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Timm, Luciano Benetti; Reis

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JUDICIALIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS NA GESTÃO DE RISCOS AGRÍCOLAS
NO PARANÁ: UM ESTUDO SOBRE A SEGURADORA NEWE
Judicialization and its impacts on agricultural risk management in Paraná: a study on the Newe
insurance company
Revista de Análise Econômica do Direito | vol. 9/2025 | Jan - Jun / 2025
DTR\2025\6534
Luciano Benetti Timm
Pesquisador de Pós-Doutorado U.C., Berkeley, EUA. Doutor em Direito dos Negócios pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi presidente da Associação Brasileira de
Direito e Economia (ABDE). Professor da Graduação e Pós-Graduação da FGV Direito SP.
ltimm@cmtadv.com.br
Willian Pablo Pereira Reis
Especialista em Compliance da Privacidade e Proteção de Dados pela Escola da Magistratura
Federal do Paraná. Bacharel em Economia pela Universidade Federal da Paraíba e em Direito pelo
Centro Universitário Uniesp. Cientista de dados certificado pelo DataCamp.
wp_pereira@yahoo.com.br
Área do Direito: Civil; Financeiro e Econômico; Consumidor
Resumo: As safras de 2021-2022 no sul do Brasil, especialmente no Paraná, enfrentaram desafios
climáticos sem precedentes, como secas severas e geadas, o que resultou em um aumento
significativo de sinistros no mercado de seguros agrícolas. Este estudo analisa a interação entre a
judicialização e o mercado de seguros agrícolas, com foco nas operações da seguradora Newe entre
2017 e 2023, utilizando a análise econômica do direito. Os resultados mostram que decisões judiciais
frequentemente desconsideram diretrizes técnicas, como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático
(ZARC), impondo indenizações indevidas que aumentam os custos de transação das seguradoras.
Tais decisões afetam desproporcionalmente empresas menores, ampliando o risco de concentração
de mercado e reduzindo a acessibilidade para pequenos agricultores. O estudo destaca a
necessidade de alinhamento entre o direito e as consequências práticas das decisões judiciais para
preservar a viabilidade do mercado de seguros agrícolas e proteger a concorrência. Por meio da
análise de casos judiciais e dados de mercado, esta pesquisa reforça a importância de políticas
coerentes e prudência judicial na gestão de riscos agrícolas, promovendo a sustentabilidade do setor
e a proteção dos produtores.
Palavras-chave: Seguro agrícola – Paraná – Mudanças climáticas – Litígios – Sinistros –
Instabilidade do mercado
Abstract: The 2021-2022 crop seasons in southern Brazil, particularly in the state of Paraná, faced
unprecedented climate challenges, including severe droughts and frosts. These conditions increased
agricultural insurance claims and highlighted judicial and informational asymmetries between farmers
and insurers. Using an economic analysis of law, this study examines the interplay between
judicialization and the agricultural insurance market, focusing on Newe Insurance's operations from
2017 to 2023. Results indicate that judicial decisions often disregard technical guidelines such as the
Agricultural Risk Zoning (ZARC), imposing undue indemnifications and exacerbating transaction costs
for insurers. These decisions disproportionately affect smaller insurers, risking market concentration
and reduced accessibility for small-scale farmers. The study underscores the importance of aligning
legal frameworks with practical economic outcomes to maintain the viability of agricultural insurance
and protect market competition. By analyzing judicial cases and market data, this research advocates
for judicial prudence and policy coherence in managing agricultural risks, ensuring sustainable market
dynamics and farmer protection.
Keywords: Agricultural insurance – Paraná – Climate change – Litigation – Claims – Market
Instability
Para citar este artigo: TIMM, Luciano Benetti; REIS, Willian Pablo Pereira. Judicialização e seus
impactos na gestão de riscos agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe. Revista de
Análise Econômica do Direito. vol. 9. ano 5. São Paulo: Ed. RT, jan./jun. 2025. Disponível em: LINK.
Acesso em: DD.MM.AAAA. Confira as informações gerais da Revista:
[https://thomsonreuters.com.br/pt/juridico/webrevistas.html].
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 1
Sumário:
1 Introdução - 2 Premissas conceituais da análise econômica do direito - 3 Entendendo o seguro
agrícola no Brasil - 4 Falhas de mercado em seguros agrícolas - 5 Superando as falhas de mercado -
6 Metodologia - 7 Resultados - 8 Da desconsideração da ZARC - 9 Da aplicação da teoria finalista
mitigada - 10 Conclusão - 11 Referências bibliográficas - 12 Jurisprudência
1 Introdução
As safras de inverno de 2021 e de verão entre 2021 e 2022 na região Sul, especialmente no Paraná,
foram marcadas por condições de tempo fora do padrão histórico. Desde então, companhias de
seguro vêm sofrendo problemas relacionados à judicialização de contratos de seguro agrícola,
agravados pela falta de conhecimento técnico do Poder Judiciário acerca do mercado securitário e
por condutas potencialmente oportunistas dos segurados.
A agricultura brasileira, sobretudo em regiões como o Paraná, enfrenta riscos significativos por causa
da variabilidade climática. Secas, geadas e fenômenos imprevisíveis como El Niño e La Niña
representam ameaças constantes. Avanços tecnológicos e medidas como a negociação de contratos
de compra e venda no mercado futuro ou a termo oferecem algum alívio, mas, não raro, a
imprevisibilidade desses eventos supera essas salvaguardas.
O seguro agrícola é essencial para mitigar esses riscos. No entanto, o mercado brasileiro de seguros
agrícolas não está isento de desafios. O mercado de seguro agrícola opera com forte assimetria
informacional em desfavor ao ofertante, razão pela qual requer maior expertise no trato por parte do
poder público, seja para fins de políticas públicas, seja para fins de decisões judiciais.
