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PSICANÁLISE, SAÚDE E 
SOCIEDADE 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Kályton Resende 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta abordagem, estudaremos um tema de grande relevância social e 
psicológica: o sofrimento psíquico experimentado no processo de ascensão 
social por meio da educação. Visamos desvendar as complexidades 
psicológicas que acompanham a jornada de indivíduos que buscam superar 
barreiras socioeconômicas através da educação. 
Exploraremos como a busca pela ascensão social por meio da educação 
pode ser uma experiência carregada de esperanças, desafios e, em muitos 
casos, conflitos psicológicos. Vamos analisar como essas experiências afetam a 
saúde mental dos indivíduos, influenciando sua identidade, relacionamentos e 
perspectivas de vida. 
Nosso objetivo é fornecer uma compreensão aprofundada dos desafios 
psicológicos associados à ascensão social por meio da educação por aqueles 
que estão passando por essa jornada. 
TEMA 1 – O SOFRIMENTO PSÍQUICO NO PROCESSO DE ASCENSÃO SOCIAL 
O sofrimento psíquico no processo de ascensão social, conforme 
analisado na dissertação de Taís de Oliveira Nicoletti (2019), é um fenômeno 
complexo e multifacetado, refletindo as tensões e desafios enfrentados por 
indivíduos em movimento ascendente nas estruturas socioeconômicas. Este 
estudo, focado na expansão da classe C no Brasil entre 2003 e 2013, investiga 
como a inclusão em ambientes e atividades anteriormente reservados às classes 
mais abastadas gerou efeitos colaterais inesperados, como sofrimentos 
psíquicos que impedem a continuação da vida durante ou após a ascensão 
social. 
Nicoletti (2019) explora o psiquismo desses sujeitos, analisando como 
novas identificações surgem a partir da mudança de classe social e provocam 
alterações no modo como o sujeito se reconhece e é percebido pelos outros. 
Essas mudanças não ocorrem sem desconforto, já que comportamentos e 
valores antigos, bem como a história do sujeito, continuam a ser testemunhas de 
sua identidade anterior. 
Um conceito central nesta pesquisa é o de reconhecimento, explorado por 
Jessica Benjamin (1988) e outros. O reconhecimento é crucial para aqueles que 
passam por ascensão social, pois eles necessitam de validação em sua nova 
 
 
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posição social contrastante com a de origem. Esta necessidade é compreendida 
dentro de um contexto mais amplo de diversificação identitária e lutas por 
aceitação social. 
A metodologia utilizada por Nicoletti (2019) foi fundamentalmente 
psicanalítica, apoiando-se nos fenômenos e processos da vida cotidiana para 
operar com eficácia. Isso reflete a compreensão de que a psicologia individual, 
conforme apontado por Freud (2011), não pode abstrair das relações do 
indivíduo com outros indivíduos. Este método permitiu a Nicoletti (2019) abordar 
o sofrimento como uma consequência de não se sentir pertencente, um tema 
também relacionado a preconceito étnico, permanência de alunos cotistas na 
universidade e movimentos migratórios. 
TEMA 2 – QUEBRA DO CONTRATO NARCÍSICO 
A ruptura do contrato narcísico e a busca por reconhecimento são 
aspectos fundamentais na trajetória psíquica de indivíduos que passam por 
ascensão social. Esta dinâmica é abordada por René Kaës, que expande o 
conceito de contrato narcísico de Piera Aulagnier, relacionando-o às 
identificações, crenças e valores do ambiente de origem dos indivíduos que 
ascendem socialmente (Kaës, 2007, 2011; Castanho, 2018). Kaës salienta a 
necessidade de ruptura com as formações estruturantes e alienantes do grupo 
de origem para a construção de uma identidade autônoma, uma transformação 
que pode ser emocionalmente desafiadora. 
Vladimir Safatle (2017) aborda o reconhecimento como uma estrutura 
implicativa, na qual existir implica estabelecer relações que transformam ambos 
os envolvidos. Esta noção de reconhecimento vai além da mera identificação e 
está ligada à transformação contínua do ser. Esta transformação é essencial no 
processo de ascensão social, no qual o indivíduo precisa se adaptar a novos 
contextos, frequentemente distintos do seu ambiente de origem. 
