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Lei do Abuso de Autoridade Professora Flávia Lausi Rodrigues Professor Thales de São José Sandoval Reitor Prof. Ms. Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino Prof. Ms. Daniel de Lima Diretor Financeiro Prof. Eduardo Luiz Campano Santini Diretor Administrativo Prof. Ms. Renato Valença Correia Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Coord. de Ensino, Pesquisa e Extensão - CONPEX Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza Coordenação Adjunta de Ensino Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo Coordenação Adjunta de Pesquisa Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme Coordenação Adjunta de Extensão Prof. Esp. Heider Jeferson Gonçalves Coordenador NEAD - Núcleo de Educação à Distância Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal Web Designer Thiago Azenha Revisão Textual Beatriz Longen Rohling Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Kauê Berto Projeto Gráfico, Design e Diagramação André Dudatt 2021 by Editora Edufatecie Copyright do Texto C 2021 Os autores Copyright C Edição 2021 Editora Edufatecie O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correçao e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permi- tidoo download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP R696L Rodrigues, Flávia Lausi Lei do abuso de autoridade / Flávia Lausi Rodrigues, Thales de São José Sandoval. Paranavaí: EduFatecie, 2021. 85 p.: il. Color. 1. Direito penal. 2. Abuso de autoridade - Brasil. I. Sandoval, Thales de São José. II. Centro Universitário UniFatecie. III. Núcleo de Educação a Distância. IV Título. CDD: 23 ed. 341.55173 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 UNIFATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333 Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 2 Rua Cândido Bertier Fortes, 2178, Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 3 Rodovia BR - 376, KM 102, nº 1000 - Chácara Jaraguá , Paranavaí, PR (44) 3045-9898 www.unifatecie.edu.br/site As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site Shutterstock. AUTORES Professora Flávia Lausi Rodrigues ● Bacharela em Direito pela PUC/PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); ● Pós-graduanda em Direito Civil na UEM (Universidade Estadual de Maringá/PR); ● Graduada no Curso de Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR); ● Inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil n. 103.994 OAB/PR; ● Cursando pós-graduação com ênfase em Direito Civil pela (UEM/PR) Universi- dade Estadual de Maringá/PR; ● Advogada atuante na área do Direito Privado, com ênfase no Direito Civil e Direito de Família, na Comarca de Maringá, Estado do Paraná. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/8370474036774655 Professor Thales de São José Sandoval ● Bacharel em Direito pela PUC/PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); ● Pós-graduando em Ciências Penais pela UEM/PR (Universidade Estadual de Maringá/PR); ● Pós-graduando em Direito Processual Civil pela UCAM (Universidade Candido Mendes/RJ). ● Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR); ● Advogado, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil n. 102.972/PR, atuante na área do Direito Público, com ênfase no direito penal e processual penal, principalmente na cidade de Maringá/PR. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/6055247071827163 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Seja muito bem-vindo(a)! Prezado(a) aluno(a), se você se interessou pelo assunto desta disciplina, isso já é o início de uma grande jornada que vamos trilhar juntos a partir de agora. Proponho, junto com você, construir nosso conhecimento sobre os conceitos fundamentais da nova lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019). Além de conhecer seus principais conceitos e definições, vamos explorar as mais diversas aplicações. Na Unidade I começaremos a nossa jornada pela legislação penal especial, tra- tando sobre a tutela penal da Administração Pública, o conceito geral sobre os agentes públicos, os bens jurídicos tutelados e as principais legislações que preveem os crimes contra a Administração Pública. Já na Unidade II, vamos ampliar nossos conhecimentos sobre a Lei de Abuso de Autoridade. Para isso, vamos detalhar cada uma das principais características, quem é o sujeito ativo e o sujeito passivo na prática do crime de abuso de autoridade, faremos uma breve análise histórica e abrangente sobre a referida Lei, encerrando a Unidade II, tratando sobre a ação penal. Depois, nas Unidades III e IV vamos tratar especificamente dos efeitos, penas restritivas de direito e sanções cíveis e administrativas. Ao longo da Unidade III, vamos destacar os principais crimes e penas previstos na lei de abuso de autoridade, tratando de forma minuciosa, desde os crimes previstos nos arts. 9º ao artigo 38. Encerraremos, abordando sobre os aspectos gerais do procedimento penal que julgarão os crimes de abuso de autoridade. Aproveito para reforçar o convite a você, para junto conosco, percorrer esta jornada de conhecimento e multiplicar os conhecimentos sobre tantos assuntos abordados em nos- so material. Esperamos contribuir para seu crescimento pessoal e profissional. Muito obrigado e bom estudo! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 3 Da Legislação Penal Especial UNIDADE II ................................................................................................... 20 Da Lei de Abuso de Autoridade UNIDADE III .................................................................................................. 38 Da Lei de Abuso da Autoridade: Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas UNIDADE IV .................................................................................................. 56 Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas 3 Plano de Estudo: ● Da tutela penal da Administração Pública; ● Do conceito geral sobre agentes públicos; ● Do (s) bem (s) jurídicos tutelados; ● Das principais legislações que preveem crimes contra a Administração Pública . Objetivos da Aprendizagem: ● Abordar de forma geral a tutela penal da Administração Pública; ● Conceituar e contextualizar as funções dos agentes públicos; ● Compreender os bens jurídicos tutelados pela administração pública, bem como pela Lei de Abuso de Autoridade; ● Analisar as principais legislações que preveem crimes contra a administração pública. UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Professora Flávia Lausi Rodrigues Professor Thales de São José Sandoval 4UNIDADE I Da Legislação Penal Especial INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo (a) ao estudo sobre a Lei de Abuso de Autoridade. O objetivo geral da nossa disciplina é compreender as nuances principais da nova Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/19), enfatizando as características principais do tipo penal, os bens jurídicos tutelados e as demais previsões e implicações no nosso cotidiano. As informações que serão transmitidas para você, aluno (a), ao longo do nosso material de estudo trarão uma melhor compreensão acerca da sistemática da referida lei, pois o objetivo é que a partir dessa compreensão, você aluno (a) consiga, por si só, concei- tuar o crime de abuso de autoridade, analisar e identificar os sujeitos envolvidos aos bens jurídicos tutelados, identificar os principais crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade, passando, por fim, a desenvolver a expertise para diagnosticar as implicações decorrentes da inovação na legislação e os impactos gerados no dia a dia dos agentespúblicos. Para tanto, na presente unidade, no Tópico I, abordaremos, de forma geral, a tutela da Administração Pública, desde o seu conceito, até suas finalidades, objetivo geral e as demais peculiaridades. No Tópico II, conceituaremos e contextualizaremos as funções do agente público no dia a dia. Por conseguinte, no Tópico III do nosso material, traremos para você, aluno (a) o conteúdo acerca dos bens jurídicos tutelados pela Administração Pública, bem como pela Lei do Abuso de Autoridade. Por fim, encerraremos o estudo da nossa primeira unidade, analisando as principais legislações que preveem crimes contra a administração pública Vamos começar! 5UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 1. DA TUTELA PENAL DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Caro (a) aluno (a), iniciaremos o estudo do nosso material trazendo uma visão mais abrangente acerca da tutela penal da Administração Pública. Para tanto, antes de iniciarmos os nossos estudos, precisamos conhecer e identificar o conceito de administração pública e o conceito do abuso de autoridade, a fim de facilitar a compreensão acerca da matéria. Nas palavras de José Afonso da Silva (2002): Administração Pública é o conjunto de meios institucionais, materiais, finan- ceiros e humanos preordenados à execução das decisões políticas. Essa é uma noção simples de Administração Pública que destaca, em primeiro lugar, que é subordinada ao Poder Político; em segundo lugar, que é meio e, portanto, algo de que se serve para atingir fins definidos e, em terceiro lugar, denota os seus dois aspectos: um conjunto de órgãos a serviço do Poder Político e as operações, as atividades administrativas. (SILVA, 2002, p.634) Guilherme de Souza Nucci (2020), por sua vez, define a Administração Pública da seguinte forma: A administração pública pode ser definida, objetivamente, como a atividade concreta e imediata que o Estado desenvolve para a consecução dos inte- resses coletivos e, subjetivamente, como o conjunto de órgãos e de pessoas jurídicas aos quais a lei atribui o exercício da função administrativa do Esta- do. (NUCCI, 2020, p. 305) Embora existam diferentes conceitos acerca da Administração Pública, podemos dizer que a administração pública define-se como o poder de gestão do Estado, visando legislar, fiscalizar, regulamentar, por meio de seus órgãos e instituições, aspirando a um serviço público efetivo. 6UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Quanto ao conceito de abuso de autoridade Nucci, (2020) estabelece que: Abusar é um verbo de muitos significados, todos espelhando condutas ne- gativas, variando desde um uso impróprio de algo, passando por se exceder nessa utilização de qualquer instrumento, atingindo as fórmulas de menos- prezo ou humilhação, até alcançar a tomada de medida injusta para fazer prevalecer a situação de superioridade. (NUCCI, 2020, p. 1) Diante do abuso de autoridade, o legislador penal criou a Lei 13.869 de 05 de se- tembro de 2019, popularmente conhecida como Lei do Abuso de Autoridade, prevendo um rol de condutas típicas, visando tutelar, de forma geral, a Administração Pública, intentando a fiscalização e a correção dos atos administrativos e a atuação dos órgãos que integram a Administração Pública (MENDES, 2000, p. 1). Por esse motivo, Mendes (2000) advoga que: o estudo do controle da Administração Pública nos leva a examinar, princi- palmente, os mecanismos de correção dos atos públicos, que, como já visto, podem ser anulados ou revogados em razão de ilegalidade ou por motivos conveniência ou oportunidade. (MENDES, 2000, p. 1) A tutela penal na Administração Pública visa punir os atos ilícitos cometidos contra a Administração Pública. De acordo com (MENDES, 2000, p. 1) a “a apuração e a punição do ilícito penal é, sem dúvida, uma forma de controle da Administração Pública, exercida pelo Poder Judiciário”. Os instrumentos penais utilizados para o controle da Administração Pública: são utilizados como forma de controle subsequente ou corretivo, visando não propriamente corrigir defeitos ou declarar a nulidade de atos administrativos, mas sim, recompor a ordem jurídica e as lesões ao interesse público, median- te a punição penal (MENDES, 2000, p.1). Ressalta-se que, nem toda lesão à esfera administrativa é feita por um funcionário público. “Com frequência, os particulares, movidos de ímpeto pernicioso, atrapalham o regu- lar funcionamento da Administração, de modo a reclamar uma tutela” (SOARES, 2005, p.1). Logo, qualquer pessoa que lesione esse bem deve merecer a retribuição penal, não importando o seu estado ou a sua condição, pois o que se colima res- guardar em segurança, como já afirmado, é o ente estatal na pessoa da Ad- ministração Pública. (SOARES, 2005, p.1). Em outras palavras, é dizer que a Administração Pública, em geral, é o objeto da tutela penal, pois a lei visa, por meio dos seus dispositivos, resguardar a Administração Pública, punindo, mediante sanções (restrição de liberdade ou multa) àqueles (funcionários públicos ou particulares) que cometem atos ilícitos contra a Administração Pública, em uma situação de crime praticado por particulares, imaginemos o crime de desacato. 7UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Para uma melhor compreensão a esse respeito, vejamos, de forma geral, as dispo- sições da Lei nº 13.869 (Lei do Abuso de Autoridade): Art 1º. Esta Lei define os crimes de abuso de autoridade, cometidos por agen- te público, servidor ou não, que no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las, abuse do poder que lhe tenha sido atribuído. § 1º. As condutas descritas nesta Lei constituem crime de abuso de autorida- de quando praticadas pelo agente com a finalidade específica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal. §2º. A divergência na interpretação de lei ou na avaliação de fatos e provas não configura abuso de autoridade. (BRASIL, 2019). Com a tutela penal pretende-se preservar a normalidade funcional, a probidade, o pres- tígio, a incolumidade e o decoro da Administração Pública, ou seja, é dizer em outras palavras, que se trata de agir de acordo com os princípios éticos e morais aceitos em uma sociedade. Celso Antônio Bandeira de Mello (2000, p.1) traz uma importante ressalva em seus estudos acerca da tutela penal na Administração Pública, pois ressalta “a possibilidade do controle da Administração ser suscitada, “por qualquer pessoa”, com o propósito de que seja sancionado o agente que tenha incidido em “abuso de autoridade” por meio da aplicação de sanção de natureza penal. Entre os principais instrumentos legais que tratam da Administração Pública como objeto de tutela penal, com previsão de aplicação de sanções de natureza penal para os agentes públicos, podemos citar: ● O Código Penal, art. 312 a 326 (Crimes contra a Administração Pública); ● Lei nº 13.869, de 5 de setembro de 2019 (Lei do Abuso de Autoridade); ● Lei de Licitações e Contratos Administrativos. Os referidos instrumentos legais serão esmiuçados ao longo dos nossos estudos no nosso material. 8UNIDADE I Da Legislação Penal Especial SAIBA MAIS A Nova Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019) que começou a vigorar no dia 03 de janeiro de 2020, chegou, e com força, impondo 45 tipos de condutas abusivas contra os agentes públicos de todo o país. A nova lei amplia tanto as condutas descritas como abusivas na legislação anterior, como a quem elas aplicam-se, abrangendo servidores públicos e autoridades, tanto civis quanto militares, dos três Poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário-, como tam- bém do Ministério Público, sejam federais ou estaduais. Fonte: FROZI E PESSI. Uma breve análise da nova Lei de Abuso de Autoridade. Disponível em: https:// www.direitonet.com.br/artigos/exibir/11458/Uma-breve-analise-da-nova-Lei-de-Abuso-de-Autoridade. Acesso em: 14 ago. 2021. REFLITA “O Direito Penal constitui a última ratio,devendo ser utilizado como instrumento de re- serva, destinado ao resguardo dos bens jurídicos que se mostrem os mais relevantes em termos sociais e que dependam de um grau de proteção superior àquele propicia- do por ordens sancionatórias de menor gravidade dentro do ordenamento jurídico, tais como a Administrativa e a Civil”. Fonte: ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. Disponível em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/411/edi- cao-1/administracao-publica. Acesso em: 05 nov. 2021. Vimos, ao longo deste tópico, de forma abrangente, a tutela penal da Administração Pública que consiste na criação de mecanismos processuais penais (sanções penais pu- nitivas) que visam punir os atos ilícitos cometidos contra a administração pública, aqueles praticados pelos próprios agentes públicos ou pelo particular. No próximo tópico, trataremos sobre o conceito geral dos agentes públicos. https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/11458/Uma-breve-analise-da-nova-Lei-de-Abuso-de-Autoridade https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/11458/Uma-breve-analise-da-nova-Lei-de-Abuso-de-Autoridade https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/411/edicao-1/administracao-publica https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/411/edicao-1/administracao-publica 9UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 2. DO CONCEITO GERAL SOBRE AGENTES PÚBLICOS: Conforme disposto no artigo 1º da Lei nº 13.869/2019, os crimes de abuso de autoridade são praticados por agentes públicos. “Esta Lei define os crimes de abuso de au- toridade, cometidos por agente público, servidor ou não, que, no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las, abuse do poder que lhe tenha sido atribuído”. Assim, para entendermos de forma clara a aplicabilidade da referida lei, é necessá- rio compreendermos quem são, efetivamente, os agentes públicos. Conforme dispõe o artigo 2º da Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019) conceitua-se agente público, toda pessoa que, de alguma forma, exerce função estatal: Art. 2° Parágrafo único. Reputa-se agente público, para os efeitos desta Lei, todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função em órgão ou en- tidade abrangidos pelo caput deste artigo. (BRASIL, 2019). Nas palavras de Miriam V. Fiaux Horvath (2011, p. 23) “Os recursos humanos a serviço da Administração Pública, ou seja, a massa de pessoas que realiza tarefas que àquela compete, são chamadas de agentes públicos” . Hely Lopes Meirelles (2004, p. 75) define agentes públicos como todas as pessoas incumbidas, definitiva ou transitoriamente, do exercício de alguma função estatal. O autor explica que os agentes são divididos em 5 (cinco) espécies, quais sejam: 10UNIDADE I Da Legislação Penal Especial a) Agentes políticos: competentes pelas mais altas diretrizes estabelecidas pelo Estado. Ocupam os mais elevados postos da Administração Pública. Exemplos: Presidente, Governador e Prefeito; b) Agentes administrativos: conhecidos também como servidores públicos, li- gam-se ao Estado por vínculo profissional e integram a massa dos prestadores de serviço dos órgãos e entidades públicas. Exemplos: Servidores estatutários e celetistas; c) Agentes honoríficos: Exercem a função pública momentaneamente e não possuem vínculo empregatício com o Estado, podem ser remunerados ou não. Exemplos Jurados e mesários; d) Agentes delegatários: São particulares e exercem a função pública em seu nome, porém são fiscalizados pelos órgãos públicos. Exemplos: Titulares de cartório e agentes das concessionárias de serviços públicos; e) Agentes credenciados: Recebem da Administração a incumbência de repre- sentá-la em determinado ato ou de praticar determinada atividade, em momento ou tempo certo e mediante remuneração do Poder Público. Exemplo: Peritos credenciados da Justiça e médicos credenciados. Em outras palavras, agentes públicos são todos os sujeitos que exercem, de alguma forma, a função pública ou colaboram com a Administração pública direta ou indiretamente. Posto isso, resta claro que a relação duradoura ou permanente, bem como o re- cebimento de remuneração não são requisitos necessários para que alguém se enquadre nos conceitos de agente público. Para facilitar a compreensão, podemos mencionar como exemplo os mesários convocados para as eleições, conforme ilustra a Figura 1. FIGURA 1 - CLASSIFICAÇÃO DO AGENTE PÚBLICO Fonte: Cláudia, C. A. Direito Administrativo Facilitado. [Digite o Local da Editora]: Grupo GEN, 2018. 