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Fármacos que atuam no metabolismo osteoarticular Vamos estudar a resposta inflamatória, o metabolismo ósseo e os fármacos como AINEs, glicocorticoides e antirreumáticos, focando suas indicações, seus efeitos adversos e suas interações. Esses conhecimentos colaboram para que profissionais da saúde proporcionem tratamentos seguros e eficazes em distúrbios osteoarticulares, comuns na população. Pedro Leite Azevedo 1. Itens iniciais Objetivos Identificar a resposta inflamatória e a farmacologia dos anti-inflamatórios não esteroidais utilizados para distúrbios articulares. Reconhecer as propriedades farmacológicas de glicocorticoides, anti-histamínicos e fármacos antirreumáticos, bem como os mecanismos de ação, as principais indicações clínicas, os efeitos colaterais e as contraindicações. Identificar os principais componentes reguladores do metabolismo e do remodelamento ósseo e as propriedades dos fármacos utilizados para as diferentes doenças ósseas. Reconhecer os principais fármacos utilizados na prevenção e no tratamento das doenças ósseas, compreendendo seus mecanismos de ação, suas indicações clínicas, seus efeitos adversos e suas contraindicações. Introdução O metabolismo osteoarticular compreende uma complexa regulação de diversos componentes em nosso organismo. Alterações em sinalizações e respostas celulares neste metabolismo podem promover inúmeros processos patológicos, que resultam em dores articulares, limitações no funcionamento das articulações, diminuição da massa óssea, fratura óssea e, frequentemente, muita dor. Dentre as indicações clínicas mais frequentes que abordaremos neste material, que envolvem o metabolismo osteoarticular, estão a osteoporose e a artrite reumatoide. No entanto, ao longo deste conteúdo, falaremos de indicações menos frequentes. Condições que estão associadas ao processo inflamatório, alterações no remodelamento ósseo e perda da massa óssea. Entenderemos quais respostas celulares podem estar alteradas, ou até mesmo acentuadas, e, assim, será possível compreender em que situações os diferentes fármacos são utilizados. O processo inflamatório tem por finalidade eliminar o estímulo lesivo celular, pode não ser resolvido e continuar a ocorrer de forma contínua, o que acontece frequentemente entre as doenças artríticas, caracterizadas por serem os distúrbios inflamatórios crônicos mais comuns nos países desenvolvidos. Os fármacos anti-inflamatórios são importantes na modulação ou redução deste processo. Abordaremos também as alterações fisiológicas mais frequentes relacionadas ao metabolismo ósseo. Dentre elas, a osteoporose, caracterizada por uma redução na densidade óssea, que leva ao aumento da fragilidade do osso e à maior incidência de fraturas. Neste cenário, surge a terapia farmacológica, que atua diretamente no metabolismo ósseo para prevenir e frear essa perda da matriz óssea. • • • • 1. Inflamação e AINES Inflamação Neste vídeo, você vai entender como acontece o processo inflamatório, quais os mecanismos envolvidos e os cinco sinais cardinais da inflamação. Abordaremos também as diferenças entre COX 1 e COX 2 e seu papel nos efeitos adversos. Não perca! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A inflamação é uma importante reação relacionada a inúmeras alterações no metabolismo osteoarticular. Entretanto, antes de estudarmos o mecanismo de ação dos principais fármacos anti-inflamatórios, precisamos compreender como ocorre essa resposta inflamatória. Inflamação Resposta fisiológica de proteção às lesões teciduais causadas por trauma físico, agentes químicos e/ou microbiológicos nocivos. Também pode ser estimulada por respostas imunes inadequadas, como ocorre nas doenças autoimunes. Portanto, a inflamação é a tentativa do organismo de reparar o tecido após uma lesão. Você já ouviu falar dos cinco sinais cardinais da inflamação? São sinais resultantes da resposta inflamatória, que se inicia após o estímulo lesivo celular. Para entendermos este processo, abordaremos agora as alterações celulares e moleculares que ocorrem durante a inflamação. Inicialmente, os vasos lesionados promovem a liberação de diversas substâncias e proteínas plasmáticas, que induzem um aumento da vasodilatação e da permeabilidade vascular. Logo, este maior fluxo sanguíneo resulta em aumento da temperatura (calor) e vermelhidão local (rubor), além de permitir o extravasamento de líquido dos vasos sanguíneos para o tecido lesionado, resultando em um intumescimento (edema). Os cinco sinais cardinais da inflamação são: calor, rubor, tumor, dor e perda de função. A definição destes sinais ocorreu na Antiguidade, por médicos gregos, e baseou-se apenas em observações de processos inflamatórios agudos em órgãos como pele, cavidade bucal e garganta. Desde então, estes sinais foram caracterizados como efeitos do processo inflamatório. Associado a este extravasamento, ocorre também a atração de leucócitos responsáveis por induzir a liberação de mediadores solúveis, como citocinas pró-inflamatórias, histamina, prostaglandinas e leucotrienos. Na prática, ao examinarmos um paciente com um processo inflamatório ativo em sua articulação, conseguimos identificar todos os sinais. As articulações ficam edemaciadas, quentes e vermelhas. Além destes sinais, a liberação de algumas prostaglandinas é responsável pelo aumento da sensibilidade das terminações nervosas que percebem a dor (nociceptores), denominado de hiperalgesia. Por fim, como resultado de todos estes sinais, o paciente com inflamação em seu joelho, por exemplo, tem dificuldade de realizar suas atividades diárias normalmente e, muitas vezes, possui algum tipo de limitação para andar, o que caracteriza a perda de função do membro. Já entendemos que a resposta inflamatória é desencadeada por um estímulo lesivo. Para que ela ocorra, faz- se necessária a liberação de mediadores solúveis, também denominados de eicosanoides. Porém, como eles são produzidos e liberados? O que acontece ao inibirmos a produção destes mediadores? O principal precursor dos eicosanoides é o ácido araquidônico (AA), liberado a partir da hidrólise dos fosfolipídeos teciduais pela ação da enzima fosfolipase A2, que é ativada após a lesão celular. O AA liberado pode ser metabolizado a partir de duas vias principais: Via da lipoxigenase Responsável por dar origem aos leucotrienos, que possuem ação de quimioatração de leucócitos e aumentam a permeabilidade vascular. Via das enzimas ciclo-oxigenases (COX) Produz diversas prostaglandinas. Nas células endoteliais, há a produção da prostaciclina (PGI2), capaz de promover a vasodilatação e inibir a agregação plaquetária. Nas plaquetas, há a produção de tromboxano (TxA2), que promove a vasoconstrição e a agregação plaquetária. Em leucócitos e células imunes, há a produção de Prostaglandina D2 (PGD2) e Prostaglandina E2 (PGE2), que promovem vasodilatação, permeabilidade vascular, hiperalgesia e febre (elas elevam o ponto de ajuste hipotalâmico para o controle da temperatura). Existem duas isoformas da enzima COX: COX-1 Expressa na maioria das células e dos tecidos, é caracterizada como constitutiva, ou seja, a sua expressão não é induzida pela resposta inflamatória. A COX-1 é muito importante, pois as prostaglandinas produzidas por ela contribuem com diversas funções fisiológicas, como a citoproteção gástrica, autorregulação do fluxo sanguíneo renal e no início do parto. Por outro lado, por possuírem importantes contribuições homeostáticas, de “manutenção”, a inibição de COX-1 geralmente está associada a inúmeros efeitos deletérios ao organismo, como lesões às mucosas gastrointestinais, náuseas, vômitos, distúrbio da função renal, alterações hemodinâmicas e distúrbios da função uterina. COX-2 São induzidas pelo processo inflamatório, por meio das citocinas pró-inflamatórias, pelo estresse de cisalhamento e pelos promotores de tumor. Logo, as prostaglandinas produzidas pela COX-2 têm sua expressão aumentada em decorrênciapor meio de seus efeitos sobre o rim, intestino e o osso. Ao longo deste módulo, abordaremos essas regulações. Atividade 1 Em um estudo sobre osteoporose, um grupo de pesquisadores analisa a interação entre osteoblastos e osteoclastos. Assim, os pesquisadores observam que um fármaco administrado a pacientes inibe a ação do RANKL. Com base no conhecimento sobre remodelamento ósseo, qual é o efeito esperado desse fármaco? A Aumento da reabsorção óssea devido à ativação dos osteoclastos. B Redução da atividade dos osteoclastos, diminuindo a reabsorção óssea. C Redução da formação óssea devido à inibição da atividade dos osteoblastos. D Aumento da secreção de fosfatase alcalina, estimulando a reabsorção óssea. E Aumento da expressão de catepsina K, promovendo a degradação da matriz óssea. A alternativa B está correta. O RANKL é necessário para a ativação dos osteoclastos por meio da ligação ao receptor RANK. A inibição do RANKL reduz a formação e a atividade dos osteoclastos, diminuindo a reabsorção óssea. Qual é o papel do cálcio e da vitamina D? Neste vídeo, você vai entender o papel do cálcio no organismo humano e suas fontes de obtenção. Abordaremos também a vitamina D, sua importância, metabolismo e seus efeitos no organismo. Não perca! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Como já vimos, dentre os minerais ósseos, a reciclagem do cálcio e do fosfato é a mais importante para a função celular geral. O cálcio, além de desempenhar importante papel no remodelamento ósseo, é um mineral essencial para inúmeras funções biológicas, incluindo a liberação de neurotransmissores, contração muscular, sinalização intracelular e na coagulação sanguínea. Aproximadamente 99% do cálcio presente no nosso corpo está integrado aos nossos ossos e dentes. Portanto, a sua liberação para a corrente sanguínea precisa ser controlada com grande precisão, e qualquer mudança em sua disponibilização pode ser deletéria ao organismo. O cálcio é absorvido no intestino e eliminado pela urina. A eficiência da absorção intestinal é inversamente relacionada à concentração plasmática. Se o organismo apresentar altos teores de cálcio, há redução da sua absorção; porém, se houver baixos níveis, há aumento compensatório da sua absorção. Relação inversa que também ocorre com a sua eliminação renal. Como ocorre a regulação? Ela é dependente da vitamina D no intestino e do PTH nos rins. O cálcio também pode ser reabsorvido pelo osso através da ação da vitamina D. Abordaremos com mais detalhes como ocorrem essas e outras regulações ao longo deste conteúdo. Os íons fosfatos também desempenham ações críticas no metabolismo relacionadas a diversas atividades celulares e enzimáticas. Em nosso organismo, mais de 80% são encontrados nos ossos. Sua absorção é regulada pela vitamina D, e a sua deposição no osso, em associação com o cálcio, é regulada pelo PTH e pela vitamina D no intestino. O PTH e o FGF23 também são capazes de regular a sua eliminação renal. Detalharemos esta regulação a seguir. A concentração plasmática de fosfato deve ser monitorada, pois ela também altera os níveis plasmáticos de cálcio, e, assim, pode desencadear inúmeras alterações na homeostasia. Confirma o esquema a seguir. Homeostasia do cálcio e sua regulação pelo paratormônio (PTH) e pela 1,25-di- hidroxivitamina D. Conforme acabamos de ver, a vitamina D é um importante componente envolvido na manutenção do metabolismo ósseo, pois é capaz de regular a concentração plasmática de cálcio e fosfato. Porém, qual seria o seu mecanismo de ação? Antes de entendermos como ela induz seus efeitos, precisamos identificar as suas principais propriedades. A vitamina D consiste em um grupo de moléculas que são convertidas em metabólitos biologicamente ativos, que funcionam como hormônios e são capazes de regular diferentes atividades celulares. Em humanos, encontramos duas fontes de vitamina D: As vitaminas D2 e D3 são comumente adicionadas a produtos derivados do leite e outros alimentos, como suplementos dietéticos, além dos fármacos em doses muito mais altas. O termo vitamina D refere-se a ambas as formas, pois apresentam atividade biológica semelhantes. A metabolização ocorre a partir da hidroxilação no fígado, onde a vitamina D é transformada em calcifediol, convertido nos rins em metabólito ativo denominado calcitriol. Essa conversão é regulada pelo PTH, FGF23, e influenciada pela concentração de cálcio no plasma. Ou seja, uma redução do nível sérico de cálcio promove a síntese e liberação do PTH e o aumento da síntese de calcitriol (metabólito ativo da vitamina D). Entretanto, através de um mecanismo de feedback negativo, em elevados níveis séricos de calcitriol, há inibição da síntese de PTH, e, consequentemente, redução da síntese de calcitriol. Ergocalciferol ou vitamina D2 Derivado do ergosterol nas plantas e nos fungos. Colecalciferol ou vitamina D3 Gerado na pele a partir da absorção de fóton de um luz ultravioleta (UVB) pelo 7-desidrocolesterol. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ver mais detalhes da imagem abaixo. Fotobiossíntese e ativação da vitamina D. Em relação ao mecanismo de ação do calcitriol, o que ele promove? Quando o organismo se encontra com redução da concentração de cálcio ou fosfato no plasma, o calcitriol atua na tentativa de reverter este desbalanço. Sua síntese é induzida, e ele promove o aumento de absorção de cálcio e fosfato no intestino, mobilizando o cálcio a partir do osso e diminuindo a eliminação renal de cálcio. No osso, o calcitriol promove a maturação e a estimulação dos osteoclastos, resultando em aumento da reabsorção óssea e na mobilização de cálcio. Trata-se de ações que culminam na elevação da concentração de cálcio plasmático, como pode ser observado no esquema da imagem a seguir. Efeitos D3. O efeito do calcitriol é complexo e não está limitado à mobilização de cálcio e ao aumento da reabsorção óssea. Afinal, em casos onde há deficiência de vitamina D e mineralização óssea alterada, a suplementação de vitamina D é capaz de restaurar a formação óssea. Ou seja, por algum mecanismo, os osteoblastos podem estar sendo ativados. A hipótese é que a vitamina D possa estimular a síntese de osteocalcina, proteína secretada por osteoblastos, importante na mineralização da matriz óssea. Atividade 2 O nutricionista orienta um paciente com deficiência de vitamina D sobre a importância desse nutriente para a absorção de cálcio. Ele explica que a vitamina D precisa ser ativada no organismo para exercer sua função. Qual das alternativas a seguir descreve corretamente o processo de ativação da vitamina D e sua função na homeostase mineral? A A vitamina D é ativada no fígado e nos rins, formando o calcitriol, que estimula a absorção intestinal de cálcio e fósforo. B A vitamina D é convertida diretamente em PTH, que aumenta a absorção de cálcio nos ossos e nos rins. C A vitamina D ativa os osteoclastos, aumentando a reabsorção óssea e reduzindo a absorção intestinal de cálcio. D A vitamina D é sintetizada no estômago e atua no fígado para reduzir a reabsorção de cálcio pelos ossos. E A vitamina D promove diretamente a liberação de cálcio dos ossos, sem influência na absorção intestinal. A alternativa A está correta. A vitamina D é inicialmente metabolizada no fígado, formando calcifediol, e posteriormente nos rins, formando calcitriol, que é a forma biologicamente ativa. O calcitriol aumenta a absorção intestinal de cálcio e fosfato, contribuindo para a homeostase mineral e a manutenção da densidade óssea. Paratormônio, calcitonina e FGF23 Descubra neste vídeo o papel do paratormônio, da calcitonina e do FGF23 na regulação do remodelamento ósseo e entenda os mecanismos que regulam a liberação dos hormônios. