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MESTRADO EM RESOLUÇÃO DE CONFLITOS E MEDIAÇÃO DD100 – Resolução/Transformação de conflitos no âmbito escolar ATIVIDADE – CASO PRÁTICO / RESPOSTAS Um caso de Bullying no ônibus escolar 01- Você acredita que esse é um caso de bullying? Justifique sua resposta. Sim, com base no texto fornecido, o caso de Alazne configura-se claramente como um caso clássico de bullying. O sofrimento gerado pela vitimização crônica transborda o ambiente do ônibus e afeta a saúde mental e o desempenho acadêmico da criança. Isso fica comprovado pelo fato de Alazne demonstrar "medo quando está no ônibus", recusar-se a usar o transporte, apresentar-se "triste" e demonstrar "problemas para se concentrar na aula". De acordo com a literatura científica e as definições clássicas da psicologia escolar, o bullying é caracterizado como uma forma de agressão intencional, repetitiva, que ocorre sem motivação evidente e que se baseia em uma assimetria de poder entre o agressor e a vítima (Olweus, 1993). No caso de Alazne, todos os critérios teóricos e legais para a configuração do fenômeno estão presentes: - Intencionalidade e Repetição: A agressão não é um fato isolado; Alazne vem se sentindo apática há várias semanas e relata que os alunos a incomodam "sempre". Há uma intenção clara de humilhar e ferir a criança. O texto evidencia agressões de natureza verbal, psicológica e física, uma vez que o estudante "sempre mexe com ela, ri dela, insulta e até puxou o seu cabelo". - Assimetria de Poder: Há uma disparidade evidente de forças, tanto etária quanto de desenvolvimento, visto que Alazne é uma criança de apenas 5 anos sendo hostilizada por alunos da 6ª série (adolescentes/pré-adolescentes), o que gera uma vulnerabilidade física e cognitiva extrema para a menina. - Tipos de Violência: O relato aponta violência verbal (insultos, risadas de escárnio) e violência física direcionada (puxões de cabelo). - Presença de Espectadores Passivos: O texto narra que as outras crianças "observam o que acontece (...), mas ninguém faz nada, apenas observam e até ocasionalmente riem dos insultos". Os demais estudantes do ônibus atuam como testemunhas que, ao se calarem ou rirem da situação, validam e reforçam o comportamento do agressor, perpetuando o ciclo de isolamento da vítima, deixando Alazne sem qualquer rede de apoio social entre os demais alunos. ANÁLISE DO CONFLITO Protagonistas Posições Interesses de cada parte Necessidades de cada uma das partes Estilo de enfrentamento do conflito Maan (melhor alternativa de acordo negociado) Poder Alazne Vítima Que termine a agressão, que o grupo da 6ª série deixe de incomodar ela Pare de se sentir fraca diante dos outros, seja mais sociável e tenha mais e melhores relacionamentos com seus colegas Passivo, ela não enfrenta o perseguidor, mas conversa com sua mãe e conta o que aconteceu Intervir no processo de mediação como vítima, atendendo às suas necessidades para interromper a situação de assédio e mudar de lugar no ônibus Passivo Ana Mãe, protetora e a reclamante do caso Que troque o assento da filha para a frente do ônibus e cesse o sofrimento dela imediatamente Garantir a segurança física e o bem-estar emocional da filha; tem o direito de sentir-se ouvida e respaldada pela instituição de ensino Competitiva/ativa, direciona a demanda diretamente às autoridades escolares, exigindo providências Estabelecer um canal de parceria com a escola que resulte em um plano de segurança monitorado para Alazne no transporte Intermediário Tutora Mediadora Institucional/ avaliadora para resolver a situação Que se resolva a situação sem gerar novos atritos, ou seja, “fazer todas as partes felizes” Manter a ordem escolar; imparcialidade justa, diagnosticar se há superproteção parental e desenhar uma intervenção pedagógica que desenvolva a autonomia de Alazne Evasivo/Evitativo, reconhece a complexidade do caso,rotula a mãe de superprotetora e adia decisões Coordenar uma reunião de conciliação e desenhar um projeto de conscientização contra o bullying que envolva o transporte escolar. Intermediário/alto Aluno agressor (6ª série) Atacante direto/ perseguidor Que seja mantido seu status de poder, diversão ou domínio no transporte escolar, como exemplo a humilhação de Alazne Autoafirmação social ou validação perante os colegas, através da demonstração de força e intimidação de alguém mais fraco Agressivo/ Confrontador, usa de insultos, risos e agressão física Cessar os atos de hostilidade mediante sanção disciplinar clara e retratação, incluí-lo em dinâmicas/trabalhos de empatia Alto (físico e social perante a vítima) 02- Preencha a tabela a seguir, seguindo o exemplo mostrado para isso: 03- Que estratégia de resolução/transformação de conflitos você aplicaria neste caso? É necessário descrever a estratégia escolhida em detalhes: definição das fases, participantes, objetivos, etc. A estratégia mais adequada para este cenário é a Mediação Escolar com Abordagem Restaurativa e Sistêmica. O objetivo não deve ser apenas punir o agressor, mas transformar as relações, integrar Alazne e conscientizar o coletivo envolvido no transporte escolar. Definição das Fases da Estratégia: - Fase de Pré-Mediação (Escuta Ativa Individual): A tutora realizará reuniões privadas separadas com a mãe (Ana), com a monitora do ônibus e com o aluno agressor (acompanhado de seus respectivos responsáveis), coletando percepções e preparando os participantes para uma abordagem de responsabilização. - Fase de Intervenção Imediata (Garantia de Segurança): Alinhamento com a monitora para a realocação emergencial de Alazne para os bancos dianteiros, quebrando a proximidade física com os agressores e garantindo o