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História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 1 de 6 5º TEMA – O princípio da separação (e a limitação) dos Poderes e o Direito – *** O direito é UNO. →→→ Princípio da inafastabilidade da tutela (amparo) jurisdicional (território dentro do qual se exerce um poder). *** O direito NÃO É UMA CIÊNCIA EXATA. →→→ Princípio do livre convencimento motivado. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 2 de 6 * OBSERVAÇÃO: - Ministério Público (não é Poder Institucional) - Imprensa (não é Poder Institucional) História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 3 de 6 TEORIA DA SEPARAÇÃO DOS PODERES → A “Teoria da Separação dos Poderes”, desenvolvida por Montesquieu (1689-1755), prevê a autonomia dos Poderes como um pressuposto de validade para o Estado Democrático (art. 1º, CF/88). → A teoria da separação dos Poderes, segundo a qual o Estado, para impedir a concentração da autoridade em uma só pessoa ou assembleia, dando azo ao despotismo, deveria exercer suas três funções clássicas, a legislativa (= legislar), administrativa (= administrar) e judiciária (= julgar), por meio de órgãos distintos, que se controlariam reciprocamente. →→→ Quando o filósofo francês Montesquieu elaborou esse conceito, no século 18, o objetivo era conter o absolutismo e eliminar a possibilidade de que qualquer agente ou instituição acumulasse poder e extrapolasse seu uso. → Atualmente, a fórmula é seguida por todas as democracias liberais do mundo. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 4 de 6 ORGANOGRAMA DA JUSTIÇA (Poder Judiciário) »»» Estrutura do Poder Judiciário. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 5 de 6 História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 6 de 6 »»» A atuação do Ministério Público junto ao Poder Judiciário. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 1 de 3 4º TEMA – O princípio (instituto jurídico) da segurança jurídica e as decisões judiciais diversas para uma mesma lide processual – »»» DEMONSTRAÇÃO: decisões divergentes para um mesmo caso processual. » ANO: 2014 » AUTORA: Cliente (Ana Paula) » RÉ: Telefonia / Administradora de Cartão de Crédito * Processo nº. 0001653-12.2014.8.26.0369 (1ª Vara Cível). * Processo nº. 0001654-12.2014.8.26.0369 (2ª Vara Cível). →→→ OBJETO DA DEMANDA JUDICIAL (“qual é a questão jurídica”): qual o prazo prescricional? * PRESCRIÇÃO: Perda da ação atribuída a um direito, que fica assim juridicamente desprotegido, em consequência do não uso dela durante determinado tempo. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 2 de 3 *** IMPORTANTE: - Data do conhecimento do fato: 14.07.2010. - Data do ajuizamento da ação judicial: 16.05.2014. *** RESUMO: - Art. 206, § 3º, V, CC (prescrição: 03 anos) »»» IMPROCEDENTE. - Art. 27, CDC (prescrição: 05 anos) »»» PROCEDENTE. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 3 de 3 Perg. Por que o princípio da segurança jurídica é importante? Resp. Para a preservação da estabilidade das relações jurídica e, principalmente, para a manutenção da democracia. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 1 de 6 3º TEMA – O princípio da legalidade e a Magna Carta (1215) – *** FUNDAMENTO JURÍDICO: Art. 5º, II, CF/88. »»» Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; *** FUNDAMENTO JURÍDICO: Art. 37, caput, CF/88. »»» Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 2 de 6 História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 3 de 6 →→→ CARACTERÍSTICAS: * Princípio constitucional. * Princípio geral. * Princípio explícito. »»» Dirige-se ao Poder Público (os três Poderes devem agir dentro da lei) e aos particulares (povo). História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 4 de 6 →→→ PRINCÍPIO DA LEGALIDADE: 1) O que significa legalidade? Resp. Característica, particularidade ou estado do que é legal; que está em conformidade com a lei; legitimidade. Que está de acordo com o direito; que se encontra em conformidade com a lei; juridicidade. 