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O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL 
ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO 
COMISSÃO DE GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO 
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS 
 
 
 
 
 
 
 
GABRIELE COSTA DA SILVA 
 
 
 
 
 
GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: 
O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PORTO ALEGRE 
2025 
 
GABRIELE COSTA DA SILVA 
 
 
 
 
 
 
GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: 
O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE 
 
 
 
 
 
Trabalho de Conclusão de Curso de graduação 
apresentado ao Departamento de Ciências 
Administrativas da Universidade Federal do Rio 
Grande do Sul, como requisito parcial para a 
obtenção do grau de Bacharel em 
Administração. 
 
Orientadora: Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria 
Icaza 
 
 
 
 
 
 
 
 
Porto Alegre 
2025 
GABRIELE COSTA DA SILVA 
 
GESTÃO COMUNITÁRIA E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL: 
O CASO DO BANCO COMUNITÁRIO CASCATA DE PORTO ALEGRE 
 
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado 
como requisito parcial à obtenção do título de 
bacharela em Administração da Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul. 
 
Orientadora: Profa. Dra. Ana Mercedes 
Sarria Icaza 
 
 
 Aprovada em: 
 BANCA EXAMINADORA: 
 
 
 __________________________________________________________________ 
Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza - UFRGS/EA 
Orientadora 
 
___________________________________________________________________ 
Prof. Dr. Fabio Bittencourt Meira - UFRGS/EA 
Examinador 
 
 
___________________________________________________________________ 
Prof. Dr. Pedro de Almeida Costa - UFRGS/EA 
Examinador 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CIP - Catalogação na Publicação
Silva, Gabriele Costa da
Gestão Comunitária e Desenvolvimento Institucional:
о сазо do Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre /
Gabriele Costa da Silva. -- 2025.
62 f.
Orientador: Profa. Dra. Ana Mercedes Sarria Icaza.
Trabalho de conclusão de curso (Graduação)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de
Administração, Curso de Administração, Porto Alegre,
BR-RS, 2025.
1. Bancos comunitários. 2. Economia solidária. 3.
Gestão das Organizações da Sociedade Civil - Gestão
Social. I. Sarria Icaza, Profa. Dra. Ana Mercedes,
orient. II. Título.
Elaborada pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da UFRGS com os
dados fornecidos pelo(a) autor(a).
RESUMO 
 
Este trabalho analisa as dinâmicas organizacionais do Banco Comunitário Cascata 
(BCC), localizado em Porto Alegre/RS, a partir da perspectiva do desenvolvimento 
institucional e de pesquisas recentes sobre Bancos Comunitários de 
Desenvolvimento. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com base em 
entrevistas, observação participante e análise documental, buscando compreender 
os desafios enfrentados e as estratégias adotadas pelo BCC na sua trajetória. A 
partir dessa análise, evidencia-se que a sustentabilidade da iniciativa envolve não 
apenas aspectos financeiros, mas também questões de mobilização comunitária, 
estrutura organizacional, articulação em redes e fortalecimento da base social. Ao 
transcender uma visão gerencial tradicional, o trabalho propõe uma leitura que 
valoriza o papel sociopolítico da gestão em Organizações da Sociedade Civil, 
especialmente em experiências de economia solidária que se constroem desde os 
territórios populares. 
 
Palavras-chave: Bancos comunitários; Economia solidária; Gestão das 
Organizações da Sociedade Civil – Gestão Social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
This paper analyzes the organizational dynamics of the Cascata Community Bank 
(BCC), located in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, from the perspective of 
institutional development and recent research on Community Development Banks. 
The research adopts a qualitative approach, based on interviews, focus groups, 
participant observation, and document analysis, seeking to understand the 
challenges faced and the strategies adopted by the BCC throughout its history. This 
analysis reveals that the initiative's sustainability involves not only financial aspects, 
but also issues of community mobilization, organizational structure, networking, and 
strengthening the social base. By transcending a traditional managerial perspective, 
the paper proposes an interpretation that values the sociopolitical role of 
management in Civil Society Organizations, especially in solidarity economy 
experiences built from popular territories. 
. 
 
Keywords: Community banks; Solidarity economy; Management of civil society 
organizations – Social management. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO................................................................................................. 08 
2 BANCOS COMUNITÁRIOS E GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DA 
SOCIEDADE CIVIL..............................................................................................11 
2.1 BANCOS COMUNITÁRIOS E SEUS OBJETIVOS…………..........................11 
2.2 SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DE BANCOS COMUNITÁRIOS..........13 
2.3 BANCO COMUNITÁRIO CASCATA...............................................................15 
2.4 PERSPECTIVAS PARA ANALISAR A GESTÃO E A SUSTENTABILIDADE 
DAS OSCS E DAS ORGANIZAÇÕES DE ECONOMIA SOLIDÁRIA ..................17 
2.4.1 A Gestão Social .........................................................................................18 
2.4.2 As perspectivas sobre Desenvolvimento Institucional .........................19 
2.5 UMA PROPOSTA DE EIXOS DE ANÁLISE ...................................................20 
3 METODOLOGIA.................................................................................................22 
4 O BANCO COMUNITÁRIO CASCATA: HISTÓRICO, ESTRUTURA E 
FUNCIONAMENTO ATUAL .................................................................................24 
4.1 O SURGIMENTO ............................................................................................25 
4.2 ORGANIZAÇÃO ATUAL ........................................................................,........29 
4.2.1 As Feiras de Troca .....................................................................................30 
4.2.2 Atividades realizadas no BCC ...................................................................32 
4.2.3 Parceiros e rede de apoio ..........................................................................33 
4.3 O BCC COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO LOCAL …..............37 
5 ANÁLISE DOS RESULTADOS…………….........................................................38 
6 CONCLUSÕES ..................................................................................................58 
REFERÊNCIAS......................................................................................................60 
 
 
 
 
8 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Os bancos comunitários desempenham um papel fundamental na 
democratização do acesso aos serviços financeiros, especialmente em regiões 
periféricas e historicamente desassistidas. Ao promover a inclusão social e o 
fortalecimento da economia local, essas instituições contribuem para a criação de 
uma sociedade mais justa e igualitária, minimizando as desigualdades e gerando 
oportunidades de desenvolvimento sustentável (Menezes; Santos; Mariano, 2019). 
A gestão dos bancos comunitários se fundamenta em princípios éticos, 
solidários, transparentes e participativos, permeando as ações e decisões dos 
bancos comunitários. Por meio desse modelo de gestão, busca-se promover 
relações mais justas e igualitárias, que estejam alinhadas com os objetivos sociais e 
a sustentabilidade financeira, priorizando o desenvolvimento local e o bem-estar das 
comunidades atendidas (Oliveira; Benini; Melges, 2023). 
No entanto, a sustentabilidade financeira dos bancos comunitários enfrenta 
desafios significativos, que vão desde a captação de recursos até seu 
gerenciamento.36 
 
Uma das parcerias mais importantes e frequentes é com o Ambulatório de Terapias 
Naturais do Hospital Espírita de Porto Alegre, que semanalmente oferece aulas de 
ioga para as mulheres do território, além de realizar oficinas mensais sobre 
alimentação saudável e autocuidado. 
A Escola Estadual Oscar Pereira também é uma parceira relevante, 
especialmente por ter sediado oficinas com os estudantes que escolheram o nome 
da moeda Antena. Mais recentemente, a escola passou a integrar o comitê de 
análise do microcrédito com a participação da professora Ana Regina, fortalecendo o 
vínculo entre o banco e as instituições de ensino da região. 
Outras parcerias importantes incluem o Posto de Saúde, o MTST e o Levante 
Popular da Juventude, que apoiam pontualmente ações como a distribuição de 
cestas básicas. Já o Koinós, associação de apoio comunitário, colaborou ativamente 
na reestruturação da sede da associação e apoiou o início do projeto das marmitas 
populares, fornecendo alimentos como arroz, feijão e banha por cerca de um ano, a 
partir da apresentação da proposta de “feitio” às sextas-feiras. 
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialmente por 
meio do projeto de extensão NEGA, é uma das parcerias mais próximas e 
constantes. A universidade contribui com formação, sistematização de dados, apoio 
metodológico e articulação com outras redes e programas. Além disso, estudantes 
de graduação e pós-graduação têm atuado diretamente no banco, como no caso de 
C. e de J., ampliando a capacidade de planejamento e implementação de ações. 
Outro parceiro ativo é o coletivo que mantém a oficina de capoeira, sendo 
responsável também, no passado, pelo custeio de atividades de biodança e 
ginástica. Hoje, a capoeira permanece como atividade fixa, com professores pagos 
por esse grupo. A atividade também contribui com a circulação da moeda Antena 
entre crianças e jovens: segundo relato de J., os alunos recebem Antenas como 
incentivo ao desempenho nas aulas, podendo utilizá-las em comércios locais – uma 
forma prática e pedagógica de aprender sobre economia solidária desde cedo. 
Além desses parceiros recorrentes, o banco mantém relações institucionais 
com iniciativas públicas. Uma dessas relações se dá com o Programa Cozinha 
Solidária, com o qual o banco articula o fornecimento de marmitas a famílias em 
situação de vulnerabilidade. Outro exemplo é o Programa Paul Singer, no qual K. 
atua como agente territorial de economia popular solidária, articulando ações e 
ampliando o acesso a políticas públicas voltadas à economia solidária. 
37 
 
Conforme relataram K. e J. em entrevistas, essas parcerias são ativadas 
conforme a demanda e a construção de vínculos de confiança. Há uma clara 
valorização da reciprocidade e da construção conjunta, e os parceiros mais próximos 
são vistos como parte do cotidiano do banco. O reconhecimento da comunidade 
como protagonista do processo também é central, sendo os apoios externos 
compreendidos como complementares – e não substitutos – da mobilização local. 
Essa rede de cooperação demonstra que a sustentabilidade do BCC vai além 
da questão financeira. Ela é fortalecida pela solidariedade institucional, pela 
capacidade de articulação com diferentes atores e pelo compromisso coletivo com a 
transformação do território. A construção dessas alianças é, portanto, uma estratégia 
essencial de desenvolvimento institucional, como apontam Armani (2013) e Rigo et 
al. (2023), ao destacarem a importância de redes multissetoriais como base para a 
sustentabilidade e autonomia das organizações populares. 
 
4.3 O BCC como Instrumento de Transformação Local 
 
O Banco Comunitário Cascata é fruto de uma longa trajetória de mobilização 
popular, protagonismo feminino e solidariedade na Vila Primeiro de Maio, em Porto 
Alegre. Sua criação não representou um ponto de partida isolado, mas sim a 
continuidade de práticas comunitárias que há décadas buscavam formas alternativas 
de desenvolvimento, inclusão e dignidade para os moradores da região. Desde sua 
formalização em 2016, o banco consolidou-se como um espaço de articulação 
social, inovação econômica e fortalecimento dos laços comunitários. 
Através de iniciativas como as Feiras de Troca, as Rodas de Conversa e a 
construção coletiva da moeda social Antena, o BCC fortalece a circulação de bens e 
saberes, estimula a autonomia financeira e amplia a participação cidadã. Essas 
ações não apenas fomentam a economia solidária, mas também criam condições 
para a construção de uma sociabilidade baseada no cuidado, no apoio mútuo e na 
valorização do território (NEGA, 2017; Nascimento, Silva, Ribeiro, 2023). 
A experiência do Banco Comunitário Cascata demonstra que é possível 
construir respostas locais a desafios estruturais como a exclusão econômica e a 
falta de acesso a políticas públicas. Sua atuação evidencia a importância de se 
apoiar em saberes populares e em formas de gestão democrática que dialogam 
diretamente com a realidade vivida pela comunidade. Mais do que uma instituição 
38 
 
financeira, o BCC tornou-se um agente de transformação social, promovendo novas 
perspectivas de vida e contribuindo para a construção de um território mais justo, 
solidário e autônomo (COSTA, 2025; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). 
 
5 ANÁLISE DOS RESULTADOS 
 
O capítulo anterior já apresentou os primeiros resultados da pesquisa, ao 
descrever o contexto territorial, o histórico, a estrutura e o funcionamento atual do 
Banco Comunitário Cascata (BCC), com base em observações de campo, 
entrevistas e documentos institucionais. A partir dessas informações, este capítulo 
aprofunda a análise do BCC com base em uma combinação dos vetores de 
desenvolvimento institucional propostos por Armani (2013) com as dimensões 
analíticas elaboradas na Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de 
Desenvolvimento, coordenada por Rigo et al. (2023). A esses referenciais, 
somam-se as contribuições de Silva (2020a; 2020b), que enfatiza a importância das 
dinâmicas sociopolíticas na construção da legitimidade, sustentabilidade e incidência 
das organizações da sociedade civil. 
A escolha por essa abordagem integrada tem como objetivo captar não 
apenas os aspectos gerenciais da experiência do BCC, mas também os elementos 
simbólicos, relacionais e políticos que estruturam sua atuação no território da Vila 
Primeiro de Maio, em Porto Alegre. 
A análise foi construída com base em fontes empíricas, incluindo entrevistas 
semiestruturadas com integrantes da gestão, conversas informais com apoiadoras e 
apoiadores, observações diretas em atividades como as Feiras de Troca, rodas de 
conversa e oficinas comunitárias, bem como a análise de documentos institucionais, 
relatórios de estágio e materiais informativos sobre o bairro Cascata. Minha 
experiência enquanto estagiária no Banco Comunitário Cascata — atuando em 
ações como a contabilização simbólica da moeda Antena, apoio às feiras e 
participação nas rodas de conversa — contribuiu para uma escuta sensível e um 
olhar situado sobre as práticas desenvolvidas. O contato com estudantes da UFRGS 
vinculados ao projeto de extensão NEGA também ampliou o entendimento sobre os 
processos formativos e as articulações institucionais que permeiam a atuação do 
banco. 
39 
 
A partir desse material, organizei a análise em seis eixos principais: (1) base 
social e legitimidade; (2) autonomia e sustentabilidade; (3) estrutura organizacional e 
gestão; (4) participação e controle social; (5) capacidade de articulação e incidência 
política; e (6) inclusão financeira, moeda social e microcrédito. Esses eixos não 
foram definidos de maneira autoral ou isolada, mas resultam da articulação entre 
dois referenciais teóricos complementares: os vetores de desenvolvimento 
institucional propostos por Armani (2013), voltados à análise das capacidades 
organizacionais, relacionais e políticas das organizaçõesda sociedade civil; e as 
dimensões analíticas desenvolvidas pela Pesquisa Nacional dos Bancos 
Comunitários de Desenvolvimento, coordenada por Rigo et al. (2023), que propõem 
uma leitura específica do funcionamento e dos desafios dos BCDs brasileiros. A 
combinação desses referenciais permite captar tanto as estruturas institucionais e 
práticas organizativas quanto os processos de legitimidade, sustentabilidade e 
incidência que atravessam a experiência do BCC. 
Cada eixo analítico articula elementos dessas bases teóricas com os dados 
empíricos da experiência concreta do Banco Comunitário Cascata, buscando 
compreender como se constrói e se sustenta uma iniciativa comunitária em um 
contexto marcado por vulnerabilidades sociais, mas também por práticas solidárias, 
mobilização territorial e construção coletiva de alternativas econômicas e políticas. 
 
