Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO COMISSÃO DE GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS GABRIELE COSTA DA SILVA GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE PORTO ALEGRE 2025 GABRIELE COSTA DA SILVA GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE Trabalho de Conclusão de Curso de graduação apresentado ao Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Administração. Orientadora: Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza Porto Alegre 2025 GABRIELE COSTA DA SILVA GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial à obtenção do título de bacharela em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza Aprovada em: BANCA EXAMINADORA: __________________________________________________________________ Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza - UFRGS/EA Orientadora ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Fabio Bittencourt Meira - UFRGS/EA Examinador ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Pedro de Almeida Costa - UFRGS/EA Examinador CIP - Catalogação na Publicação Silva, Gabriele Costa da Gestão Comunitária e Desenvolvimento Institucional: о сазо do Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre / Gabriele Costa da Silva. -- 2025. 62 f. Orientador: Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza. Trabalho de conclusão de curso (Graduação) Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Administração, Curso de Administração, Porto Alegre, BR-RS, 2025. 1. Bancos comunitários. 2. Economia solidária. 3. Gestão das Organizações da Sociedade Civil - Gestão Social. I. Sarria Icaza, Profa. Dra. Ana Mercedes, orient. II. Título. Elaborada pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da UFRGS com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). RESUMO Este trabalho analisa as dinâmicas organizacionais do Banco Comunitário Cascata (BCC), localizado em Porto Alegre/RS, a partir da perspectiva do desenvolvimento institucional e de pesquisas recentes sobre Bancos Comunitários de Desenvolvimento. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com base em entrevistas, observação participante e análise documental, buscando compreender os desafios enfrentados e as estratégias adotadas pelo BCC na sua trajetória. A partir dessa análise, evidencia-se que a sustentabilidade da iniciativa envolve não apenas aspectos financeiros, mas também questões de mobilização comunitária, estrutura organizacional, articulação em redes e fortalecimento da base social. Ao transcender uma visão gerencial tradicional, o trabalho propõe uma leitura que valoriza o papel sociopolítico da gestão em Organizações da Sociedade Civil, especialmente em experiências de economia solidária que se constroem desde os territórios populares. Palavras-chave: Bancos comunitários; Economia solidária; Gestão das Organizações da Sociedade Civil – Gestão Social. ABSTRACT This paper analyzes the organizational dynamics of the Cascata Community Bank (BCC), located in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, from the perspective of institutional development and recent research on Community Development Banks. The research adopts a qualitative approach, based on interviews, focus groups, participant observation, and document analysis, seeking to understand the challenges faced and the strategies adopted by the BCC throughout its history. This analysis reveals that the initiative's sustainability involves not only financial aspects, but also issues of community mobilization, organizational structure, networking, and strengthening the social base. By transcending a traditional managerial perspective, the paper proposes an interpretation that values the sociopolitical role of management in Civil Society Organizations, especially in solidarity economy experiences built from popular territories. . Keywords: Community banks; Solidarity economy; Management of civil society organizations – Social management. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................. 08 2 BANCOS COMUNITÁRIOS E GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL..............................................................................................11 2.1 BANCOS COMUNITÁRIOS E SEUS OBJETIVOS…………..........................11 2.2 SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DE BANCOS COMUNITÁRIOS..........13 2.3 BANCO COMUNITÁRIO CASCATA...............................................................15 2.4 PERSPECTIVAS PARA ANALISAR A GESTÃO E A SUSTENTABILIDADE DAS OSCS E DAS ORGANIZAÇÕES DE ECONOMIA SOLIDÁRIA ..................17 2.4.1 A Gestão Social .........................................................................................18 2.4.2 As perspectivas sobre Desenvolvimento Institucional .........................19 2.5 UMA PROPOSTA DE EIXOS DE ANÁLISE ...................................................20 3 METODOLOGIA.................................................................................................22 4 O BANCO COMUNITÁRIO CASCATA: HISTÓRICO, ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO ATUAL .................................................................................24 4.1 O SURGIMENTO ............................................................................................25 4.2 ORGANIZAÇÃO ATUAL ........................................................................,........29 4.2.1 As Feiras de Troca .....................................................................................30 4.2.2 Atividades realizadas no BCC ...................................................................32 4.2.3 Parceiros e rede de apoio ..........................................................................33 4.3 O BCC COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO LOCAL …..............37 5 ANÁLISE DOS RESULTADOS…………….........................................................38 6 CONCLUSÕES ..................................................................................................58 REFERÊNCIAS......................................................................................................60 8 1 INTRODUÇÃO Os bancos comunitários desempenham um papel fundamental na democratização do acesso aos serviços financeiros, especialmente em regiões periféricas e historicamente desassistidas. Ao promover a inclusão social e o fortalecimento da economia local, essas instituições contribuem para a criação de uma sociedade mais justa e igualitária, minimizando as desigualdades e gerando oportunidades de desenvolvimento sustentável (Menezes; Santos; Mariano, 2019). A gestão dos bancos comunitários se fundamenta em princípios éticos, solidários, transparentes e participativos, permeando as ações e decisões dos bancos comunitários. Por meio desse modelo de gestão, busca-se promover relações mais justas e igualitárias, que estejam alinhadas com os objetivos sociais e a sustentabilidade financeira, priorizando o desenvolvimento local e o bem-estar das comunidades atendidas (Oliveira; Benini; Melges, 2023). No entanto, a sustentabilidade financeira dos bancos comunitários enfrenta desafios significativos, que vão desde a captação de recursos até seu gerenciamento.36 Uma das parcerias mais importantes e frequentes é com o Ambulatório de Terapias Naturais do Hospital Espírita de Porto Alegre, que semanalmente oferece aulas de ioga para as mulheres do território, além de realizar oficinas mensais sobre alimentação saudável e autocuidado. A Escola Estadual Oscar Pereira também é uma parceira relevante, especialmente por ter sediado oficinas com os estudantes que escolheram o nome da moeda Antena. Mais recentemente, a escola passou a integrar o comitê de análise do microcrédito com a participação da professora Ana Regina, fortalecendo o vínculo entre o banco e as instituições de ensino da região. Outras parcerias importantes incluem o Posto de Saúde, o MTST e o Levante Popular da Juventude, que apoiam pontualmente ações como a distribuição de cestas básicas. Já o Koinós, associação de apoio comunitário, colaborou ativamente na reestruturação da sede da associação e apoiou o início do projeto das marmitas populares, fornecendo alimentos como arroz, feijão e banha por cerca de um ano, a partir da apresentação da proposta de “feitio” às sextas-feiras. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialmente por meio do projeto de extensão NEGA, é uma das parcerias mais próximas e constantes. A universidade contribui com formação, sistematização de dados, apoio metodológico e articulação com outras redes e programas. Além disso, estudantes de graduação e pós-graduação têm atuado diretamente no banco, como no caso de C. e de J., ampliando a capacidade de planejamento e implementação de ações. Outro parceiro ativo é o coletivo que mantém a oficina de capoeira, sendo responsável também, no passado, pelo custeio de atividades de biodança e ginástica. Hoje, a capoeira permanece como atividade fixa, com professores pagos por esse grupo. A atividade também contribui com a circulação da moeda Antena entre crianças e jovens: segundo relato de J., os alunos recebem Antenas como incentivo ao desempenho nas aulas, podendo utilizá-las em comércios locais – uma forma prática e pedagógica de aprender sobre economia solidária desde cedo. Além desses parceiros recorrentes, o banco mantém relações institucionais com iniciativas públicas. Uma dessas relações se dá com o Programa Cozinha Solidária, com o qual o banco articula o fornecimento de marmitas a famílias em situação de vulnerabilidade. Outro exemplo é o Programa Paul Singer, no qual K. atua como agente territorial de economia popular solidária, articulando ações e ampliando o acesso a políticas públicas voltadas à economia solidária. 37 Conforme relataram K. e J. em entrevistas, essas parcerias são ativadas conforme a demanda e a construção de vínculos de confiança. Há uma clara valorização da reciprocidade e da construção conjunta, e os parceiros mais próximos são vistos como parte do cotidiano do banco. O reconhecimento da comunidade como protagonista do processo também é central, sendo os apoios externos compreendidos como complementares – e não substitutos – da mobilização local. Essa rede de cooperação demonstra que a sustentabilidade do BCC vai além da questão financeira. Ela é fortalecida pela solidariedade institucional, pela capacidade de articulação com diferentes atores e pelo compromisso coletivo com a transformação do território. A construção dessas alianças é, portanto, uma estratégia essencial de desenvolvimento institucional, como apontam Armani (2013) e Rigo et al. (2023), ao destacarem a importância de redes multissetoriais como base para a sustentabilidade e autonomia das organizações populares. 4.3 O BCC como Instrumento de Transformação Local O Banco Comunitário Cascata é fruto de uma longa trajetória de mobilização popular, protagonismo feminino e solidariedade na Vila Primeiro de Maio, em Porto Alegre. Sua criação não representou um ponto de partida isolado, mas sim a continuidade de práticas comunitárias que há décadas buscavam formas alternativas de desenvolvimento, inclusão e dignidade para os moradores da região. Desde sua formalização em 2016, o banco consolidou-se como um espaço de articulação social, inovação econômica e fortalecimento dos laços comunitários. Através de iniciativas como as Feiras de Troca, as Rodas de Conversa e a construção coletiva da moeda social Antena, o BCC fortalece a circulação de bens e saberes, estimula a autonomia financeira e amplia a participação cidadã. Essas ações não apenas fomentam a economia solidária, mas também criam condições para a construção de uma sociabilidade baseada no cuidado, no apoio mútuo e na valorização do território (NEGA, 2017; Nascimento, Silva, Ribeiro, 2023). A experiência do Banco Comunitário Cascata demonstra que é possível construir respostas locais a desafios estruturais como a exclusão econômica e a falta de acesso a políticas públicas. Sua atuação evidencia a importância de se apoiar em saberes populares e em formas de gestão democrática que dialogam diretamente com a realidade vivida pela comunidade. Mais do que uma instituição 38 financeira, o BCC tornou-se um agente de transformação social, promovendo novas perspectivas de vida e contribuindo para a construção de um território mais justo, solidário e autônomo (COSTA, 2025; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). 5 ANÁLISE DOS RESULTADOS O capítulo anterior já apresentou os primeiros resultados da pesquisa, ao descrever o contexto territorial, o histórico, a estrutura e o funcionamento atual do Banco Comunitário Cascata (BCC), com base em observações de campo, entrevistas e documentos institucionais. A partir dessas informações, este capítulo aprofunda a análise do BCC com base em uma combinação dos vetores de desenvolvimento institucional propostos por Armani (2013) com as dimensões analíticas elaboradas na Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento, coordenada por Rigo et al. (2023). A esses referenciais, somam-se as contribuições de Silva (2020a; 2020b), que enfatiza a importância das dinâmicas sociopolíticas na construção da legitimidade, sustentabilidade e incidência das organizações da sociedade civil. A escolha por essa abordagem integrada tem como objetivo captar não apenas os aspectos gerenciais da experiência do BCC, mas também os elementos simbólicos, relacionais e políticos que estruturam sua atuação no território da Vila Primeiro de Maio, em Porto Alegre. A análise foi construída com base em fontes empíricas, incluindo entrevistas semiestruturadas com integrantes da gestão, conversas informais com apoiadoras e apoiadores, observações diretas em atividades como as Feiras de Troca, rodas de conversa e oficinas comunitárias, bem como a análise de documentos institucionais, relatórios de estágio e materiais informativos sobre o bairro Cascata. Minha experiência enquanto estagiária no Banco Comunitário Cascata — atuando em ações como a contabilização simbólica da moeda Antena, apoio às feiras e participação nas rodas de conversa — contribuiu para uma escuta sensível e um olhar situado sobre as práticas desenvolvidas. O contato com estudantes da UFRGS vinculados ao projeto de extensão NEGA também ampliou o entendimento sobre os processos formativos e as articulações institucionais que permeiam a atuação do banco. 