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Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 10 Aula 1 - Conceitos fundamentais Por que propulsão espacial é necessária? Foguetes (Figura 1) são dispositivos tecnológicos muito conhecidos pela capacidade que têm de colocar objetos no espaço. A propulsão espacial não é, entretanto, apenas usada em foguetes. Ela faz parte de diversos subsistemas espaciais que têm como objetivo estabelecer órbitas ou cumprir missões espaciais. São 4 as justi icativas ou funções espaciais para se utilizar propulsão espacial: 1. Colocar cargas úteis em órbita da Terra: propulsão de lançamento. Sistema de ascensão com força necessária para, a partir da Terra, colocar em órbita terrestre a carga útil e seu combustível remanescente. 2. Enviar cargas úteis até a lua ou a outros planetas: transporte espacial. Sistema de transporte capaz de levar cargas úteis da Terra a outros corpos celestes, chegando neles com velocidade apropriada para permitir sua descida até a superfície do corpo celeste ou permanecer em sua órbita. 3. Para posicionar, ajustar e manter órbitas de engenhos espaciais: propulsão auxiliar. Sistema de deslocamento capaz de fazer a transição entre trajetórias diferentes, e. g., de uma órbita intermediária para uma órbita final. Para isso, não apenas foguetes, mas outros dispositivos não químicos, p. ex., propulsores elétricos podem ser usados. Também pode ser usada para manter uma determinada posição orbital (station keeping). 4. Para orientar engenhos espaciais em atitude: propulsão de atitude. Sistema de posicionamento capaz de girar o engenho espacial em torno de um eixo pré-definido de forma a prepará-lo para sua função final. Para realizar essas funções, diferentes tecnologias de propulsão são utilizadas. A mais conhecida delas é a tecnologia de propulsão química (ver Aula 4), responsável por colocar em órbita imensas cargas úteis como propulsão de lançamento (1). Isso é feito por meio de veículos lançadores (launchers). Entretanto, essa tecnologia tem suas limitações. Quando se considera a ampla gama de aplicações necessárias no espaço e no futuro, a propulsão química foge aos requisitos. Por exemplo, fazer uma viagem interestelar e alcançar a estrela mais próxima do sol ( Centauro) não pode ser realizado usando tecnologia química, pois a quantidade de combustível envolvida é muito grande. É presentemente impossível viajar até as estrelas sem considerar o uso de tecnologias inovadoras de propulsão. Essas devem ser leves, e icientes e de alta durabilidade. Como as distâncias são imensas, elas precisam funcionar de forma intermitente por centenas de Figura 1 Fonte: pxhere.com (Licença CCO Public Domain). Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 11 anos considerando que não é possível atingir velocidades próximas à da luz com toda tecnologia que existe. Viajar até as estrelas exigirá um salto tecnológico considerável! O mais razoável é esperar daqui para frente pequenos avanços na área de propulsão não química, como sistemas elétricos (Aula 6) que podem ser usados para as funções de posicionamento orbital e orientação de atitude (iii) e (iv). Uma aplicação relevante no futuro é a de sistemas de propulsão para realizar “limpeza” do lixo espacial acumulado em vastas regiões orbitais em torno da Terra. Para compreender cada uma dessas aplicações é necessário iniciar por aquela que é a principal função da propulsão e que exige a maior potência. Movimento parabólico na atmosfera Para deixar a Terra, um corpo precisa vencer não só uma grande distância, mas uma enorme força. Essa força é a gravidade mais a resistência do ar. A trajetória descrita pelo movimento de um projetil, lançado na atmosfera terrestre, é um exemplo de movimento orbital. Para isso, um projétil (p. ex., uma bola de ping- pong, uma bala de revolver, uma pedra etc, ver Figura 2) é lançada com certa velocidade inicial 𝑣 . A velocidade do projétil pode ser decomposta em duas componentes: a x ao longo do chão e a y na vertical. Ao ascender, a velocidade em y se reduz até atingir zero no chamado “apogeu” da trajetória. A velocidade em x