Eixo 1 - Base social e legitimidade 
 
A base social e a legitimidade constituem um dos principais vetores de 
desenvolvimento institucional, conforme proposto por Armani (2013). Esse vetor diz 
respeito à relação da organização com seu público de referência, à capacidade de 
enraizamento no território e ao reconhecimento social de sua atuação. Envolve 
também a forma como a organização constrói pertencimento, escuta sua base e 
responde às demandas locais de forma participativa. 
Na Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. (2023), esse 
aspecto aparece nas dimensões D1 (identificação e condições gerais) e D2 (território 
e abrangência), que enfatizam a importância do vínculo com a comunidade e da 
atuação localizada para o fortalecimento dos bancos comunitários. Segundo Silva 
(2020a), a legitimidade institucional está relacionada tanto à confiança social quanto 
40 
 
à coerência entre missão, práticas e reconhecimento comunitário, o que exige 
formas de gestão transparentes e participação efetiva da base social. 
No caso do Banco Comunitário Cascata (BCC), sua base social está 
diretamente vinculada à criação da Associação de Economia Solidária, Cultura e 
Educação da Cascata, mobilizada especificamente para permitir o surgimento do 
banco. Embora já existisse anteriormente uma Associação de Moradores da Vila 
Primeiro de Maio, reconhecida por sua trajetória de mobilização comunitária, foi 
necessário criar uma nova entidade para viabilizar juridicamente o BCC. Esse 
processo fortaleceu o vínculo com o território desde o início e construiu uma base 
ativa de moradoras engajadas. Atualmente, a atuação do banco está concentrada 
exclusivamente na Vila Primeiro de Maio, localizada no bairro Cascata, em Porto 
Alegre (dimensões D1 e D2). 
Essa delimitação territorial se deve, em parte, à existência da sede física 
compartilhada, que oferece estrutura para o funcionamento das ações. Houve, em 
anos anteriores, uma tentativa de ampliar o alcance territorial por meio de Feiras de 
Troca no bairro Renascença. No entanto, como relatou J.S.S.1, essa experiência não 
teve continuidade por conta das diferenças de dinâmica comunitária, fragilidades 
institucionais locais e ausência de infraestrutura, reforçando o enraizamento do BCC 
no território de origem. 
O reconhecimento simbólico do banco pela comunidade se dá, em grande 
parte, pela existência de um espaço físico. Embora eu não seja moradora da vila, 
minha experiência no campo revelou que muitas pessoas ainda não conhecem o 
local. 
A legitimidade também se constrói por meio das lideranças. A forte presença 
de figuras como J.S.S. e K.G, esta última atualmente reconhecida como agente 
comunitária, fortalece a imagem do banco como um espaço construído "de dentro 
para fora". Ambas são mulheres ativas na comunidade e em diversos projetos 
sociais. Para K.G., "o banco vem se consolidando como um espaço para as 
mulheres, crianças, um espaço de acolhimento, de educação, de assistência e de 
emancipação das mulheres, de lutas. O que dá essa legitimidade é o trabalho que 
vem sendo realizado". 
A moeda social Antena também desempenha papel simbólico importante. Seu 
nome foi escolhido por meio de uma oficina facilitada por Solange Manica, fundadora 
1 Informação verbal cedida por J.S.S.; A.P; C.G. e K.G., p. 42 a 50, Porto Alegre, 2025. 
41 
 
da Rede Estadual de Trocas do RS, junto aos alunos do Colégio Oscar Pereira. 
Foram sugeridos nomes como Cacetinho, Gruta e Pila, e "Antena" foi o mais votado. 
Segundo J.S.S o nome faz referência ao Morro da Embratel — conhecido como 
Morro da Antena — visível desde a região da vila, o que confere uma identidade 
visual e territorial à moeda. Como destacou J.S.S. "Se tu prestar atenção, tu vê as 
antenas, tu sabe que ali é o Morro da Embratel". 
Por outro lado, eventos como as Feiras de Troca têm aumentado o 
reconhecimento do banco na comunidade. Segundo J.S.S., essas feiras têm sido um 
"carro-chefe" da atuação e contribuíram para fortalecer outras iniciativas, como os 
projetos de geração de renda e a cozinha solidária. O estagiário e a bolsista do 
NEGA destacam que, embora a participação comunitária ainda seja um desafio, há 
um esforço contínuo de engajamento por meio de redes sociais, rodas de conversa 
e convites informais. Cada projeto tem suas próprias reuniões e formas de escuta, 
além das assembleias gerais que mantêm a abertura ao diálogo com a comunidade. 
A partir da minha experiência de escuta em campo, relato o caso de uma 
moradora da comunidade e uma das atuais coordenadoras, mãe solo de dois filhos 
com deficiência (dentro do espectro autista), que participa frequentemente das 
atividades do banco. Segundo ela, o espaço a ajudou a entender seus direitos como 
mulher e mãe atípica, além de lhe proporcionar acolhimento e aprendizado. A 
presença de uma advogada em rodas de conversa trouxe esclarecimentos sobre 
pensão, união estável e situações de violência, destacando o papel do banco como 
espaço de apoio e informação. A partir da minha escuta e presença nesses 
momentos, ficou evidente a força das trocas de saberes entre as mulheres e o 
impacto dessas iniciativas no fortalecimento pessoal e coletivo das participantes. 
Assim, o BCC é reconhecido como espaço de resistência e proteção, 
especialmente para mulheres e crianças. Nos relatos, aparecem temas como 
combate à violência doméstica, promoção da autoestima, geração de renda e 
empoderamento feminino. Como observei nas rodas de conversa, abordaram-se 
temas como o direito das mulheres ao amor e respeito, a afirmação de que criança 
não é mãe, e o incentivo à busca por autonomia e informação. Esses elementos 
fortalecem sua legitimidade simbólica (Armani, 2013; Silva, 2020a). 
Outro ponto importante é a dificuldade de distinguir os papéis entre o banco e 
a associação gestora. A prestação de contas, formalmente, é da associação, mas na 
prática a gestão é compartilhada e transparente, com informações sendo divulgadas 
42 
 
em grupos de WhatsApp e discutidas nas assembleias. Segundo observação 
empírica, houve um aumento na participação comunitária na última assembleia, o 
que motivou a ampliação do número de membros do conselho e de suplentes — um 
indicativo de que a legitimidade institucional também se reforça com a 
democratização das decisões (D1 e D2). 
A partir da minha experiência como pesquisadora e também como profissional 
atuante em uma instituição financeira privada, percebo que o reconhecimento 
simbólico de um banco comunitário não depende apenas de sua atuação concreta, 
mas também da capacidade de comunicar sua presença e propósito de maneira 
acessível e constante à população local. 
 
Eixo 2 - Autonomia e sustentabilidade 
 
O vetor da autonomia e sustentabilidade institucional envolve a capacidade da 
organização de manter suas atividades de forma contínua, com relativa 
independência em relação a ciclos políticos ou a fontes externas de financiamento. 
Para Armani (2013), a sustentabilidade não se restringe à dimensão financeira, mas 
dizrespeito à capacidade de sustentar um projeto político, com coerência entre 
meios e fins, em diálogo com sua base social. Silva (2020a) também destaca que a 
sustentabilidade institucional depende de uma construção coletiva de estratégias 
que articulem a gestão, o financiamento e o vínculo com o território, garantindo 
estabilidade e coerência no longo prazo. 
Na Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. (2023), essas 
questões aparecem especialmente na dimensão D4 (sustentabilidade financeira e 
parcerias). A dimensão D3 aponta para a importância da existência de equipes 
organizadas, com divisão de responsabilidades e gestão democrática, enquanto a 
D4 enfatiza a relevância da diversificação de fontes de financiamento, o acesso a 
editais e a capacidade de estabelecer parcerias duradouras. 
No caso do Banco Comunitário Cascata, sua autonomia financeira ainda é 
frágil, especialmente no que se refere à captação de recursos e ao tempo disponível 
das lideranças voluntárias (dimensões D3 e D4). Como pontuou K.G., as fragilidades 
atuais estão na mobilização, engajamento, captação de recursos e na gestão. A 
maior parte das ações realizadas até o momento foi viabilizada por recursos de 
projetos temporários, como o prêmio Periferia Viva (no valor de R$ 50.000), que foi 
43 
 
fundamental para a reforma do espaço físico, compra de equipamentos e 
estruturação da moeda social e da política de microcrédito. Além disso, o banco 
recebeu um apoio de R$ 10.000 da iniciativa Justa Troca, voltado à implantação da 
moeda e do crédito comunitário. 
Consciente da limitação desses recursos e diante da pergunta sobre como o 
banco seguirá após o término dos apoios externos, a atual gestão tem buscado 
estratégias de sustentabilidade para além dos editais (D4). Segundo K.G., estão 
sendo planejadas ações como campanhas de arrecadação com tampinhas plásticas, 
eventos anuais para geração de fundos e a produção e comercialização de produtos 
artesanais vinculados ao banco. Essas estratégias visam garantir uma renda mínima 
recorrente para manter o espaço ativo, mesmo após o fim dos financiamentos 
externos. Ela destaca que o grupo está aberto a novas ideias nesse sentido. Ariel e 
Catherine, no grupo focal, reforçam essa preocupação, destacando que garantir a 
sustentabilidade do banco a longo prazo depende da ampliação das formas de 
geração de renda e da diversificação das parcerias institucionais. Também 
reconhecem que há um desafio constante em equilibrar as demandas operacionais 
com a construção de estratégias sustentáveis e participativas (dimensões D3 e D4). 
Embora ainda haja uma sobrecarga nas figuras centrais de liderança, 
especialmente K.G. e J.S.S., há um esforço para distribuir as tarefas e formar outras 
pessoas para a continuidade das ações (D3). Como afirmou K.G.: “Às vezes 
achamos que não o banco continuaria sem elas, e acabamos nos surpreendendo. 
Trabalhamos para que mais pessoas se engajem no mesmo nível que o nosso, ou 
em algum nível pelo menos”. Essa tentativa de ampliar a participação e criar uma 
rede de corresponsabilidade é central para fortalecer a sustentabilidade institucional. 
Silva (2020) reforça que a construção da sustentabilidade exige processos de 
formação interna, partilha de responsabilidades e fortalecimento de vínculos 
organizacionais. 
Apesar de o banco receber apoio de projetos e parcerias institucionais, a 
autonomia nas decisões sempre foi preservada (dimensão D4). Segundo J., 
"nenhum dos apoiadores entrou com alguma voz ativa. Eles todos nos ouvem e nós 
tomamos as decisões de qualquer implementação que for fazer. Eles nunca se 
meteram, nenhum dos apoiadores se meteu assim, em ser como eles queriam". Isso 
demonstra que a condução do banco é feita de forma autônoma pelas mulheres 
44 
 
envolvidas, garantindo coerência com os princípios comunitários e solidários que 
orientam suas ações (Armani, 2013). 
Do ponto de vista político, a associação gestora do banco não possui vínculo 
com nenhum partido. Como esclarece K.G., "a associação não tem partido, mas 
algumas pessoas que estão na associação e com quem nós articulamos têm, mas o 
foco é a realização do trabalho, orientadas por uma visão socialista". Essa 
autonomia política garante que o banco atue com independência e comprometido 
com os valores e as demandas da comunidade, reforçando sua capacidade de 
autogestão (Silva, 2020a). 
O Banco Comunitário Cascata tem buscado fortalecer sua autonomia 
institucional, articulando-se com políticas públicas e redes de economia solidária 
(dimensão D4), como no caso do Programa Cozinha Solidária. Embora ainda não 
participe ativamente de todas essas redes, o BCC tem assento no Conselho 
Estadual de Economia Solidária (Cesol) e mantém diálogo com iniciativas 
semelhantes. Essas articulações ampliam a visibilidade do banco e oferecem apoio 
político e institucional, sem comprometer sua capacidade decisória ou os vínculos 
com a comunidade — aspectos centrais da autonomia, entendida aqui como 
coerência entre fins e meios e compromisso com sua base social (Armani, 2013). 
Dessa forma, embora enfrente desafios importantes, o BCC vem 
desenvolvendo caminhos para fortalecer sua sustentabilidade e autonomia, com 
base na criatividade, solidariedade e articulação comunitária. O reconhecimento das 
fragilidades é parte do processo de construção institucional, e a busca por fontes 
alternativas de recursos, combinada com estratégias de engajamento e formação de 
lideranças, é um passo relevante para garantir a continuidade da proposta no 
território. Essa análise reforça a importância de compreender a sustentabilidade 
como um processo político e relacional, em consonância com os marcos teóricos de 
Armani (2013), Silva (2020a, 2020b) e os indicadores empíricos da pesquisa de Rigo 
et al. (2023). 
A partir da minha vivência de campo, compreendo que a sustentabilidade do 
BCC não se limita à arrecadação de recursos. Existe uma forma de sustentabilidade 
social, construída no apoio mútuo entre mulheres, na circulação de saberes, no 
cuidado com o território e no compromisso com a transformação social. A presença 
constante das lideranças e a dedicação das voluntárias, mesmo diante de 
adversidades, mostram que a autonomia institucional também se alimenta de 
45 
 
vínculos afetivos, confiança e pertencimento. No entanto, essa mesma força 
relacional que sustenta o banco pode se tornar uma fragilidade quando não 
acompanhada de estratégias estruturadas de financiamento. A ausência de uma 
fonte estável de recursos e a dependência de editais pontuais revelam um limite 
importante à autonomia financeira da iniciativa. Além disso, a sobrecarga de poucas 
pessoas e a informalidade na gestão dificultam o planejamento de longo prazo e a 
construção de uma transição geracional sólida. 
Assim, embora o BCC tenha desenvolvido formas criativas de manter suas 
atividades vivas, ainda enfrenta desafios significativos para garantir uma autonomia 
sustentável, especialmente em termos financeiros e organizacionais. A 
sustentabilidade, nesse sentido, precisa ser compreendida como um processo 
complexo, que exige tanto a valorização das relações comunitárias quanto o 
fortalecimento institucional da organização. Caminhar nessa direção implica investir 
na formação de novas lideranças, no aprimoramento da gestão e na construção de 
estratégias de financiamento de base, sem abrir mão da escuta, do diálogo e do 
protagonismo local que tornam o BCC uma experiência única de economia solidária 
e transformação social. 
 
