Prévia do material em texto
APG 21 – SOI V 1- REVISAR A MORFOFISIOLOGIA DOS OLHOS Aaa 2- COMPREENDER AS MC, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DOS PRINCIPAIS DISTURBIOS OCULARES GLAUCOMA O glaucoma é uma doença caracterizada por dano progressivo ao nervo óptico, geralmente associado ao aumento da pressão intraocular (PIO). Para entender seu funcionamento, é importante lembrar que o olho produz continuamente um líquido chamado humor aquoso, que é drenado principalmente pela malha trabecular, localizada no ângulo entre a córnea e a íris. Quando há desequilíbrio entre a produção e a drenagem desse líquido, ocorre aumento da PIO. Esse aumento comprime estruturas intraoculares, especialmente as fibras do nervo óptico, levando à sua degeneração. No glaucoma de ângulo aberto, o mais comum, a drenagem está parcialmente comprometida, mas o ângulo permanece anatomicamente aberto, o que faz com que o aumento da pressão seja lento e progressivo. Já no glaucoma de ângulo fechado, há bloqueio súbito da drenagem, levando a aumento abrupto da PIO. A lesão do nervo óptico ocorre por compressão mecânica e também por redução do fluxo sanguíneo local, causando morte das células ganglionares da retina. Esse processo resulta inicialmente em perda do campo visual periférico, pois essas fibras são mais sensíveis à pressão. Com o tempo, o dano progride para a região central, podendo causar cegueira irreversível. O caráter silencioso da doença na maioria dos casos faz com que muitos pacientes só percebam sintomas em fases avançadas. RETINOBLASTOMA O retinoblastoma é um tumor maligno que se origina das células da retina, geralmente causado por mutações no gene supressor tumoral RB1. Esse gene tem a função de controlar o ciclo celular, impedindo a proliferação descontrolada. Quando ocorre sua inativação, as células da retina passam a se dividir de forma desordenada, formando o tumor. A doença pode ocorrer de forma hereditária (com mutação germinativa) ou esporádica. No tipo hereditário, geralmente é bilateral e multifocal; no esporádico, costuma ser unilateral. O crescimento tumoral dentro do olho interfere diretamente na função da retina, prejudicando a captação de luz e a formação da imagem. À medida que o tumor cresce, ele pode ocupar grande parte do espaço intraocular, causando descolamento de retina, hemorragias e aumento da pressão intraocular. Isso explica manifestações como leucocoria, estrabismo e perda visual. Em fases avançadas, o tumor pode invadir o nervo óptico e se disseminar para o sistema nervoso central e corrente sanguínea, tornando-se potencialmente fatal. CERATOCONE O ceratocone é uma doença caracterizada pela alteração estrutural da córnea, que perde sua forma esférica normal e assume um formato cônico devido ao afinamento progressivo do tecido. Essa alteração ocorre por desorganização das fibras de colágeno da córnea e enfraquecimento de sua estrutura, muitas vezes associado a fatores genéticos, mecânicos (como coçar os olhos) e bioquímicos. A córnea é responsável por grande parte do poder de refração do olho. Quando sua curvatura se torna irregular, a luz não é focalizada corretamente na retina, gerando imagens distorcidas. Diferente dos erros refrativos comuns, o astigmatismo gerado pelo ceratocone é irregular, o que dificulta a correção com lentes convencionais. Com a progressão da doença, a deformação aumenta, levando a piora contínua da qualidade visual. Em casos mais avançados, pode ocorrer ruptura de estruturas internas da córnea, permitindo a entrada de líquido (humor aquoso), causando edema súbito fenômeno chamado hidropsia corneana. Esse processo pode levar a cicatrizes permanentes e perda visual significativa. CONJUNTIVITE A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, geralmente causada por infecções virais, bacterianas ou reações alérgicas. A conjuntiva tem função de proteção e lubrificação da superfície ocular, sendo rica em vasos sanguíneos