permanece pouco alterada. Por causa da atmosfera, o projétil sofre ação de uma força de resistência do ar que reduz sua velocidade. Essa força tanto contribui para reduzir a altura do apogeu como o alcance determinado pela velocidade em x. O movimento se parece com uma seção de parábola e corresponde, na verdade, ao apogeu de uma órbita elíptica (Figura 3) cujo foco principal está no centro da distribuição de massa em torno da Terra. Desde que lançado com energia su iciente, um projétil poderia subir além da atmosfera terrestre, mas, para entrar em uma órbita útil, teria que ter seu movimento atuado por outra força a im de corrigir sua trajetória. Se lançado em uma órbita desse tipo, o projétil deixado por si, retornaria ao mesmo ponto, ou seja, entraria novamente na atmosfera terrestre ou permaneceria eternamente distanciado da Terra, a depender da energia fornecida a ele durante seu lançamento. Não é possível assim lançar um satélite em uma órbita útil em volta da Terra sem que um mecanismo de propulsão que atue ao longo de toda trajetória seja utilizado. Figura 2 Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 12 O movimento aproximado (para baixas velocidades de lançamento) pode ser descrito por um conjunto de equações com base na lei da queda dos corpos de Galileu Galilei (Figura 4, 1564 — 1642). A distância percorrida por um corpo em queda é diretamente proporcional ao quadrado do tempo que ele leva para cair. Essa lei também implica que a distância percorrida não depende da massa do corpo. Logo, em termos gerais, a trajetória de um projétil em lançamento balístico é a mesma e só depende da velocidade inicial e de seu ângulo de lançamento. Outros fatores interferem na curva de movimento parabólico que são de importância para viagens espaciais. Para ver isso, é necessário obter a equação do movimento parabólico sem levar em consideração a resistência do ar. Trata-se de uma aproximação, que não é completamente válida para um planeta com atmosfera relevante. Como a distância percorrida, 𝑠, é proporcional ao tempo, 𝑡, ou 𝑠 ∝ 𝑡 , então a velocidade em qualquer tempo é linearmente proporcional ao tempo ou 𝑣 ∝ 𝑡. Figura 3 A trajetória é aproximadamente “parabólica”. O movimento real durante o lançamento é elíptico. No apogeu, a velocidade radial se anula. Figura 4 Galieu Galilei. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 13 A constante de proporcionalidade é a aceleração da gravidade. Em um sistema ortogonal de coordenadas ixo na Terra onde a gravidade desde a super ície não muda (é o modelo da “Terra Plana”), com o eixo y apontado para cima, ou seja, o vetor unitário dado em termos da tríade (𝒊, 𝒋, 𝒌), a velocidade do corpo no tempo será dada pela equação: 𝒗 = −𝑔 𝑡 𝒋 + 𝒄 , onde grafamos em negrito quantidades que são vetores e 𝑔 é a aceleração da gravidade (= 9,806 m/s2) tomada como constante. No sistema de coordenadas designado, a velocidade inicial do corpo pode ser escrita como: 𝒗 = 𝑣 (𝒊 cos 𝛼 + 𝑣 𝐣 sin 𝛼), onde 𝛼 é o ângulo inicial de lançamento e 𝑣 é o módulo da velocidade inicial. A constante vetor 𝒄 é a própria velocidade inicial. Logo, na ausência de resistência do ar, a posição do corpo a qualquer tempo será dada por: 𝒔(𝑡) = 𝒗(𝑡′)𝑑𝑡′ = 𝒊 𝑣 𝑡 cos 𝛼 + 𝒋 𝑣 𝑡 sin 𝛼 − 1 2 𝑔 𝑡 . Nessa equação temos a manifestação da lei de Galileu: a distância percorrida em queda livre vertical (para 𝛼 = −90°) é proporcional ao quadrado do tempo. A velocidade ao longo de x permanece constante e igual à projeção 𝑣 cos 𝛼. A velocidade ao longo da altura y se reduz até o tempo 𝑡∗ tal que a componenteao longo de j seja nula, ou seja, quando 𝑡∗ = 𝑣 𝑔 sin 𝛼, Esse é o tempo que o projétil leva para alcançar o apogeu. Na ausência de atmosfera, o tempo total da trajetória (quando o projétil retorna para a super ície) é o dobro de 𝑡∗ pois na fase de “queda livre” o movimento é idêntico ao de ascensão. A posição máxima do apogeu corresponde ao vetor 𝒔(𝑡∗), ou seja 𝒔(𝑡∗) = 𝒊 𝑣 𝑔 sin 𝛼 + 𝒋 𝑣 2𝑔 sin 𝛼 O alcance 𝑠 (2𝑡∗) é a máxima distância (no caso 𝛼 > 0!) percorrida pelo corpo ao longo de x, ou seja, é o ponto onde o projétil poderá ser encontrado quando retornar à Terra. Essa