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Júlia Pacheco-Medicina APENDICITE AGUDA O apêndice vermiforme é uma estrutura tubular, estreita e alongada, que se origina do ceco, a primeira porção do intestino grosso. Localização ➔ Se localiza na junção ileocecal, cerca de 2 a 3 cm abaixo da válvula ileocecal ➔ projeta-se a partir da face póstero-medial do ceco. Sua posição mais comum no abdome corresponde à fossa ilíaca direita, sendo o ponto de projeção clínica clássico o ponto de McBurney. No entanto, sua localização anatômica pode variar bastante, podendo ser: ➔ Retrocecal (a mais frequente) ➔ Pélvico ➔ Subcecal ➔ Pré-ileal ➔ Pós-ileal Essas variações influenciam diretamente a apresentação da dor e dificultam, em alguns casos, o diagnóstico de apendicite. Desenvolvimento embrionário ➔ O apêndice se desenvolve a partir do intestino médio. Durante o desenvolvimento fetal, o ceco surge como uma dilatação do intestino primitivo por volta da 6ª semana de gestação, e o apêndice aparece como uma evaginação dessa estrutura. Inicialmente, ele é relativamente mais largo, mas com o crescimento diferencial do ceco, torna-se progressivamente uma estrutura mais estreita e alongada. Importância O apêndice possui todas as camadas típicas do trato gastrointestinal, porém se destaca pela abundância de tecido linfoide em sua submucosa, especialmente durante a infância e adolescência. Por esse motivo, ele é considerado um órgão com função imunológica, participando da maturação do sistema imune intestinal e atuando como um reservatório de microbiota intestinal benéfica. Com o avanço da idade, ocorre uma involução desse tecido linfoide, levando a uma certa atrofia funcional do apêndice, o que contribui para a redução de sua atividade imunológica em adultos mais velhos. Fisiopatologia A apendicite aguda é essencialmente um processo evolutivo que segue uma sequência bem definida: I. Obstrutivo II. Inflamatório III. Infeccioso IV. Isquêmico V. Perfurativo 1. Obstrução do lúmen apendicular ★ Fase obstrutiva Essa obstrução impede o escoamento das secreções produzidas pela mucosa do apêndice. Ocorre principalmente por: ➔ Fecalito ➔ Hiperplasia do tecido linfoide ➔ Tumores FECALITO: é uma massa endurecida de fezes que se forma dentro do intestino, especialmente no apêndice, devido ao acúmulo e ressecamento do conteúdo fecal. Ele é basicamente composto por restos de fezes desidratadas, podendo conter também sais minerais (como cálcio), muco e detritos celulares, o que o torna mais rígido e compacto. 2. Aumento da pressão intraluminal ★ Fase inflamatória inicial/Edematosa Ocorre devido ao acúmulo de muco e secreção dentro do apêndice (um espaço fechado e de baixa complacência). Distensão do apêndice Essa distensão já é suficiente para ativar fibras nervosas viscerais, justificando a dor inicial mal localizada. 3. Comprometimento venoso e linfático ★ Fase congestiva/Isquêmica/flegmonosa Com a progressão do processo, há comprometimento venoso e linfático, uma vez que a pressão intraluminal elevada ultrapassa a pressão dos vasos de drenagem, levando à congestão, edema da parede e consequente isquemia. 4. Mucosa perde barreira ★ Fase infecciosa/Supurativa Nesse estágio, a mucosa torna-se hipóxica e mais vulnerável à lesão, perdendo sua função de barreira. Favorece: ➔ Proliferação bacteriana ➔ Invasão da parede apendicular por bactérias da flora intestinal Principais bactérias: Escherichia coli e anaeróbios. Esse processo caracteriza a fase infecciosa da doença, com intensificação da resposta inflamatória local e possível formação de exsudato purulento. 