Eixo 3 - Estrutura organizacional e gestão 
 
A estrutura organizacional e os processos de gestão são aspectos centrais 
para o desenvolvimento institucional do Banco Comunitário Cascata. Segundo 
Armani (2013), a institucionalização de um projeto está diretamente relacionada à 
sua capacidade de organizar tarefas, distribuir responsabilidades e adotar formasdemocráticas de decisão. A Pesquisa Nacional dos BCDs coordenada por Rigo et al. 
(2023) destaca essas questões na dimensão D3 (gestão e pessoas), que avalia o 
grau de formalização das equipes, os mecanismos de tomada de decisão e a 
existência de processos de capacitação e partilha interna. 
No caso do BCC, a gestão ocorre de maneira coletiva, com base em uma 
organização horizontal e informal. Apesar de a associação gestora ter cargos 
definidos — K.G. como coordenadora administrativa, J.S.S. como coordenadora 
financeira, Miriam como coordenadora de comunicação e J. como coordenadora de 
meio ambiente —, as decisões são tomadas de forma conjunta pelas principais 
lideranças, por meio de reuniões internas, grupos de WhatsApp e rodas de 
46 
 
conversa. Segundo Ariel, essa formalização recente por meio da assembleia apenas 
reconheceu funções que essas mulheres já vinham exercendo na prática. Ele 
observa que todos se envolvem nas atividades, independentemente dos cargos, 
com exceção da coordenação financeira, que exige maior formalidade devido ao 
acesso bancário e à responsabilidade com os recursos. 
A sobreposição entre as estruturas do banco e da associação gestora reflete 
uma dinâmica observada em diversos BCDs analisados por Rigo et al. (2023), o que 
dificulta a delimitação clara de funções. Não há uma separação formal entre quem 
atua no banco e quem atua na associação. Essa sobreposição permite uma gestão 
integrada e voltada às demandas concretas da comunidade, mas também dificulta a 
institucionalização de papéis e a ampliação da equipe. Apesar disso, não se trata de 
uma relação de sobreposição de poderes, e sim de uma falta de discriminação clara 
entre o que pertence à estrutura do banco e à da associação. A prestação de 
contas, por exemplo, é feita em conjunto, refletindo essa integração. Ainda assim, o 
banco conta com atores específicos não diretamente ligados à associação, como 
Ariel (estagiário da universidade) e Catherine (aluna da UFRGS vinculada ao projeto 
NEGA), evidenciando que há uma atuação complementar entre os dois espaços. 
A divisão de tarefas ocorre informalmente, mas com padrões bem 
estabelecidos na prática. J.S.S. e J. estão mais ligadas à cozinha e às atividades 
alimentares; K.G. à organização dos projetos, oficinas e parcerias; Ariel à gestão das 
trocas e à moeda social; Catherine, bolsista do NEGA à elaboração das políticas de 
microcrédito e à articulação com universidades. Há ainda o apoio de outras 
mulheres que colaboram como voluntárias em atividades específicas. Essa 
configuração reflete o que Rigo et al. (2023) identificam como característico dos 
BCDs: estruturas organizacionais reduzidas, baseadas na participação de militantes 
e lideranças comunitárias, com baixa formalização administrativa (D3). 
A gestão financeira do banco é feita com base na transparência e no 
compartilhamento de informações. Segundo as entrevistas, todas as integrantes do 
núcleo gestor têm acesso aos dados sobre os recursos dos projetos, e as principais 
decisões de compra e uso de verbas são discutidas coletivamente. Isso se aplica 
tanto aos recursos do Periferia Viva quanto aos demais apoios recebidos. A 
contabilidade é feita com prestação de contas formal. 
No entanto, é importante destacar que o debate sobre profissionalização, no 
contexto dos BCDs e das OSCs, não se refere apenas à contratação de funcionários 
47 
 
ou à adoção de modelos empresariais. Como argumentam Armani (2013) e Silva 
(2020a), a profissionalização pode ser compreendida como a qualificação das 
ações, a sistematização dos processos e o fortalecimento da capacidade 
institucional das organizações — sempre respeitando seus valores comunitários e 
horizontais. 
Há um reconhecimento claro, por parte das coordenadoras e participantes do 
Banco Comunitário Cascata, sobre a importância da formação continuada e da 
qualificação das ações para o fortalecimento institucional. A busca por capacitação 
aparece especialmente nas áreas de alimentação, comunicação e gestão, refletindo 
uma preocupação com a qualidade dos serviços prestados e com a sustentabilidade 
das atividades. 
Na área da alimentação, J.S.S. relatou que ela e uma colega participaram de 
um curso de boas práticas alimentares promovido pela Faculdade QI, com o objetivo 
de melhorar as condições da cozinha solidária. Há o desejo de estender essa 
formação para outras mulheres envolvidas, além do interesse em realizar oficinas de 
precificação e elaboração de tabela nutricional, com apoio de nutricionistas. Essas 
iniciativas visam tanto aprimorar a alimentação oferecida à comunidade quanto 
fomentar novas formas de geração de renda. 
Essas experiências demonstram que, mesmo mantendo uma gestão 
comunitária e horizontal como princípio, há abertura para processos de 
profissionalização entendidos como fortalecimento técnico e organizacional. Essa 
profissionalização se dá por meio de formações específicas, partilha de saberes e 
construção de instrumentos que melhorem o desempenho das ações — sem romper 
com os princípios de autonomia, solidariedade e participação coletiva que sustentam 
o BCC. 
Vale destacar que, atualmente, a única pessoa remunerada é o estagiário 
vinculado à universidade. Todas as demais lideranças e colaboradoras atuam de 
forma voluntária, o que reforça o caráter militante e comunitário da gestão, mas 
também aponta desafios de continuidade e dedicação diante das múltiplas 
demandas do cotidiano. 
A partir da minha observação direta e das entrevistas realizadas, percebo que 
a estrutura organizacional do BCC, embora informal, é funcional para a realidade 
local. O desafio maior está em garantir a continuidade e a distribuição equilibrada 
das tarefas, evitando a sobrecarga e incentivando a entrada de novas pessoas. A 
48 
 
gestão horizontal, baseada na confiança e na convivência cotidiana, é um dos 
pontos fortes do banco, mas precisa ser acompanhada de estratégias que 
fortaleçam a institucionalidade e a sustentabilidade no longo prazo. O investimento 
em capacitações específicas, como os cursos já realizados ou desejados pelas 
lideranças, pode ser um caminho promissor nesse sentido, equilibrando o 
compromisso comunitário com práticas mais estruturadas e eficazes de gestão. 
 
Eixo 4 - Participação e controle social 
 
A participação e o controle social são dimensões centrais para o 
fortalecimento institucional de organizações comunitárias. Segundo Armani (2013), 
práticas democráticas de decisão, escuta ativa da base social e mecanismos de 
prestação de contas contribuem para legitimar as lideranças e ampliar o 
comprometimento coletivo com os objetivos do projeto. A Pesquisa Nacional dos 
BCDs (Rigo et al., 2023) aborda esses aspectos na dimensão D5 (participação e 
controle social), ressaltando que a baixa mobilização popular, o personalismo nas 
lideranças e a informalidade nas decisões são desafios comuns nos bancos 
comunitários. 
No caso do Banco Comunitário Cascata, observa-se uma gestão baseada na 
confiança, proximidade e horizontalidade. A escolha das lideranças ocorre em 
assembleias abertas, como a que formalizou os cargos atuais de coordenação. 
Segundo Ariel, essa formalização apenas reconheceu o que já acontecia de maneira 
informal: as mulheres mais engajadas e presentes passaram a ocupar oficialmente 
as funções que já exerciam na prática. Isso revela um estilo de liderança não 
autoritário, mas construído pela trajetória de atuação das coordenadoras, com forte 
vínculo com a comunidade. 
A escuta da base ocorre principalmente por meio das rodas de conversa, dos 
grupos de WhatsApp, das feiras de troca e dos encontros informais no espaço do 
banco. De acordo com Catherine, cada projeto tem seus próprios momentos de 
diálogo e construção coletiva. A assembleia, realizada a cada dois anos, também é 
um espaço relevante para decisões mais amplas, como a definição da coordenaçãoe a ampliação do conselho. A convocação para essa assembleia é feita por meio 
digital e com avisos no espaço físico do banco, com um edital lançado com 
antecedência para que as pessoas possam entender o processo, se associar, se 
49 
 
candidatar e se preparar para a votação. Essa dinâmica demonstra a valorização de 
práticas participativas, ainda que nem sempre estruturadas formalmente. 
Apesar do esforço de horizontalidade, há reconhecimento de que a 
participação comunitária ainda é limitada. Como expressaram A.P. e C.G., muitas 
decisões ainda recaem sobre um núcleo restrito de pessoas, geralmente as mesmas 
mulheres que estão à frente das ações. Ariel destacou que "às vezes as decisões 
acabam dependendo de nós, o que mostra que o grupo ainda não é tão autônomo 
quanto poderia". C. G. complementou dizendo que "muitas vezes são as mesmas 
pessoas que participam, e outras nem sabem o que acontece ali no banco". Essa 
percepção é reforçada por J.S.S., que comentou: “A gente vai fazer 10 anos que a 
gente está, mas ainda mesmo tendo todo esse tempo, a gente não é conhecido em 
toda a nossa comunidade. Aos pouquinhos, uma vai passando pra outra, vai 
passando pra outra, vai passando pra outra. E aí tá conhecendo. Então, cada feira 
de troca, a gente vê que aparece três, quatro diferentes." Essas falas apontam para 
o desafio de ampliar o alcance, fortalecer o sentimento de pertencimento e 
transformar o banco em um espaço reconhecido mais amplamente pela 
comunidade. 
Isso se alinha ao que aponta Rigo et al. (2023), ao indicar que grande parte 
dos BCDs enfrenta dificuldades em ampliar sua base ativa de participação (D5). A 
ausência de engajamento dificulta a ampliação do controle social, tornando a 
mobilização de novos participantes um desafio constante. 
No entanto, iniciativas como as feiras de troca, a cozinha solidária e os cursos 
oferecidos são estratégias importantes para atrair novos públicos e estimular o 
sentimento de pertencimento. A inclusão de mulheres em situação de 
vulnerabilidade, o acolhimento de mães com filhos pequenos e a valorização do 
conhecimento popular contribuem para construir uma cultura participativa baseada 
na solidariedade e na escuta. 
Do ponto de vista da prestação de contas, as coordenadoras relatam que 
todas as informações financeiras são compartilhadas entre as gestoras, e que há 
transparência nas decisões sobre uso de recursos. O acesso às contas bancárias é 
restrito às coordenadoras responsáveis, mas as decisões são tomadas 
coletivamente, e os relatórios de gastos são apresentados ao grupo. Essa prática 
fortalece a confiança, mesmo diante das limitações estruturais. 
50 
 
A partir da minha observação direta, percebo que o estilo de liderança no 
BCC é marcadamente democrático e comprometido com os princípios da economia 
solidária. Não há imposições ou centralização autoritária; ao contrário, há um 
esforço visível de incluir, escutar e valorizar cada participante. No entanto, o desafio 
está em tornar esse ideal de participação mais concreto no cotidiano, ampliando a 
base ativa, estimulando a corresponsabilidade e consolidando espaços de 
deliberação mais frequentes. A aposta em rodas de conversa, formação de 
lideranças e atividades educativas é uma estratégia potente para tornar a gestão 
ainda mais participativa e alinhada com os princípios que a fundaram. 
 
Eixo 5 - Capacidade de articulação e incidência política 
 
A capacidade de articulação e incidência política diz respeito à inserção da 
organização em redes mais amplas de diálogo, cooperação e influência, tanto com 
movimentos sociais quanto com instituições públicas e outras organizações da 
sociedade civil. Para Armani (2013), esse vetor é essencial para o fortalecimento 
institucional, pois amplia o poder de ação da organização para além do território 
imediato e contribui para sua sustentabilidade política. Isso ocorre por meio da 
legitimação da atuação pública, da ampliação do acesso a recursos e da 
possibilidade de incidir em políticas públicas. Já Rigo et al. (2023), ao analisarem os 
Bancos Comunitários de Desenvolvimento, evidenciam que essa dimensão 
perpassa tanto a D4 (sustentabilidade financeira e parcerias) quanto a D5 
(participação e controle social), ao mostrar que uma atuação articulada é 
fundamental para garantir visibilidade, captação de recursos e atuação em rede. 
No caso do Banco Comunitário Cascata, observo uma atuação que busca 
construir pontes com diferentes instituições e redes, embora nem sempre de forma 
sistemática. Atualmente, o banco tem assento no Conselho Estadual de Economia 
Solidária (Cesol) e mantém articulação com o Fórum Gaúcho de Economia Solidária, 
além de participar pontualmente de iniciativas em rede. A relação com a Avesol e o 
Justa Troca, por exemplo, tem se dado mais por trocas de experiências do que por 
participação contínua em fóruns ou instâncias deliberativas. Isso evidencia o desafio 
apontado por Rigo et al. (2023) quanto à dificuldade de integração ativa dos BCDs 
em redes políticas e colaborativas (D5). 
51 
 
O banco também tem estabelecido parcerias com programas públicos, como 
o Programa Cozinha Solidária e o Programa Paul Singer, através do qual K. atua 
como agente territorial de economia popular solidária. Esses vínculos com políticas 
públicas ampliam a inserção institucional do banco e contribuem para a visibilidade 
da sua atuação em rede, reforçando a importância das articulações estratégicas 
para garantir maior autonomia institucional e capacidade de influência, como 
destaca Armani (2013). 
Também é importante destacar a aproximação com universidades, como a 
UFRGS, por meio do projeto NEGA. A parceria é constante, especialmente no apoio 
a formações e atividades educativas, com atuação de bolsistas e voluntários(as) em 
oficinas, diagnósticos e formações fortalecendo a articulação com o campo 
acadêmico e contribuindo para a sistematização de experiências e construção de 
conhecimento compartilhado. Isso está alinhado com a dimensão D4 da pesquisa de 
Rigo et al. (2023), ao destacar a relevância de parcerias duradouras para a 
sustentabilidade institucional. 
No que diz respeito a parcerias locais, o BCC mantém vínculos diversos com 
organizações do território. Entre os parceiros frequentes estão o Ambulatório de 
Terapias Naturais, que oferece aulas de ioga e oficinas de alimentação saudável; a 
Escola Oscar Pereira e o posto de saúde local, que colaboram pontualmente; e o 
Koinós, que apoiou a associação na fase de transição. O MTST também atua na 
doação de cestas básicas, e o Levante Popular da Juventude realiza ações 
conjuntas. Há ainda um grupo de apoiadores que garantiram por um tempo os 
salários de professores de capoeira, ginástica e biodança, sendo que atualmente 
apenas o professor de capoeira permanece ativo. Esses arranjos mostram uma rede 
de apoio sólida, ainda que desigual, e evidenciam a centralidade das parcerias para 
o funcionamento cotidiano do banco — conforme reforçado por Rigo et al. (2023), 
que apontam a diversidade e qualidade das parcerias como um critério relevante de 
avaliação institucional (D4). 
Durante as entrevistas, percebi que as lideranças do BCC valorizam esses 
vínculos, mas também reconhecem que ainda é necessário ampliar a presença do 
banco em espaços de incidência política mais estratégicos. A participação nesses 
espaços pode contribuir para influenciar políticas públicas locais voltadas à 
economia solidária e ao fortalecimento de territórios periféricos. Esse desafio de 
ampliação e consolidação da articulação política é coerente com o que Armani 
52 
 
(2013) descreve como um processo contínuo de fortalecimento institucional por meio 
do diálogo e da construção de legitimidade externa. 
Na minha análise, a articulação política do BCC tem um grande potencial, 
mas ainda carece de estrutura e tempo disponível das lideranças para se consolidar.A depender de recursos e de maior divisão de tarefas, o banco poderá aprofundar 
sua presença em fóruns, conselhos e redes de cooperação, o que fortaleceria sua 
legitimidade e ampliaria seu campo de atuação. Ao mesmo tempo, reforça-se a 
importância da integração dos BCDs em redes de cooperação para superar suas 
fragilidades estruturais e garantir maior capacidade de incidência e representação. 
Assim, a capacidade de articulação e incidência política do BCC está em 
construção. As experiências existentes demonstram abertura para o diálogo e para a 
colaboração interinstitucional, mas o avanço nessa dimensão dependerá do 
fortalecimento interno, da formação de novas lideranças e da ampliação da base 
ativa de voluntários e parceiros. 
 