2) O que é o princípio da legalidade para o Direito? Resp. 3) Como o princípio da legalidade é aplicado no Direito? Resp. »»» RESUMO: → Esse princípio protege a todos, pois ele traz limites à atuação do Poder Público a fim de coibir abusos, sendo uma garantia constitucional contra o arbítrio do Estado. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 5 de 6 →→→ O DIREITO: » Nos Estados Modernos, a ordem jurídica costuma organizar-se com base em um texto normativo (= LEI) de hierarquia superior (norma fundamental), que para HANS KELSEN (jurista e filósofo austríaco) é denominado Constituição do Estado. »»» “TEORIA PURA DO DIREITO”. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 6 de 6 →→→ MAGNA CARTA: → A “Carta Grande” foi publicada em 1215 na Inglaterra. → Em latim - Magna Charta Libertatum. →→→ Principais preceitos que a Magna Carta legou ao mundo: A legalidade processual. O princípio de que ninguém está acima da lei. → É preciso reforçar e frisar que o essencial da Magna Carta é a ideia de que a lei está acima de tudo e de todos. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 1 de 14 MATERIAL DE APOIO TEMA – A condenação criminal em decorrência do julgamento após o duplo grau de jurisdição (prisão após decisão de segunda instância) – » FUNDAMENTO LEGAL: →→→ CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; (...) » FUNDAMENTO LEGAL: →→→ CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de prisão cautelar ouem virtude de condenação criminal transitada em julgado (Redação dada pela Lei nº. 13.964, de 2019). História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 2 de 14 ORGANOGRAMA DO PODER JUDICIÁRIO História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 3 de 14 → Acórdão [voto] - (“4ª instância”). »»» MINISTRO [Supremo Tribunal Federal – STF]. → Acórdão [voto] - (“3ª instância”). »»» MINISTRO [Superior Tribunal de Justiça – STJ]. → Acórdão [voto] - (2ª instância). »»» DESEMBARGADOR [Tribunal de Justiça de São Paulo]. = condenação → prisão em 2ª instância → Sentença (1ª instância). »»» JUIZ DE DIREITO [Comarca de Monte Aprazível-SP]. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 4 de 14 ENTENDENDO O CASO JURÍDICO: Da Constituição Federal de 1988 até fevereiro de 2009. → Cada juiz decidia se o condenado ia esperar os julgamentos dos recursos na prisão ou em liberdade. * OBSERVAÇÃO: Não existia uma regra definitiva. »»» PLACAR DO JULGAMENTO: 07 (contra a prisão) X 04 (a favor da prisão), a execução da pena ficou condicionada ao trânsito em julgado (quando não cabe mais recurso). A partir de fevereiro de 2009 até fevereiro de 2016. → A prisão só se efetivava depois de esgotados todos os recursos da defesa [HC 84.078]. »»» PLACAR DO JULGAMENTO: 04 (a favor da prisão) X 07 (contra). História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 5 de 14 A partir de fevereiro de 2016 até novembro de 2019. → Pelo cumprimento da pena logo depois da condenação em 2ª instância, sob o argumento de que a regra anterior levava à impunidade. »»» PLACAR DO JULGAMENTO: 06 (a favor da prisão) X 05 (contra). * OBSERVAÇÃO: Em outubro de 2016, o STF decidiu, por estreita maioria de 6 votos a 5, que o cumprimento da pena poderia começar a partir de 2ª instância (depois da segunda condenação), portanto, poderiam executar a pena mesmo quando o condenado ainda puder recorrer. → Em outras palavras, condenados em dois níveis já podem ir à cadeia → PRISÃO APÓS DECISÃO DE 2ª INSTÂNCIA (antes do trânsito em julgado), portanto, é possível a prisão antes da condenação definitiva. A partir de novembro de 2019 até os dias atuais. » Em novembro de 2019, o STF mudou sua jurisprudência e definiu que os réus têm direito a aguardar o fim do processo em liberdade, ou seja, somente com o trânsito em julgado, quando não cabem mais recursos, é que cabe a prisão. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 6 de 14 EXPRESSÃO JURÍDICA – “trânsito em julgado” Perg. O que significa trânsito em julgado? Resp. Transitar em julgado é a expressão utilizada para designar a decisão (sentença ou acórdão) da qual não cabe mais recurso, seja porque já passou por todos os recursos possíveis, seja porque esgotado o prazo para recorrer. → Fundamento legal (fundamento jurídico): art. 508 do CPC/2015. Art. 508. Transitada em julgado a decisão de mérito, considerar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento quanto à rejeição do pedido. Transitar em julgado Expressão utilizada para designar a decisão (sentença ou acórdão) da qual não cabe mais recurso, seja porque já passou por todos os recursos possíveis, seja porque esgotado o prazo para recorrer. Fundamentação legal: artigo 508 do CPC/2015. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 7 de 14 TEXTO COMPLEMENTAR1 PERGUNTA. É correta a decisão do STF de autorizar prisão após julgamento de 2ª instância? RESPOSTA. SIM. Freio na impunidade. Finalmente o Supremo Tribunal Federal, ainda que de forma um pouco acanhada, resgatou a Justiça brasileira, diminuindo a impunidade e, consequentemente, a criminalidade, aproximando o Brasil das nações mais desenvolvidas. Isso porque a retrógrada e injustificável tese de que o réu condenado só poderia ser preso após o trânsito em julgado da sentença penal foi sepultada em 17 de fevereiro, em memorável e histórica sessão plenária da Suprema Corte brasileira. No julgamento do habeas corpus nº 126.292, ficou decidido que o réu condenado em primeira instância, e confirmada a condenação em grau de recurso pelo respectivo Tribunal de Justiça ou Tribunal Regional Federal, conforme o caso, não precisa mais aguardar o julgamento de eventuais recursos junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) e ao STF (Supremo Tribunal Federal) para que seja recolhido à prisão. Importante assinalar que o disposto na Constituição Federal, ao estabelecer no art. 5º “que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”, estava sendo interpretado errônea e injustificavelmente, impedindo a expedição, por anos, de mandado de prisão para o réu já condenado pelas instâncias ordinárias. 1 Publicado no Jornal “Folha de São Paulo” do dia 27 de fevereiro de 2016, no Caderno Opinião, na seção Tendências/Debates. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 8 de 14 A defesa recorria quase que indefinidamente ao STJ e ao STF, muitas vezes com propósito protelatório. Em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Itália, entre outros, apesar de existir na legislação a presunção de inocência, não há qualquer empecilho para que o réu possa desde logo ser preso –em alguns casos, no máximo depois da sentença final proferida pelo juiz de primeiro grau. Isso ocorre independentemente da confirmação da sentença pela instância recursal, desde que haja prova suficiente para afastar a relativa e sempre mencionada presunção de inocência, como aliás prevê a Convenção Americana de Direitos Humanos, conhecida como Pacto de São José da Costa Rica. A convenção, da qual o Brasil é signatário sem quaisquer reservas, estabelece expressamente que a presunção de inocência deve ter valor até que seja comprovada a culpa do acusado. Assim, o princípio previsto na nossa Constituição Federal, que presume o réu inocente até o trânsito em julgado, pode e deve ser relativizado. A já referida convenção determina que a presunção de inocência prevalecerá enquanto não for legalmente provada a culpa. Comprovada a prática criminosa, impõe-se de imediato o recolhimento do réu ao cárcere, ainda que não estejam presentes os motivos para a decretação da prisão preventiva, nos termos do artigo 312 do Código de Processo Penal. Desse modo, quando proferir uma sentença condenatória à prisão, o magistrado deverá recolher o réu ao cárcere, independentemente do julgamento de qualquer recurso, sem risco de ter cometido algum tipo de injustiça. Isso porque, nos recursos, o tribunal não apreciará o fato, mas sim matéria de direito e de legalidade, que poderá desafiar habeas corpus. Se for o caso, o réu será colocado imediatamente em liberdade. * FÁBIO UCHÔA, é juiz titular do Primeiro Tribunal do Júri da cidade do Rio de Janeiro. PERGUNTA. É correta a decisão do STF de autorizar prisão após julgamento de 2ª instância? História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 9 de 14 RESPOSTA. NÃO. Supremo