39 A partir desse material, organizei a análise em seis eixos principais: (1) base social e legitimidade; (2) autonomia e sustentabilidade; (3) estrutura organizacional e gestão; (4) participação e controle social; (5) capacidade de articulação e incidência política; e (6) inclusão financeira, moeda social e microcrédito. Esses eixos não foram definidos de maneira autoral ou isolada, mas resultam da articulação entre dois referenciais teóricos complementares: os vetores de desenvolvimento institucional propostos por Armani (2013), voltados à análise das capacidades organizacionais, relacionais e políticas das organizaçõesda sociedade civil; e as dimensões analíticas desenvolvidas pela Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento, coordenada por Rigo et al. (2023), que propõem uma leitura específica do funcionamento e dos desafios dos BCDs brasileiros. A combinação desses referenciais permite captar tanto as estruturas institucionais e práticas organizativas quanto os processos de legitimidade, sustentabilidade e incidência que atravessam a experiência do BCC. Cada eixo analítico articula elementos dessas bases teóricas com os dados empíricos da experiência concreta do Banco Comunitário Cascata, buscando compreender como se constrói e se sustenta uma iniciativa comunitária em um contexto marcado por vulnerabilidades sociais, mas também por práticas solidárias, mobilização territorial e construção coletiva de alternativas econômicas e políticas. Eixo 1 - Base social e legitimidade A base social e a legitimidade constituem um dos principais vetores de desenvolvimento institucional, conforme proposto por Armani (2013). Esse vetor diz respeito à relação da organização com seu público de referência, à capacidade de enraizamento no território e ao reconhecimento social de sua atuação. Envolve também a forma como a organização constrói pertencimento, escuta sua base e responde às demandas locais de forma participativa. Na Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. (2023), esse aspecto aparece nas dimensões D1 (identificação e condições gerais) e D2 (território e abrangência), que enfatizam a importância do vínculo com a comunidade e da atuação localizada para o fortalecimento dos bancos comunitários. Segundo Silva (2020a), a legitimidade institucional está relacionada tanto à confiança social quanto 40 à coerência entre missão, práticas e reconhecimento comunitário, o que exige formas de gestão transparentes e participação efetiva da base social. No caso do Banco Comunitário Cascata (BCC), sua base social está diretamente vinculada à criação da Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, mobilizada especificamente para permitir o surgimento do banco. Embora já existisse anteriormente uma Associação de Moradores da Vila Primeiro de Maio, reconhecida por sua trajetória de mobilização comunitária, foi necessário criar uma nova entidade para viabilizar juridicamente o BCC. Esse processo fortaleceu o vínculo com o território desde o início e construiu uma base ativa de moradoras engajadas. Atualmente, a atuação do banco está concentrada exclusivamente na Vila Primeiro de Maio, localizada no bairro Cascata, em Porto Alegre (dimensões D1 e D2). Essa delimitação territorial se deve, em parte, à existência da sede física compartilhada, que oferece estrutura para o funcionamento das ações. Houve, em anos anteriores, uma tentativa de ampliar o alcance territorial por meio de Feiras de Troca no bairro Renascença. No entanto, como relatou J.S.S.1, essa experiência não teve continuidade por conta das diferenças de dinâmica comunitária, fragilidades institucionais locais e ausência de infraestrutura, reforçando o enraizamento do BCC no território de origem. O reconhecimento simbólico do banco pela comunidade se dá, em grande parte, pela existência de um espaço físico. Embora eu não seja moradora da vila, minha experiência no campo revelou que muitas pessoas ainda não conhecem o local. A legitimidade também se constrói por meio das lideranças. A forte presença de figuras como J.S.S. e K.G, esta última atualmente reconhecida como agente comunitária, fortalece a imagem do banco como um espaço construído "de dentro para fora". Ambas são mulheres ativas na comunidade e em diversos projetos sociais. Para K.G., "o banco vem se consolidando como um espaço para as mulheres, crianças, um espaço de acolhimento, de educação, de assistência e de emancipação das mulheres, de lutas. O que dá essa legitimidade é o trabalho que vem sendo realizado". A moeda social Antena também desempenha papel simbólico importante. Seu nome foi escolhido por meio de uma oficina facilitada por Solange Manica, fundadora 1 Informação verbal cedida por J.S.S.; A.P; C.G. e K.G., p. 42 a 50, Porto Alegre, 2025. 41 da Rede Estadual de Trocas do RS, junto aos alunos do Colégio Oscar Pereira. Foram sugeridos nomes como Cacetinho, Gruta e Pila, e "Antena" foi o mais votado. Segundo J.S.S o nome faz referência ao Morro da Embratel — conhecido como Morro da Antena — visível desde a região da vila, o que confere uma identidade visual e territorial à moeda. Como destacou J.S.S. "Se tu prestar atenção, tu vê as antenas, tu sabe que ali é o Morro da Embratel". Por outro lado, eventos como as Feiras de Troca têm aumentado o reconhecimento do banco na comunidade. Segundo J.S.S., essas feiras têm sido um "carro-chefe" da atuação e contribuíram para fortalecer outras iniciativas, como os projetos de geração de renda e a cozinha solidária. O estagiário e a bolsista do NEGA destacam que, embora a participação comunitária ainda seja um desafio, há um esforço contínuo de engajamento por meio de redes sociais, rodas de conversa e convites informais. Cada projeto tem suas próprias reuniões e formas de escuta, além das assembleias gerais que mantêm a abertura ao diálogo com a comunidade. A partir da minha experiência de escuta em campo, relato o caso de uma moradora da comunidade e uma das atuais coordenadoras, mãe solo de dois filhos com deficiência (dentro do espectro autista), que participa frequentemente das atividades do banco. Segundo ela, o espaço a ajudou a entender seus direitos como mulher e mãe atípica, além de lhe proporcionar acolhimento e aprendizado. A presença de uma advogada em rodas de conversa trouxe esclarecimentos sobre pensão, união estável e situações de violência, destacando o papel do banco como espaço de apoio e informação. A partir da minha escuta e presença nesses momentos, ficou evidente a força das trocas de saberes entre as mulheres e o impacto dessas iniciativas no fortalecimento pessoal e coletivo das participantes. Assim, o BCC é reconhecido como espaço de resistência e proteção, especialmente para mulheres e crianças. Nos relatos, aparecem temas como combate à violência doméstica, promoção da autoestima, geração de renda e empoderamento feminino. Como observei nas rodas de conversa, abordaram-se temas como o direito das mulheres ao amor e respeito, a afirmação de que criança não é mãe, e o incentivo à busca por autonomia e informação. Esses elementos fortalecem sua legitimidade simbólica (Armani, 2013; Silva, 2020a). Outro ponto importante é a dificuldade de distinguir os papéis entre o banco e a associação gestora. A prestação de contas, formalmente, é da associação, mas na prática a gestão é compartilhada e transparente, com informações sendo divulgadas 42 em grupos de WhatsApp e discutidas nas assembleias. Segundo observação empírica, houve um aumento na participação comunitária na última assembleia, o que motivou a ampliação do número de membros do conselho e de suplentes — um indicativo de que a legitimidade institucional também se reforça com a democratização das decisões (D1 e D2). A partir da minha experiência como pesquisadora e também como profissional atuante em uma instituição financeira privada, percebo que o reconhecimento simbólico de um banco comunitário não depende apenas de sua atuação concreta, mas também da capacidade de comunicar sua presença e propósito de maneira acessível e constante à população local. Eixo 2 - Autonomia e sustentabilidade O vetor da autonomia e sustentabilidade institucional envolve a capacidade da organização de manter suas atividades de forma contínua, com relativa independência em relação a ciclos políticos ou a fontes externas de financiamento. Para Armani (2013), a sustentabilidade não se restringe à dimensão financeira, mas dizrespeito à capacidade de sustentar um projeto político, com coerência entre meios e fins, em diálogo com sua base social. Silva (2020a) também destaca que a sustentabilidade institucional depende de uma construção coletiva de estratégias que articulem a gestão, o financiamento e o vínculo com o território, garantindo estabilidade e coerência no longo prazo. Na Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. (2023), essas questões aparecem especialmente na dimensão D4 (sustentabilidade financeira e parcerias). A dimensão D3 aponta para a importância da existência de equipes organizadas, com divisão de responsabilidades e gestão democrática, enquanto a D4 enfatiza a relevância da diversificação de fontes de financiamento, o acesso a editais e a capacidade de estabelecer parcerias duradouras. No caso do Banco Comunitário Cascata, sua autonomia financeira ainda é frágil, especialmente no que se refere à captação de recursos e ao tempo disponível das lideranças voluntárias (dimensões D3 e D4). Como pontuou K.G., as fragilidades atuais estão na mobilização, engajamento, captação de recursos e na gestão. A maior parte das ações realizadas até o momento foi viabilizada por recursos de projetos temporários, como o prêmio Periferia Viva (no valor de R$ 50.000), que foi 43 fundamental para a reforma do espaço físico, compra de equipamentos e estruturação da moeda social e da política de microcrédito. Além disso, o banco recebeu um apoio de R$ 10.000 da iniciativa Justa Troca, voltado à implantação da moeda e do crédito comunitário. Consciente da limitação desses recursos e diante da pergunta sobre como o banco seguirá após o término dos apoios externos, a atual gestão tem buscado estratégias de sustentabilidade para além dos editais (D4). Segundo K.G., estão sendo planejadas ações como campanhas de arrecadação com tampinhas plásticas, eventos anuais para geração de fundos e a produção e comercialização de produtos artesanais vinculados ao banco. Essas estratégias visam garantir uma renda mínima recorrente para manter o espaço ativo, mesmo após o fim dos financiamentos externos. Ela destaca que o grupo está aberto a novas ideias nesse sentido. Ariel e Catherine, no grupo focal, reforçam essa preocupação, destacando que garantir a sustentabilidade do banco a longo prazo depende da ampliação das formas de geração de renda e da diversificação das parcerias institucionais. Também reconhecem que há um desafio constante em equilibrar as demandas operacionais com a construção de estratégias sustentáveis e participativas (dimensões D3 e D4). Embora ainda haja uma sobrecarga nas figuras centrais de liderança, especialmente K.G. e J.S.S., há um esforço para distribuir as tarefas e formar outras pessoas para a continuidade das ações (D3). Como afirmou K.G.: “Às vezes achamos que não o banco continuaria sem elas, e acabamos nos surpreendendo. Trabalhamos para que mais pessoas se engajem no mesmo nível que o nosso, ou em algum nível pelo menos”. Essa tentativa de ampliar a participação e criar uma rede de corresponsabilidade é central para fortalecer a sustentabilidade institucional. Silva (2020) reforça que a construção da sustentabilidade exige processos de formação interna, partilha de responsabilidades e fortalecimento de vínculos organizacionais. Apesar de o banco receber apoio de projetos e parcerias institucionais, a autonomia nas decisões sempre foi preservada (dimensão D4). Segundo J., "nenhum dos apoiadores entrou com alguma voz ativa. Eles todos nos ouvem e nós tomamos as decisões de qualquer implementação que for fazer. Eles nunca se meteram, nenhum dos apoiadores se meteu assim, em ser como eles queriam". Isso demonstra que a condução do banco é feita de forma autônoma pelas mulheres 44 envolvidas, garantindo coerência com os princípios comunitários e solidários que orientam suas ações (Armani, 2013). Do ponto de vista político, a associação gestora do banco não possui vínculo com nenhum partido. Como esclarece K.G., "a associação não tem partido, mas algumas pessoas que estão na associação e com quem nós articulamos têm, mas o foco é a realização do trabalho, orientadas por uma visão socialista". Essa autonomia política garante que o banco atue com independência e comprometido com os valores e as demandas da comunidade, reforçando sua capacidade de autogestão (Silva, 2020a). O Banco Comunitário Cascata tem buscado fortalecer sua autonomia institucional, articulando-se com políticas públicas e redes de economia solidária (dimensão D4), como no caso do Programa Cozinha Solidária. Embora ainda não participe ativamente de todas essas redes, o BCC tem assento no Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol) e mantém diálogo com iniciativas semelhantes. Essas articulações ampliam a visibilidade do banco e oferecem apoio político e institucional, sem comprometer sua capacidade decisória ou os vínculos com a comunidade — aspectos centrais da autonomia, entendida aqui como coerência entre fins e meios e compromisso com sua base social (Armani, 2013). Dessa forma, embora enfrente desafios importantes, o BCC vem desenvolvendo caminhos para fortalecer sua sustentabilidade e autonomia, com base na criatividade, solidariedade e articulação comunitária. O reconhecimento das fragilidades é parte do processo de construção institucional, e a busca por fontes alternativas de recursos, combinada com estratégias de engajamento e formação de lideranças, é um passo relevante para garantir a continuidade da proposta no território. Essa análise reforça a importância de compreender a sustentabilidade como um processo político e relacional, em consonância com os marcos teóricos de Armani (2013), Silva (2020a, 2020b) e os indicadores empíricos da pesquisa de Rigo et al. (2023). A partir da minha vivência de campo, compreendo que a sustentabilidade do BCC não se limita à arrecadação de recursos. Existe uma forma de sustentabilidade social, construída no apoio mútuo entre mulheres, na circulação de saberes, no cuidado com o território e no compromisso com a transformação social. A presença constante das lideranças e a dedicação das voluntárias, mesmo diante de adversidades, mostram que a autonomia institucional também se alimenta de 45 vínculos afetivos, confiança e pertencimento. No entanto, essa mesma força relacional que sustenta o banco pode se tornar uma fragilidade quando não acompanhada de estratégias estruturadas de financiamento. A ausência de uma fonte estável de recursos e a dependência de editais pontuais revelam um limite importante à autonomia financeira da iniciativa. Além disso, a sobrecarga de poucas pessoas e a informalidade na gestão dificultam o planejamento de longo prazo e a construção de uma transição geracional sólida. Assim, embora o BCC tenha desenvolvido formas criativas de manter suas atividades vivas, ainda enfrenta desafios significativos para garantir uma autonomia sustentável, especialmente em termos financeiros e organizacionais. A sustentabilidade, nesse sentido, precisa ser compreendida como um processo complexo, que exige tanto a valorização das relações comunitárias quanto o fortalecimento institucional da organização. Caminhar nessa direção implica investir na formação de novas lideranças, no aprimoramento da gestão e na construção de estratégias de financiamento de base, sem abrir mão da escuta, do diálogo e do protagonismo local que tornam o BCC uma experiência única de economia solidária e transformação social. Eixo 3 - Estrutura organizacional e gestão A estrutura organizacional e os processos de gestão são aspectos centrais para o desenvolvimento institucional do Banco Comunitário Cascata. Segundo Armani (2013), a institucionalização de um projeto está diretamente relacionada à sua capacidade de organizar tarefas, distribuir responsabilidades e adotar formasdemocráticas de decisão. A Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. (2023) destaca essas questões na dimensão D3 (gestão e pessoas), que avalia o grau de formalização das equipes, os mecanismos de tomada de decisão e a existência de processos de capacitação e partilha interna. No caso do BCC, a gestão ocorre de maneira coletiva, com base em uma organização horizontal e informal. Apesar de a associação gestora ter cargos definidos — K.G. como coordenadora administrativa, J.S.S. como coordenadora financeira, Miriam como coordenadora de comunicação e J. como coordenadora de meio ambiente —, as decisões são tomadas de forma conjunta pelas principais lideranças, por meio de reuniões internas, grupos de WhatsApp e rodas de 46 conversa. Segundo Ariel, essa formalização recente por meio da assembleia apenas reconheceu funções que essas mulheres já vinham exercendo na prática. Ele observa que todos se envolvem nas atividades, independentemente dos cargos, com exceção da coordenação financeira, que exige maior formalidade devido ao acesso bancário e à responsabilidade com os recursos. A sobreposição entre as estruturas do banco e da associação gestora reflete uma dinâmica observada em diversos BCDs analisados por Rigo et al. (2023), o que dificulta a delimitação clara de funções. Não há uma separação formal entre quem atua no banco e quem atua na associação. Essa sobreposição permite uma gestão integrada e voltada às demandas concretas da comunidade, mas também dificulta a institucionalização de papéis e a ampliação da equipe. Apesar disso, não se trata de uma relação de sobreposição de poderes, e sim de uma falta de discriminação clara entre o que pertence à estrutura do banco e à da associação. A prestação de contas, por exemplo, é feita em conjunto, refletindo essa integração. Ainda assim, o banco conta com atores específicos não diretamente ligados à associação, como Ariel (estagiário da universidade) e Catherine (aluna da UFRGS vinculada ao projeto NEGA), evidenciando que há uma atuação complementar entre os dois espaços. A divisão de tarefas ocorre informalmente, mas com padrões bem estabelecidos na prática. J.S.S. e J. estão mais ligadas à cozinha e às atividades alimentares; K.G. à organização dos projetos, oficinas e parcerias; Ariel à gestão das trocas e à moeda social; Catherine, bolsista do NEGA à elaboração das políticas de microcrédito e à articulação com universidades. Há ainda o apoio de outras mulheres que colaboram como voluntárias em atividades