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O “MONSTRO” EM ITAÚNA (P2)
 MAIO 16, 2026
 
ITAÚNA
 POLÍTICA
Doutor Simonini nos
arquivos do DOPS
(Parte 2)
A presença do Dr.
Simonini nos informes,
contudo, não se restringe à
esfera discursiva. Em
diferentes registros, sua
atuação é captada a partir
de sua circulação em
espaços considerados
politicamente sensíveis.
Em 1984, ele é listado
entre os participantes de
eventos que reuniam
representantes do PMDB,
do PT e do PDT, além de
setores do movimento
estudantil, em contextos
marcados por críticas ao
regime e pela defesa de
reformas políticas.
No mesmo ano, sua
presença é novamente
registrada durante a IV
Semana de Estudos
Jurídicos em Itaúna (MG),
encontro que reuniu
autoridades locais,
acadêmicos e
representantes de
diferentes correntes
políticas em torno de debates marcados pela crítica institucional e pela defesa da reorganização
democrática.
Organizada pela Diretoria Acadêmica da Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna, em
parceria com a Prefeitura Municipal e a União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais
(UEE/MG), a iniciativa configurou-se como espaço de convergência entre poder público, meio
universitário e movimentos estudantis, evidenciando a intensidade das articulações políticas e
intelectuais que marcavam o contexto da abertura democrática.
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À luz desse cenário, a presença do Dr. Simonini, já identificado pelos órgãos de informação,
não apenas reafirma sua inserção em circuitos de debate estratégico, mas também evidencia a
atenção dispensada pelos aparelhos de vigilância a ambientes de circulação de discursos críticos
e articulações políticas.
A atuação do Dr. José Simonini Filho nesse encontro acadêmico, realizado em 1984, deve ser
compreendida à luz de sua posição institucional naquele momento, quando exercia a presidência
da Câmara Municipal de Itaúna (1983–1984).
Longe de representar uma presença meramente protocolar, sua participação revela a
articulação entre o poder legislativo local e os espaços universitários de debate político em um
contexto de transição democrática.
Ao integrar um fórum que reunia juristas, lideranças estudantis e agentes políticos envolvidos
nos debates sobre a Constituinte, reformas institucionais e críticas à ideologia de segurança
nacional, Dr. Simonini atuava simultaneamente como representante institucional e participante de
redes de circulação política.
Em um cenário marcado pela vigilância dos órgãos de informação, sua presença, enquanto
presidente do Legislativo municipal, ampliava o significado político da iniciativa, indicando não
apenas engajamento individual, mas também a permeabilidade das instituições locais às pautas
de redemocratização. 
Assim, sua atuação na Semana Jurídica pode ser interpretada como expressão da
convergência entre poder institucional, debate público e monitoramento estatal, reforçando seu
papel nos circuitos políticos observados pelo regime.
A relevância desse episódio torna-se particularmente evidente na documentação produzida
pelos órgãos de informação acerca do evento, cujos registros revelam um nível minucioso de
acompanhamento, contemplando falas, participantes, articulações políticas e diferentes momentos
do encontro com riqueza de detalhes. 
O nível de detalhamento desses informes sugere a hipótese de acompanhamento direto do
evento, possivelmente por agentes ou colaboradores vinculados aos órgãos de informação,
interpretação reforçada pela precisão das descrições presentes nos relatórios produzidos pelo
SNI.
Para além do acompanhamento de figuras específicas, os órgãos de vigilância buscavam
compreender dinâmicas de circulação política, redes de sociabilidade e espaços de formação de
discurso crítico no contexto da abertura democrática.
Diante da densidade desse conjunto documental, a IV Semana de Estudos Jurídicos da
Universidade de Itaúna emerge como um importante espaço de observação das relações entre
circulação política, debate acadêmico e vigilância estatal nos anos finais do regime militar,
constituindo objeto que demandará análise específica em estudo posterior.
A atuação do Dr. Simonini no contexto da campanha pelas “Diretas Já” permite observar, com
especial nitidez, a articulação entre vigilância, circulação política e controle estatal. Sob essa
perspectiva, destaca-se sua participação na organização de uma caravana de lideranças políticas
de Itaúna com destino a Brasília, com o objetivo de acompanhar a votação da “Emenda Dante de
Oliveira”.