e células do sistema imunológico. Na conjuntivite infecciosa, agentes patogênicos invadem a conjuntiva, desencadeando resposta inflamatória local. Isso leva à dilatação dos vasos (hiperemia), aumento da permeabilidade vascular (edema) e produção de secreção. No caso viral, a resposta é predominantemente inflamatória, com secreção aquosa; na bacteriana, há maior produção de exsudato purulento devido à presença de neutrófilos. Na conjuntivite alérgica, o mecanismo envolve hipersensibilidade mediada por IgE. A exposição a alérgenos leva à liberação de histamina pelos mastócitos, causando prurido intenso, vasodilatação e lacrimejamento. Em todos os casos, a inflamação pode gerar desconforto significativo, mas geralmente não compromete estruturas mais profundas do olho. CATARATA A catarata ocorre quando o cristalino perde sua transparência, comprometendo a passagem da luz até a retina. O cristalino é uma estrutura composta por proteínas organizadas de forma altamente regular. Com o envelhecimento ou outros fatores (como diabetes, radiação UV ou uso de corticosteroides), ocorre desnaturação e agregação dessas proteínas, levando à formação de áreas opacas. Essa opacificação faz com que a luz seja dispersa ao invés de focalizada corretamente, resultando em imagens borradas. Além disso, a redução da transparência diminui a quantidade de luz que atinge a retina, prejudicando especialmente a visão em ambientes com pouca iluminação. Com a progressão, o cristalino pode sofrer alterações no índice de refração, causando mudanças no grau do paciente. A evolução é geralmente lenta, mas contínua. Em estágios avançados, a opacificação pode ser total, impedindo a formação de imagens e levando à cegueira funcional — embora reversível com cirurgia. DISTÚRBIOS DE REFRAÇÃO Os distúrbios de refração ocorrem quando há falha no sistema óptico do olho em focalizar a luz exatamente sobre a retina. Esse sistema depende da interação entre córnea, cristalino e comprimento axial do globo ocular. Na miopia, o olho é mais alongado ou tem maior poder refrativo, fazendo com que a luz seja focalizada antes da retina. Na hipermetropia, o olho é mais curto ou tem menor poder de convergência, levando a focalização atrás da retina. Já no astigmatismo, a curvatura da córnea é irregular, fazendo com que diferentes meridianos focalizem a luz em pontos distintos. Essas alterações fazem com que a imagem formada seja borrada ou distorcida. Para compensar, o sistema visual tenta ajustar o foco através da acomodação (principalmente na hipermetropia), o que pode gerar fadiga ocular e cefaleia. Em crianças, o esforço constante pode levar a dificuldades de aprendizado e desenvolvimento visual inadequado. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS GLAUCOMA O glaucoma é uma neuropatia óptica crônica caracterizada pela degeneração progressiva das fibras do nervo óptico, geralmente associada ao aumento da pressão intraocular (PIO). No entanto, é importante destacar que o dano pode ocorrer mesmo com níveis normais de pressão (glaucoma de pressão normal), o que mostra que a fisiopatologia envolve também fatores vasculares e susceptibilidade individual do nervo óptico. Nas fases iniciais, o glaucoma principalmente o de ângulo aberto é assintomático, o que o torna particularmente perigoso. O paciente não percebe alterações visuais porque a perda começa na periferia do campo visual e progride lentamente. À medida que a doença evolui, ocorre constrição progressiva do campo visual, levando à chamada visão tubular. Em estágios avançados, há comprometimento da visão central, podendo culminar em cegueira irreversível. Já o glaucoma de ângulo fechado agudo apresenta quadro abrupto e intenso. O aumento súbito da PIO leva a dor ocular severa, cefaleia, náuseas, vômitos, visão borrada e percepção de halos coloridos ao redor das luzes. O olho pode apresentar-se hiperemiado, com córnea edemaciada e pupila midriática pouco