Safatle (2017) também destaca que a reflexividade é imanente ao ser, 
significando que, ao pensar, o indivíduo permite que as coisas emerjam em sua 
existência. Essa reflexividade é crucial no processo de reconhecimento e 
autoafirmação, especialmente para aqueles em ascensão social, que 
frequentemente enfrentam um choque entre os valores do seu mundo de origem 
e o novo ambiente ao qual estão se adaptando. 
 
 
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Jessica Benjamin (1988) discorre sobre o paradoxo da autoafirmação e 
do reconhecimento, no qual o indivíduo precisa abrir mão de sua independência 
absoluta para aceitar a dependência do outro. Esse outro, por sua vez, precisa 
ser capaz de reconhecer o primeiro para que ambos se autoafirmem como 
separados e independentes. Esse equilíbrio entre autoafirmação e 
reconhecimento é fundamental na trajetória de ascensão social, em que o 
indivíduo busca se afirmar em um novo ambiente mantendo sua autonomia. 
Em "Introdução ao Narcisismo", Sigmund Freud (1914) aborda de maneira 
pioneira o conceito de narcisismo, um termo originalmente usado por P. Näcke 
em 1899 para descrever um tipo específico de comportamento no qual um 
indivíduo trata seu próprio corpo como objeto sexual. Freud expande essa ideia, 
argumentando que o narcisismo não é apenas uma perversão, mas um 
componente libidinal fundamental do instinto de autoconservação, comum a 
todos os seres vivos. 
Freud explora o narcisismo em diferentes contextos, como a esquizofrenia 
(ou dementia praecox), em que observa características de megalomania e 
desinteresse pelo mundo externo. Ele postula que a libido, retirada dos objetos 
externos, é redirecionada para o Eu, formando um narcisismo secundário sobre 
um narcisismo primário já existente. A teoria do narcisismo também é aplicada 
na análise da psique infantil e das sociedades primitivas, em que se observam 
traços de megalomania e uma crença na "onipotência dos pensamentos". 
Freud diferencia o narcisismo do autoerotismo, o último sendo um estágio 
inicial do desenvolvimento libidinal. Ele também discute a complexidade da 
relação entre libido do Eu e libido de objeto, reconhecendo a dificuldade de 
separar energias sexuais de energias não sexuais dos instintos do Eu. Com base 
nisso, ele aborda a vida amorosa humana, identificando dois tipos de escolha de 
objeto: um baseado no apoio (por exemplo, a mãe ou cuidador) e outro baseado 
no narcisismo, em que o indivíduo busca a si mesmo como objeto amoroso. Ele 
também observa diferenças na escolha do objeto amoroso entre homens e 
mulheres, com homens tendendo a exibir uma superestimação sexual do objeto 
e mulheres exibindo formas de narcisismo mais diretamente. 
Além disso, Freud discute o papel do narcisismo na formação de ideais 
do Eu e sua relação com a sublimação de instintos libidinais. Ele sugere que a 
consciência moral pode ser uma instância psíquica que assegura a satisfação 
narcísica do ideal do Eu, ligando-a à sintomatologia das doenças paranoides. 
 
 
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A ruptura do contrato narcísico e a busca por reconhecimento são 
elementos centrais na trajetória psíquica de indivíduos que atravessam 
processos de ascensão social. Esse fenômeno, descrito na dissertação da 
Nicoletti (2019) sobre o "Sofrimento Psíquico na Ascensão Social", é 
exemplificado na experiência de Fernando, um indivíduo que enfrenta desafios 
emocionais significativos ao buscar seu lugar em um novo contexto social. 
O conceito de contrato narcísico, originário do trabalho de Piera Aulagnier 
e expandido por René Kaës, descreve a relação estabelecida entre os indivíduos 
e seu ambiente social desde o nascimento. No contexto da ascensão social, o 
rompimento desse contrato narcísico é inevitável, uma vez que o indivíduo se 
desloca de seu ambiente socialoriginal para um novo, muitas vezes muito 
diferente em termos de valores, crenças e identificações. 
Essa transição é marcada por uma busca por reconhecimento, um 
conceito amplamente discutido por filósofos como Hegel e incorporado no campo 
da psicanálise por autores como Lacan. Os indivíduos buscam ser reconhecidos 
e valorizados em suas novas posições sociais, não apenas economicamente, 
mas também em termos de amor, solidariedade e direito, como sugerido por Axel 
Honneth. 