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A partir de agora, começaremos a integrar os mecanismos de ação dos hormônios já descritos, como o calcitriol, com os outros reguladores do metabolismo ósseo.A síntese e liberação do calcitriol elevam a concentração de cálcio plasmático, que inibe diretamente a síntese e liberação do paratormônio (PTH), hormônio que é regulado diretamente em resposta aos níveis plasmáticos de cálcio. O PTH é um importante regulador fisiológico da homeostasia do cálcio, sintetizado pelas glândulas paratireoides, que possuem sensores de cálcio em sua superfície capazes de controlar sua concentração. Portanto, quando o cálcio plasmático está reduzido, há o estímulo da secreção de PTH. Em alguns casos, foi observado que a hipocalcemia induz hipertrofia e hiperplasia das paratireoides, devido à intensa produção de PTH. Quando o PTH é liberado, quais são os seus mecanismos de ação? Em baixas concentrações de cálcio, o PTH liberado estimula a reabsorção óssea e renal de cálcio, além de promover a conversão enzimática renal da vitamina D, que culmina com a síntese do calcitriol, e, indiretamente, aumenta a absorção intestinal de cálcio. Assim, podemos observar que o PTH e o calcitriol atuam de forma integrada, promovendo os ajustes necessários de acordo com a concentração plasmática de cálcio. Porém, de forma contrária ao calcitriol, o PTH promove a diminuição da reabsorção de fosfato, reduzindo a sua concentração plasmática. Os efeitos finais do PTH e do calcitriol estão ilustrados a seguir. Regulação dos minerais cálcio e fosfato através do paratormônio (PTH), calcitriol (vitamina D) e FGF23. A redução da concentração plasmática de cálcio constitui o principal estímulo para a secreção de paratormônio (PTH) pelas glândulas paratireoides (seta verde). No rim, o PTH aumenta a reabsorção de cálcio, mas diminui a de fosfato. Além disso, o PTH induz à conversão de calcitriol, que, então, estimula a absorção intestinal de cálcio e fosfato, além de induzir a liberação de FGF23. No osso, o PTH aumenta a atividade osteoclástica, ampliando a reabsorção óssea, que culmina no aumento de cálcio e fosfato no plasma. Observe que o efeito do PTH sobre o intestino é indireto, por meio da síntese renal aumentada de calcitriol. Em uma alça de retroalimentação negativa, o aumento da concentração plasmática de cálcio inibe a secreção subsequente de PTH pelas paratireoides, bem como promove redução de calcitriol. O FGF23 liberado pelo osso diminui a reabsorção de fosfato, inibe a síntese de calcitriol e a liberação de PTH pelas glândulas paratireoides. Comentário Embora a secreção patológica excessiva do PTH (hiperparatireoidismo) seja capaz de induzir a atividade osteoclástica com maior reabsorção óssea, foi observado que uma injeção diária de PTH (administração terapêutica em baixa dosagem intermitente) é capaz de estimular a atividade dos osteoblastos e acelerar a formação óssea – efeito que pode estar relacionado à inibição da secreção de esclerostina pelos osteócitos, molécula que bloqueia a proliferação dos osteoblastos (promove um efeito anti- apoptótico), e, assim, os osteoblastos podem atuar promovendo a formação óssea. Outro importante hormônio para a homeostasia do cálcio é a calcitonina, cujas ações são opostas ao PTH. Ela é produzida e liberada pela glândula tireoide. Sua principal ação é sobre o osso. Ela se liga a um receptor específico nos osteoclastos, inibindo-os e reduzindo a reabsorção óssea e os níveis plasmáticos de cálcio (efeito hipocalcêmico). Nos rins, ela reduz a reabsorção de cálcio e do fosfato. Sua secreção é determinada principalmente pela concentração de cálcio no plasma. Observa-se aumento de calcitonina durante a fase de crescimento, na gravidez e na lactação, quando os níveis de cálcio estão aumentados. Embora a calcitonina endógena tenha menos importância, a calcitonina exógena mostra-se útil no tratamento de emergência de certas formas de hipercalcemia, conforme discutiremos adiante neste mesmo módulo. Ao analisarmos de forma integrada essas regulações, podemos observar que: O fator de crescimento do fibroblasto 23 (FGF23) que citamos neste módulo é expresso em muitas células, inclusive nos osteócitos e nos osteoblastos. O FGF23 é secretado pelo osso em resposta a um aumento sérico de fosfato. Neste sentido, este fator possui importante papel na redução da concentração plasmática de fosfato, através da diminuição de sua reabsorção nos rins. Ele também é capaz de inibir a produção de calcitriol e de PTH, resultando em baixos níveis circulantes de cálcio. Atividade 3 Um paciente com hiperparatireoidismo primário apresenta hipercalcemia e níveis reduzidos de fosfato no sangue. Sabendo que o PTH influencia a homeostase do cálcio e do fosfato, qual das alternativas a seguir explica corretamente essa relação? A PTH estimula a absorção intestinal de fosfato e cálcio, aumentando seus níveis no plasma. Aumento das concentrações séricas de cálcio À medida em que ocorre o aumento das concentrações séricas de cálcio, há diminuição da secreção de PTH e aumento de calcitonina. Redução das concentrações séricas de cálcio À medida em que ocorre redução das concentrações séricas de cálcio, a elevação de PTH e diminuição de calcitonina. B PTH reduz a reabsorção renal de cálcio e fosfato, promovendo hipocalcemia e hiperfosfatemia. C PTH reduz a secreção de FGF23, aumentando a concentração plasmática de fosfato. D PTH promove a retenção de fosfato nos rins para manter o equilíbrio da concentração de cálcio no sangue. E PTH estimula a liberação de cálcio e fosfato dos ossos, mas aumenta a excreção renal de fosfato. A alternativa E está correta. PTH estimula a reabsorção óssea, liberando cálcio e fosfato para o sangue. No entanto, nos rins, ele aumenta a reabsorção de cálcio, mas diminui a reabsorção de fosfato, levando à sua excreção e consequente redução da concentração plasmática de fosfato. Outros hormônios e doenças ósseas Entenda neste vídeo o papel dos estrógenos e dos hormônios tireoidianos na regulação do remodelamento ósseo. Confira também as principais doenças relacionadas ao metabolismo ósseo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Os estrógenos produzidos e liberados na corrente sanguínea possuem papel importante na manutenção da integridade óssea, principalmente nas mulheres. Durante a vida reprodutiva, enquanto são produzidos, eles inibem as citocinas que recrutam os osteoclastos, inibem a produção de RANKL, opõem-se à reabsorção óssea e à ação de mobilização de cálcio pelo PTH. Os estrógenos também estão relacionados ao aumento da proliferação e à redução da apoptose de osteoblastos, à produção de TGF-β e de proteínas morfogênicas ósseas. Em conjunto, a redução desses estrógenos pode induzir a reabsorção óssea e promover o aumento de alterações ósseas e da osteoporose. Atenção Embora concentrações fisiológicas de glicocorticoides sejam necessárias para a diferenciação dos osteoblastos, concentrações excessivas, presentes durante terapias prolongadas de glicocorticoides, são capazes de inibir a formação óssea, ao promoverem a apoptose e a inibição da diferenciação dos osteoblastos. Em altas doses, também são capazes de estimular a ação dos osteoclastos. Além disso, os glicocorticoides podem diminuir a absorção intestinal de cálcio e sua reabsorção renal. Conforme discutido no módulo 2, o seu uso crônico constitui causa comum de perda óssea e osteoporose. O hormônio tireoidiano (tiroxina) em excesso estimula ação dos osteoclastos e aumenta a reabsorção óssea, reduzindo a densidade óssea e liberando o cálcio. A tireotoxicose, incluindo hipertireoidismo, ocorre em associação à osteoporose, devido à perda óssea. Diversos desses hormônios discutidos até aqui, como o PTH e a vitamina D, já foram descritos como essenciais durante o processo de regulação da homeostasia óssea. Entretanto, muitas vezes, o impacto fisiológico dessa regulação é de menor importância, como a calcitonina. Quando estão presentes em quantidades farmacológicas, vários desses hormônios têm ações passíveis de exploração terapêutica, que serão abordados ainda neste módulo. Antes disso, precisamos entender quais são as doençasósseas mais frequentes em que estes fármacos serão utilizados. Doenças ósseas Considerando essa complexa regulação do metabolismo ósseo que já discutimos, qualquer desbalanço ou alteração pode ser responsável por promover distúrbios nos ossos, necessitando, assim, de terapias farmacológicas específicas. Veja a seguir as principais doenças ósseas. Osteoporose Dentre esses distúrbios, a osteoporose é o mais comum, caracterizada pela diminuição da massa óssea e do conteúdo mineral com perda da arquitetura interna do osso, de modo que a reabsorção exceda a formação óssea. Na osteoporose, os ossos tornam-se frágeis, e os pacientes têm maior risco de fraturas após mínimos traumas. As causas mais frequentes da osteoporose são a deficiência de estrógeno na pós-menopausa e a deterioração da homeostasia óssea relacionada à idade, presente em ambos os sexos. A osteoporose também pode ocorrer secundariamente a diversas condições, como artrite reumatoide, hiperparatireoidismo, glicocorticoides em altas doses, heparina, tabagismo, uso excessivo de álcool, má absorção intestinal, cirrose e anormalidades da medula óssea. Osteomalacia e raquitismo Outras doenças ósseas que necessitam de terapia farmacológica incluem a osteomalacia e o raquitismo (forma juvenil da osteomalacia), atribuídos à deficiência de vitamina D, mineralização insuficiente da matriz óssea, que resulta no amolecimento dos ossos. Doença de Paget A doença de Paget apresenta distorção dos processos de reabsorção e remodelamento ósseo, que resulta na formação de um osso desorganizado, aumentado ou deformado, mas diferente da osteoporose, limita-se a um ou poucos ossos. Outras condições metabólicas Na doença renal crônica, o comprometimento da função renal promove inúmeros efeitos, como a redução da síntese de calcitriol e redução da concentração de cálcio, excreção diminuída de fosfato, indução da secreção de PTH (comum no hiperparatireoidismo) e a indução da reabsorção óssea. Outras alterações que podem culminar na hipercalcemia também são prejudiciais; são frequentes em pacientes com neoplasia maligna sistêmica ou metástases ósseas. O hipoparatireoidismo também constitui uma patologia frequentemente encontrada após a retirada cirúrgica da tireoide. Neste contexto, fármacos que possam ser utilizados na prevenção e no tratamento dessas alterações são extremamente importantes, pois, em muitos casos, estes pacientes, a longo prazo, podem sentir dor óssea e ter ossos deformados ou fraturados. A partir de agora, discutiremos as propriedades farmacológicas dos fármacos disponíveis para o tratamento das principais doenças ósseas apresentadas. Atividade 4 Uma mulher na pós-menopausa consulta seu médico devido ao diagnóstico de osteoporose. O profissional explica que a redução de estrógenos pode ter contribuído para a perda de massa óssea. Considerando o papel dos estrógenos no metabolismo ósseo, qual dos mecanismos a seguir explica essa relação? A Estrógenos aumentam a secreção de PTH, promovendo a reabsorção óssea e reduzindo a massa óssea. B Estrógenos estimulam a produção de RANKL pelos osteoblastos, aumentando a atividade osteoclástica. C Estrógenos reduzem a expressão de osteoprotegerina (OPG), permitindo maior ativação dos osteoclastos. D A redução dos estrógenos aumenta a reabsorção óssea por estimular a apoptose dos osteoblastos e a atividade dos osteoclastos. E A deficiência estrogênica promove a deposição excessiva de cálcio nos ossos, tornando-os mais rígidos e quebradiços. A alternativa D está correta. Estrógenos inibem a reabsorção óssea ao reduzir a ativação dos osteoclastos e promover a sobrevivência dos osteoblastos. Com a redução dos estrógenos na pós-menopausa, ocorre maior apoptose de osteoblastos e aumento da atividade osteoclástica, levando à perda de massa óssea e osteoporose. 4. Fármacos utilizados no tratamento de doenças ósseas Fármacos antirreabsortivos: bifosfonatos Neste vídeo, você vai conhecer as características químicas, farmacocinéticas, mecanismo de ação e efeitos adversos dos fármacos antirreabsortivos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Nos últimos anos, ocorreram avanços significativos no tratamento das doenças ósseas. A maioria das intervenções farmacológicas estão direcionadas para a fisiologia do remodelamento ósseo e pode ser dividida em duas categorias principais: Fármacos antirreabsortivos São fármacos que reduzem a perda óssea, como bisfosfonatos, calcitonina, moduladores seletivos do receptor de estrógeno (SERMs), antagonistas do RANKL. Fármaco anabólico É o fármaco que aumenta a formação óssea: teripatida. Para pacientes que já apresentam elevada perda de massa óssea ou já sofreram fraturas por fragilidade osteoporótica, os agentes antirreabsortivos não constituem a terapia ideal. Essa situação levou ao desenvolvimento de agentes anabólicos ósseos, ou seja, fármacos que realmente aumentam a massa óssea e a resistência do osso, e não apenas impedem a sua perda. Entretanto, como os processos de reabsorção e formação óssea são estreitamente integrados, a redução em um deles geralmente leva à redução do outro por meio de mecanismos ainda desconhecidos. Além desses fármacos, a suplementação de cálcio e vitamina D também desempenha importante papel no tratamento das doenças ósseas. Analisaremos agora os principais fármacos antirreabsortivos, suas indicações clínicas, os efeitos adversos e suas contraindicações. A abordagem dos medicamentos será realizada de forma individual e pontual para facilitar o entendimento, mas, muitas vezes, eles podem ser utilizados em associação, o que, quando pertinente, destacaremos ao longo do conteúdo. Bisfosfonatos Dentre os fármacos antirreabsortivos, os fármacos bisfosfonatos atualmente constituem a classe mais utilizada. São análogos estáveis do pirofosfato, os quais são incorporados no osso durante a remodelagem óssea. Veja as estruturas moleculares na imagem a seguir. Pirofosfato e bifosfonatos. Confira também as cadeias laterais dos bifosfonatos no quadro que segue. Bisfosfonato R1 R2 Etidronato -OH -CH3 Pamidronato -OH -CH2-CH2-NH2 Alendronato -OH -CH2-CH2-CH2-NH2 Ibandronato -OH -CH2-CH2-N(CH3)(CH2)4(CH3) Risedronato -OH -CH2-3-piridina Zoledronato -OH -CH2-imizadol Fernandes; Leite; Lanças, 2005. Os bisfosfonatos formam complexos com o cálcio da matriz óssea e são liberados lentamente conforme o osso é reabsorvido pelos osteoclastos. Após serem liberados, expõem os osteoclastos a elevadas concentrações tóxicas do fármaco. E quais os efeitos gerados por esta exposição? Os bisfosfonatos são capazes de se incorporar aos análogos do ATP e promover a apoptose dos osteoclastos, principalmente o