reativa. Esse quadro é uma emergência, pois pode causar perda visual rápida se não tratado imediatamente. Além das manifestações visuais, o glaucoma pode impactar significativamente a qualidade de vida, especialmente em fases avançadas, devidoà limitação da mobilidade e risco aumentado de quedas. RETINOBLASTOMA O retinoblastoma é um tumor maligno originado das células da retina, sendo o câncer intraocular mais comum na infância. Está frequentemente associado a mutações no gene RB1, podendo ocorrer de forma hereditária ou esporádica. A manifestação clínica mais típica é a leucocoria (reflexo pupilar branco), frequentemente percebida em fotos com flash. Esse sinal ocorre porque o tumor reflete a luz em vez de permitir a visualização do reflexo vermelho normal da retina. Outro achado comum é o estrabismo, causado pela perda da fixação visual do olho acometido. Com a progressão da doença, podem surgir sinais inflamatórios como hiperemia ocular, dor, fotofobia e diminuição da acuidade visual. Em estágios mais avançados, o tumor pode levar ao aumento do volume do globo ocular, glaucoma secundário e até perfuração ocular. Há também risco de invasão do nervo óptico e disseminação para o sistema nervoso central e outros órgãos. O diagnóstico precoce é crucial não apenas para preservar a visão, mas principalmente para garantir a sobrevida da criança. Por isso, a identificação de sinais como leucocoria deve sempre ser investigada com urgência. CERATOCONE O ceratocone é uma doença degenerativa não inflamatória da córnea, caracterizada por afinamento progressivo e protrusão em formato de cone. Isso altera significativamente a curvatura corneana e compromete a refração da luz. A doença geralmente se inicia na adolescência ou início da vida adulta e progride ao longo dos anos. O principal sintoma é a piora progressiva da qualidade visual, com visão borrada e distorcida. Diferente dos erros refrativos comuns, o astigmatismo no ceratocone é irregular, o que dificulta a correção com óculos convencionais. Os pacientes frequentemente relatam aumento da sensibilidade à luz (fotofobia), visão dupla monocular, halos ao redor das luzes e necessidade frequente de troca do grau dos óculos. A coceira ocular crônica, muitas vezes associada a alergias, pode agravar o quadro devido ao trauma mecânico repetitivo. Em estágios avançados, pode ocorrer formação de cicatrizes na córnea e episódios de hidropsia corneana, que consistem na entrada súbita de líquido na córnea, levando a edema, dor intensa e queda abrupta da visão. Nessas fases, pode ser necessário transplante de córnea. CONJUNTIVITE A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, uma membrana fina que recobre a parte branca do olho e a face interna das pálpebras. Pode ser causada por agentes infecciosos (vírus e bactérias) ou por mecanismos alérgicos. Na conjuntivite viral, geralmente associada a infecções respiratórias, os sintomas incluem olho vermelho difuso, lacrimejamento, secreção aquosa, sensação de areia nos olhos e, frequentemente, acometimento bilateral. Pode haver linfonodos aumentados próximos à orelha (linfadenopatia pré-auricular). Na conjuntivite bacteriana, a secreção é mais espessa e purulenta, podendo causar dificuldade para abrir os olhos ao acordar. Já na conjuntivite alérgica, o sintoma predominante é o prurido intenso, acompanhado de lacrimejamento, edema palpebral e histórico de alergias. Embora geralmente benigna, a conjuntivite pode causar grande desconforto e impacto nas atividades diárias. Em alguns casos, pode haver fotofobia e leve redução da visão, especialmente se houver comprometimento da córnea. CATARATA A catarata é uma condição caracterizada pela perda da transparência do cristalino, levando à dispersão da luz e prejuízo da formação da imagem na retina. É mais comum em idosos, mas também pode ocorrer por fatores congênitos, traumáticos, metabólicos ou relacionados ao uso de medicamentos (como corticosteroides). A