específicas. Essa configuração reflete o que Rigo et al. (2023) identificam como característico dos BCDs: estruturas organizacionais reduzidas, baseadas na participação de militantes e lideranças comunitárias, com baixa formalização administrativa (D3). A gestão financeira do banco é feita com base na transparência e no compartilhamento de informações. Segundo as entrevistas, todas as integrantes do núcleo gestor têm acesso aos dados sobre os recursos dos projetos, e as principais decisões de compra e uso de verbas são discutidas coletivamente. Isso se aplica tanto aos recursos do Periferia Viva quanto aos demais apoios recebidos. A contabilidade é feita com prestação de contas formal. No entanto, é importante destacar que o debate sobre profissionalização, no contexto dos BCDs e das OSCs, não se refere apenas à contratação de funcionários 47 ou à adoção de modelos empresariais. Como argumentam Armani (2013) e Silva (2020a), a profissionalização pode ser compreendida como a qualificação das ações, a sistematização dos processos e o fortalecimento da capacidade institucional das organizações — sempre respeitando seus valores comunitários e horizontais. Há um reconhecimento claro, por parte das coordenadoras e participantes do Banco Comunitário Cascata, sobre a importância da formação continuada e da qualificação das ações para o fortalecimento institucional. A busca por capacitação aparece especialmente nas áreas de alimentação, comunicação e gestão, refletindo uma preocupação com a qualidade dos serviços prestados e com a sustentabilidade das atividades. Na área da alimentação, J.S.S. relatou que ela e uma colega participaram de um curso de boas práticas alimentares promovido pela Faculdade QI, com o objetivo de melhorar as condições da cozinha solidária. Há o desejo de estender essa formação para outras mulheres envolvidas, além do interesse em realizar oficinas de precificação e elaboração de tabela nutricional, com apoio de nutricionistas. Essas iniciativas visam tanto aprimorar a alimentação oferecida à comunidade quanto fomentar novas formas de geração de renda. Essas experiências demonstram que, mesmo mantendo uma gestão comunitária e horizontal como princípio, há abertura para processos de profissionalização entendidos como fortalecimento técnico e organizacional. Essa profissionalização se dá por meio de formações específicas, partilha de saberes e construção de instrumentos que melhorem o desempenho das ações — sem romper com os princípios de autonomia, solidariedade e participação coletiva que sustentam o BCC. Vale destacar que, atualmente, a única pessoa remunerada é o estagiário vinculado à universidade. Todas as demais lideranças e colaboradoras atuam de forma voluntária, o que reforça o caráter militante e comunitário da gestão, mas também aponta desafios de continuidade e dedicação diante das múltiplas demandas do cotidiano. A partir da minha observação direta e das entrevistas realizadas, percebo que a estrutura organizacional do BCC, embora informal, é funcional para a realidade local. O desafio maior está em garantir a continuidade e a distribuição equilibrada das tarefas, evitando a sobrecarga e incentivando a entrada de novas pessoas. A 48 gestão horizontal, baseada na confiança e na convivência cotidiana, é um dos pontos fortes do banco, mas precisa ser acompanhada de estratégias que fortaleçam a institucionalidade e a sustentabilidade no longo prazo. O investimento em capacitações específicas, como os cursos já realizados ou desejados pelas lideranças, pode ser um caminho promissor nesse sentido, equilibrando o compromisso comunitário com práticas mais estruturadas e eficazes de gestão. Eixo 4 - Participação e controle social A participação e o controle social são dimensões centrais para o fortalecimento institucional de organizações comunitárias. Segundo Armani (2013), práticas democráticas de decisão, escuta ativa da base social e mecanismos de prestação de contas contribuem para legitimar as lideranças e ampliar o comprometimento coletivo com os objetivos do projeto. A Pesquisa Nacional dos BCDs (Rigo et al., 2023) aborda esses aspectos na dimensão D5 (participação e controle social), ressaltando que a baixa mobilização popular, o personalismo nas lideranças e a informalidade nas decisões são desafios comuns nos bancos comunitários. No caso do Banco Comunitário Cascata, observa-se uma gestão baseada na confiança, proximidade e horizontalidade. A escolha das lideranças ocorre em assembleias abertas, como a que formalizou os cargos atuais de coordenação. Segundo Ariel, essa formalização apenas reconheceu o que já acontecia de maneira informal: as mulheres mais engajadas e presentes passaram a ocupar oficialmente as funções que já exerciam na prática. Isso revela um estilo de liderança não autoritário, mas construído pela trajetória de atuação das coordenadoras, com forte vínculo com a comunidade. A escuta da base ocorre principalmente por meio das rodas de conversa, dos grupos de WhatsApp, das feiras de troca e dos encontros informais no espaço do banco. De acordo com Catherine, cada projeto tem seus próprios momentos de diálogo e construção coletiva. A assembleia, realizada a cada dois anos, também é um espaço relevante para decisões mais amplas, como a definição da coordenaçãoe a ampliação do conselho. A convocação para essa assembleia é feita por meio digital e com avisos no espaço físico do banco, com um edital lançado com antecedência para que as pessoas possam entender o processo, se associar, se 49 candidatar e se preparar para a votação. Essa dinâmica demonstra a valorização de práticas participativas, ainda que nem sempre estruturadas formalmente. Apesar do esforço de horizontalidade, há reconhecimento de que a participação comunitária ainda é limitada. Como expressaram A.P. e C.G., muitas decisões ainda recaem sobre um núcleo restrito de pessoas, geralmente as mesmas mulheres que estão à frente das ações. Ariel destacou que "às vezes as decisões acabam dependendo de nós, o que mostra que o grupo ainda não é tão autônomo quanto poderia". C. G. complementou dizendo que "muitas vezes são as mesmas pessoas que participam, e outras nem sabem o que acontece ali no banco". Essa percepção é reforçada por J.S.S., que comentou: “A gente vai fazer 10 anos que a gente está, mas ainda mesmo tendo todo esse tempo, a gente não é conhecido em toda a nossa comunidade. Aos pouquinhos, uma vai passando pra outra, vai passando pra outra, vai passando pra outra. E aí tá conhecendo. Então, cada feira de troca, a gente vê que aparece três, quatro diferentes." Essas falas apontam para o desafio de ampliar o alcance, fortalecer o sentimento de pertencimento e transformar o banco em um espaço reconhecido mais amplamente pela comunidade. Isso se alinha ao que aponta Rigo et al. (2023), ao indicar que grande parte dos BCDs enfrenta dificuldades em ampliar sua base ativa de participação (D5). A ausência de engajamento dificulta a ampliação do controle social, tornando a mobilização de novos participantes um desafio constante. No entanto, iniciativas como as feiras de troca, a cozinha solidária e os cursos oferecidos são estratégias importantes para atrair novos públicos e estimular o sentimento de pertencimento. A inclusão de mulheres em situação de vulnerabilidade, o acolhimento de mães com filhos pequenos e a valorização do conhecimento popular contribuem para construir uma cultura participativa baseada na solidariedade e na escuta. Do ponto de vista da prestação de contas, as coordenadoras relatam que todas as informações financeiras são compartilhadas entre as gestoras, e que há transparência nas decisões sobre uso de recursos. O acesso às contas bancárias é restrito às coordenadoras responsáveis, mas as decisões são tomadas coletivamente, e os relatórios de gastos são apresentados ao grupo. Essa prática fortalece a confiança, mesmo diante das limitações estruturais. 50 A partir da minha observação direta, percebo que o estilo de liderança no BCC é marcadamente democrático e comprometido com os princípios da economia solidária. Não há imposições ou centralização autoritária; ao contrário, há um esforço visível de incluir, escutar e valorizar cada participante. No entanto, o desafio está em tornar esse ideal de participação mais concreto no cotidiano, ampliando a base ativa, estimulando a corresponsabilidade e consolidando espaços de deliberação mais frequentes. A aposta em rodas de conversa, formação de lideranças e atividades educativas é uma estratégia potente para tornar a gestão ainda mais participativa e alinhada com os princípios que a fundaram. Eixo 5 - Capacidade de articulação e incidência política A capacidade de articulação e incidência política diz respeito à inserção da organização em redes mais amplas de diálogo, cooperação e influência, tanto com movimentos sociais quanto com instituições públicas e outras organizações da sociedade civil. Para Armani (2013), esse vetor é essencial para o fortalecimento institucional, pois amplia o poder de ação da organização para além do território imediato e contribui para sua sustentabilidade política. Isso ocorre por meio da legitimação da atuação pública, da ampliação do acesso a recursos e da possibilidade de incidir em políticas públicas. Já Rigo et al. (2023), ao analisarem os Bancos Comunitários de Desenvolvimento, evidenciam que essa dimensão perpassa tanto a D4 (sustentabilidade financeira e parcerias) quanto a D5 (participação e controle social), ao mostrar que uma atuação articulada é fundamental para garantir visibilidade, captação de recursos e atuação em rede. No caso do Banco Comunitário Cascata, observo uma atuação que busca construir pontes com diferentes instituições e redes, embora nem sempre de forma sistemática. Atualmente, o banco tem assento no Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol) e mantém articulação com o Fórum Gaúcho de Economia Solidária, além de participar pontualmente de iniciativas em rede. A relação com a Avesol e o Justa Troca, por exemplo, tem se dado mais por trocas de experiências do que por participação contínua em fóruns ou instâncias deliberativas. Isso evidencia o desafio apontado por Rigo et al. (2023) quanto à dificuldade de integração ativa dos BCDs em redes políticas e colaborativas (D5). 51 O banco também tem estabelecido parcerias com programas públicos, como o Programa Cozinha Solidária e o Programa Paul Singer, através do qual K. atua como agente territorial de economia popular solidária. Esses vínculos com políticas públicas ampliam a inserção institucional do banco e contribuem para a visibilidade da sua atuação em rede, reforçando a importância das articulações estratégicas para garantir maior autonomia institucional e capacidade de influência, como destaca Armani (2013). Também é importante destacar a aproximação com universidades, como a UFRGS, por meio do projeto NEGA. A parceria é constante, especialmente no apoio a formações e atividades educativas, com atuação de bolsistas e voluntários(as) em oficinas, diagnósticos e formações fortalecendo a articulação com o campo acadêmico e contribuindo para a sistematização de experiências e construção de conhecimento compartilhado. Isso está alinhado com a dimensão D4 da pesquisa de Rigo et al. (2023), ao destacar a relevância de parcerias duradouras para a sustentabilidade institucional. No que diz respeito a parcerias locais, o BCC mantém vínculos diversos com organizações do território. Entre os parceiros frequentes estão o Ambulatório de Terapias Naturais, que oferece aulas de ioga e oficinas de alimentação saudável; a Escola Oscar Pereira e o posto de saúde local, que colaboram pontualmente; e o Koinós, que apoiou a associação na fase de transição. O MTST também atua na doação de cestas básicas, e o Levante Popular da Juventude realiza ações conjuntas. Há ainda um grupo de apoiadores que garantiram por um tempo os salários de professores de capoeira, ginástica e biodança, sendo que atualmente apenas o professor de capoeira permanece ativo. Esses arranjos mostram uma rede de apoio sólida, ainda que desigual, e evidenciam a centralidade das parcerias para o funcionamento cotidiano do banco — conforme reforçado por Rigo et al. (2023), que apontam a diversidade e qualidade das parcerias como um critério relevante de avaliação institucional (D4). Durante as entrevistas, percebi que as lideranças do BCC valorizam esses vínculos, mas também reconhecem que ainda é necessário ampliar a presença do banco em espaços de incidência política mais estratégicos. A participação nesses espaços pode contribuir para influenciar políticas públicas locais voltadas à economia solidária e ao fortalecimento de territórios periféricos. Esse desafio de ampliação e consolidação da articulação política é coerente com o que Armani 52 (2013) descreve como um processo contínuo de fortalecimento institucional por meio do diálogo e da construção de legitimidade externa. Na minha análise, a articulação política do BCC tem um grande potencial, mas ainda carece de estrutura e tempo disponível das lideranças para se consolidar.A depender de recursos e de maior divisão de tarefas, o banco poderá aprofundar sua presença em fóruns, conselhos e redes de cooperação, o que fortaleceria sua legitimidade e ampliaria seu campo de atuação. Ao mesmo tempo, reforça-se a importância da integração dos BCDs em redes de cooperação para superar suas fragilidades estruturais e garantir maior capacidade de incidência e representação. Assim, a capacidade de articulação e incidência política do BCC está em construção. As experiências existentes demonstram abertura para o diálogo e para a colaboração interinstitucional, mas o avanço nessa dimensão dependerá do fortalecimento interno, da formação de novas lideranças e da ampliação da base ativa de voluntários e parceiros. Eixo 6 - Inclusão financeira, microcrédito e moeda social A inclusão financeira é um dos pilares centrais da atuação dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs). Segundo Rigo et al. (2023), a dimensão D4 da pesquisa abrange não apenas as fontes de financiamento e parcerias, mas também as estratégias concretas que visam ampliar o acesso da população periférica a instrumentos financeiros alternativos. Para Armani (2013), a inclusão financeira, quando ancorada em princípios de solidariedade e protagonismo comunitário, deve ser compreendida como uma dimensão da sustentabilidade política e institucional das organizações populares, pois ela redefine a relação da comunidade com o dinheiro, com o consumo e com o desenvolvimento local. No Banco Comunitário Cascata, essa dimensão vem sendo desenvolvida por meio da criação da moeda social Antena e da elaboração de uma política de microcrédito comunitário. O nome da moeda Antena, formalmente escolhido pelos alunos da Escola Estadual Oscar Pereira, tem como objetivo circular entre os comércios parceiros da região, promovendo o consumo local e incentivando a economia solidária. Atualmente, a moeda já começou a circular de forma efetiva em seis comércios locais: o Mercado Embratel, o Misturando Arte, a Madeireira Carvalho, a loja Doce Alegria, o Bazar Rosa de Saron e a vendedora de cosméticos 53 Alzira. Esses estabelecimentos aceitaram a Antena como meio de pagamento com desconto, marcando um avanço significativo na sua implementação. Essa etapa de negociação com os comércios enfrentou inicialmente resistências, especialmente pela dificuldade de entendimento da lógica da moeda social e por incertezas quanto aos benefícios diretos para os comerciantes. Como Catherine e Ariel comentaram no grupo focal, o conceito de economia solidária ainda não é amplamente conhecido na comunidade, o que limita o potencial de engajamento. Ainda assim, a moeda tem grande valor simbólico, sendo mobilizada em atividades educativas, de formação e fortalecimento do senso de pertencimento. Uma dessas experiências foi destacada por J. e Ariel, ao relatarem que o professor de capoeira tem contribuído com a inclusão da moeda no cotidiano das crianças. Segundo Ariel, a proposta é que, conforme os alunos aprendem e acertam os movimentos da capoeira, recebam Antenas como reconhecimento, que já podem ser usadas em comércios locais. Como contou J.: "a ideia é ensinar desde cedo o valor da moeda, como ela circula, para já ir trabalhando com as crianças essa outra forma de economia". A iniciativa busca fortalecer a compreensão prática da moeda e formar, desde pequenos, sujeitos conscientes do seu uso e do que ela representa para o território. Paralelamente, está sendo