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CENTRO DE ENSINO NAZARÉ RAMOS SOCIOLOGIA – 3ª SÉRIE – 2º PERÍODO PROF.: BARTOLOMEU Conceitos de sexo, sexualidade, gênero e interseccionalidade SEXUALIDADE E IDENTIDADES DE GÊNERO INTRODUÇÃO Não é fácil discutir um tema tão controverso e tabu em nossa sociedade. Nos últimos anos, procurou-se silenciar esse assunto nas escolas, nas famílias, na mídia. O que se observa, porém, é o crescimento das falas e dos movimentos por reivindicações ligados aos direitos daqueles considerados “diferentes”. Este capítulo tem a intenção de ampliar o diálogo e a compreensão sobre as chamadas questões de gênero, que vêm sendo marcadas por violência e intolerância em relação às pessoas que não se inserem nos padrões hegemônicos de comportamentos e afetos. Embora de início esse campo de estudo tenha sido influenciado pelo movimento feminista e, portanto, sua preocupação central tenha sido a questão da mulher e de seus direitos, hoje os estudos de gênero incluem debates muito mais amplos. Identidade e diferença, (trans)sexualidade, movimentos sociais, cultura, desigualdade e violência estão entre os conceitos mais debatidos. As teorias sobre o tema também tentam compreender por que ainda persistem determinadas limitações a mulheres, bissexuais, homossexuais e transgêneros em relação ao direito de serem plenos, ou seja, de viverem de acordo com suas orientações particulares. Sem dúvida, o que mais chama a atenção nesse debate é quanto crescem, no mundo todo, os índices de violência contra as mulheres e os não heterossexuais. O que os estudos sobre gênero e sexualidade procuram compreender são as construções simbólicas e sociais que levam à violência contra esses grupos. Com o debate, procura-se também identificar e analisar as formas menos visíveis de opressão que reforçam as situações de menosprezo às quais tais grupos são submetidos em ambientes de trabalho, na mídia, no cinema, na escola, ou seja, em muitas instâncias da vida social. É possível perguntar: será que nos encaixamos em todos os padrões da sociedade considerados “corretos”? Será que nos inserimos nos padrões de beleza, de consumo, de estética? Temos os empregos que são considerados melhores? Temos uma família ideal? Em algum momento, segundo alguns desses padrões e exigências socioculturais, podemos ser considerados “de fora” ou “diferentes”. Tudo isso gera agressões e sofrimento. Mas então por que tomar como referência apenas um único modo de vida, um padrão de beleza, de família, de orientação sexual? A multiplicidade do mundo é cada vez mais inegável: as pessoas reinventam suas identidades e suas vidas para serem mais felizes, fugindo de padrões de consumo e de pressões estéticas para criar outros padrões, no plural. As pressões para nos adequarmos a um padrão “correto” de beleza, de estética e de consumo podem conduzir à conclusão errônea de que aqueles que não se encaixam em tais padrões são estranhos, diferentes, o que frequentemente resulta em variadas circunstâncias de agressão, violência e exclusão social. SEXO E GÊNERO: ENTRE A CONSTRUÇÃO E A DESCONSTRUÇÃO Por que se costuma diferenciar as noções de sexo e gênero e como começou essa distinção? No século XIX, o tema da sexualidade e dos comportamentos humanos em relação a desejos e afetos passou a ser o objeto central de uma nova ciência, a Psicanálise, criada por Sigmund Freud. Segundo ele, a relação entre a sexualidade e o sexo se estabelece pela relação da criança com o pai e a mãe, assim como pelo reconhecimento de ter ou não um falo (pênis). Para ele, os comportamentos feminino e masculino se manifestariam a partir do momento em que a criança reconhece que tem ou não um pênis, no chamado estágio fálico. O masculino, portanto, estaria associado ao falo, enquanto o feminino sempre se definiria pela falta e “inveja” deste. Essa diferença ganhou grande espaço na Psicanálise para explicar os comportamentos ditos femininos, causados por essa “castração”, e aqueles ditos masculinos, relacionados ao fato de ter um falo. Ao longo do século XX, a Psicanálise e a teoria de Freud foram revisadas por psicanalistas feministas e também questionadas por feministas ligadas a outras áreas do conhecimento. O fato de atribuir características particulares ao feminino e ao masculino com base na experiência infantil que se tem com os órgãos genitais não convenceu, por exemplo, a filósofa feminista francesa Simone de Beauvoir, para quem o “destino anatômico” não pode explicar todos os comportamentos associados a esses dois sexos. É preciso observar como o ambiente cultural e educacional é responsável pela construção e imposição de padrões a meninos e meninas. É por esse raciocínio que a filósofa e outras feministas fazem a distinção entre sexo e gênero: o sexo corresponderia aos traços biológicos e às genitálias distintas do macho e da fêmea, enquanto o gênero teria a ver com as construções e expectativas sociais sobre comportamentos femininos e masculinos. Assim, a identidade de gênero é formada principalmente por elementos culturais, pela sociedade e pela experiência familiar, desde a infância, ou seja, pelo processo de socialização pelo qual adultos influenciam crianças a adotar certos comportamentos e usos do corpo: cabelo curto para meninos e longo para meninas; passividade para meninas, agressividade para meninos; bonecas para meninas, carrinhos para meninos. “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Essa é a famosa frase de Simone de Beauvoir que distingue as duas dimensões da natureza e da cultura. Assim, o processo de construção de identidade de gênero, embora se relacione com a diferenciação ou identificação com os órgãos genitais, tem com eles uma relação simbólica, ou seja, cultural. Desse ponto de vista, por exemplo, o comportamento menos carinhoso de um homem ou o comportamento maternal