etidronato (raramente utilizado). Já os compostos de segunda geração, que, hoje em dia, são frequentemente utilizados por serem mais potentes, denominados aminobifosfonatos (aldendronato, risedronato, ibandronato, pamidronato e ácido zoledrônico), atuam por meio da inibição do ancoramento das proteínas de superfície à membrana dos osteoclastos, que são necessárias para a ligação ao osso. Ambos os mecanismos resultam na diminuição da reabsorção óssea e em um aumento da densidade mineral óssea. Os bisfosfonatos ingeridos oralmente possuem baixa biodisponibilidade e são pouco absorvidos. Sua absorção é prejudicada por alimentos e outros medicamentos. Orienta-se o paciente a ingerir os bisfosfonatos com o estômago vazio, de preferência pela manhã, após o jejum noturno. O paciente também não deve ingerir nenhum alimento durante os 60 minutos posteriores à administração do medicamento. Após a absorção e distribuição do fármaco, aproximadamente 50% de uma dose acumula-se rapidamente em locais de mineralização óssea, onde podem permanecer por meses ou anos, até que o osso seja reabsorvido e todo o medicamento seja liberado. Entretanto, a interrupção do tratamento resulta na perda gradual dos efeitos. O fármaco livre é eliminado na forma inalterada pelos rins, e, portanto, são contraindicados em casosde insuficiência renal grave. Suas principais indicações clínicas (tratamento de primeira escolha) incluem o tratamento da osteoporose e a doença de Paget. Entretanto, cada bisfosfonato possui outras indicações clínicas específicas: Alendronato O alendronato por via oral é o bisfosfonato de escolha para a profilaxia e o tratamento da osteoporose, administrado diariamente ou semanalmente, associados ao cálcio e à vitamina D. Risedronato É uma alternativa para a prevenção e o tratamento da osteoporose pós-menopausa. Ácido zoledrônico Também é uma opção terapêutica para tratar a osteoporose; pode ser administrado anualmente por infusão intravenosa, mas possui elevado custo. Clodronato, ibandronato e ácido zoledrônico Podem ser utilizados em pacientes com câncer de mama metastático e para reduzir a lesão do mieloma múltiplo, além de tratar a dor óssea e a hipercalcemia em alguns pacientes. Pamidronato Pode ser utilizado por infusão intravenosa na doença de Paget e na hipercalcemia associada a neoplasias malignas. Efeitos adversos Os principais efeitos adversos incluem alterações gastrointestinais, úlcera péptica e esofagite local e, por esse motivo, os pacientes são aconselhados a degluti-los com pelo menos 250ml de água e a permanecer na posição ortostática (em pé) durante os primeiros 60 minutos após a administração. São contraindicados para pacientes com esvaziamento esofágico tardio ou com alterações no trato gastrointestinal. Ocasionalmente, pode ocorrer dor nos ossos e diarreia. Embora ocorra raramente, a administração intravenosa de zoledronato pode causar osteonecrose na mandíbula, insuficiência renal aguda ou hepatite. Para os pacientes que não toleram os efeitos gastrointestinais adversos ou a administração oral, podemos utilizar os bisfosfonatos por via intravenosa (ácido zoledrônico), até mesmo para reduzir a frequência de administração e aumentar a adesão ao tratamento. Atividade 1 Um paciente com osteoporose recebeu prescrição de alendronato e foi orientado sobre a forma correta de administração para evitar efeitos adversos. Qual das recomendações deve ser seguida para reduzir os riscos de esofagite e úlceras gastrointestinais? A Ingerir o medicamento logo após uma refeição para reduzir sua absorção gástrica e minimizar efeitos adversos. B Tomar o comprimido com um copo cheio de água e permanecer em pé ou sentado por, pelo menos, 60 minutos após a ingestão. C Associar o uso de antiácidos à base de cálcio para reduzir a irritação gástrica e aumentar a eficácia do fármaco. D Ingerir o medicamento antes de dormir, deitado, para garantir a absorção adequada durante a noite. E Tomar o alendronato junto com outros medicamentos gastroprotetores para minimizar efeitos adversos e aumentar sua biodisponibilidade. A alternativa B está correta. Os bisfosfonatos apresentam baixa biodisponibilidade oral e podem causar esofagite e úlcera péptica. Para minimizar esses riscos, recomenda-se tomá-los com um copo cheio de água e permanecer na posição ortostática (em pé ou sentado) por, pelo menos, 60 minutos. Além disso, eles devem ser ingeridos com o estômago vazio, pois alimentos reduzem sua absorção. Demais fármacos antirreabsortivos e anabólico Neste vídeo, você vai conhecer as características químicas, farmacocinéticas, mecanismo de ação e efeitos adversos dos demais fármacos antirreabsortivos e anabólico. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Calcitonina Nós já vimos que a calcitonina inibe a ação dos osteoclastos e, consequentemente, reduz a reabsorção óssea, produzindo efeitos hipocalcêmico e hipofosfatêmico. A principal preparação disponível para uso clínico é a calcitonina sintética de salmão, que apresenta uma T1/2 mais longa e maior afinidade pelo receptor de calcitonina humano. Ela é capaz de reduzir a reabsorção óssea, mas é menos eficaz do que os bisfosfonatos. A administração do medicamento varia conforme o tratamento. Confira a seguir. Injeção subcutânea ou intramuscular Para doença de Paget e hipercalcemia. Intranasal Para a osteoporose pós-menopausa. Apresenta T1/2 plasmático de 4-12 minutos, mas sua ação se mantém por várias horas. O processo de depuração ocorre principalmente nos rins. É indicada para o tratamento de doenças caracterizadas por atividade osteoclástica elevada (hipercalcemia), associada à neoplasia, doença de Paget, osteoporose pós-menopausa e induzida por glicocorticoides. Útil para o alívio da dor associada à fratura osteoporótica e para a redução de complicações neurológicas. Efeitos adversos Os principais efeitos incluem náusea e vômito. Podem ocorrer rubor facial, sensação de formigamento nas mãos e gosto desagradável na boca. Efeitos adversos da administração nasal incluem rinite e outros sintomas nasais. Uma importante desvantagem da administração prolongada de calcitonina é a taquifilaxia, que pode resultar na dessensibilização do receptor. Seu uso pode aumentar o risco de malignidades; desta forma, deve ser reservado somente aos pacientes que forem intolerantes a outras terapias mais seguras. Taquifilaxia É definida por administração repetida da mesma dose de um fármaco e redução do seu efeito com o decorrer do tempo. Estrógenos e compostos relacionados (raloxifeno) Conforme já vimos, os estrógenos possuem importante papel na indução da formação óssea. O declínio dos níveis de estrógeno está relacionado principalmente à osteoporose pós-menopausa. Dessa forma, houve, por muito tempo, a indicação da terapia de reposição hormonal (TRH). Porém, como as TRHs possuem ações em inúmeros sistemas e são responsáveis por muitos efeitos adversos, dentre eles o aumento da incidência de câncer de mama, AVE e tromboembolismo venoso, não são mais recomendadas como tratamento preventivo da osteoporose, sendo descontinuada. No sentido de mimetizar os efeitos destes estrógenos na remodelagem óssea, foram desenvolvidos fármacos não hormonais, denominados moduladores seletivos de receptores de estrógenos (SERM). Dentre eles, o mais importante é o raloxifeno, que possui efeitos semelhantes aos do estrogênio nos ossos (estimula os osteoblastos e inibe os osteoclastos), porém tem efeito antagonista no endométrio e na mama. Portanto, ele aumenta a densidade óssea, sem aumentar o risco dos efeitos adversos induzidos pela TRH. Estrutura do 17β-estradiol. Estrutura raloxifeno. O raloxifeno possui semelhança conformacional ao 17β-estradiol, hormônio esteroide, é bem absorvido no trato gastrointestinal e sofre intenso metabolismo de primeira passagem pelo fígado, resultando em apenas 2% de biodisponibilidade. O raloxifeno é amplamente distribuído nos tecidos, apresenta T1/2 de 32 horas e é eliminado principalmente nas fezes. Seu uso foi aprovado para o tratamento de osteoporose, especialmente como alternativa para mulheres na pós-menopausa, que não conseguem tolerar os bisfosfonatos (fármacos de primeira escolha). Efeitos adversos Os efeitos colaterais incluem ondas de calor, câimbras nas pernas e edema periférico. De forma semelhante ao estrógeno, o raloxifeno aumenta o risco de tromboembolismo e, assim, é contraindicado para adultos com histórico de tromboembolismo. Diminui ligeiramente os níveis de colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), mas não aumenta nem reduz a incidência de doença cardíaca em mulheres na pós- menopausa. Antagonistas do RANKL Inicialmente, precisamos relembrar que a ativação inicial dos osteoclastos é dependente da ligação do RANKL ao seu receptor RANK. O fármaco denosumabe é um anticorpo monoclonal inibidor do RANKL, portanto é capaz de inibir a formação e função dos osteoclastos e interromper a perda óssea. O denosumabe é administrado por injeção subcutânea a cada seis meses e possui indicação clínica para a redução de fraturas em mulheres com osteoporose pós-menopausa e reabsorção óssea excessiva. Ele reduz fraturas vertebrais em homens com hipogonadismo consequente do tratamento para câncer de próstata e diminui a reabsorção óssea em pacientescom artrite reumatoide. Efeitos adversos Sua utilização foi associada ao aumento do risco de infecções, reações dermatológicas, hipocalcemia, osteonecrose da mandíbula e fraturas atípicas. Por isso, só é indicada para pacientes que não toleram ou não respondem a outros tratamentos. Ranelato de estrôncio O ranelato de estrôncio atua inibindo a reabsorção óssea e estimulando a formação óssea, mas o seu mecanismo de ação permanece desconhecido. Ele parece bloquear a diferenciação dos osteoclastos, induzindo-os a apoptose. É absorvido pelo intestino e, após ser distribuído, o estrôncio é incorporado pela hidroxiapatita, permanecendo nos ossos por muitos anos. Eventualmente, podem ser trocados pelo cálcio nos ossos. É eliminado pelos rins. Eficaz na prevenção de fraturas em mulheres idosas, foi aprovado como alternativa aos bisfosfonatos para prevenção de fraturas osteoporóticas. O fármaco é bem tolerado; relata-se baixa incidência de náusea e diarreia. Alguns autores consideram o estrôncio como fármaco de primeira escolha para o tratamento da osteoporose devido à sua melhor relação risco/benefício. Estrutura do ranelato de estrôncio. Analisaremos agora o principal fármaco com efeito anabólico, que promove o aumento da formação óssea. Teriparatida Concentrações plasmáticas constantemente elevadas de PTH (hiperparatireoidismo) induzem a desmineralização óssea e a osteopenia. Por outro lado, a exposição intermitente (baixas doses) das células ósseas ao PTH promove o aumento da formação óssea, efeito que é induzido pelos derivados do PTH. Atualmente, o principal composto em uso é a teriparatida, um fragmento peptídico recombinante do PTH. Ela possui biodisponibilidade próxima de zero quando administrada por via oral e, desta forma, é administrada diariamente de forma subcutânea, mantendo a exposição intermitente da droga. A concentração plasmática de cálcio alcança um valor máximo em 6 horas após a administração. Outras formas de administração (p. ex., transcutânea) estão em fase avançada de desenvolvimento clínico. Sofre um processo de depuração no fígado, seguida de excreção renal. A teriparatida promove o aumento da massa óssea, através do aumento do número e ativação de osteoblastos e redução da apoptose dos osteoblastos. Possui indicação clínica para ser utilizada no tratamento de pacientes portadores de osteoporose e em pacientes com alto risco de fraturas. Sua eficácia na prevenção de fraturas é comparável à dos bisfosfonatos. Efeitos adversos Possui boa tolerância e reduzidos efeitos adversos graves. Dentre os mais comuns, estão náusea, vertigem, cefaleia, artralgia, hipercalcemia, hipotensão e câimbras nas pernas. Devido a uma possível associação entre o uso da teriparatida e o desenvolvimento de osteossarcoma, o seu uso deve ser limitado a, no máximo, dois anos de tratamento. Orienta-se administrar bisfosfonatos ao final da terapia para prevenir a perda óssea devido à retirada da teriparatida. Atividade 2 Paciente com osteoporose pós-menopausa apresenta intolerância aos bisfosfonatos orais devido a efeitos gastrointestinais. Seu médico, então, decide prescrever calcitonina como alternativa terapêutica. Com base no seu mecanismo de ação e nas indicações clínicas, qual das afirmativas a seguir descreve corretamente a calcitonina? A Promove a apoptose dos osteoclastos, reduzindo a reabsorção óssea e aumentando a formação óssea. B Tem maior eficácia que os bisfosfonatos e pode ser usada como tratamento de primeira escolha para osteoporose pós-menopausa. C Seu uso prolongado está associado ao risco aumentado de osteossarcoma, sendo recomendada apenas por curtos períodos. D Reduz a reabsorção óssea ao inibir a atividade dos osteoclastos e pode ser administrada por via intranasal. E Estimula diretamente os osteoblastos, promovendo efeito anabólico significativo sobre o tecido ósseo. A alternativa D está correta. A calcitonina atua inibindo a atividade osteoclástica, reduzindo a reabsorção óssea e os níveis plasmáticos de cálcio. Sua administração intranasal é uma opção para osteoporose pós-menopausa. No entanto, sua eficácia é inferior à dos bisfosfonatos, sendo utilizada apenas em pacientes que não toleram outras terapias. Suplementação de vitamina D, cálcio e fosfato Neste vídeo, você vai identificar a necessidade e o efeito da suplementação e conhecer a farmacocinética e seus efeitos adversos, com destaque para os riscos da suplementação excessiva. Não perca! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Preparações de vitamina D A principal preparação de vitamina D utilizada clinicamente é o ergocalciferol. Outras preparações incluem o alfacalcidol, colecalciferol e o calcitriol. Todos podem ser administrados oralmente e são bem absorvidos no intestino. As preparações de vitamina D são lipossolúveis, e os sais biliares são necessários para a sua absorção. Também estão disponíveis formas injetáveis para a administração. Após ministração oral, apresentam um T1/2 plasmático de 20 a 30 horas, e são amplamente distribuídas no tecido adiposo (encontrada na gordura por muito meses). A principal via de eliminação da vitamina D é pelas fezes. A vitamina D promove o aumento de absorção de cálcio e fosfato no intestino, mobiliza o cálcio a partir do osso e diminui a eliminação renal de cálcio, além de diminuir a síntese do PTH. Foi observado que a suplementação de vitamina D aumenta a densidade óssea mineral e diminui a incidência de fraturas ósseas. As preparações de vitamina D são indicadas clinicamente para o tratamento de estados de deficiência dietética, na prevenção de raquitismo, osteomalacia, deficiência causada pela má absorção e doenças hepáticas. A associação de vitamina D e suplementos dietéticos de cálcio é frequentemente utilizada para prevenção e tratamento da osteoporose, principalmente em indivíduos idosos. É indicada para o tratamento da hipocalcemia, causada pelo hipoparatireoidismo, e de doença renal crônica. No caso de hipoparatireoidismo agudo, é necessário o uso de cálcio intravenoso e preparações de vitamina D injetável, além de associar um diurético tiazídico. Também foram aprovados para tratamento do hiperparatireoidismo secundário, com a supressão da secreção de PTH pelas células das glândulas paratireoides. Efeitos adversos Como a vitamina D aumenta tanto o cálcio quanto o fosfato do plasma, é preciso monitorar cuidadosamente os níveis plasmáticos desses minerais durante o tratamento. Portanto, a ingestão excessiva de vitamina D pode desenvolver hipercalemia e, se ela persistir, os sais de cálcio podem ser depositados nos rins, promovendo calculose renal e insuficiência renal. O paricalcitol, análogo da vitamina D, possui menor potencial para causar hipercalcemia. Sais de cálcio Além de inúmeras funções fisiológicas reguladas pelo cálcio, eles são essenciais durante a mineralização da matriz óssea. Neste sentido, umas das principais indicações clínicas dos sais de cálcio inclui a reposição oral de cálcio durante a deficiência na dieta (estado de hipocalcemia), incluindo o uso do gluconato de cálcio e do lactato de cálcio. Além disso, podem ser utilizados em associação com os bisfosfonatos, a vitamina D ou calcitonina para prevenção e tratamento da osteoporose, hipoparatireoidismo, raquitismo dependente de vitamina D ou má absorção. O gluconato de cálcio também pode ser utilizado em injeção intravenosa no tratamento de emergência da hipocalemia. Frequentemente, é prescrito o carbonato de cálcio, que deve ser administrado oralmente com as refeições para facilitar a sua dissolução e absorção. Também é indicado para os sintomas hipocalcêmico mais leves em combinação com a vitamina D. Além disso, por se ligar ao fosfato da dieta no intestino e controlar os seus níveis plasmáticos, ele também é utilizado para tratar hiperfosfatemia. Efeitos adversos Dentre os principais efeitos colaterais, encontram-se as alterações gastrointestinais, mas, de forma geral, são bem tolerados. Compostos calcimiméticos Estes compostossimulam o efeito de estímulo do cálcio sobre o receptor de cálcio presente nas glândulas paratireoides, responsáveis por regular a secreção de PTH. Ou seja, seu efeito é diminuir a secreção do PTH e reduzir a concentração de cálcio sérico. O composto cinacalcete foi o primeiro calcimimético aprovado. Ele é atualmente utilizado como terapia alternativa à cirurgia no tratamento do hiperparatireoidismo em situações de hipercalcemia e em pacientes com insuficiência renal. Inesperadamente, por motivos ainda não esclarecidos, o cinacalcete não altera a perda óssea durante a terapia. Os efeitos máximos sobre o nível sérico de PTH são observados de 2 a 4 horas após a administração oral. Apresenta intensa metabolização hepática pelas enzimas do citocromo P450 (atenção para as interações medicamentosas), e seus metabólitos são eliminados na urina. Possui um T1/2 de eliminação de 30 a 40 horas. Curiosidade Atualmente, estão sendo desenvolvidos outros fármacos antagonistas ao mesmo receptor sensível de cálcio da paratireoide para o tratamento da osteoporose. Efeitos adversos A hipocalcemia e as náuseas são os principais efeitos colaterais. As concentrações de cálcio, fosfato e PTH devem ser monitoradas durante o tratamento. Fosfato inorgânico O fosfato inorgânico é administrado como terapia para a hipofosfatemia causada por perda renal de fosfato, má absorção intestinal, remodelamento ósseo rápido, sepse e outros distúrbios. As preparações de uso comum consistem em fosfato de potássio e fosfato de sódio. Se a hipofosfatemia for grave, pode-se administrar o fosfato por via intravenosa, com monitoramento do nível sanguíneo de cálcio. Efeitos adversos A superdosagem de fosfato oral provoca diarreia, enquanto a superdosagem do fosfato intravenoso pode causar hipocalcemia. Sevelamer Este fármaco é uma resina trocadora de íons catiônicos não absorvível e liga-se ao fosfato intestinal, diminuindo, assim, a absorção do fosfato dietético. Liga-se também aos ácidos biliares, levando à interrupção da circulação entero-hepática e redução da absorção de colesterol. Sua principal utilização clínica é para o tratamento da hiperfosfatemia em pacientes com doença renal crônica submetidos a hemodiálise. Ele é capaz de diminuir a incidência de episódios de hipercalcemia, que pode resultar em calcificação. Não possui efeito consistente e clinicamente significativo sobre o PTH. Efeitos adversos As principais reações adversas encontradas são vômito, náusea, dispepsia, diarreia e acidose metabólica. Novas terapias em potencial Diversos estudos têm ampliado o conhecimento sobre os mecanismos moleculares e celulares do processo de remodelamento ósseo. A partir deste conhecimento e com o desenvolvimento de novas tecnologias, atualmente, têm surgido novos medicamentos que podem ser incorporados à clínica em breve. Dentre eles, há os inibidores de catepsina K (odanacatibe), da esclerostina e da OPG recombinante para o tratamento da doença de Paget. Atividade 3 Paciente idoso foi diagnosticado com osteomalácia devido à deficiência de vitamina D. Seu médico prescreve suplementação de vitamina D para aumentar a absorção de cálcio e melhorar a mineralização óssea. Com base nas preparações disponíveis de vitamina D, qual das alternativas a seguir descreve corretamente suas características? A A principal preparação clínica utilizada é o calcitriol, que apresenta meia-vida curta e atua reduzindo a absorção intestinal de cálcio. B A vitamina D é hidrossolúvel e eliminada predominantemente pela urina, exigindo doses frequentes para manutenção do efeito terapêutico. C O ergocalciferol e o colecalciferol são bem absorvidos no intestino e lipossolúveis, além de requererem sais biliares para sua absorção. D A administração intravenosa de vitamina D é preferida para osteomalácia, pois atinge concentrações plasmáticas com mais rapidez. E A suplementação de vitamina D não é indicada para pacientes idosos, pois pode causar acúmulo excessivo nos tecidos ósseos. A alternativa C está correta. O ergocalciferol (vitamina D2) e o colecalciferol (vitamina D3) são lipossolúveis, requerem sais biliares para sua absorção e são amplamente distribuídos no tecido adiposo. Além disso, são bem absorvidos no intestino e indicados para o tratamento de osteomalácia, osteoporose e deficiência de vitamina D. Aplicando o conhecimento Neste vídeo, apresentamos um estudo de caso sobre o diagnóstico de osteoporose pós-menopausa. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 5. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? Fisiologia do remodelamento ósseo: equilíbrio entre reabsorção óssea pelos osteoclastos e formação óssea pelos osteoblastos, regulado por hormônios e fatores de crescimento. Regulação do cálcio e do fosfato no organismo: papel do paratormônio (PTH), da vitamina D e do fator de crescimento do fibroblasto 23 (FGF23) na homeostase mineral. Hormônios e metabolismo ósseo: influência do PTH, vitamina D, calcitonina, estrógenos, glicocorticoides e hormônios tireoidianos na densidade óssea. Principais doenças ósseas: osteoporose, osteomalácia, raquitismo, doença de Paget e alterações ósseas relacionadas à doença renal crônica. Fármacos antirreabsortivos: uso de bisfosfonatos, calcitonina, moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs) e antagonistas do RANKL para reduzir a perda óssea. Fármacos anabólicos ósseos: efeito da teriparatida no estímulo à formação óssea e suas indicações clínicas. Terapias com vitamina D e cálcio: importância da suplementação para prevenir e tratar doenças ósseas, bem como os riscos da hipervitaminose D. Uso de compostos calcimiméticos: ação do cinacalcete na redução da secreção de PTH e no controle da hipercalcemia em pacientes com hiperparatireoidismo. Terapias para controle do fosfato plasmático: uso do fosfato inorgânico para hipofosfatemia e do sevelamer para hiperfosfatemia, especialmente em pacientes com doença renal crônica. Novas terapias em desenvolvimento: pesquisas sobre inibidores de catepsina K, esclerostina e OPG recombinante para tratar doenças ósseas como a doença de Paget. Explore + Leia o artigo Relative efficacy and safety of topical non-steroidal anti-inflammatory drugs for osteoarthritis: a systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials and observational studies, de Chao Zeng e Jie Wie (entre outros autores), publicado em 2018 na British Journal of Sports Medicine, para • • • • • • • • • • saber mais sobre a eficácia de anti-inflamatórios não esteroides tópicos para osteoartrite. Disponível no portal da National Library of Medicine - PubMed Central. Pesquise o artigo que trata da regulação epigenética da remodelação óssea por compostos naturais Epigenetic regulation of bone remodeling by natural compounds. Pharmacol, de Nishikant Raut e Sheila M Wicks (entre outros autores), publicado em 2019 na Pharmacological Research, também disponível no portal da National Library of Medicine - PubMed Central. Referências GOLAN, D. E. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. E-book. HILAL-DANDAN, R.; BRUNTON, L. Manual de farmacologia e terapêutica de Goodman & Gilman. 2. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. E-book. RITTER, J. M. Rang & Dale farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: GEN, 2020. E-book. WHALEN, K.; FINKELL, R.; PANAVELIL, T. A. Farmacologia ilustrada. 6. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2016. E-book. Fármacos que atuam no metabolismo osteoarticular 1. Itens iniciais Objetivos Introdução 1. Inflamação e AINES Inflamação Conteúdo interativo Via da lipoxigenase Via das enzimas ciclo-oxigenases (COX) COX-1 COX-2 Atividade 1 Características gerais dos AINES e o AAS Conteúdo interativo Comentário Principais propriedades farmacológicas dos AINES Ácido acetilsalicílico (AAS) Correta Incorreta Efeitos adversos Curiosidade Atividade2 AINES não seletivos Conteúdo interativo Diclofenaco Efeitos adversos Indometacina Efeitos adversos Ibuprofeno Efeitos adversos Ácido mefenâmico e meclofenamato Efeitos adversos Piroxicam Efeitos adversos Nimesulida Atividade 3 Coxibes e AINEs sem atividade anti-inflamatória Conteúdo interativo Inibidores seletivos de COX-2 Celecoxibe Efeitos adversos AINEs sem ação anti-inflamatória Dipirona Efeitos adversos Acetaminofeno ou paracetamol Efeitos adversos Comentário Atividade 4 Aplicando o conhecimento Conteúdo interativo 2. Imunossupressores e fármacos úteis na artrite reumatoide O papel dos glicocorticoides Conteúdo interativo Artrite reumatoide Transplante de órgãos Asma Liberação do CRH Produção do ACTH Produção de cortisol Efeitos adversos Comentário Atividade 1 Fármacos glicocorticoides Conteúdo interativo Doenças pulmonares Doenças vasculares e do colágeno Processos alérgicos Doenças hematológicas Doenças gastrointestinais Doenças infecciosas Doenças neurológicas Transplante de órgãos Processos inflamatórios osteoarticulares Atenção Efeitos adversos Atividade 2 Anti-histamínicos Conteúdo interativo Receptores H1 Receptores H2 Efeitos adversos Atividade 3 Antirreumáticos Metotrexato Sulfassalazina Penicilamina Hidroxicloroquina e cloroquina Ciclosporina e tacrolimo Azatioprina e leflunomida Efeitos adversos Uso clínico dos fármacos antirreumáticos Resolução Conteúdo interativo Atividade 4 Aplicando o conhecimento Conteúdo interativo 3. Metabolismo e remodelamento ósseo Quais são os processos envolvidos? Conteúdo interativo Atividade 1 Qual é o papel do cálcio e da vitamina D? Conteúdo interativo Conteúdo interativo Atividade 2 Paratormônio, calcitonina e FGF23 Conteúdo interativo Comentário Atividade 3 Outros hormônios e doenças ósseas Conteúdo interativo Atenção Doenças ósseas Osteoporose Osteomalacia e raquitismo Doença de Paget Outras condições metabólicas Atividade 4 4. Fármacos utilizados no tratamento de doenças ósseas Fármacos antirreabsortivos: bifosfonatos Conteúdo interativo Fármacos antirreabsortivos Fármaco anabólico Bisfosfonatos Alendronato Risedronato Ácido zoledrônico Clodronato, ibandronato e ácido zoledrônico Pamidronato Efeitos adversos Atividade 1 Demais fármacos antirreabsortivos e anabólico Conteúdo interativo Calcitonina Injeção subcutânea ou intramuscular Intranasal Efeitos adversos Estrógenos e compostos relacionados (raloxifeno) Efeitos adversos Antagonistas do RANKL Efeitos adversos Ranelato de estrôncio Teriparatida Efeitos adversos Atividade 2 Suplementação de vitamina D, cálcio e fosfato Conteúdo interativo Preparações de vitamina D Efeitos adversos Sais de cálcio Efeitos adversos Compostos calcimiméticos Curiosidade Efeitos adversos Fosfato inorgânico Efeitos adversos Sevelamer Efeitos adversos Novas terapias em potencial Atividade 3 Aplicando o conhecimento Conteúdo interativo 5. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? Explore + Referênciasdo processo inflamatório. Em algumas condições patológicas, como na artrite reumatoide, uma doença autoimune, as células do sistema imune, que deveriam atacar somente bactérias e elementos externos, atacam o próprio corpo, invadindo as articulações. Este estímulo lesivo libera mediadores solúveis de forma permanente. Assim, a lesão não consegue ser resolvida. Neste contexto, os fármacos anti-inflamatórios são importantes para frear este processo crônico. Portanto, após definirmos os principais protagonistas do processo inflamatório, é possível entender como e por que utilizamos os medicamentos anti-inflamatórios, que podem ser classificados em esteroidais e não esteroidais. Atividade 1 O processo inflamatório é uma resposta fisiológica do organismo a lesões teciduais, e diferentes estímulos, como traumas físicos, agentes químicos e patógenos, podem desencadeá-lo. Durante a inflamação, diversas alterações celulares e moleculares ocorrem para conter o dano e restaurar a homeostase. Avalie as afirmações a seguir e marque V para as verdadeiras ou F para falsas. ( ) A inflamação pode ser desencadeada tanto por agentes externos como por respostas imunes desreguladas, como ocorre nas doenças autoimunes. ( ) O aumento da temperatura e a vermelhidão em um local inflamado são decorrentes da maior permeabilidade vascular, sem qualquer influência do fluxo sanguíneo. ( ) A enzima ciclo-oxigenase (COX) possui duas isoformas: COX-1, que é constitutiva e participa da manutenção da homeostase fisiológica, e COX-2, induzida por processos inflamatórios. ( ) A inibição da COX-1 pode levar a efeitos adversos, como úlceras gástricas e prejuízo à função renal, devido à redução das prostaglandinas responsáveis por funções fisiológicas. Assinale a alternativa a seguir que contém a sequência correta de respostas de cima para baixo. A V – F – V – V B F – V – V – F C V – F – F – V D V – V – F – F E F – F – V – V A alternativa A está correta. A primeira afirmação é verdadeira, pois a inflamação pode ser causada por diversos estímulos, incluindo agentes externos e respostas imunes desreguladas, como ocorre nas doenças autoimunes. A segunda afirmação é falsa, pois o aumento da temperatura e a vermelhidão são causados pelo aumento do fluxo sanguíneo devido à vasodilatação, não apenas pela maior permeabilidade vascular. A terceira afirmação é verdadeira, pois a COX-1 é constitutiva e tem papel na homeostase, enquanto a COX-2 é induzida pela inflamação. A quarta afirmação é verdadeira, pois a inibição da COX-1 pode levar a úlceras gástricas e disfunção renal devido à redução das prostaglandinas homeostáticas. Características gerais dos AINES e o AAS Neste vídeo, você vai conhecer as características gerais farmacocinéticas e dinâmicas dos AINEs com destaque para o AAS, seu papel na inibição da agregação plaquetária, usos e contra-indicações. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Inicialmente, discutiremos sobre os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), que são importantes medicamentos devido à grande utilização clínica e aos seus efeitos analgésicos, antitérmicos e anti- inflamatórios. Atualmente, existem mais de 50 AINEs diferentes disponíveis no mercado mundial, que compartilham do mesmo mecanismo de ação. A partir do entendimento da resposta inflamatória, conseguimos compreender o mecanismo de ação dos AINEs. A maioria deles são inibidores competitivos das enzimas COX, competindo estruturalmente com o AA, e, portanto, interrompem a formação das prostaglandinas, como pode ser visto no esquema a seguir. Mecanismo de ação dos AINES. Os AINEs reduzem o edema, a vasodilatação, a quimiotaxia de leucócitos, a febre e a dor. Porém, apesar de reduzirem a resposta inflamatória, os AINEs não apresentam efetividade sobre a doença crônica de base, como, por exemplo, liberação de enzimas lisossômicas, que contribuem para o dano tecidual presente na artrite reumatoide. Comentário A maioria dos AINEs inibe de forma não seletiva a COX-1 e a COX-2. Este conceito é importante, pois os AINEs que inibem preferencialmente a COX-2 apresentam maior potencial anti-inflamatório do que a inibição da COX-1, enquanto os principais efeitos indesejáveis estão relacionados à inibição da COX-1. Quando os AINEs não seletivos são utilizados em doenças articulares, em altas doses e de uso contínuo, há aumento destes efeitos adversos – sobretudo os que afetam o trato gastrointestinal. Para facilitar o entendimento, começaremos agora a estudar as principais propriedades farmacológicas dos AINEs. Eles possuem diversas particularidades que abordaremos ao longo deste conteúdo, como a estrutura química, seletividade para as isoformas da COX, as indicações clínicas, os efeitos colaterais e as contraindicações. De forma geral, a maioria dos AINEs é bem absorvida por via oral, com boa disponibilidade. Ligam-se extensamente às proteínas plasmáticas e distribuem-se amplamente por todo o corpo, inclusive nas articulações, proporcionando maior efeito local anti-inflamatório. Sofrem biotransformação hepática e possuem excreção renal. Por este motivo, muitas vezes, são contraindicados em pacientes que possuem insuficiência hepática e renal. A maioria dos fármacos são biotransformados por enzimas do complexo do citocromo P450, e, portanto, é importante orientar o paciente no sentido de evitar a automedicação durante a terapia com os AINEs, devido à possiblidade de interações medicamentosas. Principais propriedades farmacológicas dos AINES Ácido acetilsalicílico (AAS) O AAS foi o primeiro AINE sintetizado, derivado dos salicilatos, e é um dos AINEs mais consumidos em todo o mundo. Seu mecanismo de ação é uma exceção dentro dos AINEs, pois atua como inibidor irreversível da COX-1, além de inibir de forma reversível a COX-2. Estrutura do AAS. Administrado por via oral, o AAS é absorvido rapidamente e sofre rápida hidrólise, produzindo salicilato. Apresenta um tempo de meia-vida (T1/2) de 15 minutos, mas um tempo de ação entre 6 e 12 horas. Possui ampla distribuição e encontra-se em 80-90% na sua forma ligada à proteína plasmática. É capaz de atravessar a barreira hematoencefálica, placentária, líquido sinovial, peritoneal, saliva, fezes, leite e suor. Mecanismo de inibição irreversível da COX-1 pelo AAS. Quando utilizado em baixas dosagem, o AAS inibe preferencialmente a COX-1 plaquetária (ligação irreversível), reduzindo a formação de TxA2, e, consequentemente a agregação plaquetária. O uso crônico deste fármaco assegura essa inibição durante toda a vida útil das plaquetas (10 dias); por serem anucleadas, não são capazes de produzir novas enzimas COX. Este efeito antiplaquetário, apesar de ser minimamente encontrado em todos os AINEs não seletivos, não é clinicamente detectado de forma tão intensa como com o AAS. AAS inibe a COX-1 das plaquetas e, consequentemente, a aglutinação plaquetária. Para obtenção do efeito anti-inflamatório, faz-se necessária uma dose muito alta, o que, na prática clínica, não acontece com frequência devido à presença de muitos efeitos colaterais e a disponibilidade de outros AINEs com maior potência anti-inflamatória no mercado. As principais indicações clínicas de baixa dose do AAS são voltadas ao seu efeito antiagregante para pacientes com risco de infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular encefálico (AVE), cardiopatas, angina instável e trombose. Além disso, possui indicação antipirética e analgésica no tratamento de dores leves a moderadas (cefaleia, dismenorreia, mialgias, artralgias, pós-parto, cirurgias odontológicas e procedimentos ortopédicos). Entretanto, mesmo com a utilização destes fármacos em doses baixas, pode estar associada à irritação na mucosa gástrica e até mesmo ao sangramento. Por isso, o AAS é contraindicado em pacientes com úlcera péptica, gastrite ou com sangramento gastrointestinal. Os pacientes também podem desenvolver hemorragias devido aos seus efeitos antiplaquetários. Desta forma, o AAS também é contraindicadopara pacientes que já utilizam outra terapia anticoagulante ou que possuem alterações na coagulação. Com tudo que lemos, vamos pensar o seguinte: João, 28 anos, procurou a unidade de pronto atendimento apresentando febre alta, dor de cabeça intensa, dor muscular difusa e fadiga há dois dias. Após exames laboratoriais, foi diagnosticado com dengue e apresentava reduzida contagem de plaquetas (trombocitopenia moderada). O médico prescreveu hidratação oral e repouso, mas João, em busca de alívio para as dores e a febre, tomou ácido acetilsalicílico (AAS) 500 mg por conta própria, acreditando ser uma opção segura para tratar os sintomas. João agiu de forma: Correta Infelizmente não! AAS reduz a formação de tromboxina A2 (TxA2) plaquetário e a agregação plaquetária. Como o paciente já se encontra em um quadro de trombocitopenia (isto é, diminuição do número de plaquetas) devido ao quadro de dengue, o risco de João apresentar quadro hemorrágico pode aumentar consideravelmente. É necessário interromper o tratamento com AAS antes de procedimentos cirúrgicos, devido ao risco de hemorragias, e durante a gravidez, pois esse medicamente promove a inibição do trabalho de parto. Incorreta Exatamente! O paciente já se encontra em um quadro de trombocitopenia. Logo, como AAS reduz a formação de tromboxina A2 (TxA2) plaquetário e a agregação plaquetária, o risco de João apresentar quadro hemorrágico pode aumentar consideravelmente. Efeitos adversos Alguns indivíduos podem apresentar efeitos pulmonares, como o broncoespasmo, efeito relacionado ao aumento da síntese dos leucotrienos (promovem a broncoconstrição). O uso do AAS também pode promover alterações renais e hepáticas por onde são metabolizados e eliminados. Outro efeito adverso raro, mas grave, é denominado síndrome de Reye, em que foi encontrada uma associação entre o uso de AAS em indivíduos diagnosticados com Influenza e o aumento do risco de encefalite associado ao quadro de degeneração gordurosa hepática. Este mecanismo ainda permanece desconhecido. Curiosidade Uma importante interação medicamentosa acontece com a administração do AAS e da varfarina. O AAS pode promover o aumento do efeito da varfarina por induzir o seu deslocamento das proteínas plasmáticas, além de alterar os mecanismos hemostáticos sobre as plaquetas. Atividade 2 Paciente com artrite reumatoide apresenta dor, edema e vermelhidão na articulação do joelho, e o médico prescreveu um anti-inflamatório não esteroidal (AINE) para aliviar os sintomas. Qual é o principal mecanismo de ação dos AINEs no controle da inflamação? A Inibição da fosfolipase A2, impedindo a liberação de ácido araquidônico. B Bloqueio da liberação de histamina pelos mastócitos. C Inibição competitiva das enzimas COX, reduzindo a produção de prostaglandinas. D Ativação dos receptores de citocinas pró-inflamatórias. E Estimulação da produção de leucotrienos. A alternativa C está correta. AINEs atuam principalmente inibindo as enzimas COX (ciclo-oxigenases), responsáveis pela conversão do ácido araquidônico em prostaglandinas. A redução das prostaglandinas diminui a inflamação, a dor e o edema. AINES não seletivos Agora, vamos abordar a farmacocinética! Explore neste vídeo os usos e efeitos adversos dos principais AINEs não seletivos (diclofenaco, indometacina, ibuprofeno, ácido mefenâmico e piroxicam). Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Diclofenaco Embora seja classificado como inibidor não seletivo, o diclofenaco apresenta maior seletividade à COX-2 em relação à COX-1. Dessa forma, apresenta uma potente ação anti-inflamatória, associada aos efeitos antipiréticos e analgésicos. Estrutura do diclofenaco. O diclofenaco pode ser administrado pela via oral, retal, solução oftálmica ou em adesivo tópico. É rapidamente absorvido após administrado oralmente e encontra-se 99% ligado a proteínas plasmáticas. Possui T1/2 curto de aproximadamente 1-2 horas. Sofre intenso efeito de primeira passagem e possui 50% de biodisponibilidade. São metabolizados principalmente pelo fígado e excretados via renal (65%) e biliar (35%). Embora possua um T1/2 plasmática curto, ele se acumula no líquido sinovial, aumentando seu efeito terapêutico. Por isso, muitas vezes, são indicados para o tratamento em longo prazo da artrite reumatoide, osteoartrite e a espondilite anquilosante. Em decorrência de seus efeitos analgésicos, são indicados para a dismenorreia primária e enxaqueca. Efeitos adversos Da mesma forma que a maioria dos AINEs, os principais efeitos adversos do diclofenaco são relacionados ao trato gastrointestinal (TGI), como sangramentos e ulcerações, além da hepatotoxicidade, com o aumento das transaminases. Para diminuir estes efeitos, atualmente tem-se realizado a sua associação com o misoprostol (derivado sintético da prostaglandina PGE1) para proteção do TGI. O misoprostol reduz a secreção de ácido gástrico e estimula a produção de muco e bicarbonato. O diclofenaco não é recomendado para crianças, gestantes e lactantes. Indometacina Apresenta potência anti-inflamatória de 10 a 40 vezes maior que o AAS, embora seja um inibidor não seletivo da COX. São administrados por via oral, possuem um T1/2 de aproximadamente 2 horas e se ligam a 99% das proteínas plasmáticas. É metabolizado no fígado. Possui indicação clínica para o tratamento da artrite reumatoide, artrite gotosa aguda, osteoartrite e espondilite moderada, além de poder ser utilizado para acelerar o fechamento do canal arterial. Estrutura do indometacina. Efeitos adversos Os efeitos colaterais mais comuns da indometacina também estão relacionados ao TGI, como pancreatite, dor epigástrica, anorexia, dispepsia, náusea, úlcera péptica, sangramento gastrointestinal, e estão relacionados aos pacientes que utilizam este fármaco (de 35% a 50%). Outros efeitos colaterais são decorrentes ao efeito do fármaco no SNC, como cefaleia, tonturas, confusão mental. Por isso, não são indicados para idosos, pacientes com epilepsia, transtornos psiquiátricos ou doença de Parkinson. Outros efeitos colaterais mais raros também podem ocorrer, como a neutropenia, trombocitopenia, anemia aplástica, erupções cutâneas, prurido, urticária e crises agudas de asma. Devem ser utilizados somente depois que outros anti-inflamatórios menos tóxicos forem ineficazes. Ibuprofeno O ibuprofeno, derivado do ácido propiônico, compartilha diversas características com os outros derivados, como o naproxeno e o cetoprofeno. É inibidor não seletivo da COX, mas apresenta redução das funções leucocitárias em doses mais altas e, consequentemente, possui potente efeito anti-inflamatório. Estrutura do ibuprofeno. O ibuprofeno é administrado via oral, possuem um T1/2 de aproximadamente 2 horas (naproxeno possui T1/2 mais longo, entre 9 e 25 horas). Após a sua absorção, o ibuprofeno é distribuído lentamente nos espaços sinoviais e, mesmo quando há a queda na concentração plasmática do fármaco, o efeito antiartrítico se mantém. O ibuprofeno é metabolizado no fígado e eliminado na urina. Estes fármacos possuem indicação clínica para o tratamento da artrite reumatoide, artrite juvenil, osteoartrite, tendinite, dor de dente e dismenorreia primária. Efeitos adversos Os principais efeitos adversos estão relacionados ao TGI, mas também podem apresentar trombocitopenia, agranulocitose, erupções cutâneas, cefaleia, tonturas e prolongamento do tempo de sangramento. São contraindicados em pacientes com hipersensibilidade cruzada, doenças gastrointestinais e insuficiência hepática e renal. Ácido mefenâmico e meclofenamato O ácido mefenâmico e meclofenamato são derivados dos fenamatos. Eles são inibidores não seletivos da COX, com eficácia semelhante ao AAS. São indicados para o tratamento de curta duração da dor em tecidos moles, além dos casos de artrite reumatoide, osteoartrite e dismenorreia. Estrutura do ácido mefenâmico. Efeitos adversos Os efeitos adversos mais frequentes são a elevação das transaminases hepáticas e as alteraçõesno TGI (diarreia e desconforto gástrico). A anemia hemolítica autoimune pode acontecer, mas não é frequente. São contraindicados para crianças, grávidas e pacientes com patologias no TGI e renal. Piroxicam Derivado dos oxicam, compartilha características com o meloxicam. É potente inibidor não seletivo da COX em comparação aos outros AINEs. Embora o meloxicam iniba preferencialmente a COX-2 em comparação a COX-1, não é considerado inibidor seletivo. Em altas concentrações, o piroxicam também inibe a ativação de neutrófilos independentemente de COX, diminui a produção de radicais de oxigênio, inibe a função dos linfócitos e a colagenase na cartilagem, característica de quadros de artrite. Estrutura do piroxicam. O piroxicam é absorvido por via oral, metabolizado no fígado e eliminado no rim. Por apresentar um T1/2 mais longo e demorar alguns dias para alcançar o estado de equilíbrio dinâmico, não é indicado para o controle da dor e febre aguda, mas é muito recomendado para o tratamento crônico de artrite reumatoide e osteoartrite. Efeitos adversos Aproximadamente 20% dos pacientes apresentam efeitos adversos, como alterações no TGI, cefaleia, zumbidos, edema, prurido, erupções cutâneas, aumento das transaminases, anemias, dentre outros. O piroxicam é contraindicado para lactantes. Nimesulida A nimesulida é um importante inibidor não seletivo, mas preferencial da COX-2, e, desse modo, apresenta potente efeito anti-inflamatório, associado aos efeitos analgésicos e antipirético. Possui um T1/2 de aproximadamente 6 horas, é metabolizada no fígado e excretada principalmente na urina. É indicada para o tratamento de estados febris, nos processos inflamatórios e dolorosos das vias aéreas superiores, cefaleia, mialgias, reações pós-imunização e dor pós-operatória. Seu uso na Europa é limitado a, no máximo, 15 dias, devido ao risco de hepatotoxicidade. Estrutura da nimesulida. Atividade 3 Paciente do sexo feminino, 42 anos, relata dor e edema em suas articulações há quatro meses. Após todos os exames clínicos, recebe de seu médico um diagnóstico conclusivo de artrite reumatoide. O especialista prescreverá um fármaco anti-inflamatório. Entre os medicamentos indicados a seguir, assinale a alternativa que não compreende uma opção terapêutica para a paciente. A Dipirona B Diclofenaco C Celecoxibe D Piroxicam E Ácido acetilsalicílico (AAS) A alternativa E está correta. Embora o AAS apresente inibição da isoformas da COX-2, promovendo ação anti-inflamatória, a dose necessária para induzi-lo é alta. Devido aos diversos efeitos colaterais gerados por altas doses, geralmente ele não é utilizado para este fim. Os fármacos diclofenaco, celecoxibe e piroxicam possuem indicação clínica para a artrite reumatoide, por apresentarem potentes efeitos anti-inflamatórios. Coxibes e AINEs sem atividade anti-inflamatória Neste vídeo, você vai conhecer os usos e os efeitos adversos dos principais coxibes. Abordaremos também a dipirona, o paracetamol, e seus mecanismos de ação e falta de efeito anti-inflamatório. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Inibidores seletivos de COX-2 Celecoxibe Os inibidores seletivos da COX-2, também denominados de coxibes, foram desenvolvidos na tentativa de inibir a síntese das prostaglandinas pela COX-2 induzida em locais de inflamação (produzindo potente efeito anti- inflamatório), sem afetar a ação da COX-1 de “manutenção”. O desenvolvimento de fármacos mais seletivos só foi possível devido a pequenas diferenças na estrutura da enzima da COX. A COX-2 tem um canal maior e mais flexível do que a COX-1. Além disso, a COX-2 tem um espaço maior no local onde os inibidores se fixam, conforme mostra a imagem a seguir. Diferença na estrutura das COX-1 e COX-2. A seletividade dos coxibes proporcionou uma redução dos casos de sangramentos gástricos. No entanto, surpreendentemente, surgiram diversas evidências entre o uso dessa classe de fármacos e o aumento de eventos cardiovasculares, como IAM e o AVE – complicações relacionadas à inibição da produção das prostaglandinas cardioprotetoras derivadas da COX-2 e acúmulo de TxA2 derivados da COX-1 plaquetária. Dentre os fármacos sintetizados e liberados no Brasil, o celecoxibe é um inibidor seletivo da COX-2 maior (entre 10 e 20 vezes) quando comparado a COX-1. Administrado por via oral, é bem absorvido e encontra-se ligado 97% a proteínas plasmáticas e possui um T1/2 de aproximadamente 11 horas. É metabolizado no fígado e, em casos de disfunção hepática, este T1/2 pode aumentar. Podem apresentar interações medicamentosas, pois sofre biotransformação pelas enzimas do citocromo P450 (CYP2C9). Diversos medicamentos podem aumentar seus níveis séricos. Atualmente, está aprovado no Brasil para o tratamento de artrite reumatoide, osteoartrite, dismenorreia primária e para dores de intensidade de leve a moderada. No tratamento da dor, a eficácia do celecoxibe é similar à dos AINEs. Efeitos adversos Os principais efeitos adversos da utilização do celecoxibe são os eventos cardiovasculares, hipertensão, alterações gastrointestinais e renais. Também foi observado que o uso crônico deste medicamento reduz a densidade óssea e retarda a cicatrização e a consolidação óssea. Ele é contraindicado em pacientes com alto risco cardiológico. AINEs sem ação anti-inflamatória Dipirona Derivada dos pirazolônicos, possui efeito analgésico e antipirético, mas sem efeito anti-inflamatório nas doses usuais pela mesma diferença de afinidade pela COX descrita para o paracetamol. Possuem inúmeras formas de administração, dentre elas, comprimido, supositório e injetável. É metabolizada no fígado e excretada no rim. Dentre as inúmeras indicações, é recomendada para o tratamento da febre, enxaqueca e dismenorreia. Estrutura da dipirona. Efeitos adversos Os principais efeitos adversos também são relacionados ao TGI, mas apresentam uma reação adversa muito rara, porém muito grave, que promove a depressão da medula óssea, acompanhada de agranulocitose, púrpura, trombocitopenia, anemia aplástica; por isso, a sua utilização é abolida em diversos países. Assim, não são indicadas aos indivíduos com alterações no TGI e com discrasias sanguíneas. Acetaminofeno ou paracetamol O acetaminofeno também atua como inibidor não seletivo da COX, embora possua maior afinidade pela COX presente no SNC. Desta forma, é capaz de promover os efeitos analgésicos e antipiréticos, mas não é capaz de se ligar às COX periféricas e promover os efeitos anti-inflamatórios. Assim, o acetaminofeno é classificado dentro dos AINEs, mas não possui ação anti-inflamatória. Estrutura do paracetamol. O acetaminofeno é rapidamente absorvido por via oral, mas, em comparação aos outros AINEs, possui ligação fraca às proteínas plasmáticas (20-50%). É indicado para o alívio da febre e dor de intensidade leve a moderada (dores dentárias, mialgia e cefaleias). É menos eficiente nas dores inflamatórias e viscerais. Efeitos adversos Não possui efeitos adversos intensos em doses terapêuticas. Entretanto, a sua metabolização em altas doses está relacionada com a geração de um metabólito tóxico (NAPQI), que necessariamente deve ser conjugado e excretado no rim. Caso contrário, pode culminar em quadros de hepatotoxicidade e necrose hepática. É contraindicado em pacientes com insuficiência hepática e renal. O paracetamol é um dos principais causadores de intoxicação medicamentosa, principalmente em crianças. Entretanto, em casos de intoxicação, podemos utilizar a N-Acetilcisteína e a vitamina K para diminuir a absorção e reverter o risco de sangramento destes pacientes. Comentário Após pontuarmos as principais propriedades farmacológicas dos AINEs, podemos observar que existem inúmeros AINEs com diferentes características. Portanto, não existe um AINE que seja o melhor para todos os pacientes e para determinada condição clínica exclusiva. Entretanto, pode haver um ou dois AINEs mais apropriados para determinado indivíduo, e este deve ser escolhido baseado emsuas condições clínicas. Atividade 4 Em relação às propriedades farmacológicas e aos principais efeitos adversos dos anti-inflamatórios inibidores seletivos da COX-2, denominados coxibes, assinale a seguir a alternativa correta. AOs coxibes são anti-inflamatórios muito seguros, pois não atuam na COX-1, não provocam lesão na mucosa gástrica nem apresentam risco cardiovascular e vêm substituindo os AINEs tradicionais. B O uso deste medicamento está associado à redução da incidência de infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular encefálico. C Estes fármacos foram desenvolvidos na tentativa de inibir a síntese das prostaglandinas pela COX-2 induzida em locais de inflamação, sem afetar a ação da COX-1 de manutenção, reduzindo a incidência dos distúrbios gastrointestinais. D A enzima COX-2 está relacionada à produção de prostaglandinas associadas à inflamação. Fármacos como os coxibes inibem a COX-2 seletivamente e, portanto, apresentam redução no efeito anti- inflamatório. E Estes fármacos foram desenvolvidos na tentativa de estimular a síntese das prostaglandinas pela COX-1 induzida em locais de inflamação, sem afetar a ação da COX-2, reduzindo a incidência dos distúrbios gastrointestinais. A alternativa C está correta. Os coxibes inibem a síntese das prostaglandinas pela COX-2 de forma seletiva, produzindo potente efeito anti-inflamatório. Entretanto, embora haja a redução dos casos de sangramentos gástricos e o papel da COX-1 seja mantido, foi observado o aumento de eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular encefálico devido à redução das prostaglandinas cardioprotetoras derivadas da COX-2. Aplicando o conhecimento Neste vídeo, apresentamos um estudo de caso sobre o uso de anti-inflamatórios não esteroidais em distúrbios articulares. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 2. Imunossupressores e fármacos úteis na artrite reumatoide O papel dos glicocorticoides Neste vídeo, você vai conhecer a função fisiológica do cortisol, o eixo HHA e os efeitos adversos provenientes do tratamento a longo prazo com corticoides, além dos cuidados necessários. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Os glicocorticoides possuem potente efeito anti-inflamatório, mas também imunossupressor. Diferentemente dos AINEs, são hormônios esteroides produzidos no córtex da medula suprarrenal, e seus análogos sintéticos estão entre os fármacos prescritos com maior frequência. A utilização dos glicocorticoides contém importantes implicações para diversas condições clínicas, como: Artrite reumatoide Transplante de órgãos Asma Antes de detalharmos o mecanismo de ação dos glicocorticoides, precisamos entender a regulação de sua síntese e liberação na corrente sanguínea. Além dos glicocorticoides, o córtex da supra renal também produz os mineralocorticoides e os androgênios. Dentre os glicocorticoides, o cortisol ou hidrocortisona é o mais importante, pois é essencial para a vida e capaz de regular grande variedade de funções cardiovasculares, metabólicas, imunológicas e homeostáticas. A síntese do cortisol é coordenada a partir da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HHA), que funciona em resposta a ritmos circadianos centrais, além de poder ser ativado em resposta a estresse físico, emocional, lesões, dor, frio e hipoglicemia. A regulação do eixo segue as seguintes etapas: Liberação do CRH Dispensa do hormônio de liberação da corticotropina (CRH) pelo hipotálamo devido aos fatores estimulantes citados anteriormente. Produção do ACTH A liberação do CRH culmina na produção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela adeno- hipófise. Produção de cortisol Por fim, o ACTH atua nas células da zona fasciculada do córtex da suprarrenal e induz a produção de cortisol, que é liberado de forma pulsátil para a corrente sanguínea. A presença de níveis elevados de cortisol diminui a síntese e a liberação de CRH e ACTH através de uma regulação por retroalimentação negativa. Confira na imagem a seguir um esquema que mostra a regulação do eixo. Eixo imune-suprarrenal e a imunossupressão do cortisol. Como este eixo é regulado pelo ritmo circadiano, a terapia com os glicocorticoides deve mimetizar o ciclo fisiológico. Pela manhã, temos um pico do ACTH e, em resposta a este aumento, ocorre maior liberação de cortisol. Desta forma, sugere-se fracionar a medicação em uma dose maior pela manhã e o restante ao longo do dia. Conforme já exposto, este eixo HHA é extremamente importante para a produção do cortisol. Entretanto, por meio da regulação por retroalimentação negativa, muitas vezes, esse eixo é suprimido devido à presença constante e em altas doses de glicocorticoide, comum em terapias farmacológicas crônicas, e, consequentemente, promove a supressão da liberação de CRH e ACTH. Essa supressão do eixo HHA está associada à atrofia do suprarrenal e à ausência de todas as substâncias produzidas por ela. Uma vez liberado, o cortisol é capaz de induzir inúmeros efeitos metabólicos e anti-inflamatórios. Porém, como ele é capaz de promover estes efeitos? A indução dos efeitos ocorre através da alteração da expressão de RNAm de diversos genes e proteínas. Essa alteração ocorre devido à interação do complexo esteroide (cortisol) e o seu receptor intracelular, em regiões especificas do DNA (elementos de resposta aos glicocorticoides), que culmina em alterações da transcrição gênica. Os efeitos metabólicos estão associados a alterações principalmente no fígado, no músculo e no tecido adiposo. Efeitos adversos Muitos pacientes que fazem uso crônico de glicocorticoides apresentam elevação dos níveis plasmáticos de glicose (aumento da gliconeogênese), resistência à insulina, que pode resultar em diabetes melito. Os pacientes também podem apresentar inibição da absorção de cálcio mediada pela vitamina D e redução direta da função dos osteoblastos, mecanismos que contribuem para a perda óssea. Frequentemente, a terapia prolongada com os glicocorticoides leva ao desenvolvimento de osteoporose e à diminuição da velocidade de crescimento linear do osso em crianças, que pode culminar no retardo do crescimento. Os glicocorticoides também podem induzir atrofia das fibras musculares, resultado do catabolismo de proteínas e fraqueza dos músculos. Também induzem à lipólise e determinam redistribuição característica da gordura, com perda periférica das reservas de tecido adiposo e obesidade central, com a deposição excessiva de gordura na nuca (giba de búfalo) e na face (fácies de lua cheia). Essas características são observadas em pacientes que apresentam a síndrome de Cushing, em que existe produção em excesso dos glicocorticoides. Confira a seguir os efeitos provocados pela síndrome de Cushing. Euforia Catarata Obesidade Hipertensão Equimoses frequentes Osteoporose Corcova de búfalo Adelgaçamento da pele Aumento do apetite Tendência à hiperglicemia Aumento da gordura abdominal Hipertensão intracraniana benigna Braços e pernas finos: atrofia muscular Cicatrização deficiente de feridas Balanço nitrogenado negativo Necroses avascular da cabeça do fêmur Face em lua cheia com bochechas vermelhas Aumento da suscetibilidade a infecções Rang, 2016. Vale ressaltar que, embora a euforia seja um dos efeitos listados, ocasionalmente podem ocorrer depressão, sintomas psicóticos ou labilidade emocional. Os efeitos metabólicos, especificamente em um momento de estresse, são benéficos. No entanto, como a terapia com os glicocorticoides mimetiza e os induz cronicamente, muitas vezes os principais efeitos adversos encontrados durante a utilização destes medicamentos estão relacionados com a intensificação destas alterações metabólicas. Além destes efeitos metabólicos, conforme citado acima, o cortisol também apresenta múltiplas ações anti- inflamatórias, que são amplamente implicadas na clínica. O cortisol promove a redução da expressão de diversas citocinas inflamatórias (IL-1,IL-2, IL-6 e TNF-α), reduz a produção e ativação de células T, a liberação de histamina, dos mediadores da inflamação, como o fator nuclear κB (NF-κB), e suprime a ativação dos leucócitos circulantes. Porém, de forma contrária, promove o aumento de IL-10 (citocina anti-inflamatória) e Anexina-1, que é fundamental pela inibição da fosfolipase A2. Estrutura do cortisol. A fosfolipase A2 é responsável pela liberação do AA e, consequentemente, pela produção das prostaglandinas induzidas durante a resposta inflamatória. Portanto, de forma diferente dos AINEs, os glicocorticoides também bloqueiam a indução da resposta inflamatória. Baseado na importância dos efeitos que discutimos até agora, a terapia farmacológica com os glicocorticoides está indicada para duas finalidades principais. Os glicocorticoides exógenos podem ser utilizados em doses fisiológicas, como terapia de reposição nos casos de insuficiência suprarrenal (Ex.: doença de Addison). Esta terapia de reposição deve ser feita com muita cautela, para não haver super disponibilização do cortisol, indução à síndrome de Cushing e supressão do eixo HHA. Além desta indicação clínica, com maior frequência, os glicocorticoides podem ser administrados em doses farmacológicas para