implementada uma política de microcrédito voltada principalmente às mulheres da comunidade e aos negócios parceiros da associação. Foram definidas três linhas de crédito: ● Produtivo: até 300 Antenas. O crédito será parcialmente em reais apenas quando os comércios da comunidade não suprirem a razão do pedido. Exigência: se for comércio, aceitar pagamento em Antenas. ● Pequenas Reformas: até 300 Antenas, 100% em Antenas, com possibilidade de exceções conforme avaliação do comitê. ● Consumo: até 100 Antenas. Exemplo: alimentação, higiene e saúde. Também poderá ser parcialmente em reais, caso os comércios locais não contemplem as necessidades. Entre os comércios que participam dessa linha estão o Misturando Arte, o Bazar Rosa de Saron e a Doce Alegria. O comitê de análise de crédito é composto por quatro integrantes e dois suplentes: representantes do ambulatório de terapias naturais, da loja Misturando 54 Arte, do Banco Comunitário Cascata e da Escola Estadual Oscar Pereira (professora Ana Regina), com suplência de Silvio e Dai, da Doce Alegria. Ariel e Catherine são responsáveis pelas entrevistas e visitas aos solicitantes, apresentando os pedidos ao comitê. Em caso de conflito de interesse, um suplente assume a análise. Os planos de pagamento também foram definidos: ● Linha produtiva: até cinco parcelas de 60 reais. ● Linha de reformas: conforme avaliação do comitê. ● Em todos os casos, os pagamentos devem coincidir com datas de recebimento de benefícios sociais. ● Não há cobrança de juros, mesmo em casos de inadimplência. ● Caso haja atraso, o comitê fará contato por telefone e visita para renegociação; em último caso, pode-se considerar a prestação de serviço à associação como forma de quitação da dívida. ● A participação em oficina de educação financeira é pré-requisito para o acesso ao crédito. Essas oficinas são mensais, com conteúdos gravados. Entre as ideias futuras, está a criação de um sistema de pontuação que incentive compras nos comércios locais: os participantes levariam notas fiscais ao banco para acumular pontos e trocar por brindes como camisetas, bônus da feira de trocas, entre outros. Durante as entrevistas, as lideranças destacaram que o processo de construção do microcrédito está sendo participativo. Além disso, o desenvolvimento da moeda e do crédito tem sido sustentado por recursos de projetos, como o Periferia Viva (R$ 50.000) e o apoio da Justa Troca (R$ 10.000), mostrando como a inclusão financeira também depende da sustentabilidade econômica institucional (D4). Na minha experiência de campo, percebo que o desafio atual é equilibrar a construção coletiva com a necessidade de sistematizar regras, controles e formas de acompanhamento dessas iniciativas. O risco de inadimplência, a resistência de parte do comércio e a sobrecarga das lideranças são fatores que precisam ser enfrentados com planejamento e formação contínua. No entanto, também é evidente o potencial transformador dessas ações, que colocam a comunidade como 55 protagonista da construção de outras formas de viver, consumir e produzir. A moeda e o crédito não são apenas instrumentos econômicos, mas também expressões de uma outra economia, pautada na solidariedade, no cuidado e na resistência cotidiana nos territórios populares. A análise dos vetores de desenvolvimento institucional do Banco Comunitário Cascata evidencia uma experiência marcada por fortes vínculos comunitários, criatividade nas formas de gestão e comprometimento com os princípios da economia solidária. Ao mesmo tempo, revela fragilidades que ainda desafiam sua consolidação, como a baixa participação comunitária e a dependência de recursos pontuais. A articulação entre teoria e prática, promovida neste capítulo, aponta para a importância de políticas públicas que reconheçam e fortaleçam essas iniciativas, mas também para a necessidade de processos internos de formação, ampliação da base ativa e construção coletiva de estratégias sustentáveis. O BCC não é apenas um banco: é um espaço de resistência, de cuidado e de construção de outra lógica de desenvolvimento, que coloca no centro os afetos, os saberes populares e a autonomia dos territórios. Quadro 1 - Análise dos Vetores de Desenvolvimento Institucional do Banco Comunitário Cascata Eixo Critério teórico (Armani e Rigo) Exemplo empírico do Banco ComunitárioCascata 1. Base social e legitimidade Enraizamento territorial: presença física constante no território e construção de vínculos com o local. O banco atua exclusivamente na Vila 1º de Maio e compartilha sede com a associação gestora. 1. Base social e legitimidade Construção de pertencimento e identificação com a base comunitária. O banco foi criado por moradoras da vila, fortalecendo o vínculo comunitário. 1. Base social e legitimidade Reconhecimento das lideranças como legítimas representantes da comunidade. K.G. e J.S.S. são lideranças locais reconhecidas e atuam à frente do banco. 1. Base social e legitimidade Uso de símbolos e referências locais na identidade institucional. A moeda Antena remete ao Morro da Embratel, símbolo visual da região. 1. Base social e legitimidade Promoção de atividades participativas que aproximam a comunidade. Feiras de Troca, rodas de conversa e oficinas comunitárias são 56 realizadas com frequência. 1. Base social e legitimidade Reconhecimento simbólico e legitimidade social construídos com base na atuação territorial. Participação nas assembleias e relatos de acolhimento fortalecem a imagem do banco. 2. Autonomia e sustentabilidade Capacidade de manter o projeto com relativa independência de fontes externas. A maior parte das ações foi financiada com recursos do Periferia Viva e Justa Troca. 2. Autonomia e sustentabilidade Diversificação das fontes de financiamento como estratégia de sustentabilidade. O banco organiza campanhas com tampinhas, eventos e produtos artesanais. 2. Autonomia e sustentabilidade Distribuição equilibrada de tarefas e fortalecimento institucional. Atualmente, poucas lideranças concentram responsabilidades, com esforço de formação de novas. 2. Autonomia e sustentabilidade Preservação da autonomia decisória mesmo com parcerias. As decisões são tomadas internamente, sem interferência dos apoiadores. 2. Autonomia e sustentabilidade Autonomia política em relação a partidos e interesses externos. O banco atua de forma independente, sem vínculos partidários formais. 3. Estrutura organizacional e gestão Organização das funções e institucionalização progressiva dos papéis. Cargos foram reconhecidos em assembleia, formalizando funções já exercidas. 3. Estrutura organizacional e gestão Gestão baseada em decisões coletivas e horizontalidade. Reuniões são espaços decisórios. 3. Estrutura organizacional e gestão Integração entre a associação e o banco, sem separações rígidas. Associação e banco compartilham estrutura e equipe. 3. Estrutura organizacional e gestão Divisão prática de tarefas entre as integrantes. Atividades são divididas entre alimentação, projetos, moeda e crédito. 3. Estrutura organizacional e gestão Transparência nas decisões e acesso aos dados. As lideranças compartilham informações sobre recursos e decisões com o grupo. 57 3. Estrutura organizacional e gestão Busca por qualificação como estratégia de fortalecimento. Participação em cursos como o de boas práticas alimentares. 4. Participação e controle social Estímulo à participação democrática nas decisões. Assembleias abertas e com edital de convocação organizam a escolha das coordenações. 4. Participação e controle social Construção de canais de escuta com a base. Rodas de conversa e grupos de WhatsApp são usados para diálogo com a comunidade. 4. Participação e controle social Reconhecimento das dificuldades de mobilização e atuação para superá-las. Baixa participação comunitária é reconhecida como desafio a ser enfrentado. 4. Participação e controle social Inclusão de grupos vulneráveis nas atividades. Participação ativa de mães, mulheres em vulnerabilidade e jovens. 4. Participação e controle social Transparência como forma de garantir controle social. Prestação de contas e partilha de decisões são práticas presentes. 5. Capacidade de articulação e incidência política Participação em redes e conselhos como estratégia de incidência. O banco tem assento no CESOL e articulação com o Fórum de Economia Solidária. 5. Capacidade de articulação e incidência política Estabelecimento de parcerias com instituições públicas e privadas. Parcerias com Avesol, UFRGS, Justa Troca e Cozinha Solidária. 5. Capacidade de articulação e incidência política Vínculos com movimentos sociais e iniciativas territoriais. Ações conjuntas com MTST, Levante Popular da Juventude e ambulatórios locais. 5. Capacidade de articulação e incidência política Aproximação com universidades e produção de conhecimento compartilhado. Parceria com o projeto NEGA da UFRGS. 6. Inclusão financeira, microcrédito e moeda social Criação de instrumentos financeiros solidários para o território. Circulação da moeda Antena em seis comércios da vila. 6. Inclusão financeira, microcrédito e moeda social Crédito comunitário com regras e participação social. Microcrédito com três linhas e comitê formado por representantes locais. 6. Inclusão financeira, microcrédito e moeda social Gestão participativa das finanças populares. Oficinas mensais de formação são 58 pré-requisito para acesso ao crédito. 6. Inclusão financeira, microcrédito e moeda social Desafios de implementação e sustentabilidade do Sistema. Resistência de comércios, risco de inadimplência e sobrecarga da equipe. Fonte: Da Autora 6 CONCLUSÕES O presente trabalho teve como objetivo analisar a gestão do Banco Comunitário Cascata (BCC) à luz da perspectiva do desenvolvimento institucional, explorando suas práticas, desafios e potências no contexto da economia solidária. A partir da investigação realizada, foi possível compreender que, mesmo com recursos limitados e sem uma estrutura formal consolidada, o BCC se mantém ativo há quase uma década, sendo sustentado principalmente pelo engajamento comunitário e pela atuação voluntária de lideranças locais. Um dos principais méritos da experiência do BCC é sua capacidade de operar com base na confiança, solidariedade e reconhecimento mútuo. A gestão do banco, embora marcada por informalidade, demonstra uma força coletiva significativa. As lideranças envolvidas conseguem articular ações como feiras de troca, distribuição de marmitas, rodas de conversa, oficinas de costura e a construção de uma moeda social — iniciativas que reforçam os vínculos comunitários e promovem inclusão e dignidade para moradores da Vila Primeiro de Maio. Contudo, essa mesma informalidade impõe limites importantes. A ausência de processos sistematizados de planejamento, a concentração de responsabilidades em poucas pessoas e a dificuldade de renovação das lideranças comprometem a sustentabilidade a longo prazo. Tais fragilidades foram observadas tanto nas entrevistas quanto nos dados da pesquisa nacional sobre BCDs. Ainda assim, é notável como essas lideranças conseguem manter o funcionamento do banco, mesmo sem apoio institucional contínuo ou financiamento garantido. A articulação entre gestão social e desenvolvimento institucional mostrou-se uma lente teórica eficaz para compreender a dinâmica do BCC. Ao invés de reduzir a gestão a um conjunto de técnicas administrativas, essa abordagem evidenciou a importância das relações sociais, da legitimidade comunitária e da coerência com a 59 missão institucional. O caso do BCC revela que é possível, sim, construir caminhos alternativos à lógica hegemônica da gestão, baseados na escuta, na participação e no compromisso com o território. Cabe ressaltar, por fim, que este trabalho foi realizado em um contexto marcado por limitações objetivas, como intercorrências de saúde que afetaram diretamente a etapa de campo, impedindo a realização de novas entrevistase o aprofundamento de algumas observações previstas. Além disso, a própria dinâmica da organização estudada, baseada em práticas orais, registros informais e decisões cotidianas não sistematizadas, dificultou o acesso a determinados dados relevantes para a análise. Muitas informações foram transmitidas em conversas informais ou dependem da memória das participantes, o que pode resultar em lacunas ou imprecisões. Ainda assim, a experiência de estágio e a escuta atenta das lideranças permitiram construir um retrato significativo da realidade do Banco Comunitário Cascata. Reconhece-se que o trabalho poderia ter sido ampliado com mais tempo e condições para a coleta de dados complementares, mas espera-se que os caminhos abertos por esta pesquisa contribuam para futuras investigações e para o fortalecimento institucional do BCC. Portanto, conclui-se que o Banco Comunitário Cascata é uma experiência rica e potente, que apesar de seus desafios, representa uma forma legítima de organização comunitária voltada à inclusão financeira e à transformação social. Para fortalecer sua atuação, é essencial investir na formação de novas lideranças, ampliar a sistematização de suas práticas e buscar estratégias que combinem autonomia com parcerias institucionais. Essas são condições fundamentais para que o banco siga sendo uma referência de resistência e de inovação social na periferia de Porto Alegre. 60 REFERÊNCIAS AKATU. Como criar uma moeda social e um banco comunitário. Instituto Akatu, 11 jan. 2011. Disponível em: https://akatu.org.br/como-criar-uma-moeda-social-um-banco-comunitario/. Acesso em: 25 abr. 2025. ARMANI, D. et al. Desenvolvimento institucional: Marcos e marcas do apoio às OSCs do Fundo de Transição da Fundação Oak no Brasil. Equipe DI, Fundação Oak. Disponível em: https://www.domingosarmani.com/publicacoes/51. Acesso em jun. de 2025. ARMANI, D. O Desenvolvimento institucional como condição de sustentabilidade das ONG´s no Brasil. In: BRASIL. Ministério da Saúde. AIDS e sustentabilidade: sobre as ações das organizações da sociedade civil. Brasília, 2001, p.17-34. ARMANI, D. Planejamento Estratégico de Longo Prazo: guia metodológico para organizações da sociedade civil. Porto Alegre: Pão e Rosas, 2002. AVRITZER, L. Sociedade civil e instituições participativas no Brasil. In: DAGNINO, E. (Org.). Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2002. COSTA, G. S. da. O papel dos bancos comunitários no fortalecimento da economia popular: uma análise do Banco Cascata. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Administração), Escola de Administração, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2022. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/265523/001160159.pdf?sequence =1 CRUZ, A. Experiências territoriais de acumulação solidária no Brasil: bancos comunitários e circuitos locais de comercio justo. In: Álvarez, J.F.; Marcuello, C. (orgs.). Experiencias Emergentes de la Economía Social, OIBESCOOP, p. 290-316, 2020. Disponivel em: https://www.oibescoop.org/wp-content/uploads/cap-11.pdf. DAROL, L. A. Processos de capacitação para o fortalecimento dos bancos comunitários nas comunidades Cascata e Vila Aparecida. Salão de Extensão (20.: 2019: Porto Alegre, RS). Caderno de resumos. Porto Alegre: UFRGS/PROREXT, 2019. FARIAS, L. F. N. Processos de capacitação para o fortalecimento do Banco Comunitário Cascata. Salão de Extensão (23.: 2022: Porto Alegre, RS). Caderno de resumos. Porto Alegre: UFRGS/PROREXT, 2022. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/278142 GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008. INSTITUTO BANCO PALMAS. Termo de Referência dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento. Fortaleza: Instituto Banco Palmas, 2023. 61 ITAÚ SOCIAL. Desenvolvimento Institucional. out., 2021. Disponível em: https://www.subvoador.art.br/pdf/pisu-itau-social-unicef-educacao-integral-revista-terr itorios-movimento-3-outubro-2021.pdf. LEAL, M. G. S. B.; CAVALCANTE, C. E.; COELHO, A. L. A. L. Bancos comunitários de desenvolvimento e cidadania: reflexões teóricas. Revista Pensamento Contemporâneo em Administração, v.14, n.3, p. 132-149, 2020. DOI: https://doi.org/10.12712/rpca.v14i3.41245 MEMÓRIAS DA CASCATA. Vídeo (30min.) Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1qlR5VVfPu276TUqjSJN2UAwjHVvVFbLu/view?usp=d rivesdk MENEZES, D. T. de; SANTOS, R. C. dos; MARIANO, S. R. H. Bancos comunitários de desenvolvimento: uma análise bibliométrica. Gestão & Regionalidade, v. 35, n. 106, p. 5-27, 2019. DOI 10.13037/gr.vol35n106.5105 MILANI, C. R. S et al. (Re)Definindo a sustentabilidade no complexo contexto da gestão social: reflexões a partir de duas práticas sociais. Cadernos EBAPE.BR, v. 4, n. 2, p. 1-17, jun. 2006. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/3232/323228064006.pdf. MILANI, C. R. S. Organizações da sociedade civil e desenvolvimento institucional: reflexões a partir de um referencial analítico. In: PUPO, Flávia (org.). Organizações da sociedade civil e desenvolvimento institucional: experiências, dilemas e aprendizagens no Brasil contemporâneo. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, 2021. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. NEGA. Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa. A construção dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento em Porto Alegre: o Banco Comunitário Cascata. Cadernos do NEGA. Porto Alegre: UFRGS, 2017. Disponível em: https://www.ufrgs.br/gestaoalternativa/wp-content/uploads/2020/10/A-construc%CC %A7a%CC%83o-dos-Bancos-Comunita%CC%81rios-de-Desenvolvimento-em-Porto -Alegre-O-Banco-Comunita%CC%81rio-Cascata.pdf. OLIVEIRA, E. G. de; BENINI, É.; MELGES, F. Crédito solidário e desenvolvimento local participativo: uma investigação a partir da atuação dos bancos comunitários. Interações, Campo Grande, v. 24, n. 3, p. 1003-1020, 2023. DOI 10.20435/inter.v24i3.3400 PUPO, C. G. de P. Finanças solidárias no Brasil: bancos comunitários, moedas locais e a força dos lugares. 2022. Tese (Doutorado em Geografia Humana), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. DOI:10.11606/T.8.2021.tde-15062022-191912 RETAMIRO, W. Bancos comunitários como adequação sociotécnica financeira: uma análise crítica ante o potencial de autossustentabilidade. 2023. Tese (Doutorado em Ciência, Tecnologia e Sociedade), Centro de Educação e Ciências Humanas, 62 Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/items/a1b36a47-90b6-4997-929e-68e4ba8f7258 RIGO, A. S. et al. Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento: relevância, resultados e principais desafios. In: https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/16089/1/BMT_78_ES_A1.pdf RIGO, A. S. et al. Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento: relevância, resultados e principais desafios. Brasília: IPEA, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.38116/bmt78/espp1. SANTOS, P. M. P. DOS. Engajamento e participação no banco comunitário de desenvolvimento justa troca. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Administração), Escola de Administração, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/225343 SILVA JUNIOR, J. T.; RIGO, A. S. DECID: uma matriz de indicadores para avaliar a utilidade social dos empreendimentos de finanças solidárias. Mercado de trabalho: conjuntura e análise, IPEA, v.1, n.0, Brasília, mar. 1996. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/11582 SILVA R.; NADER, L. Fortalecimento de organizações da sociedade civil no Brasil: o que é, a quem serve e apostas a fazer. Disponivel em: https://pp.nexojornal.com.br/ponto-de-vista/2024/10/18/fortalecimento-de-organizaco es-da-sociedade-civil-no-brasil-o-que-e-a-quem-serve-e-apostas-a-fazer.Acesso em 2025. SILVA, S. P. da. Gestão Social e Desenvolvimento Institucional: desafios para as OSCs no contexto brasileiro. Revista de Administração Pública e Gestão Social, v. 12, n. 2, p. 230-248, 2020a. TENÓRIO, F. G. Gestão Social: uma perspectiva conceitual. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 40, n. 1, p. 7-26, jan./fev. 2006. Disponível em: file:///C:/Users/Ana%20Cristina/Downloads/admin,+7754-16028-1-CE.pdf URQUIETA, S. Banco Comunitário do Bairro Cascata/Porto Alegre: uma história de luta e superação! Disponível em: https://sylurquieta-vidaimensa.blogspot.com/2016/03/banco-comunitario-do-bairro.ht ml. Acesso em: 25 abr. 2025. YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.Esses desafios se apresentam como oportunidades para promover a inovação e a busca por alternativas viáveis e eficazes, voltadas para a consolidação e fortalecimento dessas organizações (Retamiro, 2023). De acordo com a Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (Rigo et al., 2023), há uma grande diversidade na situação organizacional dos mais de cem BCDs existentes no Brasil. O estudo identificou 167 experiências em todo o país e, entre os 76 casos considerados válidos e entrevistados, apenas 26% afirmaram não enfrentar dificuldades para funcionar, enquanto 31% relataram ter dificuldades, 30% estavam inativos e 13% em fase de implementação ou reestruturação. Além disso, 58% dos bancos comunitários entrevistados informaram que suas moedas sociais não estavam em circulação no momento da pesquisa. A sustentabilidade financeira também se mostrou crítica: 54,4% dos entrevistados (43 BCDs) declararam não possuir nenhuma fonte de receita para manter suas atividades. O Banco Comunitário Cascata (BCC) de Porto Alegre é um dos que não conseguiu desenvolver os serviços financeiros ao longo de seus anos de existência, mas tem uma atuação significativa na comunidade. O BCC não desenvolveu uma 9 grande estrutura e está mais orientado à dinâmica comunitária, funcionando de forma totalmente voluntária. Conta com uma moeda denominada Antena, que por anos foi somente utilizada em Feiras de Trocas dentro da comunidade. Está sustentado em atividades totalmente voluntárias, recebe apoios de diversas organizações e conta com uma gestão associativa e democrática, mas bastante informal e pouco estruturada. Em maio de 2025 iniciou a implementação da moeda social Antena como circulante local, e com isso, novos desafios foram colocados para sua dinâmica de gestão, sendo esta a problemática que serve de base para a pesquisa deste trabalho. A organização que dá sustentação jurídica ao BCC é a Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, cuja gestão articula uma diversidade de atividades, o que constitui ao mesmo tempo um elemento de grande força comunitária, mas explicita uma série de fragilidades de caráter gestionário e organizacional. Nessa perspectiva, apresenta-se o seguinte problema de pesquisa: como se organiza a gestão do Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre, quais são suas dinâmicas e como elas impactam seu desempenho e sua sustentabilidade?. Para responder o problema de pesquisa, partiu-se das referências da literatura sobre Organizações da Sociedade Civil, especificamente as perspectivas sobre Desenvolvimento Institucional das OSCs e Gestão Social. É interessante relacionar a dimensão gerencial para realizar uma análise articulada à dimensão sociopolítica, levando em consideração as dinâmicas do BCC. Para isso, foram analisadas as dinâmicas organizacionais do Banco Comunitário Cascata a partir dos vetores de desenvolvimento institucional propostos por Armani (2013) e das dimensões identificadas na pesquisa nacional sobre Bancos Comunitários de Desenvolvimento (Rigo et al., 2023). Sendo assim, este estudo tem como objetivo de pesquisa analisar a gestão do BCC, suas principais dinâmicas e como estas impactam seu desempenho e sustentabilidade. Para isso, a estrutura do trabalho contempla uma revisão teórica sobre bancos comunitários e gestão alternativa; a discussão sobre a gestão do Banco Comunitário Cascata e suas dinâmicas, com foco nos desafios e nas práticas que podem ser aprimoradas para fortalecer o próprio BCC; e a análise da atuação do Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre, no que tange à sua gestão. 10 A atuação dos bancos comunitários, especialmente aqueles com uma forte inclinação social e baseados no voluntariado e na participação da comunidade, revela desafios particulares. A forma com que se organizam e se adaptam internamente é determinante para a concretização de suas propostas transformadoras. Nesse sentido, o Banco Comunitário Cascata (BCC) de Porto Alegre surge como um caso relevante. O fato de operar predominantemente com voluntários e ter uma forte base comunitária exige do BCC a constante busca por estratégias que não só viabilizem a execução de seus projetos sociais, mas que também garantam sua continuidade e o fortalecimento de sua estrutura institucional. Ao aplicar os vetores de Armani — como base social, autonomia, estrutura, participação e articulação — busca-se compreender como esses elementos influenciam seu papel no território, sua legitimidade junto à comunidade, sua capacidade de mobilização e sua forma de organizar e utilizar recursos. Já as dimensões trabalhadas na pesquisa nacional (Rigo et al., 2023) complementam essa análise ao trazer elementos práticos sobre os desafios enfrentados pelos BCDs, como a gestão coletiva, a sustentabilidade financeira e a inclusão produtiva. Isso permite um olhar sobre as experiências compartilhadas entre diferentes bancos, ajudando a entender melhor as particularidades e os limites do Banco Comunitário Cascata dentro desse contexto mais amplo. Sendo assim, o objetivo geral do trabalho é: Analisar a gestão do Banco Comunitário Cascata, suas principais dinâmicas e fragilidades, e como essas impactam seu desempenho e sustentabilidade. Já os objetivos específicos são os seguintes: ● Descrever o histórico do BCC e seu entrelaçamento com as outras estruturas de organização comunitária dentro das quais ele se situa. ● Identificar a estrutura atual de gestão do Banco Comunitário Cascata ● Analisar a gestão do BCC a partir dos vetores identificados como fundamentais: base social e legitimidade, autonomia e sustentabilidade, estrutura organizacional e gestão, participação e controle social e capacidade de articulação e incidência. 11 2 BANCOS COMUNITÁRIOS E GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL A análise da gestão do Banco Comunitário Cascata exige um referencial teórico que contemple tanto a dinâmica dos bancos comunitários quanto as especificidades da gestão em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), especialmente em contextos de economia solidária. Localizado na Vila Primeiro de Maio, em Porto Alegre, o BCC atua há anos como uma iniciativa de base comunitária voltada à inclusão financeira e ao desenvolvimento local. Com uma estrutura marcada pelo voluntariado, sua organização é informal e enfrenta desafios estruturais, mais ainda neste momento em que está iniciando a implementação da moeda social Antena como circulante local, atualmente em curso. Ainda assim, o banco tem conseguido manter sua atuação, sustentado por uma lógica organizativa, construída a partir do engajamento da comunidade e das condições concretas do território. Essa dinâmica tem se mostrado funcional dentro das possibilidades existentes, permitindo que o BCC siga cumprindo seu papel social. Diante desse contexto, este capítulo apresenta conceitos e debates acerca do papel social e dos modelos de gestão dessas iniciativas. Serão abordadas as origens e os objetivos dos bancos comunitários, os modelos de gestão adotados por essas instituições e, por fim, as contribuições da abordagem do desenvolvimento institucional para a análise das OSCs. 2.1 BANCOS COMUNITÁRIOS E SEUS OBJETIVOS Os Bancos Comunitários surgiram no Brasil como uma resposta à exclusão bancária e à concentração de renda nas mãos de poucos. Com o propósito de promover o acesso ao crédito e fortalecer a economia local, essas instituições são formadas por grupos de pessoas que se unem para criar instrumentos financeiros acessíveis. A partir desta perspectiva, os Bancos Comunitários visam criar espaços de autonomia financeira e fortalecimento da comunidade, atuando como ferramentas de inclusão social e promoção do desenvolvimento local (Leal; Cavalcante; Coelho, 2020). Os bancos comunitários baseiam-se em princípios fundamentaiscomo a solidariedade, a cooperação e a autogestão, buscando fortalecer a economia local e promover a inclusão financeira. Eles visam a criação de uma moeda social, que 12 estimula a circulação de recursos dentro da própria comunidade, gerando desenvolvimento e sustentabilidade. Além disso, essas instituições são orientadas por valores como a valorização do ser humano, da cultura local e do meio ambiente, promovendo a participação ativa dos moradores na gestão e tomada de decisões (Menezes; Santos; Mariano, 2019). A economia solidária é um dos pilares dos bancos comunitários, promovendo a cooperação, a solidariedade e a geração de renda de forma coletiva. Por meio do estímulo à autogestão, ao comércio justo e ao consumo consciente, os bancos contribuem para o desenvolvimento local, fortalecendo os laços comunitários e promovendo a igualdade social. Dessa forma, a economia solidária atua como um agente de transformação, impulsionando a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas, além de promover a integração e o fortalecimento da comunidade (Leal; Cavalcante; Coelho, 2020). Os objetivos sociais dos bancos comunitários incluem promover a inclusão financeira e estimular o desenvolvimento econômico local. Eles buscam reduzir a exclusão bancária em comunidades de baixa renda, oferecendo serviços financeiros acessíveis e adaptados às necessidades da população. Além disso, essas instituições visam fortalecer o empreendedorismo e a geração de renda nas comunidades atendidas, criando oportunidades para que os moradores locais desenvolvam seus negócios e melhorem sua situação financeira (Pupo, 2021). A inclusão financeira é um dos principais objetivos dos bancos comunitários, pois visa atender às necessidades de populações historicamente excluídas do sistema bancário tradicional. Isso envolve disponibilizar serviços financeiros acessíveis, como crédito e poupança, além de promover a educação financeira para capacitar os moradores locais a gerir melhor suas finanças. A inclusão financeira proporciona à comunidade a oportunidade de investir em empreendimentos locais e realizar transações bancárias básicas, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social (Leal; Cavalcante; Coelho, 2020). Esse tipo de instituição bancária desempenha um papel na geração de renda na comunidade. Eles oferecem microcrédito e suporte financeiro para pequenos negócios, possibilitando que empreendedores locais desenvolvam suas atividades. Isso não apenas aumenta a renda das famílias envolvidas, mas também promove o crescimento econômico sustentável da região, gerando empregos e oportunidades. Além disso, os bancos comunitários oferecem capacitação e orientação para os 13 empreendedores, contribuindo para a melhoria da gestão dos negócios e para a sustentabilidade das atividades comerciais (Cruz, 2020). Um dos desafios enfrentados pelos bancos comunitários é a falta de acesso a recursos financeiros e tecnológicos para manter suas operações. Além disso, a falta de capacitação e apoio técnico para os membros das comunidades atendidas também se configura como um desafio constante. No entanto, as parcerias estratégicas com organizações governamentais, não-governamentais e instituições financeiras oferecem oportunidades para superar esses desafios, possibilitando o acesso a capacitações, financiamentos e suporte tecnológico, fortalecendo assim a atuação dos bancos comunitários e ampliando seu impacto social (Pupo, 2021). Os bancos comunitários desempenham um papel crucial na promoção da inclusão financeira e no desenvolvimento local, fortalecendo os laços entre os membros da comunidade e oferecendo oportunidades para o empreendedorismo e geração de renda. Apesar dos desafios enfrentados, como a falta de recursos, os bancos comunitários representam uma alternativa viável aos bancos tradicionais, atendendo às necessidades específicas das comunidades em que estão inseridos (Cruz, 2020). 