5. Necrose da parede apendicular ★ Fase necrosante/perfurativa/gangrenosa Se não houver intervenção, a isquemia progride para necrose da parede apendicular, culminando em perfuração, geralmente entre 24 e 36 horas do início do quadro. Perfuração Ocorre liberação de conteúdo infeccioso para a cavidade peritoneal, levando à peritonite localizada ou difusa, dependendo da capacidade do organismo de conter o processo. É importante destacar que essa progressão não ocorre de forma idêntica em todos os pacientes. Fatores como idade, resposta imunológica e posição anatômica do apêndice podem modificar a apresentação clínica e a velocidade de evolução. Fatores de Risco Dieta pobre em fibras Idade jovem Hiperplasia linfoide associada a infecções Sexo masculino Principal fator de risco: A dieta pobre em fibras ➔ Leva à formação de fezes mais ressecadas e endurecidas, favorecendo a formação de fecalitos. Epidemiologia ➔ Maior incidência em indivíduos jovens Está relacionada, em parte, à maior quantidade e atividade do tecido linfoide presente no apêndice nessa faixa etária, o que aumenta a chance de hiperplasia e consequente obstrução do lúmen. Quadro Clínico ❖ Dor em fossa ilíaca direita ❖ Náuseas ❖ Vômitos ❖ Febre baixa ❖ Anorexia ❖ Rigidez abdominal ❖ Dor à palpação profunda em FID, especialmente no ponto de McBurney A apresentação clínica pode variar conforme a idade, sendo atípica em idosos, gestantes e crianças, o que pode dificultar o diagnóstico e atrasar o tratamento. Inicialmente ➔ O paciente refere dor abdominal de início insidioso na região periumbilical ➔ De caráter mal localizado Decorrente da distensão do apêndice e estímulo de fibras viscerais. Com a progressão do processo inflamatório e o acometimento do peritônio parietal ➔ Dor migra para a fossa ilíaca direita (FID) Intensa, contínua e bem localizada Lembrando ESTADO TEMPERATURA Hipotermia /= 41°C Diagnóstico Exame Físico Sinal de Blumberg dor à descompressão brusca do abdome (No ponto de McBurney) Indica irritação peritoneal. Sinal de Rovsing Palpação da fossa ilíaca esquerda provoca dor na fossa ilíaca direita Sugere inflamação apendicular Sinal do psoas dor à extensão da coxa direita sugere apêndice retrocecal Sinal do obturador dor à rotação interna da coxa flexionada indica possível posição pélvica do apêndice Exames Laboratoriais ➔ Leucocitose (geralmente acima de 10.000 leucócitos), frequentemente com desvio à esquerda ➔ Elevação da proteína C reativa (PCR) Ultrassonografia O ultrassom é frequentemente utilizado como exame inicial, especialmente em crianças, gestantes e pacientes jovens, por ser não invasivo e não utilizar radiação. Principais achados: ➔ Apêndice com diâmetro maior que 6 mm e não compressível à pressão do transdutor ➔ Possível presença de líquido periapendicular ➔ Aumento da ecogenicidade da gordura ao redor (sinal indireto de inflamação) ➔ identificação de apendicolito. Tomografia computadorizada Considerada o padrão-ouro para o diagnóstico ➔ Maior sensibilidade ➔ Maior especificidade Principais achados: ➔ Espessamento da parede do apêndice ➔ Borramento da gordura periapendicular (indicando inflamação) ➔ Presença de apendicolito ➔ Evidenciar complicações como abscessos, perfuração, coleção líquida e pneumoperitônio A TC é especialmente útil em casos atípicos ou quando há dúvida diagnóstica, contribuindo também para o planejamento terapêutico. Diagnóstico Diferencial Na suspeita de apendicite aguda, é fundamental considerar alguns diagnósticos diferenciais importantes, pois diversas condições podem simular um quadro semelhante. Colecistite Dor em hipocôndrio direito, irradiação para dorso, náuseas/vômitos, sinal de Murphy + Pancreatite Dor epigástrica intensa irradiada para dorso, vômitos, ↑ amilase/lipase Diverticulite Mais comum em idosos, dor abdominal (geralmente em FIE), febre Gastroenterite Dor abdominal difusa, diarreia, vômitos Gravidez ectópicaDor abdominal + atraso menstrual, sangramento vaginal, beta-hCG positivo Tratamento Na apendicite aguda, o tratamento baseia-se na definição rápida de estratégias terapêuticas iniciais, envolvendo medidas clínicas e cirúrgicas, com o objetivo de evitar complicações como perfuração e peritonite. ➔ Jejum ➔ Reposição volêmica com fluidos intravenosos ➔ Analgesia ➔ Antieméticos quando necessário. Conduta padrão ➔ Cirurgia (apendicectomia) Sendo a abordagem laparoscópica a preferida por estar associada a menor dor pós-operatória, menor tempo de internação e recuperação mais rápida. Casos selecionados Plastrão apendicular: Massa inflamatória formada por alças intestinais e epíplon que “isolam” o apêndice inflamado. É uma tentativa do organismo de conter a infecção Abscesso bem delimitado: Coleção de pus bem delimitada ao redor do apêndice. Indica evolução da infecção. ❖ Tratamento