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PSICANÁLISE, SAÚDE E 
SOCIEDADE 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Kályton Resende 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, iniciaremos nossa exploração sobre como a psicanálise se 
entrelaça com questões sociais e de saúde. Ao longo de nosso conteúdo, vamos 
desvendar as complexidades do psiquismo humano e sua influência na 
sociedade contemporânea. 
Nossa abordagem não se limitará aos fundamentos teóricos 
estabelecidos por Sigmund Freud e Jacques Lacan, mas também se estenderá 
a interpretações contemporâneas e a conexões com a sociologia. Além disso, 
vamos explorar como psicanalistas brasileiros têm abordado questões sociais, 
ilustrando como a psicanálise pode intervir em questões sociais e de saúde. 
O objetivo desta etapa é lançar luz sobre como a psicanálise pode ser 
aplicada para entender fenômenos sociais, particularmente focando em temas 
como o impacto do neoliberalismo no sofrimento psíquico, a relevância das 
clínicas públicas de Freud na contemporaneidade, o trauma da pobreza, 
neuroses de classe, e o sofrimento psíquico associado à ascensão social através 
da educação. 
Vamos começar nossa exploração entendendo como essas dinâmicas 
complexas se manifestam no contexto social e como a psicanálise pode oferecer 
perspectivas únicas para compreender e lidar com esses desafios. 
TEMA 1 – NEOLIBERALISMO E SOFRIMENTO PSÍQUICO 
O neoliberalismo é uma abordagem econômica e política que defende a 
redução do papel do governo na economia. Seguidores dessa ideologia 
acreditam que os mercados livres, em que as empresas competem sem muita 
interferência do governo, são a melhor forma de promover o crescimento 
econômico e a inovação. Isso significa menos regulamentações e impostos para 
as empresas e uma maior ênfase na iniciativa privada. 
O neoliberalismo também defende a privatização de empresas estatais, 
ou seja, passar empresas do governo para o controle de empresas ou indivíduos 
privados. Essa abordagem se tornou popular em muitos países a partir dos anos 
1970, influenciando políticas econômicas em todo o mundo. 
O autor Christian Dunker (2021), em sua análise sobre o neoliberalismo e 
o sofrimento psíquico, propõe uma visão crítica que transcende a compreensão 
do neoliberalismo como mero modelo socioeconômico. Dunker destaca a 
 
 
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importância de uma abordagem que integra teoria social, filosofia e psicanálise, 
para revelar como as dinâmicas de poder afetam a vida psíquica individual e 
coletiva, bem como os padrões gerais de racionalidade. 
Em uma reflexão penetrante sobre a dinâmica social, Dunker (2021) 
afirma: "O neoliberalismo não apenas transforma a economia, mas redefine as 
relações sociais" (p. 35). Ele destaca a influência abrangente do neoliberalismo, 
estendendo-se além da economia para remodelar as interações humanas. 
Ele argumenta que o neoliberalismo deve ser considerado também como 
um gestor do sofrimento psíquico, devido ao seu caráter disciplinar, em que 
categorias morais e psicológicas são empregadas implicitamente como 
fundamentos da ação econômica. 
Tais ações não são justificadas apenas por sua eficiência econômica, mas 
por uma suposta justiça moral, que promove a realização social da liberdade. 
Dunker critica essa concepção de liberdade, enraizada na noção liberal de 
propriedade sobre o próprio eu, sugerindo que o neoliberalismo promove uma 
versão de liberdade que não é amplamente questionada e que, paradoxalmente, 
vem acompanhada de uma intervenção estatal significativa no âmbito político e 
social. 
Safatle (2021), em sua análise, observa: "A lógica de mercado penetra no 
tecido social, alterando a forma como os indivíduos interagem" (p. 78). Ele 
aponta para a intrusão do mercado nas esferas pessoal e coletiva, 
reconfigurando as bases da sociedade. 
Dunker estabelece o neoliberalismo como uma engenharia social que 
impulsiona uma noção de liberdade baseada na propriedade, que, por sua vez, 
pode ser uma fonte de sofrimento psíquico, uma vez que impõe padrões de 
racionalidade que podem não corresponder à realidade das experiências vividas 
pelas pessoas. 