restringiu a Constituição. “Enquanto as sombras assumem formas, combato, retirando-me lentamente” - Charles Bukowski. O Brasil possui atualmente quase 498 mil mandados de prisão sem cumprimento. O ineficiente Estado brasileiro, que não consegue cumpriresses mandados, prenderá, a partir da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), indivíduos sem culpa formada, tecnicamente inocentes. O principal jurista do último século dedicado a enfraquecer os efeitos processuais do princípio da presunção de inocência foi o italiano Vincenzo Manzini, homem de confiança de Mussolini, o braço jurídico do regime. Nessa ideologia, as garantias processuais dos acusados não devem situar-se no mesmo plano da função estatal de exercer o poder de punir. Ao permitir que a pena possa ser executada antes do trânsito em julgado, o STF decidiu ir além. Rasgou o texto expresso da Constituição, que vincula expressamente a presunção de inocência ao trânsito em julgado. Essa cláusula pétrea só poderia ser alterada por meio de emenda constitucional. O Supremo pode muito, mas não pode tudo. Tal artigo tem a mesma importância política, idêntica hierarquia e densidade normativa das normas que asseguram a liberdade de imprensa, de associação, de crença e de outros direitos e garantias fundamentais. A partir dessa decisão, o Supremo poderá “legislar” sobre qualquer assunto e afastar a liberdade de expressão ou qualquer outro direito que julgávamos assegurado pela Carta Magna. Na verdade, o Supremo restringiu o alcance normativo da Constituição, reduzindo a carga de eficácia de um dos mais importantes direitos fundamentais. A Constituição da República ficou menor. Sacrificaram a liberdade. Seguindo essa lógica, amanhã podem ser anulados os direitos sociais. E até mesmo a tortura pode ser legalizada, pois nos EUA, exemplo máximo dos que defenderam a decisão do STF, o afogamento e os interrogatórios forçados vêm sendo admitidos e defendidos. O caso faz lembrar as palavras do professor italiano Giuseppe Bettiol. “O nazismo menosprezou o interesse do acusado e eliminou toda uma série de História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 10 de 14 disposições que serviam a sua tutela. Os modos e os termos de defesa foram atenuados; limitadas as possibilidades de recurso; admitida a executoriedade das decisões do magistrado, mesmo antes do caso julgado”, afirmou ele. O STF deu um passo para aproximar-se das feições mais características do processo penal alemão da década de 1930. Alardeia-se que tal passo foi feito para punir os poderosos, que se aproveitam de um número excessivo de recursos. Todavia, os recursos disponíveis no processo penal servem para todo e qualquer cidadão. Se o Judiciário é ineficiente, que se aparelhe melhor seu poder. Se existem recursos em excesso, que se mude a legislação. É um engodo pensar que a supressão desse direito vai atingir os mais poderosos. Eles ainda terão advogados para tentar medidas excepcionais de suspensão da eficácia imediata da prisão. Talvez 15 ou 20 condenados na Operação Lava Jato, pano de fundo real dessa triste decisão, poderão ir mais cedo para o cárcere. No entanto, a grande massa dos réus desassistidos, sem advogados, é que sofrerá a força desse retrocesso. Teremos milhares de pessoas simples, sem acesso a uma defesa técnica de qualidade, jogados dentro do nosso sistema carcerário desumano. E se, após a prisão, o cidadão for absolvido pelas cortes superiores, nada devolverá a ele o tempo de liberdade suprimido. Lembremo-nos de Augusto dos Anjos: “Acostuma-te à lama que te espera!