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A Ordem Monetária nos últimos 200 anos Com Fernando Ulrich MÓDULO 01 | AULA 02 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 03 O VALOR INTRÍNSECO DO DINHEIRO E O PADRÃO-OURO CLÁSSICO (1815–1914) 04 A DESORDEM MONETÁRIA PÓS-1914 07 09UMA TENTATIVA DE ESTABILIZAÇÃO COM O RETORNO AO PADRÃO-OURO 10O ERRO DE CHURCHILL EM 1925 11O BOOM AMERICANO E O CRASH DE 1929 12A ORDEM EXECUTIVA 6102 E A CRIMINALIZAÇÃO DO OURO 13O FIM DO PADRÃO-OURO E O AGRAVAMENTO DA DESORDEM MONETÁRIA 14A CONFERÊNCIA DE BRETTON WOODS E O NOVO ARRANJO MONETÁRIO 16A CRISE DE CONFIANÇA E O FIM DO SISTEMA DE BRETTON WOODS 18A CRISE FINANCEIRA DE 2008 E O ROMPIMENTO COM AS REGRAS ANTERIORES 3 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Meu nome é Fernando Ulrich e esta é a nossa aula sobre a ordem monetária nos últimos 200 anos. Para que possamos entender como o dinheiro evoluiu nesse período até chegarmos ao papel- -moeda conversível que utilizamos atualmente, é importante tra- çarmos um breve panorama da história monetária, especialmente ao longo dos dois últimos séculos. INTRODUÇÃO 4 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN O VALOR INTRÍNSECO DO DINHEIRO E O PADRÃO-OURO CLÁSSICO (1815–1914) Chegamos hoje a um ponto em que o nosso dinheiro é um pedaço de papel pintado, sem qualquer valor intrínseco, imposto pelos governos e pelos bancos centrais. Mas como foi que che- gamos a esse ponto? Para responder a essa pergunta, precisamos voltar ao chamado padrão-ouro clássico, que vigorou de 1815 até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Nesse arranjo monetário, moedas de ouro e de prata — espe- cialmente as de ouro — eram utilizadas como dinheiro. As pessoas tinham moedas em suas casas, carregavam-nas na carteira, em bolsas, e as utilizavam efetivamente nas trocas do dia a dia. Também existiam certificados de ouro, mas esses eram restituí- veis em ouro físico. As moedas nacionais desse período — como o dólar americano ou a libra esterlina, moeda da Inglaterra — eram apenas denominações de um peso específico de metal. Por exemplo, o dólar correspondia a um vinte avos de uma onça troy (equivalente a 31 gramas). Assim, o dólar não era um pedaço de papel, mas o nome dado a um vinte avos de uma onça de ouro. O mesmo valia para a libra esterlina e diversas outras moedas. Nesse regime monetário, a moeda global era o ouro. Não existia outro padrão. Todas as demais moedas eram referenciadas no ouro, mantendo uma relação fixa com o metal, já que o dólar, por 5 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN exemplo, sempre significava um vinte avos de 31 gramas de ouro. Isso fazia com que o câmbio entre moedas, como dólar e libra, fosse fixo — resultado direto de uma equivalência matemática e de uma referência comum ao metal precioso. Havia ampla liberdade de comércio e livre fluxo de capitais. É curioso observar que, nesse período, praticamente não existiam passaportes, o que permitia uma livre movimentação de pessoas. Além disso, os ajustes no balanço de pagamentos ocorriam de forma automática. Embora este seja um tema mais técnico, podemos resumir dizendo que, quando um país exportava demais e acumulava muito ouro, isso gerava um efeito compensatório: nos anos seguintes, esse mesmo país tenderia a importar mais. Assim, o que antes era um superávit na balança comercial — exportando mais do que importava — acabava se transformando em um déficit — importando mais do que exportava. Era um sistema que, em termos globais, se equilibrava de maneira automática, sem necessidade de intervenção de bancos centrais ou de governos. Aliás, muitos países ainda nem possuíam bancos centrais nesse período. A moeda era, essencialmente, livre e referenciada no ouro. Quando havia um nome para ela — como dólar ou libra —, tratava-se apenas de uma unidade de medida do próprio metal. Tratava-se, portanto, de uma moeda verdadeiramente global, sem interferência estatal e com fundamentos sólidos baseados no valor intrínseco do ouro. 6 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Era um regime que também impunha muita disciplina aos governos. Funcionava como uma espécie de camisa de força — no bom sentido — que impedia os governos de gastarem