Dunker faz uma conexão crítica entre o avanço do neoliberalismo nos 
anos 1970 e uma mudança significativa na compreensão do sofrimento psíquico, 
ilustrada pela revisão do DSM-III. Ele sugere que houve uma sincronia entre os 
experimentos de engenharia social do neoliberalismo e a reconstrução das 
categorias clínicas da psicologia e psiquiatria, exemplificada pela prevalência de 
diagnósticos, como depressão, a simplificação da psicose para esquizofrenia, o 
surgimento dos transtornos de personalidade borderline e o foco em 
enhancement, ou seja, a utilização de medicamentos originalmente 
 
 
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desenvolvidos para tratar o sofrimento psíquico agora direcionados à 
potencialização do desempenho no trabalho. 
Essas transformações clínicas, segundo Dunker, são um reflexo de 
sistemas de valores sociais que transcendem a clínica e são influenciados pelos 
modos de racionalização econômicos, mostrando a "colonização" da clínica pela 
economia. O neoliberalismo, com isso, não só produz, mas também gerencia o 
sofrimento psíquico, inserindo-se profundamente nos campos do trabalho, da 
linguagem e do desejo. 
Silva Junior (2021) comenta sobre o impacto individual: "O neoliberalismo 
gera uma sensação contínua de insegurança e competição" (p. 102). Essa fala 
ressalta os efeitos psicológicos do neoliberalismo, enfatizando como ele cultiva 
um ambiente de constante ansiedade. Dunker (2021) adiciona: "A saúde mental 
torna-se um desafio em um mundo regido por valores neoliberais" (p. 147). 
Dunker (2001) diferencia entre o liberalismo clássico, que via o sofrimento 
como um empecilho para a produção e a felicidade, e a abordagem neoliberal, 
que reconhece o potencial do sofrimento para gerar mais produção e satisfação. 
Essa mudança de perspectiva implica que o neoliberalismo encara o sofrimento 
não como algo a ser necessariamente evitado, mas como uma fonte potencial 
de produtividade e prazer. Dunker nos desafia a entender o neoliberalismo não 
apenas como um sistema econômico, mas como uma "forma de vida" que dita 
as regras de reconhecimento e estabelece uma política própria para lidar com o 
sofrimento. 
Dunker avança na discussão do neoliberalismo, focando na otimização do 
sofrimento no ambiente de trabalho. Ele descreve um cenário onde o máximo 
esforço é extraído dos trabalhadores com o mínimo de compromisso recíproco 
por parte das empresas, destacando que cada interação é calculada para 
maximizar o benefício e minimizar o custo, como se fosse uma métrica 
empresarial aplicada à vida humana. 
O autor posiciona o neoliberalismo não apenas como uma teoria 
econômica, mas como uma forma de vida que define políticas para nomear e 
gerir o mal-estar, interligando moral, psicologia, economia, direito, política, 
educação e até religião. Essa visão do indivíduo como uma empresa leva a uma 
vida gerida por cálculos e avaliações de risco, onde uma psicologia implícita é 
presumida. 
 
 
5 
A "instauração" da vida psíquica no neoliberalismo é descrita como 
performativa, não apenas regulando comportamentos, mas moldando desejos e 
identidades, com efeitos ontológicos na produção do sofrimento. O 
neoliberalismo extrai produtividade de contradições e recodifica valores, 
influenciando como os sujeitos mudam a si mesmos e não apenas suas 
autorrepresentações. 
Dunker utiliza o conceito de sofrimento como um termo-chave, situando-
se entre sintomas clínicos e o mal-estar existencial. Ele argumenta que o 
neoliberalismo desenvolve uma política específica em relação ao sofrimento, o 
que não é apenas uma questão clínica, mas também política. 