conservador com antibióticos ❖ Drenagem Deixando a cirurgia para um segundo momento (apendicectomia intervalar). Uso de Antibióticos Sempre indicado no perioperatório, com cobertura obrigatória para bactérias gram-negativas e anaeróbios da flora intestinal, como Escherichia coli e Bacteroides fragilis. ❖ Cefalosporinas de 2ª ou 3ª geração associadas ao metronidazol OU ❖ Antibióticos de amplo espectro isolados Nos casos não complicados, uma dose profilática pode ser suficiente; já nas formas complicadas (perfuração, abscesso, peritonite), o tratamento antibiótico deve ser mantido por mais tempo, guiado pela evolução clínica. Internação A internação é sempre indicada, uma vez que se trata de uma condição potencialmente grave que requer monitorização, jejum, hidratação venosa, analgesia adequada e preparo para abordagem cirúrgica. Júlia Pacheco-Medicina DIVERTICULITE AGUDA A diverticulite aguda é um processo inflamatório que geralmente se desenvolve a partir de uma condição prévia chamada diverticulose Fisiopatologia Diverticulose Herniação da mucosa colônica através de pontos de fraqueza da parede intestinal, principalmente no cólon sigmoide. Esses divertículos, por si só, podem ser assintomáticos, mas tornam-se clinicamente relevantes quando ocorre inflamação. Fluxograma: I. Diverticulose Prévia II. Aumento da pressão intraluminal (geralmente associado a alterações do trânsito intestinal, como constipação, o que leva a microtraumas no divertículo.) III. Trauma repetitivo fragiliza parede do divertículo IV. Ocasionando a inflamação associada à proliferação bacteriana, com translocação bacteriana através da mucosa comprometida. V. Inflamação dos divertículos= DIVERTICULITE Esse fenômeno permite que bactérias da flora intestinal invadam a parede do cólon, desencadeando uma resposta inflamatória local que pode variar de leve a intensa. Com a progressão do quadro, pode ocorrer micro ou macroperfuração da parede do divertículo. A depender da extensão e da capacidade do organismo de conter o processo inflamatório, essa perfuração pode evoluir para diferentes complicações: Abcesso Formação de coleção purulenta localizada Peritonite Disseminação da infecção para a cavidade abdominal Fístula Formação de comunicações anormais entre o cólon e outros órgãos (ex: bexiga ou intestino delgado) Fatores de risco Dieta pobre em fibras: Leva à formação de fezes mais ressecadas e à necessidade de maior esforço evacuatório, aumentando a pressão intraluminal do cólon Idade Avançada: Está associada a alterações estruturais da parede intestinal, como enfraquecimento da musculatura e maior propensão à formação de divertículos Obesidade: Contribui para um estado inflamatório crônico sistêmico, que pode favorecer a progressão para diverticulite Tabagismo: Relacionado a alterações vasculares e inflamatórias, aumentando o risco de complicações. Uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e corticoides: Pode comprometer a integridade da mucosa intestinal e reduzir a resposta imunológica local, facilitando processos inflamatórios e perfurativos. A presença desses fatores de risco pode não apenas favorecer o surgimento da diverticulite, mas também influenciar sua gravidade e a chance de evolução para formas complicadas, como abscesso, perfuração ou peritonite. Quadro Clínico ❖ Dor em quadrante inferior esquerdo (fossa ilíaca esquerda – FIE) ❖ Dor contínua ❖ Dor de intensidade progressiva Sintomas associados: ➔ Febre ➔ Distensão abdominal ➔ Disúria ◆ Ocorre devido à irritação da bexiga por proximidade anatômica com o processo inflamatório ➔ Alteração do hábito intestinal ◆ Constipação ou diarreia. Esses sintomas refletem o processo inflamatório localizado, mais comum no cólon sigmoide. Exame físico ➔ Dor à palpação em FIE ➔ Defesa muscular localizada ➔ Sinais de irritação peritoneal (Em casos mais avançados) Em casos mais graves: ➔ Febre mais elevada ➔ Toxemia ➔ Massa palpável (sugestiva de plastrão ou abscesso) ➔ Sinais de sepse Diagnóstico Clínico ❖ Dor persistente em fossa ilíaca esquerda (FIE) ❖ Febre ❖ Alteração do hábito intestinal Especialmente em pacientes idosos, grupo no qual a doença é mais prevalente. Laboratorial ➢ Elevação da