2.2 SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DE BANCOS COMUNITÁRIOS Diferente das instituições financeiras tradicionais, os bancos comunitários têm como foco principal a promoção do desenvolvimento social e econômico local. Por isso, equilibrar a geração de receita com o compromisso social exige estratégias que considerem as especificidades do território e das pessoas atendidas. Esse equilíbrio depende não apenas de uma gestão eficiente, mas também de um ambiente favorável, incluindo apoio governamental e parcerias estratégicas (Oliveira; Benini; Melges, 2023). Uma das principais fontes de receita dos bancos comunitários vem das operações de crédito destinadas a microempreendedores e pequenos comerciantes. Ao oferecer empréstimos com juros baixos e condições flexíveis, essas instituições fomentam a economia local, mas enfrentam o desafio de manter a inadimplência sob controle. A gestão eficaz do risco de crédito é, portanto, essencial para a sustentabilidade financeira. Isso envolve não apenas a análise criteriosa dos empréstimos concedidos, mas também o acompanhamento contínuo dos 14 beneficiários, proporcionando suporte técnico e educativo para garantir o sucesso dos empreendimentos financiados (Retamiro, 2023). Além das operações de crédito, a diversificação das fontes de receita é fundamental para a sustentabilidade financeira. Muitas dessas instituições dependem de doações, subsídios governamentais e parcerias com organizações do terceiro setor. No entanto, essa dependência pode tornar a operação vulnerável a oscilações econômicas e mudanças nas políticas públicas. Para mitigar esse risco, os bancos comunitários devem buscar alternativas, como a criação de fundos rotativos solidários, programas de educação financeira e a oferta de serviços complementares, que possam gerar receitas adicionais e fortalecer a autonomia financeira da instituição (Pupo, 2021). A moeda social, frequentemente utilizada pelos bancos comunitários, desempenha um papel importante na promoção da economia local. Ao incentivar o uso de uma moeda própria para transações dentro da comunidade, essas instituições conseguem fortalecer o comércio local e criar um ciclo virtuoso de desenvolvimento. No entanto, a gestão dessa moeda requer cuidado, pois sua aceitação e valor dependem da confiança dos usuários e da capacidade do banco de manter sua credibilidade. Manter o equilíbrio entre a emissão da moeda e a capacidade econômica da comunidade é fundamental para evitar desvalorização e garantir sua eficácia como instrumento de desenvolvimento (Oliveira; Benini; Melges, 2023). Outro aspecto importante da sustentabilidade financeira dos bancos comunitários é a capacitação da equipe e a profissionalização da gestão. Embora essas instituições geralmente operem com recursos limitados, a qualificação dos gestores e a adoção de boas práticas administrativas são essenciais para garantir a eficiência operacional. Investir em formação contínua e em processos transparentes de governança contribui para o fortalecimento institucional, reduzindo riscos e aumentando a confiança da comunidade e dos parceiros (Cruz, 2020). A tecnologia também pode desempenhar um papel crucial na sustentabilidade financeira dos bancos comunitários. A adoção de sistemas digitais para gestão financeira, concessão de crédito e monitoramento de resultados pode reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência. Além disso, ferramentas tecnológicas podem facilitar o acesso aos serviços bancários por parte dos moradores das comunidades, ampliando o alcance das operações e potencializando o impacto social. Contudo, a 15 implementação de soluções tecnológicas requer investimentos iniciais, o que pode ser um desafio para instituições de pequeno porte (Retamiro, 2023). Os desafios enfrentados pelos bancos comunitários em termos de sustentabilidade financeira são muitos, mastambém são inúmeras as oportunidades. A crescente demanda por modelos econômicos mais inclusivos e sustentáveis oferece um ambiente propício para o fortalecimento dessas instituições. Parcerias com empresas, governos e outras organizações podem proporcionar o apoio necessário para garantir a viabilidade econômica dos bancos comunitários, ao mesmo tempo em que ampliam o impacto social de suas ações (Pupo, 2021). 2.3 A GESTÃO DOS BANCOS COMUNITÁRIOS Conforme o Termo de Referência dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs), essas instituições “são geridas no interior de estruturas de organizações de caráter comunitário (como associações, fóruns, conselhos) ou outros tipos de iniciativa da sociedade civil que estejam inseridas na comunidade (sindicatos, ONGs, igrejas). Seu funcionamento supõe, portanto, a constituição de uma equipe de coordenação executiva no seio da própria organização associativa. Sua gestão implica, desse modo, numa dimensão compartilhada, com forte componente de controle social local baseado em mecanismos de democracia direta” (INSTITUTO BANCO PALMAS, 2023). Esse modelo de gestão valoriza a participação ativa da população local e busca articular os saberes do território na tomada de decisões. No entanto, também impõe desafios importantes relacionados à organização interna, à definição de papéis, à continuidade administrativa e à sistematização dos processos (Oliveira, Benini, Melges, 2023). A Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (Rigo et al., 2023), analisa essas dificuldades no eixo D3 – Gestão democrática e pessoas. O estudo mostra que, entre os 76 BCDs analisados: ● 47% não possuem equipe executiva definida; ● Apenas 38% têm calendário formal de reuniões; ● 54% não realizam avaliações sistemáticas das atividades; ● 36% não oferecem formação para gestores e voluntários; 16 ● 56% não mantêm atas de reunião registradas. Esses dados revelam que, apesar do caráter comunitário e participativo, há uma fragilidade institucional considerável nos BCDs. De acordo com os autores, mesmo com a valorização da democracia direta, muitas dessas experiências funcionam com um nível elevado de informalidade, operando com estruturas frágeis, baixa sistematização de processos e ausência de planejamento formal. O relatório destaca ainda que a concentração de responsabilidades em poucas pessoas — muitas vezes voluntárias e sem capacitação — compromete a continuidade das ações e dificulta a articulação com políticas públicas. A falta de práticas como reuniões regulares, registro de decisões e acompanhamento das atividades impede a consolidação de estratégias de médio e longo prazo, o que afeta diretamente a sustentabilidade institucional (Rigo et al., 2023). No caso do Banco Comunitário Cascata, essas questões se expressam de maneira concreta. A gestão é realizada por um pequeno grupo de lideranças comunitárias, de forma voluntária e sem uma estrutura formalizada. Ainda assim, o banco se mantém ativo há anos, apoiado em uma lógica de funcionamento baseada no engajamento, na confiança e na solidariedade local. Segundo o NEGA (2017), essa forma de organização reflete uma resposta concreta da comunidade às suas necessidades, funcionando com base em relações de proximidade e compromisso mútuo, ainda que sem mecanismos institucionais consolidados. No entanto, essa informalidade também apresenta limites importantes. A ausência de processos claros pode comprometer a resolução de problemas, dificultar a organização das atividades e enfraquecer a capacidade de resposta diante de novos desafios, como o atual processo de implementação da moeda social Antena como circulante local. Compreender a gestão dos BCDs, portanto, exige um olhar que considere tanto as potências do modelo comunitário quanto os limites impostos pela ausência de estrutura formal. A seguir, serão apresentados os vetores institucionais que servirão como base para a análise da gestão do Banco Comunitário Cascata. 17 2.4 PERSPECTIVAS PARA ANALISAR A GESTÃO E A SUSTENTABILIDADE DAS OSCS E DAS ORGANIZAÇÕES DE ECONOMIA SOLIDÁRIA: CONTRIBUIÇÕES A PARTIR DA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL A gestão de organizações da sociedade civil, em especial daquelas vinculadas à economia solidária, como os bancos comunitários de desenvolvimento, exige uma abordagem que vá além dos modelos tradicionais baseados exclusivamente em critérios gerenciais ou em padrões empresariais. Essas organizações estão profundamente enraizadas em seus territórios, atuam com base em valores como solidariedade, cooperação e autogestão, e, muitas vezes, operam com poucos recursos e com estruturas organizativas informais. Diante disso, torna-se necessário adotar perspectivas que reconheçam a complexidade dessas experiências e a centralidade dos elementos políticos, sociais e simbólicos que sustentam sua atuação. O conceito de desenvolvimento institucional está relacionado à capacidade das organizações de construir, manter e transformar sua atuação a partir de relações sociais significativas, legitimidade junto à base social e capacidade de articulação com o entorno. A construção institucional a partir da sociedade civil depende da consolidação de práticas organizativas democráticas, baseadas em reconhecimento mútuo e articulação política com outros atores (Avritzer, 2002). Isso implica entender a institucionalidade como algo dinâmico e situado, que se fortalece na medida em que a organização atua dialogicamente com seu território, amplia sua legitimidade e sustenta sua ação no tempo. Nesse contexto, a abordagem do desenvolvimento institucional, especialmente conforme formulada por Domingos Armani, oferece uma contribuição relevante. Em vez de limitar a sustentabilidade ao equilíbrio financeiro, essa abordagem propõe compreendê-la como a capacidade da organização de manter sua missão viva ao longo do tempo, por meio do fortalecimento de sua legitimidade social, autonomia política, capacidade de articulação e coerência organizativa (Armani, 2002). Trata-se de uma visão ampliada de gestão e de sustentabilidade, que considera não apenas a existência de fluxos financeiros regulares, mas também o enraizamento territorial, a construção de legitimidade, o vínculo com a base social e o reconhecimento dos atores do campo em que a organização atua (Milani, 2008). Essa perspectiva é especialmente útil para compreender o funcionamento de 18 iniciativas como o Banco Comunitário Cascata, cuja atuação se mantém, mesmo com limitações estruturais, devido ao compromisso das lideranças locais e à articulação comunitária. Dessa forma, o desenvolvimento institucional se apresenta como um referencial teórico capaz de articular elementos da gestão, da política e da ação social, possibilitando uma análise mais abrangente das dinâmicas que sustentam ou fragilizam essas organizações. A seguir, aprofunda-se essa concepção e sua relevância para a análise do objeto deste estudo. 2.4.1 A Gestão Social A gestão social é compreendida como uma prática que rompe com os paradigmas tradicionais da administração centrada na eficiência técnica, propondo uma abordagem orientada pela participação cidadã, pelo fortalecimento das redes locais e pela construção democrática de decisões. Nessa perspectiva, o processo de gestão passa a incorporar valores como solidariedade, reconhecimento mútuo e deliberação coletiva, especialmente importantes em organizações enraizadas em territórios marcados por desigualdades (Tenório, 2006; Silva, 2020a). Essa concepção se articula com a noção de desenvolvimento institucional proposta por Armani (2002), na medida em que ambas reconhecem que a sustentabilidade das organizações da sociedade civil não depende apenas de aspectos financeiros ou operacionais, mas de sua capacidade de se constituíremcomo atores legítimos, articulados e coerentes com sua missão social. A gestão, nesse caso, é entendida como um processo político e coletivo, atravessado por disputas, afetos e compromissos com a transformação social. Mais recentemente, pesquisas empíricas como a coordenada por Rigo et al. (2023) demonstram que a gestão dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento continua sendo marcada por um forte caráter comunitário e informal, o que reforça a relevância da abordagem da gestão social. Ao mesmo tempo, essas pesquisas revelam desafios como a concentração de responsabilidades, a ausência de processos formais de planejamento e a carência de formação continuada para os gestores, indicando a necessidade de fortalecer institucionalmente essas experiências sem desconsiderar suas singularidades e valores originários. 19 No caso do Banco Comunitário Cascata, observa-se a presença de práticas coerentes com a gestão social, como a escuta ativa da comunidade, a valorização das lideranças locais e a articulação com atores do território. Tais práticas não apenas sustentam o funcionamento cotidiano da organização, mas também reforçam sua legitimidade e sua capacidade de promover inclusão e cidadania nos moldes da economia solidária. 2.4.2 As perspectivas sobre Desenvolvimento Institucional O conceito de desenvolvimento institucional, conforme elaborado por Armani (2002), refere-se aos processos voltados ao fortalecimento da capacidade de uma organização realizar de maneira contínua, coerente e autônoma a sua missão institucional. Essa abordagem reconhece que a sustentabilidade das organizações da sociedade civil não depende apenas da existência de recursos financeiros, mas da articulação entre diversos fatores, como a base social de apoio, a legitimidade pública, os vínculos com o território, a capacidade de se planejar e de se adaptar às transformações do contexto onde está inserida. A sustentabilidade, nessa perspectiva, é entendida como uma construção política e estratégica, que exige da organização o desenvolvimento de capacidades que vão além da eficiência administrativa. Envolve, entre outros aspectos, a capacidade de mobilizar atores e recursos de forma coerente com sua missão, de manter uma base social ativa e representativa, de construir credibilidade junto aos seus parceiros e de promover processos internos democráticos e transparentes. Essa concepção é particularmente adequada para analisar organizações de economia solidária, como os bancos comunitários, pois permite compreender como experiências muitas vezes informais e baseadas no voluntariado conseguem sustentar sua atuação ao longo do tempo. O caso do Banco Comunitário Cascata é um exemplo claro: sua permanência e relevância na comunidade não são explicadas por estruturas administrativas robustas, mas pela força das relações de confiança, pela articulação com outras organizações do território e pelo compromisso das lideranças locais (NEGA, 2017). Portanto, o desenvolvimento institucional oferece uma chave de leitura que valoriza os processos sociais e políticos que estruturam essas organizações, e não apenas sua capacidade técnica ou financeira. Essa perspectiva será utilizada como 20 base para a construção dos eixos de análise apresentados a seguir, os quais orientarão a investigação sobre a gestão do Banco Comunitário Cascata. 2.5 UMA PROPOSTA DE EIXOS DE ANÁLISE Para compreender a gestão do Banco Comunitário Cascata a partir de suas práticas, limites e potências, este trabalho adota como referência os vetores de desenvolvimento institucional formulados por Domingos Armani (2002). Esses vetores foram traduzidos aqui em cinco eixos de análise que ajudam a observar dimensões essenciais do funcionamento das Organizações da Sociedade Civil (OSCs), especialmente aquelas inseridas em territórios populares e ligadas à economia solidária. A proposta parte do entendimento de que a sustentabilidade organizacional vai além da existência de recursos financeiros. Como destaca Armani, uma organização é sustentável quando consegue manter viva sua missão institucional ao longo do tempo, mesmo diante de desafios, e quando se mostra capaz de adaptar-se às mudanças do contexto sem perder sua identidade. Isso envolve aspectos como legitimidade junto à comunidade, autonomia política, capacidade de articulação, clareza nos processos internos e coerência entre prática e propósito. Com base nessa compreensão, apresentam-se a seguir os cinco eixos que orientarão a análise da gestão do Banco Comunitário Cascata. Cada eixo é explicado de forma acessível e, em seguida, relacionado com aspectos observáveis da trajetória e do funcionamento do banco. O primeiro eixo é a base social e a legitimidade. Ele busca compreender se a organização é reconhecida e valorizada pela comunidade onde atua. Ter uma base social forte significa que a organização está enraizada no território e responde a demandas reais das pessoas envolvidas. Segundo Armani, isso é central para a sustentabilidade institucional, pois garante apoio, confiança e sentido para a existência da organização. No caso do Banco Comunitário Cascata, a legitimidade se expressa na sua origem comunitária e no vínculo que mantém com moradores da Vila Primeiro de Maio. O segundo eixo aborda a autonomia e a sustentabilidade. Esse eixo considera se a organização consegue funcionar de maneira independente, sem depender exclusivamente de apoios externos, e se suas ações estão alinhadas com sua missão e valores. Para Armani, a sustentabilidade envolve coerência 21 institucional e capacidade de seguir em frente mesmo com poucos recursos. No caso do BCC, essa sustentabilidade tem sido construída por meio de trabalho voluntário, apoio de parceiros locais e uma gestão comprometida com a economia solidária. O terceiro eixo refere-se à estrutura organizacional e à gestão. Aqui, o objetivo é entender como a organização funciona internamente: se há divisão de tarefas, se existem rotinas mínimas, planejamento, reuniões e registro das decisões. Armani ressalta que uma estrutura não precisa ser formalizada para ser funcional, mas é importante que haja clareza e articulação entre os processos. No BCC, embora a gestão ocorra de forma informal, existe uma lógica própria de organização, baseada na confiança, no diálogo e no envolvimento direto das lideranças comunitárias. O quarto eixo trata da participação e do controle social. A participação efetiva dos membros da comunidade nas decisões e nas ações do banco é um elemento-chave para fortalecer a identidade institucional e garantir a transparência. Conforme aponta Armani, processos participativos ampliam a legitimidade da organização e contribuem para a construção de uma cultura democrática interna. No Banco Cascata, esse eixo permite observar como os moradores se envolvem na gestão, como circulam as informações e como são feitas as deliberações. Por fim, o quinto eixo analisa a capacidade de articulação e incidência. Esse eixo procura entender se a organização estabelece vínculos com outras iniciativas, instituições, redes e políticas públicas. Uma organização que articula parcerias fortalece sua atuação e amplia sua presença política. Para Armani, essa articulação é um dos pilares do desenvolvimento institucional, pois permite que a organização se insira em redes de apoio e cooperação. No caso do BCC, a relação com a Rede Brasileira de Bancos Comunitários, com universidades e com organizações parceiras tem sido fundamental, especialmente no atual processo de implementação da moeda social Antena. Esses cinco eixos serão utilizados na próxima etapa do trabalho como base para a análise do Banco Comunitário Cascata. Eles permitem observar como a gestão se organiza a partir das possibilidades concretas do território, reconhecendo tanto os desafios enfrentados quantoos caminhos já construídos pela comunidade. 