/ O Homem, que, nesta terra miserável/ Mora, entre feras, sente inevitável/ Necessidade de também ser fera”. * ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, é advogado criminalista. * JULIANO BREDA, é advogado criminalista, foi presidente da OAB do Paraná (2013-2015). História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 11 de 14 TEXTO COMPLEMENTAR2 PERGUNTA. A prisão após a condenação em 2ª instância está correta? RESPOSTA. SIM. Pela credibilidade do sistema de Justiça. Até bem pouco tempo, o Brasil era conhecido, inclusive em âmbito internacional, por ter um sistema penal em que autores de crimes ou eram punidos de modo tardio (anos após a prática do delito) ou simplesmente não eram punidos (pela ocorrência da prescrição). O modelo que levava a essa disfunção era simples e resultava da combinação de dois fatores: a exigência de se aguardar o trânsito em julgado da condenação para a execução do acórdão e o sistema de múltiplos recursos, que permite a protelação do trânsito em julgado da decisão por tempo quase infinito, a depender da disposição da defesa em recorrer. A sensação de impunidade e a descrença na Justiça nutriam-se desse modelo. Em dezembro de 2016, graças ao Supremo Tribunal Federal, esse cenário finalmente teve uma relevante mudança. No julgamento do Recurso Extraordinário com Agravo n. 964.246/SP, em que foi reconhecida a repercussão geral do tema, a corte consolidou um entendimento que já havia adotado naquele mesmo ano, o de que “a execução provisória de acórdão penal condenatório proferido em grau recursal, ainda que sujeito a recurso especial ou extraordinário, não compromete o princípio constitucional da presunção de inocência afirmado pelo artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal”. 2 Publicado no Jornal “Folha de São Paulo” do dia 04 de abril de 2018, no Caderno Opinião, na seção Tendências/Debates. História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 12 de 14 O novo precedente colocou o Brasil ao lado das principais e mais maduras democracias do mundo, como a dos EUA, da Alemanha, da Itália e da França, países de evidente tradição no reconhecimento de direitos fundamentais dos cidadãos, que acolhem o princípio da presunção de inocência e admitem a execução provisória da pena de prisão. O princípio da presunção de inocência é uma garantia pessoal importante em todos os países. No entanto, apenas no Brasil o Poder Judiciário entendia que só se poderia executar uma sentença após quatro instâncias judiciais confirmarem a condenação. Trata-se de um exagero revisional que aniquila o sistema de Justiça, porque a Justiça tarda e, por isso, falha. O que a Constituição garante é o duplo grau de jurisdição para assegurar a correção de erros eventuais. Garante também segurança jurídica e eficiência, que inexistem em um sistema em que o processo não termina ou só termina quando está prescrito. A revisão de fatos e provas só ocorre até o segundo grau de jurisdição. Ali é que são apresentadas as provas e os depoimentos das testemunhas. Por isso, a Constituição garante o reexame judicial: para corrigir erros sobre as provas da culpa do condenado. Acima dessa fase, a discussão é meramente de teses jurídicas, principalmente sobre o tamanho da pena, seu regime de cumprimento e eventual erro processual. Alguns ministros do STF deixaram de observar o precedente, proferindo decisões monocráticas fundadas em suas convicções individuais de que a execução provisória da pena ofende o princípio da presunção de inocência previsto art. 5º LVII da Constituição. Finalmente, em 22 de março, foi levado a julgamento o Habeas Corpus nº 152.752, impetrado em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A tentativa é assegurar que ele responda ao processo em liberdade até o trânsito em julgado de eventual decisão penal condenatória. O julgamento do HC 152.752 põe à prova o precedente vinculante, que é o principal avanço na sequência de mudanças rumo a uma maior efetividade do sistema penal brasileiro. Mas não é só a efetividade do sistema que poderá ruir. A segurança jurídica e a própria confiança da população na estabilidade e coerência das decisões da Suprema Corte estão em risco. Não há dúvida de que a jurisprudência das cortes superiores pode ser revista, já que um sistema de precedentes vinculantes engessado e imutável estariafadado à falência por se tornar obsoleto. Mas essa revisão deve ser feita quando o História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 13 de 14 precedente já não mais corresponder à lei e ao sentimento de justiça da sociedade. Nesse contexto, é necessário afirmar que o precedente vinculante do ARE n. 964246 