exces- sivamente. Caso quisessem aumentar seus gastos, precisavam recorrer ao mercado para emitir dívida ou aumentar a carga tri- butária sobre os cidadãos. Não havia a possibilidade de simples- mente emitir moeda sem respaldo. Esse foi um período de crescimento econômico robusto em diversas partes do mundo, marcado por uma grande estabilidade de preços. Diferente do que observamos hoje — com inflação constante e o dinheiro perdendo valor com o passar do tempo —, naquela época vivia-se uma relativa estabilidade monetária. O que um grama de ouro comprava por volta de 1850 era praticamente o mesmo que comprava às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Portanto, tratou-se de um longo período de estabilidade de preços, de taxas de câmbio, de investimentos e de crescimento econômico, com livre circulação de mercadorias, capitais e pes- soas. Era, de fato, um sistema monetário internacional coeso, sólido e funcional. 7 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A DESORDEM MONETÁRIA PÓS-1914 Entretanto, com a chegada da Primeira Guerra Mundial, esse sistema — essa ordem monetária — colapsou. Mas não por fragili- dades intrínsecas. O colapso ocorreu porque os governos, especial- mente os europeus, passaram a emitir grandes volumes de moeda para financiar os esforços de guerra. Inglaterra e demais países envolvidos no conflito já não dispunham de recursos suficientes para sustentar a mobilização militar. A libra esterlina, por exemplo, estava vinculada ao ouro. O governo britânico era obrigado a converter papel-moeda em metal caso o cidadão solicitasse. No entanto, como os governos precisavam emitir moeda em volumes muito maiores do que as reservas de ouro permitiam, ficava evidente que essa paridade não se susten- taria por muito tempo. Com o aumento da quantidade de papel-moeda em circulação, surgia o risco de perda total das reservas de ouro, caso a população exigisse o resgate em espécie. Diante disso, os governos tomaram uma decisão forçada pelas circunstâncias da guerra: aboliram a conversibilidade das moedas. A partir daquele momento, a libra já não era mais conversível em ouro. O mesmo ocorreu com o franco e outras moedas. Elas passaram a circular apenas pela força da lei — o chamado curso forçado — e não mais por sua relação com um metal precioso. 8 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Esse foi um momento de desintegração da ordem monetária. Passamos a ver taxas de câmbio flutuantes. O que 1 libra valia em relação ao dólar começou a mudar, assim como o valor da libra frente ao franco. Foi, portanto, um período de desordem mone- tária. Também houve uma restrição maior sobre mercadorias de capital. Começaram a surgir os primeiros controles de capitais e tarifas alfandegárias. Tudo isso teve início nesse período. Em algumas regiões, como foi o caso da Alemanha logo após a Pri- meira Guerra Mundial, vimos o fenômeno da hiperinflação, na cha- mada República de Weimar. Foi um período de completo caos, de desordem monetária e nenhuma disciplina real. 9 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN UMA TENTATIVA DE ESTABILIZAÇÃO COM O RETORNO AO PADRÃO-OURO Apesar disso, havia um consenso entre quase todos os econo- mistas da época, líderes mundiais e políticos: esse estado de coisas — a instabilidade financeira e monetária, a inflação desenfreada — não poderia durar. A forma de restaurar a estabilidade seria retornar ao padrão-ouro, isto é, à conversibilidade das moedas em ouro. Foi isso que os países tentaram fazer, a partir da década de 1920, com modelos diferentes para cada país — mas jamais nos mesmos moldes do século anterior. O padrão-ouro clássico havia ficado para trás. O que se tentou fazer depois foi apenas um vestígio de um passadocom muito mais estabilidade. O nome do sistema que vigorou de 1925 até 1931 foi o chamado padrão ouro-câmbio (Gold Exchange Standard), uma tentativa de restaurar alguma estabilidade, ainda que com muita interferência dos governos e com falhas intrínsecas ao sistema. Por exemplo, não havia uma conversibilidade plena: não era qualquer cidadão que podia trocar seu papel-moeda por ouro. A conversibilidade era limitada, geralmente entre países, não entre indivíduos. As moedas metálicas já circulavam bem menos; predominavam os papéis emitidos pelos bancos centrais. Alguns países tentaram adotar medidas que acabaram trazendo sérios problemas para a economia, especialmente naquela década de 1920. 