Eixo 6 - Inclusão financeira, microcrédito e moeda social 
 
A inclusão financeira é um dos pilares centrais da atuação dos Bancos 
Comunitários de Desenvolvimento (BCDs). Segundo Rigo et al. (2023), a dimensão 
D4 da pesquisa abrange não apenas as fontes de financiamento e parcerias, mas 
também as estratégias concretas que visam ampliar o acesso da população 
periférica a instrumentos financeiros alternativos. Para Armani (2013), a inclusão 
financeira, quando ancorada em princípios de solidariedade e protagonismo 
comunitário, deve ser compreendida como uma dimensão da sustentabilidade 
política e institucional das organizações populares, pois ela redefine a relação da 
comunidade com o dinheiro, com o consumo e com o desenvolvimento local. 
No Banco Comunitário Cascata, essa dimensão vem sendo desenvolvida por 
meio da criação da moeda social Antena e da elaboração de uma política de 
microcrédito comunitário. O nome da moeda Antena, formalmente escolhido pelos 
alunos da Escola Estadual Oscar Pereira, tem como objetivo circular entre os 
comércios parceiros da região, promovendo o consumo local e incentivando a 
economia solidária. Atualmente, a moeda já começou a circular de forma efetiva em 
seis comércios locais: o Mercado Embratel, o Misturando Arte, a Madeireira 
Carvalho, a loja Doce Alegria, o Bazar Rosa de Saron e a vendedora de cosméticos 
53 
 
Alzira. Esses estabelecimentos aceitaram a Antena como meio de pagamento com 
desconto, marcando um avanço significativo na sua implementação. 
Essa etapa de negociação com os comércios enfrentou inicialmente 
resistências, especialmente pela dificuldade de entendimento da lógica da moeda 
social e por incertezas quanto aos benefícios diretos para os comerciantes. Como 
Catherine e Ariel comentaram no grupo focal, o conceito de economia solidária ainda 
não é amplamente conhecido na comunidade, o que limita o potencial de 
engajamento. Ainda assim, a moeda tem grande valor simbólico, sendo mobilizada 
em atividades educativas, de formação e fortalecimento do senso de pertencimento. 
Uma dessas experiências foi destacada por J. e Ariel, ao relatarem que o 
professor de capoeira tem contribuído com a inclusão da moeda no cotidiano das 
crianças. Segundo Ariel, a proposta é que, conforme os alunos aprendem e acertam 
os movimentos da capoeira, recebam Antenas como reconhecimento, que já podem 
ser usadas em comércios locais. Como contou J.: "a ideia é ensinar desde cedo o 
valor da moeda, como ela circula, para já ir trabalhando com as crianças essa outra 
forma de economia". A iniciativa busca fortalecer a compreensão prática da moeda e 
formar, desde pequenos, sujeitos conscientes do seu uso e do que ela representa 
para o território. 
Paralelamente, está sendo implementada uma política de microcrédito voltada 
principalmente às mulheres da comunidade e aos negócios parceiros da associação. 
Foram definidas três linhas de crédito: 
 
● Produtivo: até 300 Antenas. O crédito será parcialmente em 
reais apenas quando os comércios da comunidade não suprirem a razão do 
pedido. Exigência: se for comércio, aceitar pagamento em Antenas. 
● Pequenas Reformas: até 300 Antenas, 100% em Antenas, com 
possibilidade de exceções conforme avaliação do comitê. 
● Consumo: até 100 Antenas. Exemplo: alimentação, higiene e 
saúde. Também poderá ser parcialmente em reais, caso os comércios locais 
não contemplem as necessidades. Entre os comércios que participam dessa 
linha estão o Misturando Arte, o Bazar Rosa de Saron e a Doce Alegria. 
 
O comitê de análise de crédito é composto por quatro integrantes e dois 
suplentes: representantes do ambulatório de terapias naturais, da loja Misturando 
54 
 
Arte, do Banco Comunitário Cascata e da Escola Estadual Oscar Pereira (professora 
Ana Regina), com suplência de Silvio e Dai, da Doce Alegria. Ariel e Catherine são 
responsáveis pelas entrevistas e visitas aos solicitantes, apresentando os pedidos 
ao comitê. Em caso de conflito de interesse, um suplente assume a análise. 
Os planos de pagamento também foram definidos: 
 
● Linha produtiva: até cinco parcelas de 60 reais. 
● Linha de reformas: conforme avaliação do comitê. 
● Em todos os casos, os pagamentos devem coincidir com datas 
de recebimento de benefícios sociais. 
● Não há cobrança de juros, mesmo em casos de inadimplência. 
● Caso haja atraso, o comitê fará contato por telefone e visita para 
renegociação; em último caso, pode-se considerar a prestação de serviço à 
associação como forma de quitação da dívida. 
● A participação em oficina de educação financeira é pré-requisito 
para o acesso ao crédito. Essas oficinas são mensais, com conteúdos 
gravados. 
 
Entre as ideias futuras, está a criação de um sistema de pontuação que 
incentive compras nos comércios locais: os participantes levariam notas fiscais ao 
banco para acumular pontos e trocar por brindes como camisetas, bônus da feira de 
trocas, entre outros. 
Durante as entrevistas, as lideranças destacaram que o processo de 
construção do microcrédito está sendo participativo. Além disso, o desenvolvimento 
da moeda e do crédito tem sido sustentado por recursos de projetos, como o 
Periferia Viva (R$ 50.000) e o apoio da Justa Troca (R$ 10.000), mostrando como a 
inclusão financeira também depende da sustentabilidade econômica institucional 
(D4). 
Na minha experiência de campo, percebo que o desafio atual é equilibrar a 
construção coletiva com a necessidade de sistematizar regras, controles e formas de 
acompanhamento dessas iniciativas. O risco de inadimplência, a resistência de parte 
do comércio e a sobrecarga das lideranças são fatores que precisam ser 
enfrentados com planejamento e formação contínua. No entanto, também é evidente 
o potencial transformador dessas ações, que colocam a comunidade como 
55 
 
protagonista da construção de outras formas de viver, consumir e produzir. A moeda 
e o crédito não são apenas instrumentos econômicos, mas também expressões de 
uma outra economia, pautada na solidariedade, no cuidado e na resistência 
cotidiana nos territórios populares. 
A análise dos vetores de desenvolvimento institucional do Banco Comunitário 
Cascata evidencia uma experiência marcada por fortes vínculos comunitários, 
criatividade nas formas de gestão e comprometimento com os princípios da 
economia solidária. Ao mesmo tempo, revela fragilidades que ainda desafiam sua 
consolidação, como a baixa participação comunitária e a dependência de recursos 
pontuais. A articulação entre teoria e prática, promovida neste capítulo, aponta para 
a importância de políticas públicas que reconheçam e fortaleçam essas iniciativas, 
mas também para a necessidade de processos internos de formação, ampliação da 
base ativa e construção coletiva de estratégias sustentáveis. O BCC não é apenas 
um banco: é um espaço de resistência, de cuidado e de construção de outra lógica 
de desenvolvimento, que coloca no centro os afetos, os saberes populares e a 
autonomia dos territórios. 
Quadro 1 - Análise dos Vetores de Desenvolvimento Institucional do Banco Comunitário Cascata 
 
Eixo Critério teórico 
(Armani e Rigo) 
Exemplo empírico do 
Banco ComunitárioCascata 
1. Base social e 
legitimidade 
Enraizamento territorial: 
presença física 
constante no território e 
construção de vínculos 
com o local. 
O banco atua 
exclusivamente na Vila 
1º de Maio e compartilha 
sede com a associação 
gestora. 
1. Base social e 
legitimidade 
Construção de 
pertencimento e 
identificação com a base 
comunitária. 
O banco foi criado por 
moradoras da vila, 
fortalecendo o vínculo 
comunitário. 
1. Base social e 
legitimidade 
Reconhecimento das 
lideranças como 
legítimas representantes 
da comunidade. 
K.G. e J.S.S. são 
lideranças locais 
reconhecidas e atuam à 
frente do banco. 
1. Base social e 
legitimidade 
Uso de símbolos e 
referências locais na 
identidade institucional. 
A moeda Antena remete 
ao Morro da Embratel, 
símbolo visual da região. 
1. Base social e 
legitimidade 
Promoção de atividades 
participativas que 
aproximam a 
comunidade. 
Feiras de Troca, rodas 
de conversa e oficinas 
comunitárias são 
56 
 
realizadas com 
frequência. 
1. Base social e 
legitimidade 
Reconhecimento 
simbólico e legitimidade 
social construídos com 
base na atuação 
territorial. 
Participação nas 
assembleias e relatos de 
acolhimento fortalecem 
a imagem do banco. 
2. Autonomia e 
sustentabilidade 
Capacidade de manter o 
projeto com relativa 
independência de fontes 
externas. 
A maior parte das ações 
foi financiada com 
recursos do Periferia 
Viva e Justa Troca. 
2. Autonomia e 
sustentabilidade 
Diversificação das fontes 
de financiamento como 
estratégia de 
sustentabilidade. 
O banco organiza 
campanhas com 
tampinhas, eventos e 
produtos artesanais. 
2. Autonomia e 
sustentabilidade 
Distribuição equilibrada 
de tarefas e 
fortalecimento 
institucional. 
Atualmente, poucas 
lideranças concentram 
responsabilidades, com 
esforço de formação de 
novas. 
2. Autonomia e 
sustentabilidade 
Preservação da 
autonomia decisória 
mesmo com parcerias. 
As decisões são 
tomadas internamente, 
sem interferência dos 
apoiadores. 
2. Autonomia e 
sustentabilidade 
Autonomia política em 
relação a partidos e 
interesses externos. 
O banco atua de forma 
independente, sem 
vínculos partidários 
formais. 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Organização das 
funções e 
institucionalização 
progressiva dos papéis. 
Cargos foram 
reconhecidos em 
assembleia, 
formalizando funções já 
exercidas. 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Gestão baseada em 
decisões coletivas e 
horizontalidade. 
Reuniões são espaços 
decisórios. 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Integração entre a 
associação e o banco, 
sem separações rígidas. 
Associação e banco 
compartilham estrutura e 
equipe. 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Divisão prática de 
tarefas entre as 
integrantes. 
Atividades são divididas 
entre alimentação, 
projetos, moeda e 
crédito. 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Transparência nas 
decisões e acesso aos 
dados. 
As lideranças 
compartilham 
informações sobre 
recursos e decisões com 
o grupo. 
57 
 
3. Estrutura 
organizacional e gestão 
Busca por qualificação 
como estratégia de 
fortalecimento. 
Participação em cursos 
como o de boas práticas 
alimentares. 
4. Participação e 
controle social 
Estímulo à participação 
democrática nas 
decisões. 
Assembleias abertas e 
com edital de 
convocação organizam a 
escolha das 
coordenações. 
4. Participação e 
controle social 
Construção de canais de 
escuta com a base. 
Rodas de conversa e 
grupos de WhatsApp 
são usados para diálogo 
com a comunidade. 
4. Participação e 
controle social 
Reconhecimento das 
dificuldades de 
mobilização e atuação 
para superá-las. 
Baixa participação 
comunitária é 
reconhecida como 
desafio a ser enfrentado. 
4. Participação e 
controle social 
Inclusão de grupos 
vulneráveis nas 
atividades. 
Participação ativa de 
mães, mulheres em 
vulnerabilidade e jovens. 
4. Participação e 
controle social 
Transparência como 
forma de garantir 
controle social. 
Prestação de contas e 
partilha de decisões são 
práticas presentes. 
5. Capacidade de 
articulação e incidência 
política 
Participação em redes e 
conselhos como 
estratégia de incidência. 
O banco tem assento no 
CESOL e articulação 
com o Fórum de 
Economia Solidária. 
5. Capacidade de 
articulação e incidência 
política 
Estabelecimento de 
parcerias com 
instituições públicas e 
privadas. 
Parcerias com Avesol, 
UFRGS, Justa Troca e 
Cozinha Solidária. 
5. Capacidade de 
articulação e incidência 
política 
Vínculos com 
movimentos sociais e 
iniciativas territoriais. 
Ações conjuntas com 
MTST, Levante Popular 
da Juventude e 
ambulatórios locais. 
5. Capacidade de 
articulação e incidência 
política 
Aproximação com 
universidades e 
produção de 
conhecimento 
compartilhado. 
Parceria com o projeto 
NEGA da UFRGS. 
6. Inclusão financeira, 
microcrédito e moeda 
social 
Criação de instrumentos 
financeiros solidários 
para o território. 
Circulação da moeda 
Antena em seis 
comércios da vila. 
6. Inclusão financeira, 
microcrédito e moeda 
social 
Crédito comunitário com 
regras e participação 
social. 
Microcrédito com três 
linhas e comitê formado 
por representantes 
locais. 
6. Inclusão financeira, 
microcrédito e moeda 
social 
Gestão participativa das 
finanças populares. 
Oficinas mensais de 
formação são 
58 
 
pré-requisito para 
acesso ao crédito. 
6. Inclusão financeira, 
microcrédito e moeda 
social 
Desafios de 
implementação e 
sustentabilidade do 
Sistema. 
Resistência de 
comércios, risco de 
inadimplência e 
sobrecarga da equipe. 
Fonte: Da Autora 
 
 
6 CONCLUSÕES 
 
O presente trabalho teve como objetivo analisar a gestão do Banco 
Comunitário Cascata (BCC) à luz da perspectiva do desenvolvimento institucional, 
explorando suas práticas, desafios e potências no contexto da economia solidária. A 
partir da investigação realizada, foi possível compreender que, mesmo com recursos 
limitados e sem uma estrutura formal consolidada, o BCC se mantém ativo há quase 
uma década, sendo sustentado principalmente pelo engajamento comunitário e pela 
atuação voluntária de lideranças locais. 
Um dos principais méritos da experiência do BCC é sua capacidade de operar 
com base na confiança, solidariedade e reconhecimento mútuo. A gestão do banco, 
embora marcada por informalidade, demonstra uma força coletiva significativa. As 
lideranças envolvidas conseguem articular ações como feiras de troca, distribuição 
de marmitas, rodas de conversa, oficinas de costura e a construção de uma moeda 
social — iniciativas que reforçam os vínculos comunitários e promovem inclusão e 
dignidade para moradores da Vila Primeiro de Maio. 
Contudo, essa mesma informalidade impõe limites importantes. A ausência 
de processos sistematizados de planejamento, a concentração de responsabilidades 
em poucas pessoas e a dificuldade de renovação das lideranças comprometem a 
sustentabilidade a longo prazo. Tais fragilidades foram observadas tanto nas 
entrevistas quanto nos dados da pesquisa nacional sobre BCDs. Ainda assim, é 
notável como essas lideranças conseguem manter o funcionamento do banco, 
mesmo sem apoio institucional contínuo ou financiamento garantido. 
A articulação entre gestão social e desenvolvimento institucional mostrou-se 
uma lente teórica eficaz para compreender a dinâmica do BCC. Ao invés de reduzir 
a gestão a um conjunto de técnicas administrativas, essa abordagem evidenciou a 
importância das relações sociais, da legitimidade comunitária e da coerência com a 
59 
 
missão institucional. O caso do BCC revela que é possível, sim, construir caminhos 
alternativos à lógica hegemônica da gestão, baseados na escuta, na participação e 
no compromisso com o território. 
Cabe ressaltar, por fim, que este trabalho foi realizado em um contexto 
marcado por limitações objetivas, como intercorrências de saúde que afetaram 
diretamente a etapa de campo, impedindo a realização de novas entrevistase o 
aprofundamento de algumas observações previstas. Além disso, a própria dinâmica 
da organização estudada, baseada em práticas orais, registros informais e decisões 
cotidianas não sistematizadas, dificultou o acesso a determinados dados relevantes 
para a análise. Muitas informações foram transmitidas em conversas informais ou 
dependem da memória das participantes, o que pode resultar em lacunas ou 
imprecisões. Ainda assim, a experiência de estágio e a escuta atenta das lideranças 
permitiram construir um retrato significativo da realidade do Banco Comunitário 
Cascata. Reconhece-se que o trabalho poderia ter sido ampliado com mais tempo e 
condições para a coleta de dados complementares, mas espera-se que os caminhos 
abertos por esta pesquisa contribuam para futuras investigações e para o 
fortalecimento institucional do BCC. 
Portanto, conclui-se que o Banco Comunitário Cascata é uma experiência rica 
e potente, que apesar de seus desafios, representa uma forma legítima de 
organização comunitária voltada à inclusão financeira e à transformação social. Para 
fortalecer sua atuação, é essencial investir na formação de novas lideranças, ampliar 
a sistematização de suas práticas e buscar estratégias que combinem autonomia 
com parcerias institucionais. Essas são condições fundamentais para que o banco 
siga sendo uma referência de resistência e de inovação social na periferia de Porto 
Alegre. 
 