evolução é geralmente lenta e progressiva. O paciente costuma relatar visão embaçada, como se estivesse olhando através de um vidro fosco. Há dificuldade crescente para realizar atividades como leitura e direção, especialmente à noite. A fotofobia é comum, assim como a percepção de halos ao redor das luzes. Outro sintoma característico é a alteração na percepção das cores, que se tornam mais opacas ou amareladas. Alguns pacientes apresentam melhora temporária da visão para perto (fenômeno chamado “segunda visão”), devido à alteração do índice refrativo do cristalino. Sem tratamento, a catarata pode evoluir para perda visual significativa ou cegueira. No entanto, trata-se de uma das principais causas de cegueira reversível, sendo a cirurgia altamente eficaz. DISTÚRBIOS DE REFRAÇÃO Os distúrbios de refração são alterações na forma como a luz é focalizada na retina, decorrentes de mudanças no comprimento do globo ocular ou na curvatura da córnea e do cristalino. Na miopia, o globo ocular é geralmente mais alongado, fazendo com que a imagem se forme antes da retina. Isso resulta em dificuldade para enxergar de longe, enquanto a visão de perto é preservada. Já na hipermetropia, o olho é mais curto ou tem menor poder refrativo, fazendo com que a imagem se forme depois da retina, dificultando a visão de perto. O astigmatismo ocorre devido à curvatura irregular da córnea, fazendo com que a luz seja focalizada em múltiplos pontos, resultando em visão distorcida em qualquer distância. As manifestações incluem visão borrada, cefaleia, fadiga ocular (especialmente após leitura ou uso prolongado de telas), ardência e dificuldade de concentração. Em crianças, esses distúrbios podem levar a atraso no aprendizado e ambliopia (olho preguiçoso), se não corrigidos precocemente. De modo geral, esses problemas são facilmente corrigidos com óculos, lentes de contato ou cirurgia refrativa, sendo fundamental o diagnóstico precoce para evitar complicações. DIAGNÓSTICO GLAUCOMA O diagnóstico do glaucoma é multifatorial e não depende apenas da medida da pressão intraocular (PIO), embora essa seja uma etapa fundamental. Ele se baseia na correlação entre alterações estruturais do nervo óptico e alterações funcionais do campo visual. Inicialmente, realiza-se a tonometria, que mede a PIO. Valores elevados aumentam a suspeita, mas é importante destacar que existem casos de glaucoma com pressão normal, o que exige investigação mais ampla. A avaliação do nervo óptico é essencial e pode ser feita por fundoscopia, onde se observa a escavação do disco óptico (aumento da relação escavação/disco), afinamento do anel neural e assimetria entre os olhos. Para uma análise mais detalhada, utiliza-se a tomografia de coerência óptica (OCT), que permite quantificar a espessura da camada de fibras nervosas da retina, detectando perda precoce antes mesmo de alterações clínicas evidentes. Outro exame fundamental é a campimetria computadorizada, que avalia o campo visual do paciente. No glaucoma, observa-se perda progressiva do campo visual periférico, com padrões característicos, como escotomas arqueados e degrau nasal. A gonioscopia também é realizada para avaliar o ângulo da câmara anterior, permitindo diferenciar entre glaucoma de ângulo aberto e fechado. O diagnóstico é, portanto, uma integração de dados: pressão intraocular, estrutura do nervo óptico e função visual. O acompanhamento seriado é fundamental, pois o glaucoma é uma doença progressiva e muitas vezes silenciosa. RETINOBLASTOMA O diagnóstico do retinoblastoma é principalmente clínico e deve ser feito com urgência, dada a gravidade da doença. A suspeita geralmente surge a partir de sinais como leucocoria ou estrabismo. A confirmação diagnóstica é realizada por exame oftalmológico detalhado sob dilatação pupilar, frequentemente com o paciente sob anestesia em crianças pequenas. Durante a fundoscopia, observa-se uma massa esbranquiçada intraocular, frequentemente