Ele relaciona as formas de sofrimento com as políticas de sofrimento, 
mostrando como cada época influencia a maneira como o sofrimento é expresso 
ou ocultado, narrado ou silenciado. Dunker sugere que oneoliberalismo facilitou 
a criação de novas doenças para as quais surgem novas medicações, indicando 
uma mercantilização do sofrimento psíquico. Esse processo revela a estreita 
relação entre os sistemas de diagnóstico e as estratégias políticas que governam 
o reconhecimento e a gestão do sofrimento na sociedade contemporânea. 
Christian Dunker sumariza sua visão crítica sobre como o sofrimento 
psíquico é entendido e gerenciado dentro da sociedade neoliberal. Ele 
argumenta contra a ideia de que mudanças nas expressões culturais do 
sofrimento são meramente manifestações modificadas de uma essência 
biológica causal. Em vez disso, Dunker defende que a ascensão e declínio das 
formas de nomear e compreender o sofrimento psíquico têm um valor etiológico 
significativo na determinação desse sofrimento, comparando-as a fenômenos 
que só ocorrem em condições experimentais induzidas. 
Dunker postula que a forma como uma cultura escolhe nomear, narrar e 
incluir ou excluir o sofrimento psíquico dentro de certos discursos tem um 
impacto tão significativo na etiologia do sofrimento quanto as causas orgânicas. 
A interpretação do sofrimento, se interna ou externa, natural ou artificial, 
significativa ou desprovida de sentido, altera a própria experiência de sofrimento. 
Isso influencia a manifestação dos sintomas e pode condicionar sua 
reversibilidade no tratamento clínico. 
Ele reforça a ideia de que o corpo é plástico em relação à cultura e destaca 
que até mesmo os processos neurodesenvolvimentais e neurotransmissores são 
influenciados por diferentes situações sociais e discursos. 
 
 
6 
Por fim, Dunker sugere que as mudanças clínicas não são apenas 
alterações na forma como as culturas experimentam o sofrimento, mas que as 
operações da linguagem — como narrativa, nomeação e metáfora — têm um 
poder determinante sobre a vida psíquica como um todo. Desta forma, controlar 
a gramática do sofrimento se torna um eixo fundamental de poder na sociedade. 
Através dessa perspectiva, ele chama atenção para a importância de reconhecer 
e questionar as formas pelas quais o sofrimento é politizado e gerido dentro da 
lógica neoliberal. 
Os marxistas brasileiros, seguindo a tradição de Karl Marx, entendem a 
classe trabalhadora não apenas em termos econômicos, mas também através 
de suas relações sociais e políticas. Florestan Fernandes, por exemplo, em suas 
análises em A Revolução Burguesa no Brasil sobre as estruturas de classe no 
Brasil, destaca a influência do legado escravocrata e da marginalização racial na 
formação da classe trabalhadora (Fernandes,1975). 
Jessé Souza, por outro lado, oferece uma perspectiva contemporânea 
sobre a classe trabalhadora brasileira. Em sua obra A Elite do Atraso: Da 
Escravidão à Lava Jato (Souza, 2017), Souza argumenta que a herança 
escravocrata brasileira perpetua uma divisão social profunda, onde a classe 
trabalhadora é frequentemente marginalizada e vista como "inferior" pela elite. 
Ele contesta a noção tradicional de classes baseada apenas na economia, 
incluindo aspectos culturais e simbólicos na definição de classes. 
David Harvey, em seu livro A Brief History of Neoliberalism (2005), fornece 
uma definição concisa e incisiva do neoliberalismo: 
O neoliberalismo é, em primeiro lugar, uma teoria das práticas político-
econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor 
avançado pela libertação das liberdades e habilidades empresariais 
individuais dentro de uma estrutura institucional caracterizada por 
direitos de propriedade privada fortes, mercados livres e livre comércio. 
(Harvey, 2005, p. 2 – tradução livre) 
Harvey aborda o neoliberalismo como um sistema que valoriza fortemente 
a liberdade de mercado e a desregulamentação econômica. Ele argumenta que 
essa abordagem econômica prioriza os interesses do capital sobre as 
necessidades sociais, resultando em disparidades de renda e poder. O 
neoliberalismo, segundo Harvey, promove uma reorganização do espaço público 
e privado, favorecendo a acumulação de capital e a concentração de poder nas 
mãos de poucos. 