Entre os participantes de Itaúna/MG, segundo registros do Serviço Nacional de Informações
(SNI), destacavam-se o vereador José Simonini Filho, associado ao “PMDB/MG” e identificado
pelo código “B1492809”, bem como o prefeito Francisco Ramalho da Silva Filho, também
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vinculado ao “PMDB/MG” e mencionado em outro documento sob o código “B1493565”. Também
apareciam nos informes os vereadores Walter Marques da Silva e João José Joaquim de Oliveira,
igualmente relacionados ao “PMDB/MG”.
Os registros dos órgãos de informação mencionavam ainda o jornalista Célio Silva, do Jornal
Brexó, associado ao “PT/MG”. Em outros documentos relativos à imprensa itaunense já
analisados, Célio aparecia identificado pelo código “B0783936”. Os informes consultados
mencionavam também o Dr. Peri Tupinambás, igualmente vinculado ao “PT/MG”.
A relevância desse episódio reside não apenas no fato em si, mas na possibilidade de sua
apreensão a partir de diferentes registros documentais. Informes produzidos pelo Serviço Nacional
de Informações (SNI) já indicavam previamente a participação do Dr. Simonini e de outras
lideranças locais nessa mobilização, evidenciando que o deslocamento e a articulação política
desses sujeitos eram objeto de acompanhamento por parte dos órgãos de informação.
Essa mesma mobilização é posteriormente registrada pelo Jornal Brexó, em edição de 28 de
abril de 1984, que relata a tentativa de deslocamento da caravana e sua interrupção por forças de
segurança ao longo do trajeto.
A matéria descreve a presença de militares e policiais armados, a instalação de barreiras nas
estradas e a impossibilidade de prosseguimento da viagem, corroborando, em chave narrativa e
pública, um evento que já havia sido objeto de registro pelos órgãos estatais (SNI).
A dimensão concreta desse bloqueio é evidenciada de forma particularmente expressiva no
relato publicado pelo periódico, que descreve o episódio nos seguintes termos:
“Essas chapas cheias de pregos pontiagudos iam-se afunilando fazendo os motoristas
entrar num corredor e a cada metro, soldados do exército, policiais de Goiás e Federal,
todos armados de metralhadora e fuzil e outros aparatos militar. [...] De posse dos nossos
documentos, folheavam enorme lista à procura de nossos nomes. Não encontrando-os na
relação (lista de criminosos? subversivos?) anotaram nossos nomes noutra folha especial
com todos dados possíveis. Enquanto isso um militar do exército chama Ramalho: Sinto
muito, mas solicitamos que todos retornem, não podem passar [...] éramos impedidos de ir
à Brasília [...] e tivemos que voltar.”
O relato explicita, em linguagem direta, os mecanismos de controle empregados no bloqueio
da caravana, revelando não apenas a presença ostensiva de forças de segurança, mas também
práticas de identificação e registro dos indivíduos presentes.
A menção àslistas de nomes e à classificação implícita dos participantes como potenciais
“subversivos” reforça a interpretação de que tais mobilizações eram previamente monitoradas,
articulando vigilância informacional e contenção prática da ação política.
A articulação entre essas duas fontes indica não apenas a ocorrência do episódio, mas o
modo como ele foi simultaneamente vivido, observado e registrado. De um lado, a vigilância
estatal, que antecede e acompanha a ação política; de outro, a imprensa local, que transforma o
acontecimento em narrativa pública. Tal sobreposição demonstra que a vigilância não operava de
forma posterior, mas integrada ao próprio desenrolar dos eventos.
Desse modo, o episódio da caravana evidencia que o aparato de vigilância não se limitava à
produção de informações, mas se articulava a práticas concretas de contenção da ação política.
Ao impedir o deslocamento de lideranças locais até Brasília, o Estado não apenas monitorava,
mas atuava diretamente na limitação da participação política, demonstrando a continuidade de
mecanismos de controle mesmo no contexto de abertura.
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Ao mesmo tempo, a cobertura jornalística revela os efeitos concretos desse monitoramento,
tornando visíveis práticas de contenção que não aparecem de forma explícita nos documentos de
informação. O bloqueio da caravana, ao ser narrado pela imprensa, torna visível a dimensão
prática do controle estatal.