10 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN O ERRO DE CHURCHILL EM 1925 Na Grã-Bretanha, por exemplo, quando Winston Churchill ainda não era Primeiro-Ministro, mas sim Ministro da Fazenda, tomou a decisão de retornar à mesma taxa de câmbio da libra do período anterior à guerra. Isso gerou um grande problema: forçar uma taxa de câmbio irreal, bastante sobrevalorizada. A moeda britânica havia perdido poder de compra. Voltar a uma taxa de câmbio antiga exigiria uma forte deflação de preços. Para usar um exemplo prático, seria como se hoje o governo brasileiro ou o Banco Central tentasse fazer o real, que vale cerca de R$5 por dólar, voltar da noite para o dia a valer R$1 por dólar. Isso causaria uma forte deflação e tornaria o país muito pouco competitivo no comércio internacional. Foi exatamente isso que Churchill fez em 1925. A medida gerou deflação no Reino Unido, desemprego, queda nas exportações e uma crise econômica. 11 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN O BOOM AMERICANO E O CRASH DE 1929 Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o cenário era oposto: vivia-se um período de expansão econômica, pujança e crédito abundante. Isso gerou o grande boom da bolsa americana, culminando no crash de 1929 — a quebra da bolsa americana em outubro daquele ano. Esse foi um período traumático na história econômica e mone- tária, marcando uma mudança de era. Nos anos seguintes, sobre- veio a Grande Depressão, episódio com reflexos profundos na Europa, na Ásia, no Brasil — e, evidentemente, também na ordem monetária internacional. 12 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A ORDEM EXECUTIVA 6102 E A CRIMINALIZAÇÃO DO OURO Foi justamente em 1933, no auge da Grande Depressão, que o presidente americano da época, Franklin Delano Roosevelt, tomou uma das medidas mais drásticas da história do dinheiro: ele crimi- nalizou a posse de ouro, prata e outros metais preciosos. No dia 5 de abril de 1933, Roosevelt emitiu a Ordem Executiva 6102, determinando que todo o ouro — em barras, moedas ou certi- ficados — em posse de cidadãos americanos deveria ser entregue ao governo em troca de papel-moeda emitido pelo banco central americano. Quem não cumprisse a ordem estaria sujeito a até dez anos de prisão ou multa de US$10.000, valor que, corrigido para 2025, seria equivalente a cerca de US$250.000. Foi a criminalização do ouro naquele momento histórico. 13 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN O FIM DO PADRÃO-OURO E O AGRAVAMENTO DA DESORDEM MONETÁRIA Com isso, o mundo ingressava, especialmente nos Estados Unidos, na abolição definitiva do padrão-ouro. Foi um período trau- mático para a ordem monetária internacional. A década de 1930 ficou marcada, assim como o período da Primeira Guerra Mun- dial, por uma nova desintegração do comércio global, aumento de tarifas alfandegárias, controles de capitais, inflação e taxas de câmbio flutuantes. Com o início da Segunda Guerra Mundial, esses problemas se intensificaram ainda mais. A inflação aumentou — agora também nos Estados Unidos, que participavam diretamente do conflito. Instalou-se um caos monetário generalizado, com moedas cada vez mais desvalorizadas. Ninguém sabia ao certo como restaurar a estabilidade. O padrão-ouro parecia definitivamente uma relíquia do passado. 14 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A CONFERÊNCIA DE BRETTON WOODS E O NOVO ARRANJO MONETÁRIO Até que, em 1944, já no final da Segunda Guerra Mundial, os países se reuniram em Bretton Woods, no estado de New Hamp- shire, nos Estados Unidos, na chamada Conferência de Bretton Woods. Essa foi a conferência que estabeleceu o novo arranjo monetário que vigoraria pelos quase 30 anos seguintes, colocando o dólar no centro do sistema. O dólar passou a ser a moeda prin- cipal, conversível em ouro à taxa de 35 dólares por onça troy, taxa esta que seria honrada pelo governo americano sempre que os países exigissem o resgate. Como funcionaria esse novo sistema? O dólar era o centro do arranjo. Os países acumulavam dólares como