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Júlia Pacheco-Medicina OTITE MÉDIA AGUDA A Otite Média Aguda (OMA) é um processo inflamatório e infeccioso que acomete a orelha média e se caracteriza pelo aparecimento rápido de sinais e sintomas inflamatórios. Trata-se de uma das doenças infecciosas mais frequentes da infância e uma das principais causas de consulta pediátrica e prescrição de antibióticos. ORELHA MÉDIA A orelha média corresponde ao espaço localizado posteriormente à membrana timpânica. Em seu interior encontram-se os ossículos da audição: ❖ Martelo ❖ Bigorna ❖ Estribo Além de mucosa respiratória semelhante à mucosa das vias aéreas superiores COMUNICAÇÃO IMPORTANTE: Comunica-se com a nasofaringe através da tuba auditiva (tuba de Eustáquio), estrutura fundamental na fisiopatologia da doença. FUNÇÃO PRINCIPAL: ➔ Transmitir e amplificar as vibrações sonoras até a orelha interna ➔ Equalização da pressão entre o meio externo e o interior da caixa timpânica (protegendo as estruturas auditivas profundas) TUBA AUDITIVA (ORELHA INTERNA) A tuba auditiva possui três funções principais: ❖ Ventilação da orelha média; ❖ Drenagem de secreções; ❖ Equalização da pressão. NA INFÂNCIA: A anatomia da tuba auditiva favorece o desenvolvimento de OMA. ❖ Mais curta ❖ Mais horizontalizada ❖ Mais flácida ❖ Relativamente mais larga Essas características facilitam o refluxo de secreções da nasofaringe para a orelha média e dificultam a drenagem adequada. ➔ Assim, vírus e bactérias conseguem ascender com maior facilidade. Além disso, o sistema imunológico infantil ainda está em amadurecimento, tornando as crianças mais suscetíveis a infecções respiratórias e, consequentemente, às complicações otológicas. FISIOPATOLOGIA A maioria dos episódios de OMA surge após uma infecção viral das vias aéreas superiores (IVAS), como: ❖ Gripe ❖ Resfriado ❖ Rinite ❖ Sinusite ❖ Adenoidite FLUXOGRAMA I. Vírus causam inflamação da mucosa respiratória ❖ Levando a edema, vasodilatação e aumento da produção de secreção. II. Edema inflamatório da nasofaringe obstrui a tuba auditiva III. Impede a ventilação adequada da orelha média IV. Ocorre formação de pressão negativa dentro da cavidade timpânica V. A pressão favorece o extravasamento de líquido para o interior da orelha média, formando uma efusão. LÍQUIDO INFLAMATÓRIO ➔ Reduz a mobilidade da membrana timpânica ➔ Prejudica a transmissão sonora ➔ Sensação de ouvido tampado e hipoacusia A secreção acumulada torna-se um excelente meio para proliferação bacteriana. PROLIFERAÇÃO BACTERIANA As bactérias presentes na nasofaringe colonizam o líquido retido, levando à formação de pus, inflamação intensa e abaulamento timpânico. O aumento da pressão dentro da orelha média provoca dor intensa, característica da OMA. RELAÇÃO ENTRE OMA E AS INFECÇÕES DE VAS RINOFARINGITE VIRAL CAUSA EDEMA DE TUBA AUDITIVA HIPERTROFIA ADENOIDEANA PROMOVE OBSTRUÇÃO MECÂNICA RINITE ALÉRGICA GERA INFLAMAÇÃO PERSISTENTE SINUSITE FAVORECE A COLONIZAÇÃO BACTERIANA EPIDEMIOLOGIA ❖ Comum na infância ❖ Mais frequente no inverno, período de maior circulação viral ❖ Mais frequente em crianças que frequentam creches devido ao maior contato interpessoal Cerca de 80% das crianças apresentarão ao menos um episódio durante a vida. PICO DE INCIDÊNCIA: Entre 6 meses e 2 anos de idade FATORES DE RISCO ALEITAMENTO MATERNO: O aleitamento materno exerce importante efeito protetor, pois fornece imunoglobulina A secretora e diversos fatores imunológicos que reduzem a colonização bacteriana da nasofaringe. ETIOLOGIA OMA VIRAL 1. Rinovírus; 2. Vírus sincicial respiratório (VSR); 3. Influenza; 4. Adenovírus; 5. Coronavírus. QUADRO CLÍNICO: ➔ Febre baixa ➔ Maior tendência à resolução espontânea OMA BACTERIANA Streptococcus pneumoniae Haemophilus influenzae Moraxella catarrhalis Streptococcus pyogenes Staphylococcus aureus STREPTOCOCCUS PNEUMONAE: Costuma estar associado a quadros mais graves, maior febre e maior risco de complicações. HAEMOPHILUS INFLUENZAE: Frequentemente relaciona-se à otite com conjuntivite associada. QUADRO CLÍNICO: ➔ otalgia; ➔ febre; ➔ irritabilidade; ➔ choro persistente; ➔ sensação de ouvido tampado; ➔ hipoacusia. NOS LACTENTES: Sinais são inespecíficos ★ puxar ou esfregar a orelha; ★ recusa alimentar; ★ dificuldade para dormir; ★ irritabilidade intensa; ★ vômitos; ★ diminuição da interação. A otalgia ocorre devido ao aumento da pressão sobre a membrana timpânica inflamada e altamente inervada. TIPOS DE OMA OTITE EXTERNA Ocorre no conduto auditivo externo, geralmente devido à umidade, trauma local ou uso de objetos. É comum em nadadores (“otite do nadador”). Os principais sintomas são: ➔ dor à manipulação da orelha; ➔ edema do conduto auditivo; ➔ secreção; ➔ prurido. Nesses casos, o tímpano geralmente permanece normal OTITE MÉDIA ★ O cometimento ocorre na orelha média. Os principais sintomas são: ❖ Febre ❖ Otalgia profunda ❖ Alterações da membrana timpânica OTITE MÉDIA AGUDA 1. Início súbito 2. Duração inferior a 3 semanas 3. Sinais inflamatórios intensos OTITE MÉDIA CRÔNICA 1. Duração prolongada 2. Geralmente superior a 3 meses 3. Podendo cursar com perfuração persistente da membrana timpânica 4. Otorreia recorrente 5. Risco de desenvolvimento de colesteatoma Colesteatoma: Crescimento anormal de epitélio escamoso dentro da orelha média, podendo causar destruição óssea e complicações intracranianas. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da otite média aguda geralmente é clínico, baseado na presença de: I. Início agudo dos sintomas (em 48h); II. Sinais de inflamação; III. Abaulamento da membrana timpânica IV. presença de efusão na orelha média. EXAME OTOSCÓPICO Os principais achados refletem o processo inflamatório e o acúmulo de secreção na orelha média. ★ Abaulamento da membrana timpânica (achado mais importante); ★ Hiperemia da membrana timpânica; ★ Opacidade timpânica; ★ Perda do reflexo luminoso; ★ Redução da mobilidade da membrana timpânica; ★ Presença de nível hidroaéreo ou bolhas; ★ Perfuração timpânica com otorreia; ★ Espessamento da membrana timpânica; ★ Alteração da coloração do tímpano (amarelado, âmbar ou avermelhado) ………… M. timpânica normal OTITE MÉDIA AGUDA PNEUMATOSCOPIA: Pode auxiliar na avaliação da mobilidade da membrana timpânica. Na presença de efusão, a mobilidade encontra-se reduzida. TRATAMENTO O tratamento da OMA envolve medidas gerais e, em alguns casos, antibióticos. MEDIDAS GERAIS I. analgesia; II. antitérmicos; III. hidratação; IV. lavagem nasal; V. controle da febre. O controle da dor é extremamente importante. Analgésicos como paracetamol e ibuprofeno são frequentemente utilizados. Nem todos os casos necessitam de antibiótico imediato. Em algumas situações pode-se optar pela observação clínica por 48–72 horas, principalmente em crianças maiores com sintomas leves. USO DE ANTIBIÓTICOS ★ menores de 2 anos; ★ OMA bilateral; ★ febre alta; ★ dor intensa; ★ presença de otorreia; ★ sinais sistêmicos importantes. A primeira escolha geralmente é a amoxicilina. COMPLICAÇÕES MASTOIDITE A mastoide contém células aéreas conectadas à orelha média, permitindo disseminação da infecção. As manifestações incluem: 1. dor retroauricular; 2. edema; 3. hiperemia; 4. febre alta; 5. protrusão da orelha. A mastoidite pode evoluir para: 1. abscesso; 2. erosão óssea; 3. osteomielite; 4. disseminação intracraniana. MENINGITE Ocorre quando a infecção alcança as meninges através de erosão óssea, disseminação hematogênica ou extensão direta. Os sintomas incluem: 1. febre alta; 2. rigidez de nuca; 3. vômitos; 4. cefaleia;5. rebaixamento do nível de consciência. É uma emergência médica potencialmente fatal. Outras complicações possíveis: ➔ abscesso cerebral; ➔ trombose do seio sigmoide; ➔ paralisia facial; ➔ labirintite; ➔ petrosite; ➔ perda auditiva. A perda auditiva persistente na infância pode comprometer o desenvolvimento da linguagem e da aprendizagem. Júlia Pacheco-Medicina FARINGOTONSILITE A faringotonsilite corresponde a um