9788530983819. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530983819/. Acesso em: 14 ago. 2021. 11UNIDADE I Da Legislação Penal Especial É Importante também ressaltarmos sobre a divergência doutrinária a respeito da classificação dos seguintes cargos: juiz, promotor, procurador da república e diplomata. Pelo entendimento da vertente minoritária defendida por Hely Lopes Meirelle, Maria Sylvia Zanella Di Pietro e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) referidas funções supraci- tadas devem ser inseridas na espécie de agente políticos, uma vez que, segundo referidos doutrinadores, tais cargos exercem parte da soberania estatal (MAZZA, 2018, p. 697). Por outro lado, doutrinadores como José dos Santos Carvalho Filho e Celso Antônio Bandeira de Mello defendem a ideia de que tais funções não podem ser enquadrados como agentes políticos e sim como agentes administrativos, pelo fato de não possuírem a atribuição de definir as políticas públicas, ou a possibilidade de serem eleitos (MAZZA, 2018, p.697). Assim, diante dos amplos conceitos aqui mencionados, podemos concluir que a figura do agente público refere-se a qualquer pessoa que apresente algum vínculo com a administração pública de forma a contribuir com suas atribuições. SAIBA MAIS A nova lei de Abuso de Autoridade também dispõe que, caso o agente público pratique o crime de abuso de autoridade mais de uma vez, o juiz poderá aplicar como pena a ina- bilitação do cargo pelo período de 1 (um) a 5 (cinco) anos ou, até mesmo, a sua perda: não prevalece a condenação anterior, se entre a data do cumprimento ou extinção da pena e a infração posterior tiver decorrido período de tempo superior a 5 (cinco) anos, computado o período de prova da suspensão ou do livramento condicional, se não ocor- rer revogação”. (BRASIL, 1984) Frisa-se que, para que o referido efeito de reincidência aconteça, deve-se, sempre, res- peitar o disposto pelo artigo 64, I, do Código Penal. Fonte: NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas - Vol. 1. [Digite o Local da Editora]: Grupo GEN, 2020. 9788530991296. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca. com.br/#/books/9788530991296/. Acesso em: 14 ago. 2021. 12UNIDADE I Da Legislação Penal Especial REFLITA “O servidor público, qualquer que seja sua formação ou função desempenhada, é um importante agente na construção social. Ao contrário das pessoas que desempenham cargos políticos, cargos de confiança ou que são servidores temporários, o servidor pú- blico permanece desempenhando sua função, anos e anos a fundo, tornando-se profun- do conhecedor da gerência de prestação de serviços ao cidadão”. (FOZ, 2015, online) Fonte: MIGALHAS, A importância do servidor público. Disponível em:https://www.migalhas.com.br/depe- so/229125/a-importancia-do-servidor-publico. Acesso em: 05 nov. 2021. Após tratarmos sobre o conceito geral de agente público, passaremos no próximo tópico, a tratar sobre os bens jurídicos tutelados no âmbito da Lei do abuso de autoridade. 13UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 3. DO(S) BEM(S) JURÍDICO(S) TUTELADO(S) Queridos (as) alunos, neste tópico, abordaremos os bens jurídicos tutelados pela Lei do abuso de autoridade. Primeiramente, é de suma importância que você aluno (a)saiba o que é o bem jurídico. Cabete (2020, p. 345) define o bem jurídico tutelado: “trata-se do valor ou interesse de alguém que é protegido por lei, sendo a base do Direito Penal para criar normas penais incriminadoras, ou seja, quem atentar contra esse bem, será punido”. O conceito de bem jurídico refere-se ao valor que é protegido pela norma, como, por exemplo, o crime de homicídio, pelo qual, o bem jurídico é o direito à vida humana. Vicenzo Manzini explica o bem jurídico tutelado mediante alguns crimes contra a Administração Pública, previsto no Código Penal: O interesse público concernente ao normal funcionamento e ao prestígio da administração pública em sentido lato, naquilo que diz respeito à probidade, ao desinteresse, à capacidade, à competência, à disciplina, à fidelidade, à segurança, à liberdade, ao decoro funcional e ao respeito devido à vontade do Estado em relação a determinados atos ou relações da própria adminis- tração. (MASSON, 2013, p.1) Contudo, quando não há menção expressa do bem jurídico penal, este é facilmente identificável, como no caso da Lei nº 11.343/06 que define os crimes relacionados ao tráfico de drogas, nesse caso, tutela-se a saúde pública. Com relação aos bens jurídicos tutelados pela Lei de Abuso de Autoridade, cumpre explicar que essa lei é considerada pela doutrina como uma norma que contém delitos pluriofensivos, ou seja, de crimes cujo resultado atinge mais de um bem jurídico. 14UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Nesse sentido, é dizer que, os bens jurídicos tutelados pela Lei do Abuso de Auto- ridade possuem como premissa fundamental (CABETE, 2020, p. 8): ● Regular o funcionamento da administração pública; ● Os direitos e garantias fundamentais previstas na Constituição Federal. Os bens jurídicos tutelados pela Lei do Abuso de Autoridade podem variar a depen- der do tipo penal sob análise, no entanto, os dois bens jurídicos citados acima são o foco do legislador penal. O bem jurídico-penal trata-se de um dos institutos angulares do Direito Penal mo- derno. Ainda que de difícil conceituação, pode-se dizer que o bem jurídico-penal constitui qualquer valor material ou imaterial cuja preservação é imprescindível para a convivência e desenvolvimento humano. Tratando-se dos outros bens jurídicos tutelados pela Lei do abuso de autoridade, Cabete (2020, p. 346) destaca: ● A legalidade; ● Eficiência; ● Celeridade da Administração Pública; ● Celeridade da Administração da Justiça; ● Dignidade da pessoa humana; ● O devido processo legal; ● O Princípio da Razoabilidade dos Prazos, hoje previsto expressamente na Constituição Federal (Art. 5º, LXXVIII). Ou seja, a Lei de abuso de autoridade visa resguardar, por meio de suas normas, resguardar todos esses bens, conforme previsto na Constituição Federal. SAIBA MAIS De um modo geral, ocorre abuso de autoridade quando o agente público exerce o poder que lhe foi conferido com excesso de poder ou desvio de finalidade. O grande desafio de uma norma penal como esta é encontrar um ponto de equilíbrio de modo a evitar que, a pretexto de dissuadir os abusos, de forma colateral, iniba o desempenho de funções pú- blicas ordenadoras da vida privada, marcadamente impopulares e objeto de insatisfação dos destinatários alcançados pela ação estatal. Fonte: Lei Penais Especiais Comentadas, Juspodivm, 2020. Após abordados os bens jurídicos tutelados no âmbito da Lei de abuso de auto- ridade, passaremos a tratar sobre as principais legislações que preveem crimes contra a Administração Pública. 15UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 4. DAS PRINCIPAIS LEGISLAÇÕES QUE PREVEEM CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Neste tópico, trataremos sobre as principais legislações aplicadas nos crimes pra- ticados contra a administração pública. A primeira legislação a ser estudada será o Código Penal que trouxe em sua parte Especial, arts. 312 a 359 -H, condutas acerca de grande parte dos crimes praticados contra a administração pública. Neste capítulo do Código Penal, título XI, através da previsão dos delitos e das sanções penais, o legislador busca “proteger o normal desenvolvimento da máquina admi- nistrativa em todos os setores de sua atividade, no sentido do bem-estar e do progresso da sociedade” (SARRUBBO, 2012, p. 232). O doutrinador Maio Luiz Sarrubbo (2012) ainda explica: Proíbe-se, pela incriminação penal, não só a conduta ilícita dos agentes do poder público (os funcionários públicos) como a dos estranhos (os não fun- cionários públicos) que venham, de forma comissiva ou omissiva, causar ou expor a perigo de dano a função administrativa. (SARRUBBO, 2012, p. 232) O Código dividiu os delitos contra a Administração Pública em três capítulos, quais sejam: a) crimes praticados pelos seus próprios integrantes (funcionários); b) crimes praticados por particular contra a Administração pública; c) crimes contra a Administração da Justiça. (BITTENCOURT, 2020, p. 38). 16UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Em outras palavras, o sujeito ativo dos crimes praticados contra a Administração Pública não se limita somente aos funcionários públicos, podendo ser praticados também por particulares. Para que você, aluno (a), compreenda a diferença dos crimes praticados pelos funcionários públicos dos crimes praticados por particulares, trouxemos 2 (dois) exemplos tipificados pelos artigos 317 e 333 respectivamente: a) Corrupção passiva (crime praticado por funcionário público): Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou an- tes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem; b) Corrupção ativa (crime praticado por particular): Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício. Ainda com relação às condutas típicas e específicas dos crimes contra a Admi- nistração Pública dispostas no Código Penal, em 03 de janeiro de 2020, após 4 (quatro) anos de longas discussões e debates e, em meio ao cenário político da “operação lava jato”, entrou em vigor a nova Lei de Abuso de Autoridade (13.869/2019). Tal lei entrou em vigor com o objetivo de punir os atos praticados por agentes públicos que atentam contra a administração pública (NUCCI, 2020, p. 1) . Guilherme de Souza Nucci (2020, p.1), explica que a nova lei surgiu, porque a an- terior (Lei 4.898/65) que também tipificava os atos ilegais praticados pelos agente públicos, havia sido esquecida, o autor faz menção a ela como um “fantasma jurídico”. Assim, é importante destacarmos as principais inovações trazidas pela nova Lei de Abuso de Autoridade: a) a tipificação penal tornou-se mais taxativa; b) o agente público somente será punido quando agir dolosamente com a finali- dade específica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou terceiro, ou atuar por capricho ou satisfação pessoal; c) As interceptações telefônicas e as quebras de segredo de Justiça sem autoriza- ção judicial passaram a ser crime. (NUCCI, 2020, p.1) De acordo com Rogério Greco e Rogério Sanches Cunha, a Lei de Abuso de Au- toridade possui como objeto: “modernizar a prevenção e repressão aos comportamentos abusivos de poder no trato dos direitos fundamentais do cidadão, colocando em mira a conduta de autoridades e agentes públicos”. 17UNIDADE I Da Legislação Penal Especial Conforme já mencionado em nossos estudos, a Lei de Licitações e Contratos Administrativos (Lei nº 14.133 de 2021) também é outro importante instrumento legal de combate aos crimes praticados contra a administração pública. O principal objetivo dessa lei foi trazer maior transparência aos processos licitatórios e impedir a corrupção dos contratos públicos. Sua publicação foi em 01.04.2021, trazendo a inserção dos artigos 337-E a 337-O ao Código Penal. SAIBA MAIS Embora o Código Penal seja dividido em crimes praticados pelosfuncionários públicos e crimes praticados por particulares, existem alguns delitos como o de usurpação de fun- ção pública que pode ser cometido tanto por particulares como por funcionário público. Exemplo: quando um particular de maneira ilegítima assume o lugar de um funcionário público ou quando um funcionário público ocupa o lugar de outro funcionário público de maneira indevida. Fonte: ASSOCIAÇÃO DOS ADVOGADOS DE SÃO PAULO. Usurpação da função pública pode ser co- metida por funcionário público que assume funções de outro. Disponível em: https://www.aasp.org.br/ noticias/trf-1a-usurpacao-da-funcao-publica-pode-ser-cometida-por-funcionario-publico-que-assume-fun- coes-de-outro/. Acesso em: 05 nov. 2021. Encerramos o estudo da nossa unidade tratando sobre as principais legislações que preveem crimes contra a administração pública. 18UNIDADE I Da Legislação Penal Especial CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado (a) aluno(a), Conforme já tratado inicialmente, nossa disciplina buscou trazer a apresentação da lei que versa sobre o abuso de autoridade (Lei nº 13.869/19) com ênfase no estudo sobre suas características do crime de abuso de autoridade, o bem jurídico tutelado e as suas principais implicações na prática cotidiana. Assim, visando introduzir, para você, aluno(a,) o conteúdo da nossa disciplina, no primeiro tópico, trouxemos, de forma abrangente, as principais características da tutela penal da Administração Pública no âmbito da Lei de Abuso de Autoridade. Posteriormente, trouxemos para você, aluno(a), os principais conceitos de adminis- tração pública e abuso de autoridade presentes na doutrina nacional. Assim, a partir dos referidos conceitos trazidos no segundo tópico, tratamos sobre os principais instrumentos utilizados para a tutela penal da Administração Pública, bem como as demais peculiaridades da tutela penal da Administração Pública. Por conseguinte, no tópico II, abordamos o conceito geral dos agentes públicos, as espécies de agentes públicos, bem como suas funções e colaboração junto à administra- ção pública. Também, abordamos divergentes posicionamentos doutrinários a respeito das espécies de agentes públicos. Por fim, no terceiro tópico, encerraremos a nossa matéria desta unidade, tratando sobre as principais legislações que preveem crimes contra a Administração Pública no âmbito nacional. A partir de agora, acreditamos que você já está preparado para seguir para a pró- xima unidade, para tratarmos sobre a abrangência da Lei de Abuso de Autoridade e a sua breve análise histórica, as principais características da lei, o sujeito ativo do crime de abuso de autoridade, e as peculiaridades da ação penal. Até a próxima unidade. Muito obrigado! 19UNIDADE I Da Legislação Penal Especial MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Crimes contra a administração pública Autores: Luciano Anderson de Souza, Miguel Reale Júnior. Editora: Revista dos Tribunais. Sinopse: A obra está na 2ª edição e trata, com uma análise crí- tica ampla e aprofundada, de crimes como a corrupção e outros praticados contra a Administração Pública. E nessa edição, inova ao apresentar uma análise do aclamado “Pacote Anticrime”, anali- sando itens como a fixação automática de regime inicial fechado, incremento da punição pelo crime de resistência, criminalização do uso de caixa dois em eleições. Trata-se de uma obra essencial aos acadêmicos e profissionais do Direito que procuram aprofun- dar-se na matéria e “estabelecer teses críticas a casos concretos, questionando-se a legitimidade de diversos dispositivos legais”. FILME / VÍDEO Título: Polícia Federal: A lei é para todos Ano: 2017. Dirigido por: Marcelo Antunez. Elenco: Antonio Calloni, Bruce Gomlevsky, Flávia Alessandra, Reiner Cadete, João Baldasserini. Duração: 107 minutos. Gênero: Policial. Sinopse: Baseado na Operação Lava Jato, o filme mostra o tra- balho da Polícia Federal na investigação do esquema de lavagem de dinheiro e propina, envolvendo empresários e políticos do país. 20 Plano de Estudo: ● Da abrangência da Lei de Abuso de Autoridade e breve análise histórica; ● Das principais características; ● Do sujeito ativo do crime de abuso de autoridade; ● Da ação penal. Objetivos da Aprendizagem: ● Abordar de forma abrangente a Lei de Abuso de Autoridade, traçando uma breve análise histórica; ● Tratar sobre as principais características da Lei de Abuso de Autoridade; ● Definir o sujeito ativo e o sujeito passivo presentes nos crimes de abuso de Autoridade; ● Analisar o conceito de ação penal bem como os seus desdobramentos atinentes à Lei de Abuso de Autoridade. UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Professora Flávia Lausi Rodrigues Professor Thales de São José Sandoval 21UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 21UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) novamente ao estudo sobre a Lei de Abuso de Autoridade. Para tanto, na presente unidade, no Tópico I, estudaremos a abrangência da Lei de Abuso de Autoridade, bem como, faremos uma breve análise histórica sobre a sua origem. Nesse tópico, analisaremos os principais elogios e críticas feitos à nova legislação, bem como, traremos sobre os principais objetivos do legislador com sua edição. No Tópico II, nos aprofundaremos, trazendo as principais características e altera- ções legislativas realizadas pela nova lei. Por conseguinte, no Tópico III, do nosso material, traremos para você, aluno(a), as definições de sujeito ativo e sujeito passivo presentes na Lei de Abuso de Autoridade. Veremos que, quanto aos sujeitos, o ativo pode ser a pessoa física ou a pessoa jurídica, quem pratica a conduta penal ilícita e com relação ao passivo, trata-se da pessoa física ou jurídica prejudicada pela conduta abusiva. Por fim, encerraremos o estudo da nossa segunda unidade, tratando sobre a Ação Penal. Para tanto, trouxemos para você, aluno(a), o conceito de Ação Penal e Ação Penal Pública incondicionada, sendo esta, o tipo de Ação Penal nos crimes de abuso de autori- dade. Trouxemos para você, aluno(a), a exceção prevista na Lei quanto à propositura da ação penal e as demais peculiaridades e disposições legais previstas na Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/19). Acreditamos que, a partir dos estudos da nossa unidade, você, aluno(a), estará preparado para a próxima unidade que tratará sobre os efeitos, as penas restritivas de direito e sanções cíveis e administrativas atinentes à Lei de Abuso de Autoridade. Vamos começar! 22UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 22UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade 1. DA ABRANGÊNCIA DA LEI DE ABUSO DE AUTORIDADE E BREVE ANÁLISE HISTÓRICA Prezado(a) aluno(a), Para iniciarmos os estudos desta unidade, faremos uma breve análise histórica acerca do contexto e cenário em que a “nova” Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869, de 5 de setembro de 2019) foi editada, bem como identificarmos a abrangência dela junto aos agentes públicos e toda a sociedade. Primeiramente, é necessário lembrarmos que conforme estudamos na Unidade I, a Lei de Abuso de Autoridade teve origem em 1965, durante a ditadura militar. Ocorre que, conforme mencionado por Guilherme de Souza Nucci (2020, p. 2) “ninguém ligava para a existência da Lei 4.898/65 (Lei de Abuso de Autoridade); era um “fantasma jurídico”. Assim, ante ocorrência de diversas evoluções sociais e políticas surgiu a preo- cupação do legislador em atualizar a referida legislação, emergindo, assim, a nova Lei de Abuso de Autoridade (Lei 13.869/ 2019). O momento da edição da lei era de grande tensão política, em que a população estava voltada para a maior investigação de esquema de lavagem e desvio de dinheiro da história do Brasil, a famosa “Operação Lava Jato”. Muitos procuradores, juízes e policiais foram contra a sua edição, alegando cerceamento de suas atividades profissionais. Nesse contexto, a edição da referida lei aconteceu em épocaequivocada, trazendo a impressão para o judiciário e parte da população de uma resposta vingativa do Parlamen- to contra os operadores do direito, que,naquela ocasião, passavam por um momento frágil da operação (NUCCI, 2019). 23UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 23UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Apesar da revolta e do inconformismo gerado em alguns indivíduos, a referida Lei não possui nenhum vício inconstitucional. Ainda que o objetivo do Parlamento fosse tornar o sistema mais rígido e arbitrário, o referido efeito não foi atingido, uma vez que, segundo o doutrinador todo o conjunto de artigos da nova lei favoreceu o agente público. (NUCCI, 2019). Em meio ao cenário de críticas, elogios e muitas opiniões divergentes, o respeitado e importante Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) também manifestou-se: [...] diante de uma reflexão mais aprofundada sobre o tema, soa ingênuo apostarmos que mais uma medida simbólica, como tantas outras, seria capaz de mudar esse déficit democrático do nosso sistema de Justiça. A reforma processual capaz de retirar das autoridades judiciárias poderes absolutos e instituir, finalmente, o sistema acusatório no processo penal brasileiro, reti- rando sua matriz inquisitorial, perpassa por questões mais complexas e a mudança de toda uma cultura jurídica. (IBCCRIM, ANO, n.p.) Posto isso, podemos concluir que, embora a nova Lei (13.869, de 5 de setembro de 2019) tenha recebido muitas críticas em razão do cenário político em que foi editada, a Lei anterior (4.898/65, de 9 de dezembro de 1965) precisava ser adaptada aos novos tem- pos. Assim, seria totalmente incoerente o legislador aplicar atualmente as mesmas regras penais regidas na época do estado ditatorial, em que os direitos e garantias fundamentais eram cerceados constantemente. Caro(a) aluno(a), fizemos uma breve análise histórica sobre o surgimento da nova lei e para entendermos, de forma clara, e abrangente a sua aplicabilidade, precisamos aprofundar nossos estudos acerca do conceito denominado: abuso de autoridade. Guilherme Nucci (2020, p.2 ) explica que abusar, trata-se de um verbo com inúme- ros significados, refletindo sempre em condutas negativas. O autor esclarece que a conduta pode variar desde o uso impróprio de algo ou até a execução de medida injusta para fazer prevalecer a situação de superioridade. O objetivo do legislador com a lei foi tipificar as condutas abusivas cometidas pelas autoridades, como agentes do Estado. Conforme disposto no artigo 2º da nova lei (Lei 13.869/2019), comete crime de abuso de autoridade “qualquer agente público, servidor ou não, da administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de Território”. Fernando Capez (2020) explica o objetivo do legislador da seguinte forma: O legislador procurou punir o excesso e o desvio de poder, zelando pelo cor- reto desempenho das funções de natureza pública. Ao desviar-se ou extrapo- lar o exercício de sua função, o sujeito trai a confiança nele depositada pela sociedade e viola o poder de que foi investido por delegação de sua fonte originária, o povo. (CAPEZ, 2020, p.56) 24UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 24UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Nesse contexto, a respeitável doutrinadora Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2004, p. 99) explica que o poder de polícia só deve ser exercido para atender o interesse público, argumentando que a autoridade que se afastar da finalidade pública com o objetivo de prejudicar ou beneficiar pessoas determinadas, incidirá em desvio de poder, ou seja, estará cometendo o crime de abuso de autoridade. Os crimes de abuso de autoridade estão previstos no Capítulo VI, do artigo 9º ao 38º da nova legislação (Lei 13.869/2019). Assim, para que você, aluno(a), melhor com- preenda a temática, trouxemos 2 (dois) exemplos de casos de abuso de autoridade dentre os inúmeros especificados na lei: Exemplo 1: Policial que prende uma pessoa e a coloca em frente ao logotipo do batalhão para que possa filmá-la e ganhar visibilidade nas redes sociais pela prisão. Nesse caso, a conduta da autoridade estatal está tipificada no artigo 13 inciso II da Lei nº 13.869/2019. Art. 13. Constranger o preso ou o detento, mediante violência, grave ameaça ou redução de sua capacidade de resistência, a: I - exibir-se ou ter seu corpo ou parte dele exibido à curiosidade pública; II - submeter-se a situação vexatória ou a constrangimento não autorizado em lei (BRASIL,2019). Exemplo 2: Agente público que impede o preso de ter contato com seu advogado, seja no momento da audiência ou enquanto preso. Tal conduta está tipificada no artigo 20, parágrafo único da Lei 13.869/2019. Art. 20. Impedir, sem justa causa, a entrevista pessoal e reservada do preso com seu advogado: Pena - detenção, de 6 (seis meses a 2 (dois) anos e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem impede o preso, o réu ou o investigado de entrevistar-se pessoal e reservadamente com seu advogado ou defensor, por prazo razoável, antes de audiência judicial, e de sentar-se ao seu lado e com ele comunicar-se durante a audiência judicial, salvo no curso de interrogatório ou no caso de audiência realizada por videoconferên- cia. (BRASIL, 2019). Assim, visando proteger o regular funcionamento da Administração Pública, a nova lei representou um grande marco jurídico no combate aos abusos praticados por autorida- des e agentes públicos (CAPEZ, 2020, p.56). 25UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 25UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade SAIBA MAIS Ante à discordância de muitos com edição da nova legislação foram propostas 7 (sete) ações, questionando a sua constitucionalidade, quais sejam: ADIs 6.302, 6.234, 6.236, 6.238, 6.239, 6.240, 6.266. As ações foram promovidas por associações de magistrados de auditores e por partido político. Fonte: MIGALHAS, Partido questiona no STF lei de abuso de autoridade. Disponível em: https://www.mi- galhas.com.br/quentes/318231/partido-questiona-no-stf-lei-de-abuso-de-autoridade. Acesso em: 13 nov. 2021. REFLITA “A Ordem dos Advogados do Brasil, que tem como missão fundamental a defesa do Estado Democrático de Direito, enxerga nessa importante atualização legislativa um grande avanço para efetivamente demonstrar à sociedade brasileira que ninguém está acima da lei e do respeito à Constituição Federal.” Fonte: MIGALHAS. A OAB apoia a lei do abuso de autoridade. Disponível em: https://www.migalhas.com. br/quentes/309439/oab-apoia-lei-do-abuso-de-autoridade. Acesso em: 13 nov. de 2021. Neste tópico, fizemos uma breve análise sobre o surgimento da nova legislação, bem como acerca de sua abrangência junto aos agentes públicos e a sociedade. No próximo ,analisaremos as principais inovações trazidas pela nova lei, bem como explicaremos, de forma mais detalhada, as suas principais características. 26UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 26UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade 2. DAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS Primeiramente, antes de elencarmos as principais características da nova legisla- ção, é necessário pontuarmos as modificações trazidas, sendo elas: ● Lei de Prisão Temporária (Lei nº 7.690/1989); ● Lei de Interceptação Telefônica (Lei nº 9.296/1996); ● Estatuto da OAB (Lei nº 8.906/1994); ● Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990). 2.1 Lei de Prisão Temporária: a) Inclusão em seu artigo 2º do dispositivo §4- A, no qual consta sobre a obrigato- riedade de inserir no mandado de prisão temporária o seu período de duração, bem como o dia em que o preso será liberado. b) Modificação da redação do § 7º do artigo 2º, de forma que, com a alteração, tornou-se expresso que decorrido o prazo contido no mandado de prisão, o preso deverá ser colocado em liberdade independente de nova ordem da autoridade judicial. c) Integrouo § 8º no artigo 2º, de forma que deixou expresso que o dia do cumpri- mento do mandado de prisão deverá ser incluído no cômputo do prazo de prisão. Referidas modificações ocorreram para que a autoridade que desrespeitar os prazos e procedimentos previstos na Lei de Prisão Temporária (Lei 7.690/1989) possa ser punida pelo crime de abuso de autoridade disposto no artigo 9º, Capítulo VI da Lei nº 13.869 de 2019 (Lei de Abuso de Autoridade). 27UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 27UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade 2.2 Lei de Interceptação Telefônica: a) Inclui como crime a escuta ambiental, assim a redação do seu artigo 10º ficou da seguinte forma: “constitui crime realizar interceptação de comunicações telefônicas, de informática ou telemática, promover escuta ambiental ou quebrar segredo de Justiça, sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei”. b) Inclusão do parágrafo único no artigo 10º, dispondo em sua redação que referidos crimes também podem ser cometidos por autoridade judicial “Parágrafo único. Incorre na mesma pena a autoridade judicial que determina a execução de conduta prevista no caput deste artigo com objetivo não autorizado em lei”. Estatuto da Criança e do Adolescente: Inclusão do artigo 227-A estabelecendo que se o servidor público praticar algum dos crimes previstos pelo ECA (Lei 8.069 de 1990) só perderá o cargo, mandato ou função caso o crime seja reincidente. Estatuto da OAB: Inclusão do artigo 7º-B, de forma a criminalizar conduta de autoridade judicial que viole os direitos e prerrogativas dos advogados. Para que você, aluno(a), melhor compreenda essa temática, trouxemos alguns exemplos de direitos e prerrogativas dos advogados dispostos no artigo 7º, incisos II, III e IV do Estatuto: a) a) a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia; b) b) comunicar-se com seus clientes, pessoal e reservadamente, mesmo sem procuração, quando estes acharem-se presos, detidos ou recolhidos em esta- belecimentos civis ou militares, ainda que considerados incomunicáveis; c) c) ter a presença de representante da OAB, quando preso em flagrante, por moti- vo ligado ao exercício da advocacia, para lavratura do auto respectivo, sob pena de nulidade e, nos demais casos, a comunicação expressa à seccional da OAB; Dessarte, necessário se faz destacar que, além de alterar as leis acima mencio- nadas, a Lei nº 13.869 de 2019, também revogou dois dispositivos do Código Penal, quais sejam: o § 2º do artigo 150 e o artigo 350. Conforme disposto no §1º do artigo 1º da Nova Lei de Abuso de Autoridade, para que o agente responda pelo crime, deve-se observar se a conduta abusiva teve como finalidade “prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou, ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal”. 28UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 28UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Art. 1º Esta Lei define os crimes de abuso de autoridade, cometidos por agente público, servidor ou não, que, no exercício de suas funções ou a pre- texto de exercê-las, abuse do poder que lhe tenha sido atribuído. § 1º As condutas descritas nesta Lei constituem crime de abuso de autorida- de quando praticadas pelo agente com a finalidade específica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou, ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal. (BRASIL, 2019). Guilherme Nucci (2019) exemplifica da seguinte forma: se o agente público prender uma pessoa apenas para prejudicá-la; somente para se beneficiar disso; exclusivamente por capricho (vontade arbitrária ou birrenta) ou unicamente para satisfação pessoal (regozijo), indiscutivelmente estão abusando do seu poder. (NUCCI, 2019, ON-LINE) O Autor ainda explica que com o elemento específico do dolo, fica muito difícil pro- var a ilegalidade da conduta, afirmando, assim, que a nova Lei trouxe uma proteção maior ao agente público. Desse modo, somente será caracterizado o abuso, quando a intenção de beneficiar o autor do crime ou prejudicar outra pessoa estiver comprovada. Conforme dispõe o artigo 18º, inciso I do Código Penal, pratica crime doloso, o sujeito que quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. Outra característica é que os tipos penais passaram a ser mais taxativos, com a antiga lei as previsões eram abertas, trazendo grande dúvida quanto à caracterização do crime (NUCCI, 2020, p.1). Por fim, necessário se faz destacarmos que a nova Lei prevê a recuperação do direito de tornar-se, outra vez, autoridade. “No âmbito do Código Penal, a perda do cargo, mandato ou função é definitiva”, assim estamos diante de mais uma novidade trazida pela lei que beneficia o agente público (NUCCI, 2019). 29UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 29UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade SAIBA MAIS “Ao sancionar a Nova Lei de Abuso de Autoridade, o atual Presidente Jair Messias Bol- sonaro vetou parcial ou integralmente 19 artigos desse diploma legal. As principais justi- ficativas são acerca da inconstitucionalidade, da contrariedade ao interesse público e da insegurança jurídica gerada ao agente público no momento de sua atuação. No entanto, o Congresso Nacional foi responsável pela derrubada de 10 destes vetos presidenciais”. Fonte: ÂMBITO JURÍDICO. A nova lei de abuso de autoridade: A insegurança jurídica gerada pelo uso de conceitos jurídicos indeterminados e pela criminalização da hermenêutica jurídica. Disponível em: https:// ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-penal/a-nova-lei-de-abuso-de-autoridade-a-inseguranca-juridica- -gerada-pelo-uso-de-conceitos-juridicos-indeterminados-e-pela-criminalizacao-da-hermeneutica-juridica/ amp/#_ftn7. Acesso em: 13 nov. 2021. REFLITA “O legislador procurou punir o excesso e o desvio de poder, zelando pelo correto desem- penho das funções de natureza pública. Ao desviar-se ou extrapolar o exercício de sua função, o sujeito trai a confiança nele depositada pela sociedade e viola o poder de que foi investido por delegação de sua fonte originária, o povo” Fonte: Capez, F. Curso de direito penal v 4 - legislação penal especial. Editora Saraiva, 2020. 9788553619245. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553619245/. Acesso em: 22 ago. 2021. 30UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 30UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade 3. DO SUJEITO ATIVO DO CRIME DE ABUSO DE AUTORIDADE Caro(a) aluno(a), neste tópico, trataremos sobre o sujeito ativo do crime de abuso de autoridade, apresentando, desde o conceito de sujeito ativo, bem como as suas peculia- ridades e a sua disposição legal. O autor Guilherme de Souza Nucci (2020) define o sujeito ativo como: Sujeito Ativo: é a pessoa que pratica a conduta penal. Nota-se que animais e coisas não podem ser sujeitos ativos de crimes. Quanto às pessoas jurídi- cas, os Tribunais Superiores (STF e STJ) pacificaram o entendimento de que é possível sua responsabilização penal. (NUCCI, 2020, p. 289) Ou seja, é dizer que o sujeito ativo é aquele que pratica a conduta penal, que se trata de comportamento humano voluntário dirigido a um fim ilícito. Conforme disposto no artigo 1º da Lei nº 13.869/2019, os crimes de abuso de autoridade são praticados por agentes públicos. Essa Lei define os crimes de abuso de autoridade, cometidos por: ● “Agente público; ● Seja ele servidor ou não, ● Que, no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las; ● Abuse do poder que lhe tenha sido atribuído”. É Imperioso ressaltar que, no momento em que a legislação menciona que o agente pode “ser servidor ou não”, é dizer nas palavras de Cabette (2020) que: 31UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 31UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Efetivamente se está adotando o conceito administrativo deagente público, que é bem mais amplo do que aquele de “funcionário público” ou “servidor pú- blico”, de forma que mesmo um indivíduo que exerça alguma função pública sem remuneração ou vínculo estatutário ou empregatício com o Estado, pode ser considerado sujeito ativo. (CABETTE, 2020,p. 158) Nesse sentido, para melhor compreensão da matéria, Cabette (2020) cita os se- guintes exemplos: 1. Um Conselheiro Tutelar em uma cidade em que a função não seja sequer remunerada, e como se sabe é temporária, poderá praticar crimes de abuso de autoridade, ou seja, pode ser caracterizado como agente público; 2. Um estagiário do Ministério Público, do Judiciário ou de uma unidade policial. Note-se que não seria um “funcionário público”, seria um “agente público”. Observa-se que, os crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade são classifica- dos como próprios, ou seja, só podem ser praticados por agentes públicos. Todavia, são admissíveis a coautoria e a participação de particulares, caso esses concorram de qualquer modo para o crime”, conforme fundamentam os arts. 29 e 30 do Código Penal. SAIBA MAIS Exemplificando... Tome como exemplo um particular, um conhecido dos policiais, que adentrou a uma residência, juntamente com os policiais, sem que estivesse presente qualquer circuns- tância que autorizasse o ingresso na residência. Nesse caso, o policial e o particular responderão por crime de abuso de autoridade previsto no art. 22 da Lei 13.869/19. O policial com fundamento no art. 22 c/c at. 2º e o particular com fundamento no art. 22 c/c art. 2º, ambos da Lei 13.869/19 c/c arts. 29 e 30 do Código Penal. Fonte: FOUREAUX, Rodrigo. A prática de crime de abuso de autoridade por particular. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24 n. 5936, 2 out. 2019. Disponível em:https://jus.com.br/ artigos/76883/a-pratica-de-crime-de-abuso-de-autoridade-por-particular. Acesso em: 19 ago. 2021. 32UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 32UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade A Lei do Abuso de Autoridade traz um rol exemplificativo de sujeitos ativos e, ainda, no seu dispositivo legal não esgota a lista de todos os sujeitos ativos que podem praticar o crime de abuso de autoridade, o que se extrai do termo “dentre outros”. Assim, conforme dispõe o art. 2º da Lei nº 13.869/2019, podem ser sujeitos ativos do crime de abuso de autoridade, dentre outros: ● Servidores públicos e militares ou pessoas a eles equiparadas; ● membros do Poder Legislativo; ● membros do Poder Executivo; ● membros do Poder Judiciário; ● membros do Ministério Público; ● servidores públicos e militares ou pessoas e eles equiparadas. O parágrafo único do referido artigo ressalta, ainda, que: “reputa-se agente público para os efeitos desta Lei, todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem re- muneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função em órgão ou entidade abrangi- dos pelo caput deste artigo.” Ou seja, é dizer que se trata como agente público que exerce o crime de abuso de autoridade, qualquer pessoa que esteja, ainda que indiretamente ligada à Administração Pública (SAVI, 2020, p. 09). Quanto aos sujeitos passivos, no Direito Penal, as vítimas do crime são chamadas de sujeitos passivos. O crime de abuso de autoridade alcança dois sujeitos passivos, vejamos: ● A pessoa (física ou jurídica) diretamente prejudicada pela conduta abusiva. Exemplo: a testemunha ou o investigado, no caso do art. 10 que trata da condução coercitiva; ● o Estado que tem a sua imagem, confiabilidade e patrimônio ofendidos quando um agente público pratica ato abusivo. (SAVI, 2020, p. 09) Ou seja, é dizer que a Lei de Abuso de Autoridade caracteriza os sujeitos ativos (agentes públicos que praticam a conduta ilícita) e os sujeitos passivos (o sujeito diretamen- te prejudicado pela conduta ilícita do sujeito ativo), passaremos agora, a tratar no nosso último tópico sobre a ação penal. 33UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 33UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade 4. DA AÇÃO PENAL Querido(a) aluno(a), encerraremos a nossa segunda unidade do nosso material, tratando sobre a Ação Penal. Antes de relacionarmos a Ação Penal com a Lei de Abuso de Autoridade, precisamos conhecer e identificar o conceito de ação penal. De acordo com (NUCCI, 2020, p. 350) “a Ação Penal equivale ao direito de provo- car o Estado na sua função jurisdicional para a aplicação do direito penal objetivo em um caso concreto. Também é o direito do Estado, único titular o “jus puniendi” de atender sua pretensão punitiva”. Em outras palavras, pode-se dizer que o conceito de ação penal, “consiste no direito de se exigir ou pedir a tutela jurisdicional do Estado, tendo como objetivo a resolução de um conflito decorrente de um fato concreto” (NUCCI, 2020, p. 390). Ou seja, é dizer que a ação penal pública é promovida pelo Ministério Público para defender e assegurar os direitos e garantias sociais, sobretudo os bens jurídicos de maior importância, como: a vida, o patrimônio, a integridade física, a Administração Pública, e demais bens jurídicos. Existem os seguintes tipos de ação penal: ● Ação Penal Pública Incondicionada; ● Ação Penal Pública Condicionada à Representação; ● Ação Penal Pública Condicionada à Requisição; ● Ação Penal Privada Exclusiva; ● Ação Penal Privada Subsidiária da Pública; ● Ação Penal Privada Personalíssima. 34UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 34UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Mas entre os tipos de ação penal apresentados, a que está relacionada diretamen- te aos nossos estudos é a Ação Penal pública incondicionada. Nesse sentido, para Nucci (2020) a Ação Penal pública é tida como: A ação penal pública é aquela cujo o titular do direito de ação for o próprio Ministério Público, isto é, o Estado propriamente dito, na figura dos promoto- res de justiça ou Procuradores da República que visa a tutela dos interesses sociais e a manutenção da ordem pública, exercendo esse direito por meio da denúncia (peça inicial da ação penal pública). (NUCCI, 2020, p. 389) O termo incondicionada consiste em dizer que o seu exercício não se subordina a qualquer requisito, é dizer que a Ação Penal Pública não depende, portanto, de prévia manifestação de pessoa para ser iniciada, é mesmo irrelevante a manifestação do ofendido. Nesse sentido, a Ação Penal Pública incondicionada trata-se da ação promovida pelo Ministério Público independente da vontade ou interferência de qualquer que seja, bastando, para tanto, que concorra às condições de ações e pressupostos processuais. Nucci (2020) ressalva ainda que na ação penal incondicionada, “desde que provado um crime, tornando verossímil a acusação, o órgão do Ministério Público deverá promover a ação penal, sendo irrelevante a oposição por parte da vítima ou de qualquer outra pessoa”. (NUCCI, 2020, p. 397). É a regra geral na moderna sistemática processual penal. Tendo definido o conceito de Ação Penal e o tipo da Ação Penal Pública incondicio- nada, a seguir, nos aprofundaremos sobre o assunto da Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/19) e a Ação Penal. De acordo com (CAPEZ, 2020) por expressa previsão legal (art. 3º da Lei nº 13.869/19), os crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade são de ação penal pública incondicionada, ou seja, independe de qualquer provocação ou atuação da eventual vítima. Será admitida ação privada (quando o ofendido apresenta a queixa crime por iniciativa própria) se a ação penal pública não for intentada no prazo legal, cabendo ao Ministério Público aditar a queixa, repudiá-la e oferecer denúncia substitutiva, intervir em todos os termos do processo, fornecer elementos de prova, interpor o recurso e, a todo tempo, no caso de negligência do querelante, retomar ação como parte principal. A referida Ação Penal Privada, nessa situação,trata-se da chamada ação penal pri- vada subsidiária da pública. Em outras palavras, o Ministério Público tem um prazo previsto na lei para o ajuizamento da Ação Penal Pública. No entanto, na hipótese do membro do Ministério Público não oferecer a denúncia, nesse prazo, o ordenamento jurídico permite que o ofendido (a vítima) tome a providência que o Ministério Público (MP) deveria ter feito e ofereça a ação penal em seu nome. 35UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 35UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade Para que melhor se compreenda, imagine a situação em que José foi vítima do crime de abuso de autoridade praticado pelo Delegado de sua cidade e o Ministério Público não oferece a denúncia no prazo legal. No presente caso, o José (ofendido) poderá suprir a inércia do Ministério Público, propondo uma queixa crime, substituindo a denúncia que deveria ter sido oferecida pelo membro do Ministério Público. Essa é a chamada ação privada subsidiária da pública. Vejamos um recente julgado sobre o tema em análise: SAIBA MAIS Somente é possível a ação penal subsidiária da pública quando restar configurada inér- cia do Ministério Público, não sendo cabível nas hipóteses de arquivamento de inquérito policial promovido pelo membro do Parquet e acolhido pelo juiz. No caso concreto, não houve desídia do órgão acusador que, conforme reconhecido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, propôs o arquivamento do inquérito policial, entendendo não haver condições de procedibilidade para o oferecimento da denúncia em razão da inexistência de relevância jurídica na conduta investigada. Fonte: STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1508560/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 06/11/2018. Dispo- nível em: https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Sob-medida/Advogado/Jurisprudencia/Pesquisa-de-Jurispru- dencia. Acesso em: 22 ago. 2021. A ação privada subsidiária será exercida no prazo de 6 (seis) meses, contado da data em que se esgotar o prazo para oferecimento da denúncia. Tratamos sobre o conceito de ação penal, a ação penal pública incondicionada, bem como as demais peculiaridades da ação penal na prática cotidiana. Agora, acreditamos que você, aluno(a), está preparado para a nossa próxima unidade deste material. 36UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 36UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), Na primeira unidade dos nossos estudos, trouxemos para você uma apresentação da lei que versa sobre o abuso de autoridade. Aprendemos sobre as características do crime de abuso de autoridade e também sobre o bem jurídico tutelado por ela. Assim, visando introduzir para você, aluno(a), o conteúdo da nossa segunda unidade, no primeiro tópico, trouxemos uma breve análise histórica sobre o surgimento da nova lei, bem como uma análise sobre a sua abrangência, junto aos agentes públicos e toda a sociedade. Posteriormente, no segundo tópico trouxemos para você, aluno(a), características gerais da Lei nº 13.869, bem como aprendemos sobre as principais inovações legislativas trazidas por ela. Assim, a partir das principais características da Lei do Abuso de Autoridade, tra- zidas no segundo tópico, tratamos sobre os sujeitos ativos e sujeitos presentes na Lei de Abuso de Autoridade. Por conseguinte, no tópico III, abordamos o conceito geral de ação penal e o con- ceito da ação penal pública incondicionada, sendo este, o tipo de ação penal nos crimes de abuso de autoridade. Trouxemos para você, aluno(a), a exceção prevista na Lei quanto à propositura da ação penal e as demais peculiaridades e disposições legais previstas na Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/19). A partir de agora, acreditamos que você já está preparado para seguir para a pró- xima unidade, pela qual, trataremos sobre os efeitos da condenação dos crimes praticados de abuso de autoridade, as penas restritivas de direitos, as sanções de natureza cível e as sanções de natureza administrativa. Até mais! 37UNIDADE I Da Legislação Penal Especial 37UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: A nova Lei de Abuso de Autoridade. Autores: Gabriela Marques e Ivan Marques. Ano de Edição: 27.09.2019 Editora: Revista dos Tribunais. Sinopse: A nova Lei de Abuso de Autoridade traz profundas alte- rações no ordenamento jurídico em comparação à norma anterior, foram criados 15 tipos penais que geram punições nas esferas civil, administrativa e penal. Com conteúdo completo, organizado e escrito em linguagem fluida, todos os artigos da nova Lei de Abuso de Autoridade foram comentados, pontuando aspectos práticos, trazendo referencial teórico e reflexivo sobre a norma. A obra também possui tabela comparativa entre a Lei 4.898/1965 e a Lei 13.869/2019, explica o caminho da norma e discorre sobre diversas questões relevantes sobre o abuso de autoridade. FILME / VÍDEO Título: Imagens mostram agressão e possível abuso de autoridade da polícia - Tribuna da Massa. Ano: 08 de julho de 2019. Sinopse: A reportagem retrata o caso em que bandidos explodem a agência e tocam o terror em Quatro Barras. As imagens mostram agressão e possível abuso de autoridade da polícia. O programa Tribuna da Massa, apresentado por Eleandro Passaia, é exibido ao vivo e traz notícias de Curitiba e região metropolitana, além dos acontecimentos mais relevantes do Paraná, que podem afetar o cotidiano da população. Com foco na comunidade, a linha editorial do Tribuna da Massa aborda temas diários, notícias da cidade e prestação de serviços. Tudo isso, mantendo uma relação interativa com o espectador, que pode sugerir pautas e participar ativamente por meio de telefone, e-mail e redes sociais. 38 Plano de Estudo: ● Dos efeitos da condenação; ● Das penas restritivas de direito; ● Das sanções de natureza cível; ● Das sanções de natureza administrativa. Objetivos da Aprendizagem: ● Abordar de forma geral os efeitos da condenação da prática dos crimes de abuso de autoridade; ● Tratar sobre as penas restritivas de direito aplicadas aos crimes de abuso de autoridade; ● Definir de forma geral o conceito das sanções de natureza cível; ● Analisar o conceito das sanções administrativas, bem como as suas peculiaridades e a sua aplicação na prática. UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade: Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Professora Flávia Lausi Rodrigues Professor Thales de São José Sandoval 39UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) novamente ao estudo sobre a Lei de Abuso de Autoridade. Para tanto, na presente unidade, no Tópico I, estudaremos os principais efeitos cau- sados pela condenação do agente público que cometer algum dos crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade. Também, abordaremos as principais inovações quanto aos efeitos dispostos na nova Lei (nº 13.869, de 5 de setembro de 2019), de forma a realizarmos um breve comparativo com o que era regido na lei anterior (Lei nº 4.898, de 9 de dezembro de 1965). No Tópico II, nos aprofundaremos, trazendo o conceito das penas restritivas de direito, bem como entenderemos em quais casos será possível a sua aplicação em substi- tuição às penas privativas de liberdade. Por conseguinte, no Tópico III do nosso material, trataremos sobre a aplicação das sanções de natureza cível, porém, antes de propriamente nos aprofundarmos nos ensina- mentos quanto às referidas sanções, trataremos, de maneira geral, sobre a independência e autonomia das sanções na esfera cível, administrativa e criminal, destacando a principal exceção trazida na Lei. Posteriormente, analisaremos quais os requisitos para a configuração do dano na esfera cível, bem como as modalidades das indenizações que serão aplicadas ao caso concreto, podendo ser a indenização pelos danos morais ou danos materiais.Dando continuidade, traremos para você, aluno(a), um julgado de um caso real, em que envolve o crime de abuso de autoridade por um agente público que foi condenado a indenizar a vítima pelos danos morais causados. Por fim, encerraremos o estudo da nossa terceira unidade, tratando sobre as sanções de natureza administrativa. Para tanto, apresentaremos para você, aluno(a), o conceito da sanção administrativa, demonstrando a principal finalidade e como inicia-se o procedimento administrativo na prática cotidiana. Veremos que a abertura do procedimento é indispensável e serve para apurar a infração cometida pelo agente público. Vamos começar! 40UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas 1. DOS EFEITOS DA CONDENAÇÃO Iniciaremos o estudo desta unidade, trazendo para você, aluno(a), os principais efeitos causados pela condenação do agente público que cometer algum dos crimes pre- vistos na Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019). Conforme disposto no artigo 4º da mencionada lei são efeitos da condenação: ● Tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime, devendo o juiz, a requerimento do ofendido, fixar na sentença o valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos por ele sofridos; ● A inabilitação para o exercício de cargo, mandato ou função pública, pelo perío- do de 1 (um) a 5 (cinco) anos; ● A perda do cargo, do mandado ou da função pública. Nas palavras de (LIMA, 2020, p. 58), os “efeitos da condenação são todas as con- sequências que, direta ou indiretamente, atingem a pessoa do condenado por sentença penal transitada em julgado”. Quanto à obrigação de indenizar, trata-se de efeito que reflete na esfera cível, em razão da sua natureza ser de reparação de danos. Ainda, é cabível ressaltar que conforme disposto na lei, o juiz somente poderá fixar um valor mínimo para a reparação do dano, caso haja expresso requerimento do ofendido. 41UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Necessário se faz destacar que a obrigação de indenizar, já era prevista no artigo 91-A, inciso I, do Código Penal, bem como no artigo 387, inciso IV do Código de Processo Penal (BECHARA; AURÉLIO FLORÊNCIO , 2020, p. 54). Artigo 91-A: Na hipótese de condenação por infrações às quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à dife- rença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito. Artigo 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória: IV - fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido. Ocorre que, a Lei de Abuso de Autoridade de 2019 inovou ao trazer expressamente no inciso I do artigo 4º que cabe ao ofendido requerer pela fixação de um valor mínimo de indenização, o que não era previsto nos artigos acima mencionados. No entendimento de (AVENA, 2019, p.301) ao comentar o artigo 387, IV do Código de Processo Penal, o juiz tem o poder de arbitrar um valor mínimo para a reparação dos danos independente de requerimento expresso do ofendido. Assim, em caso de conflito quanto às disposições previstas no artigo 4º inciso I da Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/19) com as dispostas no artigo 387, IV do Código de Processo Penal, deve-se seguir o princípio da especialidade, o qual dispõe que a lei especial deverá prevalecer sobre a geral. Sobre o conflito de normas Gomes (2005) explica: [...] Quando duas regras colidem, fala-se em “conflito”; ao caso concreto uma só será aplicável (uma afasta a aplicação da outra). O conflito entre regras deve ser resolvido pelos meios clássicos de interpretação: a lei especial der- roga a lei geral, a lei posterior afasta a anterior. (GOMES, 2005, n.p) Neste sentido, considerando que Lei de Abuso de Autoridade (Lei 13.869/2019) é classificada como lei especial, significa dizer que ela deverá ser aplicada em casos de crimes cometidos por agentes públicos, ou seja, o Juiz só poderá arbitrar valor mínimo da condenação, caso haja expresso requerimento do ofendido. Para que você, aluno(a), melhor compreenda essa discussão, segue quadro comparado: QUADRO 1- DESCRITIVO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL E LEI Nº 13.869/2019 Fonte: BRASIL, 2019. 42UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Conforme já relacionamos, além do dever de indenizar a lei, ainda traz mais dois efeitos em casos de condenação do agente público, quais sejam: inabilitação para o exercício de qualquer cargo, mandato e função por até 5 anos ou, ainda, perda definitiva da função. Importante ressaltarmos que a lei condiciona a aplicação dos mencionados efeitos à ocorrência de reincidência em crimes de abuso de autoridade “ainda que não especifica- damente no mesmo diploma legal” (CAPEZ, 2020, p.144). Outro ponto que devemos nos atentar é que a inabilitação ou perda não aconte- cem de forma automática, pois os referidos efeitos somente serão aplicados se estiverem expressamente declarados na sentença (BECHARA; AURÉLIO FLORÊNCIO, 2020, p.55). REFLITA “O Efeito Penal da perda do cargo público não alcança aposentadoria deferida regu- larmente pela Administração antes de proferida a sentença (ou acórdão) penal conde- natória(o). Neste caso, razões de dogmática fundamentam a ilegitimidade de o Poder Público editar ato administrativo de cassação da aposentadoria de servidor público, ain- da que a sentença (ou acórdão) penal condenatória tenha imposto o efeito da perda do cargo público”. Fonte: Disponível em: https://www.olharjuridico.com.br/artigos/exibir.asp?id=943 artigo=o-efeito-penal-da- -perda-do-cargo-publico-nao-alcanca-aposentadoria-deferida-regularmente. Acesso em: 29 ago. 2021. Neste tópico, elencamos os principais efeitos causados pela condenação do agente público que cometer algum dos crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade. No próximo tópico, analisaremos as medidas restritivas de direito previstas na lei, bem como explicaremos de forma mais detalhada em quais casos ela pode ser aplicada. https://www.olharjuridico.com.br/artigos/exibir.asp?id=943&artigo=o-efeito-penal-da-perda-do-cargo-publico-nao-alcanca-aposentadoria-deferida-regularmente https://www.olharjuridico.com.br/artigos/exibir.asp?id=943&artigo=o-efeito-penal-da-perda-do-cargo-publico-nao-alcanca-aposentadoria-deferida-regularmente 43UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas 2. DAS PENAS RESTRITIVAS DE DIREITO Caro(a) aluno(a), antes de elencarmos as principais penas restritivas de direitos trazidas pela Lei de Abuso de Autoridade, é necessário compreendermos sobre sua origem, bem como sobre os requisitos impostos para que seja possível a sua aplicação. As penas restritivas de direitos foram constituídas, a fim de substituir as penas privativas de liberdade, de forma a impor certas obrigações e restrições ao condenado. O objetivo do legislador foi trazer uma medida alternativa de punição aos crimes com menor grau de responsabilidade, visando, dessa forma, evitar os malefícios da pena carcerária de curta duração (ANDREUCCI, 2019). Nesse sentido, Greco (2000, p.528) explica que ao aplicar uma pena deve-se sem- pre observar o princípio da proporcionalidade, de forma que, para os crimes mais graves, as medidas deverão ser mais rigorosas, enquanto que, para crimes de menor potencial ofensivo, as penas devem ser mais brandas. Assim, para que seja possível substituir a pena privativa de liberdade pela restritiva de direito, segundo (BECHARA;AURÉLIO FLORÊNCIO, 2020, p.60), é necessário obser-var os seguintes requisitos: ● A pena fixada a ser substituída não pode ser superior a 4 (quatro) anos, salvo se resultante de crime culposo; ● O crime não pode ser de violência ou ameaça contra a pessoa; ● O réu não pode ser reincidente em crime doloso; ● A substituição deve ser suficiente e adequada à repressão do fato. 44UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas A Lei de Abuso de Autoridade de 2019 trouxe, em seu artigo 5º as penas restritivas de direito que podem ser aplicadas em substituição às privativas de liberdade. Art. 5º As penas restritivas de direitos substitutivas das privativas de liberda- de previstas nesta Lei são: I - prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas; II - suspensão do exercício do cargo, da função ou do mandato, pelo prazo de 1 (um) a 6 (seis) meses, com a perda dos vencimentos e das vantagens. (BRASIL, 2019). Importante ressaltar que, apesar de dispor sobre a substituição das penas pri- vativas de liberdade pelas penas restritivas de direito, a Lei de Abuso de Autoridade não estabelece os requisitos necessários para que a substituição possa ser aplicável, nem mesmo as regras de cumprimento das penas. Assim, nos casos em que a lei especial for omissa deve-se observar no que couber as regras do Código Penal, que em seus artigos 44 e 46 definem os requisitos, bem como as regras sobre o cumprimento da pena. Em relação aos requisitos, já os elencamos acima, de acordo com o disposto no artigo 44 do Código Penal. Posto isso, segue abaixo, as regras sobre o cumprimento das penas restritivas de direito previstas no artigo 46 do mencionado dispositivo: Art. 46. A prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas é aplicável às condenações superiores a seis meses de privação da liberdade. § 1o A prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas consiste na atribuição de tarefas gratuitas ao condenado. § 2o A prestação de serviço à comunidade dar-se-á em entidades assisten- ciais, hospitais, escolas, orfanatos e outros estabelecimentos congêneres, em programas comunitários ou estatais. (BRASIL, 1998) Outrossim, importante ressaltar que conforme disposto no § 3o do mencionado artigo as atividades elencadas no caput devem ser atribuídas conforme as aptidões do condenado, devendo ser cumpridas à razão de uma hora de tarefa por dia de condenação, fixadas de modo a não prejudicar a jornada normal de trabalho. Outro ponto relevante e que merece destaque é o disposto no § 4º do artigo em questão, o qual estabelece que se a pena substituída for superior a um ano, é facultado ao condenado cumprir a pena em menor tempo, sendo que, nunca poderá ser inferior à metade da pena privativa de liberdade fixada. Sobre a pena de prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas é o entendimento do doutrinador Reale Júnior (2003): altamente positiva, pois une o caráter retributivo ao de prevenção especial, na medida em que pode ser fonte de revelação de valores positivos. Assim, além de ter poder coercitivo a pena de prestação de serviço à comunidade revela-se útil, sendo possível que o condenado sinta que pode ser necessário aos que precisam de ajuda [...] (REALE JÚNIOR, 2003, p. 55) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9714.htm#art46 45UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Na mesma vertente, é o posicionamento de Mirabete (2009): Trata-se, porém, de pena amplamente aceitável, de ônus para o condena- do, e não de uma relação de emprego. Certamente, o sentenciado, preferirá submeter-se a essa sanção a afrontar a pena privativa de liberdade, quando o trabalho também é obrigatório. Essa pena atende às exigências da retribui- ção sem degradar ou corromper. (MIRABETE, 2009, p.259) Agora que você, aluno(a), já aprendeu quais são as penas restritivas de direitos substitutivas das privativas de liberdade previstas na Lei de Abuso de Autoridade, anali- saremos um caso prático com julgamento proferido pela 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), processo nº 5009265-93.2018.4.04.7102/TRF: Trata-se de caso em que um ex-gerente do correio, adentrou em uma das agências, com o estabelecimento já fechado para atendimento e solicitou a um funcionário que ainda estava no local a quantia de R$2.5000,00 (dois mil e quinhentos reais). O agente justificou que precisava do dinheiro para efetuar o pagamento de títulos, afirmando que devolveria o valor no dia seguinte; o funcionário entregou-lhe o dinheiro. O desembargador João Pedro Gebran Neto destacou em seu voto que o réu teria valido-se da sua condição de agente público para ingressar indevidamente na agência dos Correios e subtraído do caixa uma quantia que sabia ser de propriedade da EBCT. O Réu foi condenado à pena de dois anos de reclusão, em regime inicial aberto, e pagamento de 10 dias-multa, com o valor unitário de 1/30 do salário mínimo vigente na época do delito. Quanto à pena privativa de liberdade foi substituída por duas restritivas de direitos, quais sejam: prestação de serviços para comunidade ou entidades públicas, pelo período de dois anos, e prestação pecuniária, no valor de dois salários mínimos. https://www.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=consulta_processual_resultado_pesquisa&selForma=NU&txtValor=50092659320184047102&selOrigem=TRF&chkMostrarBaixados=1 46UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas SAIBA MAIS “A nova Lei de Abuso de Autoridade previu a possibilidade de aplicação autônoma ou cumulativa das penas restritivas de direitos, nada impedindo que o agente tenha que cumprir prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas e também sus- pensão do exercício do cargo, da função ou do mandato, pelo prazo de 1 (um) a 6 (seis) meses, com a perda dos vencimentos e das vantagens”. FONTE: ANDREUCCI, Ricardo Antonio. As penas restritivas de direito na nova lei de abuso de autorida- de. Disponível em: https://emporiododireito.com.br/leituras/as-penas-restritivas-de-direito-na-lei-de-abu- so-de-autoridade. Acesso em: 29 ago. 2021. REFLITA “O legislador procurou punir o excesso e o desvio de poder, zelando pelo correto desem- penho das funções de natureza pública. Ao desviar-se ou extrapolar o exercício de sua função, o sujeito trai a confiança nele depositada pela sociedade e viola o poder de que foi investido por delegação de sua fonte originária, o povo” Fonte: Capez, F. Curso de direito penal v 4 - legislação penal especial. Editora Saraiva, 2020. 9788553619245. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553619245/. Acesso em: 22 ago. 2021.. Neste tópico, elencamos as principais penas restritivas de direitos trazidas pela Lei de Abuso de Autoridade, bem como aprendemos sobre os requisitos impostos para que seja possível a sua aplicação. No próximo tópico, abordaremos o conceito das sanções de natureza cível, bem como analisaremos as sanções administrativas aplicadas pela referida lei. 47UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas 3. DAS SANÇÕES DE NATUREZA CÍVEL; Querido(a) aluno(a), neste tópico trataremos sobre as sanções de natureza cível, quando praticados os crimes de abuso de autoridade. É de suma importância que você, aluno(a), saiba que a prática de abuso de autoridade não se trata apenas de um ilícito penal, pois qualquer agente público ao praticar atos de abuso de autoridade, estará sujeito à responsabilização civil, penal e administrativa pelos atos praticados. A Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019), estabelece nos artigos 6º, 7º e 8º a independência das responsabilidades civil e administrativa, da criminal, sendo, portan- to, mais específica que a Lei anterior deAbuso de Autoridade (Lei nº 4.898/65). Para uma melhor compreensão dessa temática, vejamos os dispositivos legais da referida Lei: Art. 6º. As penas previstas nesta Lei serão aplicadas independentemente das sanções de natureza civil ou administrativa cabíveis. Parágrafo único. As notícias de crimes previstos nesta Lei de descreverem a falta funcional serão informadas à autoridade competente com vistas à apu- ração. (BRASIL, 2019) Dando continuidade, vejamos o art. 7º: Art. 7º. As responsabilidades civil e administrativa são independentes da cri- minal, não se podendo mais questionar sobre a existência ou a autoria do fato quando essas questões tenham sido decididas no juízo criminal. Em outras palavras, é dizer que as sanções na esfera administrativa, cível e penal são independentes e autônomas entre si. No entanto, é importante esclarecer que em uma única conduta pode caracterizar ilícito penal, administrativo e civil, de forma simultânea e independente entre elas (BECHARA; AURÉLIO FLORÊNCIO, 2020) explicam que: 48UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Nestes termos, é possível compreender que a infração jurídica, seja civil, administrativa ou penal decorre do descumprimento de um dever legal. Uma mesma conduta pode representar, simultaneamente, ilícito penal, civil e ad- ministrativo, assim, o autor de uma infração jurídica poderá ser responsabi- lizado nas três esferas, sem configurar bis in idem, pois as instâncias são independentes (BECHARA ;AURÉLIO FLORÊNCIO, 2020, p. 65). Contudo, embora exista essa harmonia entre as jurisdições, é importante ressaltar que a Lei apresenta uma exceção que consiste na impossibilidade do ajuizamento da ação cível e da abertura do processo administrativo quando já tiver sido julgada ação criminal. REFLITA Nos ensinamentos do Mestre Nelson Hungria… A ilicitude jurídica é uma só, do mesmo modo que um só, na sua essência, é o dever ju- rídico… Assim, não há que falar-se de um ilícito administrativo ontologicamente distinto de ilícito penal. A separação entre um e outro atende apenas a critérios de conveniência ou de oportunidade, afeiçoados à medida do interesse da sociedade e do Estado, variá- vel no tempo e no espaço. Fonte: HUNGRIA, Nelson. Ilícito Administrativo e ilícito penal. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, ano 1, n.1, p. 24-31, jan./,ar. 1945. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/ article/view/8302/7076. Acesso em: 31 ago. 2021. Nesse sentido, é dizer que fica impossibilitada a reabertura de discussão sobre o mérito no âmbito civil e administrativo, quando a autoria e o reconhecimento das causas de exclusão de ilicitude (estado de necessidade, legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular do direito) no âmbito penal. Ou seja, não se pode mais questionar sobre a existência ou a autoria do fato, quando essas questões apontadas já tiverem sido decididas no juízo criminal. De acordo com (CAPEZ, 2020, p. 146) “essa relativização da independência de jurisdições se justifica-se pelo fato de o direito penal incorporar exigência probatória mais rígida para a solução das controvérsias, sobretudo em decorrência do princípio da presun- ção da inocência”. Vejamos o art. 8º da Lei de Abuso de Autoridade: Art. 8º. Faz coisa julgada em âmbito cível, assim como no administrativo-dis- ciplinar, a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular do direito. (BRASIL, 2019) 49UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas É importante esclarecer que em uma única conduta pode caracterizar ilícito penal, administrativo e civil, de forma simultânea e independente (BECHARA;AURÉLIO FLORÊN- CIO, 2020, p. 65). Explicam que: Nestes termos, é possível compreender que a infração jurídica, seja civil, administrativa ou penal decorre do descumprimento de um dever legal. Uma mesma conduta pode representar, simultaneamente, ilícito penal, civil e ad- ministrativo, assim, o autor de uma infração jurídica poderá ser responsabi- lizado nas três esferas, sem configurar bis in idem, pois as instâncias são independentes (BECHARA; AURÉLIO FLORÊNCIO, 2020, p. 65). Contudo, importante frisar que nada impede que a vítima de abuso de autoridade apresente a notícia crime junto à polícia judiciária ou ao Ministério Público, para a respectiva persecução penal e, paralelamente, represente, administrativamente ou ajuíze uma ação cível contra o agente público (CAPEZ, 2020, p. 66). Importante destacar que a Lei impõe duas exceções legais, quanto à autonomia e à independência das responsabilidades civil e administrativa. Quais sejam: De acordo com (CAPEZ, 2020, p. 146), a obrigação da indenização do dano causado, decorre naturalmente do Código Civil e é apenas reforçada pela Lei de Abuso de Autoridade. Nesse sentido, o artigo 186 do Código Civil (BRASIL, 2002) afirma que “todo aquele que dolosa ou culposamente viola direito ou causa dano a outrem, ainda que exclusivamen- te moral, comete ato ilícito” e o ato ilícito implica na obrigação de indenização, nos termos do art. 927 do Código Civil. A indenização civil será aplicada para reparar: ● Danos materiais; ● Danos morais decorrentes do crime de abuso de autoridade. A reparação será aplicada de acordo com a gravidade do dano e a particularidade de cada caso concreto. A responsabilidade civil decorre de ato omissivo ou comissivo, doloso ou culposo, que resulte em prejuízo ao erário ou a terceiros. Para a configuração da responsabilidade civil objetiva do Estado, ou seja, para se comprovar que o agente público cometeu a conduta ilícita prevista na Lei de Abuso de Au- toridade, exige-se que seja demonstrada a relação de causa e efeito entre o ato praticado pelo agente público e o dano sofrido pelo autor da ação. Tratando-se de danos causados a terceiros, responderá o servidor público perante a Fazenda Pública em ação regressiva. A obrigação de reparar o dano cometido pelo agente, estende-se aos sucessores e contra eles será executada, até o limite valor da herança recebida, com o objetivo de exemplificar a situação em que envolve a aplicação de uma sanção cível, nesse caso, a aplicação da condenação de um agente público (policial) que foi condenado a indenizar a vítima no valor de R $7.000,00 (sete mil reais) pelos danos morais sofridos. 50UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas SAIBA MAIS INDENIZAÇÃO CÍVEL - EXCESSO DE ABORDAGEM POLICIAL RECURSO INOMINADO. RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. EXCESSO EM ATUAÇÃO POLICIAL COMPROVADO. DANO MORAL CON- FIGURADO. (...) Caso concreto em que se pretende a responsabilização do Estado por suposta agressão verbal e física em atuação policial sem justificativa razoável, do que se desincumbiu a parte autora de comprovar, ônus que lhe cabia, nos termos do artigo 373, I, do Novo CPC (art. 333, I, CPC/73).Não restando dúvidas em relação à conduta dos agentes policiais que, por força das provas apresentadas e dos depoimentos co- lhidos conclui-se tenha sido imprudente e com excesso doloso, assente está o dever de indenizar.DANOS EXTRAPATRIMONIAIS - quantum indenizatório - Em relação ao valor indenizável a título de danos morais, pesa certificar que há de ser fixado em con- sonância com o poderio econômico do requerido, para que não perca o seu caráter de sanção, uma vez que a pena deve sempre trazer uma desvantagem maior que a vanta- gem auferida pelo ilícito, a fim de que exerça a prevenção sobre o ato danoso (Teoria da Prevenção). Portanto, se é certo que o dano é irreparável, justo que haja ao menos uma compensação em virtude do erro do demandado, para o que se entende suficienteo valor estabelecido de R $7.000,00 - sete mil reais).RECURSO INOMINADO PROVIDO. UNÂNIME. Fonte: Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul TJ-RS - Recurso Cível: 0002528-55.2016.8.21.9000 RS. Disponível em: https://tj-rs.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/900080741/recurso-civel-71005920780-rs. Acesso em: 30 ago. 2021. Tratamos de forma geral sobre a independência e a harmonia entre a aplicação das sanções na esfera administrativa,cível e penal. Posteriormente, nos aprofundamos nas peculiaridades atinentes às sanções na esfera cível, destacando as características, a ca- racterização para a configuração do dano cível, as disposições legais, encerrando com um julgado de um caso prático em que houve o excesso de abordagem policial. Passaremos, agora, a tratar sobre as sanções de natureza administrativa. https://tj-rs.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/900080741/recurso-civel-71005920780-rs 51UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas 4. DAS SANÇÕES DE NATUREZA ADMINISTRATIVA Querido(a) aluno(a,) após tratarmos sobre as sanções de natureza cível quando praticado o crime de abuso de autoridade, passaremos a tratar, nesta unidade, das sanções de natureza administrativa. Para melhor fixação do conteúdo, frisa-se, mais uma vez, que o servidor público responde civil, penal e administrativamente pelo exercício irregular de suas atribuições e, conforme já explicitado no tópico anterior, a aplicação das sanções nas referidas esferas são independentes e autônomas entre si. Quanto à definição da sanção administrativa, trata-se da atividade sancionatória ou disciplinar da Administração Pública pelas quais aplicam-se os princípios, garantias e normas que regem o processo penal comum, em respeito aos valores de proteção e de defesa das liberdades individuais e da dignidade da pessoa humana, que se plasmaram no campo daquela disciplina. Em outras palavras, é dizer que “os princípios fundamentais do Direito Processual Penal podem ser aplicados às sanções administrativas, com as devidas adaptações, em razão de que ambos os processos possuem natureza restritiva de direitos” (ACHE, 2015, p. 10). As sanções administrativas aplicam-se como sanções para punir comportamentos que resultem em infrações administrativas e possuem caráter preventivo, educativo e repressivo. 52UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas Quando configurada uma suposta ocorrência de um crime de abuso de autoridade, a vítima ou qualquer outra pessoa que tenha conhecimento do fato, deverá apresentar a denúncia ou reclamação ao órgão competente, assim, será aberto o procedimento adminis- trativo, a fim de investigar os fatos contidos na denúncia. Ressalta-se que o procedimento administrativo é indispensável, mesmo diante de fortes indícios de autoria e materialidade, mesmo quando se entende pela não ocorrência da infração. Quanto à natureza das sanções administrativas, é imperioso destacar o entendi- mento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) com relação às sanções, pois prevalece o entendimento de que a sanção administrativa é aplicada para salvaguardar os interesses exclusivamente funcionais da Administração Pública, enquanto a sanção criminal destina- -se à proteção da coletividade. Consoante o entendimento desta Corte, a independência entre as instâncias penal, civil e administrativa, consagrada na doutrina e na jurisprudência, permite à Administração impor punição disciplinar ao servidor faltoso à revelia de anterior julgamento no âmbito criminal ou em sede de ação civil, mesmo que a conduta imputada configure crime em tese. Em outras palavras, pode-se dizer que as sanções administrativas tratam-se de “punições usadas para penalizar infratores que tenham praticado fato ilícito ou irregular na execução das atividades contratadas, respeitados os direitos ao contraditório e à ampla defesa” (CAVALCANTI, 2019, p. 356). As sanções administrativas possuem como finalidade educar, prevenir ou reprimir condutas irregulares, coibindo o cometimento de infrações ilícitas. As sanções administrativas serão aplicadas em consonância com as condutas pre- vistas na Lei do Abuso de Autoridade, a depender do regime jurídico de cada agente público, como: servidores públicos na esfera federal ou, então, o servidor público na esfera estadual. Para que melhor se compreenda essa discussão, trataremos das sanções admi- nistrativas aplicadas aos servidores públicos federais, que possuem lei própria de acordo com o seu regime jurídico, que refere-se à Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990 (Lei do Funcionário Público Federal). Conforme previsto na Lei 8.112/90 (BRASIL, 1990) popularmente conhecida como Lei do Funcionário Público Federal, o agente público federal que cometer crimes de abuso de autoridade, conforme previstos na Lei, responderá penal, civil e administrativamente pelo exercício irregular de suas atribuições. As penalidades disciplinares são: 53UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas ● Advertência; ● Suspensão do cargo a depender da gravidade da conduta e do crime praticado; ● A demissão; ● Cassação de aposentadoria ou disponibilidade; ● Destituição de cargo em comissão; ● Destituição de função comissão. Na aplicação da sanção administrativa, serão consideradas a natureza e a gravida- de da infração cometida, os danos que dela provierem para o serviço público, as circuns- tâncias agravantes ou atenuantes e os antecedentes funcionais. Como já ressaltado no tópico anterior, a responsabilidade administrativa do servi- dor público federal será afastada no caso de absolvição criminal que negue a existência do fato ou da autoria. SAIBA MAIS Manifestamente descabida é a conduta que ocorra com excesso claro do agente públi- co, que de forma notória, patente ou inegável decreta o ato sem um mínimo substrato jurídico ou fático. O Supremo Tribunal Federal já firmou entendimento no sentido de que não é possível a condução coercitiva do investigado ou do réu para interrogatório no âmbito da inves- tigação ou da ação penal. Caso seja determinada a medida nesses termos, poderá acarretar: Ilicitude das provas obtidas; Responsabilidade civil do Estado e; Responsabilidade civil, administrativa e penal do agente ou autoridade. Fonte: NUCCI, Guilherme. A nova lei de abuso de autoridade. Disponível em: https://www.migalhas.com. br/depeso/312282/a-nova-lei-de-abuso-de-autoridade. Acesso em: 31 ago. 2021. Tratamos sobre as sanções administrativas desde o seu conceito, suas aplicações legais, as peculiaridades, disposições legais introduzindo como exemplo as sanções apli- cadas ao funcionário público no âmbito federal. Acreditamos que agora você, aluno(a) está preparado para a próxima unidade. https://www.migalhas.com.br/depeso/312282/a-nova-lei-de-abuso-de-autoridade https://www.migalhas.com.br/depeso/312282/a-nova-lei-de-abuso-de-autoridade 54UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezados(as,) alunos(as) concluímos os nossos estudos desta unidade III. No Tópico I, abordamos os principais efeitos causados pela condenação do agente público que cometer algum dos crimes previstos pela Lei de Abuso de Autoridade, bem como ressaltamos as principais inovações e diferenças em relação às regras previstas no Código Penal. No Tópico II, trouxemos para você, aluno (a) os conceitos das penas restritivas de di- reito, bem como abordamos de forma detalhada em quais casos será possível a sua aplicação. No no Tópico III do nosso material, vimos sobre a aplicação das sanções de natu- reza cível, tratando de maneira geral sobre a independência e autonomia das sanções na esfera cível, administrativae criminal, destacando a principal exceção trazida na Lei, que se trata da hipótese em que não poderá ser aplicadas sanções criminais, cumulando-se com a sanção cível e a administrativa. Posteriormente, analisamos quais os requisitos essenciais que configuram o dano na esfera cível, bem como as modalidades das indenizações aplicadas ao caso concreto, podendo ser a indenização pelos danos morais ou danos materiais. Dando continuidade, trouxemos para você, aluno(a) um julgado de um caso real, em que envolve o crime de abuso de autoridade por um agente público que foi condenado a indenizar a vítima pelos danos morais causados. Por fim, encerraremos o estudo da nossa terceira unidade, tratando sobre as san- ções de natureza administrativas. Para tanto, trouxemos para você, aluno(a) o conceito da sanção administrativa, demonstrando a principal finalidade e como inicia-se o proce- dimento administrativo na prática cotidiana. Veremos que a abertura do procedimento é indispensável e serve para apurar a infração cometida pelo agente público. Acreditamos que, agora, você, aluno(a) estará preparado para a nossa próxima unidade. Muito obrigado(a)! 55UNIDADE III Da Lei de Abuso de Autoridade : Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Abuso de Autoridade. Autores: Rogério Sanches Cunha e Rogério Greco. Ano de Edição: 3ª Edição Revista, atualizada e ampliada. Editora: Jurispodivm. Sinopse: O objetivo deste trabalho é propiciar, como exigem os tempos modernos, de uma forma ágil, porém completa, a consulta a todos os dispositivos da parte geral e da parte especial da Lei 13.869/19. Cada artigo foi objeto de uma análise individual, com comentários e citações doutrinárias pertinentes à matéria, sem ig- norar a jurisprudência já sedimentada, sob a égide da Lei 4.898/65, que enriquecem o debate e revelam, por vezes, pontos de vista diversos a respeito da mesma temática. Esperamos contar com a crítica de todos aqueles que se debruçarem sobre sua leitura, apontando seus defeitos e qualidades. Somente assim, podere- mos, em revisões futuras, aperfeiçoar o trabalho. FILME / VÍDEO Título: Marcha Cega - Filme Ano: 27 de setembro de 2018. Sinopse: Durante as manifestações que ocorreram em São Paulo nos últimos anos, a Polícia Militar foi responsável por agredir vio- lentamente, ferir e prender uma série de manifestantes. Através do uso excessivo de gás lacrimogêneo e outras técnicas duvidosas, a cidade transformou-se em um verdadeiro campo de batalha e as marchas, inicialmente pacíficas, foram consumidas pela violência derivada das forças policiais. 56 Plano de Estudo: ● Dos aspectos gerais e análise dos crimes previstos nos arts. 9º ao 15; ● Da análise dos crimes previstos nos arts.16 a 25; ● Da análise dos crimes previstos nos arts. 27 a 38; ● Do procedimento; Objetivos da Aprendizagem: ● Abordar os aspectos gerais e analisar os crimes previstos nos arts. 9º ao 15; ● Compreender os crimes de abuso de autoridade previstos nos arts. 16 ao 25; ● Analisar os crimes de abuso de autoridade previstos nos arts. 27 ao 38; ● Compreender o procedimento de julgamento dos delitos previstos na Lei de Abuso de Autoridade. UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Professora Flávia Lausi Rodrigues Professor Thales de São José Sandoval 57UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a)! Seja bem vindo à última unidade de nossos estudos sobre a Lei de Abuso de Autoridade. Para tanto, na presente unidade, no Tópico I, abordaremos os aspectos gerais da Lei de Abuso de Autoridade, bem como analisaremos e exemplificaremos de forma detalhada os crimes e sanções disciplinados no artigo 9º ao 15 da mencionada da Lei. No Tópico II, continuaremos nossos estudos, abordando os ilícitos e penas dis- postos no artigo 16 ao 25 da Lei de Abuso de Autoridade, trazendo para você aluno(a) os requisitos necessários para que uma conduta possa ser tipificada como crime. Neste tópico também elencamos alguns direitos do preso assegurados por esta legislação e por outros dispositivos legais como a Constituição Federal e a Lei de Execução Penal. Por conseguinte, no Tópico III do nosso material, continuaremos a análise sobre as condutas que caracterizam crime previstas na Lei de Abuso de Autoridade. Veremos que não se pune o agente público quando não tiver agido com a finalidade específica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou terceiro, ou atuar por capricho ou satisfação pessoal. Observa-se pela análise dos artigos que os crimes de abuso de autoridade consis- tem na consciência do agente público de realizar a conduta com a vontade de produzir o resultado, mais a finalidade especial exigida pelo tipo. Por fim, encerraremos o estudo da nossa quarta unidade tratando sobre o procedi- mento da ação penal para o julgamento de crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade de forma detalhada. Trataremos sobre o procedimento penal a ser adotado para cada tipo penal, que irá variar de acordo com a pena abstrata de cada crime, podendo ser o ordinário, sumário e o sumaríssimo. Vamos começar! 58UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas 1. DOS ASPECTOS GERAIS E ANÁLISE DOS CRIMES PREVISTOS NOS ARTS. 9º AO 15 Prezado(a) aluno(a)! Nesta unidade analisaremos de forma aprofundada alguns crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade. Assim, iniciaremos nossos estudos elencando e exemplificando os crimes dispostos do artigo 9º ao 15 da mencionada lei. Dispõe o artigo 9 da Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019): Art.9º Decretar medida de privação de liberdade em manifesta desconformidade com as hipóteses legais: Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena a autoridade judiciária que, dentro de prazo razoável, deixar de: I - relaxar a prisão manifestamente ilegal; II - substituir a prisão preventiva por medida cautelar diversa ou de conceder; liberdade provisória, quando manifestamente cabível; III - deferir liminar ou ordem de habeas corpus, quando manifestamente cabível. Nas palavras do doutrinador Fernando Capez (2020, p. 58): A lei não pune a prisão posteriormente revogada, nem tampouco aquela em que a instância superior divergiu da interpretação do juiz, apenas a prisão decretada totalmente fora das hipóteses legais, ou seja, aquela sobre a qual não pairar nenhuma dúvida sobre sua ilegalidade. Algumas hipóteses legais para decretação de prisão estão dispostas nos seguintes dispositivos: artigos 311 ao 314 e artigos 317 ao 318-A do Código de Processo Penal, artigos 1º e 2º da Lei nº 7.960/1989 (BRASIL, 2019). 59UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas O Autor (CAPEZ, 2020, p. 58), traz alguns exemplos de privação de liberdade em desconformidade com as hipóteses legais: ● Prisão em razão de flagrante feito dias depois, sem perseguição e fora da situa- ção de flagrância; ● Prisão preventiva decretada para atender o clamor popular ou sob fundamento que não corresponda à hipótese do auto; ● Prisão preventiva fundamentada em dissonância com o disposto no art. 312 do Código de Processo Penal;. ● Prisão decretada em crimes que não comportem preventiva e temporária decre- tada ex officio. O artigo 312 do Código de Processo Penal, Decreto Lei nº 3.689/1941 (BRASIL, 1941), disciplina que somente poderá ser decretada a prisão preventiva, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado. Assim, conforme elencado acima, caso o agente público decrete a prisão preventiva sem observar referidos requisitos a medida deverá ser considerada ilegal. Cabível destacar a conduta prevista no artigo 10 que também gera pena de 1 (um) a 4 (quatro) anos, emulta, Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019), “Decretar a condução de testemunha ou investigado manifestamente descabida ou sem prévia intimação de compa- recimento ao juízo”. Ainda no âmbito das medidas restritivas de liberdade conforme dispõe o artigo 12 Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019), incorre em crime com pena de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa o agente que: a) Deixar de comunicar a prisão em flagrante à autoridade judiciária no prazo legal; b) Deixar de comunicar à autoridade judiciária de forma imediata a execução de prisão temporária ou preventiva; c) Deixar de comunicar, imediatamente, a prisão de qualquer pessoa, bem como o local que encontra a sua família ou à pessoa por ela indicada; d) Deixar de entregar ao preso, no prazo de 24 horas, a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da prisão e os nomes do condutor e das testemunhas. e) Prolongar a execução de pena privativa de liberdade, de prisão temporária, de prisão preventiva, de medida de segurança ou de internação, deixando, sem motivo justo, de executar o alvará de soltura imediatamente após o recebimento ou de promover a soltura do preso quando esgotado o prazo judicial ou legal. 60UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Quanto à conduta mencionada na letra “c”, ressalta-se que o direito de comunica- ção do preso está amparado também pelo artigo 5º, inciso LVXII da Constituição Federal, sendo assim enquadrado como garantia fundamental. Caro aluno(a), a Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019) também tipifica como crime em seu artigo 13 os atos coercitivos dos agentes que resultem em constrangimento ao preso, como por exemplo: ● Submeter o preso sob violência ou ameaça a exibir parte do seu corpo à curio- sidade pública; ● Expor o preso a qualquer situação vexatória ou constrangedora que não seja autorizada pela lei. ● Coagir o preso a produzir prova contra si mesmo ou contra terceiro. Já no artigo 15, caput o legislador tipifica como “crime de abuso de autoridade o fato do agente constranger a depor, sob ameaça de prisão, pessoa que, em razão de fun- ção, ministério, ofício ou profissão, deva guardar segredo ou resguardar sigilo” (BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., 2020, p.161). Para compreendermos de forma mais clara tal tipificação cabível trazermos o dis- posto no artigo 207 do Código de Processo Penal,Decreto Lei nº 3.689/1941 (BRASIL,1941): São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofí- cio ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho. Assim, o agente público que coagir o indivíduo a violar a regra legal do artigo 207, de forma que ele sinta-se constrangido a depor incorrerá em ilícito penal com pena de detenção de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa. Importante ressaltarmos também o disposto no seu parágrafo único o qual consta como ato ilícito a continuidade de interrogatório de pessoa que tenha decidido exercer o direito ao silêncio; ou que tenha optado por ser assistida por advogado ou defensor público, sem a presença de seu patrono. Fernando Capez (2020, p. 115) explica o procedimento do interrogatório da seguin- te forma: “O interrogatório é o ato judicial no qual o juiz ouve o acusado sobre a imputação contra ele formulada. É ato privativo do juiz e personalíssimo do acusado, possibilitando a este último o exercício da sua defesa, da sua autodefesa”. 61UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas REFLITA A dignidade da pessoa humana abarca toda e qualquer proteção à pessoa, seja física, seja psicológica. Tanto que dela decorrem os direitos individuais e dentre eles encontra- -se a proteção à personalidade, cabendo indenização em caso de dano. Fonte: FILHO, Miranda Pelegrino Elivaldo. A exposição da imagem de um acusado antes do trânsito em julgado da ação penal. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/301014/a-exposicao-indevi- da-da-imagem-de-um-acusado-antes-do-transito-em-julgado-da-acao-penal. Acesso em: 15 nov. 2021. SAIBA MAIS “Em razão do princípio constitucional da presunção da inocência (art. 5º, LVII, da CF) a prisão processual é medida de exceção; a regra é sempre a liberdade do indiciado ou acusado enquanto não condenado por decisão transitada em julgado. Daí porque o art. 5º, LXVI, da CF dispõe que: “ninguém será levado à prisão ou nela mantida, quando a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança.” Fonte: BIANCHINI, Alice . [et al.] Prisão e medidas cautelares: comentários à Lei 12.403, de 4 de maio de 2011. (Coord. Luiz Flávio Gomes, Ivan Luiz Marques). 2ª Ed. São Paulo: RT, 2011, p. 136) Neste tópico explicamos e exemplificamos os crimes dispostos do artigo 9º ao 15 da Lei de Abuso de Autoridade. No próximo tópico continuaremos nossos estudos elencando os crimes descritos do artigo 16 ao 25 da mencionada lei. 62UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas 2. DA ANÁLISE DOS CRIMES PREVISTOS NOS ARTS. 16 a 25 Caro aluno(a), neste tópico continuaremos analisando os crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade. Assim, prosseguiremos observando o disposto nos artigos 16 ao 25 da mencionada Lei, O artigo 16 enquadra como ilícito a conduta do agente que deixar de identificar-se com o preso ou identificar-se falsamente. Conforme dispõe o artigo 5º, LXIV da Constituição Federal, “o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial”. Deste modo, o artigo 16 da Lei de Abuso de autoridade assegura o direito do preso previsto no artigo 5º, LXIV da Constituição Federal (CAPEZ, 2020, p. 119). Nesse sentido outro artigo que merece destaque é o 306 § 2o do Código de Processo Penal, o qual dispõe: Art. 306. A prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comu- nicados imediatamente ao juiz competente, ao Ministério Público e à família do preso ou à pessoa por ele indicada. § 2o No mesmo prazo, será entregue ao preso, mediante recibo, a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da prisão, o nome do con- dutor e os das testemunhas. Outrossim, ressalta-se que a pena prevista para o agente que praticar tal crime, qual seja, deixar de identificar-se ou identificar-se falsamente com o preso é de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. 63UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Ainda necessário destacar que conforme parágrafo único do artigo 16 incorre na mesma pena o agente que encarregado do “interrogatório em sede de procedimento in- vestigatório de infração penal, deixa de identificar-se ao preso ou atribui a si mesmo falsa identidade, cargo ou função”. Conforme previsto na legislação a pena prevista para este crime é de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos e multa. O artigo 17 da mencionada lei foi revogado, assim passaremos ao estudo do artigo 18, o qual tipifica como crime a seguinte conduta do agente, “submeter o preso a interroga- tório policial durante o período de repouso noturno, salvo se capturado em flagrante delito ou se ele, devidamente assistido, consentir em prestar declarações”. O dispositivo “criminaliza a submissão do preso a interrogatório policial durante o período de repouso noturno” (BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., 2020, p. 197), sendo que conforme letra da lei existem duas exceções em que o interrogatório notur- no não é criminalizado, quais sejam: em caso de flagrante delito ou se o preso, devidamente assistido, concordar em prestar as declarações. Para melhor compreensão segue o disposto nos Enunciados 11 e 12 do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais dos Ministérios Públicos dos estados e da União - CNPG e do Grupo Nacional de Coordenadores de Centro de Apoio Criminal – GNCCRIM (DALA- ZEN FABIANO; DOS PASSOS PAULO CEZAR, 2019, p. 3 e 4) ENUNCIADO 11 (art.18): “Para efeitos do artigo 18 da Lei de Abuso de Auto- ridade, compreende-se por repouso noturno o período de 21h00 e 5h00, nos termos do artigo 22, § 1°, III da mesma Lei. ENUNCIADO 12 (art, 18) “ Ressalvadas as hipóteses de prisão em flagran- te e concordância do interrogado devidamente assistido, o interrogatório ex- trajudicial do preso iniciado antes, não pode adentrar o período de repouso noturno, devendo ser o ato encerrado e , se necessário, complement no dia seguinte,” No deste artigo a pena segue conforme imposta no artigo 16, qual seja, 6 (seis) meses a 2 (dois) anos e multa. O próximo crime que estudaremos está tipificado no artigo 19 da Lei, o qual visa proteger o “direito de petição à autoridade competente por parte de todos que se sentem vi- timados por ilegalidades ou abuso de poder”.(BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., 2020, p.199). Artigo 19. Impedir ou retardar, injustificadamente, o envio de pleito de preso à autoridade judiciária competente para a apreciação da legalidade de sua prisão ou das circunstâncias de sua custódia. Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena o magistrado que, ciente do impe- dimento ou da demora, deixar de tomar as providências tendentes a saná-lo, não sendo competente para decidir sobre a prisão, deixa de enviar o pedido à autoridade judiciária que o seja. 64UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Importante ressaltarmos que bem jurídico tutelado, qual seja, direito de petição, possui proteção constitucional conforme disposto no artigo 5º, inciso XXXIV, “a” da Carta Magna (BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., 2020, p.199): Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, ga- rantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabili- dade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXIV - são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas: a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder; Outra proteção trazida pela Lei de Abuso de Autoridade é a prerrogativa do preso de se comunicar com o seu advogado, referido direito é amparado pelo artigo 41, inciso IX, da Lei de Execução Penal e pelo artigo 5º, inciso LXII da Constituição Federal. Assim, conforme disposto no artigo 20 da Lei de Abuso de Autoridade o agente público que “impedir, sem justa causa, a entrevista pessoal e reservada do preso com o seu advogado”, incorrerá em pena de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos e multa. Outrossim, ressalta-se o disciplinado no parágrafo único do mencionado artigo o qual dispõe que incorrerá na mesma pena o agente que impedir o preso ou investigado de entrevistar-se, em prazo razoável, pessoalmente e reservadamente com seu advogado, antes de audiência judicial, ou impossibilitar a conversa entre eles durante a audiência. O próximo crime que estudaremos será o disposto no artigo 21 da Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019): Art 21. Manter presos de ambos os sexos na mesma cela ou espaço de con- finamento: Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa Parágrafo único: Incorre na mesma pena quem mantém, na mesma cela, criança ou adolescente na companhia de maior de idade ou em ambiente ina- dequado, observando disposto na Lei nº 8.069 de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente). O doutrinador Fernando Capez (2020, p. 123) explica que a criminalização de tal conduta visa assegurar aos presos o respeito à sua integridade física e moral de forma a dar efetividade ao direito previsto no artigo 5º, inciso XLVIII da Constituição Federal, qual seja: “a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado”. Nesse sentido, é cabível ressaltarmos que o agente público tem o dever de garantir a incolumidade física do preso, conforme disposto no artigo 13, § 2º, “a” do Decreto Lei nº2.848/1940. 65UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é im- putável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância. Assim, (NUCCI, 2020, p.30) explica que “se uma mulher presa em lugar onde há presos do sexo masculino for estuprada, é viável processar por estupro quem a colcou ali e não garantiu a sua segurança”, o autor justifica referida condenação aduzindo que o crime mais grave (estupro) deve absorver o mais leve (abuso de autoridade). Caro aluno(a), passaremos agora a estudar o crime previsto no artigo 22 da men- cionada Lei, qual seja: Art.22 Invadir ou adentrar, clandestina ou astuciosamente, ou à revelia da vontade do ocupante, imóvel alheio ou suas suas dependências, ou nele per- manecer nas mesmas condições, sem determinação judicial ou fora das con- dições estabelecidas em lei: Para que melhor se compreenda necessário se faz destacarmos o direito individual à inviolabilidade de domicílio previsto no artigo 5º, inciso XI da Constituição Federal: ”a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”; Nas palavras de (CAPEZ, 2020, p. 125), “o que se tutela é a tranquilidade do indi- víduo em determinado espaço privado, e não a sua posse ou propriedade, ao contrário dos crimes patrimoniais”. Em outras palavras o artigo 22 criminaliza a invasão de propriedade privada pelo agente público sem mandado judicial ou fora das hipóteses previstas em lei, quais sejam, caso de flagrante delito, desastre ou para prestar socorro (BECHARA; FÁBIO; FLORÊN- CIO; AURÉLIO, M., 2020, p. 220). Importante mencionarmos que de acordo com contido em seu inciso III o agente que cumprir mandado de busca e apreensão domiciliar no horário noturno, qual seja, após as 21 (vinte e uma) horas ou antes das 5 (cinco) horas, também incorrerá em ilícito devendo cumprir a mesma pena determinada no caput do artigo, qual seja, detenção de 1 (um) a 4 (quatros) anos. O próximo crime a ser estudado está previsto no artigo 23 da Lei nº 13.869/2019, qual seja: Inovar artificiosamente, no curso de diligência, de investigação ou de pro- cesso, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de eximir-se de responsabilidade ou de responsabilizar criminalmente alguém ou agravar-lhe a responsabilidade. 66UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Referida conduta foi tipificada como ilícita a fim evitar que agentes públicos realizem atitudes com objetivo de incriminar pessoas inocentes (BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., 2020, p. 229). O doutrinador Guilherme de Souza Nucci, (2020, p.35) explica que, para a conduta ser caracterizada crime necessário estar presente os seguinte requisitos: a inovação artifi- ciosa (engenhosa) e também a finalidade de se eximir de responsabilidade ou de respon- sabilizar criminalmente alguém ou até agravar-lhe a responsabilidade (NUCCI, 2020, p. 35). Para que você aluno(a) melhor compreenda seguem alguns exemplos de ilícitos enquadrados no referido artigo (CAPEZ, 2020, p.128). ● Forjar um flagrante, de forma a inserir produto ou objeto que prejudique o sus- peito; ● Induzir o depoente a inserir forjadamente o nome de pessoa inocente; ● Induzir o depoente a assinar depoimento formulado pelo próprio agente de forma a escrever trechos por sua própria autoria e que não foram mencionados pelo depoente. ● Coagir o investigado ou testemunha fazendo-os crerque, se não disserem o que o investigante orientou, sofrerão consequências. A pena prevista para referido ilícito é de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa. O artigo também traz em seus incisos I e II mais duas condutas que se praticadas pelo agente público incorrerão na mesma pena, quais sejam: I - eximir-se de responsabilidade civil ou administrativa por excesso praticado no curso de diligência; II - omitir dados ou informações ou divulgar dados ou informações incomple- tos para desviar o curso da investigação, da diligência ou do processo. O art. 24 previsto na Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Constranger, sob violência ou grave ameaça, funcionário ou empregado de instituição hospitalar pública ou privada a admitir para tratamento pessoa cujo óbito já tenha ocorrido, com o fim de alterar local ou momento de crime, pre- judicando sua apuração: Pena - detenção, de um (um) a 4 (quatro) anos, e multa, além da pena cor- respondente à violência. De acordo com (NUCCI, 2020, p. 36) “o verbo constranger espelha sempre uma conotação negativa, significando, nesta hipótese, tolher a liberdade ou obrigar alguém a alguma coisa”. Nessa situação, o objetivo do infrator é através da alteração do momento do crime ou do local prejudicar a investigação de forma a beneficiar-se ou a prejudicar terceiros (NUCCI, 2020, p. 36). 67UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Em outras palavras, o agente público cria uma realidade probatória falsa através do constrangimento com o objetivo de induzir em erro as investigações e o Juízo. Assim, o agente público que coagir terceiros a admitir pessoa para o tratamento cujo óbito já tenha ocorrido, incorrerá em crime de abuso de autoridade. O art. 25 previsto na Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 25. Proceder à obtenção de prova, em procedimento de investigação ou fiscalização, por meio manifestamente ilícito: Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem faz uso de prova, em desfa- vor do investigado ou fiscalizado, com prévio conhecimento de sua ilicitude. Analisando referido dispositivo podemos perceber que o legislador visou assegurar o disposto no artigo 5º, LVI da Constituição Federal, qual seja “são inadmissíveis, no pro- cesso, as provas obtidas por meios ilícitos”. Nesse sentido, nas palavras de (NUCCI, 2020, p. 36). “quem consegue prova ilícita e a utiliza para prejudicar alguém, responde pelo crime”. Assim, a obtenção e o uso de prova ilícita em desfavor do investigados “trata-se de uma desconsideração processual absoluta que leva aquelas provas para o terreno da inexistência jurídica” (BECHARA; FÁBIO; FLORÊNCIO; AURÉLIO, M., p.229, 2020). 68UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas SAIBA MAIS O artigo 21, “caput” da Lei 13.869/19 incrimina a conduta de quem mantém presos de ambos os sexos na mesma cela ou espaço de confinamento. Certamente a inspiração de tal dispositivo se encontra em caso emblemático ocorrido no Pará quando uma Juíza de Direito permitiu que uma adolescente ficasse confinada em uma cela com 30 (trinta) homens. Disso resultou o óbvio. A adolescente foi torturada e violentada sexualmente. Fonte: CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Abuso de Autoridade e Promiscuidade Carcerária. Disponível em: https://bit.ly/3xHX40z. Acesso em: 05 set. 2021. REFLITA A expressão “ambos os sexo” é empregada no artigo 21, porém, não se pode negar a realidade quanto ao fato de que transexuais, travestis e homossexuais são frequente- mente alvos de violência sexual. Fonte: CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Abuso de Autoridade e Promiscuidade Carcerária. Disponível em: https://bit.ly/3xHX40z. Acesso em: 05 set. 2021. Caro(a) aluno, neste tópico você aprendeu sobre os crimes tipificados no artigo 16 ao 25 da Lei de Abuso de Autoridade, nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019). No próximo tópico continuaremos nossos estudos sobre as condutas ilícitas de forma a elencarmos os crimes tipificados no artigo 27 ao 38 da mencionada Lei. 69UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas 3. DA ANÁLISE DOS CRIMES PREVISTOS NOS ARTS. 27 A 38 O objetivo agora é proceder a análise crítica dos crimes previstos nos art. 27 ao 38 da Lei de Abuso de Autoridade proporcionando para você aluno(a) uma análise geral. Dispõe o artigo 27 da Lei nº 13.869/2019 (BRASIL, 2019): Requisitar instauração ou instaurar procedimento investigatório de infração penal ou administrativa, em desfavor de alguém, à falta de qualquer indício da prática de crime, de ilícito funcional ou de infração administrativa: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Parágrafo único. Não há crime quando se tratar de sindicância ou investigação preli-minar sumária, devidamente justificada É dizer que instaurar qualquer procedimento em desfavor de alguém sem qualquer indício de prática de crime, de ilícito funcional ou de infração administrativa caracteriza o crime de abuso de autoridade. Este artigo visa de acordo com (BECHARA, FLORÊNCIO, AURÉLIO, 2020, p. 285) “proteger a honra e a dignidade da pessoa sujeita à investigação criminal, evitando-se que tenha o dissabor de ser alvo de uma investigação quando nenhum indício permita colocá-la na condição de investigada”. Frisa-se que não há crime quando se trata tão somente de sindicância ou investigação preliminar. O artigo 28 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 28. Divulgar gravação ou trecho de gravação sem relação com a prova que se pretenda produzir, expondo a intimidade ou a vida privada ou ferindo a honra ou a imagem do investigado ou acusado: Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. 70UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Nesse crime, divulgar (tornar pública, propagar, espalhar) é o verbo principal, a ser composto com expor (colocar em evidência, revelar). De acordo com (NUCCI, 2020, p. 39) “tra- ta-se de abuso de autoridade divulgar gravação ou trecho de gravação (entende-se a cautela do legislador: tornar pública toda a gravação captada ou apenas uma parte dela, tanto faz)”. Em outras palavras, considera-se crime divulgar qualquer gravação, sem relação com a prova que se pretenda produzir, tratam-se de trechos particulares envolvendo outros assuntos que nada tem a ver com a investigação criminal ou com o processo (NUCCI, 2020, p. 39). Ao cometer esse crime, pode-se atingir dois resultados (NUCCI, 2020, p. 39): ● Expor a intimidade ou a vida privada alheia; ● Ferir a honra ou a imagem do investigado ou acusado. O sujeito ativo é o agente público, e o sujeito passivo é o Estado, “secundariamente a pessoa cuja intimidade ou vida privada foi exposta ou o investigado/acusado cuja intimi- dade ou vida privada foi exposta ou o investigado/acusado cuja honra ou imagem foi ferida (NUCCI, 2020, p. 39)”. Neste crime, o elemento subjetivo do tipo é o dolo. Pois, “exige-se elemento sub- jetivo específico, consistente em prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ainda por mero capricho ou satisfação pessoal” (NUCCI, 2020, p.39). Neste crime não se admite a modalidade culposa. O crime previsto no art. 29 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) consiste em: Art. 29. Prestar informação falsa sobre procedimento judicial, policial, fiscal ou administrativo com o fim de prejudicar interesse de investigado: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Neste crime, prestar (dar, comunicar) trata-se do verbo principal, cujo objeto é a informação falsa (notícia ou conjunto de conhecimentos sobre algo ou alguém, no caso deste tipo a notícia é uma inverdade, mentira, não autêntica (NUCCI, 2020, p. 39). Em outras palavras, como popularmente conhecido de “fake news”, quando divul- gado por agentes públicos. Não há especificidadequanto ao meio da veiculação da informação falsa, contudo entende-se que a partir do momento em que a informação se torna pública como no crime de injúria, ou seja, no momento em que chega ao conhecimento do investigado ou do acusado. Nesse crime, o sujeito ativo é o agente público e o passivo é o Estado; secundaria- mente o investigado prejudicado pela informação falsa divulgada. 71UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Não há modalidade culposa nesse crime, exige-se o elemento dolo para a sua configuração, consistente na intenção em prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal (NUCCI, 2020, p.39). O art. 30 previsto na Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 30. Dar início ou proceder à persecução penal, civil ou administrativa sem justa causa fundamentada ou contra quem sabe inocente: Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. Analisando este disposto, dar início (começar, principiar) e proceder (dar segui- mento, prosseguir) “são as condutas alternativas (o agente pode realizar somente uma ou as duas, mas responde por um só crime) ligadas à persecução (vulgarmente, significa perseguição” (NUCCI, 2020, p. 41). Este crime, trata-se de uma espécie de denunciação caluniosa, cometida por agen- te público. De acordo com (NUCCI, 2020, p. 41) Este crime sem justa causa fundamentada (faltando indícios suficientes de autoria ou de materialidade ou sem fundamentação) ou contra quem sabe inocente (sem indícios de materialidade ou autoria ou com indícios forjados), dá início à persecução penal (instaura inquérito - o delegado; oferece denún- cia - promotor; recebe denúncia - o juiz) ou prossegue em persecução penal que ele mesmo iniciou ou instaurada por terceiro. O sujeito ativo é o agente público e o sujeito passivo é o Estado, secundariamente a pessoa investigada ou processada. Admite-se somente a modalidade dolosa, ou seja, consistente na intenção de “prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou, ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal” (NUCCI, 2020, p. 41). Já o crime previsto no artigo da 31 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 31. Estender injustificadamente a investigação, procrastinando-a em pre- juízo do investigado ou fiscalizado: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, inexistindo prazo para exe- cução ou conclusão de procedimento, o estende de forma imotivada, procras- tinando-o em prejuízo do investigado ou do fiscalizado. Analisando o núcleo deste crime, estender (esticar, prolongar) é o verbo principal, cujo objeto é a investigação, portanto se está na está na esfera extrajudicial (NUCCI, 2020, p. 42). Associa-se o prolongamento da investigação à procrastinação injusta, prejudicando o investigado ou fiscalizado, ou seja, demorar e procrastinar durante o processo investiga- tório (NUCCI, 2020, p. 42). Nesse sentido, (NUCCI, 2020, p. 42) explica que Há casos em que se verifica a demora do agente público para concluir a investigação, seja de que matéria de ilícito for, somente para manter o in- vestigado em espera, por motivos escusos, como lhe impedir a eleição ou a nomeação para um cargo ou mesmo para auferir uma promoção. É abuso de autoridade, quando isto é feito de maneira dolosa e, como há no tipo, injusti- ficadamente (sem nenhuma justa causa). 72UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Em confronto com o parágrafo único, “quer-se crer que, na figura do caput, há um prazo para findar a investigação, que foi ultrapassado sem justo motivo. Isso porque, no parágrafo único, menciona-se a falta de prazo para conclusão do procedimento” (NUCCI, 2020, p. 42), contudo não há prazo estabelecido na lei, mas o crime de abuso de auto- ridade se caracterizará quando quando comprovada a procrastinação, ou seja, a demora injustificável na finalização do procedimento. Analisando o art. 32 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019): Art. 32. Negar ao interessado, seu defensor ou advogado acesso aos autos de investigação preliminar, ao termo circunstanciado, ao inquérito ou a qual- quer outro procedimento investigatório de infração penal, civil ou administra- tiva, assim como impedir a obtenção de cópias, ressalvado o acesso a peças relativas a diligências em curso, ou que indiquem a realização de diligências futuras, cujo sigilo seja imprescindível: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Negar (recusar-se a algo; repudiar, vedar) é o verbo principal, cujo objeto é o acesso aos autos de investigação preliminar (pode ser policial ou administrativo), ao termo circuns- tanciado (peça lavrada em caso de flagrante de infração de menor potencial ofensivo, ao inquérito (civil ou penal) ou outro procedimento investigatório de natureza penal, civil ou administrativa (NUCCI, 2020, p. 43). A segunda forma de caracterizar o crime de abuso de autoridade, é impedindo (obstando, não permitindo), cujo objeto é a obtenção de cópias dessas peças. Nesse sentido, a negativa é dirigida ao interessado ou ao defensor do interessado, podendo ser o advogado constituído, dativo ou o defensor público). O art. 33 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 33. Exigir informação ou cumprimento de obrigação, inclusive o dever de fazer ou de não fazer, sem expresso amparo legal: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem se utiliza de cargo ou função pública ou invoca a condição de agente público para se eximir de obrigação legal ou para obter vantagem ou privilégio indevido. Exigir (reclamar direito legítimo, impor alguma coisa) é um verbo de forte conteúdo, cujo objeto é a informação (notícia acerca de algo) ou o cumprimento de obrigação (execu- tar uma tarefa por meio de vínculo jurídico estabelecido), incluindo o dever (regra imposta por lei, neste caso) de fazer ou não fazer alguma coisa (NUCCI, 2020, p. 42). Os artigos 34 e 35 da Lei de Abuso de Autoridade foram vetados. Continuando a análise dos dispositivos, o art. 36 dispõe que: Art. 36. Decretar,245-247 em processo judicial, a indisponibilidade de ativos financeiros em quantia que extrapole exacerbadamente o valor estimado para a satisfação da dívida da parte e, ante a demonstração, pela parte, da excessividade da medida, deixar de corrigi-la. Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. 73UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Decretar, consiste em dar ordens, determinar, cujo objeto é a indisponibilidade de ativos financeiros em montante que ultrapasse exacerbadamente (de modo exagerado) o valor estimado para satisfazer a dívida da parte. Tal crime só pode se caracterizar durante o processo judicial. Para “congelar” os bens de um investigado ou réu é necessária cautela. Como, por exemplo, se uma eventual dívida é de 100 mil reais, porque decretar a indisponibilidade de um milhão de reais? Quando se tratar de um erro ou algo advindo da imprudência não se caracterizar-se-á como crime, pois caracteriza crime quando o agente público “faz de propósito para deixar o investigado/réu para deixar o investigado/réu sem qualquer recurso emerge o abuso de autoridade” (NUCCI, 2020, p. 45). O art. 37 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 37. Demorar demasiada e injustificadamente no exame de processo de que tenha requerido vista em órgão colegiado, com o intuito de procrastinar seu andamento ou retardar o julgamento: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Demorar (atrasar, permanecer com algo por longo tempo) é o verbo principal, tendo por objeto o processo do qual pediu vista. Para que se configure o crime de abuso de autoridade é fundamental que “o magistrado requeira vista de um processo emjulgamento e demore de modo demasiado (exagerado) e injustificado (sem qualquer justa causa) para devolver à mesa do colegiado” (NUCCI, 2020, p. 45). Por fim, o art. 38 da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019) dispõe que: Art. 38. Antecipar o responsável pelas investigações, por meio de comunica- ção, inclusive rede social, atribuição de culpa, antes de concluídas as apura- ções e formalizada a acusação:260-261 Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Neste disposto, antecipar consiste em adiantar-se, comunicar-se com antecedência atribuindo culpa a alguém antes de terminadas as apurações e devidamente formalizadas as acusações. Em outras palavras, “adiantar a culpa de alguém, sem nem mesmo terminada a apuração ou formalizada a acusação, caracteriza-se o crime de abuso de autoridade (NUC- CI, 2020, p. 46). Passaremos a tratar sobre o procedimento da ação penal no âmbito da Lei de Abuso de Autoridade. 74UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas 4. DO PROCEDIMENTO Querido(a) aluno(a), encerraremos a nossa matéria da Lei de Abuso de Autoridade tratando de forma geral sobre sobre o procedimento da ação penal. Ao contrário da antiga Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 4.895/65) a nova Lei não apresenta um procedimento especial para os crimes nela previstos, pois adotar-se-á o procedimento comum da ação penal a depender da pena do crime, podendo ser: ● Procedimento ordinário (quando a pena máxima em abstrato do crime come- tido foi maior ou igual a 4 (quatro) anos; ● Sumário (quando a pena em abstrato foi superior a 2 (dois) anos e inferior a 4 (quatro) anos; ● Sumaríssimo (procedimento adotado para o julgamento de menor potencial ofensivo, ou seja, quaisquer contravenções penais ou crimes cuja penas máxi- mas em abstrato não ultrapasse 2 anos). Vejamos o art. 3º da Lei de Abuso de Autoridade (BRASIL, 2019): Art. 3º. Os crimes previstos nesta Lei são de ação penal pública incondicio- nada. §1º. Será admitida ação privada se a ação penal pública não for intentada no prazo legal, cabendo ao Ministério Público aditar a queixa, repudiá-la e ofere- cer denúncia substitutiva, intervir em todos os termos do processo, fornecer elementos de prova, interpor recurso e, a todo tempo, no caso de negligência do querelante, retomar a ação como parte principal. §2º. A ação privada subsidiária será exercida no prazo de 6 (seis) meses, contado da data em que se esgotar o prazo para oferecimento da denúncia”. 75UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Nesse sentido (CAPEZ, 2020, p. 145) ensina que: A ação privada subsidiária será exercida no prazo de seis meses, contado da data em que se esgotar o prazo para oferecimento da denúncia (NUCCI, 2020, p. 145). O procedimento se inicia com a denúncia do réu ou com a queixa crime. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identifi- cá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas. Após oferecida a denúncia (Ação Penal Pública) ou com a queixa crime (Ação Penal Privada), o recebimento da denúncia se dará apenas se a peça inicial cumprir os requisitos previstos no art. 41 do Código de Processo Penal (indícios de autoria e materialidade). Recebida a denúncia ou queixa, o réu será citado no mesmo despacho em que o juiz realiza e comunica o recebimento. Após citado, o réu terá um prazo de 10 dias para apresentar defesa/resposta à acusação, trata-se do momento oportuno para a defesa apre- sentar todas as teses pertinentes para a sua defesa. O acusado poderá arrolar suas testemunhas. O processo volta para a conclusão para que o juiz aprecie os pedidos podendo ocorrer uma das hipóteses diferentes: ● Diante do novo juízo de admissibilidade, com uma nova cognição poderá rejeitar a denúncia (art. 395 do Código de Processo Penal); ● Determinar a absolvição sumária do réu (art. 397 do Código de Processo Penal); ● Designar a data de audiência de instrução e julgamento (art. 399 do Código de Processo Penal). A audiência deverá ocorrer no prazo de 60 (sessenta) dias e, em regra, haverá uma única audiência. Por expressa previsão legal, os crimes previstos nesta lei são de ação pública incondicionada, que consiste na não subordinação de qualquer requisito (manifestação do ofendido ou de qualquer outra pessoa) para ser iniciada. Conforme visto, os procedimentos irão variar conforme a pena abstrata de cada crime previsto na lei. O procedimento sumário ocorrerá da mesma forma que o ordinário, respeitando as mesmas regras processuais, com exceção do prazo para a realização da audiência que deverá ocorrer em 30 dias e não em 60 dias como no procedimento ordinário. Já o procedimento sumaríssimo, é adotado para o julgamento de infrações penais de menor potencial ofensivo, ou seja, quando a pena não ultrapassar 2 anos, a competência para o julgamento destes crimes é o Juizado Especial Criminal (JECRIM). De acordo com (FERRARI, 2016, online): 76UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas Suas diferenças com outros procedimentos desde antes do surgimento da ação penal, pois se o sujeito for preso em flagrante será lavrado um termo circunstanciado, ou se logo após o crime comparecer imediatamente ao jui- zado e assinar termo de compromisso informando que irá comparecer em audiência em data e local marcados, e este não será imposta prisão nem se exigirá fiança. Na primeira audiência, haverá inicialmente uma tentativa de conciliação que poderá ser das duas formas: ● Composição civil: quando a vítima e o acusado alcançam um acordo para reparar o dano causado; ● Transação penal: o acordo feito entre o acusado e o Ministério Público onde se estabelece alguma pena alternativa e se o acusado cumprir o acordo o Ministé- rio Público deixará de propor a ação penal. Na hipótese da audiência restar infrutífera, será oferecida a denúncia de forma oral. Após oferecida a denúncia será designada a audiência de instrução e julgamento. De acordo com (FERRARI, 2016, online): Nesta audiência unda a defesa oferecerá sua defesa prévia, neste momento o juiz apreciará a defesa, caso rejeite caberá recurso de apelação em 10 dias, se aceita, haverá a oitiva das testemunhas, interrogatório, debates orais (20 minutos prorrogáveis por mais 10), neste procedimento não há previsão legal para substituição dos debates por memoriais. Encerrada a audiência o juiz proferirá a sentença, podendo ser recorrível por meio de recurso de apelação, no prazo de 10 (dez) dias, ou poderão ser oferecidos Embargos de Declaração no prazo de 5 (cinco) dias (FERRARI, 2016, online). 77UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), nesta última unidade concluímos os nossos estudos sobre a Lei de Abuso de Autoridade. Aprendemos ao longo dos nossos estudos, sobre a nova lei de Abuso de Autori- dade, que foi criada com o escopo de definir os crimes de abuso de autoridade, cometidos por agente público, servidor ou não, que no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las, abuse do poder que lhe tenha sido atribuído. No tópico I, abordamos os aspectos gerais da Lei de Abuso de Autoridade, bem como trouxemos para você aluno(a) os ilícitos e sanções disciplinados no artigo 9º ao 15 da mencionada da Lei. No tópico II, vimos sobre os crimes e penas dispostos no artigo 16 ao 25 da Lei de Abuso de Abuso de Autoridade, bem como apresentamos de forma detalhada os requisitos necessários para que uma conduta seja tipificada como crime. Ainda neste tópico aborda- mos os principais direitos do preso protegidos por esta legislação e por outros dispositivos legais como a Constituição Federal e a Lei de Execução Penal. No tópico III do nosso material continuamosa análise sobre as condutas que caracterizam crime previstas na Lei de Abuso de Autoridade. Vimos que não se pune o agente público quando não tiver agido com a finalidade específica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou terceiro, ou atuar por capricho ou satisfação pessoal. Por fim, encerraremos o estudo da nossa quarta unidade tratando sobre o procedi- mento da ação penal para o julgamento de crimes previstos na Lei de Abuso de Autoridade de forma detalhada. Vimos que o procedimento a ser adotado irá variar de acordo com a pena abstrata de cada crime. Ademais, analisamos as peculiaridades da ação penal no âmbito da Lei do Abuso de Autoridade. Muito(a) obrigado(a)! 78UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Nova Lei do Abuso de Autoridade. Autores: Igor Pereira Pinheiro, André Clark Nunes Cavalcante e Emerson Castelo Branco. . Ano de Edição: 1ª Edição. Editora: JHMIZUNO. Sinopse: O livro Nova Lei do Abuso de Autoridade traz informa- ções sobre a lei 13.869, de 2019 que entrou em vigor em janeiro de 2020 e desde então tem sido questionada em relação à legalidade. Após a notoriedade da “Operação Lava Jato”, juristas verificaram um movimento por parte de políticos, muitas vezes investigados, para enfraquecer o mecanismo de enfrentamento contra a corrup- ção. O livro é dividido em duas partes: a primeira parte tem uma análise sobre os trechos inconstitucionais que favorecem somente a perpetuação da corrupção e crime organizado. A segunda parte tem os comentários dos autores abordando os aspectos materiais e processuais. A obra proporciona uma discussão sobre o assunto e ambiciona incitar uma atmosfera em que as punições a autorida- des que abusam do poder sejam realizadas, mas sem prejudicar o combate à corrupção e ao crime organizado ou limitar o trabalho do poder Judiciário e Ministério Público. FILME / VÍDEO Título: Inimigo do Estado - Filme Ano: 1998. Sinopse: Robert Clayton Dean, um advogado bem-sucedido em Washington, recebe um vídeo que mostra a ligação entre um oficial do alto escalão da Agência Nacional de Segurança a um assassinato político. A partir daí, Dean se transforma em um alvo constante para a mais perigosa e treinada equipe do governo. Utilizando todos os meios para arruinar sua carreira e conseguir o vídeo de volta, a equipe inicia uma caçada sem tréguas. Dean terá de lutar para salvar sua vida e provar sua inocência. 79UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas REFERÊNCIAS ACHE, André. Sanções Administrativas. Caderno de Logística. 2015. Versão 1.0. Disponível em: https://www.gov.br/compras/pt-br/centrais-de-conteudo/cadernos-de-logistica/midia/ caderno-de-logistica-de-sancao-2.pdf. Acesso em: 30 ago. 2021. ADMINISTRAÇÃO Pública. Enciclopédia Jurídica da PUCSP, 2020. Disponível em: https:// enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/411/edicao-1/administracao-publica. Acesso em: 05 nov. 2021. ANDREUCCI, Ricardo Antonio. As penas restritivas de direito na nova lei de abuso de au- toridade. São Paulo, 24 de outubro de 2019. Disponível em: https://emporiododireito.com. br/leitura/as-penas-restritivas-de-direitos-na-nova-lei-de-abuso-de-autoridade. Acesso em: 29 ago. 2021. ANDREUCCI, Ricardo Antonio. O crime de interrogatório policial durante o período de repouso noturno. Disponível em: https://emporiododireito.com.br/leitura/as-penas-restriti- vas-de-direitos-na-nova-lei-de-abuso-de-autoridade. Acesso em: 05 set. 2021. AVENA, Norberto, Processo Penal, 11.ed. São Paulo: Método, 2019. BECHARA, Fábio Ramazzini; AURÉLIO FLORÊNCIO, Marco. Abuso de Autoridade-Refle- xões sobre a Lei 13.869/2019. Editora Almedina, 2020. 9786556270920. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786556270920/. Acesso em: 2021 ago. 26. BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal 5 - crimes contra a Administração Pública e crimes praticados por prefeitos. Editora Saraiva, 2020. Disponívelem:https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553617081/. Acesso em: 15 ago. 2021. BRASIL, Lei nº 8.112 de 11 de Novembro de 1990. Dispõe sobre o regime jurídico dos servi- dores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais. 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Dispõe sobre os crimes de abuso de autoridade; altera a Lei nº 7.960, de 21 de dezembro de 1989, a Lei nº 9.296, de 24 de julho de 1996, a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e a Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994; e revoga a Lei nº 4.898, de 9 de dezembro de 1965, e dispositivos do Decreto-Lei nº 2.845, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2019/lei/L13869.htm. Acesso em: 08 de set. de 2021. BRASIL. Lei nº 14.133 de 1 de abril de 2021. Lei de Licitações e Contratos Administrativos. Brasília, 10 de junho de 2021. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2021/lei/L14133.htm. Acesso em: 05 nov. 2021. BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1996.Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, 13 de julho de 1990. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 13 nov. 2021. BRASIL. Lei nº 9.296 de 24 de Julho de 1996. 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Acesso em: 22 ago. 2021. 85 CONCLUSÃO GERAL Prezado(a) aluno(a), Neste material buscamos trazer para você as principais características presentes na Lei de Abuso de Autoridade, para que você, aluno (a) compreenda as nuances principais da Lei nº 13.869/19, enfatizando as características principais do tipo penal, os bens jurídicos tutelados, demais previsões e implicações no cotidiano. Para tanto, abordamos de forma abrangente, a tutela penal da Administração Públi- ca, o conceito geral sobre os agentes públicos, as definições teóricas do crime de abuso de autoridade, analisando e identificando os sujeitos envolvidos e os bens jurídicos tutelados. Destacamos, também, a importância histórica da lei, e passamos a identificar minu- ciosamente quais são os efeitos da condenação dos agentes públicos que praticam o crime de abuso de autoridades, as penas restritivas de direito, as sanções de natureza cível e as sanções de natureza administrativa. Além dos aspectos teóricos que contribuíram profundamente para o entendimento dos assuntos aqui abordados, trouxemos vários exemplos, julgados para uma melhor com- preensão sobre as referidas sanções. Levantamos, ainda, aspectos gerais e a análise dos crimes previstos nos arts. 9º ao 38 da Lei de abuso de Autoridade. Posteriormente, nos aprofundamos sobre o procedi- mento penal, ou seja, qual o “rito” adotado para o julgamento dos crimes previstos na lei de abuso de autoridade. Com isso, aprendemos que não existe um rito especial na nova Lei como era antigamente, pois será adotado o procedimento previsto no Código de Processo Penal a depender da pena abstrata de cada crime. A partir de agora, acreditamos que você já está preparado para seguir em frente, desenvolvendo ainda mais seus conhecimentos no âmbito da segurança pública. Até uma próxima oportunidade. MuitoObrigado! +55 (44) 3045 9898 Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR www.unifatecie.edu.br UNIDADE I Da Legislação Penal Especial UNIDADE II Da Lei de Abuso de Autoridade UNIDADE III Da Lei de Abuso da Autoridade: Efeitos, Penas Restritivas de Direito e Sanções Cíveis e Administrativas UNIDADE IV Da Lei de Abuso de Autoridade: Dos Principais Crimes e das Penas