A análise econômica do direito fornece um quadro para a compreensão das implicações das
decisões judiciais. Ao examinar os incentivos dos participantes do mercado e as consequências das
decisões legais, essa abordagem busca encontrar um equilíbrio entre a proteção dos agricultores e a
garantia da sustentabilidade do mercado de seguros.
Esse estudo investiga a interação entre judicialização, seguro agrícola e dinâmica do setor agrícola
no Paraná, com ênfase na safra 2021-2022, trazendo para estudo o caso da Seguradora Newe1.
Com foco no atendimento a agricultores de estados da região Sul, entre janeiro de 2017 e julho de
2023, a empresa emitiu quase 50 mil apólices com cobertura securitária para dezenas de milhares
de produtores rurais, encerrando 97% dos seus sinistros sem qualquer tipo de contestação judicial.
As safras de inverno de 2021 e de verão entre 2021 e 2022 na região Sul, especialmente no Paraná,
foram marcadas por condições de tempo fora do padrão para o histórico do país, seja em virtude da
quantidade de sinistros reclamados e/ou em razão da gravidade dos danos. Trata-se da pior crise de
seca no Paraná dos últimos 50 anos ou, até mesmo, do século2.
Dos 27 mil avisos de sinistros que a companhia atendeu ao longo de suas operações,
aproximadamente 16 mil referem-se apenas às safras de 2021, com um pagamento de indenizações
que superam em 350% o valor arrecadado em prêmios para o período3.
Desde então, a companhia vem sofrendo problemas relacionados à judicialização de contratos de
seguro agrícola que podem ser agravados por decisões do Poder Judiciário que desconsideram a
necessidade de plantio conforme o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, que equiparam o
agricultor segurado ao consumidor e que imputam à seguradora responsabilidades não contratadas
com os agricultores.
Decisões assim orientadas promovem aumento nos custos de transação das seguradoras, que
precisam gastar mais com custos de procura (Search Costs) e de monitoramento (Monitoring Costs).
Em um mercado concentrado como o dos seguros agrícolas, o ônus dessas decisões pode levar a
uma saída prematura do mercado de empresas menoresque aumentam a sua competitividade.
2 Premissas conceituais da análise econômica do direito
Segundo Douglass North, Prêmio Nobel de Economia em 1993, instituições como o Judiciário ou o
Direito criam incentivos diversos sobre a ação dos agentes em sociedade, sendo compreendidas
como:
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 2
“Instituições são as regras do jogo na sociedade ou, mais formalmente, são as coações criadas pelo
homem que moldam a interação humana. Consequentemente elas estruturam os incentivos das
trocas humanas, quer políticas, sociais ou econômicas. As mudanças institucionais moldam a forma
que as sociedades evoluem pelo tempo e, portanto, são a chave no entendimento das mudanças
históricas [...] Elas reduzem incertezas ao prover a estrutura para a vida do dia a dia. São um guia
para a interação humana [...] No jargão dos economistas, instituições definem e limitam o leque de
escolhas dos indivíduos [...] Instituições incluem qualquer forma de coação que seres humanos criam
para moldar a interação humana.”4
Nesse sentido, o Direito pode ser visto como uma dessas instituições criadas pelo homem, que, no
modelo democrático de checks and balances, possui posição de proeminência em termos de
influências exercidas sobre o comportamento humano em sociedade e, por consequência, sobre as
demais instituições – inclusive o Poder Judiciário. Com fundamento em tal compreensão, afirma
Zylbersztajn:
“A análise econômica deve, então, considerar o ambiente normativo no qual os agentes atuam, para
não correr o risco de chegar a conclusões equivocadas e imprecisas, por desconsiderar os
constrangimentos impostos pelo Direito ao comportamento dos agentes econômicos. O Direito, por
sua vez, ao estabelecer regras de conduta que modelam as relações entre pessoas, deverá levar em
conta os impactos econômicos que delas derivarão, os efeitos sobre a distribuição ou alocação de
recursos e os incentivos que influenciam o comportamento dos agentes econômicos privados. Assim,
o Direito influencia e é influenciado pela Economia.”5
Em razão das relações entre Direito e Economia supradescritas, o processo de elaboração das
“regras do jogo”, bem como o de garantia de observância dessas mesmas regras (comumente,
exercido pelo Poder Judiciário), são de crucial importância ao adequado convívio em sociedade,
compreendido neste o conjunto de relações humanas usualmente descritas como “relações de
mercado”. São com base nelas que indivíduos e empresas tomarão decisões de investimento, que
são o motor da prosperidade e do desenvolvimento humano.
Quando surgem problemas em um dos dois eixos descritos (elaboração de regras, ou garantia de
cumprimento delas), surgem os chamados “custos de transação”. A definição dos custos de
transação foi bem sintetizada por Pinheiro e Saddi6:
“Os custos de transação compreendem, portanto, os custos com a realização de cinco atividades
que tendem a ser necessárias para viabilizar a concretização de uma transação. Primeiro, a
atividade pela busca pela informação sobre regras de distribuição de preço e qualidade de
mercadorias; sobre insumos de trabalho e a busca por potenciais compradores e vendedores, assim
como de informação relevante sobre o comportamento desses agentes e a circunstância em que
operam. Segundo, a atividade de negociação, que será necessária para determinar as verdadeiras
intenções e os limites de compradores e vendedores na hipótese de a determinação dos preços ser
endógena. Terceiro, a realização e a formalização dos contratos, inclusive o registro nos órgãos
competentes, de acordo com as normas legais, atividade fundamental do ponto de vista do direito
privado, já que é o que reveste o ato das garantias legais. Quarto, o monitoramento dos parceiros
contratuais com o intuito de verificar se aquelas formas contratuais estão sendo devidamente
cumpridas, e a proteção dos direitos de propriedade contra a expropriação por particulares ou o
próprio setor público. Finalmente, a correta aplicação do contrato, bem como a cobrança de
indenização por prejuízos às partes faltantes ou que não estiverem seguindo corretamente suas
obrigações contratuais, e os esforços para recuperar controle de direitos de propriedade que tenham
sido parcial ou totalmente expropriados.”7
Assim, é inegável a existência de estreita relação de influência exercida por instituições que
garantem a aplicação dos contratos (sobretudo, o Judiciário) e os “efeitos de cadeia”, ou rede, sobre
as relações sociais como um todo. Prova disto é a importância que decisões dos Tribunais possuem
sobre a mudança de comportamento dos indivíduos ou mesmo de outras instituições, quando
matérias de grande repercussão chegam a tais foros de debate. A este efeito, dedica-se todo um
campo de pesquisa relacionada à Análise Econômica do Direito, sobre as consequências das
decisões judiciais.