processo inflamatório e infeccioso que acomete a faringe, as amígdalas e frequentemente estruturas associadas do anel linfático de Waldeyer. O anel de Waldeyer é formado por: I. tonsilas palatinas; II. tonsila faríngea (adenoide); III. tonsila lingual; IV. tecido linfático perifaringeano. Esse conjunto exerce importante função imunológica, funcionando como uma barreira de defesa contra microrganismos inalados ou ingeridos. ★ As tonsilas participam ativamente da resposta imune através da produção de linfócitos e anticorpos. ETIOLOGIA VIRAL A forma viral é a mais comum, correspondendo a aproximadamente 70–85% dos casos. PRINCIPAIS VÍRUS SENVOLVIDOS ➔ adenovírus; ➔ influenza; ➔ rinovírus; ➔ vírus Epstein-Barr (EBV); ➔ coronavírus; ➔ enterovírus. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ❖ coriza; ❖ tosse; ❖ conjuntivite; ❖ rouquidão; ❖ febre baixa; ❖ evolução gradual. BACTERIANA Já a principal causa bacteriana é o Streptococcus pyogenes, também chamado de estreptococo beta-hemolítico do grupo A. A faixa etária mais acometida situa-se entre 5 e 15 anos. Outros agentes bacterianos incluem: ● Mycoplasma pneumoniae; ● Corynebacterium diphtheriae; ● Fusobacterium necrophorum. O Streptococcus pyogenes possui grande importância clínica devido ao risco de complicações imunológicas, especialmente febre reumática. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ❖ início súbito; ❖ febre alta; ❖ odinofagia intensa; ❖ exsudato purulento; ❖ adenopatia cervical dolorosa; ❖ ausência de tosse. ❖ náuseas; ❖ vômitos; ❖ dor abdominal; ❖ petéquias em palato; ❖ halitose. A ausência de tosse é um importante indício de etiologia estreptocócica. DIAGNÓSTICO Podem ser utilizados: ● Cultura de orofaringe; ● Teste rápido para estreptococo. A cultura é considerada padrão-ouro. TRATAMENTO ➔ O tratamento depende da etiologia. Na faringotonsilite viral, o tratamento é sintomático: ❖ hidratação; ❖ analgésicos; ❖ anti-inflamatórios; ❖ repouso; ❖ alimentação adequada. Antibióticos não são indicados nos quadros virais, pois não aceleram a recuperação e aumentam o risco de resistência bacteriana. FARINGOTONSILITE POR STREPTOCOCCUS ❖ reduzir sintomas; ❖ diminuir transmissão; ❖ prevenir complicações; ❖ reduzir duração da doença. As principais opções terapêuticas são: ● penicilina benzatina; ● amoxicilina. COMPLICAÇÕES FEBRE REUMÁTICA A febre reumática é uma das complicações mais importantes da faringotonsilite estreptocócica. ★ Ocorre devido a uma reação cruzada imunológica Os anticorpos produzidos contra o estreptococo passam a reconhecer tecidos do próprio organismo. ERITEMA MARGINADO: ERUPÇÃO SERPIGINOSA EM PCT COM FEBRE REUMÁTICA As estruturas mais acometidas são: 1. coração; 2. articulações; 3. sistema nervoso central; 4. pele. CARDITE REUMÁTICA: Pode causar lesões valvares permanentes, principalmente da válvula mitral. ARTRITE DA FEBRE REUMÁTICA: Costuma ser migratória, acometendo grandes articulações como joelhos, tornozelos e cotovelos. Outras manifestações incluem: I. eritema marginado; II. nódulos subcutâneos. O diagnóstico é realizado pelos critérios de Jones: ➢ dois critérios maiores ou um maior + dois menores; ➢ Associados à evidência de infecção estreptocócica prévia. GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA Ela ocorre geralmente entre 1 e 3 semanas após a infecção. Sua fisiopatologia envolve deposição de complexos imunes nos glomérulos renais, provocando inflamação e redução da filtração glomerular. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ❖ edema; ❖ hipertensão arterial; ❖ hematúria (“urina coca-cola”); ❖ oligúria. Diferentemente da febre reumática, o antibiótico não previne totalmente a GNPE. COMPLICAÇÕES SUPURATIVAS 1. abscesso peritonsilar; 2. abscesso retrofaríngeo; 3. abscesso parafaríngeo. Os sinais de alerta incluem: ● trismo; ● voz abafada; ● desvio da úvula; ● disfagia intensa; ● dificuldade respiratória. O abscesso peritonsilar é a complicação supurativa mais comum e pode exigir drenagem cirúrgica.