distância ocorre em 2𝑡∗ ou seja, 𝑠 (2𝑡∗) = 𝑣 𝑔 sin 2𝛼 Figura 5 Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 14 Essas equações têm consequências importantes para voos espaciais, uma vez a trajetória de um corpo com propulsão pode ser decomposto por uma sequência de “movimentos aproximadamente parabólicos” em que, a cada instante de tempo, um acréscimo de velocidade é adicionado ao movimento. Para o projétil concluímos: Com a energia que se imprime ao corpo de massa m é proporcional ao quadrado da velocidade (é sua energia cinética), então o apogeu e o alcance são proporcionais à energia inicial conferida ao projétil. Como o alcance depende de sin 2𝛼, ele será máximo quando sin 2𝛼 = 1, ou 𝛼 = 45∘. Um fato importante, porém, é que há uma dependência do alcance e apogeu com o inverso da aceleração da gravidade 𝑔 . Mas não é assim em outros corpos celestes. Se um corpo celeste tem massa 𝑀, sua aceleração da gravidade (em sua super ície) será igual a 𝑔 = 𝐺𝑀 𝑅⁄ , onde 𝐺 é a constante da gravidade universal (6.674×10−11 m3⋅kg−1⋅s) e 𝑅 é o raio do corpo. A Tabela 1 fornece valores para a aceleração da gravidade em diversos corpos celestes, tendo a Terra como padrão (onde “g” =1). Dessa forma, um projétil lançado na Lua terá um alcance aproximadamente 6 vezes maior do que se lançado na Terra para a mesma velocidade (ou seja, energia) de lançamento. A máxima distância vertical também será aumentada na mesma razão. Isso não acontece com um projétil lançado na super ície de Júpiter, nesse caso o alcance e o apogeu são reduzidos em quase 3 vezes. Em uma viagem de ida e volta até um corpo celeste partindo da Terra, é necessário levar combustível tanto para a trajetória de ida como de volta. A energia contida nesse combustível precisa corresponder à energia cinética necessária para lançar o corpo em órbita. Usando o modelo de lançamento parabólico, ela é proporcional ao inverso de “g” Por exemplo, como a gravidade na super ície da Lua é Tabela 1 Acelerações de gravidade em diversos corpos do sistema solar. Corpo celeste g g/g0 Terra 9,8 m/s2 1 Lua 1,6 m/s2 1/6,25 Júpiter 24,5 m/s2 2,54 Asteroide Ceres 0.18 m/s2 ~1/50 Marte 3,7 m/s2 1/2,63 Figura 6 Força de arrasto devido à resistência de um luido. Pode ser considerada como proporcional ao quadrado da velocidade e depende da seção de área ortogonal à direção de movimento. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 15 menor do que na Terra, a energia cinética necessária para retornar de lá será consideravelmente menor: aproximadamente 1/6 da necessária para partir da Terra. Por outro lado, uma viagem até Júpiter enfrenta o empecilho de a quantidade ser mais que o dobro daquela necessária para sair da Terra. Essas conclusões precisam ser corrigidas depois com a introdução do movimento orbital, pois o valor de g também depende da distância do projétil do centro de gravidade, ou seja, ele não é constante. Como não levamos em consideração a resistência da atmosfera, os valores de energia de propulsão para lançamentos desde corpos celestes com atmosfera são maiores do que o modelo apresentado, inclusive para a Terra. A matemática apresentada aqui vale para a Lua, que é um corpo com densidade atmosférica desprezível. A força de resistência atmosférica (chamada “força arrasto” ou drag force, Figura 6) é proporcional ao quadrado da velocidade. Essa força depende também da forma do objeto. É possível aproximar essa força de arrasto 𝐹 como dada por: 𝐹 = − 1 2 𝐶 𝜌𝐴𝑣|𝑣|, 𝐸𝑞. 1.1(𝑎) onde 𝜌 é a densidade do luido onde o corpo se move, 𝐴 é a seção de área (projeção no plano ortogonal à direção do movimento, ver Figura 6), 𝐶 é um parâmetro chamado “coe iciente de arrasto” e 𝑣 é a velocidade em relação a um referencial em repouso em relação ao luido. O arrasto desaparece se a densidade da atmosférica for muito pequena ou no limite em que ela vai a zero. Essa equação também mostra que se a velocidade é dobrada, a força de arrasto aumenta 4 vezes pois ela não é uma função linear da velocidade. Portanto, além da força de gravidade, o projétil é atuado por uma força de arrasto que diminui sua velocidade. O movimento realmente “balístico” de um projétil na atmosfera terrestre é de uma “parábola distorcida” semelhante à Figura 7. Sua trajetória tem um alcance real 𝑠′ menor que o alcance sem resistência e um apogeu 𝑠′ também reduzido, pois parte da energia do projétil é gasta para vencer a resistência do ar. A velocidade em x com que o projétil alcança seu apogeu é menor do que a velocidade inicial projetada 𝑣 cos 𝛼, o que faz com que o movimento tenha um alcance menor. Por causa da não linearidade da equação de movimento resultante, não é possível obter uma fórmula fechada que descreva de forma analítica o movimento. Porém, previsões de trajetórias numéricas são possíveis. O objetivo de um sistema de controle é minimizar o vetor de erro entre a trajetória real e a predita por meio da integração da velocidade medida. Figura 7 Movimento balístico real do projétil devido à resistência do ar (curva cheia). A curva pontilhada é o movimento sem arrasto atmosférico (densidade nula de luido). Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 16 O movimento de projéteis (e de lançadores) que atingem grandes altitudes é ainda complicado pela dependência da densidade atmosférica com a altitude (para a Terra, ver a Figura 8 para essa dependência). Assim, a força de arrasto também depende da altitude. A 20 km da super ície da Terra, a densidade é aproximadamente 7% da densidade na super ície para a atmosfera padrão. Em viagens interplanetárias, é necessário conhecer antecipadamente a dependência da densidade com a altitude para ser possível planejar lançamentos a partir da super ície planetária. Uma parte considerável do trabalho de otimização de movimento em trajetórias sujeitas a resistência atmosférica precisa minimizar o coe iciente de arrasto 𝐶 . Essa constante depende não só da forma do corpo, mas de se posicionamento em relação ao vetor velocidade. Para ver isso, imaginemos uma folha de papel em queda: o arrasto que ela sofre é muito menor se seu plano estiver paralelo à sua velocidade do que ortogonal a ela. Portanto, a e iciência do alcance no movimento balístico (e forçado pela propulsão) depende do controle de atitude do projétil (ou foguete). Por outro lado, o coe iciente de arrasto é um parâmetro minimizável até certo ponto pelo desenho do chamado “nariz” do foguete. Em geral, corpos rombudos apresentam formas para reduzir 𝐶 que idealmente tem um limite inferior abaixo do qual não é mais possível reduzir a força de arrasto. Movimento orbital O movimento parabólico de um projétil é uma curva aproximada para a trajetória de um corpo. Não é sua trajetória na presença de arrasto atmosférico e apenas serve para aproximar o movimento quando não há propulsão ativa no objeto sendo lançado. Além disso, no espaço, o movimento é dominado pela força de gravidade que cria trajetórias peculiares de formato elíptico, parabólico ou hiperbólico. Essas trajetórias são “emendadas” no projeto de missões espaciaisde forma a reduzir o gasto de energia necessário para se atingir um determinado alvo no espaço. Por exemplo, antes de se acomodar em uma órbita circular em torno da Terra, um satélite segue o trajeto de seu lançador. Esse é formada pela junção de várias trajetórias que podem ou não incluir uma “seção balística”, mas que no ponto inal de “inserção em órbita” precisa suavemente ser transferida para a sua órbita circular. No movimento parabólico de um objeto lançado no polo da Terra (inicialmente tomamos dessa forma, pois não há qualquer componente de aceleração horizontal e o movimento é “vertical”, 𝛼 = 90°), obteremos sempre um retorno do corpo de massa 𝑚 desde que a aceleração da gravidade Figura 8 Densidade atmosférica como função da altitude até 20 km. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 17 é constante. A aceleração da gravidade se reduz à medida que o corpo sobe. Para determinar seu movimento exato nesse caso, lembramos que a energia total do movimento 𝐸 pode ser escrita como a soma de dois termos: 𝐸 = 1 2 𝑚𝑣 − 𝐺 𝑀𝑚 𝑅⊕ + ℎ (𝐸𝑞. 1.1). Nessa equação, 𝑀 (=5,98 × 10 kg) é a massa da Terra, 𝑅⨁ (=6,37 × 10 m) é o raio “médio” da Terra, G é a constante gravitacional universal e ℎ é a distância do corpo da super ície da Terra. Nesse arranjo, existe uma velocidade 𝑣 acima da qual o corpo nunca mais retorna ao seu ponto de lançamento. Essa velocidade é obtida fazendo 𝐸 = 0 na equação acima, e corresponde a considerar toda a energia do corpo igual a sua energia potencial na super ície da Terra (ℎ = 0), ou seja, −𝐺𝑀𝑚/𝑅⨁. Temos então a velocidade inicial 𝑣 = 2𝐺𝑀 𝑅⨁ , que é a velocidade de escape do corpo. Como toda a energia do corpo é gravitacional, ele abandonará a Terra e chegará no “in inito” (na prática uma região muito distante da Terra, ℎ ≫ 𝑅⨁, ver Figura 9) com velocidade nula (não há energia cinética residual). Essa velocidade não se aplica apenas a um movimento vertical, mas a qualquer ângulo, pois a velocidade inicial do corpo pode ser escrita como 𝑣 cos 𝛼 + 𝑣 sin 𝛼 = 𝑣 . A velocidade de escape é outra medida do grau de di iculdade em se deixar outros planetas. A Tabela 2 atualiza a tabela anterior com a velocidade de escape para diversos corpos celestes em km/s. Para obter a velocidade em km/h, basta multiplicar o valor da última coluna por 3600. Assim, a velocidade de escape da super ície da Terra é mais de 40.000 km/h. Figura 9 A velocidade de escape de um corpo é a velocidade necessária para que ele deixe o vínculo gravitacional com a massa maior 𝑀 que o abriga. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 18 Por comparação, uma bala de revolver viaja à velocidade inicial de 2700 km/h. Assim a velocidade de escape necessária, mesmo na Lua, é muito superior à velocidade de um projétil lançado por explosão em uma arma. É importante considerar que essa velocidade não leva em conta a potência perdida pelo arrasto atmosférico. Fazer lançamento por meio de um “tiro” desde a super ície da Terra envolveria energias muito maiores. Além disso, no tiro a aceleração sofrida pelo corpo poderia deformá-lo. Assim, não é prático lançar um corpo – e estamos falando de cargas úteis com equipamentos, humanos etc. – no espaço por meio de um estágio envolvendo um tiro único como no lançamento de um projétil. As acelerações envolvidas são muito grandes e a potência inicial exigida não pode ser produzida por nenhum mecanismo conhecido. Para outros tipos de movimento, partimos da mesma equação de energia Eq. 1. Escrevemos a velocidade em termos da posição, agora fazendo 𝑟 = 𝑅⨁ + ℎ, como sendo o módulo da posição do corpo no espaço em um referencial ixo ao centro da distribuição de massa em torno da Terra. Também, 𝑣 será o módulo de velocidade. Isolando a velocidade na Eq. 1 encontramos a equação da vis-viva: 𝑣 = 2𝐺𝑀 1 𝑟 + 𝐸 𝐺𝑀𝑚 . Como visto, se 𝐸 = 0, a velocidade inicial obtida é a velocidade de escape. Essa equação mostra que há uma relação inversa entre a posição do corpo e sua velocidade: quando mais distante ele estiver de 𝑀, tanto menor será a velocidade. A forma da trajetória dependerá da energia total que o corpo dispõe. Se 𝐸 ≥ 0, sua trajetória não será ligada ao centro da Terra. Para órbitas fechadas é necessário que 𝐸 𝑅⨁). Substituindo na equação de velocidade encontramos 𝑣 = 𝐺𝑀 𝑅 . A velocidade é circular em torno do centro, 𝑣 = 2𝜋𝑅/𝑇 , onde 𝑇 é o período orbital. Substituindo essa equação encontramos uma relação entre o período e a distância para a “órbita circular” 𝑇 = 4𝜋 𝑅 𝐺𝑀 . Portanto, o quadrado do período cresce na razão do cubo da distância do corpo em sua órbita circular. A quantidade 𝑘 = 4𝜋 /𝐺𝑀 é uma constante (k =9,908× 10 s2/m3 ou 1.37× 10 dias2/km3) e só depende da massa da Terra (varia conforme o corpo central, p. ex., se o objetivo é estabelecer uma órbita em torno de outro corpo planetário). Assim, o período de revolução de um corpo a uma altitude ℎ da super ície da Terra será dado por 𝑇 = 𝑘(𝑅⨁ + ℎ) Substituindo valores, para ℎ = 300 km, encontramos 𝑇 = 90,4 minutos. Esse é o período típico de um satélite em uma órbita baixa em torno da Terra. Um satélite geoestacionário se localiza a ℎ ≃ 35700 km, e o período resultante é próximo de 24 h, justamente para que o satélite possa “acompanhar” a rotação da Terra e permanecer estacionário sobre um ponto da super ície dela. Essa última equação (a chamada “3ª Lei de Kepler” ou “lei dos períodos”, ver Figura 10) é geral e vale para qualquer órbita com 𝐸ser escrita em termos de 𝑥 como ∆𝐸 = 1 2 𝑚𝑣 = 2𝜋 𝑚𝑅⨁ 𝑇 (1 + 𝑥) . visto que 𝑣 = 2𝜋(𝑅⨁ + ℎ)/𝑇. Dada a lei dos períodos, podemos eliminar 𝑇 em favor de 𝑥 na última equação, e a contribuição se torna ∆𝐸 = 𝐺𝑀𝑚 2𝑅⨁ 1 1 + 𝑥 . Logo, para 𝑥 ≪ 1, a energia total necessária para alcançar a órbita circular será ∆𝐸 = ∆𝐸 + ∆𝐸 , ou ∆𝐸 ≈ 𝐺𝑀𝑚 2𝑅⨁ (1 + 𝑥 − 𝑥 ). A energia mínima a ser provida pelo sistema de propulsão cresce inicialmente de forma linear com a distância a ser atingida (na aproximação em que 𝑥 ≲ 1/10). Exemplo: Para uma carga útil de 1 kg, 𝐺𝑀𝑚/𝑅⨁ ≃ 6,25 × 10 J. Para comparação, um projétil com 1kg de massa viajando a 2000 m/s (velocidade típica de uma bala), tem energia cinética igual a 2 × 10 J. A uma altitude de 300 km (ou 𝑥 = 0,047), esse corpo está em uma órbita circular com velocidade 7728 m/s e ∆𝐸 = 2.98 × 10 J. Figura 11 ∆𝐸 (ou energia mínima total para inserção em órbita, Eq. 3) como função de x em unidades de 𝐺𝑀𝑚/𝑅⨁ . Note que x está em escala logarítmica. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 21 Essa velocidade orbital mínima tem implicações para a e iciência do sistema de propulsão para o último estágio de inserção orbital. Observe que, para 𝑥 = 0, ∆𝐸 = 0, porém a energia cinética não se anula, pois corresponde à energia de um corpo em órbita na super ície da Terra (ℎ = 0), imaginando que ela fosse uma esfera perfeita e não tivesse atmosfera. Para tal órbita, 𝑇 = 84,26 min e ∆𝐸 = 3,12 × 10 J para uma massa de 1 kg. A expressão não aproximada é ∆𝐸 = 𝐺𝑀𝑚 𝑅⨁ 𝑥 + 1/2 1 + 𝑥 . (𝐸𝑞. 1.3) Essa função está traçada na Figura 11 desde ℎ = 300 km. O valor ∆𝐸=1 no eixo y corresponde à energia 𝐺𝑀𝑚/𝑅⨁ que fornece uma escala para as energias típicas (corresponde a uma órbita circular in initamente distante do corpo principal, ou para ℎ → ∞). Para altitudes de órbita 10 vezes o raio da Terra, a energia necessária é 100 vezes o valor 𝐺𝑀𝑚/𝑅⨁ , o que já é bastante elevado. Como essa energia necessária crescem com ℎ (ou seja, com a distância desde o centro de massa), então para órbitas circulares mais elevadas, a energia necessária é maior. Manobras orbitais As operações de mudança orbital envolvem transferência de um corpo de uma órbita a outra. Por exemplo, essas mudanças são comuns em missões interplanetárias (ir da Terra até Marte), ou desde uma órbita baixa na Terra até a Lua etc. Figura 12 Ilustração da transferência do tipo Hohmann, com a energia de cada órbita, incluindo a de transferência. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 22 Dos tipos mais simples de acoplamentos, o uso de uma órbita elíptica entre órbitas circulares caracteriza uma transferência de Hohmann (Figura 12). Para essa órbita, um dos focos da elipse é o mesmo que o centro das órbitas de partida e chegada. Se a órbita não for circular, ao invés da Eq. 2 a energia total será dada por 𝐸 = − 𝐺𝑀𝑚 2𝑎 , (𝐸𝑞. 1.4) onde 𝑎 é o semieixo maior da órbita elíptica. Essa energia é negativa e caracteriza uma trajetória ligada ao corpo principal. A transferência se consegue com uma órbita que seja osculatriz tanto à órbita de partida como à de chegada como mostra a Figura 12. Isso envolve diferenças de energia que devem ser providas pelo sistema de propulsão. Para a órbita osculatriz 2𝑎 = 𝑅 + 𝑅 e, com isso, é fácil ver que 𝐸 > 𝐸 e 𝐸 > 𝐸 . Assim, para realizar a transferência é preciso que o corpo na órbita 1 receba um impulso 𝑚∆𝑣 adicional para atingir energia total 𝐸 maior que 𝐸 , e que, ao chegar na órbita 2, receba outro impulso 𝑚∆𝑣 para estabilizar sua energia em 𝐸 que é maior que 𝐸 . Isso está ilustrado na Figura 12. Impulsos são providos pelo sistema de propulsão auxiliar, por simplicidade, são supostos “instantâneos”, ou seja, ocorrem em um tempo 𝛿𝑡 considerado muito menor do que qualquer dos períodos orbitais. A transferência inversa envolve uma redução de energia total, o que é conseguido por meio de “retro propulsores” (retro ires) que funcionam com “desaceleradores”. Para o planejamento da manobra, é importante conhecer as variações de velocidade, ∆𝑣 e ∆𝑣 , que são necessárias para se atingir o estado inal em cada caso. A e iciência energética depende do tipo de manobra utilizada e pode não ser o caso que uma manobra de Hohmann seja a mais e iciente. Figura 13 Diagrama esquemático de uma transferênica de Hohmann bielíptica. Em laranja e azul e vermelho as órbitas intermediárias usadas na transferência orbital. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 23 Uma outra maneira de se atingir a órbita superior é por meio de uma transferência de Hohmann bielíptica (Figura 13). Nesse caso, duas órbitas elípticas de transferência (daí o nome “bielíptica”) com focos comuns focos comuns são usados até se chegar à posição mais elevada. É possível ver que o total de energia gasto em cada manobra entre as órbitas depende da geometria usada, porém, em certas circunstâncias duas órbitas são mais e icientes do que uma. Alguns outros tipos de manobras possíveis são: Manobra de faseamento (Phasing maneuver): para reposicionar um engenho espacial ao longo de sua órbita original (ver Figura 14). Para isso, a partir da órbita inicial (Órbita “0”) uma órbita osculatriz com período ligeiramente diferente (órbita de transferência) é parcialmente executada "atrasando" ou “adiantando” a posição o corpo. Na Figura 14, o corpo em órbita inicialmente na posição A é levado até a órbita de transferência de maior energia (posição B). Ao atingir novamente o ponto onde se encontram, sua energia é reduzida para a mesma órbita inicial. O resultado é o corpo na posição C depois de algumas revoluções orbitais. Esse tipo de manobra é usada, por exemplo, durante as operações de aproximação entre dispositivos orbitais (como no caso de "docking" e “rendevouz”). Esse tipo de manobra não exige mudança de direção do vetor velocidade. Rotação da linha dos apsides. As manobras não envolveram mudança de direção do vetor velocidade. Na rotação da linha dos apsides, a órbita destino tem seus eixos principais girados em relação à orbita inicial de certo ângulo 𝛼 como mostra a Figura 15. Importante! Nessas manobras, as órbitas envolvidas são coplanares. Não há como se atingir a órbita destino a partir da órbita “0” por nenhum tipo de conexão de Figura 14 Exemplo de manobra de alteração de fase. Figura 15 Exemplo de rotação da linha dos apsides Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 24 Hohmann. Mas, para órbitas fechadas que se cruzam, existem dois pontos de atuação dos propulsores. Um deles é mostrado como P na Figura 15. Nesse ponto, o vetor velocidade deve ser alterado em intensidade e direção conforme o vetor ∆𝒗. Isso pode ser visto como uma mudança no argumento da velocidade em relação à “linha do horizonte” ou plano tangencial à órbita inicial. Manobra com mudança de plano orbital. Devido à conservação de momento como causa da centralidade da força gravitacional, um corpo colocado em órbita pertence a um plano orbital que não muda com o tempo. Manobras orbitais coplanares envolvem mudanças de velocidade com vetores colineares nesse plano. Entretanto, há situações em que é necessária uma mudança no plano orbital, o que envolve uma variação não-colinear de velocidade ∆𝒗 em um ponto ao longo da linha dos nodos (linha comum entre as duas órbitas). Como mostrado na Figura 16, podemos imaginar uma órbita inicial do tipo “polar” (com inclinação próximo a 90°) e uma órbita destino do tipo “equatorial” (inclinação próxima a 0°). Como situação prática de mudança de plano orbital, consideremos a finalizaçãode uma missão de um satélite geoestacionário. Por requisitos, esse satélite deve ter sua posição final em uma órbita equatorial (com período próximo ao tempo de rotação da Terra). Porém, quase sempre, a inserção em órbita é feito a partir de um centro de lançamento fora do plano do equador. Assim, uma mudança de plano orbital é necessária. Como muitas vezes o ∆𝑣 exigido é muito grande nesse tipo de manobra, para economizar combustível, a missão é planejada de forma que a órbita destino esteja o mais próximo possível da órbita inicial. Existem outros tipos de manobras orbitais que são tão mais complexas quanto mais complexos são os requisitos das missões. Por exemplo, em missões interplanetárias, diversas seções de órbitas fechadas podem ser usadas para se atingir a órbita em torno do planeta destino. Aproximações de órbitas não fechadas (hipérboles ou parábolas) podem ser usadas. Sistemas de propulsão são utilizados em arranjos especiais para permitir tais manobras. No planejamento de manobras orbitais as seguintes etapas devem ser utilizadas: 1. Determinar a energia final de todas as órbitas que serão usadas na manobra; 2. Calcular as diferenças de energia entre seções adjacentes; Figura 16 Manobra com mudança de plano orbital. Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 25 3. Determinar os impulsos e vetores de posicionamento necessários com base nos elementos orbitais das seções orbitais do processo; 4. Calcular o total de energia gasto em cada caso. 5. Verificar cenários diversos e escolher o melhor deles (otimização de trajetória) em termos de: economia de combustível e outros requisitos da missão (p. ex., prazos definidos de finalização, janelas de lançamento etc.). Do ponto de vista da e iciência energética, é razoável otimizar o número e os impulsos necessários em termos de uso de combustível. Uma vez que qualquer sistema é colocado em órbita a partir da Terra, a massa de todo combustível deve ser levada desde a primeira seção de trajetória para viabilizar as manobras no espaço. Por exemplo, satélites geoestacionários devem ser abastecidos com combustível su iciente inclusive para que possam ser descartados em órbitas mais distantes no inal de suas vidas úteis. Entretanto, outros requisitos podem ser importantes como, por exemplo, as datas de início de operação em órbita e janelas de lançamento. Embora a complexidade da tarefa de se planejar as órbitas de uma missão espacial, esse planejamento pode ser feito com certa precisão. É viabilizado pelo fato de a teoria do movimento orbital ser bastante desenvolvida e a maior parte das equações serem tratáveis principalmente por métodos numéricos. Portanto, os valores para as cargas de combustível (depois de se considerar outros fatores igualmente quanti icáveis) são próximos do que se espera em testes no ambiente operacional. Revisão da Aula e considerações inais Para sistemas de propulsão, um primeiro parâmetro relevante é a própria energia necessária para colocar um engenho espacial em determinada órbita a partir da Terra. A energia mínima necessária envolve uma diferença de energia entre a órbita de destino e a órbita inicial. As noções de consumo de energia apresentadas aqui são apenas uma parte do total necessário tendo em vista a inerente ine iciência de máquinas de conversão de energia (propulsores) e a necessidade de vencer outras forças além da gravidade. As energias envolvidas são da ordem de ≳ 10 J para a um corpo de 1kg, e crescem linearmente com a massa. Isso tem implicações para a dimensão inal do sistema propulsivo. Sistemas de propulsão auxiliares são usados para realizar manobras orbitais. As velocidades orbitais que devem ser atingidas são da ordem de milhares de quilômetros por hora em órbita. A “injeção” de um corpo em órbita da Terra deve ser feita de forma que o corpo tenha a velocidade apropriada em sua órbita destino. Se ela for circular, será um vetor paralelo à super ície da Terra. Na descrição aqui apresentada é importante ressaltar as aproximações: 1. A energia total precisa levar em consideração a energia potencial de outros corpos mais distantes – principalmente para viagens interplanetárias de longa duração. 2. Outros tipos de força não foram incluídos. Por exemplo, o sol exerce com sua luz uma força de radiação repulsiva que, embora pequena, tem efeitos a longo prazo. O efeito da radiação do sol pode ser usado, porém, a favor das manobras orbitais em alguns sistemas especiais Curso “Introdução à Propulsão Espacial” – (AEB Escola Virtual). 26 com base em “velas solares”. Para lançamentos desde a Terra, a resistência do ar na baixa atmosfera consome potência e deve ser levado em consideração. 3. Nas transferências entre órbitas, assume-se que a massa do engenho em manobra é constante. Mas não é assim, pois uma parte da massa é perdida na operação de propulsão.