de exercícios leves, prevenção de infecções e saúde mental ➔ Verificação do cartão de vacinas, atualização e registro na Caderneta da Gestante ➔ Registro dos dados no prontuário e no Sistema de Informação em Saúde (SISPRENATAL ou e-SUS) Vacinas indicadas durante o pré-natal De acordo com o Programa Nacional de Imunizações (PNI), toda gestante deve manter o esquema vacinal atualizado: Suplementações e medicamentos de rotina O Ministério da Saúde preconiza o uso de suplementos preventivos para evitar deficiências nutricionais e complicações: ➔ Sulfato ferroso: 40 mg/dia de ferro elementar (equivalente a 200 mg de sulfato ferroso) a partir da 20ª semana até 3 meses após o parto → prevenção da anemia ferropriva ➔ Ácido fólico (vitamina B9): 0,4 mg/dia iniciado antes da concepção ou até a 12ª semana de gestação → previne defeitos do tubo neural ➔ Vitamina D e cálcio: orientados conforme avaliação nutricional e clínica ➔ Outros medicamentos são prescritos conforme necessidade clínica (ex.: antiparasitários, anti-hipertensivos, antibióticos, entre outros). Exames laboratoriais e de imagem Durante o pré-natal, é fundamental a realização e acompanhamento de exames em momentos específicos da gestação: 1º trimestre (até 12 semanas): ➔ Hemograma completo ➔ Tipagem sanguínea e fator Rh ➔ Glicemia de jejum ➔ Urina tipo I (EAS) e urocultura ➔ Sorologias: HIV, VDRL (sífilis), HBsAg (hepatite B), toxoplasmose (IgG/IgM) ➔ Exame ginecológico e citologia oncótica, se indicado ➔ Teste rápido para infecções sexualmente transmissíveis 2º trimestre (13–27 semanas): ➔ Repetição de glicemia e VDRL ➔ Exame de urina ➔ Ultrassonografia morfológica fetal 3º trimestre (28–40 semanas): ➔ VDRL e HIV repetidos ➔ Hemograma e urina tipo I ➔ Pesquisa de estreptococo do grupo B (36ª semana, quando disponível) Acompanhamento odontológico O cuidado odontológico é obrigatório durante o pré-natal no SUS, pois a saúde bucal está diretamente ligada à saúde gestacional. O dentista realiza: ➔ Avaliação da cavidade oral e prevenção de doenças gengivais e cáries ➔ Tratamento de infecções (que podem aumentar o risco de parto prematuro) ➔ Orientações sobre higiene oral e alimentação ➔ Uso de flúor e profilaxias, quando indicadas O atendimento é seguro em qualquer trimestre e deve ser incentivado pelos profissionais do pré-natal. Acompanhamento multiprofissional e social Além do médico e do enfermeiro, o pré-natal deve envolver: ➔ Psicólogo: acompanhamento emocional e prevenção de depressão e ansiedade gestacional ➔ Assistente social: suporte em casos de vulnerabilidade, violência doméstica, desemprego ou insegurança alimentar ➔ Nutricionista e fisioterapeuta: orientações sobre alimentação, postura, atividade física e preparação para o parto. P6: Explique os exames clínicos, exames subsidiários e as orientações fornecidas. Exames clínicos realizados O exame clínico é realizado em todas as consultas de pré-natal e tem como objetivo acompanhar a evolução fisiológica da gestação, detectar precocemente alterações e garantir a saúde materno-fetal. Durante as consultas descritas no caso, são realizados: Avaliação geral: ➔ Anamnese completa, incluindo história menstrual, obstétrica, sexual, social e emocional ➔ Verificação do peso e da altura → permite calcular o IMC gestacional e avaliar ganho ponderal adequado ➔ Aferição da pressão arterial → rastreia hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia, uma das principais causas de mortalidade materna ➔ Avaliação de edema em membros inferiores e face Exame obstétrico: ➔ Medida da altura uterina, usando fita métrica, para estimar o crescimento fetal e a idade gestacional ➔ Ausculta dos batimentos cardíacos fetais (BCF), geralmente com sonar Doppler a partir da 12ª semana - no caso, a gestante relata “ouvir o coraçãozinho do bebê” ➔ Avaliação da movimentação fetal, especialmente no terceiro trimestre ➔ Toque vaginal nas consultas finais → avalia apresentação fetal, dilatação e condições do colo uterino, preparando o parto Exame físico segmentar: ➔ Avaliação das