3 Entendendo o seguro agrícola no Brasil
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 3
O contrato de seguro surgiu espontaneamente nas relações sociais e econômicas como forma de
diluição de risco. Assim, o empresário (ou, mais recentemente, o consumidor) ao invés de tomar o
risco de um sinistro que poderia arruiná-lo decide pagar um prêmio a um profissional (empresa) que,
baseado em cálculos atuariais, distribuirá o risco em uma cadeia, recebendo uma remuneração por
esse serviço de garantia (por definição, sempre limitada aos termos da apólice). Pode-se dizer que
estatística e a ciência atuarial quantificam e precificam o risco.
Desse modo, com a finalidade de prevenir riscos inerentes à vida em sociedade e à condução das
atividades econômicas, foram criados os contratos de seguro, que passaram a ser vistos como uma
solução coletiva ao problema da falta de proteção contra tais eventos. Isso porque, na operação de
seguro, segundo Tatiana Druck:
“[...] fala-se em ‘distribuição’ do risco e ‘pulverização’ ou ‘dispersão’ do custo, dando a noção de que
o risco individual é diluído entre os outros participantes da operação e o prejuízo patrimonial do dano
é rateado, através do mutualismo. Já no caso do contrato, celebrado entre Segurado e Seguradora,
refere-se à ‘transferência do risco’, no sentido de que esta ‘substituiria’ aquele na suportação das
consequências patrimoniais advindas do sinistro, sempre com a clareza, entretanto, que essa
substituição é virtual e se dá nos exatos limites fixados na apólice [...].”8
A esse tipo de compartilhamento de riscos entre os contratantes, segurado e seguradora, dá-se o
nome de mutualidade. A mutualidade é a suposição de que pela associação dos agentes (base de
segurados e seguradora) é possível compartilhar os riscos e as probabilidades de danos futuros,
condição sem a qual se pode acabar por inviabilizar completamente a criação de um mercado de
seguros.
Para o caso do mercado de seguro agrícola, tem-se lógica análoga, em que a associação dos
contratantes em uma grande base de contribuição, com riscos diluídos entre todos os contratantes, é
o elemento formador da sustentabilidade do mercado e da própria viabilidade econômica das
seguradoras de crédito.
O seguro agrícola é uma cobertura que visa proteger as explorações agrícolas contra perdas,
especialmente, de fenômenos climáticos. A cobertura abrange a vida da planta, da emergência à
colheita, resguardando o produtor contra riscos como incêndio, raio, tromba d'água, ventos fortes,
granizo, geada, chuvas excessivas, secas e variação excessiva de temperatura.
De maneira geral, os seguros visam proteger os segurados contra riscos imprevisíveis da ótica do
segurado, ou riscos de difícil prevenção. Não é desejável, da perspectiva da seguradora e do
conjunto de segurados, que todos os segurados passem a diminuir o nível de rigor e cautela na
prevenção de danos evitáveis, pois este comportamento prejudicaria todas as partes do mercado
segurador. Promover resultados desejáveis não é deixado à sorte, masincentivado por meio de
cláusulas contratuais.
Assim, cláusulas preveem exclusão de cobertura em casos como o plantio fora do zoneamento
agrícola (ZARC), o uso de sementes próprias no plantio, o plantio em local diferente do segurado e
colheitas antes da realização da vistoria que, geralmente, são riscos excluídos da cobertura.
Rompidas as expectativas que fornecem equilíbrio financeiro e atuarial a tais contratos, os efeitos em
cadeia sobre as empresas do setor têm o potencial de inviabilizar economicamente a atividade, ou
de gerar spill over effects na cadeia de segurados via aumento de preços, diminuição da oferta de
planos, concentração de mercado, entre outros.
De acordo com a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), as esferas
administrativa, controladora e judicial, ao tomar decisões, devem levar em consideração as suas
consequências práticas. Em outras palavras, a lei reconhece a necessidade de alinhar o direito com
as consequências práticas das decisões, a fim de evitar imposições de ônus ou perdas anormais ou
excessivas aos sujeitos atingidos.
“LINDB — Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em
valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão.
Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação a medida imposta ou da
invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das
possíveis alternativas.”
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
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Nesse contexto, o alinhamento adequado do direito às consequências práticas das decisões judiciais
é crucial para garantir que o setor agrícola possa prosperar dentro de um ambiente de segurança
jurídica e econômica.
4 Falhas de mercado em seguros agrícolas
O seguro agrícola enfrenta desafios econômicos importantes, como a concentração geográfica do
risco, que dificulta a formação de uma carteira ampla que dilua o risco agregado, mantendo alto o
risco de sinistro generalizado. Como apontam Fornazier, Souza e Ponciano:
“O sinistro generalizado é a ocorrência de sinistros localizados que decorrem todos da mesma causa
subjacente. Assim, por exemplo, a seca que atinge uma região, atinge também a região vizinha. A
concentração de atividades em uma região aumenta os riscos, porém a dispersão aumenta os
custos.”9
Os custos de transação também são obstáculos, como os custos de barganha, que envolvem a
conversão das informações privadas em públicas, e os custos de monitoramento e enforcement, que
envolvem monitorar a execução do acordo e punir desvios do que foi acordado.