 
 
7 
Harvey fundamenta sua análise na observação das mudanças globais 
desde a década de 1970, destacando como o neoliberalismo transformou as 
políticas governamentais e as práticas corporativas. Ele aponta para a erosão do 
bem-estar social e a ascensão de uma classe empresarial poderosa como 
indicativos das consequências do neoliberalismo na sociedade. 
A definição de neoliberalismo por Harvey ressalta a importância da 
autonomia do mercado e a diminuição do papel do estado na regulação 
econômica. No entanto, ele também critica essa abordagem, argumentando que 
ela leva a uma maior desigualdade e a uma diminuição dos direitos sociais e 
trabalhistas. 
TEMA 2 – AS CLÍNICAS PÚBLICAS DE FREUD 
Sigmund Freud tinha uma visão progressista sobre o acesso à saúde 
mental, evidenciada pela sua iniciativa de estabelecer clínicas públicas em Viena 
no início do século XX. Essas clínicas tinham como objetivo democratizar o 
acesso à psicanálise, tornando-a disponível para todos os estratos sociais, não 
apenas para a elite (Danto, 2023). Freud via a psicanálise como um direito de 
todos, independentemente da condição financeira, e propôs que os serviços 
fossem gratuitos para aqueles que não pudessem pagar, com o apoio do Estado 
quando necessário (Danto, 2023, p. 24). 
Hoje, esse conceito de uma psicanálise democrática ressurge como uma 
necessidade premente, especialmente considerando o crescente 
reconhecimento da saúde mental como um direito fundamental. Em um discurso 
em Budapeste, pouco antes do armistício da Primeira Guerra Mundial, Freud 
enfatizou a necessidade de revisar o procedimento terapêutico para adaptá-lo a 
um mundo pós-guerra, ressaltando o direito dos pobres à assistência mental 
(Danto, 2023, p. 248). 
Esse movimento rumo a uma psicanálise democrática não apenas honra 
o legado de Freud, mas também responde a uma necessidade contemporânea 
de abordar as desigualdades no acesso à saúde mental. Em uma época 
marcada por crescentes desafios psicológicos e sociais, a psicanálise nas 
clínicas públicas oferece um espaço vital para o tratamento, a pesquisa e a 
formação de novos psicanalistas (Danto, 2023, p. 12). 
Além disso, essas clínicas podem ser vistas como espaços de resistência 
contra a mercantilização da saúde mental, onde o tratamento não é um privilégio, 
 
 
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mas um direito acessível a todos. Isso é especialmente relevante em contextos 
onde a desigualdade social e econômica limita severamente o acesso a serviços 
de saúde mental (Danto, 2023, p. 13). 
Christian Dunker, em sua obra Lacan e a Democracia (2022), oferece uma 
perspectiva valiosa para entender a relação entre psicanálise e democracia. 
Dunker argumenta que a psicanálise, especialmente na tradição lacaniana, 
possui uma dimensão intrinsecamente democrática, enfatizando a singularidade 
do sujeito e a importância do discurso como um meio de libertação. 
TEMA 3 – O TRAUMA DA POBREZA 
A pobreza não é apenas uma condição econômica; ela representa um 
estado psicológico complexo e, muitas vezes, traumático. O trauma da pobreza 
vai além da mera falta de recursos materiais. Ele engloba a vivência de 
inseguranças crônicas, a exposição a ambientes estressantes e, 
frequentemente, a experiência de marginalização social. 
Tomemos o exemplo de Carlos, seu crescimento em um ambiente de 
pobreza não apenas limitou seu acesso a recursos básicos, mas também o 
expôs a estressores contínuos, como a insegurança habitacional, a alimentação 
inadequada e a falta de oportunidades educacionais. Essas condições 
contribuem para o desenvolvimento de um estado psicológico marcado por 
ansiedade, baixa autoestima e desesperança. Além disso, a estigmatização 
social da pobreza pode levar a um sentimento de alienação e isolamento. 