Jessica Benjamin, em sua obra, discute como o reconhecimento é vital 
desde as primeiras interações entre mãe e bebê, estabelecendo um padrão para 
todas as relações futuras. A busca por reconhecimento, portanto, torna-se um 
desafio contínuo para aqueles em ascensão social. Fernando, por exemplo, 
demonstra essa luta interna ao tentar se adaptar a um novo contexto social e 
profissional, buscando reconhecimento em um ambiente que é ao mesmo tempo 
desejado e conflituoso. 
TEMA 3 – DESLOCAMENTO CULTURAL E IDENTIDADE 
Este tema foca nas complexidades de identidade e pertencimento que 
emergem quando os indivíduos transitam entre diferentes esferas sociais e 
culturais através da educação. 
A ascensão social através da educação, particularmente em contextos de 
desigualdade acentuada, como no Brasil, apresenta desafios emocionais e 
culturais significativos. O artigo de Ana Rodrigues Cavalcanti Alves, 
"Batalhadores culturais: trajetórias de mobilidade ascendente nos meios 
populares", fornece um estudo profundo sobre esses desafios, focando nas 
 
 
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experiências de indivíduos das classes populares que alcançaram mobilidade 
ascendente por meio da educação superior (Alves, 2022). 
Alves (2022) descreve o processo de mobilidade ascendente como uma 
jornada de acumulação de capital escolar e cultural, que permite o rompimento 
das fronteiras de classe. Este processo é marcado por tensões e conflitos 
emocionais, pois os indivíduos enfrentam a difícil tarefa de "subir na vida" e 
ajustar suas expectativas à realidade encontrada após a graduação. A 
democratização do ensino no Brasil, embora tenha aumentado o acesso à 
educação, não garante uma integração estável no mundo do trabalho, levando 
muitos a um desinteresse e desestímulo para os estudos. 
A pesquisa destaca a importância da família como base emocional para 
enfrentar as adversidades, incluindo experiências de exclusão social e racismo. 
Essa base emocional é crucial para a construção de um ethos de classe que 
valoriza o trabalho duro e a disciplina, elementos fundamentais para a mobilidade 
ascendente. Por exemplo, a história de Paula, uma das entrevistadas, ilustra 
como o estímulo para estudar, recebido no seio da família, foi crucial para seu 
ingresso e sucesso no ensino superior, apesar de dificuldades financeiras e 
escolhas de carreira motivadas pela necessidade. 
O ingresso na universidade é visto não como um caminho natural, mas 
como uma fonte de tensão significativa, particularmente para aqueles que optam 
por cursos menos concorridos para aumentar suas chances de admissão. Essa 
escolha estratégica, como no caso de Erinaldo, reflete um compromisso prático 
com a educação como meio de ascensão social. 
Além disso, o ingresso na universidade marca apenas o início de um 
desafio contínuo, acompanhado por conflitos e tensões relacionados à 
destituição estatutária, escolhas profissionais e pessoais, e a busca por um 
equilíbrio entre o investimento na carreira e desejos pessoais. Essas tensões 
refletem a incorporação de disposições e valores heterogêneos e contraditórios 
ao longo da vida. Após a graduação, muitos enfrentam a discrepância entre as 
expectativas geradas pela conquista de um diploma e as oportunidades reais no 
mercado de trabalho. 
Em conclusão, o artigo de Alves (2022) contribui significativamente para 
a compreensão dos desafios emocionais e culturais enfrentados por indivíduos 
das classes populares no Brasil que buscam mobilidade social por meio da 
educação. 
 
 
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No capítulo "Mudança de Classe e Conflitos de Identidade" do livro A 
Neurose de Classe, Gaulejac (2014) aborda a complexa relação entre as 
mudanças sociais e os conflitos psicológicos que delas decorrem, enfatizando a 
dificuldade de identificar a regressão social devido à sua natureza opaca e 
frequentemente dissimulada. A regressão é mascarada por diversas formas de 
racionalização e negação, ferindo a ideologia dominante que valoriza a 
promoção e identifica o sucesso individual com a ascensão social. 
Uma característica marcante dos indivíduos em regressão é o silêncio, a 
negação e o fechamento sobre si, como é evidente em filhos de personagens 
ilustres que desaparecem no anonimato, exemplos extremos das dificuldades 
enfrentadas por aqueles que não conseguem atingir as expectativas sociais e 
familiares. Essa regressão é frequentemente vivida como uma ferida narcísica 
profunda, mais do que uma humilhação social, e resulta em uma perda de 
identidade e autodesvalorização. 