A assimetria de informação contribui para aumentar os custos de transação de duas maneiras.
Primeiro, os agricultores geralmente têm um conhecimento mais preciso do potencial de suas safras
e dos riscos associados do que as seguradoras. Eles entendem melhor as nuances do solo, o
microclima da região, as particularidades das culturas que plantam, entre outros.
Esse conhecimento permite que eles façam uma previsão mais precisa dos prováveis custos futuros
e riscos associados à sua safra. Assim, os agricultores que antecipam safras mais produtivas e
menos problemáticas podem optar por não contratar seguro.
Por outro lado, há o incentivo para que agricultores com piores condições sejam atraídos para a
relação securitária, se beneficiando desta assimetria de informação. Como o interesse da seguradora
é ter uma carteira de clientes com a menor exposição possível a sinistros, temos que ela acaba
enfrentando um problema de seleção, denominado “seleção adversa”.
A segunda maneira pela qual há contribuição ao aumento de custos de transação é que, conquanto
as seguradoras conseguissem saber antes da contratação da exata exposição ao risco de cada um
dos seus segurados, ainda persiste o problema de que elas não poderiam assegurar que essa
exposição se manteria posteriormente à contratação.
Antes do contrato, o agricultor precisa incorrer em certos custos para minorar as chances de um
sinistro. Com a contratação, a seguradora toma o risco do agricultor “desinvestir” em segurança e
boas práticas de plantio, aumentando sua exposição ao risco de sinistros. Como a seguradora não
pode monitorar esses investimentos sem assumir um custo adicional, possui informação assimétrica
em relação ao produto e enfrenta o que conhecemos por risco moral.
Assim, enquanto na seleção adversa os indivíduos com características “indesejáveis” são mais
atraídos a participar de determinadas relações contratuais, no risco moral, os usuários do seguro
“descuidam” da própria produção, o que lhes permite economizar em custos e colher a indenização
da seguradora posteriormente, resultando em danos ainda maiores do que seriam percebidos na
ausência do seguro.
Há farta literatura internacional apontando para a presença de risco moral e seleção adversa nos
seguros agrícolas. He et al. (2019) trouxeram à luz a questão da seleção adversa e do risco moral
em seguros de custeio10. Eles descobriram que os agricultores segurados sob esses tipos de
contratos gastavam mais em fertilizantes químicos e pesticidas (ou seja, aqueles insumos cujos
custos determinam os pagamentos de indenização).
Além disso, constatou-se que os agricultores que tendem a gastar menos em fertilizantes químicos e
pesticidas são os que têm informações privadas sobre as condições do solo e a incidência de
pragas, e são estes tipos de agricultores que selecionam adversamente os contratos que cobrem
apenas perdas relacionadas ao clima.
Gunnsteinsson (2020), por sua vez, conduziu um experimento intrigante nas Filipinas. Em
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agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
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colaboração com uma companhia de seguros do governo, ele realizou um experimento de campo
randomizado11. Neste caso, os agricultores foram convidados a classificar suas parcelas de terra por
preferência de seguro. Ele descobriu que as parcelas que foram seguradas gratuitamente
apresentaram perdas de safra por causa de pragas e de doenças cerca de 31% maiores em
comparação com as parcelas não seguradas.
Além disso, ele notou que os agricultores tendiam a selecionar para o seguro as parcelas que eram
propensas a danos, resultando em 23% mais danos e pagamentos de seguro 72% maiores nessas
parcelas de primeira escolha em comparação com as outras.
Suryanto e Rosalia (2023) identificaram que o risco moral é um problema na implementação do
seguro agrícola na Indonésia. Eles descobriram que os agricultores que participam do programa de
seguro de safras tendem a reduzir os custos de produção agrícola, levando ao risco moral. Em
outras palavras, os agricultores podem não tomar as precauções necessárias para proteger suas
colheitas, resultando em maiores perdas12.
Já Wu, Goodwin e Coble (2020) focaram na questão do risco moral no programa de seguro agrícola
dos EUA. Eles analisaram o plantio preventivo, uma provisão que fornece pagamentos de
indenização se as condições não forem adequadas para o plantio. Sua análise revelou evidências
significativas de risco moral, com a probabilidade de reivindicações de plantio preventivo
aumentando à medida que o preço de mercado esperado diminui ou os custos de fertilizantes
aumentam13.
5 Superando as falhas de mercado
Quanto ao risco de sinistro generalizado, certamente, a ferramenta mais importante para superar a
questão é o respeito ao plantio dentro do período definido pelo ZARC. O ZARC (Zoneamento
Agrícola de Risco Climático) é um instrumento que indica as datas ou os períodos ideais para o
plantio em cada município.
Essas datas são determinadas com base no ciclo da cultura e no tipo de solo, a fim de reduzir o risco
de adversidades climáticas, afetando as fases mais sensíveis das culturas. É uma ferramenta crucial
de política agrícola e gestão de riscos na agricultura, servindo como referência para o Seguro
Agrícola. Como apontam Fornazier, Souza ePonciano:
“O zoneamento agrícola atual foi reformulado a partir dos riscos climáticos levantados pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de 1993, quando se constatou que os principais eventos
que causam perdas eram ligados à seca e à chuva excessiva. A partir desse estudo foi firmada uma
parceria entre importantes instituições de pesquisas do Brasil que, sob o comando da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), desenvolveram modelagens climáticas para definir
quais eram as melhores datas de plantio, visando evitar os períodos mais susceptíveis aos sinistros.
Além do clima, insumos químicos específicos, tipo de solo, cultivares e forma de plantio (tradicional
ou direto) também são indicados pelo zoneamento (BIUDES; ASSAD & CASTILLO, 2005). O
zoneamento oferece boas garantias de êxito e, mesmo quando que não contratem o seguro, muitos
não dispensam as informações do sistema.”14 (grifos nossos)
Quanto aos problemas de seleção adversa e risco moral, o signaling (sinalização) e o screening
(triagem) são dois mecanismos amplamente utilizados para combater os seus efeitos.