suprimir a inflamação e as respostas imunes associadas a certos distúrbios, como a artrite reumatoide. Comentário A terapia farmacológica com os glicocorticoides não corrige a etiologia da doença subjacente, assim como os AINEs. Eles apenas limitam os efeitos da inflamação. Por esse motivo, a interrupção da terapia crônica com glicocorticoides frequentemente resulta no reaparecimento dos sintomas inflamatórios, a menos que o distúrbio tenha sofrido remissão espontânea ou tenha sido tratado por outros fármacos. Atividade 1 Um paciente usa glicocorticoides para controle de uma doença inflamatória crônica. O médico explicou os mecanismos de ação e os efeitos adversos desses medicamentos. Avalie as afirmações a seguir e marque V para as verdadeiras ou F para falsas. ( ) Os glicocorticoides atuam principalmente por meio da inibição direta da enzima fosfolipase A2, impedindo a liberação de ácido araquidônico. ( ) O uso crônico de glicocorticoides pode levar à supressão do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HHA). ( ) A redistribuição de gordura corporal, como a fácies de lua cheia, é um efeito adverso comum do uso prolongado de glicocorticoides. ( ) Glicocorticoides são indicados apenas para o tratamento de doenças autoimunes, como a artrite reumatoide. Assinale a alternativa a seguir que contém a sequência correta de respostas de cima para baixo. A V – V – F – F B V – F – F – V C F – V – V – F D F – V – V – V E F – F – V – V A alternativa C está correta. A primeira afirmação é falsa, porque glicocorticoides não inibem diretamente a fosfolipase A2, mas sim reduzem sua expressão indiretamente por meio da modulação da transcrição gênica. A segunda afirmação é verdadeira, pois o uso crônico de glicocorticoides suprime o eixo HHA devido ao feedback negativo. A terceira afirmação é verdadeira, já que a redistribuição de gordura corporal, como a fácies de lua cheia, é um efeito adverso comum. A quarta afirmação é falsa, pois glicocorticoides são usados não apenas para doenças autoimunes, mas também para outras condições, como asma e reposição hormonal na insuficiência suprarrenal. Fármacos glicocorticoides Neste vídeo, você vai entender como funciona o uso a longo prazo dos corticoides, seus efeitos adversos e as consequências da retirada abrupta, com destaque para a importância do desmame. Não perca! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Existem inúmeros análogos de glicocorticoides desenvolvidos a partir de alterações na estrutura química do cortisol. São eles: cortisona pro-fármaco, metilprednisolona, betametasona/dexametasona, prednisolona, prednisona pro-fármaco, triamcinolona e fludrocortisona. Confira o esquema a seguir! Estrutura química de análogos dos glicocorticoides. Os diferentes análogos foram sintetizados a partir de alterações na estrutura química comum do cortisol, destacadas em azul. Essas modificações são responsáveis pelas diferentes potências anti-inflamatórias encontradas. Além disso, algumas destas alterações podem aumentar a afinidade ao receptor mineralocorticoide, que promove a síntese da aldosterona e a regulação hidroeletrolítica (induz ao aumento da retenção de sódio, à hipopotassemia, expansão do volume e hipertensão). O efeito terapêutico ideal de um glicocorticoide é a máxima atividade anti-inflamatória e mínima atividade mineralocorticoide. Porém, muitas vezes, é difícil separar estes efeitos, e muitos indivíduos, durante a terapia com os glicocorticoides, apresentam retenção de líquido e edema característicos. Ao compararmos a potência anti-inflamatória entre os análogos, a prednisolona e a metilprednisolona são até cinco vezes mais potentes em relação ao cortisol, embora ambas possuam menor potência mineralocorticoide. A dexametasona apresenta potência anti-inflamatória 30 vezes superior ao cortisol, mas praticamente nenhuma atividade mineralocorticoide. Por outro lado, a fludrocortisona possui intensa potência mineralocorticoide (125 vezes maior) e potência anti-inflamatória dez vezes maior em comparação ao cortisol. Os glicocorticoides ainda podem ser classificados de acordo com o tempo de ação, que pode ser curto, intermediário ou longo. Em geral, os glicocorticoides com maior potência anti-inflamatória apresentam maior duração de ação. Diferentes métodos de administração possibilitam o direcionamento mais seletivo dos glicocorticoides para determinado tecido, podendo ser inalados, aplicados topicamente, administrados por via oral, parenteral e intramuscular. Pensando na terapia específica para o tratamento de inflamações na articulação, uma das opções é administrar os glicocorticoides localmente (intra-articular), atingindo concentrações muitas vezes mais altas que a concentração plasmática normal, minimizando os efeitos adversos sistêmicos. Os glicocorticoides sofrem biotransformação hepática e renal. Neste contexto, a cortisona e a prednisona são pró-fármacos inativos, que precisam ser convertidos pelo fígado ao fármaco ativo. Por isso, devem ser evitados em pacientes com insuficiência hepática e, por serem metabolizados pelas enzimas do citocromo P450, também podem promover interações farmacológicas. Dentre as principais indicações clínicas para redução da inflamação, temos: 1 Doenças pulmonares Asma brônquica. 2 Doenças vasculares e do colágeno Artrite reumatoide, lúpus eritematoso. Agentes de ação curta Apresentam T1/2 tecidual de menos de 12h. Agentes de ação longa Possuem T1/2 de mais de 48h. 3 Processos alérgicos Dermatite de contato, rinite alérgica. 4 Doenças hematológicas Leucemias, anemias. 5 Doenças gastrointestinais Doença inflamatória do intestino – doença de Crohn. 6 Doenças infecciosas Sepse. 7 Doenças neurológicas Redução do edema cerebral. 8 Transplante de órgãos Diminui a resposta imune e previne a rejeição. 9 Processos inflamatórios osteoarticulares Artrites e bursites. A hidrocortisona é o fármaco de escolha na terapia de reposição. A prednisolona é o fármaco de escolha para efeitos anti-inflamatórios e imunossupressores sistêmicos. Em comparação, a betametasona e a dexametasona também possuem estes mesmos efeitos anti-inflamatórios e imunossupressores, mas são usadas especialmente em situações em que a retenção hídrica precisa ser evitada. A terapia crônica com os glicocorticoides deve ser constantemente monitorada devido à possibilidade da supressão do eixo HHA e a ausência da produção fisiológica do cortisol. Assim, a interrupção abrupta da terapia crônica com glicocorticoides está associada à redução drástica do cortisol no organismo, resultando em uma “crise adrenal aguda”, associada a diversos efeitos colaterais, como hipotensão, choque, desidratação, taquicardia, náusea, vômito,anorexia, fraqueza e confusão mental. Atenção A interrupção do tratamento crônico associada à supressão do eixo HHA pode promover agravamento da doença inflamatória em curso devido à desinibição do sistema imune. Portanto, é inquestionável que o tratamento crônico com os glicocorticoides deve ser reduzido progressivamente, possibilitando a recuperação gradual da função normal do eixo HHA. Podem ser necessários muitos meses para o retorno da função normal após a suspensão dos fármacos. Para o uso sistêmico agudo (duração inferior a sete dias), qualquer representante pode ser administrado, pois não se observam efeitos indesejáveis ou a supressão do eixo HHA. A partir de sete dias, dependendo da dose utilizada, já existe a possibilidade da supressão do eixo HHA. Quando se faz necessário o prolongamento da terapia com glicocorticoides, a utilização em dias alternados pode reduzir a supressão do eixo HHA ou o surgimento dos efeitos adversos. Efeitos adversos Os efeitos adversos dos glicocorticoides frequentemente ocorrem com doses elevadas ou durante a terapia prolongada. Efeitos que estão associados principalmente às alterações do metabolismo. A terapia com os glicocorticoides é contraindicada em inúmeras situações, como em pacientes com úlcera péptica, tuberculose, doença cardíaca, diabetes, osteoporose, glaucoma e durante a gravidez. Atividade 2 Um paciente com artrite reumatoide está em tratamento crônico com glicocorticoides. No entanto, seu médico está preocupado com a possibilidade de supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). Considerando essa situação, qual das seguintes medidas é mais adequada para minimizar a supressão do eixo HHA durante o tratamento crônico com glicocorticoides? A Interromper abruptamente o tratamento após melhora dos sintomas. B Utilizar doses elevadas em dias alternados. C Trocar o glicocorticoide por um anti-inflamatório não esteroidal (AINE). D Reduzir progressivamente a dose antes de interromper o tratamento. E Manter a dose inicial até o fim do tratamento. A alternativa D está correta. A interrupção abrupta do tratamento crônico com glicocorticoides pode levar à supressão do eixo HHA e a uma crise adrenal aguda. Contudo, a redução gradual da dose permite a recuperação da função normal do eixo HHA, evitando complicações. Anti-histamínicos Explore neste vídeo o que é a histamina, qual o seu papel fisiológico e quais são os seus receptores. Conheça também os principais fármacos anti-histamínicos e suas características cinéticas e dinâmicas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Você lembra dos cinco cardinais da inflamação e como eles são gerados? A histamina é um mensageiro químico presente em diversos tecidos do organismo, especialmente nos mastócitos e basófilos. É indispensável em processos alérgicos, inflamatórios, gástricos e neurológicos. Sua síntese ocorre a partir da descarboxilação da histidina, catalisada pela enzima histidina-descarboxilase. Nos mastócitos, a histamina é armazenada em grânulos e pode ser liberada em resposta a estímulos, como lesões celulares, toxinas, venenos e reações imunológicas. Os efeitos da histamina ocorrem por meio da ativação de receptores específicos, classificados como H1, H2, H3 e H4. Vamos detalhar agora os receptores H1 e H2. Receptores H1 Estão envolvidos na contração da musculatura lisa, no aumento da permeabilidade capilar e na mediação de processos alérgicos e inflamatórios, como asma, rinite alérgica e anafilaxia. Receptores H2 Estimulam as células parietais gástricas, promovendo a secreção ácida do estômago. Vale lembrar que a ativação dos receptores H1 pode induzir a liberação de óxido nítrico pelo endotélio vascular, resultando em vasodilatação. A histamina pode aumentar a produção de citocinas pró-inflamatórias, contribuindo para reações imunológicas locais. Os efeitos da histamina variam conforme o tipo de receptor ativado, tornando os bloqueadores dos receptores H1 e H2 importantes alvos terapêuticos no tratamento de alergias e distúrbios gástricos. Os fármacos denominados anti-histamínicos são antagonistas específicos ao receptor de histamina (H1) e divididos em duas categorias: Os anti-histamínicos são bem absorvidos pelo trato gastrintestinal após administração oral e alcançam concentrações plasmáticas máximas entre duas e três horas. Também podem ser administrados topicamente. Sofrem metabolização hepática e devem ter suas doses ajustadas para pacientes com insuficiência hepática. Como são inibidores das enzimas hepáticas do citocromo P450, os anti-histamínicos também podem afetar o metabolismo de outros fármacos que utilizam o mesmo sistema. São eliminados na urina. Os de primeira geração atravessam a barreira hematoencefálica, onde bloqueiam as ações dos neurônios histaminérgicos no SNC. Enquanto os de segunda geração não a atravessam. Além disso, os de primeira geração são menos seletivos, e, além de se ligarem ao receptor H1, ligam-se aos receptores colinérgicos, α- adrenérgicos e serotoninérgicos. Essas diferenças refletem os principais efeitos adversos gerados por eles. Efeitos adversos Os principais efeitos são: depressão do SNC (sonolência), cardiotoxicidade, visão embaçada, constipação e, principalmente, boca seca. Também foram desenvolvidos fármacos antagonistas competitivos e agonistas inversos contra os receptores H2, H3 e H4, como a cimetidina e a ranitidina. Ambos são antagonistas dos receptores H2 seletivos e inibem a secreção de ácido gástrico induzida por histamina, indicadas para tratar o refluxo e a úlcera péptica. Os efeitos adversos destes fármacos são insignificantes. Embora a liberação de histamina seja evidentemente capaz de produzir muitos dos sinais e sintomas inflamatórios, os antagonistas da histamina não têm muita utilidade clínica sobre a resposta inflamatória em si, pois outros mediadores, como as prostaglandinas, são mais importantes. Ainda assim, os anti-histamínicos possuem indicação clínica para tratar condições como alergia, prurido, náuseas, vômitos, cinetose e insônia. Preparações tópicas podem ser utilizadas para picadas de insetos. Portanto, ainda que os anti-histamínicos possuam inúmeras aplicações clínicas, não existem indicações da sua utilização para o tratamento das inflamações osteoarticulares. Entretanto, atualmente, o receptor H4 constitui um alvo molecular de estudos para o desenvolvimento de novos fármacos, com o objetivo de bloquear respostas inflamatórias induzidas pelos mastócitos e eosinófilos, e, assim, novos fármacos no futuro poderão ser utilizados no tratamento da artrite reumatoide e outras patologias. Atividade 3 Um paciente com rinite alérgica está em busca de um anti-histamínico de uso diário que cause menos sonolência. Qual das seguintes opções de anti-histamínicos é mais indicada para esse paciente, considerando o perfil de efeitos adversos? A Loratadina Primeira geração Difenidramina, hidroxizina, clorfeniramina e prometazina. Segunda geração Loratadina, cetirizina, fexofenadina, levocetirizina e desloratadina. B Prometazina C Difenidramina D Hidroxizina E Clorfeniramina A alternativa A está correta. Anti-histamínicos de segunda geração, como a loratadina, não atravessam a barreira hematoencefálica, causando menos sonolência em comparação aos de primeira geração, que têm maior efeito sedativo. Antirreumáticos As alterações articulares são, muitas vezes, causadas por uma reação autoimune, que envolvem inflamação, além da proliferação do líquido sinovial e erosão da cartilagem e do osso. Desta forma, alguns fármacos atuam regulando estes processos. Os fármacos mais frequentemente utilizados para reduzir a progressão da doença de base são denominados antirreumáticos modificadores da doença (ARMD) e os imunossupressores. Os AINEs e os glicocorticoides utilizados para artrite reumatoide possuem efeito mínimo ou ausente relacionado à progressão da deformidade articular, mas, se necessário, são associados aos ARMD para aliviaros sintomas. Todos os ARMD atuam com um único mecanismo de ação? Não! Os ARMD compreendem um grupo heterogêneo de fármacos, com estrutura química não relacionada e diferentes mecanismos de ação. Estão incluídos nesta categoria, além de vários fármacos imunossupressores, os seguintes medicamentos: Metotrexato O metotrexato é antagonista do ácido fólico (inibe a produção de citocinas), possui atividade citotóxica, imunossupressora e potente efeito antirreumático. Atualmente, tornou-se a base do tratamento de pacientes com artrite reumatoide. Foi observado que ele retarda o aparecimento de novas erosões nas articulações envolvidas. Em comparação