proteína C reativa (PCR) ➢ Leucocitose com desvio à esquerda ○ É um achado comum, embora possa estar ausente, especialmente em idosos ou imunossuprimidos, o que não exclui o diagnóstico. Imagem Tomografia computadorizada (TC) ★ Padrão-ouro ➔ Apresentando alta sensibilidade e especificidade ➔ Identifica espessamento da parede do cólon ➔ Identifica “stranding” da gordura pericólica (sinal de inflamação) ➔ Detectar complicações ◆ Como: abscesso, presença de ar livre (indicando perfuração), fístulas e obstrução intestinal. Além disso, a TC tem papel fundamental no estadiamento da doença, sendo amplamente utilizada a classificação de Hinchey, que orienta a conduta terapêutica. Classificação de Hinchey Essa classificação é essencial porque direciona o manejo: Estágios iniciais podem ser tratados de forma conservadora com antibióticos, enquanto estágios mais avançados geralmente necessitam de abordagem cirúrgica urgente. Ultrassonografia O ultrassom abdominal pode ser usado como alternativa inicial, principalmente em gestantes, pacientes jovens ou quando se deseja evitar radiação. ➔ Espessamento da parede intestinal ➔ Divertículos ➔ Aumento da ecogenicidade da gordura pericólica (inflamação) ➔ Exame operador-dependente ➔ Menor sensibilidade, especialmente em pacientes obesos ou com muito gás intestinal. Exames que não devem ser realizados na fase aguda da diverticulite: A colonoscopia é contraindicada nesse momento, pois a insuflação de ar pode aumentar o risco de perfuração intestinal em uma parede já inflamada e fragilizada. ➔ Após a resolução do quadro agudo (geralmente após 6–8 semanas), a colonoscopia passa a ser indicada para avaliação do cólon, principalmente para excluir câncer colorretal, que pode simular diverticulite. Diagnóstico diferencial Condições clínicas com características semelhantes à diverticulite: ➔ Apendicite (principalmente em casos atípicos ou com dor deslocada) ➔ Síndrome do intestino irritável ➔ Câncer colorretal ➔ Doença inflamatória intestinal Tratamento O direcionamento da conduta depende da classificação da diverticulite Diverticulite não complicada ➔ Tratamento ambulatorial nos casos leves ➔ Dieta líquida inicial ➔ Uso de antibióticos ➔ Hidratação ➔ Ciprofloxacino associado ao metronidazol ➔ Analgesia Internação: Está indicada se o paciente for idoso frágil, imunossuprimido ou apresentar dor intensa, incapacidade de ingestão oral, vômitos persistentes ou sinais de piora clínica, sendo nessescasos necessário suporte venoso e monitorização. Diverticulite complicada ★ Quando há abscesso, perfuração ou fístula ➔ Internação obrigatória ➔ Antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro ➔ Suporte clínico (hidratação, controle da dor, jejum conforme necessidade) ➔ Avaliação contínua Se houver abscesso: Drenagem quando maior que 3 cm, preferencialmente por via percutânea guiada por imagem. Se houver peritonite, falha do tratamento ou alteração hemodinâmica: Cirurgia Resolução Após resolução do quadro agudo, é recomendada avaliação do cólon (geralmente com colonoscopia após 6–8 semanas) para excluir neoplasia e avaliar extensão da doença diverticular. Apendicite x Diverticulite Para não esquecer: ★ Apendicite = jovem + dor migratória + FID + cirurgia ★ Diverticulite = idoso + dor em FIE + alteração intestinal + TC é padrão-ouro CARACTERÍSTICAS APENDICITE DIVERTICULITE Evento Inicial Obstrução do lúmen (fecalito, hiperplasia linfoide) Inflamação de divertículo Local da dor Fossa ilíaca direita (FID) Fossa ilíaca esquerda (FIE) Início da dor Periumbilical → migra para FID Já inicia em FIE Dor migratória SIM NÃO Tipo de dor Progressiva, localizada Contínua, mais arrastada Febre Baixa (inicial) Pode ser mais evidente Náuseas/vômitos Frequentes Menos comum Anorexia Muito comum Menos marcante Alteração intestinal Menos comum Mais comum Sinais específicos Blumberg, Rovsing, psoas, obturador S/ exames específicos Exame físico Dor em McBurney Dor em FIE USG Útil (principalmente jovens/gestantes) Menos utilizados TC Alta acurácia Padrão-ouro Complicação principal Perfuração rápida Abscesso, fístula, peritonite Antibiótico Sempre perioperatório Base do tratamento Internação Sempre Depende da grvidade