Screening é um mecanismo que o agente menos informado utiliza para separar “o joio do trigo” por
meio de uma triagem. É o que ocorre quando as seguradoras exigem que os interessados no seguro
preencham formulários sobre suas condições iniciais. No âmbito dos seguros agrícolas, podem
envolver a análise de fatores como histórico de produção, capacidade financeira, localização
geográfica e outros indicadores que possam influenciar o risco de perdas.
Signaling, por sua vez, tem o mecanismo oposto, pois aqui é o agente mais informado que sinaliza
para a outra parte a sua condição. Por exemplo, um produtor que adota práticas agrícolas
sustentáveis e utiliza tecnologias modernas pode sinalizar um menor risco de perdas em virtude de
fatores ambientais. Isso pode levar a uma redução no valor do prêmio do seguro, tornando-o mais
acessível para o produtor.
Desse modo, entendido o mercado de seguros agrícolas, suas falhas e os motivos de sua regulação,
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agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
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cumpre-nos esclarecer de que formas o impacto de uma intervenção judicial nos contratos de seguro
rural atinge os agentes que atuam nesse mercado.
6 Metodologia
Para analisar a dinâmica do mercado de seguros agrícolas no Brasil, particularmente, no Estado do
Paraná, este estudo empregou uma combinação de coleta de dados, análise de mercado e avaliação
de impacto judicial. A metodologia foi desenhada para fornecer uma compreensão abrangente das
forças de mercado, das intervenções regulatórias e das implicações das decisões judiciais sobre a
estabilidade e a concorrência do mercado.
As principais fontes de dados incluíram o Sistema de Subvenção para o Seguro Rural (SISSER),
operado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que disponibiliza
informações ao público pelo Atlas do Seguro Rural15.
Essas fontes forneceram informações sobre o número de apólices emitidas, as áreas seguradas e a
distribuição da cobertura entre várias culturas, como soja, milho, trigo e uvas. Embora os dados
sejam limitados a apólices subsidiadas, eles representam uma amostra robusta para analisar
tendências de mercado e forças competitivas.
Além disso, dados da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) foram utilizados para avaliar
a distribuição dos prêmios e as quotas de mercado das principais companhias de seguros.
O estudo se concentrou no Paraná por causa de seu papel significativo no mercado nacional de
seguros agrícolas, representando 38,08% de todas as apólices emitidas.
Casos judiciais envolvendo disputas de seguros agrícolas com a empresa Newe no Paraná também
foram examinados para avaliar o impacto das decisões judiciais na dinâmica do mercado. Atenção
especial foi dada às decisões que impuseram indenizações além dos termos contratuais ou técnicos,
pois essas decisões aumentam os custos operacionais e impactam desproporcionalmente as
seguradoras menores.
Essa avaliação de impacto judicial foi essencial para entender as implicações mais amplas da
judicialização na estabilidade e concorrência do mercado. Ao combinar dados quantitativos com
avaliações qualitativas, a metodologia fornece um quadro abrangente para avaliar os fatores
econômicos e jurídicos que moldam o mercado de seguros agrícolas.
7 Resultados
Percebemos com base nos dados do SISSER que o seguro agrícola da seguradora do Banco do
Brasil, o Brasilseg Companhia de Seguros, tem posição de dominância neste mercado, segurando
37,4% da área segurada do Brasil. Quando considerado junto a Essor Seguros S.A., verificamos que
metade das terras brasileiras estão seguradas por duas empresas. Se considerada, ainda, a Mapfre
Seguros Gerais S.A., verifica-se que essas três companhias dominam 2/3 (dois terços) do mercado
analisado.
A dominância do mercado por essas duas seguradoras pode ser observada também pelo critério de
quantidade de apólices de seguro agrícola, com a Brasilseg detendo 25,8% do mercado nacional e a
Essor, 24,3%. O Paraná destaca-se pela absorção de 38,08% das apólices deste mercado, seguido
do Rio Grande do Sul e de São Paulo. O Estado reflete o cenário nacional, com dominância da
Brasilseg (20,4% das apólices).
A Newe tem contrato com 5% dos produtores segurados no Brasil e com 9,4% dos segurados
paranaenses, ocupando a 6ª posição no ranking. Em termos de valor de prêmio total, a Newe ocupa
a sexta posição no Paraná, com um montante de R$ 81,3 milhões. Isso representa 7,0% do total de
prêmios pagos no mercado local de seguros agrícolas. Isolada, com uma margem de quase 10 p.p.
acima da segunda colocada, está a Brasilseg, captando 29% dos prêmios do mercado paranaense.
Cumpre destacar que a posição da Brasilseg no mercado de seguros agrícolas já foi objeto de
regulação por parte do Comitê Administrativo de Defesa Econômica, a autoridade máxima brasileira
em defesa da concorrência.
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
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Ocorre que a Brasilseg operou, no início da década passada, conjuntamente com a Mapfre, sendo
esta obrigada a vender parte de sua carteira de seguros rurais à concorrência em 2012. Percebe-se
que a atitude da autarquia não parece ter sido suficiente para reverter a posição de destaque no
mercado que ainda gozam ambas as companhias.
8 Da desconsideração da ZARC
A crescente judicialização dos contratos de seguro agrícola, particularmente, no Paraná, introduziu
desafios significativos para as seguradoras. Entre 2021 e 2022, decisões judiciais impuseram
indenizações além dos termos dos contratos de seguro, muitas vezes, ignorando diretrizes técnicas
como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).
Decisões judiciais que impõem indenizações fora dos termos contratuais não apenas aumentam os
custos para as seguradoras, mas também reduzem a concorrência e a acessibilidade no mercado,
ao afetar desproporcionalmente as seguradoras menores, que não têm escala para absorver custos
inesperados.