 
 
60 
 
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2015.Esses desafios se apresentam como oportunidades para promover a 
inovação e a busca por alternativas viáveis e eficazes, voltadas para a consolidação 
e fortalecimento dessas organizações (Retamiro, 2023). 
De acordo com a Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de 
Desenvolvimento (Rigo et al., 2023), há uma grande diversidade na situação 
organizacional dos mais de cem BCDs existentes no Brasil. O estudo identificou 167 
experiências em todo o país e, entre os 76 casos considerados válidos e 
entrevistados, apenas 26% afirmaram não enfrentar dificuldades para funcionar, 
enquanto 31% relataram ter dificuldades, 30% estavam inativos e 13% em fase de 
implementação ou reestruturação. Além disso, 58% dos bancos comunitários 
entrevistados informaram que suas moedas sociais não estavam em circulação no 
momento da pesquisa. A sustentabilidade financeira também se mostrou crítica: 
54,4% dos entrevistados (43 BCDs) declararam não possuir nenhuma fonte de 
receita para manter suas atividades. 
O Banco Comunitário Cascata (BCC) de Porto Alegre é um dos que não 
conseguiu desenvolver os serviços financeiros ao longo de seus anos de existência, 
mas tem uma atuação significativa na comunidade. O BCC não desenvolveu uma 
9 
 
grande estrutura e está mais orientado à dinâmica comunitária, funcionando de 
forma totalmente voluntária. 
Conta com uma moeda denominada Antena, que por anos foi somente 
utilizada em Feiras de Trocas dentro da comunidade. Está sustentado em atividades 
totalmente voluntárias, recebe apoios de diversas organizações e conta com uma 
gestão associativa e democrática, mas bastante informal e pouco estruturada. Em 
maio de 2025 iniciou a implementação da moeda social Antena como circulante 
local, e com isso, novos desafios foram colocados para sua dinâmica de gestão, 
sendo esta a problemática que serve de base para a pesquisa deste trabalho. 
A organização que dá sustentação jurídica ao BCC é a Associação de 
Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, cuja gestão articula uma 
diversidade de atividades, o que constitui ao mesmo tempo um elemento de grande 
força comunitária, mas explicita uma série de fragilidades de caráter gestionário e 
organizacional. 
Nessa perspectiva, apresenta-se o seguinte problema de pesquisa: como se 
organiza a gestão do Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre, quais são suas 
dinâmicas e como elas impactam seu desempenho e sua sustentabilidade?. 
Para responder o problema de pesquisa, partiu-se das referências da 
literatura sobre Organizações da Sociedade Civil, especificamente as perspectivas 
sobre Desenvolvimento Institucional das OSCs e Gestão Social. É interessante 
relacionar a dimensão gerencial para realizar uma análise articulada à dimensão 
sociopolítica, levando em consideração as dinâmicas do BCC. Para isso, foram 
analisadas as dinâmicas organizacionais do Banco Comunitário Cascata a partir dos 
vetores de desenvolvimento institucional propostos por Armani (2013) e das 
dimensões identificadas na pesquisa nacional sobre Bancos Comunitários de 
Desenvolvimento (Rigo et al., 2023). 
Sendo assim, este estudo tem como objetivo de pesquisa analisar a gestão do 
BCC, suas principais dinâmicas e como estas impactam seu desempenho e 
sustentabilidade. 
Para isso, a estrutura do trabalho contempla uma revisão teórica sobre 
bancos comunitários e gestão alternativa; a discussão sobre a gestão do Banco 
Comunitário Cascata e suas dinâmicas, com foco nos desafios e nas práticas que 
podem ser aprimoradas para fortalecer o próprio BCC; e a análise da atuação do 
Banco Comunitário Cascata de Porto Alegre, no que tange à sua gestão. 
10 
 
A atuação dos bancos comunitários, especialmente aqueles com uma forte 
inclinação social e baseados no voluntariado e na participação da comunidade, 
revela desafios particulares. A forma com que se organizam e se adaptam 
internamente é determinante para a concretização de suas propostas 
transformadoras. 
Nesse sentido, o Banco Comunitário Cascata (BCC) de Porto Alegre surge 
como um caso relevante. O fato de operar predominantemente com voluntários e ter 
uma forte base comunitária exige do BCC a constante busca por estratégias que não 
só viabilizem a execução de seus projetos sociais, mas que também garantam sua 
continuidade e o fortalecimento de sua estrutura institucional. 
Ao aplicar os vetores de Armani — como base social, autonomia, estrutura, 
participação e articulação — busca-se compreender como esses elementos 
influenciam seu papel no território, sua legitimidade junto à comunidade, sua 
capacidade de mobilização e sua forma de organizar e utilizar recursos. Já as 
dimensões trabalhadas na pesquisa nacional (Rigo et al., 2023) complementam essa 
análise ao trazer elementos práticos sobre os desafios enfrentados pelos BCDs, 
como a gestão coletiva, a sustentabilidade financeira e a inclusão produtiva. Isso 
permite um olhar sobre as experiências compartilhadas entre diferentes bancos, 
ajudando a entender melhor as particularidades e os limites do Banco Comunitário 
Cascata dentro desse contexto mais amplo. 
Sendo assim, o objetivo geral do trabalho é: Analisar a gestão do Banco 
Comunitário Cascata, suas principais dinâmicas e fragilidades, e como essas 
impactam seu desempenho e sustentabilidade. 
Já os objetivos específicos são os seguintes: 
● Descrever o histórico do BCC e seu entrelaçamento com as 
outras estruturas de organização comunitária dentro das quais ele se situa. 
● Identificar a estrutura atual de gestão do Banco Comunitário 
Cascata 
● Analisar a gestão do BCC a partir dos vetores identificados 
como fundamentais: base social e legitimidade, autonomia e sustentabilidade, 
estrutura organizacional e gestão, participação e controle social e capacidade 
de articulação e incidência. 
 
 
11 
 
2 BANCOS COMUNITÁRIOS E GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE 
CIVIL 
A análise da gestão do Banco Comunitário Cascata exige um referencial 
teórico que contemple tanto a dinâmica dos bancos comunitários quanto as 
especificidades da gestão em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), 
especialmente em contextos de economia solidária. Localizado na Vila Primeiro de 
Maio, em Porto Alegre, o BCC atua há anos como uma iniciativa de base 
comunitária voltada à inclusão financeira e ao desenvolvimento local. Com uma 
estrutura marcada pelo voluntariado, sua organização é informal e enfrenta desafios 
estruturais, mais ainda neste momento em que está iniciando a implementação da 
moeda social Antena como circulante local, atualmente em curso. Ainda assim, o 
banco tem conseguido manter sua atuação, sustentado por uma lógica organizativa, 
construída a partir do engajamento da comunidade e das condições concretas do 
território. Essa dinâmica tem se mostrado funcional dentro das possibilidades 
existentes, permitindo que o BCC siga cumprindo seu papel social. 
Diante desse contexto, este capítulo apresenta conceitos e debates acerca do 
papel social e dos modelos de gestão dessas iniciativas. Serão abordadas as 
origens e os objetivos dos bancos comunitários, os modelos de gestão adotados por 
essas instituições e, por fim, as contribuições da abordagem do desenvolvimento 
institucional para a análise das OSCs. 
 
2.1 BANCOS COMUNITÁRIOS E SEUS OBJETIVOS 
 
Os Bancos Comunitários surgiram no Brasil como uma resposta à exclusão 
bancária e à concentração de renda nas mãos de poucos. Com o propósito de 
promover o acesso ao crédito e fortalecer a economia local, essas instituições são 
formadas por grupos de pessoas que se unem para criar instrumentos financeiros 
acessíveis. A partir desta perspectiva, os Bancos Comunitários visam criar espaços 
de autonomia financeira e fortalecimento da comunidade, atuando como ferramentas 
de inclusão social e promoção do desenvolvimento local (Leal; Cavalcante; Coelho, 
2020). 
Os bancos comunitários baseiam-se em princípios fundamentaiscomo a 
solidariedade, a cooperação e a autogestão, buscando fortalecer a economia local e 
promover a inclusão financeira. Eles visam a criação de uma moeda social, que 
12 
 
estimula a circulação de recursos dentro da própria comunidade, gerando 
desenvolvimento e sustentabilidade. Além disso, essas instituições são orientadas 
por valores como a valorização do ser humano, da cultura local e do meio ambiente, 
promovendo a participação ativa dos moradores na gestão e tomada de decisões 
(Menezes; Santos; Mariano, 2019). 
A economia solidária é um dos pilares dos bancos comunitários, promovendo 
a cooperação, a solidariedade e a geração de renda de forma coletiva. Por meio do 
estímulo à autogestão, ao comércio justo e ao consumo consciente, os bancos 
contribuem para o desenvolvimento local, fortalecendo os laços comunitários e 
promovendo a igualdade social. Dessa forma, a economia solidária atua como um 
agente de transformação, impulsionando a sustentabilidade e a melhoria da 
qualidade de vida das pessoas envolvidas, além de promover a integração e o 
fortalecimento da comunidade (Leal; Cavalcante; Coelho, 2020). 
Os objetivos sociais dos bancos comunitários incluem promover a inclusão 
financeira e estimular o desenvolvimento econômico local. Eles buscam reduzir a 
exclusão bancária em comunidades de baixa renda, oferecendo serviços financeiros 
acessíveis e adaptados às necessidades da população. Além disso, essas 
instituições visam fortalecer o empreendedorismo e a geração de renda nas 
comunidades atendidas, criando oportunidades para que os moradores locais 
desenvolvam seus negócios e melhorem sua situação financeira (Pupo, 2021). 
A inclusão financeira é um dos principais objetivos dos bancos comunitários, 
pois visa atender às necessidades de populações historicamente excluídas do 
sistema bancário tradicional. Isso envolve disponibilizar serviços financeiros 
acessíveis, como crédito e poupança, além de promover a educação financeira para 
capacitar os moradores locais a gerir melhor suas finanças. A inclusão financeira 
proporciona à comunidade a oportunidade de investir em empreendimentos locais e 
realizar transações bancárias básicas, contribuindo para o desenvolvimento 
econômico e social (Leal; Cavalcante; Coelho, 2020). 
Esse tipo de instituição bancária desempenha um papel na geração de renda 
na comunidade. Eles oferecem microcrédito e suporte financeiro para pequenos 
negócios, possibilitando que empreendedores locais desenvolvam suas atividades. 
Isso não apenas aumenta a renda das famílias envolvidas, mas também promove o 
crescimento econômico sustentável da região, gerando empregos e oportunidades. 
Além disso, os bancos comunitários oferecem capacitação e orientação para os 
13 
 
empreendedores, contribuindo para a melhoria da gestão dos negócios e para a 
sustentabilidade das atividades comerciais (Cruz, 2020). 
Um dos desafios enfrentados pelos bancos comunitários é a falta de acesso a 
recursos financeiros e tecnológicos para manter suas operações. Além disso, a falta 
de capacitação e apoio técnico para os membros das comunidades atendidas 
também se configura como um desafio constante. No entanto, as parcerias 
estratégicas com organizações governamentais, não-governamentais e instituições 
financeiras oferecem oportunidades para superar esses desafios, possibilitando o 
acesso a capacitações, financiamentos e suporte tecnológico, fortalecendo assim a 
atuação dos bancos comunitários e ampliando seu impacto social (Pupo, 2021). 
Os bancos comunitários desempenham um papel crucial na promoção da 
inclusão financeira e no desenvolvimento local, fortalecendo os laços entre os 
membros da comunidade e oferecendo oportunidades para o empreendedorismo e 
geração de renda. Apesar dos desafios enfrentados, como a falta de recursos, os 
bancos comunitários representam uma alternativa viável aos bancos tradicionais, 
atendendo às necessidades específicas das comunidades em que estão inseridos 
(Cruz, 2020). 
 
2.2 SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DE BANCOS COMUNITÁRIOS 
 
Diferente das instituições financeiras tradicionais, os bancos comunitários têm 
como foco principal a promoção do desenvolvimento social e econômico local. Por 
isso, equilibrar a geração de receita com o compromisso social exige estratégias que 
considerem as especificidades do território e das pessoas atendidas. Esse equilíbrio 
depende não apenas de uma gestão eficiente, mas também de um ambiente 
favorável, incluindo apoio governamental e parcerias estratégicas (Oliveira; Benini; 
Melges, 2023). 
Uma das principais fontes de receita dos bancos comunitários vem das 
operações de crédito destinadas a microempreendedores e pequenos comerciantes. 
Ao oferecer empréstimos com juros baixos e condições flexíveis, essas instituições 
fomentam a economia local, mas enfrentam o desafio de manter a inadimplência sob 
controle. A gestão eficaz do risco de crédito é, portanto, essencial para a 
sustentabilidade financeira. Isso envolve não apenas a análise criteriosa dos 
empréstimos concedidos, mas também o acompanhamento contínuo dos 
14 
 
beneficiários, proporcionando suporte técnico e educativo para garantir o sucesso 
dos empreendimentos financiados (Retamiro, 2023). 
Além das operações de crédito, a diversificação das fontes de receita é 
fundamental para a sustentabilidade financeira. Muitas dessas instituições 
dependem de doações, subsídios governamentais e parcerias com organizações do 
terceiro setor. No entanto, essa dependência pode tornar a operação vulnerável a 
oscilações econômicas e mudanças nas políticas públicas. Para mitigar esse risco, 
os bancos comunitários devem buscar alternativas, como a criação de fundos 
rotativos solidários, programas de educação financeira e a oferta de serviços 
complementares, que possam gerar receitas adicionais e fortalecer a autonomia 
financeira da instituição (Pupo, 2021). 
A moeda social, frequentemente utilizada pelos bancos comunitários, 
desempenha um papel importante na promoção da economia local. Ao incentivar o 
uso de uma moeda própria para transações dentro da comunidade, essas 
instituições conseguem fortalecer o comércio local e criar um ciclo virtuoso de 
desenvolvimento. No entanto, a gestão dessa moeda requer cuidado, pois sua 
aceitação e valor dependem da confiança dos usuários e da capacidade do banco 
de manter sua credibilidade. Manter o equilíbrio entre a emissão da moeda e a 
capacidade econômica da comunidade é fundamental para evitar desvalorização e 
garantir sua eficácia como instrumento de desenvolvimento (Oliveira; Benini; Melges, 
2023). 
Outro aspecto importante da sustentabilidade financeira dos bancos 
comunitários é a capacitação da equipe e a profissionalização da gestão. Embora 
essas instituições geralmente operem com recursos limitados, a qualificação dos 
gestores e a adoção de boas práticas administrativas são essenciais para garantir a 
eficiência operacional. Investir em formação contínua e em processos transparentes 
de governança contribui para o fortalecimento institucional, reduzindo riscos e 
aumentando a confiança da comunidade e dos parceiros (Cruz, 2020). 
A tecnologia também pode desempenhar um papel crucial na sustentabilidade 
financeira dos bancos comunitários. A adoção de sistemas digitais para gestão 
financeira, concessão de crédito e monitoramento de resultados pode reduzir custos 
operacionais e aumentar a eficiência. Além disso, ferramentas tecnológicas podem 
facilitar o acesso aos serviços bancários por parte dos moradores das comunidades, 
ampliando o alcance das operações e potencializando o impacto social. Contudo, a 
15 
 
implementação de soluções tecnológicas requer investimentos iniciais, o que pode 
ser um desafio para instituições de pequeno porte (Retamiro, 2023). 
Os desafios enfrentados pelos bancos comunitários em termos de 
sustentabilidade financeira são muitos, mastambém são inúmeras as 
oportunidades. A crescente demanda por modelos econômicos mais inclusivos e 
sustentáveis oferece um ambiente propício para o fortalecimento dessas instituições. 
Parcerias com empresas, governos e outras organizações podem proporcionar o 
apoio necessário para garantir a viabilidade econômica dos bancos comunitários, ao 
mesmo tempo em que ampliam o impacto social de suas ações (Pupo, 2021). 
 