mamas: para preparo à amamentação e detecção de alterações ➔ Exame das mucosas (verificação de palidez → anemia) ➔ Avaliação da pele: surgimento de cloasma gravídico (manchas escuras no rosto), relatado no caso Exames subsidiários (complementares) Esses exames são solicitados em momentos específicos da gestação, conforme o protocolo do Ministério da Saúde, para o rastreio de condições clínicas, infecciosas e metabólicas. Primeiro trimestre: ➔ Hemograma completo: avalia anemia ➔ Tipagem sanguínea e fator Rh: identifica incompatibilidade Rh materno-fetal ➔ Glicemia de jejum: triagem para diabetes gestacional (a paciente menciona “glicose no limite máximo”) ➔ Urina tipo I e urocultura: detecta infecção urinária, comum na gestação ➔ Sorologias: HIV, sífilis (VDRL), hepatite B (HBsAg), toxoplasmose (IgG/IgM) ➔ Exame ginecológico e citologia oncótica (se indicado) Segundo trimestre: ➔ Ultrassonografia obstétrica morfológica (USG): avalia o desenvolvimento fetal, placenta, líquido amniótico e possíveis malformações ➔ Translucência nucal (citada no caso): exame entre 11 e 14 semanas, rastreia anomalias cromossômicas como a síndrome de Down ➔ Repetição de sorologias e glicemia, conforme resultados anteriores Terceiro trimestre ➔ Novas sorologias (HIV, VDRL, hepatite B) → detecção de infecções adquiridas tardiamente ➔ Pesquisa de estreptococo do grupo B (36ª semana, quando disponível) ➔ USG de controle para avaliar crescimento fetal e posição. Esses exames permitem identificar precocemente fatores de risco e reduzir complicações perinatais. Medicamentos e suplementação De acordo com as recomendações do Ministério da Saúde: ➔ Ácido fólico (0,4 mg/dia) → desde o início da gestação até a 12ª semana, previne defeitos do tubo neural ➔ Sulfato ferroso (40 mg/dia de ferro elementar) → a partir da 20ª semana até o 3º mês pós-parto, previne anemia ferropriva ➔ Vacinas obrigatórias: - dTpa (tríplice acelular do adulto): a partir da 20ª semana - Influenza: em qualquer trimestre - Hepatite B: esquema de 3 doses, se necessário - COVID-19: conforme recomendação vigente Acompanhamento odontológico e multiprofissional A gestante deve ser avaliada pelo cirurgião-dentista ainda no início do pré-natal, pois infecções periodontais podem aumentar o risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer. Além disso, o acompanhamento multiprofissional inclui: ➔ Enfermeira: acolhimento, orientações, verificação de pressão e medidas antropométricas ➔ Nutricionista: orientação alimentar, principalmente no caso de glicemia limítrofe ➔ Psicólogo: apoio emocional frente às mudanças psicológicas e sociais relatadas (gravidez não planejada, conflitos conjugais) ➔ Assistente social: suporte em vulnerabilidades socioeconômicas Orientações fornecidas à gestante As orientações educativas fazem parte essencial do pré-natal e são adaptadas às necessidades de cada mulher. No caso apresentado, destacam-se: Cuidados gerais: ➔ Evitar automedicação ➔ Realizar todas as consultas e exames solicitados ➔ Dormir preferencialmente em decúbito lateral esquerdo (como a médica recomendou), favorecendo o retorno venoso e a perfusão uteroplacentária➔ Manter alimentação equilibrada e fracionada, evitando alimentos muito gordurosos, para reduzir náuseas e empanzinamento ➔ Ingerir líquidos e fibras para combater a constipação intestinal ➔ Evitar o consumo de álcool, tabaco e outras substâncias Educação para o parto: ➔ Reconhecer sinais de trabalho de parto (contrações regulares, perda de tampão mucoso, rompimento da bolsa) ➔ Saber onde ocorrerá o parto e como acionar o transporte (a paciente menciona ter vale-transporte e local de referência) ➔ Preparar a mala da maternidade e os documentos Saúde mental e emocional: ➔ Falar sobre medos, ansiedades e inseguranças; buscar apoio familiar ou psicológico ➔ Acolher a ambivalência emocional típica do período (entre alegria e preocupação) Pós-parto e amamentação: ● Orientação sobre aleitamento materno exclusivo até os 6 meses ● Importância da consulta puerperal até 42 dias após o parto