Gaulejac (2014) ressalta que as trajetórias descendentes remetem os 
indivíduos a si mesmos, contrastando com os conflitos vividos nas trajetórias 
ascendentes que estão conscientemente ligados à existência de classes sociais 
e às contradições que caracterizam suas relações. Em contextos em que a 
mobilidade estrutural acelera os processos de deslocamento horizontal e 
vertical, a vivência da regressão pode mudar, sendo percebida como menos 
inadmissível socialmente e menos desvalorizadora em termos psicológicos 
(Gaulejac, 2014). 
O autor também discute o conceito de "neurose de classe", esclarecendo 
que o objetivo não é estudar a doença dos grupos sociais, mas sim compreender 
como certas formações sociais favorecem o surgimento de paranoias, psicoses 
ou problemas psicossomáticos. O livro explica que encontrar uma correlação 
estatística entre a posição de classe e os problemas psíquicos não estabelece 
uma causalidade linear direta, destacando a importância de compreender os 
vínculos entre os processos psíquicos e sociais em ação. 
A neurose é definida como uma afecção psicogênica em que os sintomas 
são a expressão simbólica de um conflito psíquico com raízes na história infantil 
do sujeito, constituindo uma acomodação entre o desejo e a defesa. 
O comportamento humano é amplamente codificado pelos modelos 
afetivos, sociais e ideológicos do grupo ao qual o indivíduo pertence, e esses 
códigos são internalizados como uma necessidade vital de adaptação ao meio. 
 
 
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Mudanças de classe ou de ambiente cultural podem provocar conflitos mentais, 
ameaçando a saúde mental ao estremecer os alicerces profundos da 
personalidade. 
A neurose de classe é caracterizada pela colagem entre elementos 
sexuais e sociais do processo, em que conflitos iniciais sociais podem ser 
investidos libidinalmente em questões sociais, ou conflitos sexuais podem ser 
sobredeterminados por questões sociais. Este enfoque multidimensional é 
necessário para compreender a complexa gênese dos sistemas sociomentais, 
que são influenciados por determinações internas e externas. 
O deslocamento cultural pode levar a conflitos de identidade significativos. 
Os indivíduos podem enfrentar dilemas sobre como se definem e como são 
percebidos pelos outros. Questões como "Quem sou eu?", "A que grupo eu 
pertenço?" e "Como equilibro minha nova vida com minha origem?" tornam-se 
centrais. Esses conflitos podem gerar sentimentos de alienação, insegurança e 
até crise de identidade. 
Além dos conflitos internos, o deslocamento cultural pode afetar as 
relações sociais e familiares. Os indivíduos podem sentir-se desconectados de 
seus pares em ambos os contextos – nem completamente integrados no novo 
ambiente social, nem totalmente alinhados com seu ambiente de origem. Isso 
pode levar a um sentimento de solidão e a dificuldades em manter 
relacionamentos significativos. 
Em resumo, a neurose declasse é um fenômeno complexo que resulta 
da interação entre conflitos psicológicos e sociais, em que mudanças de classe 
podem intensificar ou compensar conflitos de ordem sexual e social. Isso leva à 
variabilidade nas respostas individuais a mudanças sociais similares, com alguns 
indivíduos desenvolvendo neuroses, enquanto outros não. 
TEMA 4 – PRESSÕES FAMILIARES E EXPECTATIVAS SOCIAIS 
Este tema aborda como as expectativas da família e da sociedade podem 
influenciar e complicar o processo de ascensão social por meio da educação. 
Muitas vezes, indivíduos que buscam ascender socialmente através da 
educação carregam consigo as esperanças e expectativas de suas famílias. Isso 
pode se traduzir em uma sensação de responsabilidade avassaladora, em que 
o sucesso educacional é visto como uma forma de melhorar não apenas a 
 
 
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própria vida, mas também as condições de toda a família. Essa responsabilidade 
pode ser fonte de motivação, mas também de grande pressão psicológica. 
Pressões familiares e expectativas sociais estão intrinsecamente ligadas 
à construção e ao desenvolvimento da identidade individual, particularmente em 
contextos de mudança de classe social. A identidade de um indivíduo, como 
descrito por Kundera em Gaulejac (2014), não é apenas um reflexo de seus 
conhecimentos ou habilidades, mas também uma manifestação de sua 
autoconfiança e vitalidade. Esse aspecto da identidade torna-se especialmente 
saliente em situações de deslocamento social, em que conflitos afetivos, 
culturais e relacionais emergem. 