2.3 A GESTÃO DOS BANCOS COMUNITÁRIOS 
 
Conforme o Termo de Referência dos Bancos Comunitários de 
Desenvolvimento (BCDs), essas instituições “são geridas no interior de estruturas de 
organizações de caráter comunitário (como associações, fóruns, conselhos) ou 
outros tipos de iniciativa da sociedade civil que estejam inseridas na comunidade 
(sindicatos, ONGs, igrejas). Seu funcionamento supõe, portanto, a constituição de 
uma equipe de coordenação executiva no seio da própria organização associativa. 
Sua gestão implica, desse modo, numa dimensão compartilhada, com forte 
componente de controle social local baseado em mecanismos de democracia direta” 
(INSTITUTO BANCO PALMAS, 2023). 
Esse modelo de gestão valoriza a participação ativa da população local e 
busca articular os saberes do território na tomada de decisões. No entanto, também 
impõe desafios importantes relacionados à organização interna, à definição de 
papéis, à continuidade administrativa e à sistematização dos processos (Oliveira, 
Benini, Melges, 2023). 
A Pesquisa Nacional dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (Rigo et 
al., 2023), analisa essas dificuldades no eixo D3 – Gestão democrática e pessoas. O 
estudo mostra que, entre os 76 BCDs analisados: 
 
● 47% não possuem equipe executiva definida; 
● Apenas 38% têm calendário formal de reuniões; 
● 54% não realizam avaliações sistemáticas das atividades; 
● 36% não oferecem formação para gestores e voluntários; 
16 
 
● 56% não mantêm atas de reunião registradas. 
 
Esses dados revelam que, apesar do caráter comunitário e participativo, há 
uma fragilidade institucional considerável nos BCDs. De acordo com os autores, 
mesmo com a valorização da democracia direta, muitas dessas experiências 
funcionam com um nível elevado de informalidade, operando com estruturas frágeis, 
baixa sistematização de processos e ausência de planejamento formal. 
O relatório destaca ainda que a concentração de responsabilidades em 
poucas pessoas — muitas vezes voluntárias e sem capacitação — compromete a 
continuidade das ações e dificulta a articulação com políticas públicas. A falta de 
práticas como reuniões regulares, registro de decisões e acompanhamento das 
atividades impede a consolidação de estratégias de médio e longo prazo, o que 
afeta diretamente a sustentabilidade institucional (Rigo et al., 2023). 
No caso do Banco Comunitário Cascata, essas questões se expressam de 
maneira concreta. A gestão é realizada por um pequeno grupo de lideranças 
comunitárias, de forma voluntária e sem uma estrutura formalizada. Ainda assim, o 
banco se mantém ativo há anos, apoiado em uma lógica de funcionamento baseada 
no engajamento, na confiança e na solidariedade local. Segundo o NEGA (2017), 
essa forma de organização reflete uma resposta concreta da comunidade às suas 
necessidades, funcionando com base em relações de proximidade e compromisso 
mútuo, ainda que sem mecanismos institucionais consolidados. 
No entanto, essa informalidade também apresenta limites importantes. A 
ausência de processos claros pode comprometer a resolução de problemas, 
dificultar a organização das atividades e enfraquecer a capacidade de resposta 
diante de novos desafios, como o atual processo de implementação da moeda social 
Antena como circulante local. 
Compreender a gestão dos BCDs, portanto, exige um olhar que considere 
tanto as potências do modelo comunitário quanto os limites impostos pela ausência 
de estrutura formal. A seguir, serão apresentados os vetores institucionais que 
servirão como base para a análise da gestão do Banco Comunitário Cascata. 
 
 
 
17 
 
2.4 PERSPECTIVAS PARA ANALISAR A GESTÃO E A SUSTENTABILIDADE DAS 
OSCS E DAS ORGANIZAÇÕES DE ECONOMIA SOLIDÁRIA: CONTRIBUIÇÕES A 
PARTIR DA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL 
 
A gestão de organizações da sociedade civil, em especial daquelas 
vinculadas à economia solidária, como os bancos comunitários de desenvolvimento, 
exige uma abordagem que vá além dos modelos tradicionais baseados 
exclusivamente em critérios gerenciais ou em padrões empresariais. Essas 
organizações estão profundamente enraizadas em seus territórios, atuam com base 
em valores como solidariedade, cooperação e autogestão, e, muitas vezes, operam 
com poucos recursos e com estruturas organizativas informais. 
Diante disso, torna-se necessário adotar perspectivas que reconheçam a 
complexidade dessas experiências e a centralidade dos elementos políticos, sociais 
e simbólicos que sustentam sua atuação. O conceito de desenvolvimento 
institucional está relacionado à capacidade das organizações de construir, manter e 
transformar sua atuação a partir de relações sociais significativas, legitimidade junto 
à base social e capacidade de articulação com o entorno. A construção institucional 
a partir da sociedade civil depende da consolidação de práticas organizativas 
democráticas, baseadas em reconhecimento mútuo e articulação política com outros 
atores (Avritzer, 2002). Isso implica entender a institucionalidade como algo dinâmico 
e situado, que se fortalece na medida em que a organização atua dialogicamente 
com seu território, amplia sua legitimidade e sustenta sua ação no tempo. 
Nesse contexto, a abordagem do desenvolvimento institucional, 
especialmente conforme formulada por Domingos Armani, oferece uma contribuição 
relevante. Em vez de limitar a sustentabilidade ao equilíbrio financeiro, essa 
abordagem propõe compreendê-la como a capacidade da organização de manter 
sua missão viva ao longo do tempo, por meio do fortalecimento de sua legitimidade 
social, autonomia política, capacidade de articulação e coerência organizativa 
(Armani, 2002). 
Trata-se de uma visão ampliada de gestão e de sustentabilidade, que 
considera não apenas a existência de fluxos financeiros regulares, mas também o 
enraizamento territorial, a construção de legitimidade, o vínculo com a base social e 
o reconhecimento dos atores do campo em que a organização atua (Milani, 2008). 
Essa perspectiva é especialmente útil para compreender o funcionamento de 
18 
 
iniciativas como o Banco Comunitário Cascata, cuja atuação se mantém, mesmo 
com limitações estruturais, devido ao compromisso das lideranças locais e à 
articulação comunitária. 
Dessa forma, o desenvolvimento institucional se apresenta como um 
referencial teórico capaz de articular elementos da gestão, da política e da ação 
social, possibilitando uma análise mais abrangente das dinâmicas que sustentam ou 
fragilizam essas organizações. A seguir, aprofunda-se essa concepção e sua 
relevância para a análise do objeto deste estudo. 
 
2.4.1 A Gestão Social 
 
A gestão social é compreendida como uma prática que rompe com os 
paradigmas tradicionais da administração centrada na eficiência técnica, propondo 
uma abordagem orientada pela participação cidadã, pelo fortalecimento das redes 
locais e pela construção democrática de decisões. Nessa perspectiva, o processo de 
gestão passa a incorporar valores como solidariedade, reconhecimento mútuo e 
deliberação coletiva, especialmente importantes em organizações enraizadas em 
territórios marcados por desigualdades (Tenório, 2006; Silva, 2020a). 
Essa concepção se articula com a noção de desenvolvimento institucional 
proposta por Armani (2002), na medida em que ambas reconhecem que a 
sustentabilidade das organizações da sociedade civil não depende apenas de 
aspectos financeiros ou operacionais, mas de sua capacidade de se constituíremcomo atores legítimos, articulados e coerentes com sua missão social. A gestão, 
nesse caso, é entendida como um processo político e coletivo, atravessado por 
disputas, afetos e compromissos com a transformação social. 
Mais recentemente, pesquisas empíricas como a coordenada por Rigo et al. 
(2023) demonstram que a gestão dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento 
continua sendo marcada por um forte caráter comunitário e informal, o que reforça a 
relevância da abordagem da gestão social. Ao mesmo tempo, essas pesquisas 
revelam desafios como a concentração de responsabilidades, a ausência de 
processos formais de planejamento e a carência de formação continuada para os 
gestores, indicando a necessidade de fortalecer institucionalmente essas 
experiências sem desconsiderar suas singularidades e valores originários. 
19 
 
No caso do Banco Comunitário Cascata, observa-se a presença de práticas 
coerentes com a gestão social, como a escuta ativa da comunidade, a valorização 
das lideranças locais e a articulação com atores do território. Tais práticas não 
apenas sustentam o funcionamento cotidiano da organização, mas também 
reforçam sua legitimidade e sua capacidade de promover inclusão e cidadania nos 
moldes da economia solidária. 
 
2.4.2 As perspectivas sobre Desenvolvimento Institucional 
 
O conceito de desenvolvimento institucional, conforme elaborado por Armani 
(2002), refere-se aos processos voltados ao fortalecimento da capacidade de uma 
organização realizar de maneira contínua, coerente e autônoma a sua missão 
institucional. Essa abordagem reconhece que a sustentabilidade das organizações 
da sociedade civil não depende apenas da existência de recursos financeiros, mas 
da articulação entre diversos fatores, como a base social de apoio, a legitimidade 
pública, os vínculos com o território, a capacidade de se planejar e de se adaptar às 
transformações do contexto onde está inserida. 
A sustentabilidade, nessa perspectiva, é entendida como uma construção 
política e estratégica, que exige da organização o desenvolvimento de capacidades 
que vão além da eficiência administrativa. Envolve, entre outros aspectos, a 
capacidade de mobilizar atores e recursos de forma coerente com sua missão, de 
manter uma base social ativa e representativa, de construir credibilidade junto aos 
seus parceiros e de promover processos internos democráticos e transparentes. 
Essa concepção é particularmente adequada para analisar organizações de 
economia solidária, como os bancos comunitários, pois permite compreender como 
experiências muitas vezes informais e baseadas no voluntariado conseguem 
sustentar sua atuação ao longo do tempo. O caso do Banco Comunitário Cascata é 
um exemplo claro: sua permanência e relevância na comunidade não são explicadas 
por estruturas administrativas robustas, mas pela força das relações de confiança, 
pela articulação com outras organizações do território e pelo compromisso das 
lideranças locais (NEGA, 2017). 
Portanto, o desenvolvimento institucional oferece uma chave de leitura que 
valoriza os processos sociais e políticos que estruturam essas organizações, e não 
apenas sua capacidade técnica ou financeira. Essa perspectiva será utilizada como 
20 
 
base para a construção dos eixos de análise apresentados a seguir, os quais 
orientarão a investigação sobre a gestão do Banco Comunitário Cascata. 
2.5 UMA PROPOSTA DE EIXOS DE ANÁLISE 
 
Para compreender a gestão do Banco Comunitário Cascata a partir de suas 
práticas, limites e potências, este trabalho adota como referência os vetores de 
desenvolvimento institucional formulados por Domingos Armani (2002). Esses 
vetores foram traduzidos aqui em cinco eixos de análise que ajudam a observar 
dimensões essenciais do funcionamento das Organizações da Sociedade Civil 
(OSCs), especialmente aquelas inseridas em territórios populares e ligadas à 
economia solidária. 
A proposta parte do entendimento de que a sustentabilidade organizacional 
vai além da existência de recursos financeiros. Como destaca Armani, uma 
organização é sustentável quando consegue manter viva sua missão institucional ao 
longo do tempo, mesmo diante de desafios, e quando se mostra capaz de 
adaptar-se às mudanças do contexto sem perder sua identidade. Isso envolve 
aspectos como legitimidade junto à comunidade, autonomia política, capacidade de 
articulação, clareza nos processos internos e coerência entre prática e propósito. 
Com base nessa compreensão, apresentam-se a seguir os cinco eixos que 
orientarão a análise da gestão do Banco Comunitário Cascata. Cada eixo é 
explicado de forma acessível e, em seguida, relacionado com aspectos observáveis 
da trajetória e do funcionamento do banco. 
O primeiro eixo é a base social e a legitimidade. Ele busca compreender se a 
organização é reconhecida e valorizada pela comunidade onde atua. Ter uma base 
social forte significa que a organização está enraizada no território e responde a 
demandas reais das pessoas envolvidas. Segundo Armani, isso é central para a 
sustentabilidade institucional, pois garante apoio, confiança e sentido para a 
existência da organização. No caso do Banco Comunitário Cascata, a legitimidade 
se expressa na sua origem comunitária e no vínculo que mantém com moradores da 
Vila Primeiro de Maio. 
O segundo eixo aborda a autonomia e a sustentabilidade. Esse eixo 
considera se a organização consegue funcionar de maneira independente, sem 
depender exclusivamente de apoios externos, e se suas ações estão alinhadas com 
sua missão e valores. Para Armani, a sustentabilidade envolve coerência 
21 
 
institucional e capacidade de seguir em frente mesmo com poucos recursos. No 
caso do BCC, essa sustentabilidade tem sido construída por meio de trabalho 
voluntário, apoio de parceiros locais e uma gestão comprometida com a economia 
solidária. 
O terceiro eixo refere-se à estrutura organizacional e à gestão. Aqui, o 
objetivo é entender como a organização funciona internamente: se há divisão de 
tarefas, se existem rotinas mínimas, planejamento, reuniões e registro das decisões. 
Armani ressalta que uma estrutura não precisa ser formalizada para ser funcional, 
mas é importante que haja clareza e articulação entre os processos. No BCC, 
embora a gestão ocorra de forma informal, existe uma lógica própria de organização, 
baseada na confiança, no diálogo e no envolvimento direto das lideranças 
comunitárias. 
O quarto eixo trata da participação e do controle social. A participação efetiva 
dos membros da comunidade nas decisões e nas ações do banco é um 
elemento-chave para fortalecer a identidade institucional e garantir a transparência. 
Conforme aponta Armani, processos participativos ampliam a legitimidade da 
organização e contribuem para a construção de uma cultura democrática interna. No 
Banco Cascata, esse eixo permite observar como os moradores se envolvem na 
gestão, como circulam as informações e como são feitas as deliberações. 
Por fim, o quinto eixo analisa a capacidade de articulação e incidência. Esse 
eixo procura entender se a organização estabelece vínculos com outras iniciativas, 
instituições, redes e políticas públicas. Uma organização que articula parcerias 
fortalece sua atuação e amplia sua presença política. Para Armani, essa articulação 
é um dos pilares do desenvolvimento institucional, pois permite que a organização 
se insira em redes de apoio e cooperação. No caso do BCC, a relação com a Rede 
Brasileira de Bancos Comunitários, com universidades e com organizações 
parceiras tem sido fundamental, especialmente no atual processo de implementação 
da moeda social Antena. 
Esses cinco eixos serão utilizados na próxima etapa do trabalho como base 
para a análise do Banco Comunitário Cascata. Eles permitem observar como a 
gestão se organiza a partir das possibilidades concretas do território, reconhecendo 
tanto os desafios enfrentados quantoos caminhos já construídos pela comunidade. 
 