direito básico da criança de frequentar a escola sem medo. - Fase de Círculo Restaurativo (Resolução Coletiva): Reunião conduzida pela tutora com o grupo do ônibus da 6ª série para debater empatia, o impacto do silêncio cúmplice perante as agressões e a importância do acolhimento aos alunos mais novos. O agressor deve ser confrontado com o impacto de suas ações e levado a assumir o compromisso de não repetição. - Fase de Acompanhamento e Desenvolvimento: Oferecer suporte psicológico ou pedagógico para Alazne na escola, estimulando sua sociabilidade com crianças da sua própria idade, monitorando sua adaptação nas semanas seguintes. Participantes: Alazne e sua mãe (Ana); a tutora da escola (como facilitadora do processo); a monitora do ônibus escolar; o estudante agressor e os espectadores da 6ª série. Objetivos: - Cessar imediatamente a violência e garantir a integridade de Alazne; - Sensibilizar e responsabilizar o agressor e o grupo do ônibus, transformando a passividade das testemunhas em uma rede de apoio; - Alinhar as expectativas da mãe com a escola, desfazendo a percepção de "superproteção" e focando na vulnerabilidade real da criança. 04- Sabemos que o bullying é um problema que sempre existiu, apesar do fato de que nos últimos anos houve um aumento considerável no número de casos de bullying que ocorrem nas escolas. Por esse motivo, quais são as principais razões/falhas que você considera e que explicariam por que o número de casos de bullying continua a aumentar nas escolas? O aumento visível e a persistência dos casos de bullying nas instituições de ensino contemporâneas resultam de uma combinação de transformações sociais, tecnológicas e de lacunas estruturais no próprio ambiente escolar. Embora o fenômeno seja antigo, a complexidade com que se manifesta hoje expõe falhas sistêmicas na prevenção e na intervenção. Eis as principais razões e falhas estruturais que podemos citar e que explicam esse crescimento: - Naturalização e Minimização Institucional: O erro mais frequente é tratar a violência repetitiva como "brincadeira de criança" ou "conflito normal da idade". Como visto no posicionamento inicial da tutora ao rotular a mãe como "superprotetora", há uma tendência em culpar a sensibilidade da vítimaou da família antes de investigar a gravidade do fato. Muitas vezes, os profissionais da educação tendem a minimizar as primeiras manifestações de violência verbal ou exclusão social (Olweus, 1993). - Passividade das Testemunhas e Falta de Engajamento Coletivo: O bullying se alimenta do público. As escolas frequentemente focam suas ações apenas no binômio "agressor-vítima", esquecendo-se de trabalhar os espectadores (como os alunos da 6ª série que apenas observavam e riam). Sem a conscientização do grupo, o ambiente continua permissivo. O bullying não é um fenômeno de duas vias (apenas entre agressor e vítima); ele se consolida como um processo social dinâmico focado no grupo (Salmivalli, 2010). - Ausência de Preparo Prático do Corpo Docente e de Apoio: Monitores de transporte, inspetores de pátio e professores muitas vezes não possuem treinamento específico para identificar os sinais sutis de isolamento e assédio, ou são sobrecarregados com demandas burocráticas, impossibilitando uma supervisão ativa. - Ampliação do Universo de Assédio (Cyberbullying): Atualmente, as hostilidades iniciadas no ambiente físico escolar expandem-se instantaneamente para as redes sociais e aplicativos de mensagens, operando em um fluxo contínuo de 24 horas por dia que a escola e as famílias encontram severas dificuldades para rastrear e conter. Com a popularização dos smartphones e redes sociais, a agressão tornou-se perene, através do cyberbullying (Ttofi & Farrington, 2011). - Falta de Abordagens Restaurativas (Foco puramente punitivo): A aplicação exclusiva de punições tradicionais (como suspensões ou advertências) tende a gerar ressentimento no agressor sem gerar empatia real ou aprendizado. Sem tratar as causas profundas do comportamento agressivo, o ciclo de violência apenas muda de alvo ou de local. 05- Que recomendações você faria às escolas em relação à prevenção do bullying? Para prevenir o bullying de forma eficaz, as escolas devem abandonar abordagens puramente reativas (que só agem após a agressão acontecer) e adotar um modelo sistêmico e institucional de prevenção, ou seja, essa prevenção e combate precisa de uma abordagem estrutural, contínua e que envolva TODA A COMUNIDADE ESCOLAR – direção, professores, funcionários, alunos e famílias. Não existem soluções mágicas de curto prazo, mas sim, a construção diária de uma cultura de respeito. Entre as recomendações estratégicas para as escolas, podemos citar: - implementar um programa de convivência ética ( e não apenas focar na punição); - capacitação contínua da equipe escolar; -fortalecimento da saúde emocional e empatia; - criação de canais de denúncia seguros e anônimos; - e monitoramento dos espaços de riscos. Se as escolas passarem a inserirem de forma transversal no currículo o desenvolvimento de competências como autorregulação, empatia, assertividade e tomada de decisão responsável, pouco a pouco, os discentes irão compreender que indivíduos com alta inteligência emocional, não precisam rebaixar os outros para se sentirem validados. Referências · Olweus, D. (1993). Bullying at school: What we know and what we can do. Blackwell Publishing. · Salmivalli, C. (2010). Bullying and the peer group: A review. Aggression and Violent Behavior, 15(2), 112–120. doi.org · Ttofi, M. M., & Farrington, D. P. (2011). Effectiveness of school-based programs to reduce bullying: A systematic and meta-analytic review. Journal of Experimental Criminology, 7(1), 27–56. doi.org