Para os agricultores, especialmente os pequenos produtores, isso se traduz em prêmios mais altos e
menos opções de seguro, amplificando ainda mais sua exposição aos riscos climáticos e financeiros.
Em análise dos processos nos quais a Newe foi demandada junto ao Tribunal de Justiça do Estado
do Paraná, é possível depreender que a maioria dos casos se refere ao plantio fora do período de
zoneamento e sobre a devida aplicação ou não do Código de Defesa do Consumidor. Não por outra
razão, a análise se centrará nesses casos.
Quando um agricultor decide plantar fora do período recomendado pelo ZARC, aumenta-se
consideravelmente o risco de ter sua produção prejudicada por condições climáticas adversas, como
estiagem ou excesso de chuvas.
Se o agricultor descumpre o ZARC, os dados coletados sobre a produção podem não refletir com
precisão o verdadeiro risco enfrentado pela lavoura,comprometendo o cálculo atuarial da
seguradora.
Tabela 1 – Demandas contra a Newe e decisões judiciais no TJPR, casos selecionados
Data decisão Processo Pontos importantes
30.12.2022 0003100-15.2022.8.16.0084 Atividades cooperativas não são
de natureza empresarial (Código
Civil, art. 982, parágrafo único)
10.08.2022 0001078-67.2019.8.16.0058 - Divergência acerca da redução
na produtividade e suas causas
- Seguro é fornecido no mercado
de consumo
12.04.2023 0002872-26.2019.8.16.0058 O fato de o bem segurado ser
utilizado para atividade produtiva
não comprova que o segurado
seja apenas parte da cadeia de
suprimentos
O prazo de zoneamento
invocado pelo segurado não
coincide com o prazo previsto no
contrato
20.07.2022 0013906-96.2020.8.16.0014 - Não cobertura de ervas
daninhas e outras pragas,
indenização
16.05.2023 0002884-23.2022.8.16.0159 As atividades das companhias de
seguro são classificadas como
“fornecedores” sob a lei do
consumidor. O segurado é o
consumidor e, neste caso, o
autor. Portanto, a lei de proteção
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 8
ao consumidor se aplica. O autor
está tecnicamente em
desvantagem. Não há evidência
de abuso ou falta de informação,
já que a exclusão da cobertura
estava prevista nas condições
gerais
10.05.2023 0000582-84.2022.8.16.0138 A perda de produtividade foi por
causa das condições climáticas
adversas Essas condições teriam
causado os mesmos resultados,
mesmo que o plantio tivesse sido
concluído até 31.03.2021, o final
do período Zarc
22.09.2022 1002749-43.2021.8.26.0452 O contrato de seguro neste caso
é um contrato de consumo e,
portanto, se enquadra no Código
de Defesa do Consumidor
12.12.2022 0001448-87.2019.8.27.2726 Chuvas severas e nematoides
causaram a falha da colheita. A
seguradora recusou a cobertura,
o que foi mantido como uma
ação legal
26.01.2023 0001285-98.2021.8.16.0154 O plantio foi realizado fora do
período de zoneamento; caso
tivesse sido plantado no
momento certo, o teor de
umidade teria sido muito menor.
Dado o serviço essencial que a
seguradora presta aos pequenos
agricultores, o autor é
economicamente vulnerável ao
réu. Sem prova de que o plantio
foi feito fora do período de
zoneamento e da causa do
prejuízo, a recusa de cobertura
pelo réu deve ser indeferida
11.03.2022 0013932-71.2019.8.16.0130 - Carência contratual
- Incidência do CDC
12.04.2023 0011504-75.2022.8.16.0045 - Plantio fora do período de
zoneamento
11.04.2023 0002785-53.2022.8.16.0159 - Aplicação do CDC
- Newe tinha indenizado apenas
parcialmente
12.05.2023 0006715-26.2022.8.16.0112 - Aplicação do CDC
- Newe tinha indenizado apenas
parcialmente
Fonte: Elaboração própria. Dados do TJPR.
Uma vez que os agricultores internalizem em seus processos produtivos a noção de que não cumprir
o ZARC não impede posterior indenização, mais agricultores se exporão a riscos desnecessários,
aumentando a chance de risco sistêmico, o que exigirá da seguradora a necessidade de incorrer em
maiores custos de resseguro ou outras medidas já mencionadas.
Esses custos, repassados aos segurados via prêmio, torna o mercado menos acessível a pequenos
produtores, além de selecionar adversamente os que são mais expostos a riscos.
9 Da aplicação da teoria finalista mitigada
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 9
Como explicam Gonçalves e Ribeiro, a aplicação do CDC (LGL\1990\40) a empresários acaba por
estimular o comportamento oportunista, onde uma das partes pode esconder a sua incompetência
atrás do véu consumerista para lesar a outra que atuou em boa-fé16.
O autor aponta que, quando um empresário firma um contrato, este não presume que em um
processo que dali decorra venham a ser aplicados os institutos do direito consumerista.
Várias são as diferenças que separam os contratos empresariais dos consumeristas nos processos,
tais como a não presunção de inversão do ônus da prova, a responsabilidade civil subjetiva, a
prescrição indenizatória decenal, a interpretação conforme a boa-fé (ao invés da mais favorável a
uma parte), entre outros.
Todas essas diferenças, se aliadas a critérios de reconhecimento de relação consumerista mal
demarcados por parte do Judiciário, “empurram” micro e pequenos empresários – já favorecidos por
vários dispositivos da nossa constituição econômica – em direção a comportamentos oportunistas.
A teoria finalista mitigada ganhou algum espaço nos últimos anos na jurisprudência brasileira como
uma permissão excepcional concedida pelo Judiciário para que pessoas jurídicas pudessem ser
inseridas no conceito de consumidoras. Ela costuma, quando aplicada no contexto do seguro
agrícola, ser fruto do reconhecimento do segurado de alguma vulnerabilidade técnica, jurídica ou
científica, fática ou econômica17.