A identidade é um produto dinâmico, resultante tanto de fatores internos 
quanto externos. Ela não é um estado, mas uma construção contínua, que busca 
afirmar singularidade e unidade em meio a uma realidade diversa e heterogênea. 
Essa construção está sujeita a tensões e conflitos, conforme o indivíduo navega 
entre a semelhança e a singularidade, a reprodução e a diferenciação, ancorado 
em seu passado, mas também definido por seu presente e futuro. 
De acordo com Gaulejac (2014), Devereux aponta que a identidade é 
resultado de um processo complexo, influenciado tanto pela "natureza de 
'projeto'" quanto pelo "material" disponível para o indivíduo. Esta concepção 
enfatiza a natureza planejada e fortuita da identidade. A psicanálise, por outro 
lado, vê o fundamento da identidade na relação com os genitores e na dialética 
sujeito/objeto, sugerindo que a aquisição da identidade envolve a destruição dos 
modelos que inicialmente formaram a existência do indivíduo. 
A sociologia apresenta uma perspectiva diferente, sugerindo que a 
identidade do indivíduo é imposta pela sociedade por meio das posições 
definidas na rede social. Essa visão enfatiza a importância da relação do 
indivíduo com seu sistema de parentesco, grupos de nascimento, instituições, 
redes sociais e classes sociais, marcando a influência dos genitores e 
ascendentes nessas relações. 
Essas abordagens multidimensionais da identidade são cruciais para 
compreender as tensões decorrentes da mudança de classe social. Indivíduos 
que passam por promoções sociais, como professores primários de origem 
camponesa, gerentes e executivos autodidatas, ou homens em rápida ascensão, 
enfrentam conflitos e contradições específicos ligados a essa mudança. 
 
 
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Indivíduos das classes populares, ao ascenderem socialmente por meio 
da educação, muitas vezes carregam consigo não apenas suas aspirações, mas 
também as esperanças e expectativas de suas famílias. Ana Rodrigues 
Cavalcanti Alves destaca que, durante a socialização familiar, esses indivíduos 
incorporam disposições ascéticas e valores do trabalho duro, considerados 
fundamentais para sua mobilidade ascendente (Alves, 2022). Essa sensação de 
responsabilidade pode ser uma fonte de motivação, mas também pode criar uma 
pressão psicológica significativa. 
A ascensão social por meio da educação traz desafios únicos, 
especialmente em termos de adaptação a novos ambientes sociais. De acordo 
com o estudo de Vincent de Gaulejac (2014), a "neurose de classe" resulta de 
contradições operando em registros sociais, sexuais e familiares que se 
reforçam mutuamente (de Gaulejac, 1987). Indivíduos em ascensão social 
frequentemente lutam para se relacionar intimamente em seus novos meios 
sociais, enfrentando sentimentos de desencaixe e não pertencimento (Gaulejac, 
1987). 
A ascensão social e a mudança de classe frequentemente afetam as 
relações interpessoais. Muitos indivíduos experimentam um distanciamento de 
amigos e familiares e uma sensação de não pertencer completamente ao novo 
ambiente social. Essas experiências podem levar a uma reavaliação da 
autoimagem e do lugar no mundo, como observado nos pacientes analisados 
por Vincent de Gaulejac (1987). 
Além das pressões familiares, há também as expectativas sociais. Estas 
podem incluir estereótipos sobre sucesso e inteligência, assim como 
preconceitos e barreiras institucionais. Indivíduos em ascensão social podem 
sentir que precisam constantemente provar seu valor e legitimidade em espaços 
educacionais e profissionais, muitas vezes dominados por grupos de maior 
status socioeconômico. 
O processo de ascensão social pode afetar as relações interpessoais do 
indivíduo, tanto dentro quanto fora de sua comunidade de origem. Pode haver 
um distanciamento de amigos e familiares que não compartilham das mesmas 
experiências educacionais. Ao mesmo tempo, pode surgir a sensação de não 
pertencer completamente ao novo ambiente social. Isso pode levar a uma 
reavaliação da autoimagem e do lugar no mundo. 