a outros ARMD, possui um início de ação mais rápido (3 a 6 semanas). Em muitos casos, ele é utilizado em associação com diferentes ARMD e moduladores de citocinas. Sua administração ocorre uma vez por semana, em baixa dosagem, minimizando os efeitos adversos. Dentre eles, os mais comuns estão a ulceração das mucosas e náusea. Se usado cronicamente, podem ocorrer discrasias sanguíneas e cirrose hepática, e, por isso, o tratamento deve ser monitorado atentamente. Sulfassalazina Produz remissão na artrite reumatoide ativa. Ela também é usada para doença inflamatória intestinal crônica. Pode atuar removendo metabólitos tóxicos do oxigênio produzidos por neutrófilos, mas o seu mecanismo de ação no tratamento da artrite reumatoide permanece desconhecido. Embora seja administrada por via oral, possui reduzida biodisponibilidade. O início de sua atividade pode demorar de 1 a 3 meses. Distúrbios gastrointestinais, mal-estar e cefaleia são os efeitos adversos mais comuns, mas também podem ocorrer reações cutâneas, leucopenia e depressão da medula óssea, fazendo-se necessário a monitorização hematológica durante a terapia. Podem ser utilizados comprimidos revestidos gastrorresistentes para reduzir estes efeitos. Penicilamina Acredita-se que sua ação em modificar a doença reumática está associada à redução da síntese da citocina IL-1 e à inibição da síntese do colágeno. No entanto, este mecanismo ainda não está estabelecido. Após administrada por via oral, somente 50% da dose é absorvida e alcança concentrações plasmáticas máximas em 1-2 horas. É preferencialmente eliminada na urina. A ocorrência de efeitos adversos é frequente, muitas vezes determinando a suspensão do tratamento. Dentre eles, rashes e estomatites são os mais comuns, mas podem apresentar anorexia, febre, náuseas, vômitos e proteinúria. O monitoramento hematológico também é necessário no início da terapia. São contraindicados em pacientes com leucopenia ou anemia falciforme. Hidroxicloroquina e cloroquina São fármacos utilizados na prevenção e no tratamento da malária. Eles são indicados para patologias articulares. No entanto, o mecanismo de ação para esta indicação permanece desconhecido. Na artrite reumatoide, são utilizados somente quando outros tratamentos citados anteriormente tenham falhado. Os efeitos antirreumáticos são tardios (6 semanas a 6 meses após o início do tratamento), e somente metade dos pacientes respondem ao tratamento. Podem apresentar efeitos adversos, como náusea, vômito, tonturas, turvação da visão e sintomas de urticária. Além dos ARMD, são comumente utilizados para as patologias articulares os fármacos imunossupressores, que, em sua grande maioria, atuam durante a fase de indução da resposta imunológica. Eles inibem a produção ou ação da IL-2, que reduz a indução e proliferação de linfócitos T (Ciclosporina, Tacrolimo), inibem a expressão de genes de citocinas, a síntese de purinas ou pirimidinas (Azatioprina) e a Leflunomida, que possui efeito inibitório específico sobre os linfócitos T ativados. Ciclosporina e tacrolimo A ciclosporina pode ser administrada por via oral ou intravenosa, apresenta T1/2 plasmático de aproximadamente 24 horas, é metabolizada no fígado, e seus metabólitos são eliminados na bile. Ocorre intensa distribuição no tecido linfomieloide e em tecido adiposo, onde se concentram por algum tempo após realizada a suspensão do tratamento. Apresentam a nefrotoxicidade como efeito adverso comum. O tacrolimo compreende as mesmas características farmacocinéticas da ciclosporina, mas seus efeitos adversos são mais pronunciados, como nefrotoxicidade e neurotoxicidade. Azatioprina e leflunomida A azatioprina é amplamente utilizada para imunossupressão, particularmente na artrite reumatoide. O principal efeito indesejável é a depressão da medula óssea, além de náuseas, vômitos, erupções cutâneas e a hepatotoxicidade. A leflunomida promove inibição dos linfócitos. É ativa por via oral e bem absorvida pelo trato gastrointestinal. Apresenta T1/2 plasmática prolongada, e o metabólito ativo sofre circulação entero- hepática. Possui aprovação para o tratamento da artrite reumatoide, mas faz-se necessária a monitorização do paciente durante o tratamento. Os principais efeitos adversos incluem cefaleia, náusea, diarreia, alopecia e elevação das enzimas hepáticas. Por isso, não é recomendada a pacientes com insuficiência hepática. Geralmente, os ARMD são denominados como fármacos de segunda linha, pois são indicados apenas quando outras terapias, como os AINEs, falham. Entretanto, na clínica, a terapia com os ARMD é iniciada imediatamente ou até três meses após o diagnóstico, embora os efeitos clínicos iniciais sejam mais lentos. O tratamento deve ser ajustado individualmente para cada paciente, considerando os efeitos adversos potencialmente graves. A maioria desses fármacos é contraindicado para gestantes. Por fim, podemos utilizar nas patologias articulares, como a artrite reumatoide, os moduladores de citocinas (adalimumabe, etanercepte, infliximabe) que possuem como alvo o TNF-α, além do rituximabe e o abatacepte, que têm como alvo receptores nos leucócitos, interferindo na sinalização destas células. TNF-α é uma citocina pró-inflamatória essencial durante a patogênese da artrite reumatoide. Quando secretado no líquido sinovial, estimula a síntese de colagenase, causando a degradação da cartilagem, além de promover o estímulo da reabsorção óssea. Em casos de doença reumática e outros tipos de artrite, como espondilite anquilosante e artrite juvenil, estes fármacos podem ser utilizados em associação ao metotrexato. Estes fármacos representam os últimos avanços no tratamento da inflamação crônica grave. De forma geral, são denominados biofármacos, ou seja, são anticorpos ou proteínas que foram sintetizados através da engenharia recombinante. Atualmente, uma das principais limitações em relação a sua utilização é o seu elevado custo, e, muitas vezes, só são utilizados por aqueles pacientes que não responderam adequadamente a nenhuma das terapias discutidas anteriormente. Nenhum destes fármacos pode ser administrado por via oral, e, portanto, a administração geralmente é realizada subcutânea ou por infusão intravenosa. Dependendo dos fármacos, podem ser administrados a cada duas semanas ou mensalmente. A resposta clínica geralmente é observada duas semanas depois do início do tratamento, mas alguns pacientes podem não responder a esta terapia em razão de mecanismos ainda desconhecidos. Efeitos adversos Os principais efeitos adversos estão relacionados à precipitação de uma doença latente, como a tuberculose, ou ao surgimento de infecções oportunistas. Uso clínico dos fármacos antirreumáticos Um homem de 48 anos procura atendimento médico com queixas de rigidez bilateral matinal nos punhos e nos joelhos, além de dor nessas articulações em razão de exercício físico. Na avaliação física, observa- se discreta tumefação das articulações. O resto do exame é inespecífico. Os achados laboratoriais também são negativos, exceto pela presença de anemia discreta, elevação da velocidade de hemossedimentação e fator reumatoide positivo. Com o diagnóstico de artrite reumatoide, o paciente começa um esquema de naproxeno, em uma dose de 220mg, duas vezes ao dia. Depois de uma semana, aumenta-se a dose para 440mg duas vezes ao dia. Os sintomas diminuemcom essa dose, porém o paciente queixa-se de pirose (dor epigástrica) significativa, que não é controlada com antiácidos. O medicamento é, então, substituído por celecoxibe, em uma dose de 200mg, duas vezes ao dia. Com esse esquema, ocorre resolução dos sintomas articulares e da pirose. Dois anos depois, o paciente retorna com aumento dos sintomas articulares. Nesse momento, as mãos, os punhos, os cotovelos, os pés e os joelhos estão acometidos e inchados, quentes e dolorosos à palpação. Que opções terapêuticas podem ser utilizadas neste paciente? Resolução Esse paciente teve bom controle dos sintomas durante um ano. Todavia, no momento, está com exacerbação prolongada, indicando, provavelmente, agravamento da doença (e não apenas exacerbação temporária). Além dos achados físicos e da determinação dos reagentes de fase aguda, como velocidade de hemossedimentação ou proteína C reativa, seria aconselhável obter radiografias das mãos e dos pés para documentar a possível ocorrência de lesão articular. Pressupondo o achado dessa lesão, a conduta apropriada deve consistir em associação de FARMD não biológicos (p. ex., metotrexato, sulfassalazina e hidroxicloroquina) ou a adição de um medicamento biológico, habitualmente um inibidor do TNF. O acompanhamento deve ser feito entre 1 e 3 meses para avaliar a resposta e a toxicidade. Os efeitos colaterais que exigem cautela consistem em risco aumentado de infecção, possível aparecimento de linfoma e, raramente, anormalidades hematológicas ou das provas de função hepática. É importante ressaltar a necessidade de acompanhamento rigoroso, incluindo mudança das medicações a cada 3 a 6 meses, até a obtenção do controle total da doença. Agora, vamos comentar este caso no vídeo a seguir e aproveitar a discussão para explicar as características cinéticas e dinâmicas dos fármacos, além de suas indicações e cuidados. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 4 Um paciente foi diagnosticado recentemente com artrite reumatoide (AR) e iniciou tratamento com metotrexato. O médico explicou que esse fármaco é considerado a base do tratamento da AR. Sobre o metotrexato, é correto afirmar que ele A possui mecanismo de ação com base na inibição da síntese de prostaglandinas. B é administrado semanalmente e em baixas doses para minimizar efeitos adversos. C tem início de ação lento, geralmente após 6 meses de uso. D não apresenta efeitos adversos significativos, mesmo em uso crônico. E atua principalmente como um potente anti-inflamatório não esteroidal (AINE). A alternativa B está correta. O metotrexato é administrado uma vez por semana em doses baixas para reduzir efeitos adversos, como ulceração das mucosas e náuseas. Seu mecanismo de ação envolve a inibição da síntese de ácido fólico, não de prostaglandinas. Além disso, seu início de ação é relativamente rápido (3 a 6 semanas), e ele não é classificado como um AINE. Aplicando o conhecimento Neste vídeo, apresentamos um estudo de caso sobre o uso de anti-inflamatórios esteroidais e fármacos antirreumáticos para doenças reumáticas. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 3. Metabolismo e remodelamento ósseo Quais são os processos envolvidos? Neste vídeo, você vai identificar quais os cenários que disparam a necessidade de remodelamento ósseo e conhecer o papel dos osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Também entenderá a importância e o papel da ligação do RANKL e da OPG. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Todos sabemos que os ossos participam de diversas funções, além do suporte estrutural e da proteção aos órgãos internos, incluindo hematopoese e armazenamento de minerais, desempenhando um papel crítico na homeostasia mineral. Em primeiro lugar, precisamos entender que os ossos possuem estrutura dinâmica, ou seja, sofrem contínuo remodelamento durante toda a vida, devido à constante substituição do osso. O que seria o remodelamento? É um fino equilíbrio entre a reabsorção de determinadas partes ósseas e a formação de outras. Seu propósito é remover e substituir os ossos danificados, mantendo a homeostasia do cálcio. O esqueleto humano possui um componente orgânico presente em células especializadas responsáveis pelo remodelamento ósseo (osteoblastos, osteoclastos e osteócitos) ilustradas na imagem a seguir, além de uma matriz orgânica, denominada osteoide. Há também um componente inorgânico constituído basicamente pelo sal de fosfato de cálcio, a hidroxiapatita, e por outros íons, incluindo Na+, K+, Mg2+ e F-. Remodelamento ósseo. O processo de remodelagem óssea consiste em um equilíbrio entre a atividade catabólica dos osteoclastos e a atividade anabólica dos osteoblastos. São encontrados em todas as superfícies ósseas, incluindo o endósteo, que reveste o osso cortical, bem como nas várias superfícies do osso trabecular, onde o remodelamento ósseo é mais intenso. O ciclo de remodelagem tem início com o recrutamento e a diferenciação dos osteoclastos maduros, induzidos por citocinas e hormônios. Os osteoclastos maduros aderem a uma região do osso trabecular e promovem a secreção de íons hidrogênio e de enzimas proteolíticas, principalmente a catepsina K, responsáveis pela dissolução da hidroxiapatita, reabsorção de cálcio e a desmineralização da matriz óssea. Além disso, esse processo gradualmente libera citocinas, como o fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1) e o fator transformador de crescimento-β (TGF-β). As citocinas liberadas são responsáveis pela ativação e pelo acúmulo local dos osteoblastos, em substituição aos osteoclastos. Os osteoblastos, então, começam a sintetizar e secretar o osteoide, além dos fatores IGF-1 e o TGF-β. Confira o esquema a seguir! Ciclo de remodelagem óssea. Enquanto o osteoide é secretado, há a liberação da fosfatase alcalina, que hidrolisa ésteres de fosfato, incluindo o pirofosfato, o qual aumenta a concentração local de fosfato inorgânico. De forma conjunta, essas ações promovem a cristalização de sais de fosfato de cálcio e a mineralização da matriz óssea, essenciais para a resistência do osso. Ao mesmo tempo em que os osteoblastos continuam a depositar matriz óssea, alguns acabam envoltos e “presos” por ela e passam a ser chamados de osteócitos. Os osteócitos possuem papel importante no equilíbrio do remodelamento, secretando esclerostina, que reduz a formação óssea. É importante salientarmos que a ativação dos osteoclastos é dependente da ativação do ligante RANKL ao seu receptor RANK. De forma antagônica, os osteoblastos liberam a osteoprotegerina (OPG) – molécula idêntica ao RANK, que inibe esta ligação e a ativação dos osteoclastos. Atualmente, existem fármacos específicos que atuam nessa interação essencial para o equilíbrio no remodelamento ósseo. Formação de osteoclastos. A conversão dos precursores dos osteoclastos aos osteoclastos maduros é dependente da ligação do ligante RANKL (produzido pelos osteoblastos) ao seu receptor RANK presente em sua superfície. Após a ativação dos osteoclastos, há a indução da reabsorção da matriz óssea. A OPG, que também é produzida pelos osteoblastos, ligam-se ao RANKL, reduzindo a sua interação com o RANK e inibindo, assim, a diferenciação dos osteoclastos. O remodelamento ósseo consiste em um equilíbrio dinâmico entre a atividade catabólica dos osteoclastos (reabsorção óssea) e a atividade anabólica dos osteoblastos (produção da matriz óssea), como vimos na figura Remodelamento ósseo. A perda óssea é caracterizada quando a reabsorção excede a formação óssea. A regulação do remodelamento ósseo ocorre somente através destes dois componentes celulares? Não! Nos últimos anos, foi observado o envolvimento de várias citocinas, minerais ósseos e ações de várias substâncias, como o paratormônio (PTH), a vitamina D e o fator de crescimento dos fibroblastos 23 (FGF23) durante este processo. Estes hormônios interagem para regular o equilíbrio dos minerais ósseos