Do ponto de vista psicanalítico, o trauma da pobreza pode ser entendidocomo uma ferida psíquica que afeta profundamente o desenvolvimento do 
indivíduo. A privação contínua não apenas cria um ambiente de estresse 
constante, mas também impacta a formação da identidade e a capacidade de 
relacionamento. Essa experiência traumática pode ser internalizada, levando a 
padrões comportamentais e emocionais que perpetuam ciclos de desvantagem 
e segregação social. 
Além disso, a psicanálise oferece uma leitura importante sobre como o 
trauma da pobreza é processado e expresso no inconsciente. Isso pode incluir 
mecanismos de defesa, como a negação ou a projeção, e a formação de 
sintomas que são expressões simbólicas desse trauma. 
Portanto, abordar o trauma da pobreza requer não apenas intervenções 
econômicas e sociais, mas também uma compreensão profunda de suas 
 
 
9 
implicações psicológicas. A psicanálise, ao explorar as dimensões inconscientes 
e emocionais da experiência da pobreza, oferece ferramentas valiosas para a 
compreensão e o tratamento desses traumas. 
Em relação ao trauma, Freud observou que "o termo se mantém, mas 
com acepções diferentes" ao longo de seus escritos, indicando uma visão 
multifacetada do trauma. Na obra de Freud, a noção de trauma é explorada de 
várias maneiras, incluindo "trauma por efração, trauma como falta de mediação 
entre fantasia e realidade e, ainda, pistas para se pensar um trauma como falha 
narcísica" (Vahle, 2012). 
Ao discutir a complexidade do trauma, Vahle menciona que "Freud não 
trata sempre do mesmo tipo de trauma ao longo dos seus escritos: o termo se 
mantém, mas com acepções diferentes" (Vahle, 2012, p. 39). Isso ressalta a 
natureza multifacetada do trauma da pobreza, como um estado psicológico 
complexo. Vahle aprofunda a análise, afirmando: 
Nossa hipótese é que a noção de trauma teria continuado a sustentar 
a teoria freudiana do sofrimento psíquico não só por meio de 
aparições esporádicas do conceito nesse período, mas também 
implicitamente por meio das problemáticas a ele relacionadas – como 
a da etiologia das neuroses – e dos grandes casos clínicos de Freud: 
Dora Homem dos Ratos e Homem dos Lobos. (Vahle, 2012, p. 39-
40) 
Isso ilustra como o trauma da pobreza pode ser compreendido dentro do 
contexto mais amplo de sofrimento psíquico. Segundo Vahle, a teoria de Freud 
sobre o trauma se manteve relevante ao longo de sua obra, mesmo com 
diferentes interpretações e aplicações, o que sugere uma abordagem 
diversificada para entender o trauma da pobreza no contexto psicanalítico. 
Em Inibição, Sintoma e Angústia ([1926] (2014)), Freud explora a ideia de 
que a angústia é uma resposta emocional a uma situação percebida como 
ameaçadora. No caso do trauma da pobreza, a angústia pode ser uma resposta 
direta às inseguranças crônicas e estressores contínuos experimentados. Freud 
também discute como os sintomas neuróticos podem ser manifestações de 
conflitos inconscientes, o que pode ser relevante ao considerar como as 
experiências traumáticas da pobreza podem se internalizar e manifestar-se 
como sintomas neuróticos. 
Lacan (1992) vê a angústia como um sinal vital que indica algo sobre o 
desejo do sujeito e sua posição em relação ao outro. No contexto da pobreza, a 
angústia pode ser entendida como uma reação ao sentimento de alienação e 
 
 
10 
marginalização social. Lacan enfatiza a importância do simbólico e do imaginário 
no manejo da angústia, o que pode ser aplicado ao tratamento dos traumas 
psicológicos associados à pobreza. 
TEMA 4 – A NEUROSE DE CLASSE 
Freud descreve as neuroses como desordens psíquicas resultantes de 
conflitos inconscientes, geralmente enraizados em experiências traumáticas da 
infância. Relacionando isso ao trauma da pobreza, pode-se argumentar que as 
experiências traumáticas de pobreza na infância ou na vida adulta podem levar 
ao desenvolvimento de neuroses. Isso é especialmente relevante ao considerar 
como a pobreza afeta o desenvolvimento do indivíduo e a formação da 
identidade. 