 
22 
 
3 METODOLOGIA 
 
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de caso com abordagem 
qualitativa e natureza descritiva, tendo como objeto de análise o sistema de gestão 
do Banco Comunitário Cascata (BCC), localizado em Porto Alegre. O principal 
objetivo é analisar as características institucionais da organização, com destaque 
para sua gestão, suas dinâmicas e funcionamento, avaliado como estas influenciam 
seu desempenho e sua sustentabilidade, com base nos vetores institucionais 
fundamentais ao desenvolvimento das Organizações da Sociedade Civil (OSCs). 
Trata-se de uma estratégia metodológica indicada para examinar fenômenos 
complexos em seus contextos reais, especialmente quando as fronteiras entre o 
fenômeno e o ambiente não estão claramente definidas (YIN, 2015). Essa 
abordagem também permite uma análise aprofundada de processos 
organizacionais, com base em múltiplas fontes de evidência (YIN, 2015). 
A abordagem qualitativa busca compreender significados, valores e práticas 
sociais, sendo adequada para interpretar contextos em que os aspectos subjetivos e 
relacionais são centrais (Minayo, 2014). Essa perspectiva permite acessar 
elementos do cotidiano organizacional que não se expressam por meio de dados 
quantitativos, mas que são fundamentais para compreender a dinâmica interna de 
organizações comunitárias como o BCC. 
A pesquisa descritiva tem por objetivo observar, registrar e analisar 
fenômenos sem interferência do pesquisador, permitindo uma representação 
sistemática da realidade estudada (Gil, 2008). No caso desta pesquisa, ela contribui 
para descrever o funcionamento da gestão do banco, suas formas próprias de 
organização e os pontos que podem ser aprimorados, mesmo que a estrutura atual 
opere de forma informal e funcional. 
A pesquisa foi realizada por meio de trabalho de campo, que incluiu a 
observação direta da rotina do banco, bem como entrevistas e levantamento de 
informações. A realização do estágio de forma conjunta com a pesquisa, permitiu 
acompanhar de perto como se dão os processos internos e como a gestão está se 
adaptando às novas demandas trazidas pela implementação da moeda social 
“Antena”. O contato direto com o ambiente e os atores locais possibilitou captar 
elementos que dificilmente seriam percebidos apenas por meio de documentos ou 
dados secundários. 
23 
 
Sendo assim, a coleta de dados incluiu observações em campo, entrevistas 
com integrantes da gestão do banco e conversas com estudantes vinculados a 
projetos de extensão da UFRGS, especialmente do NEGA. A observação 
participante foi uma das principais estratégias adotadas, permitindo acompanhar de 
perto a dinâmica cotidiana do Banco Comunitário Cascata. Estive presencialmente 
no local em quatro ocasiões distintas, durante Feiras de Troca e rodas de conversa, 
o que possibilitou observar diretamente as interações entre as participantes, a 
dinâmica das trocas, a organização do espaço e o papel dos encontros como 
momentos de fortalecimento comunitário. Também participei de uma reunião geral 
de planejamento do semestre e de outros encontros voltados à implementação da 
política de microcrédito. Essas atividades permitiram observar os processos internos 
de organização, a divisão de tarefas e o modo como determinadas lideranças se 
articulam no cotidiano da gestão. No total, foram realizadas três entrevistas com 
pessoas diretamente envolvidas na gestão do BCC — duas voluntárias e um 
estagiário remunerado —, além de uma conversa com uma bolsista de extensão do 
projeto NEGA/UFRGS. Também foram registradas conversas informais com 
moradores da comunidade durante os dias de observação, o que contribuiu para 
captar percepções espontâneas e variadas sobre o papel do banco, seus desafios e 
sua inserção no território. 
Após a coleta, os dados foram organizados e analisados. A análise foi guiada 
pelas questões centrais do estudo. O objetivo foi construir um diagnóstico crítico das 
fortaleças e fragilidades organizacionais, contribuindo com reflexões e sugestões 
que possam fortalecer a gestão e melhorar a atuação do banco na comunidade. 
 
 
24 
 
4 O BANCO COMUNITÁRIO CASCATA: HISTÓRICO, ESTRUTURA E 
FUNCIONAMENTO ATUAL 
 
O Banco Comunitário Cascata (BCC) iniciou seu funcionamento formal em 
2016, mas sua trajetória está profundamente enraizada em décadas de mobilização 
popular, organização comunitária e luta por direitos no bairro Cascata, zona sul de 
Porto Alegre. Desde os anos 1950, com a ocupação dos morros da Cascata e da 
Polícia por famílias em busca de moradia, os moradores vêm protagonizando lutas 
por infraestrutura básica, acesso à saúde, educação, transporte e dignidade 
(Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). Nesse 
contexto, surgiram associações de moradores, como a da Vila Primeiro de Maio, 
fundada em 1985, que teve papel central na articulação da comunidade junto ao 
poder público (ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). 
Assim, o BCC não emerge como uma iniciativa isolada, mas como um 
desdobramento dessas lutas históricas e da busca coletiva por alternativas de 
desenvolvimento mais justas e solidárias. Ele representa a consolidação de práticas 
de economia popular e solidária que já vinham sendo gestadas na região, como as 
feiras locais e o coletivo Misturando Arte, formado majoritariamente por mulheres da 
comunidade (NEGA, 2017; Costa, 2022; Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023). A criação 
do banco insere-se, portanto, em um processo mais amplo de construção de 
autonomia, fortalecimento dos laços comunitários e enfrentamento das 
desigualdades estruturais (NEGA, 2017; “MEMÓRIAS DA CASCATA”, 2023). 
Este capítulo tem como objetivo apresentar o percurso de criação, 
estruturação e funcionamento atual do Banco Comunitário Cascata. Para isso, está 
organizado em cinco seções. A primeira resgata o contexto territorial e comunitário 
do bairro Cascata e da Vila Primeiro de Maio, com destaque para a história da 
Associação de Moradores e os processos sociais que antecedem o surgimento do 
banco. A segunda seção aborda a criação do BCC, destacando o papel dos 
coletivos locais, o protagonismo feminino e o processo de constituição do banco e 
da moeda social Antena. Em seguida, a terceira seção trata da trajetória e da 
consolidação do banco entre 2015 e 2025, com ênfase na ampliação das atividades 
e na fase atual de implementação da moeda como circulante local. A quarta seção 
descreve a estrutura atual do banco, as Feiras de Troca, as principais atividades 
realizadas no espaço comunitário e as redes de apoio e parcerias. Por fim, a quinta 
25 
 
seção apresenta o BCC como instrumento de transformação local, evidenciando as 
estratégias de geração de renda, a política de microcrédito e o fortalecimento da 
economia solidária no território. 
 
4.1 O SURGIMENTO 
 
A história do bairro Cascata, na zona sul de Porto Alegre, é marcada por 
processos de ocupação popular desde a década de 1950. A expansão urbana da 
cidade levou diversas famílias de baixa renda a buscarem moradia nas encostas dos 
morros da Cascata e da Polícia, em áreas que careciam de infraestrutura básica, 
como saneamento, pavimentação e acesso a serviços públicos. Ainda que o bairro 
tenha sido oficializado na década de 1960, essas precariedades persistiram por 
décadas, tornando-se motivo constante de mobilização dos moradores por melhores 
condições de vida (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO 
EMBRATEL, [s.d.]). 
Foi nesse cenário de desigualdade e luta por direitos que surgiram as 
primeiras associações comunitárias, com destaque para a Associação dos 
Moradores do Alto Embratel – Vila Primeiro de Maio, fundada em 1985. Criada por 
moradores da comunidade com o objetivo de buscar mais direitos, a associação 
atuou fortemente em pautas como acesso à água, transporte público, pavimentaçãodas ruas, construção do posto de saúde e nomeação de vias em homenagem aos 
fundadores. A mobilização popular se intensificou por meio de assembleias, eventos 
comunitários e participação ativa no orçamento participativo da cidade (Nascimento; 
Silva; Ribeiro, 2023; ASSOCIAÇÃO ALTO EMBRATEL, [s.d.]). 
Na década de 2000, a comunidade começou a buscar alternativas de geração 
de renda frente à escassez de empregos formais. Foi nesse contexto que surgiram 
iniciativas locais como as feiras solidárias, organizadas de forma autônoma por 
moradores interessados em comercializar produtos artesanais e fortalecer o 
comércio local. Dessas feiras, surgiu em 2006 o coletivo Misturando Arte, formado 
principalmente por mulheres da comunidade. O grupo passou a promover feiras 
regulares com alimentos, roupas e artesanato, além de oficinas e atividades 
culturais, consolidando-se como importante articulador da economia solidária na 
região (NEGA, 2017). 
26 
 
O interesse pelo modelo de Banco Comunitário de Desenvolvimento cresceu 
quando integrantes do Misturando Arte participaram de um seminário promovido 
pelo Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (NEGA/UFRGS), onde conheceram 
experiências de bancos comunitários já existentes. A proposta de criar um banco 
voltado para a comunidade, baseado na cooperação e na autogestão, foi 
imediatamente acolhida como uma possibilidade real para fortalecer a economia 
local (NEGA, 2017). 
Ainda em 2015, foram realizados encontros preparatórios, rodas de conversa 
e mobilizações comunitárias. Como parte desse processo, em abril de 2016 foi 
criada a Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, com o 
objetivo de oferecer a estrutura jurídica necessária para a formalização do Banco 
Comunitário. A Escola Estadual Professor Oscar Pereira cedeu espaço para as 
primeiras feiras, oficinas e reuniões do banco, fortalecendo o vínculo entre educação 
popular e economia solidária (Nascimento; Silva; Ribeiro, 2023; NEGA, 2017). 
Desde o início, o projeto contou com forte protagonismo feminino. Foram as 
mulheres da comunidade que lideraram as feiras, organizaram o coletivo Misturando 
Arte e assumiram a linha de frente na construção do Banco Comunitário Cascata. 
Além da organização de base, atuaram também na gestão e nas atividades práticas 
do banco, contribuindo para que a economia solidária se tornasse uma ferramenta 
de autonomia, inclusão e fortalecimento comunitário (NEGA, 2017; MEMÓRIAS DA 
CASCATA, 2023). 
A criação da moeda social “Antena” foi parte fundamental desse processo. 
Seu nome faz referência às antenas de telecomunicação localizadas no Morro da 
Embratel, um ponto alto e visível da região. Essas antenas se tornaram um marco 
simbólico, realçando a ideia de conexão, comunicação e visibilidade comunitária. 
Segundo J. e K., o nome foi escolhido em votação com as crianças do Colégio 
Oscar Pereira, que sugeriram várias opções. A moeda “Antena” venceu por sua 
relação direta com o território e por reforçar o sentimento de pertencimento e 
identidade da comunidade (J. e K., comunicação interna, 2025). Inicialmente, a 
moeda foi utilizada exclusivamente nas Feiras de Troca, eventos comunitários 
periódicos em que produtos e serviços são trocados utilizando a Antena como 
unidade de valor simbólico (Costa, 2022; Nascimento, Silva, Ribeiro, 2023). 
Entre 2015 e 2025, o Banco Comunitário Cascata (BCC) percorreu um 
caminho marcado por ações contínuas de fortalecimento comunitário e 
27 
 
aprofundamento das práticas de economia solidária. Ainda que sua fundação oficial 
tenha ocorrido em 2016, a consolidação do banco como instrumento de 
desenvolvimento local envolve múltiplas fases, iniciativas e formas de organização, 
sustentadas principalmente pelo protagonismo feminino e pelo engajamento 
voluntário da comunidade, como pode ser verificado, observando a seguinte linha do 
tempo: 
 
2015 – Mobilização e primeiros passos 
 
 Neste período, coletivos como o Misturando Arte já promoviam feiras e 
oficinas que funcionavam como espaços de trocas e comercialização de produtos 
locais. Essas experiências fortaleceram os vínculos comunitários e inspiraram a 
criação de um banco comunitário, culminando na fundação da Associação de 
Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata, em abril de 2016, com apoio 
de organizações como o NEGA/UFRGS (NEGA, 2017; Costa, 2022). 
 
2016 – Fundação e primeiras experiências 
 
 Com apoio da Escola Estadual Professor Oscar Pereira, iniciaram-se as 
primeiras feiras solidárias organizadas sob a lógica de um banco comunitário. A 
moeda social Antena, criada pela comunidade, começou a ser utilizada 
simbolicamente nas Feiras de Troca, como unidade de valor para estimular a 
participação e o fortalecimento dos laços locais. Nessa fase, a Antena ainda não era 
usada como meio formal de pagamento, mas cumpria uma função educativa e 
mobilizadora (NEGA, 2017; Urquieta, 2016). 
 
2017 a 2019 – Expansão das atividades e desafios de consolidação 
 
 Durante esses anos, o BCC passou a promover oficinas, rodas de conversa e 
eventos voltados ao fortalecimento da economia popular e da cidadania. A utilização 
da moeda permaneceu restrita às Feiras de Troca. A limitação de recursos e a 
ausência de uma estrutura formalizada se apresentaram como obstáculos 
importantes para a expansão das atividades, evidenciando os desafios institucionais 
típicos de iniciativas comunitárias autogestionadas (NEGA, 2017; Urquieta, 2016). 
28 
 
 
2020 – Reorganização no espaço da antiga Associação de Moradores 
 
 Com o encerramento das atividades do Posto de Saúde da Família no prédio 
da Associação de Moradores da Vila Primeiro de Maio, o BCC passou a utilizar parte 
do espaço, dando origem ao atual Espaço Comunitário Cascata. A mudança 
permitiu a ampliação das ações do banco, com a retomada das Feiras de Troca, 
oficinas, atividades de horta e distribuição de alimentos por meio de mutirões 
comunitários (Silva, Ribeiro, Oliveira, 2023; Linha do Tempo, [s.d.]). 
 
2021 a 2024 – Fortalecimento da articulação comunitária 
 
 Neste período, o BCC foi progressivamente reconhecido como uma referência 
de organização comunitária no território. Houve o engajamento de novas voluntárias, 
principalmente mulheres, além da retomada de oficinas com foco na geração de 
renda, como produção de alimentos, costura e reaproveitamento têxtil. As ações 
educativas e de apoio social também se intensificaram, com a ampliação das rodas 
de conversa e a distribuição de cestas básicas e marmitas, especialmente durante a 
pandemia e seus desdobramentos sociais (Silva, Ribeiro, Oliveira, 2023; 
MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). 
 
2025 – Etapa atual: implementação plena da moeda social Antena 
 
 Atualmente, o Banco Comunitário Cascata vivencia uma nova fase: a efetiva 
implementação da moeda social Antena como meio de pagamento comunitário. As 
cédulas foram impressas e iniciou-se o processo de ampliação da aceitação da 
moeda em comércios locais parceiros, como mercado e ferragem. A proposta é que 
a Antena funcione com valor real de compra e ofereça incentivos como descontos 
para fortalecer o uso local. 
 
Esse processo segue as quatro etapas propostas na cartilha do NEGA (2017): 
1) identificação da comunidade e dos parceiros locais; 
2) preparação por meio de oficinas de sensibilização; 
29 
 
3) implantação com capacitações e lançamento da moeda; 
4) consolidação das atividades com fortalecimento da gestão comunitária. 
 
Além disso, essa fase também é marcada pela formalização da associação 
gestora, que realizou assembleia em junho de 2025 para definir os cargos, 
mantendo a atuação coletiva e informal como base de sustentação da gestão. A 
Antena passa a ser concebida não apenas como símbolo, mas como instrumento 
concreto de dinamização da economia local, ao lado de outras estratégias de 
inclusão financeira e fortalecimento da autonomiacomunitária. 
 