não perdeu sua congruência social, nem se tornou injusto. Ainda corresponde ao sentimento de justiça do cidadão comum. Esse precedente vinculante expressa a melhor interpretação do princípio da presunção de inocência, de modo coerente com a segurança jurídica que se espera do sistema penal. * RAQUEL DODGE, mestre em Direito pela Harvard (EUA) e procuradora-geral da República. PERGUNTA. A prisão após a condenação em 2ª instância está correta? RESPOSTA. NÃO. Uma dose de racionalidade. A execução provisória da pena virou assunto nacional. Seja por afetar diretamente a situação jurídica do ex-presidente Lula, seja pelas idas e vindas do Supremo Tribunal Federal, conferindo um ar novelesco ao tema, o país se divide entre os prós e contras, em discussões muitas vezes por demais apaixonadas. Mas há um ponto que parece perdido nesse debate: o texto da Constituição e da lei. Seja qual for a vontade e a intenção de juízes, advogados, promotores ou da sociedade em geral, a análise da letra da lei é essencial, pois é o marco do qual não devemos nos afastar se quisermos manter um Estado de Direito, em que as normas são mais relevantes que vontades ou impulsos. A Constituição diz que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória. O Código de Processo Penal expressa que ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito, por prisão preventiva ou temporária; ou por sentença condenatória definitiva, sem possibilidade de recursos. Assim, fica claro que só há prisão quando o agente é flagrado na prática do crime ou quando atrapalha o andamento do processo, ameaçando testemunhas, repetindo a prática criminosa, ou dando indícios de fuga. Fora disso, História do Direito e das Instituições Jurídicas Professor MASCARO Página 14 de 14 a restrição de liberdade exige decisão transitada em julgado, irrecorrível, depois de esgotados todos os recursos. Essa previsão expressa do CPP não é antiga. Foi aprovada em 2011, com base em proposta subscrita por respeitados juristas, como Ada Pellegrini Grinover, cuja exposição de motivos dizia: “Nessa linha, as principais alterações com a reforma projetada são: (...) d) impossibilidade de, antes da sentença condenatória transitada em julgado, haver prisão que não seja de natureza cautelar”. Há quem diga —e muitos o fazem— que tal previsão legal é inadequada porque cria um sistema de quatro instâncias, moroso, que se bem manejado por advogados experientes levará sempre à prescrição. Em primeiro lugar, isso não é verdade. Há filtros que dificultam o uso das quatro instâncias, como, por exemplo, a necessidade de demonstrar a repercussão geral do caso para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Não é qualquer questão que chega ao Supremo, apenas aquelas que os próprios ministros entendem como relevantes. Em segundo lugar, a prescrição não é corriqueira. Uma reforma legislativa feita em 2010 dificultou sua ocorrência, tornou mais largos seus prazos. Um caso de corrupção, por exemplo, leva décadas para prescrever, dando ao poder público tempo para julgar processos sem que a punibilidade seja extinta. Mas, ainda que se insista que existem recursos e prescrição de mais, é um problema da lei. Poderia o legislador restringir as hipóteses de recursos nos tribunais superiores e no STF, ampliar seus requisitos, dificultar sua interposição, fazendo com que se antecipe o encerramento definitivo do processo. De qualquer forma, o lugar para discutir tais questões é o Poder Legislativo, não o STF. Se há uma lei que veda a prisão antes do trânsito em julgado, e ela não foi declarada inconstitucional, deve ser respeitada ou modificada pelo Congresso. Por mais bem-intencionada que a Suprema Corte seja, ela não tem legitimidade para regular assunto que já foi tratado pelo parlamento. O Congresso é a fonte primária da lei. Gostemos ou não de nossos parlamentares, eles são eleitos, passam pelo crivo popular e têm legitimidade para definir as normas e regras processuais. Deixar de lado o princípio da legalidade por qualquer razão é um perigoso precedente. * PIERPAOLO CRUZ BOTTINI, advogado e professor de direito penal da USP.