A neurose de classe é um conceito que examina como as estruturas de 
classe social e as pressões associadas podem ser fontes de conflitos psíquicos. 
De Gaulejac (2015) descreve como, em sociedades hipermodernas, "as classes 
sociais parecem menos visíveis, mas isso não suprime os processos de 
dominação entre grupos sociais e os mecanismos de reprodução" (p. 6). Isso é 
particularmente relevante ao considerarmos a relação entre a posição social de 
um indivíduo e sua saúde mental, uma área de significativo interesse na 
psicanálise, especialmente nas complexidades das sociedades 
contemporâneas. 
Do ponto de vista psicanalítico, a neurose de classe pode ser entendida 
como uma manifestação de conflitos internos relacionados à identidade e ao 
valor próprio, frequentemente ligados à percepção de si mesmo dentro de uma 
estrutura social. Esses conflitos podem ser exacerbados por fatores como a 
insegurança econômica, a desigualdade social e a mobilidade social (ou a falta 
dela). A neurose de classe, conforme discutido por De Gaulejac, é "o produto de 
contradições que operam sobre três registros (sexual, social e familiar) que se 
reforçam mutuamente para produzir uma 'estrutura fechada'" (p. 30). 
Além disso, a neurose de classe é, muitas vezes, influenciada por 
questões de identidade, que podem ser particularmente complexas em 
sociedades com grandes disparidades de riqueza e poder. As pessoas podem 
internalizar as expectativas e valores de sua classe social, o que pode levar a 
sentimentos de inadequação, culpa ou vergonha, especialmente se essas 
expectativas não são atendidas. Conforme De Gaulejac explica, "a neurose de 
 
 
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classe especifica um conflito que emerge na articulação entre a história pessoal, 
familiar e social de um indivíduo" (p. 32). 
A psicanálise oferece uma lente única para explorar como essas 
dinâmicas sociais se internalizam e se manifestam como neuroses. Ao 
compreender as raízes psíquicas desses conflitos, é possível escutar não 
apenas os sintomas, mas também as causas subjacentes relacionadas à 
estrutura social e à posição de classe. 
TEMA 5 – SOFRIMENTO PSÍQUICO NO PROCESSO DE ASCENSÃO SOCIAL 
ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO 
A educação é frequentemente vista como um caminho para a ascensão 
social. No entanto, esse processo pode acarretar um conjunto complexo de 
desafios psicológicos. Sofia, por exemplo, ao se esforçar para superar as 
limitações socioeconômicas de sua família através da educação, se encontra em 
um terreno psicológico complexo, onde a esperança e a aspiração se misturam 
com a ansiedade, a pressão e o medo do fracasso. Nesse sentido, Nicoletti 
(2019) observa que "indivíduos [mostram] sofrimentos psíquicos durante ou após 
suas trajetórias de ascensão social" (p. 12). 
A ascensão social através da educação pode levar a um estado de "entre-
lugares", onde o indivíduo não se sente completamente parte de sua origem 
social nem totalmente integrado no novo contexto social. Esse limbo pode causar 
um sentimento de deslocamento e confusão de identidade. Para Sofia, as novas 
oportunidades educacionais abrem portas, mas também introduzem novos 
desafios, como a necessidade de navegar em diferentes códigos culturais e 
sociais. Nicoletti (2019) discute a ascensão social no Brasil, destacando que ela 
"provoca alterações no modo como o sujeito se (re)conhece e de como imagina 
que os outros o vejam na nova posição" (p. 14). 
Do ponto de vista psicanalítico, essa transição pode ser vista como um 
processo de reconfiguração da identidade, onde velhos laços são questionados 
e novos são formados. Esse processo é frequentemente acompanhado de 
sentimentos de culpa, especialmente se o indivíduo se sente alienado de sua 
comunidade original. Ao mesmo tempo, pode haver uma pressão para se 
conformar às expectativas e valores do novo grupo social, o que pode intensificar 
a ansiedade e a insegurança. 