de uma mulher não pode ser corretamente explicado pela presença de certos hormônios ou de qualquer outro traço biológico: a explicação se encontra na repressão de desejos e comportamentos imposta pela sociedade. Na Sociologia, até os anos 1970, o conceito de “papéis sociais de sexo”, apresentado pela antropóloga cultural estadunidense Margaret Mead (1901-1978), era o termo mais utilizado. É a partir dessa década que as teorias sociais passam a utilizar o conceito de gênero, influenciadas pela chamada segunda onda do feminismo (período de 1960 a 1980, quando houve ampliação das reivindicações feitas pelas primeiras organizações feministas). Desse modo, o conceito de gênero passa a enfatizar os processos de construção dos comportamentos em relação ao corpo e aos afetos, justamente para superar o “congelamento” das categorias de homem e mulher que advêm de descrições biológicas. Essas novas teorias procuraram desnaturalizar os padrões de “normalidade” que uma visão androcêntrica impõe por utilizar a aparência de homens e mulheres para legitimar uma relação de dominação masculina. Isso quer dizer, como afirma o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que as estruturas e instituições sociais partem de uma construção simbólica em que as características masculinas e femininas são biologizadas, naturalizadas e, portanto, dificilmente podem ser desconstruídas. Para a Sociologia, é importante ressaltar que as nossas identidades se formam nas relações sociais de oposição ou de aproximação. Portanto, nossa identidade de gênero passa por aspectos relacionais, sejam anatômicos, sejam psíquicos ou sociais. Mas é nas instituições sociais que podemos observar um processo mais rigoroso e sistemático de normas em relação ao gênero e à sexualidade. A família e a escola podem ser tomadas como duas grandes instituições que são responsáveis por reproduzir marcadores de gênero, assim como estereótipos em relação a homens e mulheres. Na família, a definição da identidade do bebê passa a ser debatida antes mesmo do seu nascimento: todos se perguntam se será menino ou menina, prevendo sua possível personalidade (“vai puxar ao pai/à mãe”), seus gostos e até mesmo sua profissão. Esse fato revela comonossa identidade central será construída de acordo com as expectativas em relação ao nosso gênero/sexo. Na escola, os uniformes se distinguem, assim como as conhecidas organizações de filas para meninos e para meninas. O banheiro, antes compartilhado por toda a família, torna-se um importante marcador de gênero nos primeiros espaços públicos que a criança vai frequentar. CONCLUSÃO: Para ficar claro Sexo: Refere-se às características biológicas dos indivíduos, como órgãos reprodutivos, hormônios e cromossomos. É frequentemente categorizado como masculino, feminino ou intersexo. Ou seja, é a dimensão biológica que define um indivíduo como homem ou mulher, baseado nas características genéticas e órgãos genitais. Sexualidade: Relaciona-se ao desejo, atração e comportamento sexual das pessoas. Inclui orientação sexual (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, etc.) e as diversas formas de expressão do desejo e intimidade. Ou seja, é a dimensão que engloba todos os aspectos da vida sexual: orientação sexual (atração por outros), a identidade de gênero etc. A orientação sexual define por quem uma pessoa é atraída, enquanto a identidade de gênero é como a pessoa se identifica. Gênero: Diz respeito aos papéis sociais, comportamentos e identidades que a sociedade atribui a indivíduos com base no seu sexo. O gênero é uma construção social, podendo ser binário (masculino e feminino) ou não-binário, dependendo do contexto cultural. É a construção social, comportamentos e expressões esperados para homens e mulheres. Já a Identidade de Gênero, é a experiência interna de alguém em relação ao seu gênero, pode ou não corresponder ao sexo biológico de nascimento. Pessoas trans, por exemplo, têm uma identidade de gênero que difere do sexo com que nasceram. Interseccionalidade – é o conceito que analisa como diferentes aspectos da identidade de uma pessoa (como raça, gênero, classe social, sexualidade, etc.) se cruzam e criam experiências únicas de discriminação ou privilégio. O termo foi cunhado pela jurista e professora americana Kimberlé Crenshaw em 1989, em um artigo sobre violência contra mulheres de cor. Ela desenvolveu o conceito para analisar como diferentes formas de discriminação, como raça, gênero e classe, interagem e se sobrepõem, criando experiências únicas e complexas de opressão. A interseccionalidade, portanto, permite analisar como diferentes formas de discriminação se articulam e se reforçam, criando situações de vulnerabilidade e desigualdade. É uma ferramenta importante para a análise crítica das estruturas sociais e para a luta por direitos e justiça social. ATIVIDADE 1 - Explique as diferenças entre os conceitos de sexo e gênero. Por que é importante entender essas distinções ao analisar as dinâmicas sociais? 2 - A sexualidade é uma dimensão importante da identidade humana. Cite dois exemplos de como a sociedade influencia a construção da sexualidade e reflita sobre as possíveis consequências dessa influência. 3 - Defina o conceito de interseccionalidade e analise como ele pode ser aplicado para compreender as múltiplas formas de discriminação que uma pessoa pode enfrentar. 4 - A partir do conceito de gênero, discuta como os papéis de gênero tradicionalmente atribuídos pela sociedade impactam as oportunidades e escolhas das pessoas. 5 - Reflita sobre como a interseccionalidade pode ser utilizada como uma ferramenta para promover maior equidade social em diferentes contextos, como na escola, no trabalho ou na vida cotidiana. image2.png image3.png image4.emf image5.emf image6.emf image7.emf image8.jpeg image9.png image10.png image11.png image1.png