 
 
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TEMA 5 – O IMPACTO DA EDUCAÇÃO NA MOBILIDADE SOCIAL 
A educação é frequentemente vista como o caminho para a mobilidade 
social. Para muitos, alcançar um nível de educação superior ao de suas famílias 
de origem representa uma oportunidade para melhorar suas condições de vida. 
No entanto, essa jornada pode ser carregada de desafios emocionais e 
psicológicos, pois implica não apenas ganhos, mas também potenciais perdas e 
transformações na identidade e nas relações. 
A importância da educação no processo de ascensão social é um tema 
central na obra Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Freire (1987) defende a 
educação como uma ferramenta de libertação, crucial para superar as estruturas 
de opressão e promover a ascensão social. Ele argumenta que a educação não 
deve ser um reflexo das classes dominantes, mas uma prática que favorece a 
reflexão e ação dos oprimidos para transformar sua realidade (Freire, 1987, p. 
25). 
Segundo Freire (1987), a educação deve possibilitar aos oprimidos a 
conscientização de sua situação, permitindo-lhes reconhecer e combater as 
estruturas de dominação. Como ele afirma, "Não pedagogia para ele mas dele" 
(Freire, 1987, p. 25), indicando que a educação deve ser conduzida pelos 
próprios oprimidos, como um meio de construir sua autonomia e história. 
Freire (1987) também discute a humanização como um aspecto 
fundamental da educação. Ele destaca que a luta pela humanização é essencial 
no processo de ascensão social, pois não apenas desafia a desumanização 
decorrente da opressão, mas também afirma a vocação dos homens para a 
liberdade e justiça (Freire, 1987, p. 31). 
Além disso, a obra de Freire (1987) destaca a necessidade de superar a 
contradição entre opressores e oprimidos. Ele ressalta que a verdadeira 
libertação envolve não apenas a emancipação dos oprimidos, mas também a 
transformação dos opressores. Freire (1987) afirma que "a grande tarefa 
humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores" (Freire, 
1987, p. 36), demonstrando que a educação deve visar a emancipação coletiva. 
Em conclusão, Freire evidencia a educação como uma prática essencial 
para a ascensão social e a libertação dos oprimidos. Sua visão pedagógica 
propõe uma educação reflexiva e participativa, que empodera os indivíduos a 
mudar suas circunstânciase a sociedade como um todo. 
 
 
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A obra Educação Não é Privilégio de Anísio Teixeira aborda a 
necessidade de democratizar o acesso à educação como um meio para a 
ascensão social. Teixeira argumenta que a educação, como uma instituição que 
reflete ideias e aspirações sociais, deve ser acessível a todos, não sendo um 
privilégio de poucos (Teixeira, 1986, p. 39-74). 
Teixeira destaca a resistência ao conceito de "educação-seleção" e a 
necessidade de mudança para uma educação mais inclusiva e democrática. No 
século XIX, a luta foi por técnicas e processos novos que permitissem a plena 
realização dos ideais escolares da democracia, marcando a transição de um 
modelo de educação elitista e intelectualista para um modelo mais prático e 
eficiente, que ensinasse o aluno a viver inteligentemente e a participar 
responsavelmente da sociedade (Teixeira, 1986, p. 39-74). 
Teixeira (1986) enfatiza que, em face da aspiração por educação para 
todos, a escola deve transformar-se numa agência educacional para 
trabalhadores comuns, qualificados, especializados em técnicas de todas as 
ordens e para trabalhadores da ciência. Com a identificação do novo trabalho 
agrícola ou fabril com o trabalho científico, todas as escolas, do nível primário ao 
universitário, passaram a ser predominantemente escolas de ciência, ensinando 
tanto suas aplicações generalizadas quanto suas teorias especializadas e o 
próprio trabalho de pesquisa (Teixeira, 1986, p. 39-74). 
A obra Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento de Florestan 
Fernandes aborda a complexidade das estruturas sociais e econômicas no 
Brasil, destacando como elas influenciam o processo de ascensão social em 
uma sociedade marcada pelo subdesenvolvimento e desigualdades de classe. 
Fernandes (2008) argumenta que o capitalismo no Brasil, uma nação do "mundo 
subdesenvolvido", é uma realidade sociocultural complexa, influenciada por 
fatores extraeconômicos como direito, estado nacional, filosofia, religião, ciência 
e tecnologia. 