A vulnerabilidade técnica é normalmente entendida como uma situação em que o agricultor tem
menos conhecimento ou compreensão sobre o produto ou serviço que está comprando em
comparação com o fornecedor.
No caso do seguro agrícola, é o agricultor, e não a seguradora, que tem um conhecimento mais
aprofundado da lavoura e dos riscos associados a ela. Ele sabe melhor das nuances do solo, do
microclima da região, das particularidades das culturas que planta, entre outros. Nessa relação, a
seguradora é usualmente tecnicamente mais vulnerável do que o agricultor, contrariando a noção
tradicional de vulnerabilidade técnica.
Em muitos casos, os clientes das seguradoras são cooperativas ou são cooperados – cuja apólice
tem a cooperativa como beneficiária. Isso é importante, pois as cooperativas possuem dados sobre a
produção agrícola de seus cooperados que lhes dão vantagem na negociação de seguros,
possuindo inclusive previsão legal para fornecerem os seus próprios seguros agrícolas18.
Particularmente no Sul do Brasil, as cooperativas são muito fortes.
Como comentou Pedro Loyola, ex-diretor do Departamento de Gestão de Riscos do Ministério da
Agricultura e Pecuária a um portal especializado, em 2022:
“As cooperativas são motores da contratação do seguro, tanto de produção quanto de crédito. Elas
conseguem organizar a demanda, negociando a melhor cobertura, com prêmio acessível, pois têm
preocupação de levar o melhor produto para seus associados, já que impacta inclusive nas suas
operações. As revendas de insumos também podem fazer esse grande trabalho.”19
No que diz respeito à vulnerabilidade econômica, ela é mais um reflexo da vulnerabilidade técnica.
No caso do seguro agrícola, a seguradora pode enfrentar maiores custos de transação por causa da
assimetria de informações e da complexidade do setor agrícola. Como tal, mais uma vez, não faz
sentido ver o agricultor como um agente economicamente vulnerável aqui.
Ainda que se reconhecesse no agricultor uma figura economicamente vulnerável, há que se lembrar
do mencionado adrede sobre o fato da NEWE não deter poder de mercado. Ao contrário, sua
participação faz presumir que ela muito mais se sujeita às condições do mercado impostas pelos
líderes de mercado, obrigando-se inclusive a oferecer condições mais vantajosas aos agricultores
para conseguir alguma participação no mercado.
Como se isso não bastasse, já escrevemos no passado sobre a inadequação de tentar fazer justiça
distributiva por intermédio do Poder Judiciário. Como defendido na ocasião, as razões principais para
se evitar reduzir uma “vulnerabilidade econômica” por meio do direito civil seriam a imprecisão do
objeto, as consequências não intencionais, os altos custos de transação e a distorção de incentivos.
Como explicam Cooter e Ulen:
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 10
“A maneira mais perdulária de redistribuir riqueza é os tribunais inclinarem os julgamentos a favor do
autor ou do réu, dependendo de quem é mais pobre. Se os tribunais favorecem a parte mais pobre
em disputas legais, cada pessoa prefere evitarinteragir com pessoas relativamente mais pobres
sempre que um processo pode surgir.”20
Embora o imposto de renda seja capaz de atingir diretamente a “hipersuficiência” econômica e
programas de distribuição de renda como o “bolsa-família”, a “hipossuficiência” econômica, o mesmo
não pode ser dito sobre decisões judiciais que se norteiam por categorias como “consumidores”
versus “empresas”. Consumidores podem ser relativamente mais ricos que fornecedores e, inclusive,
terem mais escolhas de mercado que eles. No caso dos seguros agrícolas no Brasil, esse parece ser
um caso.
Os tribunais podem não antever que a empresa irá repassar os custos adicionais com indenização
de volta a seus segurados mediante prêmios maiores. O resultado não intencional seria a
redistribuição dos custos de alguns segurados para todos os outros segurados.
Os maiores custos no setor, associados a decisões mais favoráveis aos segurados, acaba por
deslocar investimentos que poderiam ser realizados nessa área para alguma outra área da
economia, diminuindo a oferta de seguros agrícolas e tornando-os mais caros para os segurados que
conseguirem permanecer.
Quanto à vulnerabilidade jurídica, a suposição padrão é que o produtor está em uma posição
juridicamente menos favorável em relação ao seu fornecedor como se consumidor fosse. Ocorre que
o mercado é regulado e as apólices são avaliadas pelo regulador, a SUSEP, que tem maior expertise
que o Poder Judiciário e consegue avaliar as consequências de sua regulação (intervenção no
mercado). No entanto, em casos como esses (em que cooperativas possuem interesse direto na
causa), não há motivo a priori para supor que essas entidades – primeiras beneficiárias de ações
indenizatórias, posto que credoras do custeio – sejam juridicamente vulneráveis.
10 Conclusão
A análise do mercado de seguros agrícolas no Brasil, especialmente, no Estado do Paraná,
evidencia desafios significativos que combinam fatores climáticos, econômicos e jurídicos. A
judicialização excessiva de contratos, muitas vezes, desconectada das diretrizes técnicas e
econômicas que regulam o setor, gera um impacto negativo sobre a competitividade e a
sustentabilidade das seguradoras, sobretudo para as de menor porte. Decisões judiciais que ignoram
elementos como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e os limites contratuais criam
externalidades prejudiciais ao setor, elevando custos de transação e concentrando o mercado, o que,
por sua vez, reduz a acessibilidade a seguros para pequenos produtores.
