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CEFALEIAS P R O F . V I C T O R F I O R I N I Estratégia MED Prof. Victor Fiorini | Cefaleias 2NEUROLOGIA APRESENTAÇÃO PROF. VICTOR FIORINI Seja muito bem-vindo(a) ao módulo de Cefaleias do Estratégia MED! Esse é um dos assuntos da Neurologia mais presente em provas, correspondendo a 10% das questões da área. Os principais temas são frequentemente os mesmos e serão abordados de uma maneira direta, clara e de fácil compreensão. Este material foi escrito com base na engenharia reversa. Foram analisadas cerca de 200 questões dos últimos anos de provas de Residência de todo Brasil. No entanto, algumas bancas cobram critérios diagnósticos das principais causas de cefaleia, exigindo que sejam memorizados e vamos auxiliá-lo(a) com isso. Fique de olho em nossas tabelas e figuras! Em relação aos tratamentos, peço atenção especial quando forem responder às questões, pois existem duas modalidades: sintomática e profilática. Muitas vezes, o examinador tenta confundir nossa cabeça, perguntando uma delas e colocando opções para as duas formas de tratamento nas alternativas. Existem várias questões assim. Você que estuda pelo material do Estratégia MED tem tudo para, ao final deste capítulo, estar preparado(a) para resolver as questões sobre o assunto, sem dificuldades. Estratégia MED Prof. Victor Fiorini | Cefaleias 3NEUROLOGIA Outro ponto muito comum em provas de Residência é a investigação de causas secundárias de cefaleia. Nesse momento, chamaremos a atenção para o pseudotumor cerebral e seu diferencial com trombose venosa cerebral, a arterite temporal (de células gigantes) e a cefaleia crônica diária, cuja causa mais comum é o uso frequente de analgésicos. Além dessas, e reservei uma pausa propositalmente, temos a temida cefaleia súbita, que pode ser uma manifestação de hemorragia subaracnóidea (HSA), um tema clássico das provas de Residência. Bons estudos! Veja na figura abaixo a distribuição das questões: Sinais de alerta Enxaqueca: profilaxia Cefaleia tensional Enxaqueca: clínica Cefaleia em salvas Enxaqueca: tratamento sintomá�co Outras cefaleias primárias Cefaleias secundárias Neuralgia do trigêmeo 6% 16% 6% 15% 10% 13% 2% 27% 5% CEFALEIAS @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed @estrategiamed https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed https://t.me/estrategiamed https://www.tiktok.com/@estrategiamed Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 4 SUMÁRIO 1.0 ABORDAGEM INICIAL 6 1.1 . INTRODUÇÃO 6 1.2. CLASSIFICAÇÃO 6 1.3. ANAMNESE 8 1.3.1. CARACTERÍSTICAS DA DOR 8 1.3.2. FATORES DESENCADEANTES 10 1.3.3. FENÔMENOS ACOMPANHANTES 10 1.3.4. FATORES DE RISCO 10 1.3.5. FATORES DE MELHORA E DE PIORA DA DOR 11 1.4. EXAME FÍSICO 12 1.5. SINAIS DE ALARME NAS CEFALEIAS 13 1.6. RESUMO DA ANAMNESE NO PACIENTE COM CEFALEIA 18 2.0 CEFALEIAS PRIMÁRIAS 18 2.1. ENXAQUECA (MIGRÂNEA) 19 2.1.1. FISIOPATOLOGIA 19 2.1.2. PRÓDROMO E AURA DE ENXAQUECA 21 2.1.3. CARACTERÍSTICAS DA DOR NA MIGRÂNEA 24 2.1.4. COMPLICAÇÕES DA ENXAQUECA 27 2.1.5. FATORES AGRAVANTES E DESENCADEANTES 27 2.1.6. TRATAMENTO 28 2.1.6.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 28 2.1.6.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO 32 2.2 . CEFALEIA TIPO TENSÃO 39 2.2.1. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS 39 2.2.2. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 40 2.2.2.1. CEFALEIA CERVICOGÊNICA 42 2.2.3. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 42 2.2.4. TRATAMENTO PROFILÁTICO 42 Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 5 2.3 . CEFALEIA EM SALVAS 43 2.3.1. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS 43 E2.3.2. TRATAMENTO 45 2.3.2.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 45 2.3.2.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO 47 2.3.3. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 48 2.4. OUTRAS CEFALEIAS PRIMÁRIAS 52 3.0 CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 54 3.1 . ARTERITE DE CÉLULAS GIGANTES 54 3.2 . TROMBOSE VENOSA CEREBRAL E PSEUDOTUMOR CEREBRAL 57 3.2.1. TROMBOSE VENOSA CEREBRAL 58 3.2.2. PSEUDOTUMOR CEREBRAL 64 3.3 . CEFALEIA POR HIPOTENSÃO LIQUÓRICA 66 3.4 . CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA 69 3.4.1. CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA POR USO EXCESSIVO DE ANALGÉSICOS 69 3.5. CEFALEIA NOS TUMORES CEREBRAIS 71 3.6. OUTRAS CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 72 3.6.1. CEFALEIA ASSOCIADA À HIPERTENSÃO ARTERIAL 72 3.6.2. CEFALEIA ASSOCIADA A SINUSOPATIAS 74 3.6.3. CEFALEIA ASSOCIADA A FEOCROMOCITOMA 75 3.6.4. OUTRAS CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 76 3.6.5. CEFALEIA INDUZIDA POR HEMORRAGIA SUBARACNOIDEA 77 4.0 NEURALGIA TRIGEMINAL 78 5.0 LISTA DE QUESTÕES 81 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 82 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 82 Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 6 CAPÍTULO 1.0 ABORDAGEM INICIAL 1.1 . INTRODUÇÃO Cefaleia é definida por uma dor localizada acima de uma linha que passa pelas órbitas, meato acústico externo e a transição occipito-cervical. Fenômenos álgicos que ocorrem abaixo dessa linha, na região anterior, são denominados dores faciais. Abaixo da transição occipito-cervical, ocorrem as cervicalgias. Eventualmente, doenças que se apresentam com cefaleia também podem causar simultaneamente cervicalgia e/ou dor facial. O cérebro em si não costuma ser fonte de dor. A dor de cabeça é gerada pelo comprometimento de estruturas intra ou extracranianas com inervação dolorosa, como artérias da base, vasos meníngeos, seios venosos, tenda do cerebelo, diafragma da sela, nervos cranianos (V, VII, IX e X), partes moles da cabeça e o próprio crânio. A dor de cabeça é um sintoma extremamente comum, que afeta mais de 90% da população quando observada durante um ano. Ela é discretamente mais comum em mulheres, mas existem algumas causas específicas, como veremos adiante, que atingem mais pacientes do sexo masculino. Além disso, é uma causa comum de absenteísmo, trazendo enormes perdas financeiras em decorrência da redução da força de trabalho gerada por ela. 1.2. CLASSIFICAÇÃO O ponto de partida na avaliação de um paciente com cefaleia é classificá-la em primária ou secundária. Cefaleia primária é uma condição em que a dor de cabeça é a própria doença, não existindo outra causa clínica específica para justificá-la. Podemos usar como exemplo a enxaqueca, da qual todos já ouvimos falar. Pergunto ao futuro Residente: seria possível diagnosticar um paciente com enxaqueca sem que ele nunca tivesse apresentado um único episódio de cefaleia na vida? A resposta intuitivamente é NÃO. Nesse caso, a enxaqueca é considerada como uma cefaleia primária. A cefaleia secundária, por sua vez, é um sintoma de outra doença que poderia muito bem existir sem a presença de dor de cabeça. O exemplo mais famoso é o da sinusite. Muitas vezes, recebemos um resultado incidental de uma ressonância magnética de crânio onde se lê: “sinais de sinusopatia aguda”, e o paciente não tinha cefaleia! Portanto, podemos dizer que a cefaleia primária é uma doença e a cefaleia secundária é um sintoma. Essa diferenciação é crucial, pois um paciente com suspeita de cefaleia secundária deverá ser investigado inicialmente para as causas mais graves de dor e medicado de acordo com o diagnóstico estabelecido. Se o caso for de uma cefaleia primária, basta a terapêutica sintomática e, no caso de atendimento ambulatorial, deve-se decidir sobre a necessidade de tratamento profilático. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 7 Para facilitar nosso trabalho, a International Headache Society publicou uma atualização da Classificação Internacional das Cefaleias (3ª edição), com 14 tipos de cefaleias divididas em 3 grupos: • Cefaleias primárias; • Cefaleias secundárias; • Outras cefaleias, dores faciais e neuralgias cranianas. A tabela 1 mostra mais detalhes dessa classificação: Grupo Tipo Cefaleias Primárias Enxaqueca (migrânea) Cefaleia do tipo tensão Cefalalgias trigêmino-autonômicasdiariamente para evitar que as crises ocorram. Na tabela 5, mostraremos algumas indicações para profilaxia de crises de enxaqueca com base no perfil dos pacientes. Perfil do paciente Profilaxia mais indicada Mulheres em idade fértil Verapamil ou flunarizina HAS, 60 anos e fumantes Verapamil ou flunarizina Depressão e transtornos do humor Amitriptilina ou venlafaxina Epilepsia Topiramato ou valproato Insônia Amitriptilina Obesidade Topiramato Fenômeno de Raynaud Verapamil ou flunarizina Tabela 5: Indicação de profilaxia de acordo com o perfil de comorbidades dos pacientes com migrânea. O efeito inicial do tratamento profilático é observado após 4 semanas, melhorando ao longo de 3-6 meses. A dose deve ser iniciada no valor mais baixo possível, aumentando-a gradualmente até que o efeito terapêutico seja atingido, a dose máxima seja alcançada ou o paciente apresente efeitos colaterais indesejáveis (“start low, go slow”). Além disso, alguns cuidados devem ser tomados, como evitar valproato em mulheres em idade fértil, pelo risco de 10% de malformações fetais maiores, bem como o de topiramato na gravidez. O topiramato pode impedir o efeito dos anticoncepcionais quando em doses a partir de 100 mg/dia. Recomenda-se o desmame gradual dos profiláticos. A despeito do tratamento medicamentoso, a mudança de estilo de vida pelo paciente é fundamental. Deve ser recomendada higiene do sono adequada, alimentação nos horários corretos, exercícios físicos regulares e evitar fatores desencadeantes. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 34 Os beta-bloqueadores estão entre os profiláticos mais usados nos pacientes com enxaqueca. Eles não devem ser usados, ou devem ser usados com cautela, em pacientes com história de asma ou DPOC, bradiarritmias, hipotensão arterial e depressão. No caso dos anti-hipertensivos, além dos beta-bloqueadores, podem ser prescritos os inibidores da ECA, como o lisinopril, e bloqueadores do receptor de angiotensina, como a candesartana. Os bloqueadores de canais de cálcio, como o verapamil e a flunarizina, também apresentam algum grau de eficácia. Os antidepressivos estão entre as drogas mais usadas no tratamento profilático da migrânea. Dentre eles, podemos citar os tricíclicos, como a amitriptilina e a nortriptilina. Esses medicamentos podem causar sedação, boca seca, obstipação, taquicardia, palpitação, hipotensão ortostática, ganho de peso, visão turva e retenção urinária. Outra opção é a venlafaxina, que causa hipertensão, insônia e ganho de peso. A outra classe de medicamentos mais usada na profilaxia de enxaqueca é a dos anticonvulsivantes, cujos principais representantes são o valproato de sódio e o topiramato. A lamotrigina e a fenitoína podem ser usadas, mas com grau de evidência bem menor. O topiramato pode causar como efeitos colaterais parestesias, fadiga, anorexia, diarreia, perda de peso (em 9-12% dos casos), amnésia, afasia, dificuldade de concentração, náuseas, litíase renal e disgeusia. Lembre que ele pode reduzir a eficácia do contraceptivo oral em doses acima de 100 mg e não deve ser usado por gestantes. Já o valproato apresenta uma eficácia um pouco inferior em relação ao topiramato. Seus efeitos colaterais mais importantes são náuseas, sonolência, tremor, tonturas, ganho de peso, perda de cabelo, epigastralgia. Ele não deve ser usado por gestantes e nem em mulheres em idade fértil pelo risco elevado de teratogenicidade (10% dos casos). CAI NA PROVA (GO - SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS - SES GO - 2024) Paciente de 35 anos, do sexo feminino, procura o serviço médico relatando cerca de quatro episódios semanais de cefaleia pulsátil, de forte intensidade que duram até um dia, predominando do lado direito da cabeça, melhorando com repouso em ambiente escuro e silencioso, às vezes necessitando do uso de dipirona. As crises de dor são acompanhadas de náuseas, já tendo ocorrido vômitos. Conta que esses episódios se iniciaram na adolescência durante o período menstrual, mas há dois meses se tornaram muito frequentes, após o início de dieta para o controle de peso. Relata ter asma desde a infância, com uso de salbutamol inalatório só quando tem falta de ar. No exame físico, a paciente apresenta altura de 1,6 m, peso de 92 Kg e sibilos ocasionais na ausculta pulmonar e extrassístoles na ausculta cardíaca. No restante, os exames físico e neurológico não apresentaram outras alterações. Leia o caso clínico a seguir. Um eletrocardiograma realizado apresentou um aumento no intervalo QT e a radiografia de tórax foi normal. Nesse caso, além das medidas para tratamento da dor durante os episódios de cefaleia, essa paciente necessita de tratamento profilático com: COMENTÁRIO O tratamento profilático da migrânea envolve diversas alternativas, em geral, o manejo deve ser individualizado de acordo com o paciente, levando-se em consideração o perfil de efeitos colaterais de cada droga, posto que a grande maioria das opções não são, de fato, direcionadas ao manejo exclusivo da migrânea. Incorreta a alternativa A. Apesar de ser um profilático, o paciente tem asma, contraindicando o uso de beta-bloqueadores. A) Propranolol 20 mg VO de 12 em 12 horas. B) Topiramato 25 mg VO de 12 em 12 horas. C) Amitriptilina 50 mg VO à noite. D) Clorpromazina 25 mg VO à noite. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 35 Correta a alternativa B Excelente alternativa profilática e indutor de hiporexia, levando à perda de peso, benéfica para o paciente em questão. Não há relato de nefrolitíase ou glaucoma, contraindicações ao uso do topiramato. Incorreta a alternativa C.A amitriptilina induz aumento de peso, o que não é desejável para o paciente descrito. Incorreta a alternativa D. Além de não ser uma medida profilática de primeira linha, pode alargar o QT, potencialmente deletéria no caso em questão. (SP - SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE PIRACICABA - SMS - 2023) Mulher de 24 anos é atendida em consulta de rotina. Ela se queixa de episódios de cefaleia, associada a náuseas, sintomas visuais e sensibilidade à luz. A dor é latejante, pulsátil e unilateral. O sono melhora os sintomas. Refere que o quadro tem atrapalhado sua vida diária. Uma vez decidido iniciar uma medida profilática para o quadro descrito, a conduta inicial de escolha é A) escitalopram. B) fluoxetina. C) gabapentina. D) propranolol. E) rizatriptano. COMENTÁRIO. Incorreta a alternativa A. Os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como o escitalopram, não fazem parte do arsenal profilático de migrânea. Incorreta a alternativa B. A exemplo do descrito na alternativa acima, a fluoxetina também não é uma opção profilática para a migrânea. Incorreta a alternativa C.Apesar de efetiva no manejo da dor neuropática, a gabapentina não é profilaxia de migrânea. Correta a alternativa D. O propranolol é uma excelente escolha para a profilaxia da migrânea. Incorreta a alternativa E. O rizatriptano é uma alternativa no manejo da crise de migrânea, contudo, não na profilaxia das crises. (USP-SP – 2019) Mulher, 37 anos de idade, vem para consulta ambulatorial porque esteve em serviço de pronto atendimento há quatro semanas por crise de enxaqueca que melhorou com analgésicos simples. Relata ter episódios esporádicos, de até um dia de duração, cerca de uma vez ao mês, intercalando com longos períodos sem crises desde os 20 anos de idade. Associa as crises a momentos de estresse importante e, principalmente, por privação de sono. Preocupou-se quando soube da medida de pressão arterial de 190 mmHg, durante a crise no pronto-socorro. Em outras medidas, na UBS e em casa, e na ausência de dor for confirmado o diagnóstico de hipertensão arterial. Nega outras queixas. Ao exame clínico apresenta bom estado geral, corada, hidratada, anictérica,acianótica, eupneica, IMC = 23 kg/m²; PA = 158 x 100 mmHg; P = 80 bpm cheios e simétricos. Semiologias neurológica, pulmonar, cardíaca e abdominal sem alterações. Considerando a hipertensão e as características da enxaqueca qual é o tratamento ambulatorial? A) Losartana e topiramato. B) Anlodipina e amitriptilina. C) Hidroclorotiazida e valproato. D) Enalapril e dipirona. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 36 COMENTÁRIO A paciente apresenta diagnóstico de enxaqueca, mas não tem indicação de tratamento profilático. Note que o examinador não exige, nessa questão, o conhecimento dos critérios diagnósticos. ESSA QUESTÃO CONTÉM UMA PEGADINHA! A frequência das crises nessa paciente é ESPORÁDICA, ocorrendo uma vez por mês. Nesse caso, a paciente não preenche os critérios para o uso de tratamento profilático, sendo indicado apenas o uso de sintomáticos durante a crise de dor. Correta a alternativa D. Enalapril é um anti-hipertensivo que também possui efeito profilático modesto para enxaqueca. Durante as crises de cefaleia, a dipirona pode ser prescrita como opção em pacientes com quadro esporádico de dor leve. Resolução completa no final do capítulo. (UESPI 2021) A enxaqueca (migrânea) é uma das cefaleias primária mais frequente e limitante devido à sua intensidade, seu tratamento preventivo era feito com medicações como anti-hipertensivos, anticonvulsivantes, antidepressivos; mas com o advento dos anticorpos monoclonais, houve uma mudança de paradigma em relação ao tratamento profilático da enxaqueca. Assinale a alternativa correta que contém um anticorpo monoclonal já aprovado, no Brasil, para tratamento preventivo da enxaqueca e seu mecanismo de ação: A) Infliximab – inibidor do fator de necrose tumoral alfa. B) Ocrelizumab – anticorpo anti CD20. C) Erenumab - anticorpo contra o receptor do peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP. D) Blinatumomab - anticorpo anti CD19 e CD3. E) Brentuximab - anticorpo anti CD30. COMENTÁRIO Como vimos no texto, nos últimos anos, uma nova classe de medicamentos profiláticos para a migrânea foi desenvolvida. É a classe dos anticorpos monoclonais cujo alvo é o CGRP, molécula chave no início da crise migranosa. As medicações parenterais até aqui aprovadas são: erenumab, fremanezumab, galcanezumab e epitenezumab. Existem ainda as formulações por via oral que são o rimegepant e o atogepant. Em linhas gerais, cerca de 15% dos pacientes têm melhora completa das crises, 30 % dos pacientes, redução superior a 75% das crises e 60% dos pacientes têm redução superior a 60% das crises. O uso dessa classe de medicamentos costuma ficar reservado para os casos refratários, sobretudo, pelo alto custo. Quantos dados específicos, não é mesmo? Ao analisar as questões, você perceberá que a única informação necessária para acertar a questão é a de que o CGRP está associado à gênese da dor na migrânea! Guarde essa informação para não errar questões sobre o assunto. Incorreta a alternativa A. O infliximab é um antagonista do fator de necrose tumoral alfa e pode ser usado em quadros inflamatórios como artite reumatoide ou doenças inflamatórias intestinais. Incorreta a alternativa B. O ocrelizumab é um anticorpo anti CD-20 utilizado nos casos de Esclerose Múltipla primariamente progressiva. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 37 Correta a alternativa C. O erenumab é um anticorpo monoclonal anti CGRP de administração EV, sendo uma das opções profiláticas para os pacientes com de migrânea. Incorreta a alternativa E. O Brentuximab é um anticorpo anti CD-30 e também está inserido no arsenal terapêutico de doenças oncohematológicas. Os antagonistas do CGRP que podem ser usados no tratamento profilático da migrânea não são os mesmos medicamentos utilizados no tratamento sintomático agudo. Como profiláticos, estão disponíveis comercialmente (já no Brasil) o erenumab, o fremanezumab e o galcanezumab. Eles são administrados por via subcutânea em doses mensais, à exceção do primeiro, de administração EV. Devem ser evitados em gestantes. Efeitos colaterais importantes não foram observados. A toxina botulínica A pode ser útil em casos de enxaqueca crônica, apenas. Em pacientes com menos de 15 crises por mês, classificados como portadores de enxaqueca episódica, a toxina botulínica A não é recomendada. Medidas não farmacológicas, como a estimulação transcutânea do nervo supraorbital, apresentaram algum grau de eficácia, ao contrário de acupuntura e fechamento do forame oval patente. O tratamento cirúrgico com remoção de músculos em áreas de gatilho da dor ainda carece de evidências para ser recomendado. Incorreta a alternativa D. O Blinatumomab é um anticorpo anti CD19 E CD3 e seu uso pode ser indicado em casos de doenças oncohematológicas. Para o tratamento da migrânea crônica, os medicamentos de primeira linha são: • Propranolol; • Amitriptilina; • Topiramato; • Valproato (apenas para homens ou para mulheres fora em idade fértil). Nos casos de cefaleia crônica, a toxina botulínica A e os antagonistas do CGRP são, por enquanto, considerados drogas de segunda linha. Verapamil, outros beta-bloqueadores, riboflavina, candesartana e nortriptilina são classificados como de eficácia incerta. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 38 O uso de estrógeno deve ser evitado em pacientes que apresentem migrânea com aura. O tratamento da migrânea menstrual pode ser feito com o esquema conhecido como miniprofilaxia, em que a paciente utiliza um medicamento sintomático por um período determinado, próximo ao ciclo menstrual e por um número determinado de ciclos. As opções incluem o naproxeno, o magnésio e o naratriptano. Entretanto, o tratamento mais eficaz é realizado com anticoncepcional oral combinado em ciclo estendido ou com suplementação de estrógeno menstrual por meio de patch ou gel, desde que não haja contraindicações. CAI NA PROVA (Santa Casa de Alagoas 2018) O tratamento profilático da migrânea menstrual, não deve apenas considerar como CORRETO o seguinte: A) Antes de iniciar o tratamento é fundamental estabelecer os períodos em que as crises ocorrem com maior frequência através do preenchimento de um diário de dor pelo paciente. B) O tratamento profilático da migrânea menstrual deve ter caráter temporário, iniciando- se em intervalo de 1 a 14 dias antes do dia em que, usualmente, a cefaleia se inicia, sempre obedecendo ao padrão estabelecido pelo diário. C) Se na terapia com anti-inflamatório não-esteroides (AINEs), derivados da ergotamina ou triptanos controlam adequadamente a migrânea menstrual, deve ser considerada a possibilidade de terapia hormonal. D) Essa terapia pode ser realizada através da utilização do estrógeno em combinação com a progesterona. COMENTÁRIO O futuro Residente deve estar familiarizado e ter cuidado redobrado com essa banca examinadora que sempre faz questões com enunciados e alternativas capciosas. Repare que, no enunciado, ele menciona: “não deve apenas considerar como CORRETO”, mantendo o “não” em minúsculo e o “correto” em maiúsculo. Não se confunda! O examinador quer que você assinale a alternativa INCORRETA. Basta uma leitura com calma, o que é difícil numa prova de Residência, dada a imensa responsabilidade que ela traz, que logo se descobre um erro que facilmente soluciona a questão. Muitas vezes, nem é necessário conhecer o conteúdo perguntado, basta analisar bem as frases, tentando simplificá-las. Correta a alternativa A. O diário de cefaleia é uma ferramenta importante para quem atende esses pacientes, pois gera uma visão objetiva da frequência, intensidade e de fatores desencadeantes para as crises, ajudando a escolher a melhor estratégia terapêutica. Correta a alternativa B. Chamamos de “miniprofilaxia” o esquema de tratamento que pode durar até 14 dias por mês com medicações profiláticasou AINEs para o controle das crises. Incorreta a alternativa C. Veja a incoerência da alternativa. Se a dor melhorou com a terapêutica analgésica, por que associar mais uma medicação? Correta a alternativa D. Estrógeno e progesterona podem ser usados preferencialmente de forma contínua, para evitar quedas abruptas nas quantidades de estrógeno. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 39 2.2 . CEFALEIA TIPO TENSÃO A cefaleia tipo tensão é a segunda doença mais prevalente na população mundial, perdendo apenas para o transtorno de ansiedade. Sua prevalência é de 86% entre 12-41 anos de idade, sendo mais comum em mulheres (88%) do que em homens (69%). Ela é classificada, de acordo com o número de crises apresentadas pelo paciente em: • Episódica infrequente:• Naproxeno sódico 500 mg dose inicial (250 mg até 6/6h). 2.2.4. TRATAMENTO PROFILÁTICO A amitriptilina é a droga de escolha para o tratamento profilático da cefaleia do tipo tensão. Deve ser iniciada em dose baixa, aumentada lentamente, obtendo-se efeito máximo em cerca de seis semanas. O tratamento deverá ser mantido por três meses após a melhora. Outros antidepressivos, como nortriptilina, mirtazapina e venlafaxina apresentam menos evidências para uso, ao passo que inibidores seletivos de recaptação de serotonina são comprovadamente ineficazes em pacientes sem depressão associada. Anticonvulsivantes que podem ser usados nesses casos incluem a gabapentina e o topiramato. Outras modalidades possuem efeito mínimo, como tizanidina, bloqueio de pontos gatilho com lidocaína, toxina botulínica, terapia cognitivo- comportamental, acupuntura e fisioterapia. A ciclobenzaprina, medicamento muito prescrito para pacientes com cefaleia do tipo tensão, não possui evidência de eficácia. Assim, seu uso não está indicado formalmente. Quem a prescreve o está fazendo por sua conta e risco. Já teve examinador que caiu do cavalo porque colocou numa prova que a ciclobenzaprina era indicada para esse tipo de cefaleia e a questão acabou sendo anulada após recurso. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 43 2.3 . CEFALEIA EM SALVAS A cefaleia em salvas (ou cluster headache) é uma cefaleia primária rara, com prevalência de 0,1%, mas que é um assunto muito frequente de provas de Residência. Ela é 4 vezes mais comum em homens, mas tem examinador que chuta o balde e coloca um caso de salvas em mulheres. Geralmente, os pacientes acometidos possuem entre 20-50 anos de idade. Clinicamente, os pacientes apresentam quadros de dor intensa, que se repetem várias vezes durante um curto espaço de tempo (6-12 semanas), caracterizando o que chamamos de salvas. Essa periodicidade é observada em 80-90% dos casos, com pausas de até um ano. Nos outros casos, teremos a forma crônica, em que não ocorre remissão. Ela pode ser episódica e tornar-se crônica ou ser crônica desde o início. Bebidas alcoólicas e substâncias voláteis são consideradas desencadeantes das crises. Ela também é conhecida como cefaleia histamínica, devido à ocorrência de sintomas autonômicos induzidos por hiperatividade parassimpática e comprometimento simpático durante as crises de dor, como rinorreia ou hiperemia conjuntival. Outros especialistas também a chamam de cefaleia de Horton. Dentre os sintomas autonômicos, chama a atenção a presença em alguns casos da síndrome de Horner (leia mais sobre ela no capítulo de Anatomia, fisiologia e semiologia neurológica), que ocorre nas lesões do sistema nervoso simpático. O paciente com esse quadro apresentará durante a crise de cefaleia os achados de miose, semiptose palpebral e anidrose ipsilaterais à dor. A SÍNDROME DE HORNER (MIOSE, SEMIPTOSE E ANIDROSE), BEM COMO OUTROS SINTOMAS AUTONÔMICOS, É ENCONTRADA FREQUENTEMENTE EM PACIENTES COM CEFALEIA EM SALVAS. 2.3.1. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS De acordo com a 3ª Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) de 2018, o diagnóstico de cefaleia em salvas é feito com base nos seguintes critérios: Critérios diagnósticos de cefaleia em salvas A. Número de crises Pelo menos 5 crises preenchendo os critérios B a D B. Intensidade Dor forte e muito forte Localização Orbitária, supraorbitária e/ou temporal unilateral Duração 15 a 180 minutos, se não tratada C. Pelo menos 1 dos seguintes: 1. Pelo menos um destes sinais ou sintomas: a) Hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento ipsilaterais b) Congestão nasal e/ou rinorreia ipsilaterais c) Edema palpebral ipsilateral d) Sudorese frontal e facial ipsilateral e) Miose e/ou ptose ipsilateral 2. Sensação de inquietude ou agitação D. Frequência Uma a cada 2 dias até 8 por dia E. Diagnóstico diferencial Sem outra explicação melhor para a dor Tabela 8: Critérios diagnósticos da 3ª edição da ICHD para cefaleia em salvas Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 44 O(a) amigo(a) Estrategista deve prestar bastante atenção a esses critérios diagnósticos. Primeiramente, em relação às características da dor. A localização típica na região periorbitária, supraorbitária ou temporal deve ser mencionada na questão. Essa localização corresponde à divisão oftálmica (V1) da parte sensitiva do nervo trigêmeo (V NC). Por isso, a cefaleia em salvas é a principal representante do grupo das cefaleias trigêmino-autonômicas. Se a localização for hemicraniana, bilateral ou difusa, esse diagnóstico não poderá ser estabelecido. A intensidade da dor é sempre grave, considerada uma das maiores dores dentre as descritas. A duração de cada crise frequentemente é motivo de questões: entre 15 e 180 minutos. Geralmente, as perguntas mencionam a duração mínima. Para não se esquecer, imagine uma luta de MMA (multiple martial arts), com 5 rounds de 3 minutos e que ocorre na madrugada. Visualize um dos lutadores sendo duramente golpeado na região orbitária, supraorbitária ou temporal, o que lhe causaria uma dor intensa. Pronto: agora você não esquecerá que a cefaleia em salvas dói nesses locais durante pelo menos a duração da luta (5 rounds de 3 minutos, ou seja, 15 minutos). Considerando a cefaleia em salvas como uma campeã de audiência nas provas de Residência, imagine nosso lutador perdendo a luta que valeria o cinturão. Ele vai ficar triste e chorar. Assim como em uma derrota em uma luta de MMA, a cefaleia em salvas surge na madrugada, dura pelo menos 15 minutos (soma dos cinco rounds de 3 minutos), causa dor intensa unilateral periorbitária, orbitária ou temporal, edema palpebral, lacrimejamento e síndrome de Horner (parecida com corner). Especificamente no caso da cefaleia em salvas, o último critério, que menciona ser necessário descartar outras causas, tem uma importância especial. Já foram descritos quadros de tumores de hipófise e da fossa posterior que se apresentam clinicamente como cefaleia em salvas. Por esse motivo, realizamos ressonância magnética (RM) de crânio nesses pacientes. Outro exame subsidiário obrigatório é a polissonografia, já que 85% dos pacientes com cefaleia em salvas apresentam também síndrome da apneia obstrutiva do sono (veja capítulo de Distúrbios do Sono). Talvez seja por isso que muitos deles frequentemente acordem com a crise de dor. CAI NA PROVA (SP - SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO - SMS - 2024) Determinado paciente de 42 anos de idade procurou atendimento na unidade de pronto atendimento com queixa de cefaleia excruciante, unilateral, principalmente periorbitária, associada a vermelhidão ocular, lacrimejamento e rinorreia. Referiu ter apresentado episódios semelhantes anteriormente, e o último ocorreu há cerca de cinco meses, melhorando somente após oxigenioterapia a 100%. Diante da descrição, a hipótese diagnóstica compatível com o quadro é a de A) migrânea com aura. B) cefaleia tensional. C) migrânea sem aura. D) síndrome dolorosa miofascial. E) cefaleia em salvas. Mais um fenômeno que acompanha a cefaleia em salvas: lacrimejamento. Ao final da luta, é provável que o derrotado esteja com a pálpebra edemaciada. E o edema palpebral é encontrado nesses pacientes! Durante o intervalo da luta, cada lutador vai para seu corner. O paciente com salvas pode apresentar síndrome de Horner. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 45 COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A. A migrânea não responde à oxigenioterapia tampouco se associa aos sinais de ativação trigêmino-autonômica ipsilaterais à dor. Incorreta a alternativa B. A cefaleia tensional também não apresenta ativação trigêmino-autnômica, nem resposta à oxigenioterapia. Nessa condição, as crises são bilaterais, leve a moderadas, não pioram com o esforço e sãoem aperto. Além disso, não podem se associar a náuseas/vômitos e podem apresentar foto ou fonofobia apenas. Incorreta a alternativa C. Como vimos acima, nem migrânea com e nem sem aura são compatíveis com os dados descritos no enunciado. Incorreta a alternativa D. Nessa condição, o paciente apresenta quadro doloroso associado a pontos-gatilho, sem as características descritas no enunciado. E2.3.2. TRATAMENTO Correta a alternativa E. Da mesma forma que nas outras cefaleias primárias, a cefaleia em salvas também possui tratamento sintomático e profilático. A maioria das questões sobre esse tipo de cefaleia é baseada no tratamento. No caso do sintomático, a alternativa mais usada é a oxigenioterapia, que sempre aparece no meio de outras opções intuitivamente mais plausíveis. Entre os tratamentos profiláticos, o mais usado é o verapamil, que costuma ser usado para doenças cardíacas. Como os examinadores gostam de colocar questões para confundir nossa cabeça, esse é um prato cheio para eles. 2.3.2.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO OXIGENIOTERAPIA 1. A oxigenioterapia é o tratamento mais usado para o alívio das crises de cefaleia em salvas. 2. Para atingir seu efeito, ela deve ser fornecida na concentração de 100%. 3. Como isso pode ser feito sem que seja preciso intubar o paciente? Muito simples: usamos uma máscara sem recirculação, com reservatório (aquele saquinho que fica pendurado na máscara) e administramos oxigênio a 10-12 litros/minuto durante 20 minutos. 4. A eficácia dessa medida é de 78%. O sumatriptano subcutâneo, também usado no tratamento das crises de enxaqueca, na dose de 6 mg, apresenta eficácia de 75% no tratamento da crise de cefaleia em salvas. Outra opção, mais recentemente descrita, é o octreotide endovenoso (52% de eficácia). Exatamente. Como vimos, o enunciado descreve um quadro típico de cefaleia em salvas. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 46 CAI NA PROVA De maneira intuitiva, muitos(as) teriam a tendência de usar analgésicos e opioides, mas tirem o cavalinho da chuva, pois, se querem ser Residentes nos melhores serviços do país, devem estar cientes de que esses tratamentos são ineficazes. Medidas não farmacológicas, como evitar o consumo de bebidas alcoólicas, fazem parte do tratamento. Conheci muitos colegas neurologistas que eram apreciadores de vinho e iam àqueles eventos de degustação de bebidas. Um deles tinha cefaleia em salvas e, certo dia, contou que havia ido a um desses encontros: “experimentei um vinho maravilhoso, ontem. Em compensação, acabei com o estoque de oxigênio em casa!”. (MG - INSTITUTO DE PREVIDÊNCIA DOS SERVIDORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS - IPSEMG 2024) Paciente do sexo masculino, 23 anos, apresenta quadro de cefaleia intensa, unilateral, temporal, que dura até 90 minutos se não tratada, acompanhada de lacrimejamento, rinorreia e edema palpebral, cerca de 6 vezes ao dia, sem sintomas de tronco cerebral, alterações visuais ou sensoriais. Comparece ao pronto socorro novamente com a referida queixa, estando muito inquieto. Qual é a melhor conduta para o caso? A) Dipirona, anti-inflamatório não esteroidal, metoclopramida e sumatriptano. B) Carbamazepina ou fenitoína. C) Oxigênio a 100% com fluxo de 10L/min e sumatriptano. D) Valproato de sódio e dexametasona. COMENTÁRIO: Vamos aos dados: • Homem de 23 anos • Cefaleia periocular unilateral de forte intensidade • Duração de 90 minutos • 6 episódios ao dia • Com sintomas trigêmino-autonômicos ipsilaterais à dor Como vimos acima, a principal hipótese diagnóstica para o caso descrito é de cefaleia em salvas. Incorreta a alternativa A. Dos medicamentos expostos, apenas o sumatriptano, desde que de administração não oral, é uma alternativa. Incorreta a alternativa B. Nenhuma das duas drogas é útil no manejo da cefaleia em salvas. Correta a alternativa C. Exatamente. São duas alternativas de tratamento agudo da cefaleia em salvas. .Incorreta a alternativa D. Mais uma vez, ambas são ineficazes no tratamento das crises de cefaleia em salvas. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 47 2.3.2.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO A droga de escolha para o tratamento profilático da cefaleia em salvas é o verapamil. Ele é administrado em três doses diárias, com aumentos de 1/3 da dose a cada 10-14 dias, sempre após a realização de um ECG para avaliar a presença de bradicardia ou bloqueio atrioventricular (BAV). O efeito é notado a partir da 2ª semana. A resposta terapêutica é obtida em 80% dos casos. Os corticoides também podem ser indicados para o tratamento profilático da cefaleia em salvas. As opções mais estudadas são a prednisona e a dexametasona. A resposta é satisfatória em cerca de 70-80% dos pacientes. No caso da prednisona, as doses necessárias podem chegar a 60-100 mg/dia. Essa dose é mantida por cerca de 5 dias e o desmame é realizado com redução de 10 mg ao dia. Entretanto, em alguns casos, pode ser necessária a manutenção do corticoide continuamente. Não custa lembrar que, após o uso prolongado de corticoides, deve ser realizado o desmame para evitar o surgimento de insuficiência adrenal (leia mais sobre esse tema importantíssimo em Doenças da Adrenal, no livro de Endocrinologia). Em 2019, o galcanezumab passou a fazer parte do arsenal terapêutico para cefaleia em salvas. Como já dito na parte de enxaqueca, ele é um anticorpo monoclonal anti-CGRP. Deve ser indicado a pacientes com salvas que duram mais do que um mês e que apresentaram falha com as medicações de primeira linha. O carbonato de lítio apresenta uma eficácia de 62%. Entretanto, seu uso é trabalhoso, pois a dose é ajustada com base no nível sérico. Ele é preferível em pacientes com cefaleia em salvas crônica. O topiramato é considerado uma medicação eficaz na profilaxia da cefaleia em salvas, sobretudo em associação ao verapamil. Como sabemos, ele é um anticonvulsivante, mas a dose terapêutica no caso da cefaleia é menor do que a antiepiléptica. Outras medicações que poderiam ser usadas como profilaxia, com menor evidência de eficácia, incluem pizotifeno, valproato, capsaicina, naratriptano, ergotamina e melatonina. A indometacina tem algum efeito em dose muito elevada, ao contrário do que se observa em outras cefaleias trigêmino-autonômicas. O bloqueio anestésico do nervo occipital maior pode levar a uma melhora temporária das crises de cefaleia em salvas. Estudos com toxina botulínica e câmara hiperbárica falharam ao demonstrar eficácia terapêutica. O CPAP estará indicado em pacientes com confirmação de apneia obstrutiva do sono, por meio da polissonografia. CAI NA PROVA (USP – SP 2020) Homem de 52 anos de idade, tabagista, apresenta há alguns anos crises de forte dor de cabeça que se concentram principalmente no olho esquerdo. A cefaleia aparece de 2 em 2 anos quase sempre nesta época do ano e permanece por cerca de 45 a 60 dias, a dor dura geralmente 1 hora e na maioria das vezes aparece durante a madrugada despertando-o: fica absolutamente ""desesperado"" quando sente a dor e tem vontade de ""bater a cabeça na parede"". Durante a dor apresenta vermelhidão no olho esquerdo e lacrimejamento intenso desse lado. As crises atuais começaram há 15 dias realizou uma tomografia durante um período de crises, que era normal. Considerando a principal hipótese diagnóstica, o que é correto afirmar? A) Devemos prescrever Prednisona via oral durante 2 a 3 semanas. B) Trata-se de uma cefaleia primária responsiva à Indomectacina. C) As crises intensas devem ser tratadas com Morfina endovenosa. D) Anti depressivo tricíclico deve melhorar esse tipo de dor de cabeça. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 48 COMENTÁRIO Correta a alternativa A. Para o tratamento da cefaleia em salvas, alguns autores recomendam administrar prednisona 30-100 mg/ dia durante 5 dias,diminuindo 10 mg/dia. Isso pode levar a um tratamento durante 2-3 semanas. Incorreta a alternativa B. Entre as cefaleias primárias, temos um grupo conhecido como cefaleias responsivas à indometacina. Nesse grupo, temos a hemicrania paroxística, a hemicrania contínua, a cefaleia orgástica, a cefaleia primária da tosse e a cefaleia hípnica. Neuralgia do trigêmeo e cefaleia em salvas não respondem bem a esse tratamento. Incorreta a alternativa C. Não é recomendado o uso de opioides para o tratamento das cefaleias pela baixa eficácia e pelo alto risco de desenvolvimento e dependência, pois muitos desses pacientes apresentam crises de dores recorrentes. Incorreta a alternativa D. Os antidepressivos tricíclicos são indicados para o tratamento profilático da migrânea e da cefaleia do tipo tensão, não havendo indicação para o tratamento da cefaleia em salvas. (USP 2018) Homem de 42 anos de idade procura atendimento em pronto-socorro por crises de cefaleia hemicrânia direita há 7 dias, quando mudou turno de trabalho em sua empresa. A dor é lancinante, de forte intensidade, com até 4 episódios por dia durando até 1 hora cada um. No momento com dor de intensidade 10 (escala 0 a 10). No exame clínico, hiperemia conjuntival e sudorese em hemiface, ambos à direita. Pressão arterial = 168 x 100 mmHg; frequência cardíaca = 110 bpm. Qual é a melhor associação de tratamento para controle agudo e crônico para o quadro álgico do paciente? A) Tratamento agudo: oxigênio; tratamento crônico: gabapentina. B) Tratamento agudo: morfina; tratamento crônico: pregabalina. C) Tratamento agudo: dipirona; tratamento crônico: prednisona. D) Tratamento agudo: sumatriptano nasal; tratamento crônico: verapamil. COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A. O oxigênio pode ser usado no tratamento da crise aguda, mas a gabapentina não é indicada para a profilaxia. Incorreta a alternativa B. A morfina não está indicada para esse tipo de dor (pode levar à dependência), e a pregabalina não serve como profilaxia. Incorreta a alternativa C. A dipirona não possui efeito relevante sobre a crise aguda de cefaleia em salvas, mas a prednisona pode ser usada como profilática. Correta a alternativa D. Sumatriptano nasal é uma medicação eficaz no tratamento da crise de cefaleia em salvas, ao passo que o verapamil é a profilaxia de escolha para essa condição. 2.3.3. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Muitas questões cobram a diferença entre cefaleia em salvas, enxaqueca e cefaleia tipo tensão. A figura 5 mostra de forma gráfica as principais diferenças entre esses três tipos de cefaleia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 49 Figura 5: Principais diferenças entre os tipos mais comuns de cefaleias primárias. A cefaleia em salvas faz parte do grupo das cefaleias trigêmino-autonômicas, cuja característica em comum é a presença de manifestações parassimpáticas durante as crises álgicas. As três principais representantes dessa categoria são a hemicrania paroxística, a hemicrania contínua e a SUNCT (Short lasting, Unilateral, Neuralgiform headache, associated to Conjuntival injection and Tearing), também chamada de cefaleia unilateral curta. A hemicrania paroxística, ao contrário da cefaleia em salvas, é mais comum em mulheres. Esta é uma pegadinha de prova de Residência em que aquele(a) que se prepara pelo material do Estratégia MED tem plenas condições de se dar bem. Sempre que o(a) candidato(a) vir uma questão de cefaleia intensa orbitária, supraorbitária ou temporal, associada a lacrimejamento, miose, hiperemia conjuntival etc., em paciente do sexo feminino, é preciso muita atenção, pois o mais provável é que se trate de hemicrania paroxística, não de salvas. Outro diferencial é a duração das crises, que na hemicrania paroxística varia entre 2-30 minutos. Os examinadores, para não terem suas questões anuladas por recursos, costumam colocar uma duração inferior aos 15 minutos (duração mínima de uma crise de salvas). O terceiro diferencial entre ambas é a capacidade de resposta à indometacina, positiva no caso da hemicrania paroxística. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 50 O diagnóstico diferencial entre cefaleia em salvas e hemicrania contínua é um pouco mais fácil. A hemicrania contínua afeta principalmente mulheres, a dor costuma ser um pouco menos intensa, afeta todo o hemicrânio e responde de forma magnífica ao tratamento com indometacina. Além disso, como o próprio nome já diz, é contínua. O critério temporal para defini-la como contínua é uma duração superior a três meses. A SUNCT, cuja tradução dos componentes da sigla significa cefaleia de curta duração, unilateral, neuralgiforme, com hiperemia conjuntival e lacrimejamento, afeta predominantemente homens. A duração da dor é sempre inferior à da cefaleia em salvas, podendo ser de 1-600 segundos. Além dos sintomas autonômicos clássicos, os pacientes podem apresentar rubor frontal/facial ipsilateral e sensação de plenitude auricular. A frequência de crises é de cerca de uma vez ao dia e a resposta é negativa à indometacina. Na tabela 9, estão os critérios diagnósticos das principais cefaleias trigêmino-autonômicas, que podem ser vistos de forma comparativa. CARACTERÍSTICAS SALVAS HEMICRANIA PAROXÍSTICA HEMICRANIA CONTÍNUA SUNCT Sexo Masculino Feminino Feminino Masculino Número de crises 5 20 20 Intensidade Forte ou muito forte Forte Moderada a grave Moderada a grave Duração 15-180 min 2 - 30 min > 3 meses 1-600 segundos Localização Orbitária, supraorbitária e/ou temporal Unilateral estrita Orbitária, supraorbitária, temporal e/ou outra distribuição trigeminal Acompanhantes Pelo menos 1 dos seguintes sintomas, ipsilaterais à dor: • Hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento • Congestão nasal e/ou rinorreia • Edema palpebral • Sudorese frontal ou facial • Miose ou ptose Sensação de inquietude ou agitação Inquietude ou agitação, ou piora à movimentação Flushing frontal e facial ipsilateral Sensação de congestão na orelha Frequência 1 a cada 2 dias até 8/ dia > 5 ao dia em mais da metade do período de atividade da crise 1x ao dia Resposta à indometacina Negativa Positiva Brilhante Negativa Sem outra explicação melhor para a dor Tabela 9: Critérios diagnósticos das principais cefaleias trigêmino-autonômicas.CAI NA PROVA Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 51 (GO - FUNDAÇÃO BANCO DE OLHOS DE GOIÁS - FUBOG - 2024) Com relação às características dos diferentes tipos de cefaleias, é CORRETO afirmar: A) A cefaleia em salvas é uma dor bilateral, geralmente sentida na região occipital, com duração média de 5 horas. B) A cefaleia em salvas é uma dor intensa, unilateral e orbitária, que pode durar de 30 minutos a 2 horas e ocorrer 1 ou 2 vezes ao dia. C) A migrânea sem aura é uma dor bilateral, de baixa intensidade e contínua, frequentemente associada à anorexia e desidratação. D) A migrânea sem aura é uma dor geralmente bilateral, de curta duração, e frequentemente não acompanhada de sintomas como náuseas ou fotofobia. COMENTÁRIO. Questão bastante ampla sobre as características fenotípicas de diferentes tipos de cefaleias primárias. Lembre-se de dois aspectos importantes no que tange os critérios diagnósticos das cefaleias primárias: é necessária a recorrência da dor (um único episódio não preenche critério) e os diferentes tipos de cefaleia primária apresentam características fenotípicas específicas quanto à "qualidade" da dor. Vejamos as alternativas. Incorreta a alternativa A. A cefaleia em salvas é unilateral, frequentemente tempora ou periorbitária. É extremamente intensa, dura de 15 a 180 minutos e vem acompanhada de sinal de ativação trigêmino autonômico ipsilateral à dor ou inquietação/agitação. As crises ocorrem de 1 vez a cada 2 dias a até 8 vezes em um único dia. Correta a alternativa B. Perfeito.Como descrito na alternativa A, as características descritas estão dentro do "conjunto" do fenótipo da cefaleia em salvas. Incorreta a alternativa C. Na migrânea, o paciente precisa ter apresentado ao menos 5 crises na vida que duram de 4 a 72 horas e apresentem 2 dos 4 sintomas abaixo: Incorreta a alternativa D. Como exposto na alternativa C, essas não são as características de uma crise de migrânea. • Caráter unilateral • Pulsátil • Intensidade moderada a grave • Piora com esforço físico. Além disso, o paciente precisa apresentar náuseas e vômitos E/OU foto e fonofobia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 52 2.4. OUTRAS CEFALEIAS PRIMÁRIAS Algumas bancas de Residência gostam de perguntar sobre algumas cefaleias primárias mais raras. Dentre elas, merecem atenção especial a cefaleia orgástica e a cefaleia nova diária persistente. A cefaleia orgástica, também conhecida como cefaleia sexual, cefaleia sexual vascular benigna, cefalalgia coital, cefaleia de intercurso, cefalalgia orgástica e cefaleia pré-orgástica, acomete cerca de 1% da população, sendo mais comum em homens (2,9:1), portadores de enxaqueca (25%), cefaleia benigna do esforço (29%) e cefaleia do tipo tensão (45%). A idade média de surgimento é de 35 anos e as características clínicas incluem localização bilateral em 2/3 dos pacientes, localização occipital ou difusa, súbita ou gradual, intensidade leve a grave, pulsátil ou em aperto e duração de minutos a horas. Não é acompanhada de manifestações autonômicas e suas crises são imprevisíveis. Podem ocorrer tanto durante o coito quanto na masturbação. É dividida em dois tipos: 1. Pré-orgástica: • duração de 1-180 minutos; • bi-occipital; • em pressão; • associada à contratura cervical e da mandíbula; • corresponde a menos de 1/3 dos casos. 2. Orgástica: • explosiva; • súbita; • latejante; • pode rapidamente envolver a cabeça toda. Acredita-se que sejam espectros da mesma doença. De qualquer forma, a cefaleia orgástica está mais associada com a ocorrência de AVC. O diagnóstico é de exclusão e obriga que sejam solicitados exames de neuroimagem cerebral e neurovascular, para excluir a presença de hemorragias cerebrais. Ela é um dos tipos de cefaleia em trovoada (thunderclap headache), cujas causas podem ser hemorragia subaracnoidea, dissecção arterial, síndrome de vasoconstricção cerebral reversível, trombose venosa cerebral e alterações da fossa posterior. O tratamento da crise aguda pode ser feito com sumatriptano e ou zolmitriptano nasal. A indometacina 25-150 mg por via oral, 30 a 60 minutos antes da atividade sexual, é a droga de escolha para o tratamento profilático da cefaleia orgástica. Para pacientes intolerantes, a opção é propranolol, de 40 a 200 mg ao dia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 53 CAI NA PROVA (UFSC 2016) Assinale a alternativa que responde CORRETAMENTE à pergunta abaixo. Qual é o medicamento de escolha para o tratamento profilático inicial da cefaleia orgástica (associada à atividade sexual)? A) Zolmitriptano, SC, diariamente. B) Indometacina, 60 minutos pré-atividade sexual. C) Fluoxetina, 20 mg, diariamente. D) Homeopatia, com dinamizado de tribulus terrestris. E) Ciclobenzaprina, 10 mg, uma hora antes da atividade sexual. COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A. Zolmitriptano está indicado apenas para o tratamento agudo da crise de cefaleia, não sendo recomendado seu uso diário pelo risco de causar cefaleia crônica diária por uso excessivo de analgésicos. Correta a alternativa B. A indometacina 25-150 mg por via oral, 30 a 60 minutos antes da atividade sexual, é a droga de escolha para o tratamento da cefaleia orgástica. Para pacientes intolerantes, a opção é propranolol, de 40 a 200 mg Incorreta a alternativa C. A fluoxetina não é recomendada para o tratamento da cefaleia orgástica. Incorreta a alternativa D. Não há evidências para recomendação de homeopatia para esse tipo de cefaleia. Incorreta a alternativa E. A ciclobenzaprina é um relaxante muscular de ação central que não possui evidências para o tratamento da cefaleia orgástica. A cefaleia nova diária persistente é uma entidade descrita há pouco tempo. Os pacientes claramente devem lembrar- se do dia em que a dor iniciou. Além disso, ela deve ser diária desde o início. A fisiopatologia é desconhecida. Alguns pacientes relatam seu início após um quadro infeccioso (22-30%), neurocirurgia (9-12%) e evento estressante (9-12%). Ela tem sido descrita após a infecção por SARS-CoV-2 (COVID-19). As crises de dor duram 1,5h a 24h. Em cerca de 80% dos pacientes, a dor é contínua. Em relação às características da dor, geralmente, ela é de intensidade moderada e, em alguns casos, grave, podendo ser bilateral em 64-86%, com localizações variadas, de caráter pulsátil ou em pressão. Náuseas, foto e fonofobia são comuns. Os pacientes podem apresentar curso autolimitado ou refratário. Ela admite diagnóstico diferencial com a maioria das causas de cefaleia crônica. Na cefaleia nova diária persistente, a dor é diária desde o início e o paciente lembra-se do dia em que ela começou. A cefaleia hípnica (ou do despertador) acomete indivíduos de meia-idade, causando despertar noturno por causa da dor, geralmente sempre no mesmo horário. A dor costuma ser bilateral e em peso. Esses pacientes respondem ao tratamento com indometacina e lítio. O diagnóstico é de exclusão. ao dia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 54 As cefaleias indometacino-responsivas são a hemicrania paroxística, a hemicrania contínua, a cefaleia hípnica e a cefaleia orgástica. CAPÍTULO 3.0 CEFALEIAS SECUNDÁRIAS As cefaleias secundárias são aquelas que surgem como um sintoma de outra doença. A doença de base não precisaria obrigatoriamente da presença da cefaleia. Assim que um paciente chega para uma avaliação clínica em decorrência de um quadro de dor de cabeça, nosso pensamento sempre deverá ser: Esse paciente apresenta uma cefaleia secundária até que se prove o contrário. A justificativa para esse raciocínio é que no grupo das cefaleias secundárias existem doenças graves, que podem causar sérios prejuízos, como sequela e até mesmo óbito. Já aprendemos quando suspeitar delas, usando o mnemônico INSIPIDA. A partir desse momento, discutiremos os diagnósticos diferenciais mais importantes de cefaleias secundárias. 3.1 . ARTERITE DE CÉLULAS GIGANTES Sem dúvida, esse é um dos assuntos mais importantes em provas de Residência. Como os examinadores não possuem muito espaço para fazerem perguntas, eles apreciam elaborar questões que misturem mais de uma área do conhecimento — e a arterite de células gigantes é um prato cheio para isso. Recomenda- se fortemente que seja feita uma leitura atenta do capítulo de Vasculites, no livro de Reumatologia, em que mais informações poderão ser obtidas a respeito desse tópico. A arterite de células gigantes também é conhecida como arterite temporal ou de Horton. É uma causa de cefaleia que acomete indivíduos a partir dos 50 anos de idade. Sua causa é um processo inflamatório vascular em artérias de grande calibre. A localização da dor pode ser temporal ou em outra região craniana. Além da dor, os pacientes podem apresentar sintomas como episódios de amaurose fugaz (perda visual unilateral transitória), claudicação mandibular (dor e dificuldade para mastigação) e um quadro de dor nas cinturas escapular e pélvica conhecida como polimialgia reumática. Uma característica importante ao exame físico é o espessamento doloroso da artéria temporal, que muitas vezes é visível sob a pele (figura 6). Figura 6: Artéria temporal espessada em paciente com arterite de células gigantes. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 55 Os principais sinais e sintomas e sua frequênciasão mostrados na tabela 10. Sintoma Desde o início Prevalência Cefaleia 33% 72% Polimialgia reumática 25% 58% Fadiga 20% 56% Claudicação mandibular 4% 40% Febre 11% 35% Amaurose fugaz 2% 10% Diminuição da acuidade visual 3% 8% Tabela 10: Sinais, sintomas e sua prevalência em pacientes com arterite de células gigantes. CAI NA PROVA (SMS-RJ 2021) Quanto à arterite de células gigantes, é INCORRETO afirmar que: A) apresenta taxa de sedimentação de eritrócitos (ESR) acentuadamente elevada B) ocorre principalmente em pacientes com mais de 50 anos de idade C) é particularmente comum em afro-americanos D) há rigidez simétrica matinal Incorreta a alternativa C. Na verdade, há franco predomínio em caucasianos. Correta a alternativa D. 40 a 60% dos pacientes com ACG possuem uma outra condição associada: a polimialgia reumática (PMR). A PMR é uma doença de caráter inflamatório crônico que cursa, tipicamente, com dor e rigidez de cinturas escapular e pélvica, especialmente pela manhã após longo tempo em repouso. Ambas podem ocorrer isoladamente, mas a dupla ACG e PMR é muito explorada nas provas e você deve tê-la na ponta da língua. COMENTÁRIO A arterite de células gigantes (temporal) é uma vasculite de vasos de grande calibre que acomete idosos e se caracteriza por um quadro de dor de cabeça associado à claudicação mandibular, episódios de amaurose fugaz e polimialgia reumática (dor nas cinturas escapular e pélvica). Na investigação, encontramos elevação da velocidade de hemossedimentação em valores que ultrapassam 50 mm/h e, muitas vezes, proteína C reativa elevada. O diagnóstico definitivo é feito por meio da biópsia de artéria temporal e o tratamento é realizado com corticoides e imunossupressores. Correta a alternativa A. Destaca-se que, excepcionalmente, há casos com discreta elevação de VHS, muito embora o clássico sejam aumentos muito acentuados, eventualmente superando 100 mm/hora Correta a alternativa B. está correta porque esta é a epidemiologia da ACG. Grave que, enquanto a arterite de Takayasu é a vasculite de grandes vasos do jovem, a ACG é a do idoso. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 56 Os exames complementares para o diagnóstico incluem o hemograma, a pesquisa da velocidade de hemossedimentação (VHS), a dosagem de proteína C reativa (PCR), o ultrassom da artéria temporal e a biópsia de artéria temporal. O hemograma costuma revelar discreta anemia (Hb médio de 11,7 mg/dL) com plaquetose (geralmente acima de 375 mil/mm³). A elevação dos índices de VHS e PCR conferem uma sensibilidade de 99% ao diagnóstico. No ultrassom de artéria temporal, podemos encontrar o dark halo sign, com especificidade superior a 80%. O diagnóstico é confirmado pela biopsia de artéria temporal, que revela infiltrado mononuclear ou granulomatoso com células gigantes multinucleadas. O tratamento da arterite de células gigantes deve ser realizado com doses elevadas de corticosteroides (prednisona 40-100 mg/dia ou em pulsoterapia com metilprednisolona) durante pelo menos dois anos sem sintomas. Em alguns casos, utilizamos imunossupressores com o intuito de usar a menor dose possível de corticoides. Entre eles, podem ser prescritos a ciclosporina, a azatioprina e o metotrexato. Mesmo com tratamento adequado, cerca de 30% dos pacientes evoluem com complicações neurológicas, incluindo AVC em 7% dos casos, mononeuropatia (principalmente isquemia do nervo óptico) ou polineuropatia, em 14%. Além disso, podemos encontrar as complicações da corticoterapia, discutidas no livro de Endocrinologia. CAI NA PROVA (RS - HOSPITAL SÃO LUCAS DA PUC - RS - 2024) Homem, 68 anos, vem à emergência com quadro súbito de dor no escalpo e perda visual à esquerda. Ao exame físico: dor intensa à palpação da artéria temporal esquerda. Fundoscopia com edema do disco óptico. Do ponto de vista laboratorial, os achados esperados para o diagnóstico mais provável são: A) trombocitopenia e níveis elevados de anticorpos anticardiolipina. A) leucopenia e títulos altos de fator antinuclear. B) trombocitose e importante elevação da eritrossedimentação. C) hemácias fragmentadas e hiper-albuminemia. COMENTÁRIO A arterite temporal leva a quadro de cefaleia, claudicação de mandíbula, perda visual, fadiga e pode ser acompanhada por alteração da espessura da artéria temporal e dor à sua palpação. Trata-se de uma doença de indivíduos idosos e o quadro clínico clássico é o de perda visual, inicialmente unilateral, e que se não for tratada pode acometer o olho contralateral. Nessa condição, é importante a instituição imediata de corticóide, mesmo antes do término da investigação e eventual biópsia da artéria temporal, método padrão-ouro para o diagnóstico. Os principais achados laboratoriais são a elevação do VHS e PCR e a trombocitose! O ultrassom da artéria temporal, sobretudo em casos duvidosos, pode fornecer pista diagnóstica da inflamação focal dessa artéria, permitindo o diagnóstico. Vejamos as alternativas. Incorreta a alternativa A. A trombocitose, não a trombocitopenia que ocorre com frequência nessa condição. Além disso, o anticardiolipina, Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 57 Correta a alternativa C. Exatamente. Ambos os exames podem revelar alterações, favorecendo o diagnóstico! Incorreta a alternativa B. Nenhum dos dois achados ocorre na arterite temporal. 3.2 . TROMBOSE VENOSA CEREBRAL E PSEUDOTUMOR CEREBRAL A trombose venosa cerebral e o pseudotumor cerebral são duas condições clínicas que causam cefaleia devido ao aumento da pressão intracraniana. Sobre a fisiopatologia da hipertensão intracraniana, recomendamos a leitura do livro de Coma e alterações da consciência. O aumento da pressão intracraniana (PIC) pode estimular receptores de dor em estruturas cranianas, como vasos e meninges. O processo de hipertensão intracraniana nessas duas entidades é lentamente progressivo. Inicialmente, a PIC está discretamente elevada, mas o paciente pode não se queixar de dor. Por esse motivo, a dor surgirá no momento em que a pressão intracraniana se elevar fisiologicamente, como durante uma manobra de Valsalva ou durante as últimas horas de sono, em que a hipoventilação causa acúmulo de gás carbônico e consequente vasodilatação cerebral. O maior fluxo de sangue para o encéfalo traz, consequentemente, aumento de volume intracraniano, o que aumenta a PIC. Nesse momento, o limiar para dor pode ser atingido e o paciente pode despertar pela cefaleia. Além do quadro de cefaleia progressiva e despertar pela dor, os pacientes com hipertensão intracraniana poderão apresentar papiledema ao exame neurológico (figura 1). Ele pode ser a única alteração detectável. Como já vimos, a presença de cefaleia associada à papiledema aponta para a possibilidade de uma cefaleia secundária, ou seja, que deve ser investigada por meio de um exame de neuroimagem. No caso, a tomografia de crânio é amplamente disponível e seria capaz de revelar a presença de alguma lesão que fosse capaz de ocupar espaço no interior do crânio causando aumento da PIC. Mesmo assim, em duas situações, a despeito de termos esse aumento da PIC, a TC de crânio poderia vir normal: na trombose venosa cerebral e no pseudotumor cerebral. A tomografia de crânio pode ser absolutamente normal em casos de trombose venosa cerebral e pseudotumor cerebral. Na avaliação de um paciente com cefaleia e papiledema, seguimos os seguintes passos: • Realização de uma tomografia de crânio com e sem contraste; • Caso a tomografia de crânio venha normal: punção lombar com manometria do líquor; • Confirmada a hipertensão intracraniana pela manometria, realizamos a pesquisa de trombose venosa por meio de angiografia venosa por tomografia, ressonância ou cateterismo; e • Se a angiografia venosa vier normal, o diagnóstico é de pseudotumor cerebral. comumente encontrado nos casosde SAAF, não ocorre nessa condição. Incorreta a alternativa B. Nem leucopenia e nem FAN positivo ocorrem nessa condição. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 58 TC de crânio Líquor com manometria Normal NormalAlterada Pseudotumor cerebral Mulher jovem Obesidade Trombose venosa anticoncepcional Tabagismo Oftalmo Hipertensão Angiografia venosa (TC, RM ou CATE) Alterada - Tumor - Abscesso - Hidrocefalia - Trombose Normal CEFALEIA PAPILEDEMA O fluxograma de investigação do paciente com cefaleia e papiledema é mostrado na figura 7: Figura 7: Fluxograma de investigação do paciente com cefaleia e papiledema. 3.2.1. TROMBOSE VENOSA CEREBRAL A trombose venosa cerebral afeta três mulheres a cada homem comprometido. A incidência é a mesma do AVC isquêmico em pacientes jovens: cerca de 1:100 mil/ano. A média de incidência ocorre por volta dos 37 anos (34 anos para mulheres e 42 anos para homens). Os principais fatores de risco são o uso de anticoncepcionais, o parto e o puerpério. As principais etiologias da trombose venosa cerebral estão listadas na tabela 11. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 59 Grupo Exemplos Ciclo gravídico-puerperal Medicamentos Anticoncepcionais orais, corticoides, ácido epsilon-aminocaproico, talidomida, tamoxifeno, eritropoetina Sinusite Trauma Estados de hipercoagulabilidade Deficiência de proteína S, deficiência de proteína C, mutação do fator V de Leyden, mutação G20210 do gene da protrombina, outros Pós-punção lombar Doenças inflamatórias intestinais Doença de Crohn, retocolite ulcerativa Doenças do tecido conjuntivo LES, Wegener, Behçet Outras Hiper-homocisteinemia, síndrome nefrótica, desidratação, sarcoidose Tabela 11: Principais etiologias da trombose venosa cerebral. O quadro clínico da trombose venosa cerebral depende do local acometido. O sangue venoso do encéfalo corre por veias cerebrais, mas, principalmente, pelos seios venosos da dura-máter. São eles: o seio sagital superior, o seio sagital inferior, o seio reto, o seio transverso, o seio sigmoide e o seio cavernoso. A representação esquemática deles é demonstrada na figura 7. Figura 7: Seios venosos e principais veias cerebrais. Os principais sinais e sintomas da trombose venosa incluem os seguintes: • Cefaleia (89%); • Papiledema; • Crises epilépticas (39%); • Sinais focais (37%): neuropatia vestibular, zumbido pulsátil, hemianopsia, diplopia, hemiparesia, hemi-hipoestesia e paralisia facial; • Turvação visual. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 60 CAI NA PROVA (UFSE 2019) Uma mulher de 37 anos de idade sem histórico de problemas médicos até então, veio a emergência com queixas de dor de cabeça e turvação visual. Ela esteve doente uma semana antes, com náuseas e vômitos. Ela relata cefaleia há vários dias, porém a dor piorou na última noite. Exame neurológico estava normal, exceto por leve edema papila. Ela era magra e tabagista. Sua única medicação em uso era anticoncepcional oral. Qual diagnostico mais provável? A) Arterite temporal. B) Meningite bacteriana. C) Trombose venosa cerebral. D) Meningite carcinomatosa. COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A. A arterite de células gigantes acomete pacientes com mais de 50 anos de idade e caracteriza-se por um quadro de dor de cabeça associada à claudicação mandibular, episódios de amaurose fugaz e polimialgia reumática (dor nas cinturas escapular e pélvica). Incorreta a alternativa B. Em um quadro de meningite bacteriana aguda, a evolução é mais rápida. A paciente teria apresentado febre, alteração do estado mental, muito provavelmente rigidez de nuca e não haveria papiledema. Correta a alternativa C. A trombose venosa cerebral é caracterizada por um quadro de cefaleia de início agudo, papiledema, eventualmente comprometimento de nervos cranianos, como o II, VI e VIII, e é mais comum em mulheres que fazem uso de anticoncepcionais e são tabagistas. Ela pode ocorrer após um quadro de vômitos prolongados, levando à desidratação e favorecendo a ocorrência de trombose venosa. Incorreta a alternativa D. A meningite carcinomatosa é um quadro raro, caracterizado por cefaleia, rebaixamento da consciência, sem papiledema, evolução um pouco mais arrastada e, na maioria das vezes, com história prévia de câncer conhecida. O diagnóstico é feito por meio da pesquisa de células neoplásicas no líquor. O local mais comum de trombose venosa é o seio cavernoso, por onde passam: • Artéria carótida interna: irrigação da porção anterior do encéfalo; • Nervo oculomotor (III NC): constrição da pupila, elevação da pálpebra e inervação dos músculos oculares reto superior, reto inferior, reto medial e oblíquo inferior; • Nervo troclear (IV NC): inervação do músculo oblíquo superior; • Nervo abducente (VI NC): inervação do músculo reto lateral; • Ramo oftálmico do trigêmeo (V1): inervação da porção sensitiva da face dos olhos até o vértex; • Ramo maxilar do trigêmeo (V2): inervação da porção sensitiva maxilar da face. A trombose do seio cavernoso associa-se a um quadro de dor orbital, quemose (edema de órbita e conjuntiva), proptose (insinuação do globo ocular para fora da órbita) e paralisia oculomotora. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 61 A representação esquemática do seio cavernoso e das estruturas em seu interior está na figura 9. Figura 9: Representação esquemática dos componentes do seio cavernoso. CAI NA PROVA (PR - AUTARQUIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE APUCARANA - AMS APUCARANA - 2023) Mulher, 28 anos, levada ao PS por cefaleia há 2 dias de forte intensidade acompanhada de náuseas e vômitos sem melhora com analgésicos comuns. Previamente hígida, tabagista de 4 cigarros/ dia e uso de anticoncepcionais orais desde os 14 anos. Tomografia de crânio com contraste revelou sinal do delta vazio. Provável etiologia da cefaleia é: COMENTÁRIO O quadro clínico descrito é típico de trombose venosa cerebral. Nessa condição ocorre trombose de um ou mais seios venosos, levando à hipertensão intracraniana e cefaléia. O quadro não tem instalação em thunderclap como a HSA e o principal sinal de alerta para essa condição é a presença de edema da papila no fundo do olho! A TC de crânio pode revelar hiperdensidade espontânea de seio venoso, compatível com o trombo, contudo, pode ser absolutamente normal. Por isso, em casos suspeitos, a TC de crânio deve ser complementada com a angiotomografia venosa! O achado clássico do exame contrastado é a falha de contrastação do seio venoso em decorrência da presença do trombo. Tal sinal é conhecido como sinal do delta vazio. Uso de anticoagulantes orais, tabagismo, trombofilias e desidratação são os fatores de risco mais comuns para essa condição. O tratamento dessa condição deve ser feito com anticoagulação (a enoxaparina é superior a heparina e em relação às medicações orais, varfarina e dabigatrana são as 2 opções autorizadas). Destaco que, em alguns pacientes, a elevação da pressão venosa pode predispor a um sangramento intraparenquimatoso próximo à trombose. Mesmo nesses casos, por mais paradoxal que possa parecer, o tratamento continua sendo a anticoagulação! Incorreta a alternativa A. A HSA cursa com cefaleia em thunderclap e sangramento no espaço subaracnóideo, não com cefaleia subaguda e sinal do delta vazio como o descrito no enunciado. Correta a alternativa B. Exatamente. Conforme vimos acima, esta é a principal hipótese diagnóstica. A) Hemorragia subaracnóide B) Trombose venosa central C) Enxaqueca D) AVC hemorrágico Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 62 Apesar de muitos casos de trombose venosa cerebral apresentarem tomografia de crânio normal, existem duas alterações bastante específicas que podem ser encontradas nesses pacientes: o sinal do delta vazio e o infarto venoso.O sinal do delta vazio é uma falha de enchimento pelo contraste no local, conhecido como confluência dos seios ou tórcula. A tórcula fica na região occipital e recebe sangue venoso do seio sagital superior e do seio reto. A partir dela, formam-se os seios transversos. No plano axial, o corte tomográfico dessa região, após a infusão de contraste, poderá revelar uma falha de enchimento em formato triangular (letra delta, do grego), caracterizando o sinal do delta vazio (figura 10). Figura 10: Tomografia de crânio com contraste, revelando falha de enchimento pelo contraste na região da confluência dos seios, compatível com trombose venosa cerebral. Sinal do delta vazio. O infarto venoso ocorre por congestão venosa, elevando a pressão hidrostática no parênquima e impedindo a chegada do sangue arterial até os neurônios. Ele é diferente do infarto arterial, que será visto detalhadamente no capítulo de AVC. Sua localização é atípica, por vezes bilateral (em espelho), principalmente quando é resultado de uma trombose de um vaso que se situa na linha média e não ocorre em par, como no seio sagital superior. Ocorre frequentemente o fenômeno de transformação hemorrágica, decorrente do extravasamento do sangue que flui pelo tecido necrótico. Nesse caso, encontramos uma área de isquemia (hipodensa) associada à presença de hemorragia (hiperdensa) no mesmo local. A figura 11 mostra um infarto venoso por trombose venosa cerebral unilateral. Figura 11: Infarto venoso (região mais escura) com transformação hemorrágica (área mais clara) no lobo temporal direito. Incorreta a alternativa C. A presença do sinal do delta vazio sugere o diagnóstico de trombose venosa cerebral. Não ocorre na migrânea. Incorreta a alternativa D. Mais uma vez, o sinal descrito é típico da trombose venosa cerebral, não do AVC hemorrágico. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 63 Para confirmar o diagnóstico de trombose venosa, é necessário realizarmos um exame angiográfico venoso. As opções são a angiotomografia, angiorressonância ou angiografia venosa por cateterismo. Esse último é um exame invasivo, realizado por meio de punção arterial e, apesar de ser o padrão-ouro, devido aos seus riscos de complicação, deve ficar como última opção. Figura 12: Corte sagital de tomografia de crânio (à esquerda), revelando transformação hemorrágica, e de angiotomografia (à direita), mostrando falha de enchimento pelo contraste do seio sagital superior. Nesses exames, costumamos encontrar falha de enchimento pelo contraste do seio comprometido, algo que pode não ser visto em um exame de tomografia ou ressonância convencional. Na figura 12, encontramos um infarto venoso com transformação hemorrágica decorrente de uma trombose de seio sagital superior. O tratamento da trombose venosa cerebral é feito com anticoagulação. Na urgência, usa-se heparina não fracionada ou de baixo peso molecular. A presença de infarto venoso com transformação hemorrágica, hemorragia subaracnoidea ou hemorragia intraparenquimatosa decorrentes de trombose venosa não contraindicam a anticoagulação. Para a manutenção, o tratamento é feito com warfarina ou dabigatran por 3 a 6 meses se o fator de risco for transitório (por exemplo, puerpério). Quando o fator de risco é desconhecido, trata-se por 6-12 meses. Nos pacientes com trombose recorrente ou trombofilia documentada, a duração do tratamento é indefinida. A mortalidade da trombose venosa cerebral na fase aguda é de 5%, podendo chegar a 15% em 6 anos. Em 23% dos pacientes ocorre piora neurológica aguda durante a fase de trombose venosa. Após 6 meses, 81% das mulheres e 71% dos homens estarão completamente recuperados. CAI NA PROVA (UFPI 2019) Paciente puérpera após parto cirúrgico (cesárea) sem intercorrências, 20 anos, apresenta cefaleia holocraniana com piora progressiva há 10 dias, sem melhora com analgésicos convencionais e associada a náusea, vômitos e déficit neurológico. Exame físico com papiledema bilateral e hemiparesia esquerda. O exame tomográfico é mostrado abaixo:.O diagnóstico e conduta terapêutica CORRETOS para o caso são, respectivamente: A) Trombose venosa cerebral; anticoagulação plena. B) Trombose venosa cerebral; antiagregação plaquetária. C) Trombose venosa cerebral; anticonvulsivante. D) AVC hemorrágico hipertensivo; controle pressórico. E) Hemorragia subaracnoide; clipagem ou embolização de aneurisma. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 64 COMENTÁRIO O quadro de cefaleia de início recente, progressiva, refratária e com deficit neurológico obriga-nos a considerar o diagnóstico de cefaleia secundária. Quando a cefaleia é associada à papiledema, obrigatoriamente devemos considerar a presença de síndrome da hipertensão intracraniana. A partir dessa hipótese, deve-se realizar uma neuroimagem, que pode ser TC de crânio ou RM. No caso, foi realizada uma TC de crânio que mostrou uma imagem hiperdensa na região frontoparietal direita, córtico-subcortical, que não obedece território arterial, compatível com infarto venoso com transformação hemorrágica. O próximo passo será a realização de uma angiografia venosa por TC, RM ou cateterismo, na busca de oclusão de seios venosos ou veias cerebrais. Correta a alternativa A. A angiotomografia revela uma falha de enchimento no seio sagital superior e inferior, compatível com trombose venosa cerebral. O tratamento é a anticoagulação plena (mesmo com hemorragia intraparenquimatosa? SIM!). A transformação hemorrágica ocorre por congestão venosa e aumento da pressão hidrostática dentro do vaso. À medida que ocorre recanalização (o anticoagulante não recanaliza, apenas impede que a trombose progrida e dá tempo ao organismo para dissolver o trombo e recanalizar o seio venoso), a pressão diminui e a causa de estase e congestão venosa desaparecem. 3.2.2. PSEUDOTUMOR CEREBRAL A síndrome do pseudotumor cerebral, ou hipertensão intracraniana idiopática, é uma doença que causa hipertensão intracraniana em mulheres em idade fértil (dos 15-44 anos) e que estejam acima do peso (94% dos casos são de obesas). A investigação etiológica revela-se negativa nesses casos. Outros fatores de risco incluem hipervitaminose A, uso de ácido retinoico (leucemias), de hormônios esteroides, anticoncepcionais, levotiroxina, lítio e vacinas. Doenças crônicas, como Addison, doenças tireoidianas, hipocalcemia por deficiência de vitamina D, hipoparatireoidismo, hipopituitarismo, anemia grave, apneia obstrutiva do sono, lúpus eritematoso sistêmico, Behçet, ovários policísticos, uremia e alterações da coagulação também podem estar associadas ao pseudotumor cerebral. Não se conhece a fisiopatologia exata da hipertensão intracraniana nessas pacientes. A hipótese mais aceita é a da hipertensão venosa intracraniana. Clinicamente, as pacientes com pseudotumor podem apresentar: • Cefaleia (84-92%); • Alterações visuais transitórias (68-72%); • Zumbido pulsátil (52-60%); • Fotopsia (48-54%); • Dorsalgia (53%); • Dor retrobulbar (44%); • Diplopia (18-38%); • Perda visual sustentada (26-32%). Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 65 Ao exame neurológico, praticamente todos os pacientes apresentaram papiledema, sendo que, na minoria dos casos (7-10%), ele poderá ser unilateral ou assimétrico. Antigamente, o pseudotumor cerebral era conhecido como hipertensão intracraniana benigna. No entanto, alguns pacientes evoluíam com alterações neurológicas permanentes, fazendo com que o termo “benigno” fosse abandonado. A complicação neurológica mais comum é a perda visual. Inicialmente, os pacientes apresentam redução da acuidade visual e, com o progredir da doença, passam a apresentar perda de campo visual periférico, com comprometimento central nos casos mais avançados. Além do nervo óptico, o nervo craniano maisOutras cefaleias primárias Cefaleias Secundárias Cefaleia atribuída a trauma cranioencefálico e/ou cervical Cefaleia atribuída a distúrbio vascular de crânio ou cervical Cefaleia atribuída a distúrbio intracraniano não vascular Cefaleia atribuída a uma substância ou a sua retirada Cefaleia atribuída a uma infecção Cefaleia atribuída a distúrbio da homeostase Cefaleia ou dor facial atribuída a distúrbio do crânio, pescoço, olhos, ouvidos, nariz, seios da face, dentes, boca ou outra estrutura facial ou cervical Cefaleia atribuída a distúrbio psiquiátrico Neuralgias cranianas, outras dores faciais, outras cefaleias Cefaleia atribuída a lesões de nervos ou outras dores faciais Outras cefaleias Tabela 1: Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3ª edição). A cefaleia primária é a mais comum. Ela corresponde a cerca de 55% dos casos de atendimento ambulatorial especializado em Neurologia em nosso meio. Nesse grupo, a cefaleia tensional é a mais prevalente. Dentre as cefaleias secundárias, 40% são devidas a doenças sistêmicas (febre, HAS e sinusite, por exemplo), e apenas 5% ocorrem por uma causa neurológica (pós-traumatismo cranioencefálico, doenças cervicais ou tumores). Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 8 • Idade de início; • Aura; • Frequência, intensidade e duração; • Início da dor; • Qualidade, local e irradiação; • Sintomas associados e anormalidades; • História familiar de enxaqueca; • Fatores precipitantes e de melhora; • Piora ou melhora com mudança de posição; • Relação com atividade física; O diário de cefaleia é uma ferramenta importante para quem atende esses pacientes, pois gera uma visão objetiva da frequência, intensidade e fatores desencadeantes para as crises, ajudando a escolher a melhor estratégia terapêutica. Com base nessas informações, seremos capazes de diferenciar o tipo de cefaleia em grande parte dos pacientes. 1.3.1. CARACTERÍSTICAS DA DOR DICAS CLÍNICAS 1. Pacientes com dor sempre do mesmo lado da cabeça deverão ser investigados para doenças estruturais, como malformação arteriovenosa (MAV), aneurisma ou tumor cerebral. 2. A duração da dor também diz muito quanto ao diagnóstico. A dor da migrânea (enxaqueca) dura entre 4 e 72h. Na cefaleia tipo tensão, a duração pode chegar a 7 dias. Na cefaleia em salvas, cada crise de dor pode prolongar-se por no máximo 180 minutos. Fique ligado(a) nesses tempos, pois são cobrados em provas. 3. Muitas vezes, nos deparamos com pacientes com história de cefaleia de vários dias seguidos, diagnosticados por outros colegas equivocadamente como enxaqueca. 4. Um quadro de dor progressiva deve fazer-nos considerar como possível etiologia um processo expansivo, como tumor, abscesso ou hidrocefalia. • Álcool e alimentação; • Tratamentos prévios; • Uso de medicamentos; • Alterações visuais recentes; • História recente de trauma; • Alterações recentes de sono, exercício, peso e dieta; • Estado geral de saúde; • Uso de anticoncepcional; • Fatores ambientais; • Ciclo menstrual e hormônios exógenos. 1.3. ANAMNESE Por ser uma queixa subjetiva, a anamnese é o momento da observação clínica mais importante para obtenção dos dados necessários ao diagnóstico da causa da cefaleia. Ela deve levar em conta os seguintes aspectos: Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 9 CAI NA PROVA (MÉDICOS PELO BRASIL - ADAPS - MÉDICO DE FAMÍLIA E COMUNIDADE (2022)) Estima-se que a cefaleia é a queixa (ou problema de saúde) mais comum, afetando até 88% da população pediátrica e adolescente. A cefaleia pode resultar em prejuízo significativo, incluindo absenteísmo escolar e interferência no desempenho escolar, na interação familiar e na sociabilidade. Em relação a esse tema, assinale a alternativa correta: A) A cefaleia na criança e no adolescente é uma das principais causas neurológicas de consulta médica na atenção básica e geralmente se apresenta de formas semelhantes daquelas observadas no adulto. B) A anamnese não é uma ferramenta essencial para classificação do tipo de crise e reconhecimento de sinais de alerta. C) O diário da cefaleia pode ser um recurso útil quando há dificuldade de caracterizar a condição pelo relato da criança ou do familiar responsável. D) A ausculta cardíaca não vai acrescentar nenhum dado relevante quanto ao tipo de cefaleia. E) Em geral, o paciente com cefaleia é levado à consulta, após ter sido internado para receber medicações de forma intensiva para alívio dos sintomas. Incorreta a alternativa A. De fato, a cefaleia é causa frequente de busca por atendimento médico. Entretanto, na criança, costuma se apresentar com características mais inespecíficas e eventualmente através de sintomas indiretos como dor abdominal ou baixa concentração, portanto, de forma diferente do que ocorre no adulto. Incorreta a alternativa B. De maneira alguma. Na verdade, a anamnese é a principal forma de avaliar sinais de alerta para cefaleias secundárias. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa C. Sem dúvidas. É uma estratégia muito útil para caracterizar frequência, duração e sintomas associados nos casos de cefaleias. Incorreta a alternativa D. Muito embora a ausculta cardíaca raramente vá acrescentar à caracterização da cefaleia, eventualmente, pode auxiliar, sobretudo noS casos de cefaleia associadas a cardiopatias ou em indivíduos com persistência da comunicação interatrial, raramente associada à cefaleia. Incorreta a alternativa E. Embora a cefaleia curse com grande incômodo ao paciente, não é comum que leve à demanda de internação previamente ao atendimento ambulatorial. A intensidade da dor nem sempre se relaciona com o fato de ser uma cefaleia secundária. Pacientes com tumores cerebrais podem não apresentar dor alguma em 20% dos casos, ao passo que algumas síndromes de cefaleia primária, como a enxaqueca e a cefaleia em salvas, podem manifestar-se com dores incapacitantes, de intensidade 10/10 na escala visual analógica. Entretanto, o(a) futuro(a) Residente terá seu passaporte carimbado para as principais instituições se for capaz de lembrar que, em pacientes com cefaleia súbita, inédita ou a pior da vida, é obrigatório cogitar o diagnóstico de hemorragia subaracnóidea, uma doença potencialmente devastadora se não for diagnosticada e tratada precocemente. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 10 A cefaleia súbita é aquela que atinge sua intensidade máxima de sintomas em menos de 1 minuto, sendo também chamada de cefaleia em trovoada ou “thunderclap headache”. Essa condição será detalhadamente abordada no capítulo de AVC. 1.3.2. FATORES DESENCADEANTES Algumas cefaleias apresentam relação com o sono. Privação de sono ou sono prolongado podem ser desencadeantes de crises de enxaqueca. Doenças do sono, como apneia obstrutiva do sono, estão associadas à cefaleia em salvas. Muitos pacientes com cefaleia em salvas acordam durante a noite com dor de cabeça. A cefaleia hípnica é uma cefaleia primária que afeta indivíduos por volta dos 50 anos de idade, despertando-os no meio da madrugada pela dor. Esses pacientes não apresentam dor de cabeça durante o dia. Outros desencadeantes incluem alimentos, como chocolate, café, queijos e embutidos, bem como determinadas bebidas alcoólicas (episódio muito conhecido popularmente como ressaca). 1.3.3. FENÔMENOS ACOMPANHANTES Muitos tipos de cefaleia associam-se a sintomas acompanhantes, como náuseas, vômitos, foto, osmo e fonofobia (aversão à luz, a alguns aromas e ao barulho, respectivamente). Um tipo específico de enxaqueca apresenta-se, além da dor de cabeça, com uma ou mais manifestações neurológicas não dolorosas, conhecidas como aura. A aura pode ser visual, sensitiva, de linguagem e até com déficit motor (hemiparesia). Em pacientes com glaucoma, a dor de cabeça pode vir acompanhada de alterações visuaisafetado é o abducente, que faz a inervação do músculo reto lateral. Assim, muitos pacientes passam a se queixar de diplopia, pior para o lado do VI NC acometido, ou pior para longe, quando ocorre lesão bilateral desse nervo. Os nervos I, III, IV, V, VII e VIII também podem ser afetados. Tardiamente, os pacientes podem apresentar até alterações cognitivas, incluindo alterações na velocidade do processamento e tempo de reação. Existem algumas alterações típicas nos exames de imagem. O melhor exame para avaliar o pseudotumor é a ressonância magnética de crânio. A alteração mais comum é a perda da curvatura da esclera posterior (43-80% dos casos). Além disso, podemos encontrar distensão do espaço subaracnoide pré-óptico (45-67%); realce com gadolíneo (contraste) no nervo óptico pré- laminar (7-50%); sela túrcica vazia (25-80%); protrusão intraocular do nervo óptico pré-lamelar (3-30%); e tortuosidade vertical do nervo óptico orbital (40%). O exame de líquor revelará aumento da pressão de abertura, que reflete a pressão intracraniana. O restante dos parâmetros avaliados estará normal. O tratamento deverá ser realizado com perda de peso associada a medicamentos que diminuam a produção de líquor, como a acetazolamida, o topiramato e a furosemida. A acetazolamida é um diurético inibidor da anidrase carbônica, considerada a droga de escolha para o tratamento do pseudotumor cerebral. Em alguns casos, pode ser necessário realizar tratamento cirúrgico. As duas principais modalidades são a fenestração da bainha do nervo óptico e a derivação ventrículo-peritoneal. No primeiro caso, o tratamento alivia apenas a pressão sobre o II NC, poupando o paciente de uma eventual perda visual. O alívio da pressão intracraniana, propriamente dito, só será atingido com a derivação ventrículo-peritoneal. CAI NA PROVA (INTO - RJ (2023)) Os efeitos deletérios da obesidade são bem conhecidos e documentados: maior associação com hipertensão, diabetes, AVE, doença coronariana, apneia do sono e consequentemente, mortalidade. Uma outra complicação pouco descrita, mas não menos importante, é a hipertensão intracraniana idiopática ou pseudotumor cerebri, principalmente em mulheres jovens obesas. Além da obesidade, o excesso de qual vitamina pode estar relacionado a esta patologia neurológica? Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 66 A) Vitamina B12. B) Vitamina B6. C) Vitamina A. D) Vitamina K. E) Vitamina C. COMENTÁRIO Estrategista, o enunciado fala sobre hipertensão intracraniana idiopática, também conhecida como pseudotumor cerebri. É uma causa infrequente de cefaleia em que o paciente desenvolve sintomas decorrentes da elevação da pressão intracraniana como: cefaleia que pode piorar ao se deitar, borramento visual com identificação de papiledema ao exame de fundo de olho e disfunção do VI nervo craniano podendo levar a diplopia e restrição da abdução do olho. Nessa condição, o exame de neuroimagem será normal e o exame de punção liquórica não apresentará alteração da bioquímica, contudo, apresentará pressão de abertura elevada. Especula-se que o processo decorra da alteração da dinâmica de produção e reabsorção do LCR, havendo excesso de produção liquórica. Cabe ressaltar que o diagnóstico, diante de um do quadro clínico apresentado, é de exclusão, devendo se afastar lesões estruturais intracranianas, por exemplo: sangramento intraparenquimatoso ou trombose venosa cerebral. Além disso, a análise do LCR é essencial para afastar processo infeccioso ou neoplásico no espaço subaracnóideo. Muito embora se trate de um quadro clínico “idiopático”, algumas condições são sabidamente associadas à síndrome. O principal fator de risco é a obesidade, sendo o quadro clínico muito mais comum em mulheres jovens. Doenças sistêmicas como lúpus eritematoso sistêmico, doença de Behçet, anemia, uremia e diversas doenças oncohematológicas já foram associadas a essa síndrome. O uso de tetraciclinas e principalmente de derivados de vitamina A (retinóides sistêmicos), sendo os principais exemplo a isotretinoína, utilizada no manejo de acnes, e o ácido trans all retinóico (ATRA), utilizado no manejo da leucemia promielocítica aguda (M3), são outros fatores de risco já bem estabelecidos. Gabarito: C. 3.3 . CEFALEIA POR HIPOTENSÃO LIQUÓRICA Ao contrário da hipertensão intracraniana, falaremos agora da hipotensão, cuja causa mais comum é a perda de volume de líquor do espaço subaracnóideo. A cefaleia ocorre por uma tração de estruturas intracranianas e meníngeas sensíveis à dor. As causas mais comuns são a cefaleia pós-punção lombar e a derivação ventricular hiperfuncionante. Em alguns pacientes, pode ocorrer por lesão espontânea de meninges, principalmente nas regiões torácica e cervicotorácica. Em todos os casos, existe um orifício muito pequeno por meio do qual há vazamento do líquor para fora do espaço subaracnoide. Essa vazão é superior à capacidade de produção do líquor pelo plexo coroide, o que vai tornando a quantidade total de líquor no sistema ventricular cada vez menor, tracionando as estruturas sensíveis à dor. A incidência varia conforme a etiologia: • Pós-raquianestesia: 3-9%; • Pós-coleta de LCR: 11%; • Pós-peridural (não intencional em 1-6%): 11-33%. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 67 Os principais fatores de risco para cefaleia por hipotensão liquórica são: • Sexo feminino (2-3 vezes maior); • Gestantes (devido à vasodilatação cerebral); • História prévia de cefaleia pós-punção; • Idade entre 18 e 50 anos; • IMC baixo; • Uso de agulha traumática; • Maior diâmetro da agulha; • Introdução de agulha de raqui com bisel perpendicular às fibras; • Pressão de abertura reduzida. Sobre a técnica de punção lombar para a coleta de líquor, recomenda-se a leitura do capítulo de Neuroinfectologia. A cefaleia da hipotensão liquórica é geralmente frontal ou occipital e, tipicamente, piora quando o paciente se senta ou se levanta. Ao deitar-se em decúbito horizontal, o alívio é quase total e imediato, pois a pressão intracraniana é equilibrada com maior quantidade de líquor indo ao segmento cefálico. Em cerca de 70% dos casos, encontramos náuseas, rigidez de nuca, vertigem, lombalgia, alterações visuais (diplopia e visão turva) ou auditivas. A cefaleia pode ter características de enxaqueca em pacientes portadores desse antecedente. Sua gravidade é maior quando inicia nas primeiras 24h. Cerca de 90% dos casos ocorrem dentro das primeiras 72h após a punção lombar. A maioria dos casos melhora espontaneamente dentro de uma semana. O diagnóstico é clínico, não sendo obrigatória a realização de exames de neuroimagem para confirmá-lo. Os achados mais comumente encontrados nesses exames são desabamento cerebral, ingurgitamento dos seios venosos, presença de coleções subdurais, alargamento da hipófise e realce meníngeo ao contraste. TRATAMENTO DA CEFALEIA POR HIPOTENSÃO LIQUÓRICA 1. O tratamento é feito com medidas não farmacológicas, como repouso relativo e hidratação por via oral (NÃO DEVEMOS RECOMENDAR HIDRATAÇÃO ENDOVENOSA A PACIENTES QUE PODEM INGERIR LÍQUIDOS). 2. Alguns especialistas recomendam o uso profilático de cinta compressiva abdominal, que aumentaria a pressão intra- abdominal e tenderia a causar o fechamento do orifício de vazamento do líquor mais rapidamente. 3. Podem ser prescritos analgésicos simples, combinados ou não à cafeína, anti-inflamatórios e, com menor evidência, gabapentina, teofilina e corticoides. 4. Em casos moderados a graves, o tratamento é feito com “blood patch”. O paciente é levado ao centro cirúrgico, realiza- se antissepsia cuidadosa, retiram-se 20 mL de sangue periférico de um dos membros e esse volume é infundido no espaço peridural. A eficácia dessa medida é de 65-98%. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 68CAI NA PROVA (AMP-PR (2020)) Paciente refere dor de cabeça persistente, diária, início recente, de localização occipitofrontal, com característica às vezes latejante, melhora ao deitar e piora quando se senta ou fica na posição ortostática. Qual é a primeira hipótese diagnóstica? A) Cefaleia em salvas. B) Hemicrania contínua. C) Cefaleia do tipo tensional crônica. D) Meningite viral (cefaleia devido quadro infeccioso). E) Cefaleia por baixo volume de líquido cerebrospinal. COMENTÁRIO Estrategista, essa é uma interessante questão em que não basta conhecer os sinais de alerta para cefaleias secundárias, mas, também é importante reconhecer o padrão de dor associado à hipotensão liquórica. Vamos relembrar sobre as cefaleias associadas à variação de pressão intracraniana: 1- Na cefaleia associada à hipertensão intracraniana é comum o aparecimento de dor quando o paciente faz atividade física ou uma manobra de Valsalva. Isso ocorre porque há um aumento transitório da pressão intracraniana, podendo levar à dor. Além disso, classicamente, o paciente piora quando está em decúbito, podendo ser acordado pela dor! 2- Na cefaleia por hipotensão liquórica, mais comum após punção liquórica ou raquianestesia, o paciente apresenta uma cefaleia com uma característica muito peculiar: a piora quando está sentado ou em pé e melhor ao se deitar! Isso ocorre pois quando o paciente se deita, ele elimina a atuação da gravidade e, ao menos momentaneamente, cessa a saída de LCR do espaço subaracnóideo. Vamos às alternativas Incorreta a alternativa A. A cefaleia em salvas é um tio de cefaleia primária caracterizada por crises de dor unilaterais associadas, ipsilateralmente, a sinais de ativação trigêminoautonômica (coriza, hiperemia ocular, ptose, rubor facial, miose) ou, alternativamente, à evidência de inquietação e agitação. As crises são muito intensas, podem durar de 15 a 180 minutos e recorrer de 1 a 8 vezes ao dia. Não há essa correlação de piora com ortostase. Incorreta a alternativa B. O quadro também não é sugestivo de hemicrânia paroxística, outra cefaleia trigêminoautonômica. Incorreta a alternativa C. A associação postural e o padrão de dor são característicos de uma cefaleia secundária, não de uma entidade primária. Incorreta a alternativa D. Um quadro de meningite viral poderia levar à hipertensão intracraniana e com isso a um padrão de dor associado à piora quando o paciente se deita e melhora ao se levantar, o oposto do descrito na questão. Correta a alternativa E. A cefaleia pós-raquianestesia classicamente situa-se na região occipital e se agrava na posição sentada ou ortostática, diminuindo drasticamente de intensidade ao assumir-se o decúbito horizontal. Sua gravidade é maior quando se inicia nas primeiras 24h. A cefaleia pode ter características de enxaqueca em pacientes portadores desse antecedente. Cerca de 90% dos casos ocorrem dentro das primeiras 72h após a punção lombar. A maioria dos casos melhora espontaneamente dentro de uma semana. Acompanha-se de outros sintomas em cerca de 70% dos casos, incluindo náuseas, rigidez de nuca, lombalgia, vertigem, diplopia, visão turva, fotofobia, tontura, perda auditiva ou zumbido. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 69 3.4 . CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA A cefaleia crônica diária é definida pela presença de dor de cabeça em pelo menos 15 dias por mês, durante 3 meses seguidos, ou em mais de 180 dias por ano. Ela pode ser decorrente de cefaleias primárias, como enxaqueca crônica, cefaleia do tipo tensão crônica, hemicrania contínua, cefaleia nova diária persistente e cefaleia em salvas crônica. Sua causa mais comum, entretanto, é o uso excessivo de analgésicos. 3.4.1. CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA POR USO EXCESSIVO DE ANALGÉSICOS A cefaleia crônica diária por uso excessivo de analgésicos chega a afetar entre 1-2% da população mundial. Infelizmente, muitos colegas desconhecem a entidade e, ao atenderem pacientes com essa doença, em vez de recomendarem a suspensão do medicamento, acabam prescrevendo mais analgésicos e agravando ainda mais o quadro. Ela corresponde a cerca de 50% dos atendimentos em centros especializados de cefaleia. A maioria dos pacientes descreverá sua dor com as características de enxaqueca (65%). Vinte e sete porcento apresentarão cefaleia de padrão tensional e, em 8%, a dor terá características mistas. Quando o paciente deixa de usar analgésicos, a tendência é que a dor melhore, confirmando a hipótese inicial. Para diagnosticarmos um paciente com cefaleia crônica diária por uso excessivo de analgésicos, ele deve preencher os critérios para cefaleia crônica diária (≥ 15 dias de cefaleia por mês, por 3 meses seguidos) e para o uso excessivo de medicamentos: • Analgésicos simples: uso por ≥ 15 dias por mês, por 3 meses seguidos; • Outros medicamentos sintomáticos: uso por ≥ 10 dias por mês, por 3 meses seguidos. Em nosso meio, ergotamínicos e combinações analgésicas são os medicamentos mais associados ao uso excessivo e à cefaleia crônica diária. O paciente apresentará dor de cabeça de padrão enxaquecoso ou tensional, de intensidade variável e que é aliviada temporariamente com uso de sintomáticos. O uso constante desses fármacos (diário ou quase que diário) levará a um processo de adição, associando-se a sintomas de abstinência quando os níveis séricos do medicamento diminuírem. Por essa razão, muitos pacientes apresentarão, além da cefaleia, náuseas, astenia, dificuldade de concentração, alterações de memória e irritabilidade. Ele passa a usar o sintomático como se fosse um preventivo, por medo de sentir esses sintomas, e perpetua o quadro. O tratamento inicial é realizado com educação do(a) paciente, explicando a ele(a) sobre os riscos do uso excessivo de sintomáticos e de sua relação com a manutenção da dor de cabeça. Além disso, deve ser informado que o uso diário de analgésicos diminui a eficácia da maioria dos tratamentos profiláticos, excetuando-se o topiramato, o erenumab e a toxina botulínica. O passo seguinte é a interrupção do uso de analgésicos. Só essa medida é capaz de trazer um alívio de 50% das dores em 72% dos pacientes nos primeiros 6 meses, sendo que a maioria melhora nos primeiros 2 meses. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 70 Em casos extremos, recomenda-se internar o paciente para realizar o processo de desintoxicação. Este autor já atendeu uma paciente que usava dipirona gotas, chegando a comprar 15 frascos desse medicamento por mês. Ela contou que o farmacêutico perguntou se ela possuía algum comércio, pois achou que a compra fosse para revenda (na verdade, ela comprou 30 frascos; os outros 15 eram para o marido). Vale ressaltar que a suspensão abrupta dos analgésicos pode ser recomendada, exceto para pacientes que usem opioides, devido ao risco de síndrome de abstinência (veja mais detalhes no capítulo CAI NA PROVA (SES-PE (2023)) Uma paciente de 25 anos, portadora de enxaqueca desde a puberdade, observou aumento da frequência das crises, o que relacionava à tensão durante a preparação para o concurso da residência médica. Passou a usar paracetamol e codeína com frequência quase diária nos últimos seis meses. Há 20 dias, a cefaleia se tornou praticamente contínua e não está melhorando com o aumento da dose dos analgésicos. O exame neurológico é totalmente normal e não há outros sintomas sistêmicos. Qual seria a melhor conduta neste momento? A) Suspender imediatamente o uso do paracetamol-codeína B) Internar em regime de urgência para realizar ressonância magnética de encéfalo C) Prescrever um curso de sete dias de prednisona D) Proibir, em definitivo, o uso de opioides para o tratamento da enxaqueca E) Rever o diagnóstico de migrânea, pois a evolução está incompatível COMENTÁRIO Dependência Química, no livro de Psiquiatria). Nesse momento, devem ser prescritos dois medicamentos:um de resgate e um preventivo. A escolha do preventivo obedece aos mesmos princípios do tratamento profilático para enxaqueca e cefaleia do tipo tensão. A medicação de resgate deve ser de classe diferente daquela usada excessivamente e, no máximo, tomada duas vezes na semana. Alguns autores recomendam que se prescreva um curso curto (ponte) com corticoides ou anti- inflamatórios não hormonais. Essa questão foi estrategicamente escolhida para discutirmos o manejo da cefaleia crônica por abuso de analgésicos. A resposta dada pela banca é polêmica, uma vez que, no mínimo, há duas alternativas corretas. Vejamos. O enunciado descreve um quadro típico de migrânea crônica, transformada a partir do uso excessivo de analgesia combinada, incluindo um opióide. Diante desse quadro, qual é a conduta a ser tomada? Cessar o abuso de analgésico, motivo principal para o desfecho clínico, e, de fato, oferecer alternativa de tratamento. De preferência, iniciar profilaxia e ofertar via analgésica alternativa, o que, na maioria dos guidelines seria feito com AINEs (posto que a paciente está usando analgésico simples com opióide), ou clorpromazina e de acordo com poucos protocolos, corticoterapia. O problema da questão é considerar apenas um curso de corticoterapia como tratamento possível. De fato, o uso de prednisona poderia ser uma alternativa (embora não seja a melhor). O problema é que é inadmissível não suspender o analgésico com opioide! Esse é o motivo da paciente estar com migrânea crônica. Iniciar o corticóide, sem retirar a analgesia combinada seria como abrir uma torneira que enche um balde furado. É mais sensato, primeiro, fechar o furo que drena a água do balde. Sendo assim, entendo que a alternativa A é no mínimo, também correta! Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 71 3.5. CEFALEIA NOS TUMORES CEREBRAIS A cefaleia nos pacientes com tumores cerebrais ocorre devido à pressão sobre estruturas encefálicas inervadas: artérias da base, vasos meníngeos, seios venosos, tenda do cerebelo e diafragma da sela, NNCC (V, VII, IX e X), partes moles da cabeça e crânio. Sua localização não é muito específica. Lesões unilaterais podem causar dor ipsilateral, lesões supratentoriais provocam dor frontal e as da fossa posterior manifestam-se por meio de dor occipital. Em muitos pacientes, há o aparecimento de hipertensão intracraniana secundária à hidrocefalia, efeito de massa pelo tumor ou ainda por hemorragia intra ou peritumoral. CEFALEIA NOS TUMORES CEREBRAIS 1. A cefaleia é a manifestação inicial em 20% dos pacientes com tumores cerebrais. 2. Entre 48-60% dos pacientes apresentarão cefaleia em alguma fase. 3. O padrão mais comum é de cefaleia do tipo tensão (40-50%), mas náuseas e vômitos podem estar presentes em 40-60% dos casos. 4. Outros padrões descritos incluem migrânea com aura, cefaleia da tosse, cefaleia do exercício, cefaleia em pontadas, cefaleia em salvas, SUNCT, cefaleia ortostática e hemicrania paroxística crônica. 5. Raramente, os pacientes podem referir piora da dor com manobra de Valsalva, mudança de posição ou exercício. 6. Geralmente, o quadro de cefaleia associa-se a outras manifestações, como crises epilépticas, fadiga, alteração cognitiva ou fraqueza focal. 7. A cefaleia como sintoma isolado é rara (2-16% dos adultos). 8. A tríade clássica de cefaleia intensa, matinal/noturna, acompanhada de náuseas e vômitos, ocorre em apenas 17% dos pacientes. Alguns tumores são mais ou menos associados a quadros de cefaleia. Nos astrocitomas de baixo grau e nos meningiomas, a dor de cabeça não é um sintoma comum. Apenas um terço dos pacientes com meningioma apresenta cefaleia. Já, na carcinomatose meníngea, a cefaleia é bastante prevalente. Nos tumores da fossa posterior, principalmente no meduloblastoma e no ependimoma, a cefaleia é encontrada em 60-83% dos casos. Em pacientes com gliomas de tronco, a incidência de cefaleia é de 44%. Tumores da região selar e parasselar, como adenomas hipofisários e craniofaringiomas, apresentam, além de sintomas visuais (hemianopsia homônima) e endócrinos, cefaleia em 70% das vezes. Para mais informações sobre o tema, recomendamos a leitura do capítulo de Tumores do Sistema Nervoso. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 72 CAI NA PROVA (UERJ (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO - HUPE) - 2024) Jovem de 25 anos, sem comorbidades, procura a atenção primária à saúde (APS) por cefaleia persistente. Relata início do quadro há cerca de um mês, com cefaleia hemicraniana à direita, diária, que atrapalha o seu sono e melhora parcialmente com uso de analgésicos comuns. Paciente apresenta fotofobia, fonofobia e náuseas, ocasionalmente, e nega vômitos, febre, alterações do estado mental ou turvação visual. O exame neurológico não apresenta alterações. A característica do quadro descrito considerada sinal de alarme para causas secundárias de cefaleia é: A) idade de apresentação B) presença de náuseas C) perturbação do sono D) localização da dor COMENTÁRIO Diante de um paciente com cefaleia, identificar os sinais de alerta para cefaleia secundária será fundamental para a elaboração da estratégia de investigação. Veja abaixo os principais sinais de alerta, agrupados no mnêmonico SNOOP: - Sistêmico: Febre, rigidez de nuca, HIV, uso de medicações imunossupressoras e neoplasias - Neurológico: Déficit neurológico focal, crises epilépticas, edema de papila. - Older: Cefaleia que se inicia após os 50 anos de idade. -Onset: Início súbito da dor, pior dor da vida e dor desencadeada por esforço físico/manobra de Valsalva. - Pattern: Cefaleia refratária, mudança de padrão prévio de dor ou caráter progressivo. Incorreta a alternativa A. A idade a partir dos 50 anos que caracteriza sinal de alarme. Incorreta a alternativa B. As náuseas, por si só, não são sinal de alerta. Inclusive, fazem parte dos critérios diagnósticos da migrânea. Correta a alternativa C, O despertar pela dor é um sinal de alerta! Pode sugerir lesões intracranianas incipientes que levam à dor durante o sono por causa da hipoventilação e consequente hipercapnia comuns no final da noite. Incorreta a alternativa D. A localização da dor, isoladamente, não é um sinal de alerta. 3.6. OUTRAS CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 3.6.1. CEFALEIA ASSOCIADA À HIPERTENSÃO ARTERIAL A cefaleia da hipertensão arterial é extremamente rara e ocorre quando o paciente apresenta níveis elevados de PA (geralmente, a sistólica está ≥180 mmHg e a diastólica ≥ Hg 120 mmHg). Os critérios diagnósticos são mostrados na tabela 12. Recomenda-se aprimoramento nesse tema a partir da leitura do capítulo de Urgências e Emergências Hipertensivas, no livro de Cardiologia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 73 Critérios diagnósticos de cefaleia associada à hipertensão arterial A. Cefaleia que preenche o critério C B. Ambos os seguintes Está ocorrendo uma crise hipertensiva Não há sinais clínicos de encefalopatia hipertensiva C. Evidência de causalidade demonstrada por pelo menos dois dos seguintes: Cefaleia desenvolveu-se durante uma crise hipertensiva Um ou ambos destes: Cefaleia piora com o aumento da PA Cefaleia melhora significativamente ou desaparece com a melhora ou a resolução da crise hipertensiva Cefaleia tem pelo menos uma destas três características: Localização bilateral Pulsátil Precipitada por atividade física D. Sem outra explicação melhor para a dor Tabela 12: Critérios diagnósticos da cefaleia associada à hipertensão arterial. CAI NA PROVA (UFGD - 2017) No que diz respeito à relação entre cefaleia e hipertensão arterial, pode-se afirmar que: A) Quanto maior a pressão sistólica, maior a chance de um indivíduo apresentar cefaleia. B) O uso de anti-hipertensivos está associado a uma menor incidência de cefaleia. C) Não existe associação entreos níveis pressóricos e a presença de cefaleia. D) Somente existe associação entre os níveis pressóricos e a presença de cefaleia em níveis tensionais de emergência hipertensiva. E) Níveis tensionais convergentes estão associados a menor prevalência de cefaleia. COMENTÁRIO A cefaleia relacionada à hipertensão arterial é muito rara e, geralmente, ocorre quando o paciente apresenta níveis elevados de PA (geralmente, a sistólica está ≥180 mmHg e a diastólica ≥ Hg 120 mmHg). Além disso, vários estudos sugerem que a pressão diastólica elevada é um fator de risco mais importante do que a elevação da pressão sistólica. Os critérios diagnósticos para essa condição são os seguintes: B. Ambos os seguintes: • está ocorrendo uma crise hipertensiva • não há sinais clínicos de encefalopatia hipertensiva C. Evidência de causalidade demonstrada por pelo menos dois dos seguintes: • a cefaleia desenvolveu-se durante uma crise hipertensiva • um ou ambos destes: Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 74 • a cefaleia piora com o aumento da PA • a cefaleia melhora significativamente ou desaparece com a melhora ou a resolução da crise hipertensiva • a cefaleia tem pelo menos uma dessas três características: • localização bilateral • pulsátil • precipitada por atividade física D. sem outra explicação melhor para a dor. 3.6.2. CEFALEIA ASSOCIADA A SINUSOPATIAS As sinusopatias serão exaustivamente discutidas no capítulo de Rinossinusites, no livro de Otorrinolaringologia. É importante que o(a) candidato(a) saiba que a cefaleia decorrente de sinusopatias é rara. Calma! Eu não estou dizendo que sinusite não cause dor. É que a sinusite está mais associada à ocorrência de dor facial do que de cefaleia. Lembre-se da diferença entre elas explicada logo no começo do capítulo! Merece atenção a sinusite esfenoidal, que pode se manifestar com quadro de dor de cabeça que se localiza na região do vértex (no topo da cabeça, na junção dos ossos parietais). Pacientes com dor localizada nessa região devem ser indagados sobre sintomas de sinusite, como tosse noturna, rinorreia posterior, febre, inapetência e pródromo de infecção viral. Em outras ocasiões, a dor pode ser unilateral, frontal ou retro-orbitária. O exame otorrinolaringológico e a tomografia de seios da face podem ser mais elucidativos no diagnóstico. CAI NA PROVA (USP 2017) Mulher de 46 anos de idade queixa-se de cefaleia hemicrânica direita latejante, especialmente retro-orbitária há 3 dias, de forte intensidade, associada à fotofobia e náuseas associadas especialmente ao deitar. Piora da dor ao subir e descer escadas. Nega febre ou alteração de peso. Nega quadros semelhantes anteriores. No exame clínico, consciente e orientada, sem sinais neurológicos focais ou rigidez de nuca. Discreta hiperemia de orofaringe sem pontos purulentos. Restante do exame clínico está normal. Realizada tomografia computadorizada, exibida a seguir: (Conforme imagem do caderno de questões) O tratamento para a paciente é: Incorreta a alternativa A. Não necessariamente. A elevação da pressão diastólica parece ser mais importante, além do mais, não são todos os pacientes hipertensos que apresentam cefaleia. Correta a alternativa B. De fato. Vários estudos sugerem que o uso de anti-hipertensivos diminui a intensidade e frequência das crises. Incorreta a alternativa C. Existe, sim. A hipertensão pode ocorrer como consequência da dor, no que chamamos de pseudocrise hipertensiva, ou mesmo, a elevação pressórica pode levar à cefaleia, considerando os critérios supracitados. Incorreta a alternativa D. A cefaleia é mais comum quando a PAS é superior a 180 mmHg e PAD, superior a 120 mmHg, mas não necessariamente precisa haver uma emergência hipertensiva. Aliás, a presença de encefalopatia hipertensiva deve ser afastada Incorreta a alternativa E. Na verdade, níveis elevados de pressão diastólica estão associados a maior risco de cefaleia, mas, níveis convergentes não se associam a menor prevalência de cefaleia. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 75 A) Sumatriptano e metoclopramida. B) Dipirona e ciclobenzaprina. C) Amoxicilina e budesonida. D) Oxigênio e verapamil. COMENTÁRIO A paciente apresenta uma dor de cabeça de início agudo e padrão inédito, conhecida como cefaleia aguda emergente. Até prova em contrário, não se trata de cefaleia primária e, por esse motivo, é obrigatória investigação complementar com exame de neuroimagem. Foi realizada tomografia de crânio, que veio normal e, devido à hiperemia de orofaringe, solicitou-se uma TC de seios da face, que evidenciou velamento do seio esfenoidal direito. A sinusite esfenoidal pode manifestar-se por meio de cefaleia hemicraniana ou no vértex. Apesar de a sintomatologia ser muito semelhante a de uma crise de enxaqueca, alguns dos critérios diagnósticos não são preenchidos (pelo menos 5 crises que preencham outros critérios e ausência de uma outra causa que também explique os sintomas). Por essa razão, o uso de sumatriptano não traria melhora à paciente. Correta a alternativa C. Por tratar-se de uma sinusite esfenoidal, o tratamento deverá ser feito com antibiótico (amoxicilina – com ótima penetração em via área superior) e sintomáticos (budesonida). 3.6.3. CEFALEIA ASSOCIADA A FEOCROMOCITOMA O feocromocitoma é um tumor endócrino de células cromafins secretor de catecolaminas. Geralmente, ele situa-se nas glândulas adrenais. Clinicamente, pode manifestar-se por episódios paroxísticos de elevação sintomática da pressão arterial. Um dos sintomas apresentados é uma cefaleia característica, cujos critérios diagnósticos são revelados pela tabela 13. Nos comentários da própria classificação, os autores mencionam que a cefaleia é FRONTAL OU OCCIPITAL, de curta duração (Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 77 CAI NA PROVA (RS - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - UFRGS (HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE - HCPA) - 2024) Assinale a assertiva correta sobre cefaleia. A) A resposta a antagonistas do receptor da serotonina ou a cetorolaco pode ser considerada um fator tranquilizador em relação a causas graves de cefaleia.) B) Cefaleia em trovoada e cefaleia desencadeada por exercício ou por manobra de Valsalva são sinais de alarme em cefaleia. C) O achado de hipertensão arterial em um paciente que vem à Emergência por cefaleia é fator que afasta causas graves de cefaleia. D) Pacientes vivendo com HIV, desde que sob tratamento regular, ao apresentarem cefaleia nova, não requerem investigação adicional. COMENTÁRIO Correta a alternativa B. Exatamente. São fatores que apontam para o risco, sobretudo, de ruptura aneurismática e HSA. Incorreta a alternativa C. A HAS pode ocorrer como consequência da dor, o que chamamos de pseudocrise hipertensiva ou mesmo o pico hipertensivo pode predispor a AVCh ou ruptura aneurismática, causas secundárias de cefaleia. Portanto, a elevação pressórica não tranquiliza na avaliação de uma cefaleia. Incorreta a alternativa D. De forma alguma. O HIV é fator de risco para cefaleias secundárias e deve indicar a investigação mesmo que se o tratamento estiver regular. 3.6.5. CEFALEIA INDUZIDA POR HEMORRAGIA SUBARACNOIDEA Esse assunto será extensamente discutido no capítulo de AVC. No entanto, a hemorragia subaracnoidea (HSA) é o diagnóstico diferencial mais importante das cefaleias secundárias. Em muitas questões, ela é colocada como opção diagnóstica entre as alternativas. O fluxograma para avaliação do paciente com HSA é mostrado na figura 3. A causa mais comum de HSA espontânea é a ruptura de um aneurisma cerebral, localizado habitualmente na região do polígono de Willis. Quando o aneurisma se rompe, ele causa uma cefaleia de caráter explosivo, em trovoada (“thunderclap headache”), o sangue extravasa para as cisternas da base, onde circula o líquor, e isso gera uma irritação das meninges, estimulando terminações nervosas sensíveis à dor. Além da dor, o paciente pode apresentar sinais de rigidez de nuca. A dor atinge sua intensidade máxima dentro de poucos segundos (cefaleia súbita) e, muitas vezes, é descrita como a pior da vida, ou de caráter inédito. A suspeita de HSA obriga-nos a pesquisar sua presença por meio do exame de tomografia sem contraste. As alterações na tomografia de crânio e o restante da investigação estão bem detalhados no capítulo de AVC. De acordo com a regra de Ottawa, com sensibilidade de 100% e especificidade de 15%, pacientes devem ser investigados com tomografia de crânio se forem enquadrados em qualquer um dos critérios a seguir: Incorreta a alternativa A. De forma alguma. As características clinicas, não eventual resposta à analgesia é que indicam para o risco de cefaleia secundária. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 78 • Idade ≥40 anos; • Cervicalgia ou rigidez de nuca; • Perda de consciência testemunhada; • Início durante o exercício; • Início súbito; • Limitação à flexão do pescoço. CAI NA PROVA (SUS- BA - 2023) Mulher de 46 anos de idade, previamente hígida, é admitida na unidade de emergência com queixa de cefaleia de grande intensidade, rigidez cervical e perda de consciência, que ocorreu após esforço físico há 1 hora. Ao exame físico, apresenta flexão limitada do pescoço. De acordo com esse quadro clínico, qual é o diagnóstico etiológico da cefaleia apresentada pela paciente? A) Hidrocefalia aguda B) Cefaleia em “trovoada” (thunderclap) C) Meningite aguda D) Hemorragia subaracnóidea E) Meningoencefalite aguda Incorreta a alternativa A. A hidrocefalia aguda é uma situação que decorre, em geral, pela obstrução do fluxo liquórico. Neoplasias e sangramentos são as principais causas. A princípio, não é uma situação primária, ou seja, é consequência de outra condição. Além disso, estatisticamente, não é a condição mais provável e isoladamente não explicaria situação de irritação meníngea. Incorreta a alternativa B. Provavelmente, a cefaleia da paciente teve padrão thunderclap, ou seja, iniciou-se e atingiu máxima intensidade em poucos segundos, o que é típico da ruptura aneurismática. Entretanto, esse termo é apenas descritivo, não se refere a uma etiologia propriamente dita como pede o enunciado. Incorreta a alternativa C. A instalação aguda, a ausência de febre, a recuperação espontânea do nível de consciência e a cefaleia de grave intensidade como principal manifestação clínica argumentam contra essa hipótese e a favor da ruptura aneurismática. Correta a alternativa D. Exatamente. Essa é a principal hipótese diagnóstica, sendo a ruptura aneurismática a causa provável. Incorreta a alternativa E. Assim como o descrito para a hipótese de meningite aguda, essa não é a melhor alternativa diagnóstica. CAPÍTULO 4.0 NEURALGIA TRIGEMINAL COMENTÁRIOS As neuralgias podem ser do trigêmeo (obrigatoriamente, com dor na face), do nervo occipital (na região posterior), do nervo intermédio (acomete o meato acústico interno), do nervo nasal (nasociliar ou síndrome de Charlin) e do nervo glossofaríngeo. Todas essas são unilaterais. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 79 O nervo trigêmeo (V NC) é responsável pela inervação sensitiva da face, da cavidade oral, órbitas, grande parte do crânio e das estruturas intracranianas. Além disso, ele realiza outras funções, como a inervação dos músculos mastigatórios. Na face, existem três ramos sensitivos: V1 (oftálmico), V2 (maxilar) e V3 (mandibular), representados na figura 13. Figura 13 (elaborada pelo autor): Divisões sensitivas do trigêmeo na face. Como toda inervação sensitiva, existe um gânglio associado a ele. No caso do trigêmeo, é o gânglio trigeminal ou de Gasser, situado no cavo de Meckel. Essa estrutura é frequentemente alvo de tratamentos neurocirúrgicos para a neuralgia trigeminal. A neuralgia trigeminal caracteriza-se por episódios recorrentes de dor em choque, de curta duração, com início e término abruptos e desencadeados por gatilhos táteis. A dor localiza-se em uma ou mais divisões do V NC, sendo mais comuns nos territórios de V2 e V3. Ela afeta 4-13 pacientes a cada 100 mil habitantes, preferencialmente mulheres, geralmente acima dos 50 anos. Em pacientes jovens, pode ser a manifestação de esclerose múltipla. A maioria dos casos (80-90%) ocorre por compressão do nervo por uma artéria ou veia aberrante, mas há descrição de casos secundários a schwannoma do VIII NC, cisto epidermoide, aneurismas cerebrais ou malformações arteriovenosas (MAV). Podemos classificar a neuralgia trigeminal em: • Clássica: compressiva (vaso aberrante); • Secundária: por exemplo, esclerose múltipla ou tumor; • Idiopática. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 80 A investigação por exame de neuroimagem está indicada quando não houver causa aparente, como trauma ou herpes. Os principais diagnósticos diferenciais são SUNCT, cefaleia em salvas e a cefaleia primária em pontadas. O tratamento da neuralgia trigeminal deve ser realizado com carbamazepina (melhora de 58-100%) como primeira opção. Alternativas incluem oxcarbazepina, baclofeno (70% de melhora), lamotrigina, pimozida, tizanidina, gabapentina e lidocaína intranasal. Administração endovenosa de fenitoína ou lidocaína para alívio do quadro agudo apresentam benefício discreto. Outras opções com pouca evidência compreendem valproato, pregabalina, clonazepam, topiramato e misoprostol. Em casos refratários, podem ser indicados a aplicação de toxina botulínica ou o tratamento cirúrgico. As modalidades cirúrgicas existentes são a descompressão microvascular ou as cirurgias ablativas(rizotomia, radiocirurgia ou neurectomia). CAI NA PROVA (HOSPITAL INFANTIL SABARÁ - HIS - 2023) Mulher, 76 anos de idade, procura atendimento na UBS por episódios de dor intensa em hemiface esquerda, principalmente em região maxilar e de mandíbula, graduando até 8/10 na escala de dor. O quadro se repete há 3 anos, associado a sensação de choques e é precipitado pela mastigação ou frio. Tem hipertensão arterial sistêmica, em uso de hidrocloratiazida e enalapril. Ao exame, apresentase em bom estado geral, com sinais vitais estáveis, com alodínia térmica em hemiface esquerda. Demais exames segmentares sem alterações. Diante do quadro, indique a melhor opção terapêutica para controle da dor: A) Tramadol e oxigenioterapia. B) Analgésico comum e escalonar para opióides, conforme resposta. C) Carbamazepina, oxcarbazepina ou gabapentina. D) Analgésico comum associado à corticoterapia. COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A. O tramadol pode ser um tratamento alternativo na neuralgia do trigêmeo, contudo, a oxigenioterapia, no contexto da cefaleia, está indicada no manejo da cefaleia em salvas. Incorreta a alternativa B. Analgésicos comuns e mesmo os opióides não são suficientes para o manejo da neuralgia do trigêmeo. Correta a alternativa C. Exatamente. Essas são as drogas de primeira e segunda linha no manejo da neuralgia do trigêmeo. Incorreta a alternativa D. Nem os analgésicos comuns e nem o corticóide têm eficácia apropriada na neuralgia do trigêmeo. Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 81 https://estr.at/ifkk https://estr.at/ifkk Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 82 CAPÍTULO 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Charles, A. The Migraine Aura. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24(4, Headache):1009-1022. 2. Vargas, BB. Acute Treatment of Migraine. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24(4, Headache):1032-1051. 3. Schwedt, TJ. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24(4, Headache):1052-1065. 4. Friedman, DI. Headaches Due to Low and High Intracranial Pressure. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24. 4, Headache):1066-1091. 5. Robbins, MS. Headache in Pregnancy. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24. 4, Headache):1092-1107. 6. Burish, M. Cluster Headache and Other Trigeminal Autonomic Cephalalgias. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24. 4, Headache): 1137-1156. 7. Tepper, SJ. Cranial Neuralgias. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24. 4, Headache): 1157-1178. 8. Chou, DE. Secondary Headache Syndromes. Continuum (Minneap Minn). 2018 Aug;24. 4, Headache): 1179-1191. 9. Ashina. M. Migraine. N Engl J Med 2020; 383:1866-1876. 10. Carvalho, JJF e Vincent, MB. Fisiopatologia das Cefaleias Primárias. In Gagliardi, RJ e Takayanagi, OM. Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2ª Ed. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2019. CAPÍTULO 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao término de um dos capítulos mais importantes em Neurologia. As cefaleias estão presentes em questões de provas de Residência dos quatro cantos do país. Muitas delas exigem o conhecimento dos critérios diagnósticos, colocando um quadro clínico e perguntando que critério está faltando. Em outras, o examinador coloca um caso e pede o diagnóstico, colocando causas primárias e secundárias entre as alternativas. Nesse ponto, é importante que o(a) futuro(a) Residente esteja familiarizado(a) com o fato de que os critérios diagnósticos devem ser obedecidos. Assim, em questões que mencionam quadros recorrentes e estereotipados, o diagnóstico mais provável seria de cefaleia primária. Quando o caso mostra um quadro inédito, até que se prove o contrário, o diagnóstico será de causa secundária, e a conduta será investigar com exames complementares. Podemos dividir os padrões de apresentação das cefaleias em 4 tipos (figura 13): • Cefaleia aguda emergente: primeiro episódio de dor de cabeça, geralmente associado a uma causa secundária; • Cefaleia aguda recorrente: crises repetidas de dor, sempre com o mesmo padrão. Esse é o que vemos classicamente na maioria das cefaleias primárias, sendo um padrão tranquilizador; • Cefaleia crônica progressiva: geralmente ela é decorrente de um processo que cause hipertensão intracraniana, como hidrocefalia ou lesão expansiva intracraniana; • Cefaleia crônica não progressiva: apesar de ser devida a uma causa secundária na maioria das vezes, as etiologias costumam ser mais benignas. O exemplo clássico é a cefaleia crônica diária por uso excessivo de analgésicos. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 83 Figura 14: Padrões de evolução dos quadros de cefaleia Com base nesse aspecto, na hora de resolver as questões, o(a) Estrategista deve tentar individualizar o padrão descrito nas questões e classificar o tipo de cefaleia apresentado. É importantíssimo praticar, resolvendo as questões e checando as respostas nos comentários. Procuramos sempre fazer um breve resumo do que estamos tratando e, quando necessário, explicar o raciocínio usado na resolução da questão. Depois, basta carimbar sua matrícula para a Residência no serviço desejado! Bons estudos! Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 84 http://med.estrategia.com 1.0 ABORDAGEM INICIAL 1.1. INTRODUÇÃO 1.2. CLASSIFICAÇÃO 1.3. ANAMNESE 1.3.1. CARACTERÍSTICAS DA DOR 1.3.2. FATORES DESENCADEANTES 1.3.3. FENÔMENOS ACOMPANHANTES 1.3.4. FATORES DE RISCO 1.3.5. FATORES DE MELHORA E DE PIORA DA DOR 1.4. EXAME FÍSICO 1.5. SINAIS DE ALARME NAS CEFALEIAS 1.6. RESUMO DA ANAMNESE NO PACIENTE COM CEFALEIA 2.0 CEFALEIAS PRIMÁRIAS 2.1. ENXAQUECA (MIGRÂNEA) 2.1.1. FISIOPATOLOGIA 2.1.2. PRÓDROMO E AURA DE ENXAQUECA 2.1.3. CARACTERÍSTICAS DA DOR NA MIGRÂNEA 2.1.4. COMPLICAÇÕES DA ENXAQUECA 2.1.5. FATORES AGRAVANTES E DESENCADEANTES 2.1.6. TRATAMENTO 2.1.6.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 2.1.6.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO 2.2. CEFALEIA TIPO TENSÃO 2.2.1. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS 2.2.2. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 2.2.2.1. CEFALEIA CERVICOGÊNICA 2.2.3. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 2.2.4. TRATAMENTO PROFILÁTICO 2.3. CEFALEIA EM SALVAS 2.3.1. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS E2.3.2. TRATAMENTO 2.3.2.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO 2.3.2.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO 2.3.3. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 2.4. OUTRAS CEFALEIAS PRIMÁRIAS 3.0 CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 3.1. ARTERITE DE CÉLULAS GIGANTES 3.2. TROMBOSE VENOSA CEREBRAL E PSEUDOTUMOR CEREBRAL 3.2.1. TROMBOSE VENOSA CEREBRAL 3.2.2. PSEUDOTUMOR CEREBRAL 3.3. CEFALEIA POR HIPOTENSÃO LIQUÓRICA 3.4. CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA 3.4.1. CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA POR USO EXCESSIVO DE ANALGÉSICOS 3.5. CEFALEIA NOS TUMORES CEREBRAIS 3.6. OUTRAS CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 3.6.1. CEFALEIA ASSOCIADA À HIPERTENSÃO ARTERIAL 3.6.2. CEFALEIA ASSOCIADA A SINUSOPATIAS 3.6.3. CEFALEIA ASSOCIADA A FEOCROMOCITOMA 3.6.4. OUTRAS CEFALEIAS SECUNDÁRIAS 3.6.5. CEFALEIA INDUZIDA POR HEMORRAGIA SUBARACNOIDEA 4.0 NEURALGIA TRIGEMINAL 5.0 LISTA DE QUESTÕES 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAISou presença de halos ao redor da luz. Alguns defeitos do campo visual são sugestivos de lesões de via visual no encéfalo, mas eles não devem ser confundidos com a aura visual de enxaqueca, como veremos adiante. Em pacientes com perda de visão súbita, unilateral e grave, devemos considerar o diagnóstico de neurite óptica (ver no capítulo sobre Doenças Desmielinizantes). 1.3.4. FATORES DE RISCO Determinados fatores de risco devem ser obrigatoriamente pesquisados em todos os pacientes com cefaleia, pois aumentam muito a probabilidade de que se trate de uma causa secundária. Entre eles, temos: • Início da dor após os 50 anos de idade; • Associação de anticoncepcional com tabagismo; • Uso de anticoagulantes; • Imunossupressão (HIV, LES) e câncer; Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 11 Devemos ter atenção especial aos pacientes com cefaleia iniciada após os 50 anos de idade. Nesses doentes, condições que podem causar cefaleia incluem arterite de células gigantes (arterite temporal), neuralgia do trigêmeo, hematoma subdural crônico, herpes-zóster ou neuralgia pós-herpética, os temidos tumores cerebrais, além de quadros benignos, como cefaleia hípnica e a cefaleia primária da tosse. Em mulheres com enxaqueca, a associação de anticoncepcional e tabagismo pode aumentar muito o risco de desenvolver trombose venosa cerebral, especialmente após os 35 anos de idade. Ainda em relação a distúrbios hematológicos, agora falando sobre risco de sangramento, cefaleia em pacientes com plaquetopenia, uso de anticoagulantes ou portadores de hemofilia, por exemplo, deve sempre suscitar uma investigação mais apurada para causas secundárias. Pacientes com história de câncer ou imunossupressão e que passem a desenvolver um quadro novo de cefaleia devem também ser investigados. Os possíveis achados incluem metástases cerebrais, aumento de dimensões de um tumor cerebral primário já previamente conhecido ou neuroinfecção oportunista, como criptococose ou neurotoxoplasmose. Define-se cefaleia crônica quando ela ocorre em pelo menos 15 dias ao mês, durante pelo menos 3 meses seguidos, ou em mais de 180 dias no último ano. Como veremos neste capítulo, a causa mais frequente de cefaleia crônica diária é o uso diário ou quase diário de analgésicos ou outros sintomáticos para o tratamento de crises de cefaleia. Cerca de 50% dos casos de cefaleia crônica diária são decorrentes desse distúrbio, portanto o(a) futuro(a) Residente precisa estar bastante atento(a) para essa possibilidade nas provas. 1.3.5. FATORES DE MELHORA E DE PIORA DA DOR Um dos tipos mais comuns de cefaleia, a enxaqueca costuma piorar a intensidade da dor quando o paciente se movimenta ou faz qualquer esforço físico. Dessa forma, é muito comum que nos deparemos com relatos de pacientes que literalmente “ficam de cama” por causa desse tipo de dor. Um sintoma clássico de cefaleia por hipertensão intracraniana é a dor de cabeça no final da madrugada, que chega a despertar o paciente. Nos casos de hipertensão intracraniana, o paciente poderá queixar-se de borramento visual ao abaixar a cabeça, diplopia, incoordenação e desequilíbrio. A cefaleia ocorre tipicamente no final da madrugada. Isso acontece porque, no terço final do período de sono, apresentamos retenção de gás carbônico, cujo efeito é vasodilatador. Imagine que haja algum processo expansivo com efeito de massa intracraniano ainda compensado, que não tenha aumentado a pressão intracraniana (PIC) a ponto de causar dor. Com a retenção de CO2, ocorre vasodilatação cerebral e mais sangue irá para o encéfalo, consequentemente, ocorrerá aumento da PIC, atingindo-se nesse momento o limiar para o surgimento de dor, o que desperta o paciente. Para mais detalhes sobre esse assunto, recomendamos a leitura do capítulo Coma e alterações da consciência. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 12 1.4. EXAME FÍSICO Na propedêutica de pacientes com cefaleia, o exame físico deve ser direcionado para a pesquisa de: • PA e frequência cardíaca; • Pesquisa de sopros: olhos, pescoço, cabeça (sugestivos de malformações arteriovenosas-MAV); • Palpação da cabeça, pescoço e ombros; • Palpação das artérias temporais e cervicais; • Exame da coluna e musculatura cervical; • Exame neurológico. Assim como encontramos cefaleia por aumento da pressão intracraniana, a diminuição da PIC também pode levar ao quadro de cefaleia. A cefaleia por hipotensão intracraniana, geralmente ocorrendo após punção lombar para coleta de líquor ou raquianestesia, é muito comum. Caracteristicamente, ela piora com a posição sentada e em pé e alivia com decúbito dorsal. Veremos mais detalhes adiante, na parte sobre cefaleias secundárias. Cabe ressaltar que, especialmente em crianças, a dor O fato de haver alterações no exame físico não significa necessariamente que se trate de uma cefaleia secundária. Alguns achados podem ser obtidos em pacientes com cefaleias primárias, como dor à palpação muscular, encontrada na cefaleia do tipo tensão. Alodinia (dor ao estímulo tátil) e hiperalgesia (dor muito intensa desencadeada ao estímulo doloroso fraco) são descritas por pacientes com enxaqueca. Alterações autonômicas unilaterais, como rinorreia, miose, lacrimejamento e rubor facial, são parte do quadro de pacientes com cefaleias trigêmino-autonômicas, como as em salvas. Excetuando-se sinais encontrados em quadros benignos, a imensa maioria dos achados anormais do exame clínico e neurológico apontará para uma causa secundária. Obrigatoriamente, devemos procurar por sinais de comprometimento de nervos cranianos envolvidos com a motricidade ocular, principalmente o VI e o IV NC. O exame de fundoscopia poderá revelar papiledema (figura 1). Figura 1: Papiledema. Trata-se da perda da nitidez de contornos do disco óptico secundária ao aumento da pressão intracraniana. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 13 Pacientes com feocromocitoma (veja mais em Distúrbios da Adrenal, no livro de Endocrinologia) apresentam crises de cefaleia associadas à sudorese, taquicardia e hipertensão arterial. Nos quadros de dissecção de carótida interna ou de artéria vertebral, o paciente pode apresentar, além da cefaleia, síndrome de Horner, miose, semiptose e anidrose ipsilaterais, em decorrência de uma lesão da via simpática, que passa pelo tronco encefálico e por dentro da adventícia da carótida (veja com mais detalhes nos capítulos de Anatomia, fisiologia e semiologia neurológica e no de AVC). Idosos com história de trauma recente (nas últimas 3-4 semanas) podem apresentar cefaleia associada a déficit neurológico focal progressivo, compatível com formação de um hematoma subdural crônico (leia mais no capítulo de Traumatismo cranioencefálico). 1.5. SINAIS DE ALARME NAS CEFALEIAS Sinal de alarme é qualquer indício de que o paciente possa ter uma cefaleia secundária. O(a) futuro(a) Residente deve estar absolutamente familiarizado(a) com esses sinais. As principais queixas e achados nestes pacientes incluem dados obtidos tanto na anamnese quanto no exame físico. Uma vez presente qualquer sinal de alarme, o paciente tem indicação formal de realização de investigação por meio de exame de neuroimagem (TC de crânio com ou sem contraste ou RM de crânio). Podemos resumir as principais indicações de investigação de pacientes com cefaleia pelo acrônimo “INSIPIDA”, conforme a tabela 2. Sinais de alarme nas cefaleias (INSIPIDA) I - Início Início súbito N- Neurológico Alterações no exame neurológico, convulsão S - Sistêmico Toxemia, rigidez de nuca, rash cutâneo e imunossupressão I - Idade Início após os 50 anos de idade P - Papiledema Presença de borramento da papila ao fundo de olho I - Inédita Ausência de episódios prévios de dor com mesmas características D - Despertar Cefaleiaque desperta o paciente A - Anticoagulantes Cefaleia em pacientes fazendo uso de anticoagulantes Tabela 2: Mnemônico “INSIPIDA” para indicar realização de exames de imagem em pacientes com suspeita de cefaleia secundária. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 14 Considerando a suspeita de hemorragia subaracnoidea (HSA) como a causa mais grave de uma cefaleia de início recente, inédita, muitas vezes súbita ou a pior da vida, devemos ter em mente que em 95% dos casos a tomografia é capaz de mostrar alterações nas primeiras horas do sangramento (figura 2). Nos casos em que a tomografia venha normal, a conduta será a realização de uma punção lombar para avaliar a presença de sangramento no líquor. Ainda assim, a própria punção lombar pode causar uma hemorragia acidental, inerente ao procedimento (acidente de punção, sem significado clínico). Por esse motivo, quando a punção lombar revelar hemorragia, deveremos realizar testes com o material obtido para decidirmos se estamos diante de uma hemorragia por acidente de punção ou por uma HSA verdadeira. Os detalhes de como fazer essa diferenciação estão na figura 3 e na parte de HSA do capítulo de AVC. Figura 2 (fonte: Shutterstock): TC de crânio revelando hiperatenuação nas cisternas da base, compatível com quadro de HSA. Figura 3: Fluxograma de investigação de pacientes com suspeita de HSA. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 15 Para você lembrar-se de tudo, imagine a seguinte história: SUBITAMENTE, lembrei-me de um compromisso URGENTE. Hoje, Servirei um Almoço. Que DOR DE CABEÇA! O que será que eu TOMO? Tem que ser rápido. Não dá para adicionar nenhum ingrediente. TOMO SEM CONTRASTE. Se isso não resolver, eu LÍQUOR (ligo) para você. ADEUS (risma). Alguns aspectos sugerem benignidade em pacientes com cefaleia. Na presença de todos estes critérios, não haverá necessidade de realização de exame de imagem: • Idade ≤ 50 anos; • Características de cefaleias primárias; • História familiar de cefaleia; • Exame neurológico normal; • Ausência de mudança de padrão; • Ausência de fatores de risco; • Ausência de novidades na história ou exame físico. CAI NA PROVA (SP - HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS - HSL (2023)) Considere a frequência de alguns sintomas em três subtipos de acidente vascular cerebral: Cefaleia Sentinela Cefaleia Inicial Vômitos Subtipo I 30% 99% 60% Subtipo II 15% 58% 55% Subtipo III 10% 20% 5% Hemorragia intraparenquimatosa, isquemia cerebral e hemorragia subaracnóide correspondem, respectivamente, aos subtipos A) I, III e II. B) II, III e I. C) II, I e III. D) I, II e III. E) III, II e I. COMENTÁRIOS: Questão que foca, provavelmente, em uma única série de casos, contudo, não reflete, de fato, o todo no que se refere à apresentação clínica de AVCh, AVCi e HSA. Antes de qualquer coisa, perceba que a despeito das diferenças de proporção, em TODOS os tipos de evento cerebrovascular é possível que o paciente apresente cefaleia, náuseas e vômitos, por isso, não há critério clínico isolado que permita, com segurança, diferenciar os subtipos de AVC. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 16 De maneira geral, no entanto, temos que a HSA cursa, classicamente, com cefaleia em trovoada (thunderclap), situação em que a dor logo após iniciar, dentro de alguns segundos, atinge máxima intensidade. Quando a dor, nessas características, é seguida por melhora espontânea, seguindo-se a uma piora em um segundo momento, temos a cefaleia sentinela. Pense nessa condição como uma pequena ruptura aneurismática, espontaneamente "coagulada", o que leva à melhora clínica, contudo, que será passageira, posto que o risco de ressangramento é muito alto! Por isso, SEMPRE, que o paciente apresentar cefaleia em trovoada, mesmo que melhore depois, devemos pensar na possibilidade de uma HSA. A cefaleia associada à isquemia é muito menos comum que a que se associa à hemorragia, posto que no sangramento, a variação de pressão intracraniana é muito rápida, não dependendo do estabelecimento de edema, como na isquemia. Sendo assim, é mais comum que o paciente com AVCh tenha cefaleia e vômitos quando comparado ao portador de AVCi. Portanto, a associação correta é que está na letra B: II,III,I Correta a alternativa B. (USP-RP (2023)) Paciente de 23 anos, previamente hígida, é trazida ao pronto-socorro devido queixa de cefaleia súbita e de forte intensidade. Familiares negam perda de consciência, assim como negam episódios prévios semelhantes. Ao exame: sonolenta e confusa (Glasgow 13), pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem déficits neurológicos focais, apresentando rigidez de nuca (+2/+4), afebril e estável hemodinamicamente. Qual a medida inicial indicada? A) Tomografia computadorizada de crânio. B) Punção lombar diagnóstica. C) Administração de solução salina hipertônica 3%. D) Intubação orotraqueal seguida por hiperventilação controlada. COMENTÁRIO Quando falamos que ocorreu uma cefaleia súbita, em trovoada, logo devemos considerar o diagnóstico de hemorragia subaracnoidea (HSA), sendo que 95% das vezes ela é detectável por meio de uma tomografia de crânio. Por ser uma doença potencialmente grave, mesmo que a TC de crânio venha normal, prosseguimos a investigação com a coleta de líquor! Portanto, perceba que a TC de crânio é o método de avaliação inicial, sendo a punção liquórica, o passo seguinte, apenas em casos selecionados. Correta a alternativa A. De fato, a TC de crânio é o exame de escolha para investigação inicial nesses casos! Incorreta a alternativa B. Cuidado com as pegadinhas! A punção liquórica estará indicada, em um caso como esse (forte suspeição de HSA), caso a TC de crânio seja normal! A punção liquórica nunca será o primeiro exame a ser feito! Incorreta a alternativa C. Não há descrição de tríade de Cushing ou sinais iminentes de herniação, que configurariam indicação de solução hipertônica. Incorreta a alternativa D. Apesar da confusão mental (GLG 13), o paciente não tem indicação de IOT! Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 17 (UNESP (2022)) Mulher de 63 anos apresentou quadro súbito de cefaleia holocraniana, vômitos e rebaixamento do nível de consciência. Exame físico: MEG, pontuação da escala de Glasgow de 10, PA 160/100 mmHg, FC 90 bpm. A imagem tomográfica que corresponde ao quadro clínico é: A) B) C) D) COMENTÁRIO Correta a alternativa A. Memorize esse padrão de imagem, estrategista. O sangue (hiperdenso) que desenha o caminho do espaço subaracnóideo, como se fosse uma estrela, é o padrão de imagem típico de uma HSA. Incorreta a alternativa B. O padrão de imagem aqui representado é sugestivo de um AVC isquêmico em território irrigado pela artéria cerebral média. Podemos ver que quase todo o hemisfério cerebral esquerdo está hipodenso, à exceção de pequena faixa paramediana fronta, irrigada pela artéria cerebral anterior, e, pequena faixa paramediana occipital, por sua vez, irrigada pela artéria cerebral posterior. Incorreta a alternativa C. Aqui vemos um padrão de imagem típico de hematoma intraparenquimatoso de provável etiologia hipertensiva. Incorreta a alternativa D. Aqui, também vemos hemorragia intraparenquimatoso, contudo, frontal e bilateral, associadas com focos hemorrágicos bitemporais. Esse é um dos padrões de imagens possíveis de ocorrer no TCE grave. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 18 1.6. RESUMO DA ANAMNESE NO PACIENTE COM CEFALEIA Existem diversos mnemônicos para auxiliar na memorização dessas características. Abaixo, lhes apresento um novo: LICDEI os 4 Fs. Espero que ajude. Características O que pesquisar Localização Uni ou bilateral? Irradiação Irradia para algum lugar? Cárater Pulsátil, em aperto, em queimação, em facada? Duração Quanto tempo duramas crises Evolução Começou leve e foi intensificando ou já começou muito forte? Intensidade De 0 a 10, qual a intensidade da dor? Frequência É o primeiro episódio? Se não, com qual frequência ocorre? Fator de melhora O que faz a dor melhorar. O repouso ajuda? Melhora ao se deitar? Fator de piora O que faz a dor piorar? O esforço piora? Piora ao se deitar? Fatores associados Déficit neurológico, febre, imunossupressão, uso de remédios. Tabela 2 Perguntas essenciais a serem feitas na anamnese do paciente com cefaleia CAPÍTULO 2.0 CEFALEIAS PRIMÁRIAS Como já mencionado, as cefaleias primárias são aquelas nas quais a dor de cabeça é o sintoma determinante, sem o qual a doença não existiria. Além disso, não se encontra outro motivo para explicar melhor a doença. Os critérios diagnósticos são bem estabelecidos e devem ser memorizados. Ajudaremos o(a) futuro(a) Residente com essa tarefa, para que isso possa ser útil em sua aprovação nos melhores concursos de Residência do país. É nossa questão de honra! Dentre as cefaleias primárias, falaremos da enxaqueca, cefaleia do tipo tensão, do grupo da cefaleia em salvas e outras cefaleias trigêmino-autonômicas e, finalmente, de alguns tipos do grupo das outras cefaleias primárias. Os examinadores costumam perguntar muito sobre essas causas e colocar alternativas com todas elas para o diagnóstico diferencial. Quando você for resolver questões sobre o tema, irá encontrar um monte de questões desse tipo. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 19 2.1. ENXAQUECA (MIGRÂNEA) A enxaqueca, ou migrânea, é a segunda causa mais comum de cefaleia primária, afetando 12% da população (17% das mulheres e 6% dos homens). Basicamente, existem dois tipos de enxaqueca: clássica (com aura) e comum (sem aura). Cerca de 25% dos casos de enxaqueca são com aura. Os pacientes com essa condição apresentam crises recorrentes de dor com características típicas. Fora da crise, o paciente fica assintomático. A crise de enxaqueca pode passar por 4 fases: • Pródromo; • Aura; • Cefaleia (única obrigatória); e • Pósdromo (recuperação). Nas próximas linhas, discutiremos a fisiopatologia, o quadro clínico e as modalidades de tratamento sintomático e profilático das crises de enxaqueca. Preste a máxima atenção a tudo, pois é o assunto mais frequente sobre o tema nas provas de Residência. 2.1.1. FISIOPATOLOGIA Antigamente, acreditava-se que a aura ocorria devido ao fenômeno de vasoconstrição cerebral, e a dor era originada pela vasodilatação. Essa teoria está superada! Caso caia em uma prova, não assinale essa resposta. Atualmente, a aura é explicada pela depressão alastrante de Leão, descrita pelo brasileiro Aristides Leão. De acordo com seus estudos, ocorreria uma onda de despolarização cortical, que se propagaria pelo córtex cerebral, levando a manifestações neurológicas transitórias não dolorosas, conhecidas por aura. A dor é devida a um processo inflamatório estéril (não infeccioso) gerando liberação de neuropeptídeos, como o relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), e estimulando o sistema trigêmino-vascular. O nervo trigêmeo é o responsável pela transmissão de impulsos dolorosos da maior parte da cabeça (interna e externamente). O antagonismo sobre o CGRP é um dos mais recentes alvos no tratamento das crises de migrânea, com novos medicamentos entrando para o mercado nos últimos tempos. Por esse motivo, Estrategista, é bom ficar atento(a) com esse assunto, porque examinadores adoram fazer questões inéditas sobre temas corriqueiros. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 20 Cronicamente, os neurônios do sistema trigêmino-vascular acabam sendo cada vez mais responsivos a estímulos, gerando o processo de sensibilização. A sensibilização explica por que um paciente com crise de enxaqueca apresenta alodinia (dor ao estímulo tátil) e hiperalgesia (dor intensa ao estímulo doloroso mínimo), além de justificar o processo de cronificação da dor. Tudo isso pode ser facilitado por uma predisposição genética. As alterações genéticas mais bem estudadas na fisiopatologia da enxaqueca vêm de casos de enxaqueca hemiplégica familiar, um tipo raro de migrânea com aura cuja manifestação não dolorosa mais importante é a hemiparesia. Como algumas bancas entram em detalhes fisiopatológicos da enxaqueca, precisaremos ir mais a fundo nesse momento. Se você não entender, leia novamente, resolva a questão que usamos como exemplo, assista à correção dela em vídeo e veja nossa aula em vídeo também. A transmissão da dor ocorre principalmente por meio da ação do glutamato. Quando ocorre a neurotransmissão glutamatérgica, o excesso dessa substância na fenda sináptica é capturado pelos astrócitos por meio de uma bomba que troca glutamato e Na+ com K+ (Na/K ATPase astrocitária). Disfunções dessa bomba favorecem o acúmulo de glutamato e ele acaba agindo por mais tempo no neurônio pós-sináptico, excitando-o e aumentando a neurotransmissão dolorosa. Quando o glutamato despolariza o neurônio pós-sináptico via receptores NMDA, abrem-se canais de troca de H+ com Ca2+, que internalizam H+ para o neurônio e produzem uma alcalose do meio extracelular. A alcalose amplifica a neurotransmissão glutamatérgica, o que aumentaria a transmissão do impulso doloroso. Como contrapartida, para diminuir os efeitos da alcalose extracelular, o próprio glutamato também despolariza o astrócito, com abertura de canais iônicos NBCe1, que trocam Na+ e HCO3- por H+. O canal astrocitário libera H+ no meio extracelular, acidificando-o, o que torna menos expressiva a neurotransmissão glutamatérgica por vias dolorosas. Assim, temos a captura de H+ pelo neurônio pós-sináptico e a secreção de H+ pelo astrócito. A mutação dos canais NBCe1 astrocitários causa aumento do pH (alcalose) na fenda sináptica por falha na capacidade de acidificação do meio extracelular, levando a uma hiperexcitabilidade da via dolorosa. Na transmissão da sensibilidade dolorosa pelo trato espinotalâmico, o primeiro neurônio da via está no gânglio da raiz dorsal (leia mais no capítulo Anatomia, fisiologia e semiologia neurológica). Por meio dela, ocorre influxo de sódio em canais de Na+ dependentes de voltagem, o que gera uma despolarização neuronal. Entretanto, em pacientes com enxaqueca hemiplégica, pode ocorrer uma hiperfosforilação do canal de Na+ dependente de voltagem, levando a uma diminuição de sua latência para despolarizar-se no gânglio da raiz dorsal (primeiro neurônio sensitivo, portanto pré-sináptico). Isso acaba aumentando a capacidade de neurotransmissão dolorosa. Na região do mesencéfalo, encontramos uma estrutura que se chama substância cinzenta periaquedutal. Seus neurônios liberam GABA, um neurotransmissor inibitório. Seu efeito sobre o neurônio pós-sináptico trigêmino-vascular aumenta o influxo de cálcio intracelular, deixando-o refratário. Assim, o potencial de ação não ocorre. Como o sistema trigêmino-vascular fica inibido, a neurotransmissão dolorosa é naturalmente suprimida. A mutação do gene que codifica o canal de cálcio pós-sináptico ocorre na enxaqueca hemiplégica familiar e retira a ação endógena que inibiria a dor. Lembrando: nós só abordamos esses detalhes todos porque muitos dos examinadores acordam em um “dia de maldade” e produzem questões como a que discutiremos a seguir. A questão é muito antiga e não repetiu, contudo, caiu em uma grande instituição e sempre há o risco de recorrer, por isso, resolvemos manter. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 21 CAI NA PROVA (FMABC 2016) A hiperexcitabilidade do córtex cerebral pode ser responsável pelo aumento da sensibilidade aos estímulos dos pacientes com migrânea. Qual das alterações funcionais abaixo NÃO é capaz de causar esta hiperexcitabilidade? A)Redução da atividade da ATPase astrocitária na via sensitiva. B) Aumento da atividade neuronal na substância cinzenta periaquedutal. C) Redução da latência do canal de sódio no neurônio pré-sináptico sensitivo. D) Aumento do pH na fenda sináptica sensitiva com receptores NMDA. COMENTÁRIO Correta a alternativa A. A ATPase astrocitária na via sensitiva promove a internalização do glutamato por meio de sua troca e da troca de Na+ com K+. Redução da atividade enzimática mantém mais glutamato na fenda sináptica, favorecendo uma maior neurotransmissão dolorosa. Incorreta a alternativa B. A substância cinzenta periaquedutal atua, via GABA, inibindo a transmissão dolorosa, de forma que a redução da atividade de seus neurônios aumente o tráfego de informações relativas à dor. Correta a alternativa C. A latência do canal de sódio no gânglio da raiz dorsal é reduzida por uma hiperfosforilação desses canais, aumentando a excitabilidade neuronal da via dolorosa periférica. Correta a alternativa D. A falha dos canais NBCe1 dos astrócitos em secretar H+ para o espaço extracelular quando estimulados pelo glutamato e seus receptores NMDA causa aumento do pH na fenda sináptica e aumento da hiperexitabilidade na via da transmissão do impulso doloroso. 2.1.2. PRÓDROMO E AURA DE ENXAQUECA O pródromo ocorre em 77% dos pacientes, cerca de 24-48h antes da crise de dor. Nessa fase, os pacientes podem apresentar sintomas afetivos ou vegetativos, que incluem: • Bocejo; • Euforia; • Depressão; • Irritabilidade; • Fissura alimentar; • Constipação; • Rigidez cervical. A aura aparece em 25% dos pacientes com migrânea. Trata-se de uma manifestação neurológica que pode ocorrer antes, durante ou após a crise de dor. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 22 Dependendo do local acometido no córtex, a aura manifesta-se de forma distinta, conforme mostrado na figura 4. Figura 4 (modificada do Shutterstock). Representação esquemática dos tipos de aura de enxaqueca com base em sua origem no córtex cerebral e tronco encefálico. As cores representam os diferentes lobos: vermelho – frontal, azul – parietal, amarelo – temporal, verde – occipital. Em laranja, temos o tronco encefálico e o cerebelo. Na grande maioria dos casos, os sintomas de aura duram entre 5-60 minutos, iniciando de forma gradual e atingindo o pico de intensidade em pelo menos cinco minutos. É muito importante diferenciá-la de um evento cerebrovascular, cujo início é súbito (atinge a intensidade máxima em poucos segundos). Outro diagnóstico diferencial importante é uma crise epiléptica não convulsiva (não motora), cuja duração habitualmente é de menos de 5 minutos. AURA VISUAL 1. Tipo mais comum de aura é a visual, cuja origem ocorre no lobo occipital. 2. Podemos encontrar tanto manifestações positivas quanto negativas. As positivas incluem pontos ou manchas brilhantes no campo visual (fosfenas e escotomas cintilantes) e linhas em zigue-zague ou figuras geométricas (espectros de fortificação). Dentre as negativas, temos os escotomas que podem envolver um único quadrante ou todo um hemicampo. 3. Muitas vezes, as imagens vão progredindo e assumem um formato de letra C na periferia do campo visual. 4. A aura visual deve ser diferenciada da aura retiniana, imensamente mais rara, unilateral e que, em 40% dos casos, pode se associar a uma perda visual irreversível. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 23 A aura sensitiva é comum e ocorre minutos após o surgimento da aura visual, podendo aparecer isoladamente. Ela geralmente começa por um formigamento em um membro e de um lado da face. Depois, a sensação migra para outro lado da face e ao longo do membro. Logo, o formigamento passa e fica uma dormência que pode acometer a mucosa oral e a língua. A progressão de formigamento para dormência é muito sugestiva de migrânea e atípico para isquemia. Aura de linguagem é mais rara e pode aparecer com afasia transitória. Este autor, quando fazia Residência, dividia o quarto da moradia dos Residentes do HCFMUSP com um colega que ficava afásico antes de desenvolver a dor de cabeça. A aura motora é mais rara ainda, mas alguns examinadores adoram perguntar sobre ela, pois é um diagnóstico diferencial de AVC. O paciente apresenta fraqueza dos membros e da face em um hemicorpo, com os sintomas aparecendo em apenas uma parte ou sequencialmente, mas não simultaneamente. Ela ocorre na enxaqueca hemiplégica. Especificamente, esse tipo de aura pode ser mais prolongado, durando até 72h. A enxaqueca com aura de tronco encefálico, antiga enxaqueca basilar, tem entre suas características, além da dor, duração entre 2 minutos e 72h, episódios de até 30 minutos de perda da consciência e os seguintes sintomas: • Vertigem (61%); • Diartria (53%); • Zumbido (45%); • Diplopia (45%); • Sintomas visuais bilaterais (40%); • Parestesias bilaterais (24%); • Rebaixamento do nível de consciência (24%); • Hipoacusia (21%). Veremos sobre essa entidade mais detalhadamente na parte de Vertigens de Origem Central, no livro de Otoneurologia. Em 38% dos pacientes, encontraremos algumas crises de aura sem a ocorrência de dor. Esse fenômeno é denominado equivalente migranoso ou migrânea acefalálgica. Para diagnosticar um paciente com enxaqueca com aura, devemos ter um quadro de dor típica, como veremos em seguida, associada à ocorrência de pelo menos dois episódios de aura com sintomas de natureza visual, sensitiva, de fala ou linguagem, motora, de tronco ou retininana. Além disso, o paciente deve apresentar pelo menos três dos seguintes: • Pelo menos um sintoma de aura aumentada gradualmente em ≥ 5 min; • Dois ou mais sintomas ocorrendo sucessivamente; • Cada sintoma individual dura entre 5-60 min; • Pelo menos um sintoma é unilateral; • Pelo menos um sintoma positivo; • Cefaleia começa dentro de 60 min após o início da aura. Até o presente momento, os critérios diagnósticos de aura não foram perguntados em provas de Residência. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 24 É importante saber que a aura apresenta determinadas características que a diferem de outras manifestações neurológicas, como crises epilépticas e doenças cerebrovasculares. 2.1.3. CARACTERÍSTICAS DA DOR NA MIGRÂNEA Atenção, Estrategista! Caso você deseje figurar entre os quadros de Residentes das maiores instituições do país, você deve prestar enorme atenção a este tópico. É muito comum caírem questões sobre as características da dor na migrânea ou, ainda, ser cobrado o diagnóstico a partir de um caso clínico em que são apresentados sinais e sintomas típicos do paciente com esse padrão de cefaleia. O paciente com migrânea apresenta crises recorrentes de cefaleia, cuja duração varia entre 4 e 72h quando não tratada, ou quando esse tratamento for realizado de forma ineficaz. A palavra hemicrania é derivada de migrânea e significa “metade do crânio”. Isso porque a localização mais comum da dor é unilateral, pegando toda a metade do crânio. No entanto, caso a dor seja bilateral, a migrânea ainda pode ser diagnosticada, desde que outros critérios sejam preenchidos. Os pacientes ainda costumam caracterizar sua dor como pulsátil, latejante ou em pontadas. É comum que as crises de dor sejam incapacitantes ou, pelo menos, moderadas, sendo raramente de intensidade leve. Um dos achados mais específicos da crise de enxaqueca é a piora marcante dos sintomas com a movimentação. Os pacientes preferem ficar deitados, evitando movimentar-se ou fazer qualquer tipo de esforço. Além disso, de forma bastante frequente, quem sofre de enxaqueca costuma referir que sente náuseas ou até mesmo chega a vomitar durante as crises. A explicação é devida ao processo de gastroparesia que acompanha a dor, inclusive diminuindo a capacidade absorção de medicamentos sintomáticos. Classicamente,durante a crise de enxaqueca, os pacientes procuram por um ambiente escuro e silencioso, pois o som e a luminosidade incomodam intensamente (foto e fonofobia). Muitos deles queixam-se de aversão a determinadas fragrâncias, caracterizando o que chamamos de osmofobia. Devido ao fenômeno de sensibilização, muitos desses pacientes apresentam alodinia e hiperalgesia, principalmente no couro cabeludo. Após a resolução da dor, temos a ocorrência do pósdromo, cujas características incluem dor que aparece após movimento súbito da cabeça, sensação de exaustão e, em alguns casos, euforia. De acordo com a 3ª edição da Classificação Internacional das Cefaleias, os critérios diagnósticos de enxaqueca são mostrados na tabela 3. Critérios diagnósticos de migrânea A. Número de crises • Pelo menos 5 crises preenchendo os critérios B a D B. Duração • Cefaleia dura 4-72h sem tratamento eficaz C. Pelo menos 2 dos seguintes: • Unilateral • Pulsátil • Intensidade moderada ou grave • Piora com atividade física ou aversão a ela D. Durante a cefaleia, pelo menos um dos seguintes: • Náuseas E/OU vômitos • Foto E fonofobia E. Diagnóstico diferencial • Sem outra explicação melhor para a dor Tabela 3: Critérios diagnósticos de migrânea. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 25 CAI NA PROVA (USP-SP (2022)) Homem de 28 anos de idade apresenta há 2 anos cefaleia uma vez por semana de forte intensidade, unilateral, pulsátil, com foto e fonofobia e acompanhada por náuseas. Nega fenômenos visuais ou somestésicos. Há 6 meses associou outro tipo de cefaleia quase diariamente, bilateral, de fraca a moderada intensidade, em aperto, sem outros sintomas. Faz uso diário de dipirona e cetoprofeno e nos momentos de exacerbação da dor usa sumatriptano. Quais são os diagnósticos desse paciente? A) Cefaleia tensional e enxaqueca com aura. B) Enxaqueca com aura e cefaleia por abuso de medicações. C) Enxaqueca sem aura e cefaleia por abuso de medicações. D) Cefaleia tensional e enxaqueca sem aura. COMENTÁRIO A enxaqueca é uma dor de duração entre 4 e 72h que costuma ocorrer em apenas um lado da cabeça (hemicraniana), de caráter pulsátil, forte intensidade, associando-se a sintomas de náuseas, vômitos, foto e fonofobia. No início do diagnóstico é comum que o paciente apresente boa resposta com o uso de analgésicos o que pode levar à cefaleia por abuso de analgésicos! Nessa situação, a dor torna-se constante, em geral diária, e não responsiva aos analgésicos simples. Além disso, assume, em boa parte dos dias, características que sugerem uma cefaleia tensional! Portanto, cuidado com a confusão. O paciente da questão não tem migrânea + cefaleia tensional. Tem, na verdade, migrânea com cefaleia por abuso de analgésicos! Gabarito: C. (7.GO - PROCESSO SELETIVO UNIFICADO - PSU GO - 2024) Paciente D.A.O., masculino, 28 anos de idade, solteiro, engenheiro civil, em tratamento para transtorno de ansiedade com venlafaxina 150 mg 1 cps. Nega alergia a medicamentos, nega etilismo, nega tabagismo e nega consumo de outras drogas, pratica natação 3 x por semana (50 minutos por sessão). S1. Paciente refere que há 5 anos tem apresentado crises de cefaleias, sempre foi frequente, estima que nos últimos 3 meses tem passado mais de 15 dias por mês com cefaleia. A cefaleia é bilateral, em aperto, forte intensidade, atingindo o pico em poucas horas e com piora na atividade física rotineira como caminhar e subir escadas. Paciente refere que como sintoma associado sempre apresenta náuseas e fonofobia, porém nega fotofobia. Nega: calafrios, febre, mialgia, perda de peso, claudicação mandibular, sintomas neurológicos focais ou sistêmicos (nega inclusive sintomas como disfasia e positivos/negativos na visão/sensibilidade), agravação postural, precipitar por exercício/postura/tosse/relação sexual. O1. Sem papiledema, sem déficits neurológicos e algum grau de tensão muscular na cervical (sem configuração de ponto de gatilho). Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 26 COMENTÁRIO Estrategista, Primeiramente, em relação ao diagnóstico, vamos relembrar os critérios para o diagnóstico de migrânea episódica: O paciente precisa ter apresentado ao menos 5 crises na vida que durem de 4 a 72 horas e apresentem 2 dos 4 sintomas abaixo: • Caráter unilateral • Pulsátil • Intensidade moderada a grave • Piora com esforço físico. Além disso, o paciente precisa apresentar náuseas e vômitos E/OU foto e fonofobia. Para o diagnóstico de migrânea crônica, o paciente tem que ter crises de dor em ao menos 15 dias no mês e isso tem que ocorrer por pelo menos 3 meses. Importante! Não é necessário que todos os episódios de dor tenham características migranosas! Posto que é comum a sensibilização periférica em casos de dor crônica e a "confusão" de percepção com cefaleia tensional, é comum que o paciente com migrânea crônica descreva crises, de fato, migranosas e crises tensionais. Para preencher o critério, no entanto, ao menos 8 episódios no mês (mais da metade do mínimo de 15 dias de dor necessários para o diagnóstico) devem ter características migranosas. Em resumo, para definir migrânea crônica, o paciente precisa de ao menos 15 dias de dor (sendo ao menos 8 deles com características migranosas) por pelo menos 3 meses. Destaca-se que o abuso de analgésico (15 dias/mês de uso de analgésico comum ou 10 dias/mês de formulações) é o principal fator de risco para a cronificação da migrânea. O enunciado descreve um paciente com mais de 15 dias de dor nos últimos 3 meses, preenchendo os critérios supracitados de migrânea e sem sinais de alerta! Portanto, o gabarito é a letra C O complemento do registro do “A” no modelo SOAP, de acordo com a Terceira Edição da Classificação de Cefaleia do Comitê da Sociedade Internacional das Cefaleias (ICHD-3), é: A) A1: cefaleia tensional crônica diária sem sinal de alarme. B) A1: cefaleia tensional crônica diária com sinal de alarme. C) A1: enxaqueca crônica sem aura sem sinal de alarme. D) A1: enxaqueca crônica sem aura com sinal de alarme. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 27 : ENXAQUECA MENSTRUAL 1. Por definição, são crises de dor de cabeça com relação temporal com o ciclo menstrual. 2. Ocorre em 70% das mulheres com enxaqueca. Entretanto, encontramos migrânea menstrual pura em 7-21% das pacientes e migrânea relacionada à menstruação em 35-56% das pacientes. 3. Pode aparecer entre dois dias antes até três dias após o início da menstruação. 4. Nada impede que ocorram crises de dor fora desse período. 5. A paciente precisa apresentar crises de enxaqueca em pelo menos 2/3 dos ciclos afetados. 6. As crises costumam ser mais intensas, mais prolongadas e menos responsivas ao tratamento. 7. Existe menor associação com a aura de enxaqueca. 2.1.4. COMPLICAÇÕES DA ENXAQUECA O estado de mal enxaquecoso (status migranoso) ocorre quando há uma crise de cefaleia com duração superior a 72h. É uma condição extremamente rara e deve ser considerada quando um paciente com enxaqueca apresenta sintomas típicos e o único critério que não é preenchido é o de duração da dor. Quando nosso paciente apresenta dor que persiste por mais de 72h, o mais provável é que não seja status migranoso, a não ser que todas as outras características clínicas estejam presentes e preencham os critérios da ICHD – 3ª edição. A complicação mais temida é o infarto enxaquecoso, em que o paciente apresenta uma crise de migrânea com aura com duração superior a 1 hora e há evidência de infarto nos exames de neuroimagem. 2.1.5. FATORES AGRAVANTES E DESENCADEANTES Cerca de 75% dos portadores de enxaqueca relatam algum desencadeante. Os principais e suas frequências são mostrados na tabela 4: Desencadeante % Desencadeante % Estresse emocional 80 Álcool 38 Hormônios em mulheres 65 Cigarro 36 Jejum 57 Dormir tarde 32 Clima 53Calor 30 Distúrbios do sono 50 Alimentos 27 Odores 44 Exercícios 22 Cervicalgia 38 Atividade sexual 5 Luzes 38 Tabela 4: Principais desencadeantes de crises de enxaqueca. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 28 2.1.6. TRATAMENTO O tratamento da enxaqueca pode ser profilático ou sintomático. O tratamento sintomático busca aliviar o sintoma de dor e os outros associados ao quadro de enxaqueca, sobretudo as náuseas e os vômitos. 2.1.6.1. TRATAMENTO SINTOMÁTICO O tratamento sintomático obedece a alguns princípios básicos. Inicialmente, o paciente deve ser bem orientado em relação à automedicação, sendo informado sobre doses máximas e risco de abuso de medicações. A cefaleia crônica diária por uso excessivo de analgésicos é uma situação extremamente desagradável, que pode ser evitada com uma boa conversa inicial. As classes de drogas usadas para o tratamento sintomático da migrânea são: • Analgésicos simples: dipirona e paracetamol; • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): cetoprofeno, naproxeno, diclofenaco, piroxicam etc.; • Ergotamínicos: di-hidroergotamina; • Triptanos: sumatriptano, eletriptano, naratriptano, zolmitriptano, frovatriptano, rizatriptano; • Agonista 1F de serotonina: lasmiditan (indisponível no Brasil); • Antagonista do CGRP: ubrogepant e rimegepant (indisponíveis no Brasil); • Antipsicóticos: clorpromazina e haloperidol. A escolha da classe terapêutica vai depender inicialmente da intensidade da dor apresentada pelo paciente. Em casos leves, escolhemos os analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Quando a dor é mais intensa, as melhores opções são os triptanos, medicações desenvolvidas especificamente para o tratamento da migrânea, mas que possuem alguns efeitos colaterais em maior frequência do que os analgésicos e AINEs. Além dos triptanos, casos moderados a intensos também podem fazer uso de ergotamínicos, mas, em nosso meio, essa classe de medicação só é vendida em apresentações associadas a outros medicamentos. Atenção para um tema usado em pegadinhas! Em pacientes com quadro de náuseas e vômitos, o esvaziamento gástrico encontrar-se-á comprometido e, por esse motivo, a via oral não deverá ser escolhida. Isso não significa que o paciente precise ir a um serviço de emergência, uma vez que dispomos de medicamentos que podem ser auto administrados por via nasal, subcutânea e sublingual. Outro ponto é sobre o momento do uso do medicamento sintomático. Sabemos que, quanto mais precocemente ele for usado, maiores as chances de eficácia. No entanto, isso cria um dilema, pois, ao mesmo tempo em que estamos administrando um medicamento mais eficaz, talvez ele não fosse tão necessário, pois a dor ainda estaria em uma intensidade leve. O protocolo de atendimento discutido a seguir é o do Consenso Brasileiro de Tratamento da Migrânea Academia Brasileira de Neurologia. Crianças com história de dor abdominal recorrente e vômitos cíclicos podem desenvolver quadro de enxaqueca no futuro. Algumas questões cobram o conhecimento do chamado equivalente enxaquecoso na infância. E, já que estamos falando de crianças, não custa avisar que, para o diagnóstico de enxaqueca em Pediatria, a duração da crise pode ser a partir de 2 horas. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 29 TRATAMENTO SINTOMÁTICO (DOR 72H) - ESTADO DE MAL ENXAQUECOSO 1. Prescreve-se o tratamento inicial, conforme protocolo para dorCERMAM - 2024) Uma mulher de 29 anos apresenta-se com episódios recorrentes de cefaleia que duram de 4 a 72 horas quando não tratados. As dores de cabeça são frequentemente unilaterais, pulsáteis, de intensidade moderada a severa, e agravadas pela atividade física rotineira. Ela também relata náuseas e fotofobia durante os episódios. Qual é o tratamento abortivo mais apropriado para os episódios de cefaleia desta paciente? COMENTÁRIO Estrategista, temos uma paciente com cefaleia de características migranosas e o enunciado nos questiona acerca do manejo agudo das crises. Sobre o tema, lembre-se do seguinte: Sobre o tratamento agudo, 3 coisas devem ser levadas em consideração: 1- Identificar e evitar a exposição a gatilhos, por exemplo, a ingestão de determinados alimentos 2- Analgesia escalonada. Crises fracas devem ser tratadas com dipirona ou AINE, ao passo que crises fortes, se possível, com triptanos. 3- A crise deve ser tratada logo no início da dor! Quanto maior a duração da crise, maior a chance de intensificação e, especialmente, quando se associa aos vômitos, maior a dificuldade da administração via oral dos medicamentos. A) Triptanos. B) Amitriptilina. C) Topiramato. D) Profilaxia com beta-bloqueadores. Gabarito: A. As alternativas B, C e D descrevem alternativas profiláticas de migrânea. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 31 (USP -SP (2021)) Mulher de 23 anos de idade vem ao Pronto-Socorro com cefaleia contínua há quatro dias. A dor inicialmente era temporal esquerda de moderada intensidade, mas hoje passou a ser holocraniana, de forte intensidade, e associada a náuseas e fotofobia. Nestes quatro dias, medicou-se apenas com dipirona. Refere que tem cefaleia com características semelhantes, mas de fraca intensidade, pelo menos duas a três vezes por mês. Não usa nenhuma medicação contínua. Sem antecedentes patológicos relevantes. O exame clínico (incluindo o exame neurológico) é normal. Na chegada ao Pronto-Socorro recebeu dipirona, cetoprofeno e metoclopramida endovenosa, sem melhora após duas horas. Qual alternativa representa a melhor opção terapêutica? A) Morfina. B) Metilprednisolona. C) Tramadol. D) Clorpromazina. COMENTÁRIO Estrategista, preste muita atenção nessa questão! Temos uma paciente com quadro provável de migrânea que apresenta uma crise prolongada, com duração superior a 72 horas, caracterizando um status migranoso. Já recebeu dipirona, AINE e um antiemético e ainda assim persiste com a dor. Qual seria o próximo passo? Analisando o que aprendemos acima, a dexametasona e em seguida a clorpromazina. No entanto, não há dexametasona entre as alternativas! A questão é polêmica, uma vez que a metilprednisona, muito embora não esteja no consenso de cefaleia da Associação Brasileira de Neurologia, já foi reportada, em relatos anedóticos, como útil no manejo do status migranoso. Além disso, de fato, o “corticóide” (ainda que, especificamente, a dexametasona) “ vem antes da clorpromazina no fluxograma e a paciente já recebeu metoclopramida, outro bloqueador dopaminérgico que, em teoria, traria risco de interação com a clorpromazina. Fato é que, para provas da USP-SP (não é a primeira vez que isso cai nessa banca), esteja atento ao uso da metilprednisona no manejo do status migranoso. Gabarito: B. Incorretas as alternativas A e C. Opióides não devem ser utilizados na crise de migrânea! Tanto pelo risco de adicção quanto pela menor eficácia. (SURCE (2021)) Paciente de 30 anos, feminino, procura atendimento em UPA devido a quadro de cefaleia. A paciente apresenta crises de cefaleia desde os 15 anos, algumas vezes incapacitantes, preferindo locais mais calmos e com pouca luminosidade, deixando de fazer atividades de rotina quando está com dor de cabeça. Algumas das crises são associadas com náuseas e vômitos. Ela procura o atendimento com crise semelhante, com vômitos, iniciada há aproximadamente 20 horas, porém sem apresentar melhora com o uso de analgésicos que usa de rotina. Nega outras queixas ou condições médicas relevantes. Exame físico e neurológico sem alterações. Pressão Arterial 110x70mmHg, Pulso 90 batimentos por minuto. Qual a melhor conduta farmacológica para essa paciente, no momento? A) Dipirona 1 grama via oral. B) Tramadol 100mg endovenoso. C) Dexametasona 10mg endovenoso. D) Metoclopramida 10mg endovenoso. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 32 COMENTÁRIOS. Questão interessante e que reforça o que vimos até aqui. Temos uma paciente com migrânea e que apresenta uma crise que já dura há 20 horas. O enunciado destaca a presença de vômitos e a não resposta com analgésico de uso habitual. Logo em seguida, nos solicita a apontar a melhor conduta farmacológica para essa paciente nesse momento. Uma vez que não se trata de um status migranoso, a dexametasona e a clorpromazina não seriam alternativas no manejo inicial. O tramadol, como vimos, é proscrito no manejo da migrânea. Restam a dipirona e a metoclopramida. Não estaria errado a administração da dipirona, posto que na administração EV poderíamos alcançar nível sérico efetivo da medicação, mesmo que a paciente apresente vômitos. No entanto, há indicação absoluta do uso de antiemético nesse caso! Além do incômodo gerado pelo vômito, ele é um perpetuador da crise e deve ser manejado! Por isso, a metoclopramida é a melhor alternativa nesse momento. Destaco ainda que, por ser um bloqueador dopaminérgico, essa droga também tem alguma eficácia presumida na própria dor, devendo ser considerada nos pacientes com crise migranosa! Gabarito: D. 2.1.6.2. TRATAMENTO PROFILÁTICO O tratamento profilático tem o objetivo de diminuir a frequência, a intensidade e a duração das crises de dor. Além disso, ele pode ajudar a melhorar a resposta ao tratamento sintomático. Outras finalidades desse tipo de terapêutica incluem melhora funcional e redução da incapacidade, evitar a progressão ou transformação de quadros episódicos em crônicos e reduzir o risco de lesões neurológicas ou sequelas quando o paciente apresentar quadros de enxaqueca hemiplégica, com aura de tronco encefálico ou infarto migranoso. INDICAÇÕES DE TRATAMENTO PROFILÁTICO 1. Crises com impacto significativo na qualidade de vida apesar do uso adequado de medicamentos analgésicos e mudanças no estilo de vida. 2. Número mensal de crises exigindo uso frequente de analgésicos. 3. Frequência de crises maior do que três vezes ao mês, sem melhora adequada com sintomáticos. 4. Mais de 8 dias por mês com cefaleia, mesmo que os sintomáticos tenham eficácia (risco de uso excessivo). 5. Crises infrequentes, porém limitantes, de acordo com a preferência do médico ou do paciente (ex.: duração > 12h, enxaqueca hemiplégica). 6. Dor esporádica, mas com contraindicação/intolerância ao uso de sintomáticos específicos. Estratégia MED NEUROLOGIA Cefaleias Prof. Victor Fiorini | Curso Extensivo | 2025 33 As opções com maior evidência de eficácia no tratamento profilático da enxaqueca são: • Beta-bloqueadores: metoprolol, propranolol ou timolol; • Antidepressivos: amitriptilina ou venlafaxina; • Anticonvulsivantes: valproato ou topiramato; • Antagonistas do CGRP: erenumab, fremanezumab e galcanezumab. Entre todos os profiláticos, os mais eficazes (redução de mais de 50% de crises em mais da metade dos pacientes) são a amitriptilina, a venlafaxina, os beta-bloqueadores (propranolol e metoprolol) e o topiramato. A escolha do tratamento profilático deverá ser feita de acordo com o perfil de comorbidades, sexo e idade do paciente, afinal ele receberá durante um período prolongado (de meses) uma medicação que deverá ser, na maioria das vezes, usada diariamente. Isso deve ser expressamente explicado ao paciente, pois muitos acabam confundindo-se e usando o profilático apenas quando apresentam dor, enquanto outros utilizam as medicações sintomáticas