associada a calcificações, descolamento de retina ou hemorragias. Exames de imagem são fundamentais para complementar o diagnóstico. A ultrassonografia ocular pode evidenciar massa intraocular com áreas calcificadas, característica importante do retinoblastoma. A tomografia computadorizada (TC) também pode detectar calcificações, mas seu uso é limitado devido à exposição à radiação, especialmenteem crianças. A ressonância magnética (RM) é preferida para avaliar extensão do tumor, principalmente invasão do nervo óptico e estruturas intracranianas. Além disso, é importante realizar avaliação genética para mutações no gene RB1, especialmente em casos bilaterais ou com histórico familiar. O diagnóstico diferencial inclui outras causas de leucocoria, como catarata congênita e doença de Coats, o que reforça a necessidade de avaliação especializada. CERATOCONE O diagnóstico do ceratocone baseia-se na identificação de alterações na forma e espessura da córnea. Clinicamente, deve-se suspeitar em pacientes jovens com piora progressiva da visão e aumento frequente do grau, especialmente de astigmatismo irregular. O exame inicial inclui a refração, que frequentemente mostra astigmatismo irregular de difícil correção. Na biomicroscopia (exame com lâmpada de fenda), podem ser observados sinais característicos em fases mais avançadas, como afinamento corneano, estrias de Vogt (linhas finas na córnea) e anel de Fleischer (depósito de ferro na base do cone). O exame mais importante para diagnóstico precoce é a topografia corneana, que mapeia a curvatura da córnea e identifica áreas de encurvamento anormal. Mais avançadamente, a tomografia corneana (como Pentacam) permite análise tridimensional da córnea, incluindo espessura (paquimetria) e elevação anterior e posterior, sendo essencial para detectar casos iniciais. O diagnóstico é fundamentalmente baseado na combinação de achados clínicos e exames de imagem, sendo importante também monitorar a progressão ao longo do tempo para definição de conduta. CONJUNTIVITE O diagnóstico da conjuntivite é predominantemente clínico, baseado na história e no exame físico ocular. A diferenciação entre os tipos (viral, bacteriana ou alérgica) é feita a partir das características dos sintomas e sinais. Na anamnese, investigam-se início dos sintomas, presença de secreção, prurido, contato com pessoas infectadas e histórico de alergias. No exame físico, observa-se hiperemia conjuntival, tipo de secreção (aquosa, mucosa ou purulenta), presença de edema e acometimento uni ou bilateral. A presença de linfadenopatia pré-auricular sugere etiologia viral, enquanto secreção purulenta abundante indica provável causa bacteriana. O prurido intenso é típico da conjuntivite alérgica. Exames complementares raramente são necessários, mas podem ser realizados em casos atípicos, graves ou refratários ao tratamento, incluindo cultura de secreção ocular ou testes alérgicos. O diagnóstico diferencial inclui ceratite, uveíte e glaucoma agudo, especialmente quando há dor intensa ou redução significativa da visão. CATARATA O diagnóstico da catarata é feito por meio da avaliação clínica oftalmológica, associando queixa do paciente com achados no exame físico. A principal suspeita surge a partir de sintomas como visão borrada progressiva, dificuldade visual noturna e sensibilidade à luz. O exame fundamental é a biomicroscopia com lâmpada de fenda, que permite visualizar diretamente o cristalino e identificar áreas de opacificação. A catarata pode ser classificada de acordo com sua localização (nuclear, cortical ou subcapsular), o que também influencia os sintomas. A avaliação da acuidade visual é essencial para quantificar o impacto funcional da doença. Em alguns casos, realiza-se também o teste de ofuscamento (glare test), que avalia a dificuldade visual em presença de luz intensa. Quando a catarata está muito avançada e impede a visualização do fundo do olho, pode ser