22 3 METODOLOGIA Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de caso com abordagem qualitativa e natureza descritiva, tendo como objeto de análise o sistema de gestão do Banco Comunitário Cascata (BCC), localizado em Porto Alegre. O principal objetivo é analisar as características institucionais da organização, com destaque para sua gestão, suas dinâmicas e funcionamento, avaliado como estas influenciam seu desempenho e sua sustentabilidade, com base nos vetores institucionais fundamentais ao desenvolvimento das Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Trata-se de uma estratégia metodológica indicada para examinar fenômenos complexos em seus contextos reais, especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o ambiente não estão claramente definidas (YIN, 2015). Essa abordagem também permite uma análise aprofundada de processos organizacionais, com base em múltiplas fontes de evidência (YIN, 2015). A abordagem qualitativa busca compreender significados, valores e práticas sociais, sendo adequada para interpretar contextos em que os aspectos subjetivos e relacionais são centrais (Minayo, 2014). Essa perspectiva permite acessar elementos do cotidiano organizacional que não se expressam por meio de dados quantitativos, mas que são fundamentais para compreender a dinâmica interna de organizações comunitárias como o BCC. A pesquisa descritiva tem por objetivo observar, registrar e analisar fenômenos sem interferência do pesquisador, permitindo uma representação sistemática da realidade estudada (Gil, 2008). No caso desta pesquisa, ela contribui para descrever o funcionamento da gestão do banco, suas formas próprias de organização e os pontos que podem ser aprimorados, mesmo que a estrutura atual opere de forma informal e funcional. A pesquisa foi realizada por meio de trabalho de campo, que incluiu a observação direta da rotina do banco, bem como entrevistas e levantamento de informações. A realização do estágio de forma conjunta com a pesquisa, permitiu acompanhar de perto como se dão os processos internos e como a gestão está se adaptando às novas demandas trazidas pela implementação da moeda social “Antena”. O contato direto com o ambiente e os atores locais possibilitou captar elementos que dificilmente seriam percebidos apenas por meio de documentos ou dados secundários. 23 Sendo assim, a coleta de dados incluiu observações em campo, entrevistas com integrantes da gestão do banco e conversas com estudantes vinculados a projetos de extensão da UFRGS, especialmente do NEGA. A observação participante foi uma das principais estratégias adotadas, permitindo acompanhar de perto a dinâmica cotidiana do Banco Comunitário Cascata. Estive presencialmente no local em quatro ocasiões distintas, durante Feiras de Troca e rodas de conversa, o que possibilitou observar diretamente as interações entre as participantes, a dinâmica das trocas, a organização do espaço e o papel dos encontros como momentos de fortalecimento comunitário. Também participei de uma reunião geral de planejamento do semestre e de outros encontros voltados à implementação da política de microcrédito. Essas atividades permitiram observar os processos internos de organização, a divisão de tarefas e o modo como determinadas lideranças se articulam no cotidiano da gestão. No total, foram realizadas três entrevistas com pessoas diretamente envolvidas na gestão do BCC — duas voluntárias e um estagiário remunerado —, além de uma conversa com uma bolsista de extensão do projeto NEGA/UFRGS. Também foram registradas conversas informais com moradores da comunidade durante os dias de observação, o que contribuiu para captar percepções espontâneas e variadas sobre o papel do banco, seus desafios e sua inserção no território. Após a coleta, os dados foram organizados e analisados. A análise foi guiada pelas questões centrais do estudo. O objetivo foi construir um diagnóstico crítico das fortaleças e fragilidades organizacionais, contribuindo com reflexões e sugestões que possam fortalecer a gestão e melhorar a atuação do banco na comunidade. 24 4 O BANCO COMUNITÁRIO CASCATA: HISTÓRICO, ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO ATUAL O Banco Comunitário Cascata (BCC) iniciou seu funcionamento formal em 2016, mas sua trajetória está profundamente enraizada em décadas de mobilização popular, organização comunitária e luta por direitos no bairro Cascata, zona sul de Porto Alegre. Desde os anos 1950, com a ocupação dos morros da Cascata e da Polícia por famílias em busca de moradia, os moradores vêm protagonizando lutas por infraestrutura básica, acesso à saúde, educação, transporte e dignidade (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). Nesse contexto, surgiram associações de moradores, como a da Vila Primeiro de Maio, fundada em 1985, que teve papel central na articulação da comunidade junto ao poder público (ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). Assim, o BCC não emerge como uma iniciativa isolada, mas como um desdobramento dessas lutas históricas e da busca coletiva por alternativas de desenvolvimento mais justas e solidárias. Ele representa a consolidação de práticas de economia popular e solidária que já vinham sendo gestadas na região, como as feiras locais e o coletivo Misturando Arte, formado majoritariamente por mulheres da comunidade (NEGA, 2017; Costa, 2022; Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023). A criação do banco insere-se, portanto, em um processo mais amplo de construção de autonomia, fortalecimento dos laços comunitários e enfrentamento das desigualdades estruturais (NEGA, 2017; “MEMÓRIAS DA CASCATA”, 2023). Este capítulo tem como objetivo apresentar o percurso de criação, estruturação e funcionamento atual do Banco Comunitário Cascata. Para isso, está organizado em cinco seções. A primeira resgata o contexto territorial e comunitário do bairro Cascata e da Vila Primeiro de Maio, com destaque para a história da Associação de Moradores e os processos sociais que antecedem o surgimento do banco. A segunda seção aborda a criação do BCC, destacando o papel dos coletivos locais, o protagonismo feminino e o processo de constituição do banco e da moeda social Antena. Em seguida, a terceira seção trata da trajetória e da consolidação do banco entre 2015 e 2025, com ênfase na ampliação das atividades e na fase atual de implementação da moeda como circulante local. A quarta seção descreve a estrutura atual do banco, as Feiras de Troca, as principais atividades realizadas no espaço comunitário e as redes de apoio e parcerias. Por fim, a quinta 25 seção apresenta o BCC como instrumento de transformação local, evidenciando as estratégias de geração de renda, a política de microcrédito e o fortalecimento da economia solidária no território. 4.1 O SURGIMENTO A história do bairro Cascata, na zona sul de Porto Alegre, é marcada por processos de ocupação popular desde a década de 1950. A expansão urbana da cidade levou diversas famílias de baixa renda a buscarem moradia nas encostas dos morros da Cascata e da Polícia, em áreas que careciam de infraestrutura básica, como saneamento, pavimentação e acesso a serviços públicos. Ainda que o bairro tenha sido oficializado na década de 1960, essas precariedades persistiram por décadas, tornando-se motivo constante de mobilização dos moradores por melhores condições de vida (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). Foi nesse cenário de desigualdade e luta por direitos que surgiram as primeiras associações comunitárias, com destaque para a Associação dos Moradores do Alto Embratel – Vila Primeiro de Maio, fundada em 1985. Criada por moradores da comunidade com o objetivo de buscar mais direitos, a associação atuou fortemente em pautas como acesso à água, transporte público, pavimentaçãodas ruas, construção do posto de saúde e nomeação de vias em homenagem aos fundadores. A mobilização popular se intensificou por meio de assembleias, eventos comunitários e participação ativa no orçamento participativo da cidade (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). Na década de 2000, a comunidade começou a buscar alternativas de geração de renda frente à escassez de empregos formais. Foi nesse contexto que surgiram iniciativas locais como as feiras solidárias, organizadas de forma autônoma por moradores interessados em comercializar produtos artesanais e fortalecer o comércio local. Dessas feiras, surgiu em 2006 o coletivo Misturando Arte, formado principalmente por mulheres da comunidade. O grupo passou a promover feiras regulares com alimentos, roupas e artesanato, além de oficinas e atividades culturais, consolidando-se como importante articulador da economia solidária na região (NEGA, 2017). 26 O interesse pelo modelo de Banco Comunitário de Desenvolvimento cresceu quando integrantes do Misturando Arte participaram de um seminário promovido pelo Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (NEGA/UFRGS), onde conheceram experiências de bancos comunitários já existentes. A proposta de criar um banco voltado para a comunidade, baseado na cooperação e na autogestão, foi imediatamente acolhida como uma possibilidade real para fortalecer a economia local (NEGA, 2017). Ainda em 2015, foram realizados encontros preparatórios, rodas de conversa e mobilizações comunitárias. Como parte desse processo, em abril de 2016 foi criada a Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, com o objetivo de oferecer a estrutura jurídica necessária para a formalização do Banco Comunitário. A Escola Estadual Professor Oscar Pereira cedeu espaço para as primeiras feiras, oficinas e reuniões do banco, fortalecendo o vínculo entre educação popular e economia solidária (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; NEGA, 2017). Desde o início, o projeto contou com forte protagonismo feminino. Foram as mulheres da comunidade que lideraram as feiras, organizaram o coletivo Misturando Arte e assumiram a linha de frente na construção do Banco Comunitário Cascata. Além da organização de base, atuaram também na gestão e nas atividades práticas do banco, contribuindo para que a economia solidária se tornasse uma ferramenta de autonomia, inclusão e fortalecimento comunitário (NEGA, 2017; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). A criação da moeda social “Antena” foi parte fundamental desse processo. Seu nome faz referência às antenas de telecomunicação localizadas no Morro da Embratel, um ponto alto e visível da região. Essas antenas se tornaram um marco simbólico, realçando a ideia de conexão, comunicação e visibilidade comunitária. Segundo J. e K., o nome foi escolhido em votação com as crianças do Colégio Oscar Pereira, que sugeriram várias opções. A moeda “Antena” venceu por sua relação direta com o território e por reforçar o sentimento de pertencimento e identidade da comunidade (J. e K., comunicação interna, 2025). Inicialmente, a moeda foi utilizada exclusivamente nas Feiras de Troca, eventos comunitários periódicos em que produtos e serviços são trocados utilizando a Antena como unidade de valor simbólico (Costa, 2022; Nascimento, Silva, Ribeiro, 2023). Entre 2015 e 2025, o Banco Comunitário Cascata (BCC) percorreu um caminho marcado por ações contínuas de fortalecimento comunitário e 27 aprofundamento das práticas de economia solidária. Ainda que sua fundação oficial tenha ocorrido em 2016, a consolidação do banco como instrumento de desenvolvimento local envolve múltiplas fases, iniciativas e formas de organização, sustentadas principalmente pelo protagonismo feminino e pelo engajamento voluntário da comunidade, como pode ser verificado, observando a seguinte linha do tempo: 2015 – Mobilização e primeiros passos Neste período, coletivos como o Misturando Arte já promoviam feiras e oficinas que funcionavam como espaços de trocas e comercialização de produtos locais. Essas experiências fortaleceram os vínculos comunitários e inspiraram a criação de um banco comunitário, culminando na fundação da Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, em abril de 2016, com apoio de organizações como o NEGA/UFRGS (NEGA, 2017; Costa, 2022). 2016 – Fundação e primeiras experiências Com apoio da Escola Estadual Professor Oscar Pereira, iniciaram-se as primeiras feiras solidárias organizadas sob a lógica de um banco comunitário. A moeda social Antena, criada pela comunidade, começou a ser utilizada simbolicamente nas Feiras de Troca, como unidade de valor para estimular a participação e o fortalecimento dos laços locais. Nessa fase, a Antena ainda não era usada como meio formal de pagamento, mas cumpria uma função educativa e mobilizadora (NEGA, 2017; Urquieta, 2016). 2017 a 2019 – Expansão das atividades e desafios de consolidação Durante esses anos, o BCC passou a promover oficinas, rodas de conversa e eventos voltados ao fortalecimento da economia popular e da cidadania. A utilização da moeda permaneceu restrita às Feiras de Troca. A limitação de recursos e a ausência de uma estrutura formalizada se apresentaram como obstáculos importantes para a expansão das atividades, evidenciando os desafios institucionais típicos de iniciativas comunitárias autogestionadas (NEGA, 2017; Urquieta, 2016). 28 2020 – Reorganização no espaço da antiga Associação de Moradores Com o encerramento das atividades do Posto de Saúde da Família no prédio da Associação de Moradores da Vila Primeiro de Maio, o BCC passou a utilizar parte do espaço, dando origem ao atual Espaço Comunitário Cascata. A mudança permitiu a ampliação das ações do banco, com a retomada das Feiras de Troca, oficinas, atividades de horta e distribuição de alimentos por meio de mutirões comunitários (Silva, Ribeiro, Oliveira, 2023; Linha do Tempo, [s.d.]). 2021 a 2024 – Fortalecimento da articulação comunitária Neste período, o BCC foi progressivamente reconhecido como uma referência de organização comunitária no território. Houve o engajamento de novas voluntárias, principalmente mulheres, além da retomada de oficinas com foco na geração de renda, como produção de alimentos, costura e reaproveitamento têxtil. As ações educativas e de apoio social também se intensificaram, com a ampliação das rodas de conversa e a distribuição de cestas básicas e marmitas, especialmente durante a pandemia e seus desdobramentos sociais (Silva, Ribeiro, Oliveira, 2023; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). 