ativos de reserva e, quando quisessem, podiam resgatar ouro. Assim operava o sis- tema de Bretton Woods. Isso conferiu um enorme privilégio ao dólar, pois agora os Estados Unidos emitiam a moeda de reserva de todo o planeta. E já não havia mais padrão-ouro para o cidadão comum — a troca e restituição em ouro deixaram de existir para as pessoas físicas, em praticamente todos os países. O sistema funcionava apenas entre governos. Entretanto, o sistema tinha falhas intrínsecas que impediam sua longevidade. Ele acabava incentivando a inflação e a emissão de dólares, já que o mundo todo aceitava a moeda americana como 15 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN se fosse ouro. Esse mecanismo gerava incentivos para emitir cada vez mais dólares. Além disso, ao longo das décadas, os Estados Unidos utilizaram essa facilidade para financiar gastos públicos e várias guerras em que estiveram envolvidos. 16 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A CRISE DE CONFIANÇA E O FIM DO SISTEMA DE BRETTON WOODS Chegou um momento, por volta de 1968–1969, em que o mundo percebeu: havia dólares demais em circulação e aquela paridade de 35 dólares por onça troy já não era crível. Muitos países, como França, Alemanha e Inglaterra, decidiram resgatar seus dólares e pedir o ouro de volta, antecipando o colapso da conversibili- dade. Assim teve início um processo de resgate em massa, com os Estados Unidos perdendo reservas de ouro enquanto mais e mais países exigiam restituição. As reservas caíam rapidamente. Até que, no dia 15 de agosto de 1971, o então presidente ame- ricano Richard Nixon tomou uma atitude inesperada, surpreen- dendo o mundo ao anunciar, em rede nacional de televisão, a abolição da conversibilidade do dólar em ouro e em outros ativos de reserva. Ele decretava, ali, o fim do acordo de Bretton Woods. O mundo, pela primeira vez na história, entrava numa nova era monetária — um arranjo em que nenhuma moeda nacional tinha mais referência no ouro ou em qualquer outro metal precioso. Foi uma espécie de voo cego, em que o mundo passou a emitir moedas de papel sem qualquer conversibilidade e sem restri- ções à criação de dinheiro. Agora, bastava imprimir: escrevia-se 50 dólares, 10.000 dólares, ou qualquer valor arbitrário. Esse novo modelo deu enorme liberdade para os governos emitirem mais moeda, consolidando a era das moedas fiduciárias, sem lastro e 17 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN sem os freios impostos anteriormente pelo padrão-ouro. Então, esse foi o fim do acordo de Bretton Woods, cuja ruptura já dura mais de 50 anos. Desde então, o mundo vive em um cenário de instabilidade monetária, com taxas de câmbio flutuantes. As moedas passaram a flutuar entre si: o que o real vale hoje em relação ao dólar pode mudar amanhã ou no ano seguinte. E isso vale para todas as moedas. Esse arranjo monetário vigora desde 1971 — não porque foi dese- nhado assim, mas por conta de diversas interferências, de necessi- dades fiscais e das circunstâncias daquele momento. Hoje, temos o dinheiro de curso legal e, ao mesmo tempo, uma moeda que fun- ciona como padrão global — odólar — que pode ser emitido sem nenhum limite técnico. Essa é a ordem, ou melhor, a desordem monetária em que o mundo vive atualmente. Claro que esses 50 anos não foram um período de tranquilidade. Pelo contrário. A primeira década — os anos 1970 — foi marcada por forte inflação. Foi o início de um novo experimento monetário, em que os bancos centrais operavam no modo tentativa e erro. Como manter a estabilidade das moedas agora que não existe mais conversibilidade em ouro? O que é preciso fazer? Que polí- ticas adotar? Que ferramentas utilizar para preservar o valor do dinheiro? A primeira década desse novo arranjo foi um fracasso. Foi o período mais inflacionário da história global até então. Aos poucos, os bancos centrais foram conseguindo trazer algum controle e estabilidade, mas ainda assim muito aquém do que havia durante o padrão-ouro clássico, no final do século XIX e início do século XX. 18 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A CRISE FINANCEIRA DE 2008 E O ROMPIMENTO COM AS REGRAS ANTERIORES Até que chegamos a 2008, na grande crise financeira daquele ano, quando os