O autor destaca que a colonização do Brasil, que coincidiu com as etapas 
finais da crise do mundo medieval na Europa, não resultou na transplantação de 
formas sociais europeias em desenvolvimento para o Brasil. Em vez disso, a 
colonização brasileira envolveu a revitalização do regime estamental, 
caracterizado pela grande plantação, trabalho escravo e expropriação colonial. 
Este contexto histórico teve implicações significativas para a formação social e 
econômica do Brasil, em que as estruturas sociais e econômicas coloniais 
 
 
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permaneceram intactas, influenciando a dinâmica do poder pelas elites 
senhoriais nativas e as necessidades do mercado mundial. 
Fernandes (2008) observa que a independência do Brasil ocorreu sem 
alterações significativas na organização econômica e social do país. O regime 
de castas e estamentos não sofreu crises, mas serviu de base para a 
transformação dos senhores rurais em uma aristocracia agrária. Essa 
transformação representou um episódio no ciclo de modificações dos laços 
coloniais, que mudaram de caráter, passando de jurídico-políticos para 
econômicos, com a transferência do poder da Metrópole lusitana para o centro 
de poder do imperialismo econômico emergente. 
NA PRÁTICA 
A educação pode ser um meio de ascensão social em contextos de 
desigualdade, mas tal caminho pode trazer desafios, conflitos de identidade e 
sofrimento psíquico. A neurose de classe oferece insights sobre a tensão entre 
a cultura de origem do indivíduo e as normas das instituições educacionais, que 
muitas vezes refletem valores das classes dominantes. Exemplificado pelo caso 
de João, um jovem de baixa renda em uma universidade prestigiada, o texto 
mostra como a necessidade de adaptação pode levar a sentimentos de 
inadequação e isolamento. A solução proposta inclui o reconhecimento e a 
valorização da diversidade cultural nas instituições de ensino, suporte 
psicológico, e espaços seguros para que os alunos possam expressar suas 
múltiplas identidades. Enfatiza-se a importância de abordagens que considerem 
o bem-estar emocional e psicológico, além das necessidades acadêmicas, para 
apoiar a ascensão social por meio da educação. 
FINALIZANDO 
Exploramos as complexidades do sofrimento psíquico associado ao 
processo de ascensão social através da educação. Refletimos sobre a 
importância de entender os desafios emocionais e psicológicos que 
acompanham essa jornada, que vai muito além dos desafios acadêmicos e 
profissionais. 
Reconhecemos que a mobilidade social por meio da educação é uma 
experiência multifacetada, carregada tanto de oportunidades quanto de desafios. 
 
 
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Discutimos a importância de abordar questões como deslocamento cultural, 
conflitos de identidade, pressões familiares e sociais, e a necessidade de 
desenvolver estratégias de enfrentamento e resiliência. 
À medida que avançamos em nossos estudos, é essencial continuar 
refletindo sobre como podemos apoiar aqueles que estão passando por essa 
transformação. Isso inclui oferecer apoio psicológico adequado, criar programas 
de mentoria e orientação, e desenvolver ambientes educacionais que 
reconheçam e abordem essas dinâmicas complexas. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
BREUER, J.; FREUD, S. (1895/2016). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, S. 
Obras completas. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Tradução de Paulo 
Cesar Lima de Souza, Trad., Vol. 2. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 
FERENCZI, S. ‘Reflexões sobre o trauma’. In: FERENCZI, S. Psicanálise IV. 
Tradução de A. Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 
FERENCZI, S. Análise de crianças com adultos. In: FERENCZI, S. Psicanálise 
IV. Tradução de A. Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1992. pp. 69-83. 
FERENCZI, S. As fantasias provocadas. In: FERENCZI, S. Psicanálise III. 
Tradução de A. Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1993. pp. 261-269. 
FERENCZI, S. Confusão de língua entre os adultos e a criança. In: FERENCZI, 
S. Psicanálise III. Tradução de A. Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 
FERENCZI, S. O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios. In: 
FERENCZI, S. Psicanálise II. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 39-53. 
FERENCZI, S. Princípio de relaxamento e neocatarse. In: FERENCZI, S. 
Psicanálise III. Tradução de A. Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 
FREUD, S. Além do princípio de prazer. Tradução de Renato Zwick. Porto 
Alegre: LP&M, 2016. pp. 775-785, 786-794, 70-76. 
LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da 
psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1990. p. 52-53, 57. 
LEITE , J. C. 2021. 63 f. Os Diferentes Momentos do Trauma na Obra 
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