 
 
12 
Nesse contexto, Nicoletti(2019) realça a importância do reconhecimento, 
explicando que "aquele que passa pela ascensão social necessitaria de 
reconhecimento em sua nova posição contrastante à de origem" (p. 15). A 
educação, nesse contexto, é mais do que um meio de adquirir conhecimento; é 
também um campo de batalha psicológico, onde questões de identidade, 
pertencimento e autoestima são constantemente negociadas. 
NA PRÁTICA 
João é um funcionário de uma grande empresa de tecnologia. Ele é 
constantemente avaliado por sua capacidade de inovar e por sua produtividade. 
A cultura empresarial promove uma intensa competição interna, incentivando os 
funcionários a superarem seus limites, com promessas de bonificações e 
possibilidades de promoção. 
No entanto, João percebe que, apesar do discurso motivacional, a 
empresa pouco se compromete com o bem-estar de seus funcionários. Eles são 
encorajados a trabalhar longas horas, e o equilíbrio entre vida pessoal e 
profissional é frequentemente desconsiderado. O sofrimento gerado por essa 
pressão constante é visto como parte do caminho para o sucesso, e a empresa 
oferece cursos de mindfulness e bem-estar como soluções paliativas, sem 
abordar as causas estruturais do estresse. 
Aqui, podemos ver como a liberdade de João é enquadrada dentro dos 
limites da propriedade — no caso, sua capacidade de produzir e contribuir para 
a empresa. A gestão do sofrimento psíquico se dá através do que Dunker chama 
de "engenharia social do neoliberalismo": a empresa, como um agente desse 
sistema, gerencia o sofrimento de João de forma a maximizar a produtividade, 
sem questionar ou modificar as condições que o geram. 
O neoliberalismo, uma filosofia econômica que valoriza a livre 
concorrência e a redução da intervenção estatal, tem um efeito profundo e 
frequentemente subestimado na saúde mental das pessoas. Esse impacto pode 
ser claramente observado no caso de João, um profissional de 30 anos, que 
trabalha em um ambiente corporativo altamente competitivo. João vem sofrendo 
de ansiedade e estresse crônico, sintomas que estão intrinsecamente ligados às 
pressões de seu ambiente de trabalho. 
Um psicanalista, ao compreender as nuances do neoliberalismo e seu 
impacto na saúde mental, pode oferecer a João um apoio mais contextualizado 
 
 
13 
e eficaz. Neste caso, o terapeuta começa por explorar como o ambiente de 
trabalho neoliberal – caracterizado por incertezas no emprego, longas horas de 
trabalho e uma pressão constante por produtividade – contribui para o estado 
mental de João. Através de sessões terapêuticas, o psicanalista ajuda João a 
reconhecer e entender como essas condições externas exacerbam suas 
vulnerabilidades pessoais e afetam sua saúde mental. 
A empresa de João adotou recentemente um programa de saúde mental 
que, à primeira vista, parece uma iniciativa louvável. Esse programa inclui o 
acesso a terapia online e aplicativos de saúde mental que monitoram o humor e 
o estresse dos funcionários. No entanto, a abordagem do programa é fortemente 
influenciada pela lógica neoliberal: ele enfatiza a responsabilidade individual pela 
saúde mental, sugerindo que qualquer problema é resultado de uma gestão 
pessoal inadequada do estresse e não das condições de trabalho impostas pela 
empresa. 
Com o tempo, João começa a se sentir culpado por sentir estresse e 
ansiedade, como se fosse uma falha pessoal em vez de uma resposta 
compreensível a um ambiente de trabalho exigente. A narrativa da empresa 
alinha-se com a tendência observada por Dunker, onde as neuroses são 
apagadas e categorias como depressão e ansiedade dominam, sendo tratadas 
como problemas individuais desconectados das condições sociais e 
econômicas. 
Maria é uma estudante universitária que trabalha em meio período para 
financiar seus estudos. Ela se vê constantemente sob pressão para se destacar 
academicamente e, ao mesmo tempo, gerenciar suas finanças pessoais. A 
universidade oferece workshops sobre gestão do tempo e estresse, mas evita 
discutir como a carga de trabalho excessiva e a pressão por resultados imediatos 
podem afetar a saúde mental dos estudantes. 