Para que o mercado de seguros agrícolas desempenhe seu papel de mitigador de riscos climáticos e
econômicos de maneira eficiente, é essencial que decisões judiciais considerem as consequências
práticas de suas imposições. Isso inclui observar rigorosamente os limites contratuais e as condições
técnicas estabelecidas, bem como compreender o impacto de tais decisões sobre os custos do setor
e a alocação de recursos. O alinhamento entre as normas jurídicas e as dinâmicas econômicas do
mercado é crucial para evitar distorções que enfraqueçam a competitividade e a confiança no
sistema securitário. Portanto, a sustentabilidade do mercado de seguros agrícolas depende de uma
abordagem integrada que envolva não apenas o aperfeiçoamento técnico e regulatório, mas também
maior conscientização por parte do Poder Judiciário sobre os incentivos e os riscos econômicos
decorrentes de suas decisões. Essa integração permitirá a construção de um ambiente de segurança
jurídica e econômica que favoreça tanto os agricultores quanto a estabilidade do mercado de
seguros, garantindo o equilíbrio necessário para o desenvolvimento do setor agrícola brasileiro.
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12 Jurisprudência
BRASIL. STJ, REsp 1.730.849/SP (2018/0052972-4), rel. Min. Herman Benjamin, 2ª T., j.
07.08.2018, DJe 07.02.2019.
1 O presente artigo é uma adaptação de um parecer técnico contratado à AED Consulting pela
Newe.
2 “A implementação do rodízio e o alerta para uso racional da água foram adotados pela Sanepar
para mitigar os efeitos da crise hídrica que atinge o Paraná há mais de um ano, uma estiagem sem
precedentes pelo menos nos últimos 50 anos.” Ver AEN-PR. Impacto da seca vai além da falta de
água: prejudica agricultura, saúde e agrava riscos de incêndios, Agência Estadual de Notícias.
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 12
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3 NEWE SEGUROS S.A. Nota dirigida aos meios de comunicação do Sistema FAEP/SENAR-PR,
Sistema FAEP/SENAR-PR. Disponível em:
[https://sistemafaep.org.br/wp-content/uploads/2023/02/NOTA-NEWE-SEGUROS.pdf]. Acesso em:
01.07.2023.
4 Tradução nossa de NORTH, Douglass C. Institutional change and economic growth. The Journal of
Economic History, v. 31, n. 1, p. 118-125, 1971.5 SZTAJN, Rachel; ZYLBERSZTAJN, Decio. Direito e economia: análise econômica do direito e das
organizações. Rio de Janeiro: Elsevier , 2005. p. 3.
6 PINHEIRO, Armando Castelar; SADDI, Jairo. Direito, economia e mercados. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2005. p. 61.
7 PINHEIRO, Armando Castelar; SADDI, Jairo. Direito, economia e mercados. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2006.
8 DRUCK, Tatiana Oliveira. O Contrato de Seguro e a Fraude do Segurado. 2003. Dissertação
(Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre, 2003.
9 FORNAZIER, Armando; SOUZA, Paulo Marcelo de; PONCIANO, Niraldo José, A importância do
seguro rural na redução de riscos da agropecuária. Revista de Estudos Sociais, v. 14, n. 28, p.
39-52, 2012.
10 HE, Juan et al. Moral hazard and adverse selection effects of cost-of-production crop insurance:
evidence from the Philippines. Australian Journal of Agricultural and Resource Economics, v. 63, n. 1,
2019.
11 GUNNSTEINSSON, Snaebjorn. Experimental identification of asymmetric information: Evidence
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Indonesia. IOP Conference Series: Earth and Environmental Science, v. 1180, n. 1, p. 012035, 2023.
13 WU, Shenan; GOODWIN, Barry K.; COBLE, Keith, Moral hazard and subsidized crop insurance.
Agricultural Economics, v. 51, n. 1, p. 131-142, 2020.
14 FORNAZIER; SOUZA; PONCIANO. A importância do seguro rural na redução de riscos da
agropecuária.Revista de Estudos Sociais, v. 14, n. 28, p. 39-52, 2012.
15 SISSER. PSR – Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Dashboard – MASHUP.
Disponível em:
[https://mapa-indicadores.agricultura.gov.br/publico/extensions/SISSER/SISSER.html]. Acesso em:
10.07.2003.
16 MOURA GONCALVES, Vitor Gabriel de; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira. Análise econômica da
aplicação do finalismo mitigado para aferição do conceito de empresário. Revista de Direito,
Globalização e Responsabilidade nas Relações de Consumo, v. 5, n. 1, p. 43-60, 2019.
17 “O STJ entende que se aplica a teoria finalista de forma mitigada, permitindo-se a incidência do
CDC nos casos em que a parte, embora não seja destinatária final do produto ou serviço, esteja em
situação de vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica em relação ao fornecedor, conforme
entendeu a Corte de origem, no caso dos autos.” (BRASIL. STJ, REsp 1.730.849/SP
(2018/0052972-4), rel. Min. Herman Benjamin, 2ª T., j. 07.08.2018, DJe 07.02.2019.)
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
Página 13
18 BRASIL. Decreto-Lei 2.063/1940. Regulamenta sob novos moldes as operações de seguros
privados e sua fiscalização – “Art. 1º A exploração das operações de seguros privados será exercida
no território nacional, por sociedades anônimas, mútuas e cooperativas, mediante prévia autorização
do Governo Federal. Parágrafo único. As sociedades cooperativas terão por objeto somente os
seguros agrícolas, cujas operações serão reguladas por legislação especial”.
19 CHIQUETTI, Nara. Seguro Rural: investimento necessário à saúde do agro – Portal do
Cooperativismo Financeiro. Portal do Cooperativismo Financeiro. Disponível em:
[https://cooperativismodecredito.coop.br/2022/03/seguro-rural-investimento-necessario-a-saude-do-agro/].
Acesso em: 10.07.2023.
20 COOTER, Robert D.; ULEN, Thomas. Law and economics. 6. ed. [s.l.]: Pearson, 2011.
Judicialização e seus impactos na gestão de riscos
agrícolas no Paraná: um estudo sobre a seguradora Newe
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