necessário realizar ultrassonografia ocular para avaliar a retina e outras estruturas. O diagnóstico é clínico, mas deve sempre considerar o impacto na qualidade de vida do paciente para indicação de tratamento. DISTÚRBIOS DE REFRAÇÃO O diagnóstico dos distúrbios de refração é baseado na avaliação da capacidade do olho de focalizar a luz corretamente. O exame principal é a refração, que pode ser objetiva (realizada com autorrefrator) ou subjetiva, onde o paciente informa qual lente proporciona melhor visão. A medida da acuidade visual é o primeiro passo, geralmente realizada com a tabela de Snellen. Em seguida, utiliza-se o retinoscópio para estimar o erro refrativo de forma objetiva, especialmente útil em crianças. A refração subjetiva refina essa medida, ajustando lentes até alcançar a melhor correção possível. Em crianças ou casos específicos, utiliza-se a cicloplegia (paralisia temporária da acomodação com colírios) para evitar interferência do esforço acomodativo, especialmente na hipermetropia. Outros exames complementares incluem ceratometria, que avalia a curvatura da córnea, e topografia corneana, especialmente em casos de astigmatismo irregular. O diagnóstico é geralmente simples, mas fundamental para prevenir complicações como ambliopia em crianças. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO GLAUCOMA O tratamento do glaucoma tem como objetivo principal reduzir a pressão intraocular (PIO) para evitar a progressão do dano ao nervo óptico. Isso é feito diminuindo a produção do humor aquoso ou aumentando sua drenagem. Entre os fármacos, destacam-se os análogos de prostaglandinas (como latanoprosta), que atuam aumentando o escoamento do humor aquoso pela via uveoescleral. Eles promovem remodelamento da matriz extracelular no corpo ciliar, facilitando a drenagem, sendo considerados primeira linha por sua eficácia e uso em dose única diária. Os betabloqueadores tópicos (como timolol) reduzem a produção de humor aquoso ao inibir receptores β-adrenérgicos no corpo ciliar, diminuindo a secreção. Já os agonistas alfa-2 adrenérgicos (como brimonidina) têm efeito duplo: reduzem a produção e aumentam a drenagem do humor aquoso. Os inibidores da anidrase carbônica (como dorzolamida tópica ou acetazolamida sistêmica) diminuem a formação de bicarbonato no epitélio ciliar, reduzindo a produção de humor aquoso. Em situações agudas, como no glaucoma de ângulo fechado, podem ser usados medicamentos sistêmicos rapidamente ativos. Os mióticos (como pilocarpina) promovem contração do músculo ciliar, abrindo a malha trabecular e facilitando a drenagem. No tratamento não farmacológico, destacam-se procedimentos como a trabeculoplastia a laser, que melhora a drenagem, e cirurgias como a trabeculectomia, que cria uma nova via de escoamento do humor aquoso. No glaucoma de ângulo fechado, a iridotomia a laser é fundamental para criar uma comunicação entre as câmaras do olho, aliviando o bloqueio. RETINOBLASTOMA O tratamento do retinoblastoma depende do estágio da doença e tem como prioridades salvar a vida da criança, preservar o olho e, quando possível, a visão. O tratamento farmacológico baseia-se principalmente na quimioterapia, que pode ser sistêmica, intra-arterial ou intravítrea. Fármacos como vincristina, etoposídeo e carboplatina atuam interferindo na divisão celular tumoral. A vincristina inibe a formação do fuso mitótico ao interferir nos microtúbulos; o etoposídeo inibe a topoisomerase II, impedindo a replicação do DNA; e a carboplatina promove ligações cruzadas no DNA, levando à morte celular. A quimioterapia pode reduzir o tamanho do tumor, permitindo terapias locais complementares. Entre os tratamentos não farmacológicos, destacam-se a fotocoagulação a laser, que destrói vasos que nutrem o tumor; a crioterapia, que induz necrose tumoral por congelamento; e a braquiterapia, que utiliza radiação localizada. Em casos avançados, pode ser necessária a enucleação (remoção