4.2 ORGANIZAÇÃO ATUAL 
 
Atualmente, o Banco Comunitário Cascata opera por meio de uma gestão 
comunitária e colaborativa, sustentada pelo envolvimento voluntário de moradoras 
da Vila Primeiro de Maio e de pessoas ligadas à Associação de Economia Solidária, 
Cultura e Educação da Cascata. Embora não haja uma estrutura organizacional 
formalizada com cargos burocráticos rigidamente definidos, há uma divisão prática 
de funções entre as lideranças atuantes, que se coordenam para manter as 
atividades em funcionamento. 
Essa organização coletiva tem como base valores como solidariedade, 
confiança e reconhecimento mútuo, e se articula por meio de encontros informais e 
decisões consensuais. As feiras de troca, os grupos de roda de conversa, a 
distribuição de marmitas e a construção da moeda social Antena são iniciativas 
coordenadas por esse grupo, com apoio pontual de outras moradoras e estudantes 
vinculadas ao NEGA e à UFRGS. 
Apesar da informalidade, há uma instância formal: os cargos da Associação 
de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata são definidos por meio de 
uma assembleia comunitária, a mais recente realizada em 21 de junho de 2025. 
Nessa ocasião, foram formalizadas lideranças já atuantes: K. (coordenadora 
administrativa), J. (coordenadora financeira), Je. (coordenadora de meio ambiente) e 
Miriam (coordenadora de comunicação). Ainda que esses cargos representem uma 
formalização, a lógica da gestão se mantém horizontal e não hierárquica, baseada 
no diálogo e na articulação comunitária. 
30 
 
Além dessas lideranças, o BCC conta com a atuação de Ariel, estagiário 
remunerado vinculado ao banco, que apoia a execução das ações, realiza visitas e 
entrevistas relacionadas ao microcrédito e participa ativamente da construção da 
moeda social. Essa composição híbrida – com cargos formais da associação e 
funções práticas informais no banco – gera uma sobreposição de papéis. Muitas 
vezes, não há uma separação clara entre o que é atribuição da associação ou do 
banco, o que reflete tanto a fluidez das funções quanto os desafios institucionais 
decorrentes da informalidade. A força do coletivo e da gestão compartilhada, no 
entanto, permanece como um eixo central da dinâmica organizacional do BCC. 
Como destacou Ariel, essa é a parte formal, mas "é mais informal, né?". Para 
ele, a nova composição oficial apenas reconhece aquilo que já acontecia na prática: 
"Acho que essa gestão ficou boa, porque as pessoas que são mais envolvidas, que 
é a K., a J. e a Je., estão na gestão, elas estão na coordenação. Então, elas não são 
só, agora, informalmente. Elas são formalmente as responsáveis pela associação". 
Ainda segundo Ariel, "a Assembleia, essa questão dos cargos, é só pra formalizar 
uma coisa. Porque todo mundo acaba tendo um pouco de cada papel... Quando tem 
alguma atividade de associação, todo mundo se engaja. Eu acho que o único cargo 
que é específico e fechado é o financeiro. Todo o resto é coletivo". 
 
4.2.1 As Feiras de Troca 
 
As Feiras de Troca organizadas pelo Banco Comunitário Cascata são 
atividades centrais para o fortalecimento do sentimento de pertencimento, da 
solidariedade e da economia popular no território. Elas representam um espaço 
coletivo de mobilização comunitária e apoio mútuo, onde a lógica da troca substitui a 
do consumo tradicional, reforçando vínculos sociais e incentivando práticas 
econômicas alternativas (NEGA, 2017; Costa, 2022). Realizadas no Espaço 
Comunitário Cascata, as feiras contribuem não apenas para a circulação de bens, 
mas também para a valorização do trabalho comunitário e da participação social. 
Essas feiras possibilitam que moradores troquem roupas, calçados, utensílios 
domésticos e brinquedos por Antenas simbólicas, registradas em fichas individuais. 
As Antenas acumuladas nessas trocas podem ser utilizadas posteriormente na feira 
para adquirir alimentos não perecíveis, hortifrutis disponíveis, roupas e outros bens. 
31 
 
Cada participante possui uma ficha, organizada em fichários por ordem 
alfabética, na qual são registrados os valores em Antenas recebidos e utilizados em 
cada edição da feira. O controle é realizado manualmente por voluntárias e 
integrantes da equipe do banco. A atribuição de valores aos itens levados pelos 
moradores — como roupas e calçados — é feita com base na estação do ano e na 
demanda do momento. A moeda Antena, mesmo antes de sua circulação formal, já 
era utilizada de forma simbólica nesse contexto, funcionando como unidade de valor 
para as trocas. 
A gestão da feira estabelece regras adaptadas à realidade de cada edição. 
Por exemplo, em períodos com menos doações ou maior escassez, limita-se a 
quantidade de alimentos que cada morador pode adquirir: dois pacotes de arroz, um 
feijão, duas massas, uma moranga e algumas frutas, como até cinco laranjas. Já 
nas trocas de roupas e calçados, é comum a adoção de critérios sazonais, como 
permitir apenas um conjunto completo de roupa infantil (casaco, blusa e calça) no 
inverno, devido à demanda elevada. 
As peças são consideradas a partir da adequação à estação e à demanda do 
momento. Roupas de verão, por exemplo, podem ser temporariamente recusadas 
no inverno, especialmente se houver excedente no estoque. Sandálias e chinelos, 
da mesma forma, são desencorajados em períodos de frio. A lógica é otimizar o 
espaço disponível e garantir que os itens ofertados sejam úteis à comunidade 
naquele momento. 
Além disso, há uma dinâmica informal de organização para as trocas. 
Participantes que chegam mais cedo às rodas de conversa — momento que 
antecede a feira — têm prioridade na fila de trocas. Essa medida é uma forma de 
incentivar a permanência e a participação completa nas atividades. Também há 
casos em que moradores, mesmo com saldo negativo em sua ficha, continuam 
participando das feiras, com base na confiança construída ao longo do tempo. Esses 
casos são avaliados individualmente pela equipe do banco, levando em conta o 
histórico de participação e compromisso da pessoa. 
Durante o estágio obrigatório realizado no Banco Comunitário Cascata, tive a 
oportunidade de acompanhar e auxiliar diretamente na realização das Feiras de 
Troca. Participei da organização das fichas, da contabilização das trocas e do apoio 
às atividades das rodas de conversa, que antecedem as feiras. Esses encontros são 
voltados especialmente para mulheres e crianças, abordando temas como 
32 
 
maternidade, autoestima, violência doméstica, o papel do afeto, relações familiares, 
o cuidado com as crianças e os direitos das mulheres (Nascimento, Silva, Ribeiro, 
2023; NEGA, 2017; MEMÓRIAS DA CASCATA, 2023). A cada edição, novas 
reflexões são propostas a partir da escuta atenta das participantes, que 
compartilham experiências, dores e afetos. 
As rodas de conversa têm papel fundamental na escuta, apoio e construção 
de redes de cuidado dentro da comunidade, funcionando como uma preparação 
afetiva e reflexiva para o momento das trocas. Ao final de cada roda, as 
participantes recebem 30 Antenas simbólicas, como reconhecimento pelo tempo 
dedicado à escuta e ao fortalecimento coletivo. Essa atribuição valoriza não apenas 
a presença, mas também o envolvimento afetivo e comunitário nas atividades 
promovidas pelo banco. A escuta atenta e o acolhimento criam um ambiente de 
confiança que fortalece os laços sociais e contribui para o sucesso das feiras como 
instrumento de transformação social e econômica. 
 
4.2.2 Atividades realizadas no BCC 
 
O Banco Comunitário Cascata desenvolve atualmente um conjunto de 
atividades regulares voltadas ao fortalecimento dos vínculos comunitários, à 
promoção da economia solidária e à geração de renda local. Essas ações são 
organizadas de forma colaborativa, com protagonismo das lideranças comunitárias e 
apoio de voluntárias, estudantes vinculadas à UFRGS e à equipe do NEGA. 
Entre as ações permanentes,destacam-se: 
● Feira de Trocas: realizada com regularidade, a feira promove a 
circulação da moeda social Antena em um sistema de trocas de roupas, 
calçados, alimentos e itens de necessidade básica. As participantes recebem 
Antenas simbólicas para usar durante a feira, reforçando os princípios da 
economia solidária e do consumo consciente; 
● Rodas de Conversa: voltadas principalmente para mulheres e 
crianças da comunidade, essas rodas abordam temas como autoestima, 
maternidade, relações familiares, saúde mental e enfrentamento à violência 
doméstica. São espaços de escuta, apoio mútuo e fortalecimento de vínculos. 
● Distribuição de Marmitas: organizada de forma coletiva, a 
Cozinha Solidária prepara refeições que são distribuídas gratuitamente para 
33 
 
famílias em situação de vulnerabilidade. Essa iniciativa também é pensada 
como estratégia de fortalecimento da segurança alimentar e valorização dos 
saberes culinários locais; 
● Projeto de Geração de Renda com a Cozinha: em articulação 
com a cozinha solidária, está em fase de estruturação um projeto de geração 
de renda que prevê a produção de alimentos por mulheres da comunidade, 
com o objetivo de comercializar marmitas ou produtos caseiros em feiras e 
eventos, promovendo autonomia financeira e protagonismo feminino; 
● Oficinas de Costura e Roda de Costura: com o retorno das 
atividades previsto para o dia 15 (após conserto das máquinas), as oficinas 
de costura são realizadas nas terças-feiras, com foco na capacitação e 
geração de renda. Já as quintas-feiras são dedicadas à roda de costura, 
espaço coletivo de trocas, produção criativa e apoio mútuo entre as 
participantes; 
● Atividade de Capoeira: como ação permanente, a capoeira é 
realizada com foco no fortalecimento cultural e na valorização da identidade 
da comunidade, especialmente entre crianças e adolescentes; 
● Atividades relacionadas à Moeda Social Antena: além da feira, o 
BCC tem realizado ações para fomentar o uso da Antena, incluindo reuniões 
com comerciantes, encontros com moradoras e planejamento das formas de 
circulação da moeda, que ainda está em fase simbólica e de experimentação. 
 
Essas atividades expressam o compromisso do Banco Comunitário Cascata 
com a promoção da economia solidária, da inclusão social e do fortalecimento 
comunitário. Sua execução depende da articulação entre as lideranças locais, a rede 
de apoio e a capacidade de mobilização da comunidade, refletindo uma gestão 
sensível às demandas do território e orientada por práticas solidárias. 
 
4.2.3 Parceiros e rede de apoio 
 
A atuação do Banco Comunitário Cascata (BCC) está profundamente 
conectada com uma teia de relações institucionais que, ao longo dos anos, vêm 
contribuindo para sua consolidação. Essas parcerias envolvem desde movimentos 
sociais, organizações da sociedade civil, órgãos públicos, até universidades. Tais 
34 
 
articulações reforçam sua sustentabilidade, visibilidade e capacidade de ação no 
território, funcionando como vetores complementares de seu desenvolvimento 
institucional (Armani, 2013; Rigo et al., 2023). 
Uma das principais organizações parceiras do BCC é o Núcleo de Estudos 
em Gestão Alternativa (NEGA), da Escola de Administração da UFRGS. Desde 
2014, o NEGA atua como articulador e apoiador da criação do banco, contribuindo 
com oficinas, pesquisas de campo, formações e apoio técnico. Foi por meio da 
relação entre o coletivo Misturando Arte e o NEGA que surgiu a ideia do banco 
comunitário na Vila Primeiro de Maio, a partir de seminários sobre economia 
solidária e finanças alternativas. A cartilha produzida pelo núcleo (NEGA, 2017) 
registra esse processo e destaca que a universidade trouxe reflexões teóricas, mas 
também aprendeu com a prática comunitária, num intercâmbio horizontal de 
saberes. 
Além do NEGA, o BCC articula-se com diferentes organizações e movimentos 
da economia solidária, como o Fórum Gaúcho de Economia Solidária, o Conselho 
Estadual de Economia Solidária (Cesol) e a Rede Estadual de Trocas Solidárias 
(RETS). Esta última teve papel fundamental na introdução das Feiras de Troca, 
incluindo a oficina que escolheu o nome da moeda social Antena. A adesão a essas 
redes fortalece o reconhecimento político do BCC e amplia sua inserção em espaços 
de deliberação e troca de experiências, embora a participação contínua ainda 
enfrente limites operacionais e de tempo disponível das lideranças. 
Em termos de parcerias com o poder público, destaca-se a relação com o 
Programa Cozinha Solidária e o Programa Paul Singer, por meio dos quais o BCC 
articula ações de segurança alimentar e economia popular solidária. K., uma das 
lideranças do banco, atua como agente territorial vinculada a esse programa, 
reforçando o vínculo entre o banco e políticas públicas. 
O BCC também mantém parcerias locais com instituições do território, como a 
Escola Oscar Pereira, que oferece espaço físico e apoio institucional para reuniões e 
eventos; o Ambulatório de Terapias Naturais, que promove oficinas de alimentação 
saudável e aulas de yoga; e o posto de saúde da Vila Primeiro de Maio, que articula 
ações pontuais. O MTST e o Levante Popular da Juventude também são aliados na 
doação de cestas básicas e atividades sociais no bairro. 
Outras organizações da sociedade civil vêm apoiando o banco em momentos 
estratégicos. Entre elas estão a Avesol, que realiza trocas de experiências com o 
35 
 
grupo; a iniciativa Justa Troca, que viabilizou R$ 10.000 para estruturação da moeda 
Antena e do microcrédito; e a organização Koinós, que deu suporte à associação 
gestora no período de transição institucional. 
Adicionalmente, o BCC tem mantido forte diálogo com a universidade, não 
apenas por meio do NEGA, mas também com projetos e estudantes da UFRGS. 
Bolsistas e voluntários das áreas de Administração, Comunicação, Nutrição e 
Serviço Social têm participado de oficinas, diagnósticos e formações. Catherine, 
estudante envolvida no projeto NEGA, colaborou diretamente na construção da 
política de microcrédito. Ariel, estagiário remunerado, é outro exemplo da presença 
acadêmica, atuando na organização das Feiras de Troca e na gestão da moeda 
social. 
Essas parcerias cumprem diferentes funções: viabilizam recursos, oferecem 
apoio técnico e simbólico, contribuem para formações e fortalecem a legitimidade 
pública do BCC. Como indica Rigo et al. (2023), a diversidade e a qualidade das 
parcerias são indicadores importantes de sustentabilidade institucional (dimensão 
D4). No entanto, como reconhecido nas entrevistas com Ariel e Catherine, ainda há 
o desafio de consolidar uma participação mais ativa do BCC em fóruns estratégicos, 
o que depende da ampliação da equipe e de maior divisão de tarefas. 
Assim, observa-se que a rede de apoio ao BCC é ampla e plural, reunindo 
desde instituições acadêmicas até movimentos sociais, passando por organizações 
locais, igrejas, escola e agentes públicos. Essa articulação é uma das bases que 
permite ao banco seguir atuando, mesmo diante das fragilidades internas. Seu 
fortalecimento depende, portanto, tanto da manutenção desses vínculos quanto da 
capacidade de ampliar sua presença em redes políticas e técnicas que contribuam 
para sua sustentabilidade de longo prazo. 
As parcerias construídas ao longo do tempo são fundamentais para o 
funcionamento e o fortalecimento do Banco Comunitário Cascata. A cartilha do 
NEGA (2017) já apontava que um dos pilares da sustentabilidade dos BCDs é a 
construção de alianças com diferentes setores, desde universidades até instituições 
públicas e movimentos sociais. Essa perspectiva dialoga com o que Rigo et al. 
(2023) denominam como parte da dimensão D4, que trata das parcerias e fontes de 
sustentabilidade institucional. 
Na prática do BCC, as parcerias variam entre apoios permanentes e pontuais, 
de acordo com a disponibilidade das instituições e a necessidade da comunidade.

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