A participação do Dr. Simonini nesse episódio reforça sua inserção em articulações que
extrapolavam o âmbito municipal, ao mesmo tempo em que indica o acompanhamento dessas
mobilizações pelos órgãos de informação. 
A partir da análise conjunta dessa documentação, torna-se possível compreendê-lo não como
um ator local isolado, mas como um agente inserido em múltiplas dimensões da vida política
durante a abertura democrática, incluindo aspectos discursivos, institucionais, partidários e
relacionais.
A dimensão partidária de sua atuação torna-se evidente em documentação de 1986, relativa à
impugnação da chamada “Chapa Alternativa” do PMDB mineiro. Nesse informe, Dr. Simonini figura
entre os candidatos vinculados ao grupo cuja candidatura foi contestada no âmbito do Tribunal
Regional Eleitoral de Minas Gerais.
Ainda que o documento não atribua qualificações ideológicas diretas aos envolvidos, sua
inclusão nesse conjunto revela sua inserção em disputas internas do partido, indicando que sua
trajetória também se desenvolvia no interior das dinâmicas de reorganização política que
marcaram o período de transição.
A análise conjunta dessa documentação permite ultrapassar a identificação de ocorrências
pontuais e indica a existência de um sistema estruturado de produção, circulação e interpretação
de informações que operava de forma contínua ao longo do regime.
Mais do que registrar fatos, os órgãos de informação construíam narrativas, classificavam
indivíduos e estabeleciam conexões que, muitas vezes, antecediam a própria comprovação
empírica das suspeitas levantadas, como evidenciado na produção de registros que
sistematizavam informações biográficas, institucionais e discursivas na forma de perfis políticos
organizados.
Nesse contexto, a recorrente presença do Dr. José Simonini Filho nos registros do DOPS e do
SNI não deve ser interpretada como evidência de atuação clandestina ou de centralidade
“subversiva”, mas como indicativo de sua inserção em espaços considerados politicamente
relevantes pelos órgãos de informação.
Sua trajetória evidencia a ampliação do monitoramento sobre sujeitos atuantes em instituições
públicas, universidades, imprensa local e circuitos legítimos de participação política, revelando as
ambiguidades da própria abertura democrática brasileira, marcada pela coexistência entre
ampliação do debate público e permanência de mecanismos ativos de vigilância e controle.
Ao longo do período analisado, observa-se que a vigilância não desaparece com a abertura
política, mas se reconfigura, adaptando suas formas de registro e acompanhamento às novas
condições do regime. A passagem de uma linguagem explicitamente acusatória para descrições
mais relacionais não implica a redução do controle, mas sua reorganização em bases mais difusas
e sistemáticas.
Nesse contexto, os documentos analisados não revelam apenas os indivíduos vigiados, mas
também o próprio funcionamento do aparato estatal durante a abertura política. Ao produzir
registros, estabelecer conexões e acompanhar práticas sociais e políticas, os órgãos de
informação construíam formas específicas de leitura da realidade, evidenciando mecanismos de
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intervenção e controle que continuaram operando mesmo em meio ao processo de
redemocratização.
Nesse sentido, os documentos produzidos pelo DOPS, pelo SNI e por outros órgãos de
informação não revelam apenas a trajetória do Dr. José Simonini Filho, mas também as formas
pelas quais o aparato estatal acompanhava a vida política em cidades do interior durante os anos
finais da ditadura.
Em Itaúna, tal como em diversas cidades brasileiras, a vigilância não incidia apenas sobre
práticas clandestinas, mas alcançava espaços institucionais, universidades, jornais, movimentos
estudantis, discursos públicos e redes locais de sociabilidade.
Décadas depois, esses arquivos permanecem não apenas como vestígios da vigilância
estatal, mas como testemunhos das formas pelas quais o regime buscou interpretar, acompanhar
e administrar a vida política brasileira mesmo durante o processo de abertura democrática.
 
Nota Documental:
Esta reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao acervo do
Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI)
consultados por meio do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além de outras
fontes documentais relacionadas ao período da ditadura militar brasileira.
Os termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos produzidos
pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em perspectiva histórica e
documental.
A pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto ao Dr. José
Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada e a realização de questionário
complementar sobre os episódios abordados.
Charles Galvão de Aquino — Historiador. Registro nº 343/MG.
 
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