do globo ocular), especialmente quando não há possibilidade de preservar a visão ou há risco de disseminação. Radioterapia externa pode ser utilizada em situações específicas, embora seja evitada devido aos efeitos colaterais. CERATOCONE O ceratocone não possui tratamento farmacológico curativo direto, mas existem abordagens que visam retardar a progressão e melhorar a qualidade visual. O principal tratamento não farmacológico para estabilização é o crosslinking corneano, que utiliza riboflavina (vitamina B2) associada à radiação ultravioleta (UV-A). Esse processo induz a formação deligações cruzadas entre as fibras de colágeno da córnea, aumentando sua rigidez e impedindo a progressão da ectasia. Para correção visual, utilizam-se óculos em fases iniciais e lentes de contato rígidas em fases mais avançadas, que ajudam a regularizar a superfície óptica. Em casos moderados a graves, podem ser implantados anéis intracorneanos, que alteram a curvatura da córnea, melhorando a refração. Em estágios avançados, com cicatrização significativa, o tratamento definitivo é o transplante de córnea (ceratoplastia). Embora não haja medicamentos específicos para tratar o ceratocone, o controle de fatores agravantes, como alergias oculares (com anti-histamínicos), é importante para evitar coçar os olhos e piorar a doença. CONJUNTIVITE O tratamento da conjuntivite varia conforme a causa. Na conjuntivite bacteriana, utilizam-se antibióticos tópicos (como tobramicina ou ciprofloxacino), que atuam eliminando as bactérias os aminoglicosídeos inibem a síntese proteica bacteriana, enquanto as fluoroquinolonas inibem enzimas essenciais para replicação do DNA bacteriano. Na conjuntivite viral, o tratamento é geralmente suporte, com uso de lubrificantes oculares e compressas frias, pois a infecção é autolimitada. Em alguns casos, pode-se usar antivirais específicos (como aciclovir) se houver suspeita de herpes. Na conjuntivite alérgica, utilizam-se anti-histamínicos tópicos (como olopatadina), que bloqueiam receptores H1, reduzindo prurido e inflamação, e estabilizadores de mastócitos, que impedem a liberação de histamina. Em casos mais intensos, podem ser usados corticosteroides tópicos, que inibem a resposta inflamatória ao bloquear a produção de mediadores inflamatórios. Medidas não farmacológicas incluem higiene ocular, evitar contato com alérgenos e interromper uso de lentes de contato durante o quadro. CATARATA A catarata não possui tratamento farmacológico eficaz para reverter a opacificação do cristalino. O tratamento é essencialmente cirúrgico. A cirurgia consiste na facoemulsificação, em que o cristalino opaco é fragmentado por ultrassom e removido, sendo substituído por uma lente intraocular artificial. Esse procedimento restaura a transparência do eixo visual e melhora significativamente a acuidade visual. Antes da cirurgia, podem ser utilizadas medidas como ajuste de óculos e aumento da iluminação, mas são apenas paliativas. Após o procedimento, utilizam-se colírios anti-inflamatórios (corticosteroides e AINEs) para reduzir a inflamação e antibióticos profiláticos para prevenir infecção DISTÚRBIOS DE REFRAÇÃO Os distúrbios de refração são tratados principalmente por correção óptica, mas também podem envolver intervenções farmacológicas em situações específicas. O tratamento principal é o uso de óculos ou lentes de contato, que corrigem o foco da luz na retina. Em alternativa, pode-se realizar cirurgia refrativa (como LASIK), que remodela a córnea para corrigir o erro refrativo. Em alguns casos, especialmente em crianças com miopia progressiva, pode-se utilizar atropina em baixa dose, que atua bloqueando receptores muscarínicos, reduzindo o estímulo de crescimento axial do olho e retardando a progressão da miopia. Além disso, medidas comportamentais como controle do tempo de tela, pausas visuais e exposição à luz natural são importantes, especialmente na prevenção da progressão da miopia.