A universidade, alinhada com a lógica do neoliberalismo, promove a ideia 
de que os estudantes devem ser empreendedores de si mesmos, otimizando 
constantemente seu desempenho e produtividade. Maria começa a interiorizar a 
noção de que qualquer dificuldade que ela enfrente é um reflexo de sua própria 
ineficiência, e não do sistema educacional que demanda alto desempenho em 
múltiplas frentes. 
 
 
14 
Ambos os exemplos práticos ilustram como a lógica neoliberal transfere a 
responsabilidade pelo sofrimento psíquico para o indivíduo, enquanto ignora as 
condições sistêmicas que contribuem para esse sofrimento, 
João, agora um gerente sênior, está encarregado de implementar novas 
políticas de desempenho que incluem metas agressivas de produtividade. A 
empresa justifica essas políticas como uma forma de maximizar o potencial dos 
funcionários, argumentando que a pressão pode ser um "motivador positivo". 
João vê que isso causa uma elevação nos níveis de estresse e ansiedade na 
sua equipe, mas é informado de que tais sentimentos são normais e até 
desejáveis para impulsionar o engajamento e o crescimento pessoal. 
João observa que a empresa se esforça para minimizar os riscos jurídicos 
associados ao esgotamento dos funcionários, oferecendo acesso a terapias e 
aconselhamento, mas sem reduzir a carga de trabalho. O foco é manter os 
funcionários produtivos a qualquer custo, enquanto se evita a responsabilidade 
por qualquer consequência negativa a longo prazo para a saúde mental dos 
funcionários. 
Maria, após se formar, tornou-se uma profissional bem-sucedida, mas 
está lidando com níveis crescentes de estresse e exaustão. Ela procura ajuda e 
é diagnosticada com uma desordem de ansiedade. Em vez de um tratamento 
que considere as pressões do seu ambiente de trabalho, o foco é na 
administração de medicamentos para gerenciar seus sintomas, permitindo que 
ela continue a funcionar sob as mesmas condições estressantes. 
O tratamento de Maria segue a tendência que Dunker identifica como a 
transformação do sofrimento psíquico em algo a ser gerido através da 
farmacologia, muitas vezes, sem questionar ou alterar as condições sociais que 
contribuem para o problema. Assim, Maria se torna mais uma peça na 
engrenagem de um sistema que valoriza a produtividade acima do bem-estar 
individual. 
Essas aplicações práticas mostram como a psicanálise pode ser uma 
ferramenta valiosa não só no tratamento, mas também como um meio de 
entender e enfrentar questões sociais mais amplas. Ao aplicar os conceitos 
discutidos em contextos reais, podemos escutar de forma mais profunda a saúde 
mental. 
 
 
15 
FINALIZANDO 
Nossa jornada nos levou por uma exploração profunda de como a 
psicanálise se entrelaça com questões sociais e de saúde, oferecendo 
perspectivas únicas e valiosas sobre os desafios contemporâneos. 
Revisitamos a influência do neoliberalismo no sofrimento psíquico, a 
importância histórica e contemporânea das clínicas públicas de Freud, o conceito 
do trauma da pobreza, a neurose de classe e as complexidades psicológicas da 
ascensão social por meio da educação. Cada tema apresentou uma 
oportunidade para entender melhor os intricados laços entre a psique individual 
e o contexto social mais amplo. 
Na prática, vimos como esses conceitos podem ser aplicados em diversos 
contextos, desde o ambiente terapêutico até o cotidiano. A psicanálise oferece 
não apenas um caminho para o tratamento do sofrimento, mas também um meio 
de análise e intervenção em questões sociais e de saúde. 
À medida que avançamos neste estudo, encorajo cada um de vocês a 
refletir sobre esses temas, considerar como eles se aplicam a suas próprias 
experiências e explorar como a psicanálise pode ser utilizada como uma 
ferramenta para compreensãoe mudança social. Que este conteúdo seja um 
ponto de partida para uma jornada enriquecedora de aprendizado e descoberta. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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