2025 – Etapa atual: implementação plena da moeda social Antena Atualmente, o Banco Comunitário Cascata vivencia uma nova fase: a efetiva implementação da moeda social Antena como meio de pagamento comunitário. As cédulas foram impressas e iniciou-se o processo de ampliação da aceitação da moeda em comércios locais parceiros, como mercado e ferragem. A proposta é que a Antena funcione com valor real de compra e ofereça incentivos como descontos para fortalecer o uso local. Esse processo segue as quatro etapas propostas na cartilha do NEGA (2017): 1) identificação da comunidade e dos parceiros locais; 2) preparação por meio de oficinas de sensibilização; 29 3) implantação com capacitações e lançamento da moeda; 4) consolidação das atividades com fortalecimento da gestão comunitária. Além disso, essa fase também é marcada pela formalização da associação gestora, que realizou assembleia em junho de 2025 para definir os cargos, mantendo a atuação coletiva e informal como base de sustentação da gestão. A Antena passa a ser concebida não apenas como símbolo, mas como instrumento concreto de dinamização da economia local, ao lado de outras estratégias de inclusão financeira e fortalecimento da autonomiacomunitária. 4.2 ORGANIZAÇÃO ATUAL Atualmente, o Banco Comunitário Cascata opera por meio de uma gestão comunitária e colaborativa, sustentada pelo envolvimento voluntário de moradoras da Vila Primeiro de Maio e de pessoas ligadas à Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata. Embora não haja uma estrutura organizacional formalizada com cargos burocráticos rigidamente definidos, há uma divisão prática de funções entre as lideranças atuantes, que se coordenam para manter as atividades em funcionamento. Essa organização coletiva tem como base valores como solidariedade, confiança e reconhecimento mútuo, e se articula por meio de encontros informais e decisões consensuais. As feiras de troca, os grupos de roda de conversa, a distribuição de marmitas e a construção da moeda social Antena são iniciativas coordenadas por esse grupo, com apoio pontual de outras moradoras e estudantes vinculadas ao NEGA e à UFRGS. Apesar da informalidade, há uma instância formal: os cargos da Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata são definidos por meio de uma assembleia comunitária, a mais recente realizada em 21 de junho de 2025. Nessa ocasião, foram formalizadas lideranças já atuantes: K. (coordenadora administrativa), J. (coordenadora financeira), Je. (coordenadora de meio ambiente) e Miriam (coordenadora de comunicação). Ainda que esses cargos representem uma formalização, a lógica da gestão se mantém horizontal e não hierárquica, baseada no diálogo e na articulação comunitária. 30 Além dessas lideranças, o BCC conta com a atuação de Ariel, estagiário remunerado vinculado ao banco, que apoia a execução das ações, realiza visitas e entrevistas relacionadas ao microcrédito e participa ativamente da construção da moeda social. Essa composição híbrida – com cargos formais da associação e funções práticas informais no banco – gera uma sobreposição de papéis. Muitas vezes, não há uma separação clara entre o que é atribuição da associação ou do banco, o que reflete tanto a fluidez das funções quanto os desafios institucionais decorrentes da informalidade. A força do coletivo e da gestão compartilhada, no entanto, permanece como um eixo central da dinâmica organizacional do BCC. Como destacou Ariel, essa é a parte formal, mas "é mais informal, né?". Para ele, a nova composição oficial apenas reconhece aquilo que já acontecia na prática: "Acho que essa gestão ficou boa, porque as pessoas que são mais envolvidas, que é a K., a J. e a Je., estão na gestão, elas estão na coordenação. Então, elas não são só, agora, informalmente. Elas são formalmente as responsáveis pela associação". Ainda segundo Ariel, "a Assembleia, essa questão dos cargos, é só pra formalizar uma coisa. Porque todo mundo acaba tendo um pouco de cada papel... Quando tem alguma atividade de associação, todo mundo se engaja. Eu acho que o único cargo que é específico e fechado é o financeiro. Todo o resto é coletivo". 4.2.1 As Feiras de Troca As Feiras de Troca organizadas pelo Banco Comunitário Cascata são atividades centrais para o fortalecimento do sentimento de pertencimento, da solidariedade e da economia popular no território. Elas representam um espaço coletivo de mobilização comunitária e apoio mútuo, onde a lógica da troca substitui a do consumo tradicional, reforçando vínculos sociais e incentivando práticas econômicas alternativas (NEGA, 2017; Costa, 2022). Realizadas no Espaço Comunitário Cascata, as feiras contribuem não apenas para a circulação de bens, mas também para a valorização do trabalho comunitário e da participação social. Essas feiras possibilitam que moradores troquem roupas, calçados, utensílios domésticos e brinquedos por Antenas simbólicas, registradas em fichas individuais. As Antenas acumuladas nessas trocas podem ser utilizadas posteriormente na feira para adquirir alimentos não perecíveis, hortifrutis disponíveis, roupas e outros bens. 31 Cada participante possui uma ficha, organizada em fichários por ordem alfabética, na qual são registrados os valores em Antenas recebidos e utilizados em cada edição da feira. O controle é realizado manualmente por voluntárias e integrantes da equipe do banco. A atribuição de valores aos itens levados pelos moradores — como roupas e calçados — é feita com base na estação do ano e na demanda do momento. A moeda Antena, mesmo antes de sua circulação formal, já era utilizada de forma simbólica nesse contexto, funcionando como unidade de valor para as trocas. A gestão da feira estabelece regras adaptadas à realidade de cada edição. Por exemplo, em períodos com menos doações ou maior escassez, limita-se a quantidade de alimentos que cada morador pode adquirir: dois pacotes de arroz, um feijão, duas massas, uma moranga e algumas frutas, como até cinco laranjas. Já nas trocas de roupas e calçados, é comum a adoção de critérios sazonais, como permitir apenas um conjunto completo de roupa infantil (casaco, blusa e calça) no inverno, devido à demanda elevada. As peças são consideradas a partir da adequação à estação e à demanda do momento. Roupas de verão, por exemplo, podem ser temporariamente recusadas no inverno, especialmente se houver excedente no estoque. Sandálias e chinelos, da mesma forma, são desencorajados em períodos de frio. A lógica é otimizar o espaço disponível e garantir que os itens ofertados sejam úteis à comunidade naquele momento. Além disso, há uma dinâmica informal de organização para as trocas. Participantes que chegam mais cedo às rodas de conversa — momento que antecede a feira — têm prioridade na fila de trocas. Essa medida é uma forma de incentivar a permanência e a participação completa nas atividades. Também há casos em que moradores, mesmo com saldo negativo em sua ficha, continuam participando das feiras, com base na confiança construída ao longo do tempo. Esses casos são avaliados individualmente pela equipe do banco, levando em conta o histórico de participação e compromisso da pessoa. Durante o estágio obrigatório realizado no Banco Comunitário Cascata, tive a oportunidade de acompanhar e auxiliar diretamente na realização das Feiras de Troca. Participei da organização das fichas, da contabilização das trocas e do apoio às atividades das rodas de conversa, que antecedem as feiras. Esses encontros são voltados especialmente para mulheres e crianças, abordando temas como 32 maternidade, autoestima, violência doméstica, o papel do afeto, relações familiares, o cuidado com as crianças e os direitos das mulheres (Nascimento, Silva, Ribeiro, 2023; NEGA, 2017; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). A cada edição, novas reflexões são propostas a partir da escuta atenta das participantes, que compartilham experiências, dores e afetos. As rodas de conversa têm papel fundamental na escuta, apoio e construção de redes de cuidado dentro da comunidade, funcionando como uma preparação afetiva e reflexiva para o momento das trocas. Ao final de cada roda, as participantes recebem 30 Antenas simbólicas, como reconhecimento pelo tempo dedicado à escuta e ao fortalecimento coletivo. Essa atribuição valoriza não apenas a presença, mas também o envolvimento afetivo e comunitário nas atividades promovidas pelo banco. A escuta atenta e o acolhimento criam um ambiente de confiança que fortalece os laços sociais e contribui para o sucesso das feiras como instrumento de transformação social e econômica. 4.2.2 Atividades realizadas no BCC O Banco Comunitário Cascata desenvolve atualmente um conjunto de atividades regulares voltadas ao fortalecimento dos vínculos comunitários, à promoção da economia solidária e à geração de renda local. Essas ações são organizadas de forma colaborativa, com protagonismo das lideranças comunitárias e apoio de voluntárias, estudantes vinculadas à UFRGS e à equipe do NEGA. Entre as ações permanentes,destacam-se: ● Feira de Trocas: realizada com regularidade, a feira promove a circulação da moeda social Antena em um sistema de trocas de roupas, calçados, alimentos e itens de necessidade básica. As participantes recebem Antenas simbólicas para usar durante a feira, reforçando os princípios da economia solidária e do consumo consciente; ● Rodas de Conversa: voltadas principalmente para mulheres e crianças da comunidade, essas rodas abordam temas como autoestima, maternidade, relações familiares, saúde mental e enfrentamento à violência doméstica. São espaços de escuta, apoio mútuo e fortalecimento de vínculos. ● Distribuição de Marmitas: organizada de forma coletiva, a Cozinha Solidária prepara refeições que são distribuídas gratuitamente para 33 famílias em situação de vulnerabilidade. Essa iniciativa também é pensada como estratégia de fortalecimento da segurança alimentar e valorização dos saberes culinários locais; ● Projeto de Geração de Renda com a Cozinha: em articulação com a cozinha solidária, está em fase de estruturação um projeto de geração de renda que prevê a produção de alimentos por mulheres da comunidade, com o objetivo de comercializar marmitas ou produtos caseiros em feiras e eventos, promovendo autonomia financeira e protagonismo feminino; ● Oficinas de Costura e Roda de Costura: com o retorno das atividades previsto para o dia 15 (após conserto das máquinas), as oficinas de costura são realizadas nas terças-feiras, com foco na capacitação e geração de renda. Já as quintas-feiras são dedicadas à roda de costura, espaço coletivo de trocas, produção criativa e apoio mútuo entre as participantes; ● Atividade de Capoeira: como ação permanente, a capoeira é realizada com foco no fortalecimento cultural e na valorização da identidade da comunidade, especialmente entre crianças e adolescentes; ● Atividades relacionadas à Moeda Social Antena: além da feira, o BCC tem realizado ações para fomentar o uso da Antena, incluindo reuniões com comerciantes, encontros com moradoras e planejamento das formas de circulação da moeda, que ainda está em fase simbólica e de experimentação. Essas atividades expressam o compromisso do Banco Comunitário Cascata com a promoção da economia solidária, da inclusão social e do fortalecimento comunitário. Sua execução depende da articulação entre as lideranças locais, a rede de apoio e a capacidade de mobilização da comunidade, refletindo uma gestão sensível às demandas do território e orientada por práticas solidárias. 4.2.3 Parceiros e rede de apoio A atuação do Banco Comunitário Cascata (BCC) está profundamente conectada com uma teia de relações institucionais que, ao longo dos anos, vêm contribuindo para sua consolidação. Essas parcerias envolvem desde movimentos sociais, organizações da sociedade civil, órgãos públicos, até universidades. Tais 34 articulações reforçam sua sustentabilidade, visibilidade e capacidade de ação no território, funcionando como vetores complementares de seu desenvolvimento institucional (Armani, 2013; Rigo et al., 2023). Uma das principais organizações parceiras do BCC é o Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (NEGA), da Escola de Administração da UFRGS. Desde 2014, o NEGA atua como articulador e apoiador da criação do banco, contribuindo com oficinas, pesquisas de campo, formações e apoio técnico. Foi por meio da relação entre o coletivo Misturando Arte e o NEGA que surgiu a ideia do banco comunitário na Vila Primeiro de Maio, a partir de seminários sobre economia solidária e finanças alternativas. A cartilha produzida pelo núcleo (NEGA, 2017) registra esse processo e destaca que a universidade trouxe reflexões teóricas, mas também aprendeu com a prática comunitária, num intercâmbio horizontal de saberes. Além do NEGA, o BCC articula-se com diferentes organizações e movimentos da economia solidária, como o Fórum Gaúcho de Economia Solidária, o Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol) e a Rede Estadual de Trocas Solidárias (RETS). Esta última teve papel fundamental na introdução das Feiras de Troca, incluindo a oficina que escolheu o nome da moeda social Antena. A adesão a essas redes fortalece o reconhecimento político do BCC e amplia sua inserção em espaços de deliberação e troca de experiências, embora a participação contínua ainda enfrente limites operacionais e de tempo disponível das lideranças. Em termos de parcerias com o poder público, destaca-se a relação com o Programa Cozinha Solidária e o Programa Paul Singer, por meio dos quais o BCC articula ações de segurança alimentar e economia popular solidária. K., uma das lideranças do banco, atua como agente territorial vinculada a esse programa, reforçando o vínculo entre o banco e políticas públicas. O BCC também mantém parcerias locais com instituições do território, como a Escola Oscar Pereira, que oferece espaço físico e apoio institucional para reuniões e eventos; o Ambulatório de Terapias Naturais, que promove oficinas de alimentação saudável e aulas de yoga; e o posto de saúde da Vila Primeiro de Maio, que articula ações pontuais. O MTST e o Levante Popular da Juventude também são aliados na doação de cestas básicas e atividades sociais no bairro. Outras organizações da sociedade civil vêm apoiando o banco em momentos estratégicos. Entre elas estão a Avesol, que realiza trocas de experiências com o 35 grupo; a iniciativa Justa Troca, que viabilizou R$ 10.000 para estruturação da moeda Antena e do microcrédito; e a organização Koinós, que deu suporte à associação gestora no período de transição institucional. Adicionalmente, o BCC tem mantido forte diálogo com a universidade, não apenas por meio do NEGA, mas também com projetos e estudantes da UFRGS. Bolsistas e voluntários das áreas de Administração, Comunicação, Nutrição e Serviço Social têm participado de oficinas, diagnósticos e formações. Catherine, estudante envolvida no projeto NEGA, colaborou diretamente na construção da política de microcrédito. Ariel, estagiário remunerado, é outro exemplo da presença acadêmica, atuando na organização das Feiras de Troca e na gestão da moeda social. Essas parcerias cumprem diferentes funções: viabilizam recursos, oferecem apoio técnico e simbólico, contribuem para formações e fortalecem a legitimidade pública do BCC. Como indica Rigo et al. (2023), a diversidade e a qualidade das parcerias são indicadores importantes de sustentabilidade institucional (dimensão D4). No entanto, como reconhecido nas entrevistas com Ariel e Catherine, ainda há o desafio de consolidar uma participação mais ativa do BCC em fóruns estratégicos, o que depende da ampliação da equipe e de maior divisão de tarefas. Assim, observa-se que a rede de apoio ao BCC é ampla e plural, reunindo desde instituições acadêmicas até movimentos sociais, passando por organizações locais, igrejas, escola e agentes públicos. Essa articulação é uma das bases que permite ao banco seguir atuando, mesmo diante das fragilidades internas. Seu fortalecimento depende, portanto, tanto da manutenção desses vínculos quanto da capacidade de ampliar sua presença em redes políticas e técnicas que contribuam para sua sustentabilidade de longo prazo. As parcerias construídas ao longo do tempo são fundamentais para o funcionamento e o fortalecimento do Banco Comunitário Cascata. A cartilha do NEGA (2017) já apontava que um dos pilares da sustentabilidade dos BCDs é a construção de alianças com diferentes setores, desde universidades até instituições públicas e movimentos sociais. Essa perspectiva dialoga com o que Rigo et al. (2023) denominam como parte da dimensão D4, que trata das parcerias e fontes de sustentabilidade institucional. Na prática do BCC, as parcerias variam entre apoios permanentes e pontuais, de acordo com a disponibilidade das instituições e a necessidade da comunidade.