bancos centrais adotaram medidas até então impensáveis. Se antes havia algum tipo de regra ou teoria que embasava as decisões dos banqueiros centrais — sobre quanto emitir de moeda, como definir taxas de juros (5%, 10% etc.) —, sempre havia um certo ordenamento jurídico, teórico e prático para a gestão monetária. Mas a partir da grande crise financeira de 2008, tudo isso parece ter evaporado diante das circunstâncias. Vários bancos estavam à beira do colapso. Havia uma quebradeira generalizada nos Estados Unidos, na Europa e em alguns países do Oriente Médio. Aquele momento levou os banqueiros centrais a inovarem e adotarem um novo experimento: imprimir muito mais moeda do que jamais havia sido feito. O que começou a acontecer, especialmente com o Federal Reserve (o Banco Central dos Estados Unidos), foi uma grande intervenção nos mercados. Eles passaram a comprar não apenas dívida pública americana, mas também hipotecas de famílias e outros ativos que antes estavam em posse dos bancos — tudo para tentar socorrer o sistema financeiro. Foi uma intervenção sem precedentes. Não havia teoria mone- tária ou econômica que a justificasse plenamente. Era o modo 19 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN desespero: o que fazer? O que fazer rápido para evitar o colapso da economia global? Assim, entrou-se em uma nova era do dinheiro, em que os bancos centrais passaram a ter muito mais liberdade, amparados pela gra- vidade da crise de 2008. Em um momento extremo e drástico, a justificativa era clara: “é uma crise, precisamos agir”. E começaram a imprimir muito mais moeda do que qualquer um poderia ima- ginar, seja um mês, seja um ano antes. E desde então, desde 2008, o mundo vive esse novo arranjo monetário, que já não contava com a conversibilidade do dólar em ouro, nem com a disciplina ou a restrição que o ouro trazia. A partir da crise financeira de 2008, surgiu um novo momento marcado por aquilo que os bancos centrais gostam de chamar de discricionariedade — um termo técnico que, na prática, signi- fica: “vou fazer o que eu quiser”. Dependendo das circunstâncias, da gravidade da situação, os bancos centrais passaram a adotar medidas conforme julgassem necessário. Isso significou, na prática, tanto para o Banco Central americano quanto para o da Europa, da Inglaterra e do Japão, imprimir moeda e desvalorizar as moedas nacionais para socorrer bancos, inflar preços de ativos e evitar um colapso maior da economia global. Mas é claro que isso teve reflexos no próprio dinheiro. Se eu imprimo moeda e ela se torna mais abundante, o dinheiro tende a valer menos. Até que chegamos finalmente à pandemia, em 2020. E aquela mesma política adotada em 2008 foi aplicada novamente — mas 20 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN de forma ainda mais intensa. Os bancos centrais imprimiram ainda mais moeda naquele ano. Só para dar uma noção da dimensão do que foi feito: em 2008, o Banco Central americano dobrou a quantidade de dinheiro em circulação em dois ou três meses. Já em 2020, na véspera da pan- demia, havia cerca de 4,5 trilhões de dólares em circulação. Com o início da pandemia, num cenário de grande incerteza, risco de queda da atividade econômica e possível deflação, os bancos cen- trais entraram novamente em modo de desespero. Em questão de dois ou três meses, imprimiram mais dois ou três trilhões de dólares — o equivalente a toda a economia do Brasil em um ano. Ou seja, criaram em dinheiro o equivalente à produção anual do país. Naturalmente, isso gerou uma forte desvalorização das moedas. E seguimos nesse arranjo monetário em que não há consenso sobre como reformá-lo ou torná-lo mais estável. Mas é o sistema sob o qual vivemos — sem alternativas concretas dentro do escopo dos governos, bancos centrais e até mesmo da ciência econômica, que muitas vezes defende essas medidas. Porém, em 2008, no auge da grande crise financeira, uma alter- nativa estava surgindo. Portanto, toda essa história do dinheiro, da evolução monetária nos últimos dois séculos, e de como a economia foi se transfor- mando, é importante para contextualizar o momento em que o Bitcoin foi criado e anunciado ao mundo — justamente no meio da crise de 2008. E é isso que vamos ver na nossa próxima aula.